607 AEC ou 587 AEC?

3 

"O que os eruditos dizem" — e o que eles não dizem

Analisamos aqui várias frases de historiadores, que foram citadas nos dois artigos de A Sentinela, em confronto com o que dizem os trechos das publicações onde elas se encontram. As frases em questão aparecem sublinhadas nos scans originais e em negrito nas nossas traduções. 

_________

A Sentinela de 1º de outubro de 2011, pág. 30: 

Parágrafo:

A impressão transmitida com esta citação é que Leo Depuydt disse que a informação histórica no Cânon Real não é confiável. Será que o artigo dele permite essa conclusão?

A nota 6 do parágrafo de A Sentinela é a referência ao Journal of Cuneiform Studies (Revista de Estudos Cuneiformes), Volume 47 (1995), págs. 106 e 107. Este é um trecho do artigo de Leo Depuydt, intitulado "Mais Valioso do Que Todo o Ouro" - O Cânon Real de Ptolomeu e a Cronologia Babilônica. Os scans das duas páginas citadas na revista A Sentinela aparecem a seguir:

 

Tradução da parte A do subtítulo 3, que começa na página 106 e termina na segunda coluna da página 107:

 

3. Observações Práticas Sobre a Seção Babilônica do Cânon

A. É o Cânon Verdadeiro?

Presume-se aqui que a Cânon seja verdadeiro. Até onde chega meu conhecimento, ninguém refutou qualquer aspecto do Cânon com base sólida. Por outro lado, demonstrar a exatidão do Cânon positivamente não é uma coisa fácil. Na vasta rede de fatos e inferências que caracterizam a cronologia do primeiro milênio AC, a exatidão do Cânon é, em certos momentos cruciais, simplesmente aceita como um axioma. Localizar essas junções não é uma coisa pequena. Já por muito tempo se sabe que o Cânon é confiável no aspecto astronômico. As observações datadas de acordo com ele podem ser todas autenticadas. Mas isso não quer dizer que ele seja automaticamente confiável no aspecto histórico.

As relações entre os anos de reinado na coluna 2 e os anos de acordo com a Era na coluna 3 podem ter ficado adulteradas pela tradição na qual se baseia o Cânon. Contanto que um eclipse seja atribuído ao ano egípcio correto, disperso na coluna 3, a utilidade do Cânon para fins astronômicos não seria afetada, qualquer que fosse o rei e o ano de reinado atribuído a um ano de Nabonassar.

Em certa ocasião, a confiabilidade do Cânon era um artigo de fé. Este era o caso, especialmente antes das grandes decifrações, quando nenhuma fonte contemporânea estava disponível; os autores clássicos que escreviam sobre o Oriente Próximo raramente mostravam o grau desejável de exatidão em matérias sobre cronologia.

Por exemplo, Ideler, em seu manual (1825-1826, 1:117), faz a declaração vaga de que muitos estudiosos da cronologia duvidaram da confiabilidade do Cânon, mas ele acha que os historiadores mais perspicazes estão de acordo quanto à importância dele. Uma ocasional falta de confiança no Cânon pode ser notada até mais recentemente. Em sua obra sobre a cronologia da Dinastia Ptolemaica no Egito, Skeat diz que o Cânon é “absolutamente exato – um fato que curiosamente os historiadores não tem estado dispostos a reconhecer” (1969, 3). Só um exame de um escopo muito maior do que esta análise permitiria acalmar todas as dúvidas com relação ao Cânon, ou pelo menos revelar o que devemos exclusivamente ao Cânon e a nenhuma outra fonte.

Nesse meio tempo, uma peça importante de evidência em favor da confiabilidade do Cânon é a da data egípcia do eclipse de 16 de julho de 523 AEC, mencionada no Almagesto V 14, a saber, dia 7 do mês 7 do 7º ano de Cambises, data esta que pode ser combinada com a data babilônica de um eclipse mencionado na tabuinha cuneiforme Camb. 400, a saber, dia 16 do mês 4 do 7º ano de Cambises (Oppert 1891; Parker 1941, 294, nota 26; Pinches 1955, 1477). Ambos os textos mencionam que o eclipse começou cerca de uma hora antes da meia-noite e quais foram suas peculiaridades. O fato de esta data greco-egípcia do Almagesto, que está de acordo com o Cânon, poder ser combinada com a data babilônica num documento babilônico diz pouco para o astrônomo, mas muito para o historiador. Ela faz muito para garantir que a parte do Cânon do período persa em diante é confiável. No que diz respeito aos governantes anteriores, o Cânon precisaria ser comparado com o registros cuneiformes reino por reino, levando-se em consideração todas as datas nas fontes literárias e não-literárias, a fim de estabelecer se, e onde, o Cânon entra em conflito com as fontes cuneiformes. A concordância parece ser a regra, mas isso teria de ser confirmado.”

A leitura atenta do trecho acima, prestando-se atenção ao tom geral dele, deixa claro que Depuydt não estava questionando à revelia a confiabilidade das informações históricas presentes no Cânon. Muito pelo contrário, logo de início ele disse que "ninguém refutou qualquer aspecto do Cânon em base sólida". Mais adiante ele mostra que, embora não haja unanimidade, os historiadores tendem a confiar (não duvidar) da historicidade do documento.

O que ele defende no artigo nada mais é que o rigor científico, a saber, que não se deve aceitar toda e qualquer informação histórica presente no Cânon Real sem confirmação em outras fontes históricas. Quanto mais informações de outras fontes existirem, melhor, e as decifrações de outros escritos têm ajudado a confirmar (não contradizer) o conteúdo do Cânon.

