Os Líderes das Testemunhas de Jeová e a Especulação Cronológica

As crenças originais sobre cronologia

A organização Torre de Vigia afirma que, apesar das muitas predições fracassadas, ela não é um falso profeta. Por exemplo, a revista A Sentinela de 15 de março de 1986 disse na página 19:

Por fim, poderíamos considerar o que a Sociedade publicou no passado sobre a cronologia. Alguns opositores [Veja o encaixe] afirmam que as Testemunhas de Jeová são falsos profetas. Esses opositores dizem que se fixaram datas, mas que nada aconteceu… Sim, o povo de Jeová, de vez em quando, teve de revisar expectativas… Mas, demonstramos nossa fé na Palavra de Deus e nas suas promessas seguras por proclamar a sua mensagem a outros. Além disso, a necessidade de revisarmos um pouco nosso entendimento não nos torna falsos profetas,… Quão tolo é adotar a atitude de que as expectativas que precisam dum ajuste lancem dúvida sobre todo o conjunto da verdade! É clara a evidência de que Jeová tem usado e continua a usar a sua única organização, com o “escravo fiel e discreto” tomando a dianteira.

“Alguns opositores”?

Via de regra as publicações da organização desencorajam fortemente que as Testemunhas de Jeová examinem e analisem por si mesmas os questionamentos originários de pessoas que foram dessa religião no passado. Esse desencorajamento chega praticamente ao nível duma proibição. Os “opositores” (com frequência chamados de “apóstatas”) são sempre retratados nos piores termos, qualquer escrito proveniente deles deve ser prontamente descartado ou destruído pelas Testemunhas e qualquer discussão desses assuntos é terminantemente cerceada entre elas. Todavia, a maneira como as publicações da organização fazem referências a esses questionamentos (como o da cronologia e muitos outros), mostra que as pessoas que redigiram estas publicações estão realmente a par do que os dissidentes publicam. Quando abordam isso, o que eles fazem em muitos casos é apresentar à comunidade das Testemunhas apenas fragmentos de informação (geralmente introduzidos por frases vagas, tais como ‘alguns opositores afirmam isso ou aquilo…’). Além de esses questionadores jamais serem identificados (pelo menos não enquanto estão vivos), os questionamentos deles são apresentados fora do contexto e as “respostas” da organização são cuidadosamente embaladas em contra-argumentação tendenciosa, que nunca responde ao que foi realmente questionado. Esse rígido controle da informação torna muito difícil que as Testemunhas de Jeová conheçam os fatos sobre a história e a doutrina de sua própria organização.

A pergunta para este parágrafo 15 era:

Em vez de as Testemunhas de Jeová serem falsos profetas, o que prova que elas têm fé na Palavra de Deus e nas promessas seguras dela?

A única resposta admitida e aceita neste estudo de A Sentinela é que as Testemunhas de Jeová não são falsos profetas porque proclamam a mensagem de Deus para outros, e há evidência clara de que Jeová está apoiando a Torre de Vigia. Mas essa evidência não foi apresentada e, com relação à importância de declarar a mensagem de Deus para outros, deve-se ter em mente o que diz Deuteronômio 18:20-22. Em termos simples, o parágrafo não respondeu à acusação de que os líderes das Testemunhas de Jeová são falsos profetas.

O livro Raciocínios à Base das Escrituras (1989) disse na página 160:

Os apóstolos e outros primitivos discípulos cristãos tinham certas expectativas erradas, mas a Bíblia não os classifica como “falsos profetas”. — Veja Lucas 19:11; João 21:22, 23; Atos 1:6, 7.

Esta afirmação é certamente verdadeira, mas os textos a que se fez referência mostram que essas expectativas foram mal-entendidos que Jesus tratou de esclarecer imediatamente. Além disso, os discípulos que tiveram essas idéias jamais obrigaram outros a acreditar em suas expectativas por expulsar da comunidade qualquer um dos seus irmãos que não compartilhasse essas expectativas erradas.

Pesquisando Sem Temor

A matéria deste artigo foi compilada de acordo com o princípio estabelecido num dos livros da Torre de Vigia:

Precisamos examinar não só o que nós mesmos cremos, mas também o que é ensinado pela organização religiosa com que talvez nos associemos. Estão os seus ensinos em plena harmonia com a Palavra de Deus ou baseiam-se em tradições de homens? Se amarmos a verdade, não precisamos temer tal exame. Cada um de nós deve ter o desejo sincero de aprender a vontade de Deus para nós e depois fazê-la. (A Verdade Que Conduz à Vida Eterna, pág. 13, Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados de Nova Iorque, Inc., Brooklyn, Nova Iorque, revisão de 1981.)

Se alguém realmente acredita nestas palavras, não deveria ter medo de examinar ideias que podem entrar em conflito com o que a Torre de Vigia diz sobre determinados assuntos. Essa pessoa jamais iria querer estar entre aqueles descritos por Jean-Paul Sartre como os que “uma vez que têm medo de raciocinar… querem adotar um modo de vida em que o raciocínio e a pesquisa só desempenham um papel secundário, no qual o indivíduo não procura nada além do que já encontrou.” (Existencialismo, Religião e Morte: Treze Ensaios, Walter Kaufman, New American Library, Nova Iorque, 1976.)

No mesmo espírito, a contracapa da revista Despertai! de 8 de julho de 1991 disse, ao fazer uma propaganda do livro O Homem em Busca de Deus:

A maioria das pessoas só conhece a religião de seus pais, e isso, muitas vezes, apenas superficialmente. Deveria a sua religião ser simplesmente aquela em que nasceu? Ou deveria fazer uma escolha inteligente, por comparar a sua religião com outras?

Aqui as pessoas são claramente incentivadas a que ‘comparem sua religião com outras’ e não presumam que sua religião é automaticamente verdadeira só pelo fato de terem nascido nela.

Da mesma forma, A Sentinela de 15 de junho de 1985, páginas 11, 12 dá bons conselhos para os cristãos de reflexão:

Provérbios 2:4, 5, diz: ‘Se continuares a buscar isso como a tesouros escondidos, acharás o próprio conhecimento de Deus.’ O contexto desta passagem fala sobre a necessidade de procurar as “declarações”, os “mandamentos”, a “sabedoria”, o “discernimento” e a “compreensão” da parte de Jeová. Buscar tesouros requer esforço e perseverança. Exige cavar fundo. O mesmo se dá quando se busca “o próprio conhecimento de Deus”, o “discernimento” e a “compreensão” das coisas. Também requer aprofundar-se bem, ou penetrar abaixo da superfície das coisas… Devemos ser realmente gratos pelo aprofundamento espiritual feito pela classe do “escravo” para tornar cada vez mais claros “os propósitos mais profundos e escondidos de Deus”…

Mas isso não isenta cada cristão individual da responsabilidade de se aprofundar na Palavra de Deus, com o fim de entender a plena profundeza dos pensamentos explicados. Isto envolve procurar os textos mencionados. Significa ler as notas ao pé das páginas, nos artigos da Sentinela, algumas das quais indicam ao leitor uma publicação mais antiga, que fornece uma explicação mais plena de certa passagem ou profecia. Isso requer maior aprofundamento, fazer esforço para localizar essa publicação mais antiga e depois estudar as páginas mencionadas. (Grifos acrescentados).

Num contexto diferente, a revista A Sentinela de 15 de fevereiro de 1973 fez uma pergunta relevante na página 121:

‘Conheço plenamente a história do povo de Deus?’

Esta série de artigos examina as publicações da Torre de Vigia e sua história em busca da verdade. Isto é apropriado porque 1 João 4:1 diz:

Amados, não acrediteis em toda expressão inspirada, mas provai as expressões inspiradas para ver se se originam de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo afora. (Grifo acrescentado).

Por isso, é obrigação de cada cristão testar expressões que afirmam ser inspiradas.

Este material foi escrito no espírito de pesquisar profundamente nas publicações da Torre de Vigia, com o objetivo de entender como esta organização pode alegar não ser um falso profeta, apesar de suas muitas previsões que falharam.

Identificando Um Falso Profeta

Primeiramente, é preciso definir os termos. Segundo a enciclopédia Estudo Perspicaz das Escrituras, Volume 3, pág. 332, a “profecia” é uma

Mensagem inspirada; revelação da vontade e do propósito divinos, ou a proclamação destes. A profecia pode ser um ensinamento moral inspirado, a expressão duma ordem ou dum julgamento divino, ou a declaração de algo por vir. Conforme mostrado sob PROFETA, predição ou prenúncio não é a ideia básica transmitida pelas raízes verbais nas línguas … contudo, constitui um aspecto notável das profecias bíblicas… contudo, constitui um aspecto notável das profecias bíblicas… A Fonte de toda profecia verdadeira é Jeová Deus.

Um “profeta”, segundo este mesmo Volume 3, pág. 336, é

Alguém por meio de quem se dá a conhecer a vontade e o propósito divinos.

E um profeta verdadeiro pode ser distinguido dum falso da seguinte maneira (pág. 338):

Os três elementos essenciais para se confirmar as credenciais do profeta verdadeiro, conforme fornecidos por Moisés, eram: o profeta verdadeiro falaria em nome de Jeová; as coisas preditas ocorreriam (De 18:20-22); e seu profetizar tinha de promover a adoração verdadeira, estando em harmonia com a palavra e os mandamentos revelados de Deus (Deu 13:1-4).

Portanto, há três padrões que um profeta deve satisfazer; o fracasso em satisfazer qualquer um deles faz dessa pessoa um falso profeta. De modo que um falso profeta pode ser uma pessoa que preencha os seguintes critérios:

1) Primeiro ela alega ser um profeta;

2) Em seguida, ela fala em nome de Deus e faz previsões;

3) Por fim, essas previsões falham.

Deuteronômio 18:20-22 contém a definição divina de um falso profeta e como as pessoas deveriam encarar a tal:

‘No entanto, o profeta que presumir de falar em meu nome alguma palavra que não lhe mandei falar ou que falar em nome de outros deuses, tal profeta terá de morrer. E caso digas no teu coração: “Como saberemos qual a palavra que Jeová não falou?” quando o profeta falar em nome de Jeová e a palavra não suceder nem se cumprir, esta é a palavra que Jeová não falou. O profeta proferiu-a presunçosamente. Não deves ficar amedrontado por causa dele.’ (Grifo acrescentado).

A revista A Torre de Vigia de 15 de maio de 1930, páginas 153-155 (em inglês), descreveu um profeta verdadeiro e um falso:

Um profeta é uma pessoa que professa proclamar uma mensagem de Jeová Deus. A Bíblia revela o fato de que há tanto profetas verdadeiros como falsos. O profeta verdadeiro é aquele que sempre fala como porta-voz de Deus. Sua mensagem é a verdade, e é destinada a ser uma bênção para seus ouvintes. Ele nunca é arrogante, e sempre dá o crédito a Deus pela mensagem que proclama e, portanto, sempre tem a aprovação divina. Um falso profeta é uma pessoa que alega ser um representante de Jeová para falar em seu nome e anunciar sua mensagem, mas é na verdade o porta-voz de Satanás. Um falso profeta não tem a aprovação de Jeová, e sua mensagem tem sempre a intenção de enganar as pessoas e atraí-las para longe de Deus e do estudo de sua Palavra.

Um falso profeta fala aquilo que é contrário à vontade de Deus; ele zomba, contradiz e nega a mensagem dos verdadeiros profetas de Deus. Não importa se ele proclama sua mensagem de maneira deliberada, intencional e maliciosa, com o objetivo de enganar, ou se ele é um joguete cego e iludido de Satanás e, portanto, usado por ele de modo involuntário. Em todo caso, ele é um falso profeta …

Uma vez que a Bíblia foi completada e a “inspiração” não é mais necessária, um profeta verdadeiro é aquele que está proclamando fielmente o que está escrito na Bíblia… Mas, pode-se perguntar: Como vamos saber se a pessoa é um verdadeiro ou um falso profeta? Há pelo menos três maneiras pelas quais podemos decidir terminantemente: (1) Se ele for um profeta verdadeiro, sua mensagem irá se cumprir exatamente como foi profetizada. Se ele for um falso profeta, sua profecia vai deixar de ocorrer… A diferença entre um profeta verdadeiro e um falso é que um deles está declarando a palavra do Senhor e o outro está declarando seus próprios sonhos e palpites… O profeta verdadeiro de Deus hoje vai antecipar o que a Bíblia ensina, e as coisas que a Bíblia nos diz que em breve ocorrerão. Ele não proclamará teorias feitas pelo homem ou suposições, sejam as suas ou as de outros …. No Novo Testamento, e em nossos dias, a palavra “profeta” tem um sentido semelhante ao da nossa palavra “instrutor”, significando um expositor público. Assim, quando a expressão “falso profeta” é utilizada, teremos o pensamento correto, se tivermos em mente um falso instrutor.

A revista Despertai! de 22 de abril de 1969, página 23, ao falar sobre a alegação da Torre de Vigia de que a Bíblia indica que estamos vivendo nos “últimos dias” desde 1914, declarou:

Ainda assim, algumas pessoas talvez digam: “Como podem estar seguros disso? Talvez já seja mais tarde do que muitas pessoas imaginam. Mas talvez não seja tão tarde quanto algumas pessoas afirmam ser. As pessoas se enganaram quanto a essas profecias antes?” … É verdade, houve aqueles que, em tempos passados, predisseram um ‘fim do mundo’, até mesmo anunciando uma data específica. Alguns ajuntaram grupos de pessoas a eles e fugiram para as colinas ou se retiraram para suas casas, aguardando o fim. (Veja o encaixe). Todavia, nada aconteceu. O ‘fim’ não veio. Eram culpados de profetizar falsamente. Por quê? O que estava faltando?

“Alguns…”?

Anuário das Testemunhas de Jeová de 1983, página 120, contém o seguinte trecho: “Durante a Primeira Guerra Mundial, o pequeno grupo de irmãos italianos passou por um período de provas e purificação semelhante ao que ocorreu em outras partes do mundo. Em 1914 alguns Estudantes da Bíblia, como eram então chamadas as Testemunhas de Jeová, esperavam ser “arrebatados em nuvens, para encontrar o Senhor no ar”, e criam que seu trabalho terreno de pregação havia chegado ao fim. (1 Tes. 4:17) Um relato ainda existente diz: “Um dia, alguns deles foram para um lugar isolado a fim de esperar o evento ocorrer. Entretanto, quando nada aconteceu, foram obrigados a voltar novamente para casa num estado mental bem deprimido. Como resultado, muitos destes caíram da fé.” (Grifos acrescentados). É verdade que nem todos os Estudantes da Bíblia que viviam na época chegaram a esse extremo de se retirarem para um lugar isolado, como fizeram esses italianos, mas está errada a afirmação (presente em diversas publicações da Torre de Vigia) de que eram apenas “alguns Estudantes da Bíblia” que aguardavam o fim do mundo em 1914. Ao falar dos eventos relacionados com o início da Grande Guerra na Europa naquele ano, o Anuário de 1975 (que contém a história das Testemunhas de Jeová na Alemanha) disse na página 78: “O irmão Grabenkamp, de Lübbecke, dissera aos filhos: “Bem, meus meninos, chegou a hora!” e seus irmãos em todo o mundo pensaram e falaram palavras similares. Aguardavam estes eventos, sim, não só isso, haviam recebido a ordem de Jeová de anunciá-los a outros. Sabiam que estas coisas seriam simples precursores de indescritíveis bênçãos de Jeová para a humanidade.”

Compare estas declarações com as declarações acima, da revista A Torre de Vigia de 15 de maio de 1930, e com o que a organização afirmou que iria ocorrer em 1914 e 1925 (que será considerado à frente neste artigo). A revista Despertai de 1969, citada aqui, continuava dizendo:

Faltava a plena medida de evidência exigida em cumprimento da profecia bíblica. O que tais pessoas não tinham eram as verdades de Deus e a evidencia de que Ele as guiava e usava.

O livro O Paraíso Restabelecido Para a Humanidade – Pela Teocracia! (lançado em português em 1974), páginas 354, 355, disse:

Jeová, o Deus dos verdadeiros profetas, envergonhará todos os falsos profetas quer por não cumprir a predição falsa de tais pretensos profetas, quer por cumprir Suas próprias profecias de modo oposto ao que os falsos profetas predisseram. Os falsos profetas procurarão ocultar seus motivos de sentir vergonha por negar quem realmente são. (Grifo acrescentado).

As Predições Originais: A Cronologia de Russell

Quais eram as crenças dos Estudantes da Bíblia sobre a cronologia no início?

As publicações mais antigas dos Estudantes da Bíblia enfatizavam a urgência dos tempos, afirmando que Cristo voltou em 1874 e que em 1914 ele destruiria todos os reinos do mundo. O livro de 1877, escrito por N. H. Barbour e financiado por C. T. Russell, intitulado Os Três Mundos e a Colheita Deste Mundo, continha a base para a cronologia posterior de Russell e para muitas de suas doutrinas. Observemos estes trechos:

O FIM DESTE MUNDO, ou seja, o fim do evangelho e o começo da era milenar está mais próximo do que a maioria dos homens supõe; na verdade já entramos no período de transição, que deverá ser um “tempo de tribulação, tal como nunca houve, desde que existe nação” (Daniel 12:1)… [Pág. 17].

No mundo por vir, a primeira era, ou a milenar, será uma de 1000 anos, e é introduzida pelo “tempo de tribulação”, mencionado tantas vezes nas Escrituras. Há uma evidência muito conclusiva de que este tempo de tribulação deve continuar por 40 anos; e já começou; e que “os corações dos homens estão [já no começo] ficando desalentados de temor e na expectativa das coisas que estão vindo sobre a terra”. [Pág. 18]

A organização do capital contra o trabalho, o aumento das pessoas se defendendo, a derrocada da lei e da ordem, a derrubada dos “tronos” e dos governos, e “um tempo de tribulação, tal como nunca houve, desde que existe nação”; são todos preditos claramente nas Escrituras como eventos que antecedem a era milenar de glória. E os sinais da proximidade de grandes eventos são tão evidentes que todos estão impressionados com a sombra escura da tribulação por vir.

As nações estão perplexas, e estão se preparando para uma luta terrível; enormes engenhos de guerra estão sendo multiplicados pela terra e pelo mar; milhões de homens estão em armas, e ainda assim, seus números estão aumentando, enquanto as pessoas estão ficando desesperadas e assustadas.

