607 AEC ou 587 AEC?

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Um Exame das “Evidências na Própria Bíblia”

O parágrafo seguinte diz:

O versículo que vem logo em seguida nessa “pista fundamental” (Jeremias 25:12), não foi citado. Esse versículo diz:

“E terá de acontecer que, quando tiverem cumprido setenta anos, ajustarei contas com o rei de Babilônia e com aquela nação’, é a pronunciação de Jeová, ‘pelo seu erro, sim, com a terra dos caldeus, e vou fazer dela baldios desolados por tempo indefinido.” (Tradução do Novo Mundo. O grifo é nosso.)

Uma vez que historicamente esse ‘ajuste de contas com o rei de Babilônia e sua nação’ veio em 539 AEC o período de setenta anos já estava cumprido em 539 AEC. Como esse texto sozinho é suficiente para demolir a afirmação de que os setenta anos só terminaram dois anos depois, em 537 AEC, é por isso que ele é deixado fora da Sentinela. Em vez disso o parágrafo dá um salto até Jeremias 29:10 – e não cita mais a Versão Brasileira, e sim a Tradução do Novo Mundo. Por quê? Porque esta versão, usada pelas Testemunhas de Jeová, é das poucas que usam a expressão “em Babilônia”. O primeiro parágrafo da página 27 explica isso:

[3]

O parágrafo reconhece que a Versão Brasileira (a que estava sendo citada como apoio até aqui) é uma das muitas que dizem “para Babilônia”. Mas este é só um dos problemas. O parágrafo omite certas informações que mudariam o assunto de figura. Que informações? Estas grafadas com letra vermelha: 

‘Em vez de dizer 70 anos “em Babilônia”, a maioria das traduções dizem “para Babilônia”. (VB). Entre estas se inclui a nossa Tradução do Novo Mundo, nas edições em alguns idiomas europeus. Por isso, todos os historiadores competentes afirmam que esse período de 70 anos se aplica ao Império Babilônico. Segundo a cronologia secular neobabilônica, que está em harmonia com toda a informação apresentada na Bíblia, os babilônios dominaram o território das antigas Judá e Jerusalém e de todas as outras nações da região por uns 70 anos, de cerca de 609 AEC a 539 AEC, quando a capital de Babilônia foi capturada. Em palavras mais simples, tanto a Bíblia como os historiadores estão de acordo com o fato de que os setenta anos de domínio babilônico sobre as nações (mencionados em Jeremias 25:11, 12) terminaram em 539 AEC.

O fato de a Sentinela ter omitido – e deliberadamente – o texto de Jeremias 25:12, omitindo também que a maioria das versões bíblicas apresenta esses 70 anos como o período concedido por Deus para Babilônia dominar a região (e não como o período de cativeiro judaico em Babilônia) [4] , permite que o artigo continue insistindo na mesma tese. O segundo parágrafo da página 27 prossegue:

Vários versículos de três livros bíblicos foram citados, é verdade, mas será que eles ‘mostram’ mesmo tudo isso que o parágrafo diz? Se os leitores tomassem tempo para conferi-los calmamente, notariam que nenhum deles diz ou sugere que o período de “punição severa” durou 70 anos. O livro do Êxodo não diz uma palavra sobre “setenta anos” e o profeta Jeremias nunca disse que a “punição do meu povo” seria “70 anos de exílio”. Essa expressão “70 anos de exílio” não aparece nos escritos dele, nem nos de qualquer outro profeta judaico. Declarado de maneira simples, a Bíblia não mostra isso que o parágrafo diz.

O mesmo vale para a série de afirmações incluídas nos demais parágrafos sob o tópico “Quando começaram os ‘setenta anos’?”, na página 27. Ainda devido à omissão das palavras de Jeremias 25:12, os leitores são induzidos a aceitar várias informações erradas sobre os 70 anos. Entre estas, estão as quatro que seguem:

 

De novo, não há maneira de confirmar biblicamente essas informações. O texto de 2 Crônicas 36:20, 21 (citado na página 27 da Sentinela) não diz isso. Eis a citação da Nova Versão Internacional, conforme aparece no parágrafo da revista: 

 

