ArtigosEnsinos e História das Testemunhas de Jeová

Salvação pela graça ou pelas obras?

Introdução

A liderança das Testemunhas de Jeová apresenta há muitas décadas os mesmos requisitos básicos para a salvação, às vezes subdividindo um ou mais deles para enfatizar alguma atividade específica exigida pela organização. São eles:

  • “Absorver conhecimento” estudando a Bíblia por meio das publicações da organização.
  • Conformar-se aos padrões que a organização ensina serem as leis de Deus, principalmente no que se refere a várias atividades proibidas, incluindo abster-se de dar ou receber transfusões de sangue.
  • Associar-se à “organização” liderada pelo Corpo Governante, considerada como a única religião verdadeira, sendo batizado como Testemunha de Jeová.
  • Proclamar ou pregar a mensagem de que Jeová é o verdadeiro Deus (o que significa que é preciso usar regularmente o nome “Jeová” para ser um verdadeiro cristão) e que o Reino de Jeová foi estabelecido invisivelmente em 1914, de modo que a segurança contra o julgamento divino só pode ser encontrada dentro da religião das Testemunhas de Jeová.

Este padrão básico de requisitos para a salvação tem sido apresentado repetidamente, como em artigos muito semelhantes publicados na revista A Sentinela em 1968, 1983 e 1997.1 Como veremos, esses requisitos também foram reafirmados em publicações mais recentes.

1. Estudo da Bíblia com a literatura da organização

As Testemunhas de Jeová são ensinadas que “absorver conhecimento” é necessário para a salvação. “Absorver conhecimento” é a tradução de João 17:3 usada em edições anteriores da Tradução do Novo Mundo (TNM) e ainda citada e usada no site oficial das Testemunhas de Jeová, JW.org.2 De acordo com a liderança da organização, não se pode crer verdadeiramente em Jesus sem ter o entendimento correto, fornecido em sua literatura, de uma ampla variedade de assuntos doutrinários. Um artigo diz: “Deveras, ‘crer em Jesus’ significava entender muitas coisas!”3 De acordo com um dos artigos mencionados acima, “A palavra grega traduzida aqui por ‘absorver conhecimento’ significa “chegar a conhecer, reconhecer”, ou “entender plenamente”. Isso significa que a salvação nunca é segura ou garantida, porque é preciso trabalhar continuamente para entender tudo completamente: “Este processo pode continuar eternamente, porque nunca chegaremos a aprender tudo sobre Jeová.”4

Esse entendimento correto das Escrituras, dizem eles, vem somente por meio de suas publicações oficiais:

Se queremos pessoalmente ter o favor e as bênçãos de Jeová, devemos apoiar sua organização e aceitar os ajustes em nosso entendimento das Escrituras.5

2. Conformidade com as regras da organização

Encontramos declarações nas publicações das Testemunhas de Jeová indicando que viver uma vida pura e moral, ou amar o próximo, é essencial para a salvação. Essas declarações significam que é preciso merecer a salvação atingindo um certo nível de bondade. Ainda assim, não podemos criticar as Testemunhas de Jeová por insistirem que seus membros evitem a imoralidade ou por esperarem que tratem os outros com amor. Nosso foco aqui é a afirmação da liderança delas de que só os que aderem às suas regras controversas podem ser salvos.

A organização impõe muitas proibições questionáveis às Testemunhas de Jeová como requisitos para a salvação. Elas são proibidas de doar ou receber transfusões de sangue; celebrar o Natal, a Páscoa ou qualquer outro feriado; celebrar aniversários; votar; servir nas forças armadas; ou usar uma bandeira ou uma cruz como símbolo. As Testemunhas não têm liberdade para discordar das políticas da organização nesses assuntos se desejarem permanecer na religião. Eles devem cumprir todas essas proibições à risca, ou correm o risco de serem removidos da religião e de serem considerados como falsos cristãos.6

3. Batismo em associação com a organização

A organização produz literatura e fornece a estrutura por meio da qual a religião das Testemunhas de Jeová opera. Em sua literatura, ensinam que qualquer pessoa que deseje ser salva deve “estar associada ao canal de Deus, à sua organização”. Devem “servir a Jeová com a sua organização dirigida pelo espírito”. Em resumo, é preciso ser uma Testemunha de Jeová praticante e em plena comunhão para ser salvo.7 A liderança diz: “Afinal, se pertencemos a uma organização religiosa, nossa vida espiritual está nas mãos dela. Isso inclui nossa própria salvação.”8

