
Como foi que vim a acreditar que esta era “a verdade”?
Introdução
Depois de perceber que a organização das Testemunhas de Jeová não ensina a “verdade”, e que certos ensinos, pelo contrário, são absurdos, prejudiciais e até imorais, é comum que uma pessoa ache difícil entender como foi que ela veio a acreditar que esses ensinos eram verdadeiros. Entender por que as Testemunhas de Jeová acreditam no que acreditam é um passo importante para seguir em frente.
A questão de saber por que as pessoas acreditam em determinadas coisas pode ser dividida em duas partes: por que a pessoa começou a acreditar e por que ela continuou acreditando.
Por que as pessoas vem a acreditar?
Nascimento
A maioria das Testemunhas de Jeová não escolheu sua religião ou no que acreditar; isso lhes foi legado desde o nascimento, ou desde os anos formativos. Quem nasceu de pais que já seguiam a religião geralmente foi doutrinado desde cedo com o sistema de crenças da organização e foi incentivado a se batizar ainda na adolescência — ou até antes disso. É claro que uma pessoa tão jovem assim não teve a oportunidade de conhecer outros pontos de vista, e muito menos tem a maturidade para diferenciar entre sistemas de crenças.
Adesão
Relativamente poucas pessoas aderem à religião por reagirem à pregação. Segundo um cálculo feito no momento em que se escreveu este artigo, são necessárias mais de 7.000 horas de pregação para a organização conseguir um único batismo, e grande proporção desses novos convertidos são crianças nascidas na religião. Os bilhões de horas de pregação que as Testemunhas de Jeová gastam todo ano resultam em apenas um pequeno número de novos convertidos, principalmente desde que este século 21 começou.

As pessoas não se juntam à organização das Testemunhas de Jeová depois de pesquisarem profundamente todas as ideologias religiosas possíveis e concluírem por si mesmas que a doutrina delas é que está correta — até porque isso seria impossível. Alguns podem até ter estudado algumas religiões e daí acharam que os ensinamentos das Testemunhas de Jeová parecem ser mais alinhados com a Bíblia, em comparação com aquelas religiões. Embora a doutrina da organização pareça sólida, ela falha em muitos aspectos quando analisada com mais atenção. O problema é que essa análise requer tempo, que o novo convertido normalmente não tem, envolvido que está com a organização das Testemunhas.
Os que se juntam à organização por iniciativa própria, sem influência da família, geralmente fazem isso depois de terem vivenciado um trauma recente (por exemplo, a morte de um familiar, um divórcio ou algum outro infortúnio estressante), ficando vulneráveis à mensagem sobre a vida eterna numa Terra paradisíaca, livre de problemas e à promessa de um grupo de amigos verdadeiros agora mesmo. Provavelmente esta situação se aplica à maioria dos que se juntaram à organização depois de adultos. Isso não quer dizer que a pessoa não tenha feito o que aparentemente é uma pesquisa completa. A liderança das Testemunhas de Jeová desenvolveu uma base doutrinária sólida, extraída do protestantismo e do movimento adventista do século 19 e melhorada ao longo dos últimos 150 anos. A doutrina principal é apoiada por alguns trechos bíblicos e é repetida nas publicações à exaustão, com uma apresentação superficial e tendenciosa de conceitos alternativos. Poucas pessoas têm um entendimento teológico profundo o suficiente para compreender por que certos conceitos expressos nas publicações da organização estão totalmente errados.
Ninguém precisa sentir culpa ou vergonha por ter acreditado que essa religião é a “verdade”, visto que na grande maioria dos casos ou a pessoa era muito jovem para fazer uma escolha consciente sobre o que acreditar ou ela se juntou à organização num momento em que estava vulnerável a uma mensagem bem elaborada.
Por que as pessoas continuam acreditando?
Por que muitos permanecem como Testemunhas de Jeová por tanto tempo? Essa pergunta tem intrigado muita gente, visto que nem a inteligência nem a força emocional em si mesmas são fatores que determinam por quanto tempo alguém permanece seguindo essa religião.
A organização das Testemunhas de Jeová é considerada um grupo de alto controle que usa persuasão coercitiva para influenciar as crenças e os comportamentos dos seguidores. Espera-se que uma grande quantidade de tempo seja dedicada ao estudo das publicações da organização, à participação em reuniões e à pregação. Espera-se que a pessoa confie totalmente na liderança da organização e que ela evite escrupulosamente informações questionadoras. Encoraja-se também a convivência social predominantemente com outros membros da organização. Esse isolamento torna muito difícil que um seguidor obtenha informações suficientes para chegar a conclusões alternativas.
Quando uma pessoa encontra motivos para questionar as crenças da organização, outra camada de influência assume o controle: o medo. A liderança das Testemunhas de Jeová difama constantemente o mundo mau e discute as consequências desastrosas para os que decidam abandonar a organização. A iminência do Armagedom e seus horrores são apresentados regularmente. Mesmo que a pessoa perceba que estas não passam de táticas de intimidação, ela ainda terá o receio muito real de ser rejeitada por seus entes queridos que estão na organização, caso decida sair de lá.
É aí que entra a dissonância cognitiva. Dissonância cognitiva refere-se à característica humana de se apegar a uma crença obviamente errada para evitar as consequências de mudar de crença. Essa não é uma escolha consciente, mas sim uma rejeição subconsciente de pontos de vista alternativos como mecanismo de defesa. O medo de ser rejeitado, de ficar sem um sistema de crenças ou de admitir que no final das contas sua vida se baseou em mentiras provoca dissonância cognitiva. É mais fácil abafar qualquer questionamento com justificativas irreais do que enfrentar as consequências de aceitar que seu sistema de crenças fundamental está errado.
Conclusão
É preciso muita consciência para chegar ao ponto de concluir que a religião das Testemunhas não é a “organização de Deus”. Mas o assunto não pára por aí, pois a pessoa se depara com a escolha extremamente difícil de ficar lá ou sair, já que a liderança da organização usa a ameaça de remoção e rejeição como uma arma para forçar a submissão. Não são poucos os que percebem que a liderança das Testemunhas não ensina a “verdade” (como eles alegam o tempo todo), mas se sentem obrigados a fingir que acreditam em tudo o que se ensina lá para evitar a remoção e continuar mantendo contato com a família ou os amigos. Isso não é desonesto, nem um sinal de fraqueza, e sim uma necessidade devido à natureza desonesta e controladora da religião.
Mesmo quando uma pessoa deixa a organização, é comum que ela sinta culpa pela pessoa que ela era e julgue mal seus conhecidos que permaneceram como Testemunhas de Jeová. Nenhuma dessas coisas é saudável. Ninguém precisa sentir essa culpa ou raiva, e não haveria nada produtivo em se por a fazer esse tipo de julgamento. Fazer essas coisas impedirá que a pessoa encontre contentamento na vida. Ninguém pode ser considerado uma pessoa má só por ser — ou ter sido em algum momento — Testemunha de Jeová; o máximo que se pode falar é que certas crenças e práticas dessa religião é que são más e merecem ser rejeitadas.
Independentemente de qual seja a decisão (permanecer na organização mesmo sem acreditar nela ou sair de lá de vez), ninguém deve se envergonhar por ter acreditado algum dia em doutrinas e profecias falsas e confiado cegamente nos homens falíveis do Corpo Governante. Em vez disso, deve-se ter orgulho por ter consciência e força moral suficientes para superar a coerção da organização e tomar decisões na vida com base, não na pressão de outros e sim em conhecimento dos fatos, aceitando plenamente as consequências dessas decisões.