Quando a luta começar, como logo deverá, uma bola será posta em movimento antes que “todos os reinos do mundo, que estão sobre a face da terra, sejam derrubados”; e, segundo as Escrituras, um cenário selvagem de desolação e de terror resultará…

Que o milênio deverá ser introduzido, ou precedido pelas mais terríveis e desoladoras guerras que o mundo já testemunhou, é tão claramente revelado, que não existe a menor margem para o crente na Bíblia questionar. Muitos textos podem ser citados como prova, mas alguns serão suficientes: “Porque são espíritos de demônios, que fazem prodígios; os quais vão ao encontro dos reis da terra e de todo o mundo, para os congregar para a batalha, naquele grande dia do Deus Todo-Poderoso.” (Rev. 16:14). [Pág. 19]

No presente momento os reinos deste mundo pertencem aos gentios por um direito concedido por Deus, e eles não se tornam “os reinos de nosso Senhor e do seu Cristo”, até que os “tempos dos gentios se completem”; nem a guerra e a opressão cessam até então, pois Cristo diz: “Jerusalém será pisada pelos gentios, até que o tempo dos gentios se cumpram” (Lucas 21:24). [Pág. 20].

O reino de Deus deve ser estabelecido antes que terminem os dias dos gentios, pois “nos dias desses reis, o Deus do céu estabelecerá um reino, e ele esmiuçará e consumirá todos estes reinos” (Dan. 2:44). E este esmagamento, juntamente com a batalha do grande dia, são alguns dos eventos destes 40 anos de tribulação [iniciados em 1874]. [Pág. 26]

Embora não haja qualquer evidência direta de que ao final de seis mil anos desde a criação de Adão, o “segundo” Adão deva começar a nova criação, ou restituição de todas as coisas; ainda há muita evidência indireta…

O conjunto de evidências que sincroniza com o fato de que os seis mil anos já terminaram [em 1873], é absolutamente surpreendente, para quem se der ao trabalho de investigar. [Págs. 67, 76]

Note-se como esta linguagem é similar à que a Torre de Vigia usa hoje para descrever “o tempo do fim” e as condições atuais. Note-se também a semelhança do raciocínio sobre o fim dos 6.000 anos desde Adão com o que a Torre de Vigia publicou no começo de 1966, com relação a 1975. É fácil ver, no material que segue, como as opiniões expressas em Os Três Mundos foram transferidas para a revista A Torre de Vigia de Sião, que C. T. Russell começou a publicar em 1879.

Logo na primeira edição de A Torre de Vigia de Sião, de julho de 1879, declarou-se na página 1 o objetivo de sua publicação:

Que estamos vivendo “nos últimos dias” – “os dias do Senhor” – “o fim” da era do Evangelho e, conseqüentemente, no alvorecer da “nova” era, são fatos perceptíveis não só pelo estudante sério da Palavra, guiado pelo espírito, mas os sinais exteriores reconhecíveis pelo mundo dão o mesmo testemunho.

A edição de A Torre de Vigia de agosto de 1879, páginas 2, 3 descreveu seu conceito da “presença” (parousia) de Cristo:

Cremos que as Escrituras ensinam que, no momento de sua vinda e por um tempo depois que vier, Ele permanecerá invisível; manifestando-se ou mostrando-se depois disso em julgamentos e de várias formas, de modo que… “todo olho O verá.” Achamos que temos boas e sólidas razões para crer… que estamos agora “nos dias do Filho”; que “o dia do Senhor” veio, e Jesus, um corpo espiritual, está presente, efetuando a colheita da era do Evangelho.

Quando foi que a “presença” de Cristo teve início? A edição de A Torre de Vigia de outubro de 1879 afirmou na página 4:

Cristo veio na condição de um noivo em 1874… no início da colheita do Evangelho.

A Torre de Vigia de abril de 1880 disse na página 2, com relação à parábola das dez virgens de Mateus 25:

“Eis que estou à porta e bato…” … A presença e a batida começaram no outono de 1874.

O número de agosto de 1880 de A Torre de Vigia disse na página 2 sobre a “presença” de Cristo:

Levou 1841 1/2 anos do início de nossa era do Evangelho no dia de Pentecostes (33 A.D.), até o início da nossa “colheita”, no outono de 1874, quando a nossa “palavra profética assegurada” o anuncia como novamente presente, mas agora no plano superior, um corpo espiritual invisível, segando ou colhendo a casa espiritual.

Daí, este número da revista, evidentemente falando do rompimento de Russell com J. H. Paton, descreveu na página 3 o que aconteceria com aqueles que não concordassem com a versão de Russell da “luz” sobre a “presença” de Cristo:

Estes que antes se regozijavam na luz da “palavra profética assegurada” que nos mostra a presença de nosso Senhor como o “Noivo”, “Segador” e “Rei”, que nos prova que os “tempos da restituição de todas as coisas começou em 1874”, e que, portanto, “os céus” que deveriam recebê-lo até essa época, agora não mais o recebem, mas que ele está presente, e que em breve, quando a separação do joio e do trigo estiver completa, “seremos mudados para  Sua gloriosa semelhança e o veremos como Ele é.” Tudo, toda essa luz eles perderam, e agora ficaram na condição da escuridão lá fora, a condição de escuridão quanto ao assunto da presença do Senhor, na qual o mundo e uma igreja mundana sempre ocupou.

O número de julho de 1880 de A Torre de Vigia descreveu nas páginas 1 e 3 algo sobre o que estava para ocorrer durante o “tempo de angústia”, e quando ele deveria ser:

A maioria de nossos leitores talvez esteja ciente de que nosso entendimento da palavra nos leva à conclusão de que “O tempo de tribulação” ou “Dia da ira”, que abrange os 40 anos de 1874 a 1914 é dividido em duas partes ou é de dois tipos: primeiro um tempo de tribulação sobre a igreja durante o qual ela (a igreja nominal) cairá de sua atual posição de influência e respeito perante o mundo, e muitos vão cair da verdade e da fé. Esta tribulação sobre a igreja e também o fato de que estaremos nela, porém protegidos e seguros é mostrado pelo Salmo xci… A tribulação que vem sobre o mundo virá depois da tribulação sobre a igreja como uma consequência natural e é a segunda parte da tribulação do “Dia da ira”. Será que os santos estarão aqui durante a continuação da tribulação sobre o mundo? Não, lembremo-nos de que Jesus disse: “Vigiai, pois, em todo o tempo, orando, para que possais escapar de todas estas coisas que hão de acontecer, e estar em pé na presença do Filho do homem.” Esta é uma gloriosa expectativa, de que nos ajuntemos ao nosso Cabeça vivo – Cristo, e entremos em Seu reino antes do derramamento das taças da ira sobre o mundo…

Concluímos que o dia da ira está incluído na colheita do Evangelho, e, consequentemente, que a era e a colheita se estende até 1914, cobrindo um intervalo de 40 anos a partir da primavera [setentrional] de 1875…

Reescrevendo a História

A organização Torre de Vigia diz que nenhuma outra organização foi bem-sucedida em prever 1914 como um ano decisivo na profecia bíblica e na história humana. O livro Do Paraíso Perdido ao Paraíso Recuperado disse na página 170:

“A matéria para leitura, publicada pelas testemunhas, era diferente da de todas as outras religiões. Por quê? Porque as testemunhas diziam que o ano de 1914 seria de importância mundial. No número de março de 1880 da revista “A Sentinela” em inglês disseram: “Os Tempos dos Gentios estendem-se até 1914, e o reino celestial não dominará plenamente até então.” Dentre tôdas as pessoas, apenas as testemunhas apontavam para 1914 como o ano em que o reino de Deus seria plenamente estabelecido no céu.”

No entanto, esta é uma citação incompleta, como o seguinte trecho mostra. O número de março de 1880 de A Torre de Vigia de Sião, havia dito na página 2:

“Os Tempos dos Gentios estendem-se até 1914, e o reino celestial não dominará plenamente até então, mas como uma “Pedra” o reino de Deus é estabelecido “nos dias desses reis (os 10 reis gentios)”, e ao consumi-los torna-se um reino universal – um “grande monte que enche a terra inteira.”

É evidente que o resto da citação prova que Russell não predisse que o Reino de Deus seria estabelecido no céu, em 1914, e sim que seria estabelecido na terra, por volta de 1914, e que em 1914 tudo estaria completamente finalizado. A matéria citada abaixo mostra que não é possível que Russell acreditasse que o Reino de Deus seria estabelecido no céu em 1914, porque ele acreditava que o Reino já havia sido estabelecido no céu em 1878. Isto é mostrado adicionalmente pela declaração no livro O Tempo Está Próximo, 1889, página 77, referente a 1914:

… nessa data o Reino de Deus, pelo qual o Senhor nos ensinou a orar, dizendo: “Venha o Teu Reino”, terá obtido controle total, universal, e daí ele será então “firmado” ou firmemente estabelecido, na terra.

Para confirmar ainda mais que este era o conceito de Russell, a edição de julho de 1880 de A Torre de Vigia, na página 4, foi bem inflexível na afirmação de que em 1914 o “dia da ira” estaria terminado:

Será que alguns cujas lâmpadas brilham fortemente com a luz da verdade sobre os Tempos dos Gentios, e o tempo de tribulação ou o dia da vingança com o qual terminam estes tempos, afirmariam que o dia da ira se estende além de 1914? Afirmar isso é ignorar o paralelismo entre os dois dias da ira, ou admitir que Cristo recebe sua coroa antes da subjugação das nações neste dia da ira.

O número de agosto de 1880 de A Torre de Vigia, na página 2, também disse que praticamente tudo estaria terminado até 1914. Haveria um período de 33 anos de tribulação – formando com os 7 anos anteriores um período de 40 anos de tribulação ou o “Dia da ira” terminando com os tempos dos gentios, em 1914, quando o reino de Deus [que logo seria estabelecido ou elevado ao poder] destroçaria e consumiria todos os reinos da terra.

A edição destacou também a urgência dos tempos, dizendo que as igrejas muito em breve seriam destruídas, na página 3, em um artigo intitulado “E Se Apressa Muitíssimo”:

Na edição de outubro (1879) de A Torre de Vigia no artigo intitulado “O Dia do Senhor” – e na edição de novembro, no artigo intitulado “Babilônia Caiu”, expressamos o nosso conceito do “tempo de tribulação” e nos esforçamos a provar biblicamente que ele começou com a igreja e primeiro resultará na derrocada completa da igreja nominal, protestante e católica, por infidelidade e espiritualismo, e depois, atingirá e derrubará governos nacionais. Muitos estavam inclinados a fazer pouco de nossas declarações, etc., e expressaram sua crença de que a tribulação sobre as nações era a única coisa que deveríamos esperar. Nossos conceitos expressos então, são confirmados em nós diariamente, e estamos mais do que nunca convencidos da veracidade deles …. Nós incluímos os trechos seguintes para mostrar aos nossos leitores que a tormenta já começou, e que outros estão observando o cumprimento que nunca notou as profecias: –

Alistam-se então várias citações para mostrar que as igrejas já estavam experimentando sérios problemas.

A revista A Torre de Vigia de novembro de 1880 disse na página 1 que havia “prova conclusiva” para o conceito de Russell sobre a presença de Cristo. Fazendo uma consideração sobre partes do Apocalipse, a revista disse:

Não precisamos repetir aqui as evidências de que a “sétima trombeta” começou a ser soada em 1840 A.D. e vai continuar até o fim do tempo de tribulação, e o fim dos “tempos dos gentios”, 1914 A.D., e essa é a tribulação deste “Grande dia”, que é aqui simbolicamente chamado de voz do arcanjo, quando ele começa a libertação de Israel carnal. “E naquele tempo se levantará Miguel, o grande príncipe [Arcanjo], que se levanta a favor dos filhos do teu povo, e haverá um tempo de angústia, qual nunca houve, desde que houve nação.” Dan. xii. 1. Nem vamos aqui apresentar novamente a prova bíblica conclusiva de que nosso Senhor veio para sua Noiva, em 1874, e tem um trabalho invisível como Ceifeiro dos primeiros frutos desta Era do Evangelho.

A edição de maio de 1881 de A Torre de Vigia de Sião, página 5, considerou as crenças daquele momento sobre o que poderia acontecer no outono de 1881, e resumiu as crenças sobre as profecias cronológicas:

Cremos que todas as profecias relacionadas a tempo (referentes à vinda de Jesus) terminaram por volta e antes do outono de 1874, e que Ele veio lá, e o segundo advento está em andamento agora e vai prosseguir por toda a era milenial. Acreditamos que a presença dele será revelada aos olhos dos homens de entendimento gradualmente durante este “Dia do Senhor” (quarenta anos – de 1874 a 1914), assim como está sendo agora para os nossos; com a diferença que nós discernimos isso por meio da palavra da profecia revelada pelo Espírito, e eles reconhecerão a sua presença por meio do seu julgamento sobre a Sião nominal, e o Mundo.

A edição de janeiro de 1886 de A Torre de Vigia enfatizou a urgência dos tempos:

A perspectiva no começo do Ano Novo tem algumas particularidades muito encorajadoras. As evidências externas são de que a marcha das hostes para a batalha do grande dia do Deus Todo-Poderoso está em andamento, enquanto as escaramuças estão começando…

O tempo chegou para o Messias assumir o domínio da terra e derrubar os opressores e arruinadores da terra (Apocalipse 19:15 e 11:17,18) preparando o estabelecimento da paz eterna sobre o único alicerce firme da justiça e da verdade.

A maior parte das Testemunhas de Jeová entende que os cálculos que levam a 1914 como o fim dos “Tempos dos Gentios”, e como o ano em que Cristo estabeleceu invisivelmente seu reino nos céus são exclusividade da organização Torre de Vigia. Na guarda interna de sua capa, o livro As Testemunhas de Jeová no Propósito Divino, de 1959, contém estas declarações:

1870 – Charles Taze Russell começa seu estudo da Bíblia com um pequeno grupo de associados.

1877 – O livro “Os Três Mundos” é publicado, identificando a data de 1914 como o fim dos “Tempos dos Gentios”.

A impressão que se dá aqui, bem como na maior parte das outras publicações da Torre de Vigia, é que o livro Os Três Mundos (que foi escrito por N. H. Barbour e Russell apenas financiou) foi a primeira publicação a conter esse ensino sobre 1914.

Mas isso não é verdade. Em 1823, John Aquila Brown publicou uma explicação praticamente idêntica à que acabou sendo adotada pela Torre de Vigia, exceto que Brown disse que os 2.520 anos iam de 604 AC a 1917 DC. Ele predisse que, em seguida, “a plena glória do reino de Israel seria aperfeiçoada”, mas ele não aplicou os “tempos dos gentios” aos 2.520 anos. Ele ensinou também que os 2.300 dias de Daniel capítulo 12 terminariam em 1844. Uma forma deste ensinamento foi adotada por William Miller e seus seguidores, que predisseram o fim do mundo em 1843-1844, e que iniciaram o movimento do Segundo Advento.

Depois do fracasso das expectativas para 1844, o movimento de Miller se dividiu em várias seitas, uma das quais por fim se formou em torno de N. H. Barbour. Barbour refez os cálculos de Brown e apresentou o período de 606 AC a 1914 DC (na verdade, isto era um erro de cálculo, pois este período é de apenas 2.519 anos. A Torre de Vigia usou esse cálculo até 1943, quando 606 foi alterado para 607 no livro A Verdade Vos Tornará Livres, páginas 238 e 239, usando uma explicação incorreta e dissimulada.) Barbour publicou pela primeira vez a data de 1914 em sua revista Arauto da Manhã, em setembro de 1875.

Na edição de 15 de julho de 1906 de A Torre de Vigia, C. T. Russell relatou como Barbour e outros convenceram-no em 1876 de seus ensinamentos sobre 1914. Russell tornou-se editor-assistente do Arauto da Manhã até julho de 1878. Esta revista, e depois a revista de Russell, A Torre de Vigia de Sião e Arauto da Presença de Cristo, publicaram também que o ano 1873 foi o fim de 6.000 anos da história humana e 1874 foi o início da presença invisível de Cristo. Entre os grupos adventistas relacionados, a doutrina da presença invisível surgiu na verdade como decorrência do fracasso da predição do retorno de Cristo em 1874, feita por Barbour e outros, conforme será mostrado a seguir. A doutrina permitiu-lhes dizer, assim como William Miller já havia feito antes, que eles tinham esperado “a coisa errada na hora certa”. Esta explicação foi depois adotada pela organização Torre de Vigia para explicar o fracasso de suas previsões originais para 1914.

A Torre de Vigia gostaria que seus seguidores pensassem que C. T. Russell e alguns outros acreditavam desde cerca de 1870 que Cristo voltaria de forma invisível. Por exemplo, o livro As Testemunhas de Jeová no Propósito Divino, baseando suas afirmações no artigo da mencionada edição de A Torre de Vigia de 15 de julho de 1906 (que foi reproduzida no número de 1º de junho de 1916) disse nas páginas 14, 15:

MARIA: Não é verdade, porém, que, enquanto a maioria dos que esperavam a segunda presença de Cristo esperavam um retorno físico, havia alguns que acreditavam que Cristo não estaria visível nesta segunda presença?

JOÃO: Sim. Por exemplo, havia George Storrs, de Brooklyn, que publicava uma revista chamada “O Examinador da Bíblia” e que olhava para a data de 1870; H. B. Rice, que publicava A Última Trombeta, também olhando para 1870, e um terceiro grupo, desta vez de desapontados segundo adventistas, olhando para 1873 ou 1874. Este grupo era liderado por N. H. Barbour, de Rochester, Nova Iorque, editor de O Arauto da Manhã…

Além deste ponto na narrativa, nada se fala sobre segunda presença invisível de Cristo até o relato seguinte sobre a formação das crenças de Russell:

Assim se passaram os anos de 1868 a 1872. Os anos seguintes, até 1876, foram anos de crescimento contínuo na graça e no conhecimento, por parte de um punhado de estudantes da Bíblia com quem eu me reunia em Allegheny. Nós progredimos de nossas primeiras idéias imaturas e indefinidas sobre a Restituição a um entendimento mais claro dos detalhes; mas o tempo devido de Deus para a luz clarear ainda não tinha chegado.

Conforme o relato mostra, foi durante essa época que estes estudantes da Bíblia passaram a reconhecer a diferença entre o Senhor como “o homem que se entregou”, e o Senhor que viria novamente como criatura espiritual. Eles aprenderam que as criaturas espirituais podem estar presentes e ainda assim invisíveis para os homens. Como resultado deste entendimento avançado –

Sentimo-nos grandemente pesarosos pelo erro dos Segundo Adventistas, que aguardavam Cristo na carne e pelo ensino de que o mundo e tudo nele, exceto os Segundo Adventistas seria queimado em 1873 ou 1874, e cuja cronologia, desapontamentos e idéias toscas em geral quanto ao objetivo e à maneira de sua vinda trouxeram mais ou menos vitupério sobre nós e sobre todos que ansiavam e proclamavam seu vindouro Reino.