O batismo como Testemunha de Jeová é um requisito absoluto para a salvação. Duas declarações de publicações recentes (no momento da escrita deste artigo) deixam isso explícito: “O batismo é um requisito para os que buscam a salvação.”9 “O batismo… é essencial para ganharmos a salvação.”10 A liderança das Testemunhas de Jeová não reconhece batismo algum como válido, exceto o deles próprios.

4. Pregação sobre Jeová e a vinda do Seu Reino em 1914

A organização ensina que outro requisito para a salvação é “o requisito da pregação”11, isto é, a obrigação de divulgar a mensagem do nome e do reino de Jeová. Dizem que ‘divulgar lealmente o governo do Reino a outros.’12 ou “ser proclamadores leais do Seu Reino. ”13 é um requisito para a salvação. Na prática, a principal maneira pela qual as Testemunhas de Jeová procuram cumprir esse requisito é trabalhando para distribuir as publicações da organização, seja indo de porta em porta ou ficando paradas em locais públicos com carrinhos expositores de publicações. Uma publicação da organização destinada apenas aos membros ativos lista “doze motivos para pregar”, sendo o sétimo deles: “É um requisito para nossa própria salvação.”14

Fonte: Jornal da Orla, 23/01/2023

É preciso entender aqui o que as Testemunhas de Jeová querem dizer com “Reino de Deus”. A mensagem delas sobre o “Reino” é que “Jesus já está presente e governando como Rei de modo invisível no céu desde 1914.”15

Um requisito associado à salvação é o uso do nome divino Jeová. De acordo com A Sentinela, “os que procuram a salvação precisam usar o nome de Deus. Eles também precisam ensinar outros a respeito do nome e das qualidades de Deus.”16 As publicações alertam que, se  não “ensinaram a você usar o nome de Deus, Jeová”, então “sua salvação está em perigo.”17

Salvação: uma “dádiva gratuita” — mas só para os que atendem aos requisitos

As Testemunhas de Jeová não usam a palavra “graça” em referência à salvação, preferindo o termo “bondade imerecida” para traduzir a palavra grega kharis.18 Essa tradução em si não é questionável. A liderança delas ensina que as pessoas são salvas “pela bondade imerecida”, chegando a citar trechos bíblicos conhecidos sobre o assunto, como Efésios 2:8, 9. Após citar esse texto, uma publicação deles comenta: “Não há meio de um descendente de Adão poder ganhar a salvação de per si, não importa quão nobres sejam as suas obras. A salvação é uma dádiva da parte de Deus, conferida aos que depositam fé no valor expiatório de pecados do sacrifício de seu Filho.”19

Tais declarações poderiam dar a impressão de que as Testemunhas de Jeová acreditam ser salvas pela bondade imerecida de Deus, ou graça, e não por suas obras. Como vimos, porém, a liderança também ensina que, para ser salva, a pessoa deve estudar a Bíblia usando as publicações da organização; aderir a regras como não fazer transfusões de sangue, não comemorar aniversários, não participar de feriados, não votar e assim por diante; ser batizada como Testemunha de Jeová e permanecer em boa posição na organização; e proclamar o nome de Jeová e a doutrina de que Cristo começou a reinar invisivelmente sobre toda a Terra, desde o céu, em 1914.

Se isso soa contraditório, é porque é contraditório mesmo. A inconsistência se apresenta de imediato quando a organização afirma: “A salvação é uma dádiva gratuita de Deus. Não pode ser merecida. Todavia, exige esforços da nossa parte.” O mesmo artigo afirma sobre os verdadeiros cristãos: “Como grupo, sua salvação é assegurada. Individualmente, precisam satisfazer os requisitos de Deus. ”20 É claro que algo que precisa ser obtido por meio de um processo de esforço ao longo da vida para cumprir vários requisitos não é uma dádiva gratuita.