É muito fácil um leitor desatento tirar uma conclusão equivocada desse texto. Está ele dizendo que a terra descansou durante 70 anos? Não. Ele diz que a terra “descansou durante todo o tempo de sua desolação, até que os setenta anos se completaram”. A “palavra do SENHOR anunciada por Jeremias” não tinha sido sobre “70 anos de desolação” e sim sobre 70 anos de domínio babilônico. É claro que quando o domínio babilônico terminou, a desolação também terminou, mas isso não é o mesmo que dizer que a desolação também durou 70 anos. Pois nenhum texto bíblico sugere que o descanso e a desolação da terra começaram no mesmo momento em que o domínio babilônico sobre as nações começou. Em palavras mais simples, a Bíblia informa precisamente qual foi a duração do período de domínio babilônico, mas não informa a duração do ‘descanso sabático’ e da ‘desolação’ da terra de Judá. A História estabelece (e a Bíblia está de acordo) que a desolação judaica começou muito depois que o período de domínio babilônico sobre as nações tinha começado. [5] Ao tratar especificamente disso, a Sentinela diz: 

 

Apesar da palavra “certamente”, esta é uma frase sem qualquer propósito, a não ser confundir os leitores. Nem a Bíblia, nem a História fazem uma ligação do início dos setenta anos de domínio babilônico com algum sítio da cidade de Jerusalém por eles. 

Enfatizamos: Tudo o que a Bíblia diz (e a História confirma) é que Babilônia dominou sobre as nações da região durante 70 anos. Jerusalém era apenas uma de muitas cidades naquela ampla área, e o momento em que ela foi sitiada “pela primeira vez” não tem importância alguma na questão de sabermos quando foi que o período de 70 anos se iniciou. Só teria importância se Jerusalém fosse a cidade dominante na região antes de Babilônia assumir o controle. Mas este não foi o caso, porque a História registra (e a Bíblia confirma) que a potência dominante anterior era a Assíria, com sua capital, Nínive, não Judá e sua capital, Jerusalém. E a data histórica para o fim completo do Império Assírio é 609 AEC, sendo este o ano inicial da supremacia babilônica, que terminou exatamente 70 anos depois (539 AEC). 

Como visto acima, a matéria da Sentinela chega a mencionar esse intervalo histórico de 70 anos (embora aplicando o domínio babilônico só a “Judá e Jerusalém”), mas o chama de “cronologia secular” (induzindo os leitores a pensarem que não tem credibilidade), recusando-se terminantemente a reconhecer que este período – 609 AEC a 539 AEC – é que está de acordo com a profecia de Jeremias, ao passo que o período defendido na revista – 607 AEC a 537 AEC – contradiz Jeremias. Esta é a única razão por que o parágrafo tenta forçar de qualquer maneira uma conexão entre o sítio de Jerusalém e o início dos 70 anos. A Bíblia jamais autoriza essa conexão, por mais que os apologistas da cronologia da Torre de Vigia insistam nisso. 

No final do último parágrafo do tópico (início da página 28) aparece esta frase: 

 

Com “esse acontecimento”, a Sentinela se refere à destruição de Jerusalém, seguida pelo despovoamento da terra de Judá. A expressão “tudo indica” não passa de outro qualificativo do escritor. A própria Bíblia não indica qual foi o acontecimento histórico específico que “marcou o começo dos setenta anos”. Esta informação jamais aparece na Bíblia. Ela só indica qual foi o momento em que esse período terminou. Só podemos saber em que momento o período começou com a ajuda da evidência histórica, que situa o fim do Império Assírio (que equivale ao início da supremacia babilônica) em 609 AEC. O que o artigo da Sentinela faz o tempo todo é esconder e deturpar informações, para desviar a atenção dos leitores do fato de que a Bíblia dá base para situarmos o fim desse período de setenta anos em 539 AEC. Sendo assim, ele não poderia ter começado no momento da destruição de Jerusalém, seja 607 AEC ou 587 AEC, pois nenhuma dessas duas datas está 70 anos antes de 539 AEC. 

