607 AEC ou 587 AEC?

2 

O Que os Documentos Realmente Mostram?

 

A – Os Históriadores Clássicos e Ptolomeu

O primeiro parágrafo da página 29 diz: 

Mesmo para quem tem conhecimento básico de cronologia neobabilônica, chega a ser incrível esta afirmação. Transmite-se a impressão de que as autoridades em história antiga se baseiam unicamente nestas duas fontes para estabelecer 587 AEC como o ano da destruição de Jerusalém! [6]  

É interessante que no quadro ao pé da página 28, o artigo de A Sentinela menciona documentação histórica e astronômica em apoio da data 539 AEC para o primeiro ano de Ciro. Mas os leitores não são informados de que a data 587 AEC tem muito mais evidência astronômica em favor dela do que a data 539 AEC. Tudo o que os historiadores clássicos e Ptolomeu fazem é simplesmente confirmar aquilo que é estabelecido pela documentação astronômica. 

Mas o problema aqui não é só a omissão de informações. Nesse trecho, o artigo cai numa incoerência flagrante. Como assim? Consideremos o que diz esse mesmo quadro da página 28 (o sublinhado é nosso): 

O artigo da Sentinela admite que a tabuinha cuneiforme astronômica usada para dar apoio à data 539 AEC contém erros e, no entanto, ela é aceita sem qualquer problema. Mas o que é que o escritor da Sentinela faz no caso das informações dos historiadores clássicos e do Cânon de Ptolomeu? Passa o resto do artigo (páginas 29-31) tentando desacreditar a data que eles estabelecem, exatamente pelo mesmo motivo, ou seja, por existirem erros neles! Se a existência de erros nos historiadores clássicos e no Cânon de Ptolomeu constitui razão para rejeitarmos a data 587 AEC, por que, então, a data 539 AEC é aceita, se as fontes históricas que a confirmam contém erros do mesmo tipo? 

Esta incoerência é na verdade parte duma manobra de despistamento muito habilidosa. Enquanto a atenção dos leitores é totalmente concentrada na existência de erros nos historiadores clássicos e em Ptolomeu, a Sentinela não os informa de que estas fontes são totalmente dispensáveis. A evidência na documentação astronômica em apoio da data 587 AEC é tão forte, que não haveria a mínima necessidade de se recorrer a outros escritos para estabelecê-la. Nenhum historiador de hoje precisa realmente dessas fontes para estabelecer a cronologia neobabilônica. É isso que torna tão absurda a declaração de que ‘as autoridades se baseiam nos escritores clássicos e no Cânon de Ptolomeu para defender 587 AEC’. 

Ninguém duvida que qualquer fonte histórica está sujeita a erros e omissões. Seria uma infantilidade afirmar o contrário. Como vimos acima, a revista A Sentinela cita favoravelmente uma dessas fontes, mas é obrigada a admitir que ela também ‘contém erros’. Mas, como foi que o escritor dessa Sentinela soube que existem erros em todas essas fontes históricas, tanto nas aceitas como nas rejeitadas pela Torre de Vigia? A resposta a isso é fácil: Não foram os eruditos da Torre de Vigia que os descobriram. Eles souberam da existência deles porque os próprios historiadores modernos identificaram esses erros e publicaram suas descobertas! 

Ainda assim, nenhum historiador moderno afirma que as datas estabelecidas astronomicamente estão erradas pelo fato de existirem esses problemas nas fontes históricas que as corroboram. Embora um leitor Testemunha de Jeová que tenha pouco entendimento do assunto em discussão possa ficar impressionado com a maciça quantidade de informações nessas Sentinelas, o erro grave seria ele perder de vista a verdadeira questão. A longa discussão presente nas páginas 29 a 31 da Sentinela contém muita informação, mas toda essa informação é inútil para apoiar o argumento da revista. Encontrar erros nas fontes históricas é fácil, e o artigo poderia até gastar muito mais páginas falando disso. Embora os eruditos admitam francamente que há erros nessas fontes históricas, nem por isso encontramos algum deles dizendo que a data 587 AEC está errada, ou mesmo sujeita a dúvida. É por isso que, depois de todo o palavreado, o artigo não tem como evitar esse fato simples, admitido no “breve resumo” do quadro da página 31: 

Os escritores da Torre de Vigia são incapazes de encontrar um único historiador credenciado e imparcial que discorde disso, para poder citá-lo na Sentinela. 