Obviamente, para se beneficiar de uma dádiva, é preciso aceitá-la. No entanto, a organização está dizendo muito mais do que isso. Suponha que eu lhe diga: “Tenho uma dádiva gratuita para você, mas primeiro você precisa dedicar dezenas de horas todos os anos, pelo resto de sua vida, divulgando meus produtos e seguindo meu rigoroso código de conduta, e então, se você se esforçar o suficiente, eu lhe darei a dádiva”. Você não consideraria isso uma dádiva gratuita.

O que a doutrina da  organização realmente significa pode ser expresso da seguinte forma: a oportunidade de ser salvo é um presente gratuito, no sentido de que Deus provê gratuitamente às pessoas um caminho para alcançar a vida eterna. No entanto, a salvação, ou a vida eterna, não é em si um presente gratuito. Pelo contrário, é algo que deve ser obtido cumprindo os rigorosos requisitos que a organização afirma serem ensinados na Bíblia.

A Resposta Bíblica

De diversas maneiras, o Novo Testamento ensina claramente que a salvação é, em si, uma dádiva gratuita que Deus concede aos que a aceitam humildemente. Por “humildemente”, quero dizer o que o Novo Testamento chama de arrependimento: o reconhecimento da própria necessidade de salvação por causa do pecado contra o Deus santo. Por “aceitar”, quero dizer o que o Novo Testamento chama de fé, ou crer, em Cristo: confiar plenamente em Cristo como Salvador e Senhor.

Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus. (João 1:12, NVI).

Portanto, Jesus chamou as pessoas a “arrependerem-se e crerem no evangelho [ou boas novas]” (Marcos 1:15), e Paulo pôde resumir sua mensagem como “converter-se a Deus com arrependimento e fé em nosso Senhor Jesus.” (Atos 20:21). Arrependimento e fé são duas faces da mesma moeda: arrependimento é afastar-se dos nossos pecados e voltar-se para Deus, enquanto fé é confiar e depender de Deus para nos salvar dos nossos pecados.

O Novo Testamento identifica consistentemente a fé ou a crença como o fator crucial que separa os que Deus salva daqueles que Ele não salva. Isso ocorre em todas as partes principais do Novo Testamento: nos Evangelhos (por exemplo, Mateus 21:32; Lucas 8:12; João 3:15-18; 20:31), na pregação dos apóstolos em Atos (por exemplo, Atos 16:31), nas epístolas de Paulo (por exemplo, Romanos 1:16-17; 3:22-28; 10:9-11; 1 Coríntios 1:21; Efésios 2:8; Tito 3:8) e em diversas outras epístolas (por exemplo, Hebreus 11:6; 1 Pedro 1:5; 1 João 5:13; Judas 5).

As Testemunhas de Jeová geralmente interpretam erroneamente o conceito da salvação no que se refere à questão das boas obras, assim como muitas outras pessoas. A doutrina da salvação é bem resumida nas seguintes declarações do apóstolo Paulo:

Pois vocês são salvos pela graça, por meio da fé, e isto não vem de vocês, é dom de Deus; não por obras, para que ninguém se glorie. Porque somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras, as quais Deus preparou de antemão para que nós as praticássemos. (Efésios 2:8-10)

Paulo expressa três verdades sobre a salvação neste breve trecho:

(1) Somos salvos pela graça, o que significa que a salvação é em si mesma “o dom de Deus”, não algo que conquistamos, merecemos ou conseguimos por mérito.

(2) Somos salvos pela fé, o que significa que a fé é a nossa aceitação ou forma de receber a dádiva gratuita da salvação de Deus.

(3) Somos salvos não como resultado de obras, mas por causa das boas obras, o que significa que as boas obras são o fruto ou resultado, não a condição ou requisito prévio para receber a salvação. As boas obras estão relacionadas à salvação, mas são o resultado ou produto de um relacionamento salvador com Deus. A salvação não é o resultado de boas obras, e sim as boas obras é que são o resultado da salvação.

O conceito cristão da salvação não negligencia a importância das boas obras, mas as coloca em seu devido lugar ou contexto. A verdadeira fé resulta em obediência, produz boas obras e demonstra amor a Deus e ao próximo (Romanos 1:5; 16:25-26; Gálatas 5:6). Este é o ponto que Tiago apresenta em sua carta, em um trecho comumente considerado como contraditório ao conceito cristão de fé e obras (Tiago 2:14-26). A declaração não se contradiz. O ponto de Tiago é que a fé que salva produz boas obras. Os cristãos concordam totalmente com isso.