Em seguida vem este trecho: 

Este é outro caso onde se apresenta uma tradução errada dessa parte da profecia de Daniel (assim como se faz no caso da tradução inexata “em Babilônia” para Jeremias 29:10). A maioria das versões bíblicas modernas (incluindo a própria Tradução do Novo Mundo!) não usa o verbo “durar” neste texto. E Daniel não estava dizendo que os setenta anos iriam terminar no futuro. Daniel tinha em mãos as palavras de Jeremias 25:12, e quando as leu, ele entendeu que, como o rei de Babilônia e sua nação tinham sido punidos, os 70 anos já tinham terminado. Os eruditos da Torre de Vigia sabem que o verbo “durar” não aparece no hebraico original deste texto, e ele foi inserido arbitrariamente pelos tradutores da NVI, mas a Sentinela cita justamente essa tradução, só porque ela ajuda a “comprovar” a interpretação defendida na revista. 

O segundo parágrafo deste mesmo tópico (coluna direita da página 28) é mais um exemplo de omissão de evidência bíblica. A Sentinela diz: 

Eis o que diz o texto de 2 Crônicas 36:22, segundo a citada NVI: 

“No primeiro ano do reinado de Ciro, rei da Pérsia, para que se cumprisse a palavra do Senhor anunciada por Jeremias, o Senhor tocou no coração de Ciro, rei da Pérsia, para que fizesse uma proclamação em todo o território de seu domínio e a pusesse por escrito, nestes termos:” (O grifo é nosso.) 

A Sentinela usou a frase genérica “tempo em que o Senhor tocou no coração de Ciro”, mas a Bíblia é específica. Ela diz que esse “tempo” foi o “primeiro ano do reinado de Ciro”. Historicamente, isso foi em 539 AEC (a “Data Fundamental na História” segundo o mencionado quadro na página 28 da Sentinela). Então, se ‘Esdras relacionou o fim dos setenta anos com o tempo em que Deus tocou no coração de Ciro para fazer a proclamação’, segue-se que Esdras relacionou o fim dos setenta anos com 539 AEC (o momento da proclamação), não com 537 AEC. Assim como no caso de Daniel, as palavras de Esdras não contradizem o que Jeremias havia dito. Aqui, a revista A Sentinela faz referência ao texto de Esdras, mas desconsidera a informação principal contida nele. O texto de 2 Crônicas 36:22 é mal citado para esconder evidência, dificultando que os leitores cheguem à conclusão óbvia, que é desastrosa para a interpretação defendida na revista. 

Recordemos o que havia dito o segundo parágrafo da página 26: 

Tendo em vista essa frase sublinhada, seria razoável qualquer leitor esperar que A Sentinela, sendo uma publicação religiosa, manter-se-ia dentro dos limites da autoridade da Bíblia para apresentar evidências de apoio aos seus ensinos. Ou que pelo menos a maior parte das evidências apresentadas seria bíblica, não “secular” ou “profana”. 

O que se nota nos dois artigos é o contrário disso. As únicas “evidências na própria Bíblia” apresentadas se limitaram a essas poucas que consideramos até aqui (contidas nas páginas 26-28 da A Sentinela de 1º de outubro de 2011). Cerca de metade do primeiro artigo dessa revista de outubro/2011 e o segundo artigo inteiro (o da revista de novembro/2011) trata de outro tipo de evidências, não mais das bíblicas. Do total de 13 páginas (abrangidas pelos dois artigos) apenas 3 páginas são dedicadas à Bíblia. As outras 10 páginas analisam documentação histórica e declarações de eruditos! 

E, é triste dizê-lo, na abordagem dessas evidências “seculares”, as duas revistas não se saíram melhor do que na consideração das “evidências na própria Bíblia”. Pelo contrário, os problemas na argumentação são ainda maiores. Passaremos agora à análise do restante do primeiro artigo.



 

[3] Embora alguns imaginem que esta foi a primeira referência da Torre de Vigia aos 70 anos como o período da dominação babilônica sobre as nações, este não é o caso. O livro Profecia de Isaías — Uma Luz Para Toda a Humanidade, Vol. 1, (publicado em 2000), pág. 253, foi o primeiro a apresentar os setenta anos desta maneira.

[4] Para os leitores interessados numa consideração abrangente desta questão da tradução de Jeremias 29:10, recomendamos o texto Os Setenta Anos Para Babilônia, disponível na seção sobre Astronomia/Arqueologia do Mentes Bereanas. Veja especificamente a Seção B-1: “Setenta anos – “em” Babilônia ou “para” Babilônia?” 

[5] Historicamente, a terra de Judá permaneceu desolada por aproximadamente 50 anos (587 AEC – 538 AEC). A informação apresentada na Bíblia não contradiz isso.