Estes conceitos errados, mantidos de forma tão generalizada, tanto sobre o objetivo como sobre a maneira do Segundo Advento de Cristo, levaram-me a escrever um panfleto: “O Objetivo e a Maneira da Volta do Senhor”, do qual cerca de 50.000 cópias foram publicadas.

Note-se que estas citações não indicam com precisão quando, entre 1872 e 1876, Russell chegou ao seu entendimento da presença invisível de Cristo. A evidência é boa, embora inconclusiva, de que este novo entendimento só passou a existir depois do fracasso das predições dos Segundo Adventistas para 1874, das quais Russell estava bem ciente.

Para mostrar isso, note-se primeiramente que a edição de outubro / novembro de 1881 de A Torre de Vigia de Sião, página 3, descreveu como foi que, usando a parábola das dez virgens, N. H. Barbour tinha discernido que Cristo deveria retornar visivelmente como o “Noivo” em 1874, e a revista descreve o resultado quando isso não ocorreu:

Cremos que um irmão, Barbour, de Rochester, foi o vaso escolhido de Deus por meio de quem o “Grito da Meia-Noite”, destinado às virgens adormecidas de Cristo,… provando que a noite da parábola durou trinta anos, e que a manhã foi em 1873, e o Noivo devendo aparecer nessa manhã em 1874… O irmão Barbour começou a pregar a mensagem, e logo iniciou um jornal, que ele apropriadamente chamadou de “O Grito da Meia-Noite” [em inglês]…

Quando 1874 chegou e não havia qualquer sinal externo de Jesus nas nuvens literais e de forma carnal, houve um reexame geral de todos os argumentos sobre os quais o jornal “O Grito da Meia-Noite” se baseava. E quando não se encontrou qualquer erro ou falha, isso levou ao exame crítico das Escrituras que pareciam falar sobre a maneira da vinda de Cristo, e logo se descobriu que a expectativa de Jesus na carne, no segundo advento era o erro… Logo, também, um exame crítico de Mateus 24:37 e Lucas 17:26, 30 revelou que eles ensinam positivamente que “na presença” de Cristo, “em seus dias”, o mundo ignoraria o fato, e estaria enfronhando em seus afazeres, como de costume…

Portanto, ficou evidente que, embora a maneira como eles esperavam Jesus estava errada, ainda assim o tempo, conforme indicado pelo “O Grito da Meia-Noite”, estava correto, e o noivo chegou no outono  [setentrional] de 1874, e ele apareceu para os olhos da fé – visto pela luz da lâmpada – a Palavra.

Assim, há evidência clara de que o grupo liderado por N. H. Barbour não esperava que Cristo viesse invisivelmente em 1874, e sim na carne.

Tentaremos agora descobrir quando foi que Russell começou a acreditar que o retorno de Cristo deveria ser invisível. O livro As Testemunhas de Jeová no Propósito Divino, página 18, dá a impressão de que isso ocorreu algum tempo antes do fracasso das expectativas de Barbour para 1874:

Você lembrará que o grupo de estudo de Russell tinha vindo a perceber que quando Cristo voltou, não seria na carne, como os Segundo Adventistas usualmente acreditavam e ensinavam. O Pastor Russell tinha aprendido que quando Jesus viesse, ele seria tão invisível como se um anjo tivesse vindo.

Note-se que isto não quer dizer rigorosamente quando foi que Russell veio a acreditar que o retorno de Cristo seria invisível. Isto porque não existem documentos disponíveis para mostrar isso. A Torre de Vigia diz que O Objetivo e a Maneira da Vinda de Nosso Senhor foi publicado em 1873, mas há uma questão real quanto à verdadeira data da publicação. Nenhuma edição de A Torre de Vigia de Sião fornece a data. Não existem cópias que apresentem uma data de publicação anterior a 1877, quando uma edição foi publicada pelo Arauto da Manhã, editado por N. H. Barbour. Além disso, segundo P. S. L. Johnson, que foi o líder de um grupo que se separou em 1918, o próprio Russell afirmou que veio a aceitar a doutrina da presença invisível de Cristo em outubro de 1874. Era por volta de outubro de 1874 que Barbour e outros grupos estavam esperando o retorno de Cristo, e Russell estava muito bem ciente de alguns destes, tendo estado intimamente associado com vários grupos do Segundo Advento, como os de George Storrs e Jonas Wendell. Ele também estava apercebido de que as expectativas tinham fracassado.

Uma peça adicional de evidência pode ser vista numa declaração contida na própria publicação Objetivo e Maneira, o que indica fortemente que ela não foi escrita depois de Russell e Barbour terem se encontrado em 1876, momento em que Russell aceitou praticamente toda a cronologia de Barbour. Na página 62, a publicação diz:

Mas não é meu objetivo neste panfleto chamar sua atenção de forma mais indivisa para o tempo do segundo advento do que eu fiz acima, ao responder a algumas das principais objeções à investigação do mesmo. (Aos interessados ​​em conhecer as evidências quanto ao tempo, gostaria de fazer referência ao Dr. N. H. Barbour, editor do “Arauto da Manhã”, Rochester, Nova Iorque). Eu acrescento simplesmente que estou profundamente impressionado, e acho, com boa evidência bíblica, que o Mestre veio e está agora inspecionando os convidados para o casamento. (Mat. 22:11) Que a colheita está em progresso, a separação (mental) entre o trigo e o joio agora em curso, e que os dois no campo, no moinho e celeiro podem ser separados fisicamente a qualquer momento, as virgens sábias irem para o casamento, e a porta para o chamado ser fechada para sempre.

Uma vez que esta edição de 1877 de Objetivo e Maneira não está rotulada nem como revisão, nem como reimpressão, e foi publicado pelo “Escritório do Arauto da Manhã”, Rochester, N. I., parece provável que Russell não tinha publicado qualquer versão anterior dela. Outra evidência de que Objetivo e Maneira foi impresso pela primeira vez bem depois de 1873 é que Russell fez referência nele ao Arauto da Manhã, de Barbour. O Arauto da Manhã só começou a ser publicado em junho de 1875, e seu antecessor, O Grito da Meia-Noite e Arauto da Manhã deixou de ser publicado em outubro de 1874. Porém, a mais forte evidência de que Russell não o publicou antes de outubro de 1874 é que ele disse que “o Mestre veio e… a colheita está avançando”, o que só poderia ter sido dito depois do começo da colheita, “em outubro de 1874”. Se Objetivo e Maneira tivesse sido publicado em 1873, Russell teria dito “o Mestre está prestes a vir e… a colheita está para começar.”

Na verdade havia muitos, tanto na Grã-Bretanha como nos Estados Unidos da América que acreditavam em doutrinas como a chamada “vinda em dois estágios”, a ideia da presença invisível de Cristo antes de sua revelação no fim do mundo atual, e o ensino de um arrebatamento invisível dos santos durante a sua presença ou parousia – todas estas sendo idéias apresentadas em Objetivo e Maneira. Na verdade, esses conceitos foram originados em 1828 por Henry Drummond, um evangélico britânico que, com Edward Irving, foi co-fundador da Igreja Católica Apostólica ou os Irvingitas. Mais tarde, muitas idéias de Drummond foram popularizadas e se espalharam pela Grã-Bretanha e Estados Unidos por John Nelson Darby da Irmandade de Plymouth, e por vários outros pregadores. Os vários grupos que defendiam essas idéias vieram a ser conhecidos como dispensacionalistas. Alguns nomes bem famosos na religião americana estão associados com eles: J. B. Rotherham, um tradutor da Bíblia; o bem conhecido comentarista bíblico W. E. Vine; e o comentarista C. I. Scofield, da famosa Bíblia de Referência Scofield. Os conceitos dispensacionalistas deles são claramente evidentes em suas obras. Veja As Raízes do Fundamentalismo: O Milenarismo Britânico e Americano 1800 – 1930, de Ernest R. Sandeen, Editora da Universidade de Chicago, 1970.

O livro TJPD prossegue dizendo na página 18:

Daí, em 1876, enquanto o Pastor Russell estava na Filadélfia, numa viagem de negócios, ele adquiriu uma cópia do jornal O Arauto da Manhã, o qual, como você deve lembrar, estava sendo publicado por N. H. Barbour, de Rochester, N. I. Ele ficou surpreso e satisfeito que aqui estava outro grupo que esperava a volta de Cristo de maneira invisível e, por causa da similaridade de seus conceitos, ele leu mais essa publicação, embora ele a tenha reconhecido como um periódico adventista, muito embora até aquele momento ele havia tido pouca consideração pelas doutrinas deles. Mas Russell estava interessado em aprender em qualquer lugar, o que quer que Deus tivesse para ensinar. Ele ficou interessado na cronologia estabelecida no jornal e entrou imediatamente em contato com Barbour para marcar uma reunião à custa de Russell, para considerar este assunto.

Parece que uma pessoa do grupo de Barbour havia adquirido uma tradução Diaglott do “Novo Testamento”, de Benjamin Wilson. Ele notou, em Mateus 24:27, 37, 39, que a palavra traduzida como “vinda” na Versão Rei Jaime é traduzida como “presença” na Diaglott. Esta foi a pista que levou o grupo de Barbour a defender, além de seus cálculos de tempo, uma presença invisível de Cristo.

Note-se que o leitor não é informado que esta ‘revelação’ só ocorreu depois do fracasso da predição original de Barbour. Na verdade, o leitor não é informado em parte alguma que a previsão de Barbour tinha fracassado.

Russell tinha estado primeiramente interessado no objetivo do retorno de Cristo. Sua percepção de que ele seria invisível o levava agora a considerar seriamente as características cronológicas. Ele ficou satisfeito com as evidências apresentadas por Barbour.

Compare a descrição acima, com o relato do próprio Russell sobre como o grupo de Barbour decidiu que o retorno de Cristo tinha sido invisível, como mostrado acima em A Torre de Vigia de outubro/novembro de 1881. Note também a descrição em A Torre de Vigia de 1º de junho de 1916, págs. 170, 171, que o livro TJPD só citou. A mesma informação apareceu em A Torre de Vigia de Sião de 15 de julho de 1906, págs. 229-31:

Ansioso por aprender, de qualquer fonte, o que quer que Deus tivesse a ensinar, escrevi imediatamente ao Sr. Barbour, informando-o sobre minha concordância com outros pontos e desejando saber especificamente por que e com base em que evidências bíblicas ele sustentava que a presença de Cristo e a colheita da era do Evangelho datava a partir do outono [setentrional] de 1874. A resposta mostrou que minha suposição estivera correta, ou seja, que os argumentos referentes ao tempo, cronologia, etc., eram os mesmos que os usados pelos Segundo Adventistas em 1873, e explicou que o Sr. Barbour e o Sr. J. H. Paton, de Michigan, um colaborador dele, haviam sido Segundo Adventistas ativos até aquela época; e que, com a passagem da data de 1874 sem que o mundo fosse queimado e sem que eles vissem Cristo na carne, ficaram por algum tempo aturdidos. Eles tinham examinado as profecias referentes ao tempo que tinham aparentemente deixado de se cumprir e não conseguiram achar qualquer falha, e começaram a se indagar se o tempo estava certo mas suas expectativas erradas, — se os conceitos da restituição e bênção para o mundo, que eu mesmo e outros estávamos ensinando, não poderiam ser as coisas a se esperar. Parece que, não muito tempo depois do desapontamento deles quanto a 1874, um leitor do Arauto da Manhã, que tinha uma cópia da Diaglott, notou algo nela que lhe pareceu peculiar…

Depois disso, o relato apresentado em As Testemunhas de Jeová no Propósito Divino começa a corresponder ao de Russell novamente.

Há certas peculiaridades na descrição de Russell dos eventos. Ele não descreve como foi que veio pela primeira vez a adotar a ideia do retorno de Jesus como sendo uma “presença” em vez de uma “vinda”. Em vez disso, ele relata como um dos associados Barbour encontrou um trecho adequado de Mateus na Emphatic Diaglott.

Assim, com base em todas as informações disponíveis, não está claro se Russell defendia a ideia da presença invisível de Cristo, antes ou depois do fracasso da previsão dos Segundo Adventistas para outubro de 1874. Está bem claro, porém, que mais tarde Russell acreditava que a presença de Cristo começou em 1874, e, desta maneira, ele não esperava que Cristo voltaria invisivelmente em 1914. Pelo contrário, ele esperava que Cristo se manifestaria ao mundo em 1914, como o material que segue mostra.

A organização Torre de Vigia manteve a data de 1874 para o início da presença de Cristo pelo menos até o ano de 1929, quando a última menção oficial parece ter sido feita no livro Profecia, página 65. Em 1930 a organização parecia incerta sobre o tempo de 1874 em diante, dizendo no livro Luz I, páginas 333, 334:

De por volta de 1875 até a vinda do Senhor ao templo de Deus [em 1918] foi um período de tempo em que Cristo, o mensageiro estava preparando o caminho diante de Jeová para a edificação de Sião. Daí ele, o grande Juiz, veio repentinamente ou diretamente ao seu templo para julgamento.

Em algum momento entre 1931 e 1943, sem qualquer palavra de explicação (com base nas publicações da Torre de Vigia não está claro qual era o ensino oficial), a organização começou a ensinar que a presença de Cristo começou em 1914. A Torre de Vigia ensinava que Cristo começou oficialmente o seu governo do Reino em 1878 até o congresso de Cedar Point, Ohio, em 1922. Nessa ocasião, a data foi mudada para 1914. A Torre de Vigia ensinou também até 1929, que os “últimos dias” começaram em 1799. Antes de 1914, ensinava-se que a ressurreição dos cristãos ungidos tinha ocorrido em 1881, que a grande obra da “colheita” seria efetuada de 1874 a 1914, e que em 1914 ocorreria a destruição de todas as instituições humanas. Ensinava-se também que a queda de “Babilônia, a Grande” ocorreu em 1878, com sua completa destruição a ocorrer em 1914 ou 1918.

O que foi responsável pela mudança em todos estes importantes ensinamentos proféticas? Foi a mesma coisa que no caso de William Miller e das dezenas de outros especuladores proféticos como ele – o fracasso no cumprimento de suas expectativas publicadas.

Será que tudo o que foi declarado acima não passa de meras afirmações? Continuemos nossa verificação nas publicações antigas da Torre de Vigia para ver o que mais elas dizem.

Declarações Sobre 1799, 1874 e 1914

Afirmações Referentes a 1799

O livro O Tempo Está Próximo, edição de 1916, disse na página ii (prefácio):

A cronologia bíblica apresentada aqui mostra que seis grandes dias de 1000 anos, começando com Adão, estão terminando e que o grande 7º dia, os 1000 anos do reinado de Cristo, começou em 1873.

O livro O Dia da Vingança (A Batalha do Armagedom), 1897, disse na página 621:

Nosso Senhor, o Rei designado, está agora presente, desde outubro de 1874.

O livro A Harpa de Deus, de 1921, disse na página 236:

“O tempo do fim” abrange um período desde 1799 A.D., como indicado acima, até o tempo do desmoronamento completo do império de Satanás e o estabelecimento do reino do Messias. O tempo da segunda presença do Senhor data em 1874, conforme indicado acima. Este último período está dentro do primeiro mencionado, naturalmente, e na parte final do período conhecido como “o tempo do fim.”

Depois de descrever o desenvolvimento de Sociedades Bíblicas, o aumento do número de faculdades e todos os tipos de invenções, o livro A Harpa de Deus diz sobre tais na página 239:

Isto é sem dúvida o cumprimento da profecia testificando o “tempo do fim”. Estes fatos físicos não podem ser contestados e são suficientes para convencer qualquer mente razoável de que estamos no “tempo do fim” desde 1799.

Note-se que tudo o que é “sem dúvida” é logicamente infalível. A palavra “infalível” não foi usada, mas, para todos os efeitos, a alegação foi feita. E se alguém duvidasse ou não estivesse convencido, bem, essa pessoa simplesmente não tinha uma “mente razoável”.

De modo similar a revista A Torre de Vigia de 1º de março de 1922 disse:

Portanto, os fatos incontestáveis mostram que o “tempo do fim” começou em 1799; que a segunda presença do Senhor começou em 1874.

O livro Criação, de 1927, páginas 294, 295 e 298 disse:

Mil duzentos e sessenta anos a partir de 539 A.D. nos levam a 1799, o que é outra prova de que 1799 marca definitivamente o início do “tempo do fim”. Desde pouco depois de 1799, a data do início do “tempo do fim”, devemos esperar encontrar um aumento do conhecimento, particularmente com referência à Bíblia.

Há aqui duas datas importantes que não devem ser confundidas e sim diferenciadas claramente, a saber, o começo do “tempo do fim” e o começo da “presença do Senhor”. “O tempo do fim” abrange um período desde 1799 A.D., conforme indicado acima, até a época da completa derrocada do império de Satanás e do estabelecimento do reino do Messias. O tempo da segunda presença do Senhor data de 1874, conforme já declarado. Evidentemente, o segundo período está dentro do primeiro mencionado, e abrange a última parte do período conhecido como “o tempo do fim”.

Nota do tradutor: Este trecho é a tradução do que diz a edição do livro em inglês. Na edição em português (lançada dois anos depois, em 1929), as referências aos anos 1799 e 1874 são mais tênues. O ano de 1799 só é mencionado uma única vez (na página 301). Em relação a 1874, diz a página 125: “A segunda presença de Cristo começou em 1874 mais ou menos. A contar dessa data em diante muitas verdades obscurecidas durante tanto tempo pelo inimigo, começaram ser restituídas ao Cristão honesto.” A página 295 diz: As Escrituras provam que a preparação é um período a contar de 1874 em diante. Por conseguinte começou em 1874, e esta, assim como 1914 e 1918, são datas marcadas especialmente em relação á sua vinda.” Por fim, a página 297 diz: “Para compreender os sinais que indicam a segunda presença do Senhor, desde 1874 até 1914, é preciso ser espiritualmente inclinado, e os clérigos não são . – 1 Coríntios 2 : 10-14.

O livro Profecia, de 1929, páginas 65-66, disse:

… a segunda presença do Senhor Jesus Cristo começou em 1874 A.D. Esta prova é estabelecida especificamente no folheto intitulado O Retorno de Nosso Senhor.