Examinemos agora biblicamente os “requisitos” para a salvação ensinados pela liderança das Testemunhas de Jeová.

Absorver conhecimento: João 17:3 é corretamente traduzido como “Esta é a vida eterna: que te conheçam…”, e não “que absorvam conhecimento”, como na Tradução do Novo Mundo. É interessante notar que, após mais de sessenta anos defendendo e apelando constantemente para a tradução “que absorvam conhecimento de ti”, a liderança das Testemunhas de Jeová adotou uma formulação diferente em sua versão de 2013: “que conheçam a ti…”. Essa tradução está muito mais próxima do significado do texto grego. Contudo, eles continuaram a citar a tradução mais antiga, como já mencionado, e inúmeros artigos que falam sobre “absorver conhecimento” como requisito para estudar e dominar a doutrina da organização permanecem em seu site oficial.

A verdade expressa em João 17:3 é que a vida eterna consiste em conhecer a Deus e a Cristo pessoalmente, não em adquirir conhecimento doutrinário — e certamente não em estudar as publicações de alguma organização religiosa específica. Não há nada de errado em produzir literatura para ajudar as pessoas a entender a Bíblia; os cristãos publicaram milhares de comentários, bem como inúmeras outras publicações de ensino. A liderança das Testemunhas de Jeová, porém, insiste que ninguém pode entender a Bíblia adequadamente para ser salvo sem suas publicações. Esta é uma afirmação patentemente antibíblica, como é discutido em outro artigo.21

Um certo grau de sã doutrina é, sem dúvida, muito importante na igreja e na vida cristã de cada indivíduo. Contudo, não devemos cometer o erro de pensar que a salvação depende do domínio de um sistema doutrinário religioso. Quando esse sistema doutrinário é lamentavelmente antibíblico — como é o caso da teologia da organização das Testemunhas de Jeová — aceitar essa doutrina torna-se, na verdade, um obstáculo à salvação.

Conformidade com as regras da organização: Os verdadeiros cristãos buscam aprender sobre a vontade de Deus e obedecer a Ele à medida que crescem na fé. Como explicamos, a obediência aos mandamentos de Deus nas Escrituras é um resultado esperado da fé genuína em Cristo. A pessoa que tem fé desejará agradar a Deus (Hebreus 11:6). Por outro lado, os mandamentos que Deus espera que os cristãos obedeçam são os claramente ensinados na Bíblia, não regras criadas por homens ou “descobertas” por líderes de uma organização religiosa específica no século 20. Em sua carta aos Colossenses, Paulo advertiu contra a submissão a essas regras criadas por homens:

Já que vocês morreram com Cristo para os princípios elementares deste mundo, por que é que vocês, então, como se ainda pertencessem a ele, se submetem a regras: “Não manuseie!” “Não prove!” “Não toque!” Todas essas coisas estão destinadas a perecer pelo uso, pois se baseiam em mandamentos e ensinos humanos. Essas regras têm, de fato, aparência de sabedoria, com sua pretensa religiosidade, falsa humildade e severidade com o corpo, mas não têm valor algum para refrear os impulsos da carne. (Colossenses 2:20-23)

As regras específicas mudam de uma época para outra e de uma seita para outra, mas o princípio que essas regras violam permanece o mesmo. As regras da organização das Testemunhas de Jeová, quase todas seguidas só pelas Testemunhas de Jeová, criam um ambiente no qual os membros sentem que devem ser a única religião verdadeira porque só eles vivem de acordo com esses padrões. Não são eles diferentes do “mundo”? Sim, mas não mais do que os mórmons que não bebem café ou chá. As regras podem ser diferentes, mas ainda são só regras criadas pelo homem.

Batismo em associação com as Testemunhas de Jeová: A afirmação de que as Testemunhas de Jeová são os únicos cristãos verdadeiros na Terra hoje é ousada. As Escrituras nunca condicionam salvação à filiação à organização correta. Os verdadeiros cristãos convivem e amam seus irmãos cristãos (1 João 3:14; 4:20; 5:1), mas essa convivência se assemelha mais a uma grande família extensa do que à filiação a uma instituição ou organização.