O tópico concludente do artigo da revista de outubro começa dizendo: 

Outro despistamento. Por que “a maioria dos eruditos concorda que em 537 AEC os judeus exilados já haviam voltado para sua terra natal”? A resposta é simples: Eles nunca discordaram disso. Esta não é – e nunca foi – a questão! Todos sabem que no ano de 537 AEC os judeus regressantes já se encontravam realmente na Palestina. 

O que a revista precisaria ter provado, e não provou é: 

·        que o exílio judaico em Babilônia durou 70 anos;

·        que a data 537 AEC é o ano final do período de 70 anos de domínio babilônico mencionado em Jeremias 25:12;

·        que a destruição de Jerusalém ocorreu em 607 AEC. 

A Bíblia não diz “claramente” nenhuma dessas três coisas. As “fortes evidências” em apoio dessas idéias não existem. E o escritor da revista não pôde citar um único erudito que concorde com elas. 

Por fim, o artigo pergunta: 

 

Este trecho admite que: 

(1) Apesar de toda essa “base na Bíblia” para o cálculo da data 607 AEC, há necessidade da evidência histórica para prová-la. 

(2) Por mais que haja erros nas fontes históricas consideradas (apontados pelos eruditos), esses erros não servem para apoiar 607 AEC. 

Declarado de modo simples, o parágrafo admitiu que o primeiro artigo não provou nada, daí a necessidade do próximo artigo. Consideraremos essa matéria a partir de agora. 

B – “Neutralizando” as crônicas babilônicas e as tabuinhas econômicas (ou comerciais) 

Dando continuidade à depreciação das fontes históricas que teve início no primeiro artigo, as primeiras duas páginas e meia do artigo de A Sentinela de 1º de novembro prosseguem recorrendo ao expediente de fazer as citações de declarações de eruditos, desta vez sobre as crônicas babilônicas e as tabuinhas econômicas (ou comerciais).  

Não comentaremos neste momento o que a Sentinela diz sobre essas declarações (isto é feito na próxima parte). Frisamos o fato de que, por mais que os historiadores apontem problemas (que existem realmente) nessas fontes históricas, o exame das citações mostra que nenhum deles menciona a data 587 AEC, ou afirma que essa data está errada e que a data 607 AEC é que é a correta para a destruição de Jerusalém. A ausência de apoio para a data 607 AEC por parte da comunidade erudita é tão completa, que não há como o escritor de A Sentinela fugir dos dois fatos que seguem. Na página 22 aparece de novo a mesma admissão que havia aparecido no número de outubro: 

E, provavelmente para evitar problemas com os eruditos que estão vivos, o escritor da Sentinela toma o cuidado de acrescentar a seguinte informação na página 23 (num asterisco):

A questão que qualquer Testemunha de Jeová ou leitor desta matéria poderia levantar é: ‘Ora, se “os historiadores seculares dizem que Jerusalém foi destruída em 587 AEC” e se “nenhum dos eruditos citados defende que Jerusalém foi destruída em 607 AEC”, então por que a revista A Sentinela faz tantas citações desses eruditos?’ 

A resposta é: Os historiadores e eruditos são usados pelo escritor para transmitir aos leitores uma impressão falsa.  Não é que as citações sejam fraudulentas. Todas as declarações citadas foram realmente feitas por essas pessoas. O que é errada é a maneira como as palavras deles são usadas. Os problemas são os seguintes: 

1) No caso dos eruditos vivos, nenhuma dessas declarações foi colhida numa entrevista pessoal com eles. O que o escritor da revista A Sentinela fez foi selecionar arbitrariamente certas frases dispersas em matérias escritas por eles (em livros ou outras publicações). 

2) Estas frases selecionadas foram tiradas do contexto. Em nenhum caso o erudito estava falando sobre 587 AEC, ou dizendo que esta data é errada ou duvidosa. Nenhum erudito (vivo ou falecido) citado pela revista A Sentinela sugere que as fontes históricas são indignas de crédito pelo fato de existirem certos erros nelas. Eles apontam os erros, sim, mas não afirmam que as datas indicadas nessas fontes (tais como 587 AEC) estão erradas e devem ser rejeitadas. 

3) E este é o problema mais grave de todos: O escritor de A Sentinela coloca essas declarações dos eruditos lado a lado com conclusões de sua própria autoria, para induzir o público a pensar que os eruditos estão de acordo com essas conclusões. 