Russell e 1914

Apesar do que muitas Testemunhas de Jeová acreditam hoje, C. T. Russell não acreditava que 1914 marcaria o estabelecimento do Reino de Deus no céu, porque, segundo ele, isso já tinha ocorrido em 1878. Nem acreditava ele que 1914 seria seguido por outra geração de conflito, sem qualquer intervenção de Deus. Ele esperava que em 1914 os santos seriam glorificados e levados para o céu para governar com Jesus. Ao mesmo tempo, Deus causaria a dissolução de todos os reinos da terra e os substituiria pelo regime teocrático durante o resto do Milênio. Russell acreditava que Deus restauraria a humanidade à perfeição – Ele não destruiria a todos na Batalha do Armagedom, porque isso já tinha começado em 1874 (veja abaixo). Estas crenças são evidentes no que Russell escreveu no primeiro volume da série Aurora do Milênio (Estudos das Escrituras), intitulado O Plano Divino das Eras, publicado originalmente em 1886. Nas páginas 91 e 95 da edição de 1903 Russell escreveu:

… mas quando a Palavra de Deus e o plano são vistos como um todo, percebe-se que todos favorecem o conceito… de que Cristo vem antes da conversão do mundo, e reina com a finalidade de converter o mundo …. Eles acreditam que Deus não vai fazer mais do que escolher esta Igreja, ao passo que vemos as Escrituras ensinando mais um passo no plano divino – uma restituição para o mundo, a ser realizada por meio da Igreja eleita.

Na página 307 Russell descreveu os eventos que deveriam levar ao fim dos “Tempos dos Gentios”, em 1914:

O “Dia de Jeová” é o nome desse período de tempo em que o reino de Deus, sob Cristo, deve ser gradualmente “estabelecido” na terra, enquanto os reinos deste mundo estão passando, e o poder e a influência de Satanás sobre os homens está sendo restrita. Ele é descrito em todo lugar como um dia negro de intensa tribulação e angústia e perplexidade sobre a humanidade. E não admira que uma revolução de proporções tais, que necessite de mudanças tão grandes, deva causar problemas. Pequenas revoluções causaram problemas em todas as eras, e esta, que é muito maior do que qualquer revolução anterior, deverá ser um tempo de tribulação como nunca houve desde que existe  nação – não, nem jamais haverá…

É o chamado “Dia de Jeová”, porque, embora Cristo, com título e poder régio, estará presente como representante de Jeová, assumindo o controle de todos os assuntos os durante este dia da angústia, é mais como o General de Jeová, subjugando todas as coisas, do que como o Príncipe da Paz, abençoando tudo …

A frase “Cristo… estará presente” é extremamente importante, pois Russell vinha publicando há muitos anos que a “segunda presença” de Cristo começou em 1874. Assim, o “Dia de Jeová” tinha começado em 1874. Em O Plano Divino das Eras este período de tempo é também chamado de “Dia da Vingança de nosso Deus” (pág. 308) o “Dia da Ira” (pág. 308), o “Dia do Senhor” (págs. 324, 334, 336, 337), e o “Dia de Tribulação” (pág. 336).

O livro O Plano Divino das Eras deixou a consideração sobre datas específicas para o próximo volume da série, publicado em 1889, O Tempo Está Próximo, sobre o que este disse, nas páginas 336-7:

Outro pensamento com referência a este Dia de Tribulação é que ele chegou justamente no tempo devido – o tempo apropriado de Deus. No próximo volume desta obra apresenta-se evidência a partir do testemunho da Lei e dos Profetas do Antigo Testamento, bem como de Jesus e dos profetas apostólicos do Novo Testamento, que mostra de forma clara e inequívoca que este Dia de Tribulação situa-se cronologicamente no início do glorioso reinado milenar do Messias… A tribulação do Dia do Senhor, a qual já vemos assomando, confirma a sabedoria do plano de Deus.

No prefácio à edição de 1916 de O Tempo Está Próximo, Russell admitiu que suas previsões não haviam se concretizado (pág. x):

O autor reconhece que apresenta neste livro o pensamento de que os santos do Senhor poderiam esperar estar com Ele em glória no fim dos tempos dos gentios. Este foi um erro natural no qual se pode cair, mas o Senhor o invalidou para a bênção de Seu povo. O pensamento de que a Igreja seria toda ajuntada em glória antes de outubro de 1914, teve certamente um efeito muito estimulante e santificador sobre milhares, todos os quais podem conseqüentemente louvar ao Senhor – até mesmo pelo erro.

Russell acreditava que ele e seus seguidores eram servos especiais de Deus, referindo-se a eles como “santos”. Ele disse sobre estes, na página 338:

Surge uma importante questão quanto ao dever dos santos durante esta tribulação, e sua atitude apropriada para com as duas classes antagônicas que agora estão atingindo a proeminência. Que alguns dos santos ainda estarão na carne durante pelo menos uma parte deste tempo abrasador parece possível…

Note-se também o que Russell disse em O Tempo Está Próximo, páginas 40, 100:

Se, então, o sétimo período de mil anos da história da Terra for uma época especialmente notável, como o período do reinado de Cristo, ao mostrar que ele começou em 1873 A.D., estaremos provando que já estamos nele. Isso remete ao que já observamos no volume anterior, que as Escrituras indicam que a aurora do Milênio, ou o Dia do Senhor, será escuro e tormentoso, e cheio de tribulação sobre o mundo e sobre a igreja nominal. …

Assim, neste “Dia de Jeová”, o “Dia de Tribulação”, nosso Senhor assume seu grande poder (até então adormecido) e reina, e isso é o que causará a tribulação, embora o mundo não reconhecerá isso por algum tempo…

Veja a citação da página 101 adiante para uma declaração de que Reino estabelecido de Deus já tinha começado a exercer o poder em 1878, e que (isto foi escrito em 1889) “estamos bem no meio” dos eventos do “Dia do Senhor”.

Mais Revisionismo

O livro O Tempo Está Próximo, (publicado originalmente em 1889), disse a respeito dos Tempos dos Gentios, nas páginas 76-77 (conforme a edição do início de 1912):

O Reino de Deus, o Reino do Ungido de Jeová … será estabelecido gradualmente, durante um grande período de tribulação com o qual a era do Evangelho vai se encerrar, no meio do qual os domínios atuais serão totalmente consumidos, acabando em meio a grande confusão.

Neste capítulo apresentamos a evidência bíblica provando que o fim completo dos Tempos dos Gentios, isto é, o fim completo de sua permissão para dominar, será atingido em 1914 A.D., e que essa data será o limite final do governo dos homens imperfeitos. E deve-se notar que, se isso mostra ser um fato firmemente estabelecido pelas Escrituras, ele provará: –

Em primeiro lugar, Que nessa data o Reino de Deus, pelo qual nosso Senhor nos ensinou a orar, dizendo, “Venha o Teu Reino”, terá obtido  controle completo, universal, e que será então “posto” ou firmemente estabelecido, na terra, sobre as ruínas das instituições atuais.

Em segundo lugar, Provará que aquele a quem pertence o direito de tomar o domínio estará então presente como novo governante da terra; e não só isso, mas provará também que ele estará presente por um período considerável antes dessa data, porque a derrubada destes governos gentios é causada diretamente por ele despedaçá-los como um vaso de oleiro (Sal 2:9; Rev. 02:27), estabelecendo no lugar deles o seu próprio governo justo.

Em terceiro lugar, Provará que algum tempo antes do fim de 1914 A.D. o último membro da divinamente reconhecida Igreja de Cristo, o “sacerdócio real”, “o corpo de Cristo”, será glorificado com o Cabeça; porque todo membro deve reinar com Cristo, sendo co-herdeiro do Reino com ele, e ele [o Reino] não pode ser completamente “estabelecido” sem estarem todos os membros.

Em quarto lugar, Provará que daquela época em diante Jerusalém não será mais pisada pelos Gentios, mas levantar-se-á do pó do desfavor divino, para a honra; porque os “Tempos dos Gentios” estarão cumpridos ou completos.

Em quinto lugar, Provará que naquela data, ou antes disso, a cegueira de Israel começará a ser retirada; porque sua ‘cegueira em parte’ deveria continuar só ‘até que entrasse a plenitude dos Gentios’ (Rom. 11:25), ou, em outras palavras, até que o número completo dentre os gentios, que vão ser membros do corpo ou noiva de Cristo, seja totalmente selecionado.

Em sexto lugar, Provará que o grande ‘tempo de tribulação tal como nunca ocorreu desde que existe nação’, alcançará a sua culminação num reinado mundial de anarquia; e daí os homens aprenderão a ficar quietos, e saberão que Jeová é Deus e que Ele deverá ser exaltado na terra.

Em sétimo lugar, Provará que antes dessa data o Reino de Deus, organizado em poder, estará na terra e então atingirá e esmagará a imagem gentia (Daniel 2:34) – e consumirá completamente o poder destes reis. Seu próprio poder e domínio será estabelecido tão logo por suas diversas influências e agências que esmagam e dispersam as “autoridades existentes” – civis e eclesiásticas – ferro e argila.

Note-se que as declarações acima são de uma edição do início de 1912. Posteriormente em 1912 e em edições de anos subsequentes algumas das afirmações foram editadas da seguinte maneira:

Neste capítulo apresentamos a evidência bíblica provando que o fim completo dos Tempos dos Gentios, isto é, o fim completo de sua permissão para dominar, será atingido em 1914 A.D., e que essa data presenciará a desintegração do governo dos homens imperfeitos.

Em primeiro lugar, Que nessa data o Reino de Deus, pelo qual nosso Senhor nos ensinou a orar, dizendo, “Venha o Teu Reino”, começará a assumir o controle, e que será então pouco depois “posto” ou firmemente estabelecido…

Em terceiro lugar, Provará que algum tempo antes do fim da derrubada o último membro da divinamente reconhecida Igreja de Cristo…

Nas páginas 98, 99 o livro O Tempo Está Próximo havia dito:

É verdade que se esperam grandes coisas para alegar, como fazemos, que dentro dos próximos vinte e seis anos todos os governos atuais serão derrubados e dissolvidos; mas estamos vivendo numa época especial e peculiar, o “Dia de Jeová”, no qual os assuntos culminam rapidamente; e está escrito, “o Senhor executará uma obra abreviada sobre a terra”.

Em vista desta forte evidência bíblica referente aos Tempos dos Gentios, consideramos uma verdade estabelecida que o fim dos reinos deste mundo, e o pleno estabelecimento do Reino de Deus, será realizado por volta do fim de 1914 A.D.

As edições posteriores a 1912 mudaram o segundo parágrafo para:

Em vista desta forte evidência bíblica referente aos Tempos dos Gentios, consideramos uma verdade estabelecida que o fim dos reinos deste mundo, e o pleno estabelecimento do Reino de Deus, será realizado perto do fim de 1915 A.D.

A Torre de Vigia tende a minimizar a certeza com que Russell publicou declarações como estas, mas a declaração expressa de que “consideramos uma verdade estabelecida” mostra claramente a intenção de Russell. Na página 101 da edição de 1908 de O Tempo Está Próximo, foi dito:

Não se surpreenda, então, quando em estudos subseqüentes apresentarmos provas de que o estabelecimento do Reino de Deus já começou, que se aponta na profecia como devendo começar o exercício do poder em 1878 A.D., e que a “batalha do grande dia do Deus Todo-Poderoso” (Rev. 16:14), que terminará em 1914 A.D. [Edições posteriores de O Tempo Está Próximo mudaram isso (Veja o encaixe a seguir) para 1915], com a completa derrocada do governo atual da terra, já tendo começado. O ajuntamento dos exércitos é claramente visível do ponto de vista da Palavra de Deus.

Se a nossa visão estiver livre de preconceitos, quando temos o telescópio da Palavra de Deus regulado corretamente, podemos ver claramente o caráter de muitos dos eventos destinados a ocorrer no “dia do Senhor” — que estamos justamente no meio desses eventos, e que chegou “o Grande Dia da Sua Ira”.

Compare a página 101 das edições anteriores ao meio do ano de 1912 com a mesma página nas edições posteriores a isso. A mudança foi feita no meio do trabalho de impressão da edição de 1912 (cuja tiragem foi de 1.209.000 exemplares). A revista A Torre de Vigia de 1º de março de 1915 chamou a atenção para algumas destas mudanças na página 5649 das Reimpressões. A revista disse: “Chamamos a atenção para umas poucas mudanças ligeiras que foram feitas em quatro páginas do volume II e seis páginas do Vol. III de ‘ESTUDOS DAS ESCRITURAS’. Estas são todas triviais e não alteram o verdadeiro sentido e lição, mas se conformam aos fatos, conforme os temos hoje.” Daí, alistam-se as mudanças apontadas acima, das páginas 77-81 de Está Próximo o Tempo, mas, por alguma razão as mudanças nas páginas 99-101 não são alistadas. Quanto à alegação de que o verdadeiro sentido não foi mudado, o leitor pode julgar por si mesmo. A maneira correta de fazer mudanças tais como estas é chamar os livros mudados de “Edições Revisadas”.

A Torre de Vigia tende também a minimizar a força com que Russell predisse os eventos para 1914. O livro As Testemunhas de Jeová no Propósito Divino disse na página 52 (em inglês), debaixo do subtítulo “Sólido Aviso Contra a Especulação”:

TOM: Você disse antes que o Pastor Russell não estava muito certo quanto ao que ocorreria exatamente em 1914. Era essa a atitude geral das Testemunhas naquela época?

JOHN: Não há dúvida de que muitos ao longo daquele período tiveram excesso de zelo em suas declarações a respeito do que se poderia esperar. Alguns leram em A Torre de Vigia declarações que nunca foram intencionadas, e ao passo que foi necessário Russell chamar atenção para a certeza de que uma grande mudança era apropriada no fim dos tempos dos gentios, ele ainda assim incentivou seus leitores a manter a mente aberta, especialmente no que se refere ao elemento tempo. Podemos ler diversos trechos diferentes de A Torre de Vigia ao longo dos anos para demonstrar isso. Por exemplo, já em 1885 Russell escreveu em A Torre de Vigia:

As nuvens de tempestade estão se avolumando sobre o velho mundo. Parece que uma grande guerra européia é uma das possibilidades no futuro próximo.

Aparentemente, o autor quer dizer que o uso da palavra “possibilidades” aqui é uma advertência contra a especulação.

Daí, segue-se um quadro bastante drástico da situação do mundo…

A matéria no livro TJPD (As Testemunhas de Jeová no Propósito Divino) fala sobre grandes mudanças, mas não contém qualquer advertência contra a especulação. No entanto, o quadro apresentado no livro TJPD é um tanto diferente do que a revista A Torre de Vigia citada realmente dizia:

A superprodução  para o momento obstruiu as rodas do comércio em todo o mundo, e os produtores clamam por uma interrupção por medo da perda. Os primeiros a sentirem o efeito são os assalariados, muitos dos quais vivem “ao deus-dará”. A inquietação se precipita agora mais rapidamente do que antes nesta classe por causa de uma gama mais ampla de conhecimento. Grandes encontros de homens se reuniram em Londres e Paris recentemente exigindo que se busquem algumas melhorias públicas para lhes proporcionar trabalho…

Assim, uma coisa leva a outra e irá de mal a pior durante todo o “tempo de tribulação tal como nunca houve desde que existe nação” até que esses governos atuais com seu príncipe… falsamente chamados de “Reinos de Deus” caiam diante do verdadeiro reino, e o domínio debaixo de todo os céus seja dado ao povo dos santos do Deus Altíssimo.

O quadro retratado é que a guerra era uma possibilidade muito forte, em um futuro muito próximo, e não cerca de trinta anos depois, e que o momento em que o artigo foi escrito, 1885, estava bem no meio do “tempo de tribulação”. Deve-se lembrar que O Plano Divino das Eras havia dito que o “tempo de tribulação” tinha começado com o início do reinado milenar de Cristo (pág. 336), em 1874. Russell começou a mudar seu conceito sobre a proximidade da guerra no começo da década de 1890.

Em seguida, o livro TJPD diz:

Em 1893 A Torre de Vigia declarou:

Uma grande tempestade está próxima. Embora não se pode saber exatamente quando ela irromperá, parece razoável supor que não pode ser mais do que 12 ou 14 anos no futuro.

A ideia parece ser que a declaração “não se pode saber exatamente quando ela irromperá” é acauteladora. Isso é da página 194 do número de 1-15 de julho de 1893 de A Torre de Vigia de Sião, mas as Reimpressões de A Torre de Vigia não reproduziram esta página. Porém, A Torre de Vigia original continha a citação acima, debaixo do subtítulo “O Trabalho de Colheita Antes da Tempestade”, e este artigo falava sobre o período de 1874 a 1914, no qual Russell afirmou que uma obra de colheita 40 anos deveria ser feita. Alguns anos antes de 1914, ou seja, por volta de 1905-1907, segundo a citação acima, “uma grande tempestade” irromperia, a qual culminaria na derrocada final de todas as instituições humanas em 1914. De modo que, em vez de ser um aviso contra a especulação, essa citação a alimentava. Pode-se ver isso de modo muito mais claro em outra declaração na mesma página:

Alguns podem estar inclinados a pensar que o trabalho de colheita está feito em grande parte, mas, provavelmente a maior parte deste trabalho deverá ser feita nos próximos seis ou oito anos.

Sem Possibilidade de Erro

A edição de 1º e 15 de 1893 de A Torre de Vigia é bastante reveladora quanto à opinião de Russell sobre o que iria acontecer antes de 1914, e que ele não achava que suas opiniões eram especulações de qualquer espécie. Nas páginas 282-284 ele disse (pág. 1581 das Reimpressões):

Vem de muitos lugares a pergunta: “Irmão Russell, não estaria você possivelmente errado em alguns anos em seus cálculos, uma vez que você espera, com base na autoridade das Escrituras, que a grande tribulação estará terminada por volta de 1914 A.D., e que sua  severidade, provavelmente não virá sobre nós antes de 1906-1908 A.D.? Não há a possibilidade de que a atual angústia financeira seja o início da grande tribulação?”

Respondemos: Não, nós pensamos que não há qualquer erro.