Convém repetir aqui o contexto da segunda frase citada na revista A Sentinela. A declaração de Depuydt, com destaque para o que ele estava realmente enfatizando, diz:

"No que diz respeito aos governantes anteriores, o Cânon precisaria ser comparado com o registros cuneiformes reino por reino, levando-se em consideração todas as datas nas fontes literárias e não-literárias, a fim de estabelecer se, e onde, o Cânon entra em conflito com as fontes cuneiformes. A concordância [com outras fontes históricas] parece ser a regra, mas isso teria de ser confirmado."

 

A citação parcial de duas frases no parágrafo de A Sentinela não transmitiu uma imagem correta sobre o artigo de Depuydt. Na realidade, o que este erudito declarou foi que a passagem do tempo e novas descobertas tendem a confirmar a confiabilidade histórica do Cânon Real, e não negá-la.

 

A Sentinela de 1º de novembro de 2011, pág. 23: 

Parágrafo:

A Sentinela não informa a fonte dessa citação, mas estas frases de R. H. Sack podem ser encontradas em Zeitschrift für Assyriologie und Vorderasiatische Archäelogie, Vol. 68 (1), 1º de janeiro de 1978, cujo scan e tradução do trecho aparecem a seguir:

 

Tradução:

“Os documentos cuneiformes até agora puderam nos dizer muito pouco sobre os importantes eventos que podem ter ocorrido no sul da Mesopotâmia entre os anos 594-557 A.C. Infelizmente, o trabalho de A. K. Grayson não mostra quaisquer “crônicas” ou “excertos” do Museu Britânico que poderiam ter fornecido muita informação desejável sobre os reinados de Nabû-kudurri-usur (Nabucodonosor, no AT), Amel-Marduque (Evil-Merodaque, no AT), Nergal-sarra-usur (Neriglissar, nos Clássicos) e Labasi-Marduk [Labashi-Marduque]. Como resultado, o historiador, por bem ou por mal, é obrigado a examinar as fontes secundárias hebraicas, gregas e latinas (bem como as tabuinhas comerciais cuneiformes datadas) na esperança de determinar o que realmente aconteceu durante este período. Fontes deste tipo, quando colocadas juntas, podem às vezes apresentar imagens intrigantes sobre períodos e personalidades sobre os quais se escreveu relativamente pouco. Esta é a situação com o reinado de Nergal-sarra-usur [Neriglissar], rei de Babilônia entre os anos 560 – 556 A.C. O caso dele é, talvez, o único em que os nossos documentos cuneiformes abordam um tanto extensivamente as atividades dele antes de se tornar rei, ao passo que os comentários secundários fornecem informação que até agora não foi corroborada por qualquer fonte primária de evidência.”

Em primeiro lugar, o que R. H. Sack disse sobre a falta de informação nos documentos cuneiformes, ocasionando que os historiadores tenham de “examinar as fontes secundárias... na esperança de determinar o que realmente aconteceu”, refere-se a um período da história neobabilônica, “entre os anos 594-557 A.C.” Por isso, a ênfase correta dessa frase (citada na íntegra aqui) deveria ter sido colocada nestes trechos grifados:

“... o historiador, por bem ou por mal, é obrigado a examinar as fontes secundárias hebraicas, gregas e latinas (bem como as tabuinhas comerciais cuneiformes datadas) na esperança de determinar o que realmente aconteceu durante este período.”

Enfatizamos: Além de Sack não ter invalidado as fontes primárias, a frase dele foi específica, não genérica.

Em segundo lugar, essa falta de informação referida por ele é “sobre os reinados” em si, não sobre os períodos de reinado. Em parte alguma do livro ele colocou em dúvida a cronologia do governo dos reis que ele menciona (Nabucodonosor, Evil-Merodaque, Neriglissar e Labashi-Marduque). Neste mesmo trecho, o período que ele atribui ao governo de Neriglissar (560 – 556 AC) está de acordo com a cronologia histórica estabelecida.

 

O escritor de A Sentinela selecionou dois trechos de uma frase do livro e omitiu o restante da frase, generalizando um comentário específico do erudito, e fazendo-o “concordar” que as fontes de documentação cuneiforme não servem para estabelecer a cronologia do período neobabilônico inteiro. R. H. Sack nunca afirmou isso.

A Sentinela de 1º de novembro de 2011, págs. 23 e 24:

 

Parágrafo:

Notas 6 e 7:

Os scans das páginas 2 e 3 de Amel-Marduque 562-560 B.C. — Um Estudo Baseado nas Fontes Cuneiformes, do Velho Testamento, Gregas, Latinas e Rabínicas. Com as Tabuinhas, de Ronald H. Sack, (1972) são reproduzidos abaixo:

Tradução:

Capítulo I: As Fontes

a) Fontes Cuneiformes

Os reinados de praticamente todos os monarcas do período neobabilônico são abundantemente comprovados, tanto pela Crônica Babilônica como por numerosas inscrições em edifícios. Para o reinado de Amel-Marduque, porém, não há qualquer documentação. Até agora, só um pequeno número de textos comerciais e uns poucos fragmentos de vasos foram descobertos ou disponibilizados para análise e exame. As inscrições em vasos podem ser abordadas rapidamente, pois elas não servem a qualquer propósito útil a não ser confirmar o fato de que Amel-Marduque foi o filho de Nabucodonosor. Os textos comerciais, por outro lado, são de valor considerável, pois suas especificações de datas habilitam os historiadores a determinar com bastante precisão o período de reinado não só de Amel-Marduque, como também dos outros componentes da dinastia dele. Foi com estas tabuinhas em mãos que Parker e Dubberstein elaboraram a seguinte cronologia:

Nabopolassar 17(?) de maio de 626 15 de agosto de 605
Nabucodonosor 7 de setembro de 605 8 de outubro de 562
Amel-Marduque 8 de outubro de 562 7 de agosto de 560
Neriglissar 13 de agosto de 560 16 de abril de 556
Labashi-Marduque 3 de maio de 556 20 de junho de 556
Nabonido 25 de maio de 556 13 de outubro de 539

Conforme se examina esta lista, a atenção se concentra imediatamente na ocorrência de duas tabuinhas datadas no mesmo dia, uma delas (um texto de Uruque) contendo o nome de Nabucodonosor, e a outra (provavelmente de Sipar) apresentando o nome de seu filho e sucessor, Amel-Marduque. Isso, pelo menos superficialmente, pareceria justificar a conclusão de que o reinado de Amel-Marduque começou em, ou por volta de 8 de outubro de 562. Todavia, dois novos textos não-publicados do Museu Britânico, colocados recentemente à minha disposição, derrubam totalmente esta combinação conveniente. Parte de um texto (que pode ter incluído o nome da cidade na qual ele foi composto) infelizmente está quebrado, mas a maior parte das especificações de datas felizmente se mantiveram. Os textos (números 56 e 79 no conjunto), surpreendentemente estão datados bem claramente nos meses de duzu e abu (ou seja, o quarto e o quinto meses do ano calendar babilônico) do ano de ascensão de Amel-Marduque, e desta forma se sobrepõem claramente no ano final, ou quadragésimo terceiro ano de seu pai, Nabucodonosor. Conforme Parker e Dubberstein já mostraram, os textos continuam a ser datados no reinado de Nabucodonosor durante o mês de ululu (o sexto mês) do último ano dele. Embora a maioria dos contratos conhecidos datados no sexto mês seja do sul (Uruque), ainda assim dificilmente pareceria razoável que levaria bem mais de dois meses até as notícias da morte de Nabucodonosor chegarem a Uruque, vindas de Babilônia (a menos, é claro, que este novo texto datado no mês de duzu venha a levar à conclusão de que ele morreu antes do que se pensava anteriormente). A evidência do ano de ascensão de Neriglissar mais do que nega essa hipótese. Além do mais, a existência de dois textos datados no mesmo dia (8 de outubro de 562), num deles aparecendo o nome de Amel-Marduque e no outro o de Nabucodonosor, indica mais provavelmente que o rei morreu realmente nos primeiros dias de outubro. Em vista desta nova (embora admitidamente diminuta) evidência, parece muito mais provável que um tipo de co-regência existiu antes da morte de Nabucodonosor. Talvez futuras descobertas esclareçam este ponto.

A Sentinela disse:

“... Sack escreveu que novos textos não divulgados do Museu Britânico postos a sua disposição “derrubam totalmente” as conclusões anteriores sobre a transição do reinado de Nabucodonosor II para seu filho Amel-Marduque (também chamado de Evil-Merodaque).” 

Errado. O que Sack disse no livro foi: 

“Todavia, dois novos textos não-publicados do Museu Britânico, colocados recentemente à minha disposição, derrubam totalmente esta combinação conveniente.” 

Que “combinação conveniente”? A que leva à “conclusão de que o reinado de Amel-Marduque começou em, ou por volta de 8 de outubro de 562.” 

A questão aqui se refere inteiramente ao dia e mês em que o reinado de Nabucodonosor terminou e o do filho dele começou. Sack não levantou qualquer dúvida quanto ao ano em que ocorreu essa transição entre os reis. Pelo contrário, ele diz que “os reinados de praticamente todos os monarcas do período neobabilônico são abundantemente comprovados, tanto pela Crônica Babilônica como por numerosas inscrições em edifícios” e que “os textos comerciais... são de valor considerável, pois suas especificações de datas habilitam os historiadores a determinar com bastante precisão o período de reinado não só de Amel-Marduque, como também dos outros componentes da dinastia dele.” Na tabela apresentada logo na primeira página do capítulo (página 2, acima) alistam-se esses períodos de reinado, e o começo e o fim de cada um deles é indicado com precisão de dia e mês. O autor dá toda a evidência de estar de acordo com os anos de início e fim de cada reinado alistado nela. E ele jamais disse que essas duas tabuinhas que estudou “derrubam totalmente” a conclusão de que o fim do reinado de 43 anos de Nabucodonosor (e o começo do reinado de Amel-Marduque) ocorreu no ano de 562 AEC. Por isso, a frase da Sentinela “derrubam totalmente as conclusões anteriores sobre a transição do reinado” é uma citação que erra completamente o alvo.

 

O escritor de A Sentinela selecionou duas palavras de uma frase do livro e as inseriu numa frase de sua própria autoria, fazendo o erudito “dizer” que as tabuinhas econômicas lançam dúvidas sobre os anos de transição entre os reis neobabilônicos. De novo, R. H. Sack jamais afirmou tal coisa.