Típico disso é o exemplo que segue. Depois das duas páginas e meia tentando anular a credibilidade das crônicas babilônicas e das tabuinhas econômicas (usando declarações dos historiadores para isso), o artigo da Sentinela apresenta a seguinte conclusão na página 24: 

 

Parágrafo

Asterisco

É claro que o escritor da revista não pôde citar um único erudito que concorde com uma só palavra do que está escrito no parágrafo. Embora vários historiadores tenham sido citados, nenhum deles afirmou 

que “as lacunas na história registrada pelas crônicas babilônicas indicam que talvez não tenhamos um registro cronológico contínuo”, 

que outros “poderiam ter governado entre o reinado desses reis”, 

que “seria necessário acrescentar anos ao período neobabilônico”, 

que “nem as crônicas babilônicas nem as tabuinhas econômicas fornecem uma base para se determinar com certeza que Jerusalém foi destruída em 587 AEC”.

Todas estas frases são conclusões do escritor da Sentinela. Qualquer erudito apontaria imediatamente que o asterisco referido no parágrafo é suficiente para contradizer tudo o que está escrito nele. 

Enquanto o parágrafo diz taxativamente que as tabuinhas econômicas ‘não fornecem uma base para determinar com certeza que Jerusalém foi destruída em 587 AEC’, o asterisco vai na contramão, admitindo que a evidência histórica está presente nas tabuinhas, e aponta justamente para 587 AEC como o ano da destruição de Jerusalém! Só que, segundo o escritor, “esse método de datação só é válido se cada rei sucedeu ao próximo imediatamente, sem que outros tenham governado entre eles.” Declarado de modo simples, o escritor acha que uma possibilidade (“se”), é motivo válido para rejeitarmos a conclusão indicada pela evidência! O detalhe é que ninguém jamais conseguiu encontrar qualquer sinal desses reis desconhecidos. A revista não pôde apresentar nenhum, e nem citar pelo menos um erudito que tenha mencionado a hipótese de esses reis terem existido. Pelo contrário, alguns eruditos já descartaram essa possibilidade (e os escritores da Torre de Vigia sabem disso). [7]

Sem qualquer exagero na comparação, as Testemunhas de Jeová e outros pesquisadores que se lembram do conteúdo do “Apêndice ao Capítulo 14”, do livro Venha o Teu Reino (de 1981), não poderão deixar de ver um paralelo entre o que disse o parágrafo acima e um dos argumentos que foi apresentado naquele Apêndice. O livro dizia na página 187: 

A única evidência contra o ano 587 AEC e a favor de 607 AEC que o autor desse Apêndice soube apresentar na época foi “matéria ainda a ser descoberta”. Ele sabia que toda a evidência documental e astronômica já descoberta pelos historiadores aponta para a conclusão de que Jerusalém foi destruída em 587 AEC, mas nós deveríamos rejeitar essa data assim mesmo, e acreditar que foi em 607 AEC, por causa de alguma evidência ‘ainda não descoberta’ pelos historiadores. 

Trinta anos depois, vemos a revista A Sentinela adotando um procedimento semelhante. Em essência, o escritor do artigo está nos dizendo que a conclusão dele, baseada nas possibilidades não confirmadas (“talvez” / “poderia” / “seria” / “se”) é mais digna de crédito do que a conclusão dos historiadores, baseada nas evidências existentes nos documentos! Incluir esse estranho raciocínio entre as respostas a questões eruditas “com base na Bíblia e em pesquisa meticulosa” não passa duma afronta à Bíblia e à inteligência dos leitores (eruditos ou não). O desejo de acreditar naquilo que “poderia ser” nunca deveria levar alguém a se recusar a aceitar o que “é” ou “foi”, e ainda induzir outros a fazer o mesmo. Esses “argumentos” expressos na Sentinela e no livro Venha o Teu Reino nada mais são que manobras desesperadas para se esquivar da evidência e, desta maneira, resistir à verdade. Os autores destas publicações têm plena consciência de que a História é o registro do que aconteceu, e não do que poderia ter acontecido. 

C – A “releitura” da tabuinha VAT 4956

Da segunda coluna da página 24 em diante, a Sentinela de novembro/2011 dá início à consideração sobre as tabuinhas astronômicas. Inicialmente o artigo segue o mesmo estilo usado na consideração das evidências anteriores: usa declarações selecionadas de eruditos com o fim de lançar dúvidas sobre a credibilidade das informações presentes nas tabuinhas. 