A Torre de Vigia de 15 de julho de 1894 enfatizou que os fatos apoiavam sua cronologia. Nas páginas 224-8 (pág. 1675 das Reimpressões), disse:

É interessante olhar para trás e observar a precisão do cumprimento da Palavra de Deus, para que nossos corações fiquem estabilizados com a maior confiança com respeito ao futuro – as coisas que vêm sobre a terra. Por exemplo, quando olhamos para trás e notamos que as Escrituras marcaram 1873 como o fim de seis mil anos desde Adão e o início do sétimo milênio, e o outono de 1874 como o início da colheita de 40 anos da era do Evangelho e o dia da ira para a derrocada de todas as instituições “deste atual mundo iníquo [ou ordem de coisas]”, podemos ver que os fatos corroboraram bem essas previsões das Escrituras. Vemos que a atual aflição mundial teve seu início lá; que foi progredindo com impulso crescente a cada ano desde então; e que, conforme o apóstolo Paulo declarou que seria, assim foi, e é – “como as dores vêm sobre uma mulher grávida.” Cada espasmo de dor é mais intenso, e assim continuará sendo, evidentemente até a morte da atual ordem das coisas e o nascimento da nova.

Em seguida, o livro TJPD cita A Torre de Vigia de 15 de fevereiro de 1894, mas a citação refere-se apenas a grandes mudanças, não a evitar a especulação.

A citação seguinte do TJPD, do número de 11 de junho de 1894 de A Torre de Vigia, página 162 (não reproduzida nas Reimpresssões de A Torre de Vigia) não fala sobre evitar a especulação. É surpreendente que a citação tenha sido reproduzida, porque ela anula completamente o argumento do livro TJPD:

Como as dores que vêm sobre uma mulher grávida” é a descrição inspirada do dia de tribulação de 40 anos, que dá início à era do Milênio. O pânico de 1873, que afetou o mundo inteiro, foi o primeiro espasmo, e desde então a intervalos irregulares, as agonias trabalhistas da terra foram sentidas. Agora mesmo, nós, dos Estados Unidos estamos no meio de uma dessas aflições da criação que geme.

A Torre de Vigia se referia à grande depressão de 1894, a maior ocorrida antes da depressão da década de 1930. Mas, novamente, isso estava se referindo aos eventos que ocorreriam como parte da agonia final da humanidade logo antes da morte, como se pode ver no próximo parágrafo no artigo, que o livro TJPD não citou:

Nesta terra de colheitas abundantes, muitos, por causa das greves, estão quase desprovidos de alimentos. Nesta terra de liberdade milhares de homens armados e desarmados em meia dúzia de estados estão em estado de guerra. É uma guerra do trabalho contra o capital, e é o resultado natural do sistema competitivo dos negócios, o que, evidentemente, vai se manter até espasmo após espasmo de gravidade crescente, resultando em anarquia que acabará por dar origem a uma nova ordem da sociedade baseada no novo-antigo ensino de Cristo.

À luz da história, é evidente que o próprio Russell favoreceu ampla especulação, uma vez que quase todos os ensinos dele sobre cronologia foram abandonados e todos falharam. Ele se envolveu nesta especulação enquanto afirmava ser o porta-voz de Deus. No número de 15 de julho de 1906 de A Torre de Vigia, página 229, ele escreveu:

São muitas as perguntas a respeito das verdades apresentadas em Aurora do Milênio e em A Torre de Vigia de Sião quanto a de onde vieram e como é que se desenvolveram até atingirem as proporções simétricas e belas de hoje – Foram elas o resultado de visões? Será que Deus revelou de alguma maneira sobrenatural a solução destes até agora mistérios do seu plano? São os escritores algo mais do que pessoas normais? Alegam eles ter alguma sabedoria ou poder sobrenaturais? Ou como é que se dá esta revelação da verdade de Deus?

Não, caros amigos. Não alego qualquer superioridade, nem poder, dignidade ou autoridade sobrenaturais; nem pretendo exaltar-me frente aos meus irmãos da família da fé…

Não, as verdades que apresento, como porta-voz de Deus não foram reveladas em visões ou sonhos, tampouco pela voz audível de Deus, nem todas elas de uma só vez, e sim gradativamente; especialmente desde 1870 e, particularmente desde 1880. Tampouco é este claro desvendamento da verdade devido a qualquer habilidade ou aguçada percepção humana, e sim devido ao simples fato de que chegou o tempo devido de Deus; e, se eu não falasse e não se pudesse encontrar outro instrumento, as próprias pedras clamariam.

Diversas vezes Russell deu a entender claramente que não havia possibilidade de ele estar errado. A Torre de Vigia de Sião de 15 de julho de 1894, disse na página 226 (pág. 1.677 das Reimpressões), debaixo do subtítulo “Pode Ser Adiado Até 1914?”:

Dezessete anos atrás as pessoas diziam, com relação aos aspectos cronológicos apresentados em Aurora do Milênio: Eles parecem razoáveis em muitos sentidos, mas certamente não poderia ocorrer quaisquer mudanças radicais entre o momento atual e o final de 1914; se vocês tivessem provado que ocorreriam em um século ou dois, isso pareceria muito mais provável.

Que mudanças têm ocorrido desde então e que velocidade estas ganham diariamente?

“O velho está passando rapidamente e o novo está chegando.”

Agora, em vista dos recentes problemas trabalhistas e da ameaça de anarquia, nossos leitores estão escrevendo para saber se não poderia haver algum erro na data de 1914. Eles dizem que não veem como as condições atuais podem se manter tanto tempo sob a tensão.

Não vemos motivo algum para mudarmos os números — nem poderíamos mudá-los se quiséssemos. Eles são, conforme cremos, datas de Deus, não nossas. Mas, tenham em mente que o fim de 1914 não é a data para o início, mas para o fim do tempo de aflição. Não vemos motivo algum para alterarmos nossa opinião expressa no conceito apresentado em A Torre de Vigia de 15 de janeiro de 1892. Incentivamos que ela seja lida novamente.

A edição de 15 de janeiro de 1892 de A Torre de Vigia disse na página 19:

As Escrituras dão testemunho inconfundível para os que têm plena confiança em seus registros, de que há um grande tempo de tribulação depois da  da comparativa calma atual no mundo – uma tribulação que irá envolver todas as nações, derrubar todas as instituições existentes, civil, social e religiosa, trazer um reino universal de anarquia e terror, e prostrar a humanidade no próprio pó do desespero, preparando-a desta forma para apreciar o poder que trará ordem a essa confusão e instituirá o novo reino de justiça. As Escrituras nos mostram que tudo isso deve ocorrer antes do ano de 1914 (Veja Aurora do Milênio, Vol. II, Capítulo IV.) – ou seja, dentro dos próximos 23 anos.

Se o testemunho bíblico era “inconfundível”, se Russell estava apresentando “datas de Deus”, e se ele era o “porta-voz de Deus”, de que valor seria qualquer advertência contra a especulação, já que ele mesmo era a fonte dela? Quem duvidaria das datas “de Deus”?

Esta mesma edição de A Torre de Vigia prosseguia dizendo:

Todos os homens de reflexão, tenham eles fé na Palavra da profecia ou não, vêem na atitude atual da humanidade em geral uma tendência crescente que ameaça chegar a um auge, e eles ficam com medo e pavor disso. Como conseqüência, os jornais diários e os semanários e mensários, religiosos e seculares, estão continuamente discutindo as perspectivas de guerra na Europa. Eles observam as queixas e ambições das várias nações e predizem que a guerra é inevitável num dia não distante, que ela pode começar a qualquer momento entre algumas das grandes potências, e que as perspectivas são de que ela acabará por envolver todas elas. E eles retratam a calamidade terrível de um evento assim, tendo em vista os preparativos feitos para ele por parte de todas as nações. Durante vários anos passados, os observadores de reflexão disseram que a guerra não pode ser evitada por muito mais tempo: ela deve vir em breve – “na próxima primavera”, “no próximo verão”, “no próximo outono”, etc.

Mas, não obstante essas previsões e as boas razões que muitos vêem para fazê-las, nós não compartilhamos delas. Isto é, não pensamos que as perspectivas de uma guerra européia geral sejam tão evidentes como geralmente se supõe. É verdade que toda a Europa é como um grande paiol, que uma única centelha poderia desencadear a qualquer momento uma tremenda explosão. Várias nações estão armadas até os dentes com as armas mais destrutivas que a habilidade e o engenho podem inventar, e há queixas  e desavenças nacionais e ódio que devem encontrar um desafogo em algum momento, e tendo em vista essas coisas a nuvem guerra está sempre iminente e o tempo todo escura, mas as coisas podem continuar exatamente assim por muitos anos, e achamos que vão.

Estes rumores de iminentes guerras européias e o desejo de julgar se a observação tenderia a confirmar a revelação divina de que a intensidade da grande tribulação prevista ainda está a cerca de 15 anos no futuro, constituiu boa parte de nossa motivação em visitar a Europa durante o verão passado.

O número de 1º de outubro de 1904 de A Torre de Vigia de Sião, páginas 296-8 (págs. 3436-8 das Reimpressões) publicou uma carta de um homem que apontou que a cronologia de Russell estava em conflito com os dados fornecidos pelo Cânon de Ptolomeu, e que ele entendia que o conceito de Russell sobre os tempos dos gentios tinha mudado. Russell respondeu longamente, salientando que mudar sua cronologia em um ano sequer a deixaria completamente fora de sintonia. Ele enfatizou sua fé em suas datas:

Não sabemos de nenhuma razão para mudar uma data: fazer isso estragaria as harmonias e os paralelos tão evidentes entre as eras judaica e evangélica… Além disso, o irmão parece nos interpretar, como se ensinássemos que nenhuma grande tribulação virá antes de outubro de 1914 A.D. Isto é incorreto: esperamos a grande tribulação de Rev. 13:15-17 antes dessa data…

Uma pergunta sobre a cronologia de Russell surgiu já em 1904 – o que dizer do “ano zero”? Foi o período de tempo entre 1 A.C. e 1 A.D. de um ano, ou dois? Russell discutiu isso, bem como resumiu a aplicação disso em sua cronologia, na edição de 1º de dezembro de 1912 de A Torre de Vigia, páginas 377-8. Ele estava, evidentemente, um tanto confuso sobre isso, e disse que o fim dos tempos dos gentios poderia ser tanto 1914 como 1915. Ele também atenuou consideravelmente suas declarações em comparação com as anteriores. Isto mostra claramente que foi só com a aproximação de 1914 que se pode dizer que ele realmente advertiu contra a especulação:

Uma vez que esta questão está agitando as mentes de um número considerável de amigos, nós a apresentamos aqui com algum detalhe. Lembramos aos leitores, no entanto, que nada nas Escrituras diz definitivamente que a tribulação causada pelos gentios será completada antes do fim dos Tempos dos Gentios, seja este em outubro de 1914 ou outubro de 1915. A tribulação será, sem dúvida, considerável antes do abalo final, muito embora esse abalo venha de repente, como o lançamento de uma grande mó no mar. (Rev. 18:21) O paralelo entre a colheita judaica e a colheita atual seria confirmaria o entendimento de que a tribulação completa se cumprirá em outubro de 1915.

Muitos dos nossos leitores se lembrarão de nossa referência a este assunto num sermão pregado em Allegheny, Pensilvânia, em 11 de janeiro de 1904, e publicado no Pittsburgh Gazette. Fizemos um extrato desse sermão conforme segue:

“Descobrimos, então, que os sete tempos de punição de Israel e os Sete Tempos da dominação gentia são os mesmos; e que eles começaram com o cativeiro de Zedequias, e, como será visto com base na Carta [das Eras], eles terminam no ano de 1915. Segundo as melhores evidências obtidas sobre este assunto, sincronizadas com o testemunho bíblico, o cativeiro de Zedequias ocorreu em  outubro, 605 3/4 anos antes do ano 1. Se acrescentarmos a isso 1914 3/4 anos, teremos outubro de 1915 como a data para o fim da supremacia dos gentios no mundo – o fim da permissão de 2.520 anos, que não será renovada. Em vez disso, aquele que tem o direito ao reino tomará posse dele. Desta forma, isto marca o momento em que o próprio Senhor deve assumir o controle dos assuntos do mundo, para acabar com o reino do pecado e da morte, e para trazer a Verdadeira Luz.”

Há certamente margem para ligeiras diferenças de opinião neste assunto e cabe-nos conceder uns aos outros a maior tolerância. A permissão de poder para os Gentios pode acabar tanto em outubro de 1914 como em outubro de 1915. E o período de intensa luta e anarquia “tal como nunca ocorreu desde que existe nação” pode ser o ponto final dos Tempos dos Gentios ou o início do reino do Messias. [Veja o Vol. 2 de Estudos das Escrituras.].

Mas lembramos mais uma vez a todos os nossos leitores que não profetizamos nada sobre os tempos dos gentios se encerrando com um tempo de tribulação, nem sobre a época gloriosa que logo se seguirá a essa catástrofe. Simplesmente apontamos o que as Escrituras dizem, apresentando nossos conceitos acerca do seu significado e pedindo aos nossos leitores que julguem por si mesmos o que eles significam. Essas profecias ainda dizem a mesma coisa para nós. Devemos sempre ver motivos para mudar nossa crença, fiquem certos de que estaremos dispostos a alertar vocês  com respeito a essa mesma coisa, e dar a vocês o motivo. No entanto, alguns podem fazer declarações positivas do que sabem e do que não sabem; nunca nos permitimos isso, mas simplesmente afirmamos que cremos nisso ou naquilo, por tais e tais razões.

Muitos que estão dispostos a contestar cada declaração de fé com relação ao tempo e ao fim desta era e o alvorecer da nova era são muito positivos em suas afirmações. Alguns deles declaram que seguramente o fim desta era ainda pode demorar 50 mil anos. Outros, com positividade similar, dizem que pode acontecer a qualquer momento. Nenhuma dessas pessoas apresenta qualquer prova bíblica. Então, por que qualquer uma delas deveria nos criticar pelo fato de simplesmente apresentarmos os testemunhos das Escrituras e as nossas opiniões a respeito do significado deles, e incentivarmos outros a investigar e formar sua própria opinião?

Russell realmente queria ter o melhor dos dois mundos: os da “família da fé” podiam julgar por si mesmos se as previsões dele estavam corretas, mas qualquer um que chegasse à conclusão de que elas não estavam corretas eram classificados como pessoas com “falta de fé”, como mostrado abaixo. Ele não “profetizava”, porque isso significa “inspiração”, e ele não tinha “conhecimento”, porque isso significa certeza absoluta, mas ele alegava ter o apoio de Deus para o que dizia, porque ele era o “porta-voz de Deus”.

Isto é perfeitamente ilustrado pelo que A Torre de Vigia de Sião de 1º de outubro de 1907, sete anos antes de 1914, disse no artigo “Conhecimento e Fé Referente à Cronologia”, na página 295:

Um querido irmão pergunta: Podemos estar absolutamente certos de que a cronologia estabelecida nos ESTUDOS DA AURORA está correta? — de que a colheita começou em 1874 A.D. e terminará em 1914 A.D. numa tribulação mundial, que eliminará todas as instituições atuais e será seguida pelo reino de justiça do Rei da Glória e de sua noiva, a igreja?

Respondemos, como fizemos freqüentemente antes nas AURORAS e revistas TORRE DE VIGIA e oralmente e por carta, que nunca afirmamos que nossos cálculos fossem infalivelmente corretos; nunca afirmamos que fossem conhecimento, nem baseados em evidência incontestável, fatos, conhecimento; nossa afirmação sempre foi que eles se baseiam em .

As datas já não pareciam ser “datas de Deus”, pois elas poderiam ser falíveis. Esse mesmo artigo, no entanto, continua dando a entender que os que duvidassem desses cálculos tinham falta de fé. Deve-se perguntar: Fé em Deus ou fé nas predições de Russell? O artigo diz:

Lembramos mais uma vez que os pontos fracos da cronologia são suplementados pelas várias profecias que se entrelaçam com ela de maneira tão notável que a fé na cronologia se torna quase conhecimento de que ela está correta. A mudança de um único ano tiraria a harmonia dos belos paralelos; já que algumas profecias são contadas a partir de A.C., algumas a partir de A.D., e algumas dependem de ambos os períodos. Cremos que Deus queria que essas profecias fossem entendidas ‘no tempo devido’; cremos que as compreendemos agora — que elas nos falam por meio desta cronologia. Não selam elas desse modo a cronologia? Selam com respeito à fé, mas não de outro modo. Nosso Senhor declarou, “O sábio entenderá”; e ele nos diz “Vigiai” para que possamos conhecer; e é esta cronologia que nos convence (aos que podem e a recebem pela fé) de que a Parábola das Dez Virgens está agora em processo de cumprimento — que seu primeiro grito foi ouvido em 1844 e que seu segundo grito, “Eis aqui o Noivo” — presente — foi em 1874.

Quão proveitoso é — ou, quanto a isso, quanta humildade demonstra — uma pessoa reconhecer sua falibilidade enquanto ao mesmo tempo dá a entender que só os que aceitam os conceitos dela estão demonstrando fé, estão entre os sábios que entenderão’? Não estariam aqueles que deixaram de atender a estes “gritos” de 1844 e 1874 classificados logicamente como as “virgens tolas” da parábola?

A Torre de Vigia não mudou suas práticas em relação a isso. Na verdade, a política dela é muito mais severa hoje do que no tempo de Russell. Se alguém simplesmente mencionar em público a possibilidade de a Torre de Vigia estar errada em algum ensino atual, essa pessoa está sujeita a ser classificada como “apóstata” e desassociada. Será que a Torre de Vigia não está “falando com ambos os lados de sua boca ao mesmo tempo”?

Em vista de tudo o que foi está escrito acima, que mostra o que Russell realmente pensava desde a década de 1870 até 1916, observe quão vazia parece ser a explicação de como Russell advertiu contra a especulação, no livro TJPD, página 53:

Em 1912 Russell soou um alerta especial para advertir contra fortes especulações particulares quanto a 1914. Ele escreveu:

[A matéria da revista A Torre de Vigia de 1º de dezembro de 1912, mencionada acima foi citada aqui.]

Assim, esses vigilantes primitivos estavam razoavelmente certos sobre algumas coisas que deveriam ocorrer quando 1914 chegasse. Exatamente como as profecias se cumpririam não estava totalmente claro, mas as evidências foram aumentando constantemente de que esta seria uma data marcada na história da Terra.

É realmente incrível quanta distorção pode ser inserida em tão poucas palavras. Russell escreveu alguns avisos fracos sobre a especulação particular antes de 1904, mas ele estava absolutamente confiante acerca de sua cronologia. Foi só depois de 1904 que ele se tornou ainda fracamente cauteloso, como o  material que segue deixa claro. Por não contar ao leitor a história completa do que Russell acreditava, o livro TJPD induz o leitor a acreditar em algo bem diferente do que acreditaria se lesse as matérias originais da época de Russell.