A Sentinela de 1º de novembro de 2011, pág. 24:

Parágrafo:
Nota 10:

O scan dessa página 61 do livro Nabonido e Belsazar – Um Estudo dos Eventos Concludentes do Império Neobabilônico, de Dougherty aparece a seguir. A frase citada no fim da nota 10 do parágrafo de A Sentinela aparece na nota de rodapé: 

Tradução da nota de rodapé:

Em diversos textos que foram citados, Neriglissar é referido como filho de Bel-Sum-Ichcun. As inscrições reais de Neriglissar confirmam isso, com títulos imponentes atribuídos a Bel-Sum-Ichcun, tais como sar Bâbili ki, ‘rei de Babilônia’, NKI pág. 210, nº. 1, col. I, linha 14; rubû e-im-ga , ‘príncipe sábio’, NKI pág. 214, nº. 2, col. I, linha 11; id-lum-gi-it-ma-lum, ‘herói perfeito’, ibid., linha 12; na-si-ir ma-as-as-ar-tim Ê-sag-ila u Bâbili ki, ‘guardião das fortalezas de Esagila e Babilônia’, ibid., linhas 12 e 13. Com os dados atualmente à nossa disposição, a identificação de Bel-Sum-Ichcun com qualquer soberano conhecido é difícil. Pinches em O Antigo Testamento à Luz dos Registros Históricos de Assíria e Babilônia, pág. 409, sugere que o registro que declara que o pai de Neriglissar era rei de Babilônia está errado. Ticle em Babylonisch-assyrische Geschichte, pág. 465 em diante, expressa o conceito de que Bel-Sum-Ichcun pode ter sido o rei assírio cujo nome terminava com -ishkun; veja I R, pág.8, nº. 6. Sabe-se agora que isso é impossível, porque o nome do rei era na verdade Sin-shar-ishkun. Uma consideração de importância no que se refere a esta questão é a de Schnabel em OLZ XXVIII, 345-349, pois ela fornece uma reconstituição da cronologia do final do império assírio. Todavia, a evidência de que Neriglissar era de linhagem nobre não pode ser desconsiderada, pois ela fornece uma base para sua importância como homem de negócios antes de se tornar rei e explica sua habilidade de fazer uma aliança marital com a casa de Nabucodonosor. A similaridade com a atuação de Nabonido é notável.

A questão é: Será que Dougherty disse ou sugeriu que o pai de Neriglissar, Bel-Sum-Ichcun, tinha sido um rei neobabilônico? De jeito nenhum. O que ele fez foi citar uma série de títulos que as inscrições atribuem a Bel-Sum-Ichcun, mas Dougherty não presumiu em momento algum que ele tenha reinado no império babilônico. Pelo contrário, ele usa a maior parte dessa nota para apresentar questionamentos desta afirmação. (Para os leitores interessados em mais informações sobre Bel-Sum-Ichcun, indicamos novamente o artigo "Existiram Reis Neobabilônicos Desconhecidos?". Há neste artigo uma consideração específica sobre este personagem [no ponto 5.])

A própria frase citada na Sentinela, se for lida na íntegra, não admite essa conclusão:

“... a evidência de que Neriglissar era de linhagem nobre não pode ser desconsiderada, pois ela fornece uma base para sua importância como homem de negócios antes de se tornar rei e explica sua habilidade de fazer uma aliança marital com a casa de Nabucodonosor.”

Todo o objetivo dele em citar esses dados sobre Neriglissar foi explicar de que maneira ele chegou ao trono de Babilônia. Ter “linhagem nobre” não é necessariamente o mesmo que pertencer à casa real. Se Neriglissar tivesse um pai que foi rei em Babilônia, ele teria assumido o trono por direito, sem precisar fazer “aliança marital” alguma. Não haveria porque Dougherty se preocupar em explicar todas essas coisas. Além de não afirmar isso, Dougherty ainda acautelou que “com os dados atualmente à nossa disposição, a identificação de Bel-Sum-Ichcun com qualquer soberano conhecido [do período neobabilônico ou fora dele] é difícil.”

O caso aqui é que o escritor de A Sentinela selecionou uma frase numa nota de rodapé, citou-a parcialmente, desconsiderou tudo o que esse professor universitário disse nesta nota e ainda ignorou o que ele diz em todo o resto do livro. Consideremos os seguintes exemplos pertinentes:

Logo na página 7 de Nabonido e Belsazar, Dougherty escreveu:

 

Tradução (exceto as notas de rodapé):

II

LISTAS DE REIS NEOBABILÔNICOS

As fontes cuneiformes que tratam das atividades de Nabonido e Belsazar se tornaram disponíveis como textos decifrados dentro dos últimos setenta e cinco anos. Antes da descoberta e tradução dos registros em argila, o conhecimento referente às ações e realizações dos reis neobabilônicas era escasso. Como Heródoto e Xenofonte fornecem poucos detalhes exatos, Megástenes, Beroso, Alexandre Polyhistor, Cláudio Ptolomeu, São Jerônimo e Sincelo são as principais fontes não-cuneiformes de informação. Um procedimento científico exige a consideração dos dados cronológicos gerais, antes de se introduzir evidência cuneiforme mais particular. A tabulação que segue permite uma comparação das diferentes listas de reis neobabilônicos que são conhecidas até o presente momento. Para efeito de um arranjo lógico, a crônica babilônica, embora descoberta em tempos comparativamente recentes é apresentada primeiro.

1. Reis Neobabilônicos segundo os Textos Cuneiformes

Nabopolassar
21 anos
626/625-605 A.C.
Nabucodonosor
43 anos
605-562 A.C.
Amel-Marduque
2 anos
562-560 A.C.
Neriglissar
4 anos
560-556 A.C.
Labashi-Marduque
Alguns meses
556 A.C.
Nabonido
17 anos
556-539 A.C.