Antes de começarmos a análise do que A Sentinela disse sobre a VAT 4956, recordemos o que dizia o livro Venha o Teu Reino a respeito dela. Nas páginas 186 e 187, aparecia a seguinte declaração: 

O escritor desse livro rejeitava completamente essa evidência comprobatória do ano 568 AEC como sendo o 37º ano de Nabucodonosor, alegando que a tabuinha nada mais é que uma cópia forjada, que não representa a realidade histórica, e sim nada mais do que a opinião de quem a copiou. Isso era tudo o que as publicações da Torre de Vigia diziam, e os líderes da organização se recusavam terminantemente a discutir esse assunto. 

Mas, na revista A Sentinela de 1º de novembro de 2011 houve uma mudança nesse discurso oficial. Como a VAT 4956 tornou-se cada vez mais conhecida por um crescente número de Testemunhas de Jeová ao longo dos anos, e por outras razões, a organização finalmente abandonou sua insustentável teoria sobre “cópia forjada” e pela primeira vez uma publicação da Torre de Vigia aceitou a tabuinha como válida para estabelecer a cronologia neobabilônica, aceitando também que os eventos astronômicos descritos lá ocorreram no 37º ano de Nabucodonosor II. Mas, será que eles aceitaram também que esse 37º ano de Nabucodonosor II foi o ano de 568 AEC? 

De maneira alguma. O parágrafo inicial da página 25 de A Sentinela diz: 

 

Desse ponto em diante, até o fim do artigo, A Sentinela se põe a questionar a data estabelecida pelos eruditos. Três argumentos são apresentados. Analisaremos os três, na ordem em que são apresentados na revista: 

C-1: O Eclipse Lunar 

 

A “linha do tempo” referida aí é este esquema que aparece na parte inferior da página 25: 

 

A primeira coisa a dizer é que normalmente a VAT 4956, assim como muitas outras tabuinhas astronômicas, não se limita apenas a relatar a ocorrência de eclipses. Geralmente os astrólogos que registravam essas tabuinhas incluíam também descrições de eventos astronômicos e/ou terrestres, associados ao eclipse. O que o escritor da Sentinela não esclarece no parágrafo é se esse eclipse de 588 AEC (que ele prefere) está mais de acordo com a descrição na tabuinha do que o eclipse de 568 AEC (o indicado pelos eruditos). Ele se limita a dizer que ocorreu um eclipse em cada um desses anos. Como dificilmente as Testemunhas de Jeová farão essa comparação entre os eclipses, não vamos entrar aqui nesse mérito. Assumiremos, por enquanto, que ambos os eclipses poderiam ser os mencionados na VAT 4956 (embora saibamos que este não é o caso). 

Outra coisa que o parágrafo não esclarece aos leitores é que eclipses não são fenômenos que só ocorrem de 20 em 20 anos. Eles ocorrem com muito mais freqüência (às vezes ocorrem vários eclipses lunares num mesmo ano), como qualquer pessoa pode ver consultando uma tabela de eclipses lunares ao longo da história (e existem várias delas, disponíveis inclusive na internet). Assim como o escritor de A Sentinela mencionou o eclipse de 588 AEC, ele poderia ter mencionado uma longa série de eclipses ocorridos em todos os anos do reinado de Nabucodonosor. O fato de ele rejeitar o eclipse de 568 AEC e apontar justamente o eclipse de 588 AEC como sendo aquele ao qual a VAT 4956 se refere é bem compreensível: ele precisa defender a idéia de que este ano de 588 AEC é que foi o 37º ano de Nabucodonosor, para fazer o décimo oitavo ano de Nabucodonosor cair em 607 AEC (“o ano que a cronologia bíblica indica para a destruição de Jerusalém”, segundo ele). É bem evidente a intenção de “adaptar” a tabuinha VAT 4956 à idéia defendida na revista. 

Em vez de ficar discutindo intenções, trataremos dum detalhe muito mais importante, ao qual o escritor não fez a mínima referência, nem no parágrafo e nem nesse esquema que ele montou, reproduzido acima. Esta questão relaciona-se à natureza duma cronologia histórica. Os aspectos básicos deste assunto são simples, mas às vezes vemos até algumas Testemunhas de Jeová que têm boa formação cultural com certa dificuldade de entender isso. 