Uma Verdade Estranha

Marvin L. Lubenow é criacionista e professor de Bíblia e apologética no Christian Heritage College, em El Cajon, Califórnia. A faculdade é a matriz do Instituto de Pesquisa Criacionista. Em seu livro Ossos de Contenção (em inglês), Lubenow acusou os evolucionistas de não dizer exatamente a verdade sobre certas descobertas fósseis semelhantes a humanos (Marvin L. Lubenow, Ossos da Contenção, págs. 103-4 em inglês, Baker Book House, Grand Rapids, Michigan, 1992.):

É possível mentir dizendo a verdade. Isto é feito com freqüência. Suponha que um homem lhe deva cem dólares. Como você precisa do dinheiro, poderá telefonar a ele para saber quando ele pode pagar. A mulher dele atende o telefone e diz que ele não está em casa. Para você, isso significa que ele não está disponível. Você não sabe que ele está em pé do lado de fora da porta da frente de sua casa, de modo que a mulher dele pode dizer “honestamente” que ele “não está em casa”. Ela se justifica com base em ter tecnicamente dito a verdade. Mas ela realmente mentiu, porque a intenção dela foi fazê-lo pensar que “não está em casa” significa “indisponível”. Ela mentiu dizendo a verdade.

Para se apoiar, a Torre de Vigia aprecia alegar que C. T. Russell predisse a Primeira Guerra Mundial. Por exemplo, o livro As Testemunhas de Jeová no Propósito Divino, páginas 54 e 55, citou um artigo de um jornal chamado O Mundo, que disse:

O horrível irrompimento da guerra na Europa tem cumprido uma profecia extraordinária”, declarou este artigo de destaque. “No último quarto de século, por meio de pregadores e pela imprensa, os ‘Estudantes Internacionais da Bíblia, melhor conhecidos como ‘Auroristas do Milênio’, têm proclamado ao mundo que o Dia da Ira, profetizado na Bíblia, amanheceria em 1914. ‘Olhem bem para 1914!’ — tem sido o brado das centenas de evangelistas viajantes que, representando este estranho credo, percorreram o país de alto a baixo, enunciando a doutrina de que ‘está próximo o Reino de Deus’.

Diversas publicações da Torre de Vigia citaram estas publicações ao longo dos anos, tais como A Sentinela de 1 de fevereiro de 1969, nas páginas 71, 72, e a Despertai! de 8 de outubro de 1973.

Deve-se lembrar, porém, que o livro O Plano Divino das Eras havia dito (págs. 307, 308) que o “Dia da Ira” era o mesmo que o “Dia de Jeová”, o “Dia da Vingança”, e o “Dia do Senhor”, que começara em 1874. Além disso, o livro Está Próximo o Tempo, citado acima, havia dito na página 99:

… consideramos uma verdade estabelecida que o final completo dos reinos deste mundo, e o pleno estabelecimento do Reino de Deus, será efetuado por volta do fim de 1914.

Isto quer dizer que Russell esperava, não uma Guerra Mundial começando em 1914, e sim a aniquilação de todos os reinos do mundo não depois de 1914. Foi só alguns anos depois de 1914 que a Torre de Vigia começou a alegar que Russell tinha predito a I Guerra Mundial, porque Russell pensou que o irrompimento da Grande Guerra era o início do Armagedom (veja abaixo).

Isto se reflete claramente na imagem do artigo do jornal O Mundo, de 30 de agosto de 1914, que está reproduzido na página 5 da edição de A Sentinela de 1º de outubro de 1984. A manchete diz: “Fim de Todos os Reinos em 1914”. A edição de 22 de abril de 1974 da Despertai!, página 17, também reproduziu uma foto do artigo, mas cortou a manchete.

Curiosamente, o artigo do jornal O Mundo transmite a impressão de que Russell tinha predito a guerra. Mas a íntima familiaridade com os escritos de Russell nos quarenta anos prévios, e a habilidade de selecionar declarações convenientes indica que o autor do artigo, ou era colaborador próximo de Russell ou obteve seu material de um deles. Seria extremamente improvável um jornalista neutro ser tão versado nos escritos de Russell. Um escritor neutro certamente teria incluído o material citado acima, que mostra claramente qual era o verdadeiro pensamento de Russell.

Este episódio faz lembrar o que ocorreu com um artigo na Despertai! de 22 de fevereiro de 1977. Uma declaração sobre os dados do terremoto (página 11) foi extraída e publicada de forma ligeiramente alterada em um jornal italiano, Il Piccolo, de 8 de outubro de 1978. Em seguida, essa declaração do Il Piccolo foi extraída e publicada na revista A Sentinela de 15 de junho de 1979 (página 11) e usada como uma autoridade de referência “neutra” sobre dados de terremotos. Esta declaração “neutra” foi usada nas publicações da Torre de Vigia pelo menos umas 10 vezes até 1985, sendo a última no livro A Vida – Qual a Sua Origem? A Evolução ou a Criação?, pág. 225.

Contrastes Estranhos

Em 1916 Russell anunciou na revista A Torre de Vigia de 1º de setembro, página 265, que o Armagedom já tinha começado:

Entrementes, nossos olhos do entendimento devem discernir claramente a Batalha do Grande Dia do Deus Todo-Poderoso atualmente em progresso.

Em 1917, a Torre de Vigia publicou os Sermões do Pastor Russell, que disse na página 676 (em inglês):

A atual grande guerra na Europa, é o início do Armagedom das Escrituras.

Contraste-se as afirmações acima sobre quando o Armagedom começou com o que diziam as matérias publicadas bem antes de 1914:

A Torre de Vigia de Sião de 15 de janeiro de 1892, páginas 21-23, afirmou novamente que a batalha final já tinha começado, com o seu fim vindo em 1914:

A data do encerramento dessa “batalha” está definitivamente marcada nas Escrituras para outubro de 1914. Ela já está em andamento, datando seu início de outubro de 1874. Até agora, tem sido principalmente uma batalha de palavras e um tempo para organização de forças – capital, trabalho, exércitos e sociedades secretas.

Nunca houve um tempo em que se formaram tantas coligações como no presente. Não só as nações estão se aliando umas às outras para proteger-se contra outras nações, mas as várias facções dentro de cada nação estão se organizando para proteger seus diversos interesses. Mas, por enquanto, as várias facções estão simplesmente estudando a situação, examinando a força de seus adversários e procurando aperfeiçoar seus planos e poder para a luta futura, que muitos, sem o testemunho da Bíblia, parecem convencer-se de que é inevitável. Outros ainda se iludem dizendo, Paz! Paz! quando não há nenhuma possibilidade de paz até que o reino de Deus assuma o controle, compelindo-os a que se faça sua vontade na terra como é feita agora no céu.

Este aspecto da batalha deve continuar com variável sucesso para todos os envolvidos; a organização deve ser muito abrangente; e o conflito final será comparativamente curto, terrível e decisivo – resultando em anarquia geral.

Outro livro de Russell, Venha o Teu Reino, de 1891, disse na página 153:

…com o fim de 1914, o que Deus chama de Babilônia, e que os homens chamam de Cristandade, terá passado, conforme já mostrado a com base na profecia.

Então, é claro que por um longo tempo anterior a 1914 Russell disse que o Armagedom “já está em andamento”, mas depois de 1914, ele disse que esta batalha começou em 1914.

Consideremos novamente as citações da revista A Torre de Vigia de 15 de janeiro de 1892 e 15 de julho de 1894, página 30. O que essas citações e os parágrafos acima fazem com a alegação atual da Torre de Vigia de que “ninguém predisse a Primeira Guerra Mundial” antes de 1914? Russell disse claramente que as condições estavam maduras para uma grande conflagração. O próprio livro TJPD disse na página 53:

Uma atmosfera explosiva de rivalidade nacional se desenvolveu em todo o mundo, e a campanha febril dos líderes políticos e comerciais em sua louca corrida armamentista estava sendo totalmente apoiada pelo clero de todas as terras. França e Alemanha foram acumulando um enorme potencial bélico, enquanto a Grã-Bretanha e os Estados Unidos foram se fortalecendo também. Verdadeiramente, as massas da humanidade foram sendo arrebanhadas em campos de guerra. Satanás, como governante deste mundo, foi juntando suas forças para o fim que ele sabia que deveria vir em 1914.

Isto é confirmado por muitas outras declarações que Russell fez e que são citadas neste artigo. Por exemplo, a edição de A Torre de Vigia de 1º de maio de 1914 disse na página 134:

Não há absolutamente motivo algum para os estudantes da Bíblia questionarem que a consumação desta era do evangelho está mesmo às portas agora, e que ela vai acabar como as Escrituras predizem em um grande tempo de tribulação tal como nunca houve desde que existe nação. Vemos os participantes desta grande crise se ajuntando… A grande crise, o grande choque, simbolicamente representado como um incêndio que consumirá os céus eclesiásticos e a terra social, está muito próximo.

No entanto, com base em Rev. 6:4 a organização Torre de Vigia afirma agora que a paz e a segurança foram subitamente tiradas da terra em 1914. Que as Escrituras falam sobre um cavaleiro montado num cavalo cor de fogo ao qual “foi dado que tirasse a paz da terra, de modo que os homens se matassem uns aos outros”, cuja cavalgada a Torre de Vigia diz que começou em 1914. Para provar isso a organização cita, não historiadores, e sim dois estadistas idosos e duas Testemunhas de Jeová. Os dois estadistas foram mencionados muitas vezes nas publicações da Torre de Vigia, pois na velhice eles se recordavam de sua juventude como um tempo de paz, segurança e otimismo, algo que “de repente, inesperadamente” desapareceu em 1914, segundo a revista A Sentinela de 1º de novembro de 1982, página 14. Da mesma forma, a Despertai! de 8 de novembro de 1981, página 6, cita Ewart Chitty, que tinha 16 anos quando a guerra começou, e George Hannan, que tinha 15 anos na época. Hannan afirmou que “ninguém esperava a Primeira Guerra Mundial… As pessoas diziam que o mundo se tornara civilizado demais para haver guerra. Mas a guerra mundial veio inesperadamente como um raio.” Então qual das alegações está correta, a do livro TJPD ou as dessas publicações de 1981 e 1982?

O material acima mostra como a Torre de Vigia encarava as condições do mundo em 1892 como uma prova clara de que o mundo estava então prestes a entrar seus espasmos finais, com seu último suspiro vindo em 1914. Embora seja verdade que a palavra “opinião” tenha sido usada, quão significativo é isto quando, ao mesmo tempo Deus é incluído no cenário como apoiador das datas estabelecidas? Quem estaria inclinado a duvidar das “datas de Deus”?

Mudanças Estranhas

O livro de 1904, A Nova Criação, disse na página 579:

De acordo com nossas expectativas a tensão do tempo de tribulação estará logo sobre nós, em algum momento entre 1910 e 1912 – culminando com o fim dos “Tempos dos Gentios”, outubro de 1914.

O início da severidade da tribulação não está claramente marcado nas Escrituras, e é um tanto conjectural. Inferimos que uma tribulação tão grande, uma catástrofe tão mundial, dificilmente poderia ocorrer em menos de três anos, e que, se ela durasse muito mais do que três anos “ninguém seria salvo”.

Russell editou alguns volumes dos Estudos das Escrituras uma vez que as coisas não sucederam como ele esperava. Ele não chamou os volumes alterados de edições “revisadas”. Por exemplo:

A edição de 1906 do Vol. 3, Venha o Teu Reino, disse na página 228:

Que a libertação dos santos deve ocorrer algum tempo antes de 1914 é manifesto… Exatamente quanto tempo antes de 1914 o último membro vivo do Corpo de Cristo será glorificado, não é diretamente informado.

A edição de 1916 do Vol. 3, Venha o Teu Reino, disse na página 228 (as alterações em relação à edição de 1906 estão grifadas):

Que a libertação dos santos deve acontecer imediatamente depois de 1914 é manifesto… Exatamente quanto tempo depois de 1914 o último membro vivo do Corpo de Cristo será glorificado, não é diretamente informado.

Conforme 1914 se aproximava, Russell mudou e atenuou algumas de suas opiniões. A edição de 1º de julho de 1904 de A Torre de Vigia disse, sob o título “Anarquia Universal – Logo Antes ou Logo Depois de Outubro de 1914 A. D.”, nas páginas 197, 198:

O que parece ser à primeira vista a coisa mais trivial e totalmente desvinculada do assunto, mudou nossa convicção com respeito ao tempo em que a anarquia universal pode ser esperada, segundo os números proféticos. Esperamos agora que o auge anárquico do grande tempo de tribulação, que precederá as bênçãos do Milênio ocorrerá depois de outubro de 1914, A.D. — bem rapidamente depois disso, em nossa opinião — “em uma hora”, “repentinamente”, porque não se deve esperar que “nossos quarenta anos” de colheita, terminando em outubro de 1914 A.D. incluam o terrível período de anarquia que as Escrituras indicam ser o destino da Cristandade.

Enquanto em 1894 ele havia afirmado que os números apresentados eram “datas de Deus, não nossas”, em A Torre de Vigia de 1º de outubro de 1907, sete anos antes de 1914, no artigo “O Conhecimento e a Fé Sobre a Cronologia”, página 295 (já citado antes, de maneira mais completa) ele agora dizia:

Podemos nos sentir absolutamente seguros de que é correta a cronologia apresentada nos ESTUDOS DA AURORA DO MILÊNIO? —  que a colheita começou em 1874 A.D. e terminará em 1914…? Respondemos… que nunca afirmamos que nossos cálculos fossem infalivelmente corretos; nunca alegamos que fossem conhecimento, nem baseados em evidência incontestável, fatos, conhecimento; a nossa afirmação sempre foi que eles se baseiam na .

Curiosamente, o mesmo artigo de A Torre de Vigia de Sião de 1907 reconheceu a vulnerabilidade da cronologia de Russell:

…Suponha que 1915 A.D. passe, com os assuntos do mundo todos tranquilos e com a evidência de que os “escolhidos” não foram “mudados” e sem a restauração do Israel natural ao favor sob o Novo Pacto (Rom 11:12,15). O que dizer, então? Não provaria isso que nossa cronologia está errada? Com certeza provaria! Não mostraria ser isso um profundo desapontamento? Realmente seria! Seria um naufrágio irreparável para as dispensações paralelas e o dobro de Israel, para os cálculos do jubileu, a profecia dos 2.300 dias de Daniel, o período chamado de “Tempos dos Gentios”, e para os 1260, 1290 e 1335 dias … nenhum destes estaria mais disponível.

O mundo não estava tranquilo em 1915, mas seria uma predição que não fazia parte das três originais uma base suficiente para a fé?

Em 1912 Russell tinha ficado mais cauteloso. A Torre de Vigia de 1º de dezembro de 1912 mostrou o quanto ele estava menos taxativo quanto aos cálculos (veja acima uma citação completa). O que antes eram “datas de Deus” foi convertido em “nossas opiniões”.

Em 1913 a cautela de Russell tinha aumentado mais. No artigo “Que Vossa Moderação Seja Conhecida”, no número de 1º de junho de 1913 de A Torre de Vigia, página 167, ele alertou seus leitores contra gastar “tempo e energia valiosos em adivinhar o que vai ocorrer neste ano, no próximo, etc.” Evidentemente, ele tinha perdido muito de sua confiança anterior: “Estas são as boas novas da graça de Deus em Cristo – quer a igreja se complete antes de 1914 ou não.”

Russell começou realmente a falar com pouca convicção na edição de 15 de outubro do mesmo ano, páginas 303-307:

Estamos esperando chegar o tempo em que o governo do mundo será entregue ao Messias. Não podemos dizer se isso ocorrerá em outubro de 1914 ou em outubro de 1915. É possível que estejamos desfasados em vários anos em relação à contagem correta do assunto. Não podemos dizer com certeza. Não sabemos. É uma questão de fé, e não de conhecimento.

A fé vacilante de Russell em sua cronologia foi evidenciada ainda à luz do que disse A Torre de Vigia de 1 º de janeiro de 1914, páginas 1-5:

Conforme já se indicou, não estamos de modo algum confiantes de que este ano, 1914, testemunhará mudanças tão radicais e rápidas na dispensação como esperávamos. Está além do poder de nossa imaginação esboçar um cumprimento em um ano de tudo o que as Escrituras parecem indicar que se deve esperar antes da introdução do reinado de paz… Se mais tarde for demonstrado que a igreja não está glorificada por volta de outubro de 1914, tentaremos ficar satisfeitos com a vontade do Senhor, qualquer que seja ela…. Se 1915 passar sem a transferência da igreja, sem o tempo de tribulação, etc., isso pareceria uma grande calamidade para alguns. Não seria assim no nosso caso… Se na providência do Senhor o tempo viesse vinte e cinco anos depois, então isso seria nossa vontade…. Se outubro de 1915 passar e ainda nos encontrarmos por aqui, com as coisas continuando exatamente como estão no presente, e o mundo evidentemente fazendo progresso no sentido de resolver divergências, e não houver qualquer tempo de tribulação à vista, sem a igreja nominal estar federada, etc.,  diríamos que evidentemente nos deslocamos em algum momento na nossa contagem. Nesse caso examinaríamos mais as profecias, para ver se podemos encontrar um erro. E então pensaríamos, Estávamos esperando a coisa errada na época certa? A vontade do Senhor pode permitir isto.

Daí, na edição de 1º de maio de 1914, Russell, novamente esqueceu suas anteriores declarações taxativas, dizendo aos seus leitores que

nestas colunas e nos seis volumes de Estudos das Escrituras estabelecemos tudo relativo aos tempos e as épocas de forma provisória, isto é, não com positividade; ou seja, não afirmando que sabíamos, mas sugerindo que “assim e desta forma” parece ser o ensino da Bíblia.

Dois meses depois, Russell parecia estar prestes a rejeitar sua cronologia completamente. Respondendo a um colportor, que quis saber se os Estudos das Escrituras deveriam ser distribuídos depois de outubro de 1914, Russell disse:

… já que você tem algumas dúvidas em relação  ao pleno cumprimento do que todos esperavam que ocorresse por volta ou antes de outubro de 1914, … É o nosso pensamento que estes livros estarão à venda e serão lidos durante anos no futuro, contanto que a era do Evangelho e o seu trabalho continue…. Nós não tentamos dizer que estes conceitos são infalíveis, mas expusemos os processos de raciocínio e de cálculo, deixando a cada leitor o dever e o privilégio de ler, pensar e calcular por si mesmo. Esse será um assunto interessante daqui a cem anos; e se alguém conseguir calcular e raciocinar melhor, ainda assim estará interessado naquilo que apresentamos.