As Testemunhas de Jeová ensinam, assim como alguns outros grupos religiosos, que o batismo é um requisito para a salvação. De fato, existe uma estreita ligação entre o batismo e o perdão dos pecados. Por exemplo, no primeiro sermão cristão, o apóstolo Pedro disse: “”Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos seus pecados, e receberão o dom do Espírito Santo.” (Atos 2:38). Ananias disse a Paulo: “Levante-se, seja batizado e lave os seus pecados, invocando o nome dele’.” (Atos 22:16). Nesses trechos, a relação entre o batismo e o perdão é de símbolo e realidade. Ou seja, o batismo simboliza a realidade do perdão de Deus pelos nossos pecados. O ato de se batizar simboliza o perdão dos pecados e expressa a aceitação desse dom pelos que se submetem ao batismo. O batismo é, portanto, “necessário” para a salvação só no sentido de que aceitar o dom do perdão e da salvação (que o batismo simboliza) é necessário para recebê-lo. O rito ou ritual do batismo não salva ninguém, mas o que o batismo representa é, de fato, necessário para a salvação (1 Pedro 3:20-21).

É claro que a grande maioria dos cristãos em praticamente todas as denominações foi batizada. Sendo assim, significa isso que as Testemunhas de Jeová consideram que esses cristãos batizados cumpriram esse requisito? Não, não significa. A liderança delas ensina que só os batismos realizados em suas reuniões, por membros de sua religião, é que são válidos. Simplesmente não há fundamento para essa afirmação em lugar algum da Bíblia.

Pregação sobre Jeová e a vinda do Reino em 1914: Em outros artigos foi mostrado que a Bíblia não trata o uso do nome Jeová como requisito para a salvação. A prova simples de que isso não é verdade é que o Novo Testamento grego não usa o nome (embora use a forma abreviada Jah na expressão “Aleluia” em Apocalipse 19:1-6). Aqui, novamente, a liderança das Testemunhas de Jeová inventou um requisito para a salvação que não é ensinado nas Escrituras e que, na verdade, entra em conflito com elas.22

Em outro artigo, discute-se em detalhes a doutrina da lideranças das Testemunhas de Jeová sobre Cristo se tornar invisivelmente “presente” como rei em 1914. Deve ser óbvio, no entanto, que a aceitação dessa doutrina não pode ser um requisito para a salvação. A doutrina exige interpretações tão complexas de trechos bíblicos sem relação entre si que a maior parte das própriass Testemunhas de Jeová teria dificuldade em explicar a suposta base bíblica para ela. Além disso, ninguém havia encontrado essa ideia na Bíblia até o final do século 19. A doutrina sobre a presença invisível de Cristo, em 1914, está ligada à alegação de que nenhuma religião cristã verdadeira existiu desde o segundo século até o surgimento das Testemunhas de Jeová, no início do século 20. Essa alegação é examinada em outro artigo.23

Por fim, a afirmação de que é preciso se engajar em “pregação” regular para ser salvo é outra exigência criada pelo homem. Nada há na Bíblia que sustente isso. A liderança das Testemunhas de Jeová tentou encontrar apoio para isso em Romanos 10:10, que eles traduziram desse modo: “Porque com o coração se exerce fé para a justiça, mas com a boca se faz declaração pública para a salvação.” (TNM, 2013). A interpretação deles para esse versículo é que “Fazermos uma “declaração pública” — compartilhar nossa fé com outros — é vital para a salvação.”24 Essa é uma interpretação bem forçada. O argumento de Paulo é que, quando um convertido professa ou confessa verbalmente sua fé em Cristo como o Senhor ressuscitado (versículo 9), Deus o salva por meio dessa fé genuína. Essa “confissão” normalmente ocorre no batismo, quando um novo crente se une publicamente a outros crentes, sendo identificado como um seguidor de Jesus Cristo. Em nenhum lugar o Novo Testamento exige que os cristãos se envolvam em evangelismo ou pregação regulares como requisito para a sua própria salvação.