Em seus relatos sobre fatos históricos, a Bíblia não apresenta a informação sempre da mesma maneira. Por exemplo, no livro de Daniel, capítulo 5, versículos 30 e 31, encontramos as seguintes palavras: 

“Naquela mesma noite Belsazar, o rei dos caldeus, foi morto. E Dario, o medo, recebeu o reino, tendo cerca de sessenta e dois anos de idade.” (Almeida Revisada, Imprensa Bíblica)

A única informação que o profeta Daniel nos dá aqui é a idade que Dario tinha quando assumiu o reino em Babilônia, no lugar do rei que foi morto. Para sabermos em que ano ele tinha 62 anos, teríamos de procurar alguma evidência histórica que nos informe em que ano ele nasceu. Pode ter sido em qualquer ano. Por quê? Porque a data de nascimento e a idade duma pessoa são informações que estão relacionadas unicamente a essa pessoa. Do ponto de vista cronológico, estas informações não têm, a princípio, conexão com outras pessoas ou com outros eventos. 

De modo que, às vezes, a Bíblia associa eventos históricos com idades de pessoas. No caso do rei Nabucodonosor, a Bíblia poderia ter dado a informação dessa mesma maneira. Suponhamos que a Bíblia tivesse dito o seguinte: 

‘No décimo dia do quinto mês, tendo Nabucodonosor, rei da Babilônia, 19 anos de idade, Nebuzaradã, comandante da guarda imperial, que servia o rei da Babilônia, veio a Jerusalém. Ele incendiou o templo do Senhor, o palácio real e todas as casas de Jerusalém. Todo o edifício importante foi incendiado por ele.’

Se a Bíblia apresentasse esta informação, o procedimento que teríamos de seguir para descobrir em que ano ocorreu esse incêndio de Jerusalém seria o mesmo: Teríamos de procurar alguma evidência histórica que nos permitisse saber em que ano o rei Nabucodonosor nasceu. Com esta informação em mãos, saberíamos automaticamente qual foi o ano da destruição de Jerusalém, já que o registro acima inclui o detalhe de que o rei Nabucodonosor tinha 19 anos de idade na ocasião. E, naturalmente, a data de nascimento dele poderia ter sido em qualquer ano, já que esta informação só se refere a ele, e a mais ninguém na história. 

Acontece que não é assim que a Bíblia dá a informação neste caso. O que citamos acima são as palavras de Jeremias 52:12, 13. Mas a citação não está inteiramente correta. O que Jeremias realmente disse foi: 

“No décimo dia do quinto mês, no décimo nono ano de Nabucodonosor, rei da Babilônia, Nebuzaradã, comandante da guarda imperial, que servia o rei da Babilônia, veio a Jerusalém. Ele incendiou o templo do Senhor, o palácio real e todas as casas de Jerusalém. Todo o edifício importante foi incendiado por ele.” (Nova Versão Internacional) 

O profeta Jeremias não disse que Nabucodonosor tinha 19 anos de idade. Ele disse que estes eventos ocorreram quando ele estava em seu décimo nono ano de governo. E isso faz o assunto mudar completamente de figura. Por quê? Porque, diferente da data de nascimento, o ano de início do governo de um rei não é o tipo de informação que se refere só a ele e a ninguém mais. Este dado está embutido dentro de uma cronologia histórica. 

Se Nabucodonosor estava no décimo nono ano de governo quando o general dele destruiu Jerusalém, logicamente Nabucodonosor tinha sido entronizado exatamente 19 anos antes disso. E este momento, 19 anos antes, tinha sido também a ocasião da morte e do fim do governo do pai dele (Nabopolassar), que era o rei anterior. E como a história nos informa que Nabucodonosor reinou durante 43 anos, então o reinado do filho dele (Evil-Merodaque) começou exatamente 43 anos depois do ano em que Nabucodonosor foi entronizado. E assim sucessivamente, seja no caso dos muitos reis anteriores a Nabucodonosor, seja no caso de todos os que o sucederam como rei. Uma data de nascimento de um rei poderia ser em qualquer ano, já que este dado está associado unicamente a este rei. Já a data em que um rei foi entronizado não tem relação só com esse rei. Matematicamente, isso tem relação direta com uma infinidade de outros fatos históricos. 

E isso significa também o seguinte: Nenhum erudito ou historiador pode mudar a data de início do governo de um rei segundo sua própria preferência e vontade. Pois o erudito sabe que se fizer isso, será obrigado a mudar também as datas do início do reinado de todos os outros reis que governaram antes e depois desse rei.  