Assim, Russell agora parecia disposto a aceitar a ideia de que a data de 1914, provavelmente era um fracasso, e que seus escritos sobre o assunto seriam apenas de interesse histórico para os estudantes da Bíblia cem anos depois!

Daí, porém, irrompeu a Primeira Guerra Mundial, e a confiança de Russell na cronologia se refez rapidamente. Embora a guerra em si não se encaixasse no padrão dos eventos preditos – ou seja, que o tempo de tribulação seria uma luta de classes entre capital e trabalho, levando a um período de anarquia mundial – ele viu na Guerra o prelúdio dessa situação. Na edição de A Torre de Vigia de 15 de agosto de 1914, ele escreveu:

Cremos que o socialismo é o principal fator na guerra agora em furioso curso e que será a guerra maior e mais terrível da terra – e provavelmente a última.

Mais tarde, na edição de A Torre de Vigia de 1º de novembro de 1914 Russell escreveu:

Pensamos que a atual angústia entre as nações é simplesmente o começo deste tempo de tribulação… A anarquia que virá depois desta guerra será a verdadeira época de tribulação… Nosso pensamento é que a guerra enfraquecerá tanto as nações que em seguida haverá uma tentativa de introduzir ideias socialistas, e que isso irá de encontro aos governos – etc.,  levando a uma luta de classes e anarquia mundial.

Além disso, embora a cidade de Jerusalém ainda estivesse sendo pisada pelos gentios, Russell argumentou que os tempos dos gentios tinham terminado:

O pisoteamento dos judeus parou. Por todo o mundo os judeus estão agora livres – até mesmo na Rússia. Em 5 de setembro, o Czar da Rússia emitiu uma proclamação a todos os judeus do Império Russo; e isto foi antes de os tempos dos Gentios terem terminado. A proclamação declarou que os judeus podem ter acesso aos mais altos postos no exército russo, e que a religião judaica deve ter a mesma liberdade que qualquer outra religião na Rússia. Onde é que os judeus estão sendo pisoteados agora? Onde é que estão sendo sujeitos ao escárnio? Atualmente eles não estão sendo perseguidos de modo algum. Acreditamos que o pisoteamento de Jerusalém cessou, porque o tempo para os gentios pisotearem Israel acabou.

A. H. Macmillan, nas páginas 47 e 48 do seu livro de 1957, intitulado A Fé em Marcha, relata o que ocorreu em outubro de 1914:

Foi uma época muito interessante, porque alguns de nós achavam seriamente que iríamos para o céu durante a primeira semana de outubro… Um grande número de congressistas ficou em Betel, a residência dos funcionários da sede. Na sexta-feira de manhã (02 de outubro) estávamos todos sentados à mesa do café, quando Russell desceu… Mas esta manhã, em vez de se dirigir à sua cadeira, como de costume, ele rapidamente bateu palmas e anunciou jubilosamente: “Terminaram os tempos dos gentios; seus reis já tiveram os seus dias.” Todos nós aplaudimos.

A Torre de Vigia citou com frequência este trecho, pois A. H. Macmillan foi um dos homens encarcerados junto com J. F. Rutherford em 1918, e dentro da equipe da sede mundial ele era respeitado o suficiente para poder escrever seu livro, com a bênção de N. H. Knorr e usando as instalações das bibliotecas da sede da Torre de Vigia. Porém, Macmillan dá uma falsa impressão do que estava acontecendo. Mais do que “alguns” dos Estudantes da Bíblia pensavam que iriam para o céu, justamente por que Russell tinha pregado isso por muitos anos – com as posteriores reservas, é verdade. Quando nada aconteceu em 1914 da maneira que Russell esperava, muitos deixaram seu movimento religioso.

O Restabelecimento da Confiança

Desde o irrompimento da Primeira Guerra Mundial e até sua morte em 31 de outubro de 1916, a confiança restaurada de Russell em sua cronologia permaneceu inabalada, como demonstram os seguintes extratos de várias edições de A Torre de Vigia de Sião durante aquele período:

1º de setembro de 1914: Embora seja possível que o Armagedom pode começar na próxima primavera, ainda assim é pura especulação tentar dizer exatamente quando. Vemos, porém, que há paralelos entre o fim da era judaica e esta era do Evangelho. Estes paralelos parecem apontar para o ano que está logo diante de nós – especialmente os primeiros meses.

1º de janeiro de 1915: … a guerra é a predita nas Escrituras associada com o grande dia do Deus Todo-Poderoso – “o dia da vingança do nosso Deus”.

1º de abril de 1915: A Batalha do Armagedom, à qual esta guerra está levando, será uma grande disputa entre o certo e o errado, e significará a derrubada completa e eterna do errado, e o estabelecimento permanente do reino justo do Messias, para a bênção do mundo… Nossas simpatias são largas o suficiente para abranger todos os envolvidos na contenda terrível, assim como nossa esperança é suficientemente ampla e profundo para incluir a todos nas grandes bênçãos que o nosso Mestre e seu reinado milenar estão prestes a trazer ao mundo.

15 de setembro de 1915: Traçando a cronologia bíblica até os nossos dias, vemos que estamos vivendo agora na aurora do sétimo grande dia da grande semana da humanidade. Isto é abundantemente corroborado pelos eventos que estão ocorrendo agora, próximos de todos nós.

15 de fevereiro de 1916: Em Estudos das Escrituras, Vol. IV, apontamos claramente as coisas agora em curso, e as piores condições ainda por vir.

15 de abril de 1916: Acreditamos que as datas se mostraram bem certas. Cremos que os Tempos dos Gentios terminaram, e que Deus está permitindo que os governos gentios se destruam, a fim de preparar o caminho para o reino do Messias.

1º de setembro de 1916: Ainda parece claro para nós que o período profético conhecido como os Tempos dos Gentios terminou cronologicamente, em outubro de 1914. O fato de que o grande dia da ira sobre as nações começou naquele momento assinala um bom cumprimento de nossas expectativas… Não vemos qualquer razão para duvidar, portanto, que os Tempos dos Gentios terminaram em outubro de 1914, e que em poucos anos anos testemunharemos o seu colapso completo e o pleno estabelecimento do reino de Deus nas mãos do Messias.

Depois da morte de Russell, a Torre de Vigia publicou os Sermões do Pastor Russell em 1917, que disse na página 676:

A atual grande guerra na Europa, é o início do Armagedom das Escrituras. (Rev. 16:16-20). Ele vai redundar na derrocada completa de todos os sistemas de erro que oprimiram o povo de Deus e enganaram o mundo por tanto tempo… Cremos que a atual guerra não pode durar muito mais tempo até que irrompa a revolução.

Curiosamente, em outubro de 1916, Russell minimizou a importância do que ele havia predito para 1914. No prefácio à edição de 1916 de O Tempo Está Próximo, ele escreveu na página iii, exercendo notável visão retrospectiva:

Naturalmente, não poderíamos saber em 1889 se a data de 1914, tão claramente marcada na Bíblia como o fim da licença de poder ou permissão para os gentios governarem o mundo, significaria que eles seriam totalmente apeados do poder nessa época, ou seja, sua licença expiraria e sua expulsão teria início. A última coisa que percebemos ser o programa do Senhor, e prontamente em agosto de 1914, é que os reinos gentios mencionados na profecia começaram o atual grande conflito, que, segundo a Bíblia, culminará com a derrocada completa de todo o governo humano, abrindo o caminho para o pleno estabelecimento do Reino do Filho amado de Deus.

No prefácio à edição de 1916 de Venha o Teu Reino ele escreveu, nas páginas i e ii:

… prevemos que antes de se passar muito tempo – talvez um ano ou dois ou três – o número completo dos eleitos será atingido, e todos terão ido para o outro lado do Véu e a porta será fechada.

Assim, Russell achou que as coisas que não ocorreram em 1914 ainda aconteceriam bem pouco tempo depois – “talvez um ano ou dois ou três.” No prefácio de Está Próximo o Tempo ele se desculpou por algumas dessas falsas predições:

O autor reconhece que neste livro ele apresenta o pensamento de que os santos do Senhor podem esperar estar com Ele na glória no fim dos Tempos dos Gentios. Este foi um erro natural no qual se pode cair, mas o Senhor o anulou para a bênção de Seu povo. O pensamento de que a Igreja seria ajuntada em glória antes de outubro de 1914, teve certamente um efeito muito estimulante e santificador sobre milhares, todos os quais podem concordemente louvar o Senhor – até pelo erro. Muitos, inclusive, podem expressar-se como estando gratos ao Senhor que a culminação das esperanças da Igreja não foi atingida no momento em que esperávamos, e que nós, como povo do Senhor, temos oportunidades adicionais de aperfeiçoar a santidade e de sermos participantes com nosso Mestre na divulgação adicional de Sua Mensagem ao Seu povo.

Envolver Deus e Cristo nos erros cometidos, com Deus “anulando” certas previsões, provê uma escapatória muito conveniente de ter de arcar com a verdadeira responsabilidade por ter apresentado falsamente como “datas de Deus” coisas que não eram de modo algum datas de Deus, mas simplesmente o produto da especulação humana. Encontra-se mérito até mesmo em falsas predições devido ao suposto “efeito estimulante e santificador” produzido, para que se possa “louvar ao Senhor – até pelo erro.” Essa abordagem deu margem para previsões ainda mais falsas com seus efeitos “estimulantes”. J. F. Rutherford e seus sucessores tiraram pleno proveito da cortina de fumaça que essas idéias ocasionaram.

Ao contrário das expectativas de Russell, a guerra terminou em 1918, sem ser seguida pela revolução socialista e anarquia mundial. O último membro da Igreja de Cristo não tinha sido glorificado, a cidade de Jerusalém ainda estava sendo pisada pelos gentios, o Reino de Deus não havia esmagado “a imagem gentia”, e os “novos céus e a nova terra” não podia ser visto em lugar algum pela humanidade afligida pelos problemas. Nenhuma das sete previsões enumeradas no livro Está Próximo o Tempo tinha se tornado realidade.

O livro Luz, Tomo I, publicado em 1930, página 194, descreveu muito bem os efeitos das previsões fracassadas:

Todos os do povo do Senhor olhavam à frente para 1914 com alegre expectativa. Quando esse tempo veio e passou houve muito desapontamento, desgosto, e luto, e o povo do Senhor caiu em grande reprovação. Eles foram ridicularizados pelo clero e seus aliados, em particular, e apontados com desprezo, porque eles tinham falado tanto sobre 1914, e o que ocorreria, e suas ‘profecias’ não tinham se cumprido.

Depois dum intervalo de alguns anos, J. F. Rutherford deu início ao processo de substituir as predições não cumpridas de Russell por uma série de eventos invisíveis e espirituais associados aos anos de 1914 e 1918. No início da década de 1930 o processo estava completo.

Carl Sagan fez um interessante comentário sobre esta transformação no seu livro Broca’s Brain (O Cérebro de Broca, Nova Iorque: Ballantine Books, 1979, págs. 332, 333):

Doutrinas que não fazem qualquer predição são menos motivadoras do que as que fazem predições corretas; estas por sua vez têm mais sucesso do que as que fazem predições falsas.

Mas nem sempre. Uma proeminente religião americana predisse confiantemente que o fim do mundo ocorreria em 1914. Bem, 1914 veio e passou, e – embora os eventos daquele ano tenham sido de certa importância – o mundo não parece ter acabado, pelo menos não até onde posso ver.

Há pelo menos três respostas que uma religião organizada pode dar diante de uma profecia fracassada tão fundamental como esta. Eles poderiam dizer: “Oh, nós dissemos ‘1914’? Desculpem, nós queríamos dizer ‘2014’. Um pequeno erro de cálculo. Esperamos que isto não tenha causado algum transtorno para vocês.” Mas eles não disseram isto. Poderiam ter dito: “Bem, o mundo acabaria, mas nós oramos bem fervorosamente e intercedemos junto a Deus, por isso Ele poupou a Terra.” Mas eles não disseram isso. Em vez disso, fizeram uma coisa muito mais engenhosa. Proclamaram que o mundo acabou realmente em 1914, e que se não percebemos isso foi porque não olhamos direito.

Diante de evasivas tão óbvias desse tipo, é espantoso que esta religião ainda tenha algum seguidor. Mas as religiões são resistentes. Elas não fazem qualquer declaração que possa ser refutada, ou então mudam rapidamente sua doutrina depois de esta ter sido refutada. O fato de as religiões poderem ser tão descaradamente desonestas, mostrando tanto desprezo pela inteligência dos seus adeptos, e ainda assim prosperarem, não diz muita coisa quanto à capacidade intelectual dos que creem nelas. Mas indica, se fosse necessária uma demonstração disso, que no centro da experiência religiosa existe alguma coisa notavelmente resistente ao questionamento racional.”

Declarações Referentes a 1918, 1925 e 1975

As Declarações Referentes ao Ano de 1918

O livro O Mistério Consumado, publicado em 1917, páginas 62, 64, disse, de maneira bem autoritativa:

Os dados apresentados nos comentários sobre Revelação 1:1 …. provam que a primavera [setentrional] de 1918 trará sobre a cristandade um espasmo de angústia ainda maior do que o vivido no segundo semestre de 1914.

O despertar dos santos adormecidos, em 1878 A.D., foi apenas metade do caminho (três anos e meio em cada direção) entre o início dos Tempos da Restituição em 1874 e o fim da Chamada do Alto em 1881. Nossa proposição é que a glorificação do Pequeno Rebanho na primavera de 1918 A.D. será meio caminho (três e meio ano em cada direção) entre o fim dos Tempos dos Gentios e o fechamento do Caminho Celestial, em 1921 A.D.

Naturalmente, estas predições também fracassaram. Talvez a linguagem mais forte usada estava nas predições de uma terrível destruição destinada a vir sobre as igrejas da Cristandade e seus membros em 1918, com os corpos mortos deles ficando espalhados insepultos. As páginas 484, 485 disseram:

Além disso, no ano de 1918, quando Deus destruir totalmente as igrejas e os membros das igrejas aos milhões, sucederá que qualquer pessoa que escapar se voltará para as obras do Pastor Russell para aprender o significado da derrocada do “Cristianismo”.

A página 513 dizia:

No ano de 1918, em que a cristandade cairá como sistema no esquecimento… Deus fará tremer as nações com revoluções gigantescas.

O livro também predizia eventos estupendos para 1920. Na página 258 ele disse:

Até as repúblicas desaparecerão no outono de 1920…

Todo reino da terra passará, será tragado pela anarquia…

Os três dias em que o exército de Faraó perseguiu os israelitas no deserto representam os três anos de 1917 a 1920, nos quais todos os mensageiros de Faraó serão tragados no mar da anarquia.

Na página 542 o livro dizia:

Assim como os apóstatas de mentalidade carnal do cristianismo, alinhados com os radicais e revolucionários, se regozijarão com a herança de desolação que será da Cristandade depois de 1918, assim Deus se regozijará com o bem-sucedido movimento revolucionário; ele será completamente desolado “todo ele.” Nenhum vestígio dele sobreviverá às devastações da completa anarquia mundial, no outono de 1920.

As Declarações Referentes ao Ano de 1925

O folheto Milhões Que Agora Vivem Jamais Morrerão, (publicado no Brasil em 1923), disse nas páginas 111, 112:

Como previamente temos demonstrado, o grande ciclo do jubileu deve principiar em 1925. Nesta data a parte terrestre do Reino será reconhecida… Portanto, podemos seguramente esperar que 1.925 marcará a volta às condições de perfeição humana, de Abraão, Isaque, Jacó e os antigos profetas fiéis, especialmente esses mencionados pelo Apóstolo no capitulo onze de Hebreus.

Na página 122, o folheto disse:

Baseado nos argumentos até aqui apresentados, isto é, que a ordem velha das coisas, o velho mundo está se findando e desaparecendo, e que a nova ordem ou organização está se iniciando, e que 1925 será a data marcada para a ressurreição dos anciãos dignos e fiéis, e o princípio da reconstrução, chega-se à conclusão razoável de que milhões dos que vivem agora na terra ainda estarão vivos no ano de 1925, Então, baseados nas promessas encontradas nas palavras Divinas, chegamos à positiva e indiscutível conclusão de que milhões que agora vivem jamais morrerão.

A Torre de Vigia fez diversas referências à “Campanha dos Milhões”, mas nunca informou claramente seus leitores de que todo o fundamento dessa alegação de que “Milhões Que Agora Vivem Jamais Morrerão”* assentava-se nas previsões sobre 1925, previsões que se revelaram totalmente falsas, e sobre as quais J. F. Rutherford admitiu depois perante a família de Betel: “Sei que fiz papel de tolo.”

[* A campanha teve início com um discurso intitulado “O Mundo Acabou — Milhões Que Agora Vivem Talvez Jamais Morram”, proferido em 24 de fevereiro de 1918 por J. F. Rutherford em Los Angeles (Anuário das Testemunhas de Jeová de 1976, pág. 127; revista A Sentinela de 1º de janeiro de 1984, pág. 18; livro Testemunhas de Jeová – Proclamadores do Reino de Deus, pág. 648). O discurso aparentemente gerou uma reação tão empolgante que seu nome foi logo mudado para ter um efeito ainda mais forte.]

A organização Torre de Vigia publicou muitas declarações de que a data de 1925, e todas as demais dentro de sua cronologia, eram absolutamente sólidas. Num artigo sobre cronologia, a revista A Torre de Vigia de 15 de maio de 1922 disse:

Não temos dúvida alguma sobre a cronologia relacionada com as datas de 1874, 1914, 1918 e 1925.

Foi neste método de contagem que as datas de 1874, 1914 e 1918 foram localizadas e, o Senhor colocou a marca do seu selo sobre 1914 e 1918 além de qualquer possibilidade de ser apagada. De que evidência adicional precisamos?

Usando esse mesmo método de medição… é uma tarefa elementar localizar 1925, provavelmente no outono, por volta do início do jubileu antitípico. Não pode haver mais dúvida quanto 1925 do que havia quanto a 1914. O fato de que todas as coisas que alguns esperavam para 1914 não terem se concretizado, não altera em nada a cronologia. Observando a data marcada de forma tão proeminente, é muito fácil para a mente finita concluir que todo o trabalho a ser feito deve estar centralizado nisso e, assim, muitos se inclinam a antecipar mais do que foi realmente predito. Assim foi em 1844, 1874, 1878, bem como em 1914 e 1918. Olhando para trás, podemos ver facilmente que essas datas foram indicadas claramente nas Escrituras e, sem dúvida, o Senhor tinha a intenção de encorajar seu povo, como eles foram, bem como usá-las como um meio de testar e peneirar quando tudo o que alguns esperavam não veio a ocorrer. O fato de que tudo o que alguns esperam ver em 1925 poder não se manifestar nesse ano não alterará de modo algum a data mais do que alterou nos outros casos.