É impressionante que todos esses supostos “requisitos” se concentrem, na verdade, na própria organização das Testemunhas de Jeová. Ensina-se às Testemunhas de Jeová (e aos membros em potencial) que, para serem salvos, devem aprender o sistema doutrinário da organização, obedecer às proibições estabelecidas pela organização, associar-se à organização liderada pelo Corpo Governante e propagar os ensinamentos da organização (principalmente por meio da distribuição de suas publicações). Esse ensino não se trata só de salvação pelas obras, mas de salvação pelo trabalho para a organização. Certamente não se trata da doutrina bíblica da salvação como dom gratuito da vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor (Romanos 6:23).

Notas

1. “O que é necessário para a salvação?” em A Sentinela, 1º de julho de 1968, págs. 387-391; “Poderá viver para sempre no paraíso na terra — mas como?” em A Sentinela, 15 de setembro de 1983,  págs. 13-16; “O que Deus requer de nós?” em A Sentinela, 15 de janeiro de 1997, págs. 19-22.

2. Tradução do Novo Mundo das Sagradas Escrituras — Com Referências (1961, 1981, 1984; reimpressão de 2016); veja também “Como agir de acordo com a amorosa oração de Jesus”, A Sentinela (Simplificada), 15 de outubro de 2013, pág. 23; “Jovens, vocês são responsáveis por sua própria salvação”, A Sentinela (Edição de Estudo), dezembro de 2017, pág. 25; “Notas de Estudo de João — João 17”, em Tradução do Novo Mundo da Bíblia Sagrada (Edição de Estudo).

3. “Salvação: seu significado real”, A Sentinela de 15 de agosto de 1997, pág. 5.

4. “O que Deus requer de nós?” em  A Sentinela de 15 de janeiro de 1997, pág. 19.

5. “Você está avançando com a organização de Jeová?”, A Sentinela, 15 de maio de 2014, pág. 29.

6. Consulte a publicação Raciocínios à Base das Escrituras (1989) para ver verbetes sobre todos esses tópicos.

7. “Poderá viver para sempre no paraíso na terra — mas como?” em A Sentinela, 15 de setembro de 1983,  págs. 12, 13; “O que Deus requer de nós?” em A Sentinela, 15 de janeiro de 1997, págs. 21, 22.

8. “Por que você deve examinar sua religião?” em A Sentinela, 1º de julho de 2013, pág. 3.

9. “Destaques das Cartas de Tiago e de Pedro”, A Sentinela, 15 de novembro de 2008, p. 21.

10. “Jovens, vocês são responsáveis por sua própria salvação”, A Sentinela (Edição de Estudo), dezembro de 2017, pág. 23.

11. “O que é necessário para a salvação?” em A Sentinela, 1º de julho de 1968, pág. 389.

12. “Poderá viver para sempre no paraíso na terra — mas como?” em A Sentinela, 15 de setembro de 1983,  pág. 14. 

13. “O que Deus requer de nós?” em A Sentinela, 15 de janeiro de 1997, pág. 22.

14. “Doze motivos para pregar”, Ministério do Reino, junho de 2012, pág. 1.

15. “O que a presença de Cristo significa para você?” em A Sentinela, 15 de fevereiro de 2008, pág. 25.

16. “As Testemunhas de Jeová acreditam que só elas serão salvas?”, A Sentinela, 1º de novembro de 2008, pág. 28.

17. “Salvação: seu significado real”, A Sentinela, 15 de agosto de 1997, pág. 6.

18. Veja a explicação no verbete “Bondade”, subtítulo “Benignidade Imerecida” em Estudo Perspicaz das Escrituras, Vol. 1, págs. 374, 375.

19. Raciocínios à Base das Escrituras, pág. 341.

20. “O que temos de fazer para ser salvos?”, A Sentinela, 1º de fevereiro de 1996, pág. 7.

21. Artigo Precisamos do Corpo Governante das Testemunhas de Jeová para entender a Bíblia?

22. Veja os artigos Foi o nome “Jeová” usado originalmente no Novo Testamento? e É o uso do nome “Jeová” é uma marca distintiva dos verdadeiros cristãos?

23. Veja Nenhuma religião verdadeira na terra até 1919? O conceito dos líderes das Testemunhas de Jeová sobre a história da Igreja.

24. “É a Bíblia contraditória?” no livro A Bíblia — Palavra de Deus ou de Homem? (1989), pág. 92.

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