 

 

 

Depois de apresentar esta primeira lista de reis neobabilônicos, Dougherty apresentou outras sete listas nas páginas 8 a 10 do livro. Depois da oitava lista, na página 10, ele escreveu: 

Tradução (exceto a nota marginal):

Das listas de reis neobabilônicos acima, a primeira é baseada em mais de dois mil documentos cuneiformes datados. Isso deve, desta forma, ser aceito como o critério final na determinação das questões cronológicas neobabilônicas, a maioria das quais estão associadas com eventos que ocorreram no sexto século A.C. Julgados por este padrão incontestável, os escritos de Heródoto, do quinto século A.C. e os de Xenofonte, da primeira parte do quarto século A.C. carecem de verdadeira perspectiva histórica no que se refere a uma enumeração ordenada das listas de reis neobabilônicos. Os registros de Megástenes, os próximos na linha do tempo, são deficientes em virtude de ele não fazer qualquer menção de Nabopolassar, o fundador da dinastia, e não dar qualquer informação sobre quanto tempo cada rei governou. Foi só no terceiro século A.C. que a lista de Beroso apareceu, dentro de um verdadeiro contexto babilônico e, desta forma, com considerável exatidão. Polyhistor, do primeiro século A.C., alista todos os reis, exceto Labashi-Marduque e afirma de maneira precisa quanto tempo cada rei governou, com exceção do período que ele indica para o reinado de Amel-Marduque. Ptolomeu, do segundo século A.D., difere de Polyhistor somente por apresentar o número correto de anos do reinado de Amel-Marduque. São Jerônimo, que pertence principalmente ao quarto século A.D., exclui Nabopolassar de sua lista e registra a tradição bíblica referente a Belsazar. Em termos de uma verdadeira cronologia, ele deixa a desejar, pois não menciona a duração de nenhum reinado, exceto o de Nabucodonosor. Sincelo, do oitavo século A.D., dá atenção especial ao período neobabilônico em sua pesquisa histórica, que é baseada em dados astronômicos e eclesiásticos. Assim como Polyhistor e Ptolomeu, ele omite o nome de Labashi-Marduque em suas listas. Ao especificar a duração dos reinados, ele atribui períodos variados a Amel-Marduque, Neriglissar e Nabonido.

O simples exame da lista apresentada na página 7 mostra que Dougherty estava de pleno acordo com o que a evidência documental cuneiforme indica para a cronologia dos reis neobabilônicos. Os períodos de reinado que ele especificou lá são os mesmos que os historiadores defendem até hoje. E em nenhuma das oito listas que apresenta nestas páginas 7 a 10 de seu livro, Dougherty incluiu o nome de Bel-Sum-Ichcun (o pai de Neriglissar) entre os reis neobabilônicos. Isso deixa definitivamente claro que ele jamais aventou a hipótese de este homem ter sido rei de Babilônia. Portanto, de novo o escritor de A Sentinela fez uma citação deturpada desse erudito, com objetivos escusos.

Recordemos aqui o que a revista A Sentinela de 1º de outubro de 2011 havia dito na página 29:

Nada mais longe da verdade. Só o trecho acima, do livro do professor Dougherty, já é suficiente para derrubar essa afirmação. Enfatizemos aqui o que ele disse no livro:

“Das listas de reis neobabilônicos acima, a primeira é baseada em mais de dois mil documentos cuneiformes datados. Isso deve, desta forma, ser aceito como o critério final na determinação das questões cronológicas neobabilônicas, a maioria das quais estão associadas com eventos que ocorreram no sexto século A.C.”

Como se vê acima, depois de chamar a documentação cuneiforme de “critério final”, ele ainda prossegue destacando que estas fontes cuneiformes constituem um “padrão incontestável”, sendo muito superiores aos escritos dos historiadores clássicos, citando vários deles por nome e mostrando detalhadamente onde os registros deles apresentaram contradições e erros. Em termos simples, Dougherty dispensaria completamente esses escritos dos historiadores clássicos para estabelecer alguma cronologia.

Outra colocação pertinente dele, na página 7, é que “um procedimento científico exige a consideração dos dados cronológicos gerais, antes de se introduzir evidência cuneiforme mais particular.” Ele definiu o que já apresentamos como a maneira correta de se estabelecer uma cronologia histórica. Os “dados cronológicos gerais” devem ser levados em conta, antes de se considerar qualquer informação específica. Está completamente errado um pesquisador que pretende ser levado a sério fazer o contrário disso, fixando-se numa data de sua predileção, tentando de todas as maneiras encontrar alguma evidência cronológica para ela, e depois obrigando a história a se “adaptar” àquela data, ignorando todo o resto das evidências, apresentando informação limitada (e ainda de maneira tendenciosa) e deturpando o que a Bíblia e os eruditos dizem. São estes os métodos usados o tempo todo na revista A Sentinela, com o objetivo de defender a data de 607 AEC para a destruição de Jerusalém.

 

O escritor de A Sentinela selecionou uma frase de uma nota de rodapé do livro e usou-a para fazer R. P. Dougherty “dizer” que existiram outros reis neobabilônicos além dos apresentados pela história estabelecida. Ele jamais disse isso, e defendia o método científico para se lidar com cronologia.

A Sentinela de 1º de novembro de 2011, página 25:

Parágrafo:
Nota 15:

O parágrafo lança uma pergunta, que é imediatamente respondida. A resposta “Não necessariamente” é do escritor de A Sentinela, e ele responde isso antes de citar qualquer palavra do erudito. Daí, o parágrafo apresenta algumas frases do livro dele, com o intuito de confirmar essa resposta. 