O escritor da revista A Sentinela não disse uma palavra sobre este problema aos leitores. Nos parágrafos da Sentinela que falam sobre a VAT 4956, ele insiste que essa tabuinha astronômica aponta “com mais certeza” para o ano 588 AEC como sendo o 37º ano de Nabucodonosor e afirma que este é o ano correto. Isso significa que, segundo ele, Nabucodonosor foi entronizado 37 anos antes de 588 AEC, ou seja, no ano 625 AEC. Mas o escritor da revista sabe que esta não é a data histórica da entronização de Nabucodonosor. (Historicamente, Nabucodonosor II se tornou rei em 605 AEC, não em 625 AEC.) 

Ele também tem plena consciência de que um dado cronológico desse tipo não pode ser tratado de maneira isolada. Se ele alterar a data do 37º ano de Nabucodonosor, será obrigado a mudar as datas do início do reinado de todos os reis anteriores e posteriores a Nabucodonosor, conforme foi explicado acima. Para deixar isso bem claro, consideremos que impacto teria essa alteração em 20 anos na data do eclipse descrito na VAT 4956 (defendida na revista A Sentinela), nas cronologias referentes aos impérios assírio e neobabilônico. A tabela a seguir inclui uma série de reis (com seus períodos de reinado entre parêntesis) e uns poucos fatos ocorridos nesses dois períodos históricos:

Rei (e período de reinado) ou Evento Histórico
Cronologia Histórica Estabelecida (Datas AEC)
Cronologia Alterada em A Sentinela (Datas AEC)
Esar-Hadom (11 anos)
680 – 669
700 – 689
Samas-sum-iuquin (20 anos)
668 – 648
688 – 668
Kandalanu (21 anos)
647 – 626
667 – 646
1º ano de Nabopolassar
625
645
Conquista de Nínive por Nabopolassar e Ciaxares.
612
632
Conquista de Harã. Fim do Império Assírio
609
629
Morte de Nabopolassar. Nabucodonosor II se torna rei.
605
625
Nobres de Jerusalém deportados para Babilônia (7º ano de Nabucodonosor II).
598
618
Destruição de Jerusalém e do templo (18º ano de Nabucodonosor II).
587
607
Eclipse da VAT 4956 (37º ano de Nabucodonosor II)
568
588
Morte de Nabucodonosor II
562
582
Evil Merodaque (1 ano)
561 – 560
581 – 580
Neriglissar (3 anos)
559 – 556
579 – 576
Labashi-Marduque (3 meses)
556
576
Nabonido e Belsazar (16 anos)
555 – 539
575 – 559
Conquista de Babilônia por Ciro e morte de Belsazar.
539
559
Se a data do eclipse descrito na tabuinha VAT 4956 for deslocada vinte anos para trás, todas as outras datas também deverão ser deslocadas 20 anos para trás.

Percebe-se facilmente que fazer alteração numa data histórica não é uma coisa tão simples como o escritor da revista A Sentinela quer nos fazer crer. Ele está fazendo isso com o claro objetivo de forçar o 18º ano do rei Nabucodonosor (o ano da destruição de Jerusalém) a ser mudado de 587 AEC para 607 AEC (vide a tabela acima). Acontece que esse procedimento não mudaria apenas a data da destruição de Jerusalém. Se a data de qualquer evento ocorrido num ano específico de reinado de um rei for mudada, isso obrigaria os historiadores a fazer uma alteração geral em toda a cronologia. A bem dizer, eles teriam de mudar a história! 

A questão é: Como é que os historiadores procedem para estabelecer suas datas, tais como essas que estão especificadas na coluna central acima (“Cronologia Histórica Estabelecida”)? A resposta é simples: Eles definem cada um dessas datas com base no que indica o conjunto completo da documentação histórica.  