As fotocópias das páginas 93, 94, 95 e 101 do livro de Van Der Spek são mostradas abaixo. A tradução do texto do subtópico (páginas 93 a 95, destacado com uma seta vermelha), dentro do qual estão as frases citadas na revista aparece em seguida:

Os Diários Astronômicos Como Uma Fonte para a História do Período Selêucida e Aquemênida – R. J. van der Spek, Bibliotheca Orientalis, páginas 93, 94, 95 e 101: 

 

Tradução do subtópico (páginas 93 a 95, exceto as notas marginais):

 

As seções históricas como parte dos Diários

Os Diários também contêm informação importante que não tem nada que ver com astronomia, a saber, relatórios sobre os preços de mercadorias e sobre eventos históricos. Ambos são, naturalmente, muito úteis para o estudo da história. A informação sobre preços é de importância primária para o estudo da história econômica. Os preços são mencionados no fim de cada seção mensal e são válidos para o mês inteiro, mas às vezes ocorrem mudanças nos preços durante o mês, e estas são registradas. Se as mercadorias não estavam à venda de maneira alguma (por exemplo, como conseqüência de guerra), isso era também registrado: mahiru paris “as vendas foram suspensas”. A maneira como os preços eram registrados é um tanto confusa para o pesquisador moderno. Ao passo que poderíamos esperar uma frase do tipo: ‘o preço de um quilo de cevada era n reais’, a informação era dada de outra maneira: mencionam-se as unidades de capacidade ou de peso (no caso da lã) de várias mercadorias que poderiam ser compradas com um quilo de prata. As mercadorias listadas são: cevada, tâmaras, mostarda (kasu), agrião, gergelim e lã.

Com muita freqüência, inclui-se informação histórica no fim de um relatório anual. Mencionam-se batalhas de reis, visitas de reis ou de oficiais reais ao templo, ofertas trazidas por eles, e também eventos evidentemente de muito pouca importância, tais como menções de que “cinco cachorros cercaram uma cadela” (no. -207, linha 17 do anverso).

À primeira vista, o propósito de registrar estes dados muito diferentes parece difícil de entender. Recentes estudos, porém, mostraram que os Diários Astronômicos constituíam uma espécie de livro-texto e uma fundamentação para a divinação, por exemplo, um livro-texto para horóscopos e agouros. Às vezes, a relação entre a terminologia dos Diários e dos chamados textos de predições é notável, como é demonstrado por F. Rochberg-Halton. A astrologia era também usada para previsões do tempo, o que poderia explicar a presença de relatórios meteorológicos nos diários. Até os preços de mercadorias estavam sujeitos às predições astrológicas, como se pode deduzir de um texto babilônico posterior, de Uruque. Assim, os eventos históricos mencionados nos diários, não são registrados devido ao interesse histórico, e sim para propósitos astrológicos e ‘divinatórios’. Os compiladores eram astrólogos, não historiadores. Isso explica o fato de que as seções históricas, como Hunger indica na Introdução dele (pág. 36), “são notavelmente desiguais: às vezes eles registram eventos de importância passageira da cidade de Babilônia, em outros casos eventos de importância política”. A razão para o registro de eventos históricos provavelmente era para apresentar uma relação entre os eventos do céu e da terra. Os eventos da terra poderiam ser tanto uma vitória do rei em alguma batalha, como também o fato de que “cinco cachorros cercaram uma cadela”. Ambos os tipos de ‘eventos históricos’ tinham sua importância nos augúrios, o que explica por que ambos são mencionados nos diários.

Presume-se freqüentemente que os diários eram também usados como (uma das) fonte(s) para os compiladores das crônicas babilônicas. A nova edição dá nova evidência para essa ideia. Naturalmente, isso não anula a ideia de Grayson de que os compiladores da crônica tinham seus próprios interesses e realmente trabalhavam sem um interesse realmente histórico.

As seções que registram eventos históricos são, naturalmente um assunto de maior importância para a avaliação dos desenvolvimentos históricos. Elas devem, porém, ser usadas com cautela em vista do seu propósito como material para pesquisa astrológica, mencionado acima. Mas, ainda num outro aspecto a posição geográfica dos compiladores dos diários determinava a substância da informação. Os compiladores viviam em Babilônia, eram associados com o templo e estavam mais bem informados sobre a situação em Babilônia e seu templo. A informação de importância política com freqüência tinha de vir de longe. No período selêucida, o núcleo do império mudou gradualmente para Antioquia sobre o Orontes e o rei com freqüência estava em campanha militar em regiões distantes. Assim a informação era mais ou menos casual e isso é às vezes expresso na fórmula introdutória: ITU BI al-te-e um-ma “nesse mês, eu ouvi o seguinte”: (por exemplo No -168 A14). Todavia, a desigualdade na maneira de relatar, conforme mencionado por Hunger é também evidente em outro aspecto. Em alguns diários, os registros de eventos históricos ocorrem com freqüência, mas em outros não temos qualquer informação por muitos anos consecutivos. Parece que nem todos os compiladores estavam interessados em eventos históricos da mesma maneira. Às vezes se faz uma observação dispersa, às vezes temos um relatório completo, como no relatório de 14 linhas sobre a Primeira Guerra Síria (no. -273, ‘ver. 29’-39’; UE 1-3). O reinado de Antíoco IV é muito bem registrado.

É bem evidente que não é possível tratar de todas as seções históricas numa simples resenha. Elas merecem uma abordagem extensa em publicações independentes, por isso eu me limitarei a poucos comentários sobre alguns pontos que chamam a atenção.

Tradução do último parágrafo da página 101:

 

Deve-se falar muito mais sobre a informação histórica nos diários, mas isso iria além do escopo desta resenha. Espero voltar a essas questões levantadas aqui em estudos independentes. Os casos só foram apresentados para dar uma ideia da importância do material. Temos de ser muito gratos pelo aparecimento destes importantes livros.

 

Amsterdã, abril de 1992
R. J. VAN DER SPEK

 

Considerando-se as declarações do erudito, dentro do seu devido contexto, pergunta-se: Será que ele questionou a confiabilidade das informações históricas registradas nas tabuinhas? Disse ele que as informações registradas ‘não são necessariamente exatas’? A resposta a estas duas perguntas tem de ser: “Em momento algum.” 

O objetivo dele em mencionar que “os compiladores eram astrólogos, não historiadores”, não foi colocar em dúvida a veracidade dos registros. Ele falou isso para explicar que o interesse dos que faziam esses registros era astrológico, visando a “apresentar uma relação entre os eventos do céu e da terra”. Isso não é o mesmo que dizer que os eventos “da terra” tinham sido inventados pelos astrólogos. A interpretação que o astrólogo dava ao evento, ou que relação ele achava que esse evento na terra poderia ter com os “eventos do céu” (“os astros”) é outra questão. Mas o fato é que os eventos ocorridos na terra (sejam os politicamente importantes, tais como a vitória dum rei numa batalha, sejam os de importância nenhuma, tais como “cinco cachorros cercando uma cadela”) tinham ocorrido mesmo. Eles não eram fruto da imaginação dos astrólogos. 

Dizer que as informações históricas nesses diários “devem ser usadas com cautela” não é o mesmo que dizer que elas ‘não são necessariamente exatas’ e devem ser rejeitadas. A cautela no uso (não na rejeição, bem entendido) é necessária, não pelo fato de as informações históricas ‘não serem necessariamente exatas’, e sim “em vista do seu propósito como material para pesquisa astrológica”. 

O mesmo vale para a frase “a informação era mais ou menos casual”. O erudito disse isso para explicar que o interesse do registrador da informação, a situação no momento do registro e até a posição geográfica do registrador faziam variar a substância (ou quantidade) de informação histórica registrada na tabuinha. A variação era na quantidade, não na qualidade. Ele jamais disse que esses diferentes fatores envolvendo os registradores afetavam a veracidade da informação histórica registrada. 

Se o historiador Van Der Spek tivesse um conceito tão baixo assim sobre as informações históricas registradas nos diários astronômicos de Babilônia, e as achasse tão indignas de crédito como o escritor de A Sentinela dá a entender, ele jamais teria dito no livro que os diários são “muito úteis para o estudo da história”, que eles “merecem uma abordagem extensa em publicações independentes”, que “deve-se falar muito mais sobre a informação histórica nos diários” e que “temos de ser muito gratos pelo aparecimento destes importantes livros”. Estas declarações, bem como a evidente disposição de dedicar tempo para estudar os diários a fundo não poderiam vir de alguém que pensa que as informações históricas no material ‘não são necessariamente exatas’ e devem ser descartadas ao primeiro sinal de dúvida.

 

O escritor da revista A Sentinela selecionou cuidadosamente três frases dispersas e se serviu delas para fazer o erudito “apoiar” o menosprezo da revista ao valor das informações históricas registradas nas tabuinhas astronômicas. O historiador Van Der Spek não compartilha de modo algum esse conceito.

 

A Sentinela de 1º de novembro de 2011, pág. 28 (grifo acrescentado):

O artigo “As Antigas Observações Datáveis da Aurora Boreal”, de F. R. Stephenson e David M. Willis, referido nesta nota, é citado em outras obras. Reproduzimos abaixo trechos deste artigo, conforme aparecem na revista Astronomy & Geophysics, Volume 45 (dezembro de 2004), págs. 6.15 e 6.16:

 

Tradução:

1: O reverso da tabuinha babilônica (VAT 4956) que contém o registro da aurora em 567 AC (Staatliche Museen, Berlim/Olaf M TeBmer)

Tradução do abstrato:

“Os antigos textos astronômicos babilônicos, descobertos no local de Babilônia (32,5º N, 44,4° E) há mais de um século, contêm o que é provavelmente o mais antigo relato confiável da aurora boreal. Uma tabuinha de argila que registra numerosas observações celestes feitas por astrônomos oficiais durante o 37º ano do reinado de Nabucodonosor II (568/567 AC) descreve um “brilho vermelho” incomum no céu à noite; a data exata dessa observação corresponde ao de uma noite de 12/13 de março de 567 AC. A interpretação mais provável do fenômeno é que isso foi o aparecimento de uma aurora. Este evento ocorreu vários séculos antes da primeira observação claramente identificável da aurora em outra parte do mundo, a saber, a China em 193 AC. A observação da aurora em Babilônia é notável no sentido de que ela faz parte de uma série de observações astronômicas cuidadosamente registradas, sendo que para cada uma delas o ano, o mês e o dia são conhecidos com exatidão. Esta observação ocorreu num momento em que a latitude geomagnética (dipolar) de Babilônia era de aproximadamente 41º N em comparação com o valor atual de 27,5º N, sugerindo que havia uma maior incidência da aurora em Babilônia no ano 567 AC do que no presente.”