Os próprios artigos da revista A Sentinela que estamos comentando aqui reconhecem que este é o procedimento que os historiadores modernos seguem. Embora o número de outubro de A Sentinela tenha dado a entender erroneamente (na página 29) que os eruditos se baseiam apenas nos ‘escritos de historiadores clássicos e no Cânon de Ptolomeu’, A Sentinela de 1º de novembro, página 22, contradiz isso, mencionando também 

Quanto maior for o número de informações documentais e astronômicas que apontem para uma determinada data, e quanto mais fortes forem os sincronismos entre esta data e outras datas historicamente comprovadas, mais certeza os eruditos terão de que a cronologia está correta. E como eles não têm nenhuma predileção especial por alguma data, é claro que eles não vêem motivo para ficar procurando algum documento ou partícula de informação que confirme essa data “preferida”, para em seguida obrigar o resto da cronologia a se harmonizar com ela. Eles simplesmente estabelecem as datas, conforme são indicadas pelo exame de toda a documentação histórica disponível. E se acontecer de uma evidência parecer indicar duas ou mais datas possíveis para um determinado evento? Os historiadores não escolherão uma das datas por conta própria. De novo, o que eles farão é examinar toda a evidência confiável disponível para decidir qual das duas é a correta. 

O escritor desses artigos sobre cronologia na revista A Sentinela segue um procedimento totalmente contrário ao dos historiadores. Como vimos, ele não nega que o eclipse descrito na VAT 4956 aponta para duas datas: 568 AEC e 588 AEC. Porém, ele decide que 588 AEC é a correta. Baseado no conjunto da evidência histórica? De jeito nenhum. Ele faz isso por conta própria, só para poder harmonizá-la com 607 AEC. E não informa aos leitores que esta alteração provocará uma mudança drástica em toda a cronologia histórica estabelecida do período.  

E o que ele faz com todas as evidências na documentação histórica e astronômica que os eruditos tinham consultado para estabelecer criteriosamente todas essas datas? Ele as ignora completamente! Porque, na verdade, antes de começar a falar sobre a VAT 4956, ele tinha predisposto os leitores a rejeitar essas evidências. Como? Por gastar metade do artigo da Sentinela de outubro e mais da metade do artigo da Sentinela de novembro fazendo tudo para depreciar essa documentação histórica, dando a entender que os documentos não são válidos para estabelecer cronologia alguma, pelo fato de conterem erros – e ainda usando palavras selecionadas dos próprios eruditos, para fazê-los “concordar” com tudo isso! 

Tudo o que foi explicado acima estabelece as razões para declarar este primeiro argumento inválido. Para se estabelecer uma cronologia histórica, o procedimento correto é primeiro examinar toda a evidência, apresentar esta evidência de maneira justa e imparcial e depois apresentar as conclusões que este conjunto de evidência indica. Apresentar primeiro a conclusão e depois forçar a cronologia a se adaptar a essa conclusão, tratando um fato histórico como se fosse algo isolado, revela uma completa falta de critério para lidar com essa disciplina. E induzir os leitores a uma conclusão pretendida, por esconder deles evidências importantes e ainda distorcendo a evidência limitada que é apresentada, é desonestidade intelectual pura e simples. 

C-2: As 13 Posições Lunares da VAT 4956 

Em primeiro lugar, se os dois artigos da revista admitiram o tempo todo que nenhum erudito apóia a data 607 AEC e todos eles endossam 587 AEC como a data correta para a destruição de Jerusalém (sendo 568 AEC a data correta para o eclipse da VAT 4656), só podemos concluir que nenhum erudito – incluindo os citados por nome nos artigos e notas da Sentinela – deve ter feito parte dessa equipe de “pesquisadores” não identificados, que endossou esta última afirmação do parágrafo. 

Levantam-se também questões quanto às próprias declarações. Por exemplo, o que significa a frase “nem todos esses grupos de posições lunares são compatíveis com o ano 568/567 AEC”? Se dos 13 grupos testados, 12 deles apresentaram compatibilidade, ainda poderia ser dito que “nem todos são compatíveis”. Portanto, esta é uma frase vaga. 

E o que vem a ser “compatibilidade”? Dizer que ‘nem todos os grupos de posições são compatíveis com 568 AEC e todos são compatíveis com 588 AEC’, deixa a questão “no ar”, porque não se dá informação sobre o critério que esses “pesquisadores” usaram para estabelecer o que é ‘compatibilidade’ e o que não é.  

Mesmo que alguém diga que não temos o direito de levantar perguntas sobre o motivo da não identificação da equipe de pesquisadores, ainda permaneceriam sérias questões sobre a própria pesquisa. A mais importante é esta: Por que a pesquisa não foi apresentada na revista A Sentinela, para que os leitores a confiram?  