A nota 18a do artigo de A Sentinela fala em “datas calendares” associadas aos grupos de três medições lunares (“lunar threes”), cita o artigo dos dois eruditos e em seguida aparece a frase “Essas medições não eram confiáveis.”

Incluir tal frase neste contexto é absolutamente desencaminhante. A Sentinela não só deixa de informar os leitores qual era a data em questão no artigo citado, como contradiz frontalmente os eruditos. No artigo, eles apresentaram a data de 12/13 de março de 567 AEC (não 587 AEC, como defende A Sentinela) e se referiram a esta como uma “data exata”, sendo a observação “provavelmente o mais antigo relato confiável da aurora boreal”, e que ela “faz parte de uma série de observações astronômicas cuidadosamente registradas, sendo que para cada uma delas o ano, o mês e o dia são conhecidos com exatidão.” O que diz esse sumário traduzido acima reflete o conteúdo do artigo deles. Em parte alguma desse artigo eles afirmaram taxativamente que “as medições não eram confiáveis”.

 

A frase "Essas medições não eram confiáveis" é de responsabilidade exclusiva dos escritores da revista A Sentinela. Os historiadores F. R. Stephenson e David M. Willis não fizeram esta declaração. O artigo deles diz o contrário, e justamente em relação a uma das datas históricas estabelecidas pela VAT 4956.

 

Conforme já vimos, nem todos os eruditos citados na Sentinela são vivos. Já consideramos o uso que a revista fez das palavras de alguns eruditos tais como Neugebauer e Weidner (no final da Parte 2 - O Que os Documentos Realmente Mostram) e R. P. Dougherty (acima). Sendo estes três autores já falecidos, naturalmente não poderiam expressar uma palavra de protesto perante a organização religiosa que publica a revista A Sentinela e abusou dessa maneira do trabalho deles. 

Mas, e quanto aos eruditos que estão vivos no momento em que escrevemos esta análise? As citações de alguns foram também consideradas acima. Sabe-se também como eles encararam essas referências. Na página seguinte, apresentam-se declarações que dois deles emitiram, após verificarem o conteúdo dos dois números de A Sentinela:

O QUE DOIS ERUDITOS DISSERAM SOBRE OS ARTIGOS DE A SENTINELA

 

Em resposta a uma pesquisadora que o contatou, o Dr. John Steele declarou:

From: Steele, John [N.T.: O e-mail pessoal foi omitido, a pedido dele]
To: marjoriealley [E-mail omitido]
Date: Fri, Sep 2, 2011 9:32 am

Dear Ms Alley,

Thank you for your email concerning the citation of my work in the recent Watchtower article. As you suggest the author of this piece is completely misrepresenting what I wrote, both in what they say about the lunar three measurement, and in what I say about the possibility of retrocalculation of eclipses (my comments on the latter were restricted to a distinct and small group of texts which are different to the Diary they are discussing). Just glancing through the Watchtower article I can see that they have also misrepresented the views of other scholars by selective quotation out of context.

I've looked at the date of VAT 4956 on several occasions and see no possibility that it can be dated to anything other than the conventional date.

Regards,

John Steele

Tradução: Obrigado por seu e-mail referente à citação do meu trabalho no artigo recente da Sentinela. Conforme você sugere o autor deste trecho está representando de maneira completamente deturpada o que eu escrevi, tanto no que eles dizem sobre as medidas dos lunar threes [as trincas de posições lunares], como no que eu digo sobre a possibilidade de cálculos retroativos de eclipses (meus comentários quanto a estes últimos se restringiram a um grupo específico e pequeno de textos que são diferentes do Diário que eles estão considerando). Com um simples olhar geral no artigo da Sentinela, posso ver que eles deturparam também as opiniões de outros eruditos, por selecionar citações fora do contexto.

Verifiquei a data da VAT 4956 em várias ocasiões e não vejo qualquer possibilidade de que ela possa ser fixada em qualquer outra data que não a convencional [568 / 567 AC].

Outro erudito, o Dr. Ronald Sack, expressou enfaticamente sua desaprovação à maneira como seu trabalho foi citado. Respondendo a outro correspondente, ele disse:

From: Ronald Sack [email omitido]
To: XXXXXXXXXXX [email omitido]
Sent: Thu, Sep 8, 2011 3:22 pm

The Watchtower article is a lie. The correct date is 587. I have NEVER been interviewed of this subject.

Ron Sack

 

Tradução: O artigo da Sentinela é uma mentira. A data correta é 587. Eu NUNCA fui entrevistado sobre este assunto.

Daí, atendendo à solicitação do correspondente, ele autorizou a postagem da resposta acima na internet:

Please post my response. People should know how much falsehood is associated with the Watchtower article. Thanks.

Ron Sack

 

Tradução: Por favor, poste minha resposta. As pessoas devem saber quanta falsidade está associada com o artigo da Sentinela. Obrigado.

 

Tendo em vista a análise contextualizada das frases citadas nas revistas, e também as manifestações de eruditos que estão vivos no momento em que escrevemos esta análise, a conclusão é que esses dois artigos da revista A Sentinela sobre cronologia não fizeram outra coisa senão deturpar completamente os conceitos de todos os eruditos que foram citados.  

Esta flagrante manipulação de evidências dificilmente poderia servir para comprovar a teoria cronológica defendida nos dois artigos. Pelo contrário, é uma afronta aos padrões morais de qualquer leitor (seja ele Testemunha de Jeová ou não). É também uma ofensa à inteligência do público (erudito ou não), além de revelar ainda uma completa falta de respeito pelo trabalho de todos esses historiadores vivos e falecidos.