Por estas razões, este segundo argumento também é inválido. Ele não passa de uma série de afirmações vagas e não provadas. Para resolver o assunto, um dos colaboradores do Mentes Bereanas também conferiu estes grupos de posições lunares da VAT 4956. Os resultados destas simulações são apresentados na Parte 4, para que os leitores confiram os resultados por si mesmos. 

C.3 – O Dia Especificado na Linha 3 da VAT 4956  

 

Além de insistir no mesmo erro que já consideramos acima (ou seja, continuar tratando um fato cronológico de maneira isolada), este parágrafo da Sentinela adotou um procedimento curioso: O escritor se apega a esta questão da data na linha 3 da VAT 4956, e insiste que a data está certa, apesar de os eruditos que a traduziram terem afirmado que o escriba errou no registro do dia. 

Conforme vimos, os dois artigos da Sentinela são pródigos em fazer citações de eruditos para dar a entender que eles consideram as evidências históricas inválidas e descartáveis. No caso deste parágrafo, envolvendo a VAT 4956 o procedimento é o oposto: Os eruditos disseram realmente que este dado está errado, mas o escritor da A Sentinela dedica a maior parte do espaço das páginas 26 e 27 da revista insistindo agora que a tabuinha astronômica está certa, e os eruditos que disseram isso é que estão errados! 

O título do livro dos eruditos em questão (escrito em 1915) é o destacado aqui: 

Tradução do título (em alemão):

Um Texto de Observação Astronômica

do 37º ano de Nabucodonosor II

(– 567/66)

[– 567/566 é a data astronômica correspondente a 568/567 AEC]

Note-se que um livro onde os autores apontam a data 568 AEC como sendo o 37º ano de Nabucodonosor está sendo citado pela revista A Sentinela para “provar” que o ano correto é 588 AEC! Naturalmente, como os dois eruditos que o escreveram são falecidos, eles não poderiam questionar o escritor da revista A Sentinela por estarem sendo desmentidos dessa maneira.  

Face a este problema, vamos admitir por um momento que o escritor da revista esteja certo e os eruditos errados. A Sentinela afirma no parágrafo que “a posição lunar na linha 3 se encaixa perfeitamente com 9 de nisanu de 588 AEC.” Repetimos agora a pergunta: Se ele achou por bem dedicar tanto espaço na revista para desmentir os dois eruditos, por que ele não apresentou o resultado da pesquisa referente a essa linha 3, usando a data que ele acha ser a certa, para que os leitores possam comprovar por si mesmos? Não seria razoável esperarmos isso? 

Portanto, este terceiro argumento também é inválido. O parágrafo faz uma afirmação não provada e inverte o próprio argumento usado em todo o resto dos artigos, no tocante às citações dos eruditos. Para que os leitores confiram se o encaixe é realmente “perfeito”, como a revista diz, indicamos novamente a pesquisa na Parte 4. Como no caso das demais posições, o teste desta posição lunar foi feito nas duas datas, tanto na apontada pelos eruditos, como na data mudada pelo escritor da revista A Sentinela. 

Na conclusão do artigo da A Sentinela de novembro, aparece este parágrafo: 

Isso resume toda a informação errada que foi dada nas duas revistas: 

·        Não existe uma ‘minoria’ de historiadores que acredita que Jerusalém foi destruída em 607 AEC, como se dá a entender. 

·        Os profetas Jeremias e Daniel não disseram “claramente” coisa alguma sobre a duração do exílio judaico. O texto de Jeremias 25:12 (de novo omitido aqui) é suficiente para provar que nenhum dos dois profetas estava sequer falando sobre exílio. 

·        Nenhuma das evidências citadas dá “algum apoio secular” à data de 607 AEC.

A verdade simples é que, assim como o artigo da revista de 1º de outubro não conseguiu estabelecer a base bíblica desta data, o artigo de 1º de novembro fracassou em provar a validade histórica dela.



[6] Infelizmente este é outro tipo de afirmação muito comum nas publicações da Torre de Vigia, sempre que o assunto é cronologia. Na página 30 deste mesmo número de A Sentinela aparece esta frase: “A lista de reis feita por Ptolomeu é considerada a espinha dorsal da cronologia da história antiga, incluindo o período neobabilônico.” (O itálico é nosso.) Quem não tem conhecimento mínimo de cronologia antiga poderia dizer isso. O que não é o caso dos escritores desses artigos que estamos analisando. 

[7] Veja uma consideração detalhada sobre isso no artigo “Existiram Reis Neobabilônicos Desconhecidos?”, disponível no Mentes Bereanas.