Surpreendentemente, a responsabilidade pelas expectativas fracassadas resultantes de profecias cronológicas anteriores foi toda atribuída a Deus; ‘sem dúvida, o Senhor tinha a intenção de encorajar seu povo… e usá-las como um meio de testar e peneirar…’ Nada se viu de estranho neste conceito de que Deus e Cristo usariam a mentira como um meio para incentivar seus servos. Conforme diz 1 João 1:5, “Deus é luz e com ele não há escuridão alguma.” A ideia de que Deus ou seu Filho usariam o erro para orientar os cristãos é alheia às Escrituras.

A Torre de Vigia de 15 de junho de 1922, pág. 187, disse:

A cronologia da verdade atual poderia ser uma mera casualidade se não fosse pelas repetições em dois grandes ciclos de 1.845 e 2.520 anos, que a tira do âmbito da probabilidade e a coloca no da certeza. Se existissem apenas uma ou duas datas correspondentes nestes ciclos, seriam possivelmente meras coincidências, mas onde as concordâncias de datas e eventos ocorrem às dúzias, não pode ser por acaso, mas deve ser pelo desígnio ou plano do único Ser pessoal capaz de um plano assim – o próprio Jeová; e a cronologia em si deve estar certa.

Nas passagens da Grande Pirâmide de Gizé, a concordância de uma ou duas medidas com a cronologia da verdade atual poderia ser acidental, mas a correspondência de dúzias de medidas prova que o mesmo Deus projetou tanto a pirâmide como o plano – e prova ao mesmo tempo a exatidão da cronologia…

É com base nessa e em muitas outras correspondências que – segundo as mais sólidas leis conhecidas da ciência – afirmamos que, bíblica, científica e historicamente, a cronologia da verdade atual está correta, além de dúvida. Sua confiabilidade foi abundantemente confirmada pelas datas e  pelos eventos de 1874, 1914 e 1918. A cronologia da verdade atual é uma base segura sobre a qual o filho consagrado de Deus pode se esforçar a pesquisar as coisas por vir.

A edição de A Torre de Vigia de 15 de julho de 1922, debaixo do título “O Cabo Forte da Cronologia”, disse:

Existem aí, portanto, relações bem-estabelecidas entre as datas da cronologia da verdade atual. Estas ligações internas de datas dão uma força muito maior do que a que se pode encontrar em outras cronologias. Algumas delas são de caráter tão notável de maneira a indicar claramente que esta cronologia não é de homem, e sim de Deus. Sendo de origem divina e divinamente comprovada, a cronologia da verdade atual se mantém por si mesmo numa categoria absoluta e indiscutivelmente correta

Na cronologia da verdade atual, existem tantas relações internas entre as datas que não se trata de mera sequência de datas, nem de uma corrente, mas de um cabo de fios firmemente entrelaçados – um sistema divinamente unificado, com a maioria das datas tendo relações tão notáveis com outras, que sela o sistema como não sendo de origem humana

Será mostrado claramente que a cronologia da verdade atual mostra evidência incontestável de presciência divina das principais datas, e que isso é prova de origem divina, e que o sistema não é uma invenção humana mas uma descoberta de verdade divina… cremos que ela leva o sela de aprovação do Deus Todo-Poderoso.

Seria absurdo alegar que a relação descoberta não foi o resultado de arranjo divino.

A Torre de Vigia de 1° de setembro de 1922, disse na página 262:

…. toda a Europa é como uma panela fervente, com a intensidade do calor cada vez maior. Se qualquer um que tenha estudado a Bíblia viajar pela Europa e não se convencer de que o mundo acabou, que o dia da vingança de Deus está aqui, que o reino messiânico está às portas, então essa pessoa leu a Bíblia em vão. Os fatos físicos mostram sem sombra de dúvida que em 1914 terminaram os tempos dos gentios; e conforme o Senhor predisse, a velha ordem está sendo destruída pela guerra, fome, pestilência e revolução.

A data de 1925 é ainda mais distintamente indicada pelas Escrituras porque é estabelecida pela lei que Deus deu a Israel. Vendo a situação atual na Europa, uma pessoa se perguntará como é possível conter a explosão por muito mais tempo, e que, mesmo antes de 1925 a grande crise terá sido atingida e provavelmente passado.

O congresso de Cedar Point, Ohio, em 1922, é regularmente mencionado nas publicações da Torre de Vigia como um marco importante na história da organização. Hoje, porém, cita-se uma pequena parte do discurso em apoio de 1914. Ignora-se o fato de que 1799 e 1874 figuravam com igual destaque no argumento apresentado e na conclusão da audiência foi chamado para alcançar. A Torre de Vigia de 1° de novembro de 1922 reproduziu o discurso:

A profecia bíblica indica que o Senhor estava destinado a aparecer pela segunda vez no ano de 1874. A profecia cumprida mostra, além de dúvida, que ele apareceu realmente em 1874. A profecia cumprida é também chamada de fatos físicos; e estes fatos são incontestáveis…

Já que ele [Cristo] tem estado presente desde 1874, segue-se, pelos fatos como os vemos agora, que o período de 1874 a 1914 é o dia da preparação. Isto de modo algum entra em choque contra o pensamento de que “o tempo do fim” vai de 1799 a 1914…

Durante seis mil anos Deus tem se preparado para este reino. Por 1.900 anos ele vem ajuntando dentre os homens a classe do reino. Desde 1874, o Rei da glória tem estado presente; e, durante esse tempo, tem conduzido uma colheita e ajuntado a si a classe do templo. Desde 1914, o Rei da glória assumiu seu poder e reina. Tem purificado os lábios da classe do templo e os envia com a mensagem. A importância da mensagem do reino não pode ser superestimada. É a mensagem de todas as mensagens. É a mensagem do momento. É incumbência dos que pertencem ao Senhor proclamá-la. O  reino do céu está próximo; o Rei reina; o império de Satanás está  caindo; milhões que agora vivem jamais morrerão.

Credes nisso? Credes que o Rei da glória está presente e tem  estado desde 1874? Credes que ele tem, durante esse tempo,  conduzido a obra da colheita? Credes você que ele tem tido, durante esse tempo, um servo fiel e prudente por meio do qual dirigiu sua obra e alimentou a família da fé? Credes que o Senhor está  agora em seu templo, julgando as nações da terra? Credes que o Rei da glória começou seu reinado?

Então, voltai ao campo, ó filhos do Deus altíssimo! Ponde a vossa  armadura! Sede sóbrios, sede vigilantes, sede ativos, sede valentes. Sede testemunhas fiéis e verdadeiras do Senhor. Avançai na luta até que todo vestígio de Babilônia venha a jazer desolado. Proclamai a mensagem por toda a parte. O mundo deve saber que Jeová é Deus e  que Jesus Cristo é Rei dos reis e Senhor dos senhores. Este é o dia de todos os dias. Eis que o Rei reina! Vós sois seus agentes de publicidade. Portanto, anunciai, anunciai, anunciai, o Rei e seu reino.

Eram realmente palavras empolgantes. Mas, resistiram elas ao teste do tempo? Duas destas três datas principais mencionadas já foram abandonadas. Dos ‘milhões que então viviam que jamais morreriam’, quase todos já faleceram (no momento em que se escreve isso). Curiosamente, esse discurso também mudou os eventos que se ensinava antes que tinham ocorrido de 1878 a 1914.

A Torre de Vigia de 1º de abril de 1923, disse na página 106, na seção “Perguntas e Respostas”:

Pergunta: Foi dada a ordem há oito meses para que os peregrinos parassem de falar sobre 1925? Temos mais razão, ou tanta razão para crer que o reino será estabelecido em 1925 quanto Noé tinha para crer que haveria um dilúvio?

Resposta: … Jamais houve em qualquer momento alguma sugestão aos irmãos peregrinos de que eles deveriam parar de falar sobre 1925… Nosso pensamento é que 1925 está definitivamente estabelecido pelas Escrituras, marcando o fim dos jubileus típicos. Exatamente o que vai ocorrer naquele momento ninguém pode dizer com certeza, mas esperamos tal clímax nos assuntos do mundo, que as pessoas começarão a perceber a presença do Senhor e seu poder no reino. Ele já está presente, como sabemos, e assumiu o poder e começou seu reinado. Ele veio ao seu templo. Ele está despedaçando as nações. De modo que todo cristão deveria estar contente, para fazer com seu poder o que suas mãos encontrarem para fazer, sem parar para fazer divagações sobre o que vai acontecer em determinada data.

Como Noé, o cristão de hoje tem muito mais em que basear a sua fé do que Noé tinha (até onde as Escrituras revelam) em que basear a fé dele no dilúvio vindouro.

A Torre de Vigia de 15 de julho de 1924, disse:

Que ninguém seja agora enganado por cálculos quanto a exatamente em que momento o Senhor encerrará seu trabalho com a Igreja na Terra. O ano de 1925 é uma data definitiva e claramente marcada nas Escrituras, ainda mais claramente que a de 1914, mas seria presunçoso da parte de qualquer seguidor fiel do Senhor supor exatamente o que o Senhor fará durante aquele ano.

A Torre de Vigia de 1º de janeiro de 1925, página 3, começou um discurso contido, dizendo:

O ano de 1925 está aqui. Com grande expectativa os cristãos tem aguardado este ano. Muitos estão esperando confiantemente que todos os membros do corpo de Cristo sejam transformados para a glória celestial durante este ano. Isto pode se cumprir. Pode não ser. Em seu tempo devido Deus cumprirá seus propósitos referentes ao seu próprio povo. Os cristãos não devem estar tão profundamente preocupados sobre que pode suceder durante este ano ao ponto de deixarem de fazer alegremente o que o Senhor deseja que eles façam.

A Torre de Vigia de 15 de fevereiro de 1925, páginas 56, 57, começou a lançar uma base para controlar danos maiores, sugerindo que qualquer culpa futura por predições fracassadas deveria ser colocada sobre “os amigos”:

Que 1925 será um ano fenomenal em muitos aspectos, é evidente … Parece ser uma fraqueza de muitos Estudantes da Bíblia que se eles localizam uma data futura na Bíblia, imediatamente eles focam nessa data tantas profecias quanto possível. Esta foi a causa de muitos peneiramentos no passado. Tanto quanto nos lembramos, todas as datas previstas estavam corretas. O problema foi que os amigos inflamaram sua imaginação além da razão; e quando a imaginação deles se despedaçou, eles se inclinaram a jogar tudo fora. Sem dúvida, o Sr. Miller estava correto em fixar 1844 como uma data bíblica. Mas ele espera demais. 1874 foi também facilmente localizado. 1878 também foi uma data marcante, e que trouxe ao irmão Russell uma provação severa até que ele corrigiu suas expectativas, como foi observado em seu “Peneiramentos da Colheita”, de abril de 1894, que não é mais impresso. Muitos podem se lembrar de quão “absolutamente certos” alguns estavam sobre 1914. Sem dúvida, o Senhor estava satisfeito com o zelo manifestado pelos seus servos; mas, tinham eles base bíblica para tudo o que esperavam que ocorreria naquele ano? Sejamos cautelosos, portanto, quanto à predição de particularidades. O Senhor vai torná-las claras tão rápido quanto elas se tornarem alimento no tempo apropriado.

Por esta época, longe de continuar predizendo dogmaticamente que em 1925 os “anciãos dignos e fiéis” seriam ressuscitados e o Reino de Deus estabelecido na terra, o artigo continuou sem convicção:

Podemos razoavelmente esperar que 1925 será um ano muito ativo para os santos deste lado do véu; e também que o adversário estará cada vez mais ativo em sua oposição, já que ele sabe que seu tempo está encurtando… Ninguém pode predizer com segurança exatamente o que vai acontecer, até mesmo no próximo ano, mas Deus forneceu indicações gerais em sua Palavra sobre muitas coisas que ainda vão acontecer.

A Torre de Vigia de setembro de 1925, página 262, começou a controlar o dano de modo decisivo:

É de se esperar que Satanás tentaria implantar nas mentes dos consagrados o pensamento de que 1925 deveria presenciar o fim da obra.

A edição de 1º de agosto de 1926 de A Torre de Vigia, página 232, culpou seus leitores pelo fracasso de suas predições:

Alguns anteciparam que esta obra terminaria em 1925, mas o Senhor não declarou isso.

Numa série de assembléias em 1975, uma das quais eu assisti, Fred Franz, o vice-presidente da Sociedade Torre de Vigia, proferiu um discurso no qual ele contou como J. F. Rutherford caracterizou sua proclamação da data de 1925:

“Sei que fiz papel de tolo.”

Esta caracterização não foi a que Rutherford deu para o consumo da comunidade dos Estudantes da Bíblia. Pelo contrário, o Anuário das Testemunhas de Jeová de 1981, página 62, narra a visita dele à Suíça em 1926 e sua participação em uma sessão de perguntas, na qual ocorreu o seguinte diálogo:

Pergunta: Retornaram os merecedores da antiguidade?

Resposta [de Rutherford]: Certamente não retornaram. Ninguém os viu e seria tolice fazer tal declaração. Foi declarado no livro ‘Milhões’ que poderíamos razoavelmente esperar que retornassem pouco depois de 1925, mas isto era simplesmente uma opinião expressa.”

Como é que as recentes publicações da Torre de Vigia retratam a situação ocorrida em 1925? O Anuário das Testemunhas de Jeová de 1976 atribuiu o problema, não à organização que publicou a informação, mas aos “irmãos” que a leram, dizendo (página 146):

Veio e foi-se o ano de 1925. Os seguidores ungidos de Jesus ainda estavam na terra como classe. Os homens fiéis da antiguidade — Abraão, Davi e outros — não foram ressuscitados para se tornarem príncipes na terra. (Sal. 45:16) Assim como recorda Anna MacDonald: “1925 foi um ano triste para muitos irmãos. Alguns deles tropeçaram, suas esperança’ foram despedaçadas. Tinham esperado ver alguns dos ‘antigo’ dignitários’ [homens da antiguidade, como Abraão] serem ressuscitados. Ao invés de isso ser considerado uma ‘probabilidade’, leram que era uma ‘certeza’, e alguns se prepararam para seus próprios entes queridos, na expectativa de sua ressurreição.

Será que isso está de acordo com qualquer das declarações publicadas na revista A Torre de Vigia que foram mostradas acima? Será que o que vimos acima confirma que a Torre de Vigia tinha sido fiel à Palavra de Deus ou discreta em suas afirmações? Se a alegação de Rutherford de que o que foi publicado eram apenas ‘opiniões’ dele, então como pode a Torre de Vigia alegar que o que foi publicado era ‘alimento espiritual no tempo apropriado’? E como se justifica que as pessoas que questionaram esses ensinamentos no momento em que foram promulgados foram menosprezadas e tiveram sua lealdade e humildade perante Deus postas em dúvida?

O livro Vindication I, publicado em inglês em 1931,  página 338, indica que Rutherford tinha aprendido sua lição:

Houve certa medida de desapontamento por parte dos fiéis a Jeová na terra com relação aos anos de 1914, 1918 e 1925, desapontamento este que durou por algum tempo… e eles aprenderam também a parar de marcar datas.

Mas será que a Torre de Vigia realmente aprendeu a parar de marcar datas? Vejamos.

Em 1930, usando US$ 75.000 em dinheiro (note-se que isso foi na época da Grande Depressão, iniciada em 1929) doados por um Estudante da Bíblia rico, J. F. Rutherford concluiu a construção de uma grande mansão em San Diego, Califórnia, chamada Beth Sarim, que significa “Casa dos Príncipes”. A casa valeria cerca de US$ 2.000.000 hoje (no momento em que foi escrito isso). Beth Sarim foi construída para oferecer um lugar no qual os “príncipes”, Abraão, Isaque, Jacó e outros, poderiam ficar logo antes dos eventos concludentes do fim. A casa seria entregue a eles quando aparecessem e fossem devidamente identificados. Conforme disse o livro Salvação, de 1939:

Em San Diego, Califórnia, Estados Unidos, há um terreno pequeno, no qual, em 1929, construiu-se uma casa, que se chama e se conhece como Beth-Sarim. As palavras hebraicas Beth-Sarim significam “Casa dos Príncipes”; e o intento de adquirir essa propriedade e edificar a casa foi para que houvesse alguma prova tangível de que existem pessoas na terra atualmente que acreditam plenamente em Deus e em Cristo Jesus e em seu reino, crendo que os fiéis da antiguidade serão brevemente ressuscitados pelo Senhor, voltarão à terra, e se encarregarão dos negócios visíveis da terra. A escritura da Beth-Sarim está feita em nome da Watch Tower Bible & Tract Society, para ser usada presentemente pelo presidente da Sociedade e seus ajudantes, ficando depois disso para sempre à disposição dos príncipes da terra acima mencionados. Com certeza tudo na terra pertencerá ao Senhor, e nem o Senhor nem os príncipes precisam que outros lhes edifiquem casas; mas considerou-se bom e agradável a Deus que se edificasse a casa acima mencionada como testemunho ao nome de Jeová, mostrando fé em seus propósitos expressos. A casa serviu como testemunho a muitas pessoas por toda a terra, e enquanto que os incrédulos mofaram e falaram dela desdenhosamente, ela ali permanece como um testemunho ao nome de Jeová; e quando os príncipes voltarem, se alguns deles fizerem uso dessa propriedade, isso confirmará a fé e a esperança que induziu a edificação de Beth-Sarim”.

No estilo típico dum advogado, Rutherford se assegurou de que só ele ou pessoas que fossem aprovadas por ele poderiam usar a propriedade, de maneira que nenhum impostor tomasse posse dela. A escritura da propriedade dizia:

Está previsto que, se o referido JOSEPH F. RUTHERFORD enquanto estiver vivo na terra por arrendamento, escritura ou contrato estabelecer que qualquer outra pessoa ou pessoas associadas com a referida SOCIEDADE TORRE DE VIGIA DE BÍBLIAS E TRATADOS tem o direito de residir no referido local até a chegada de Davi ou de algum dos outros homens mencionados no capítulo onze de Hebreus, conforme estabelecido acima, essa pessoa ou pessoas designadas pelo referido JOSEPH F. RUTHERFORD nesse arrendamento, ou outro documento escrito, têm o direito e o privilégio de residir no referido local até que a posse do mesmo seja tomada por Davi ou algum dos outros homens aqui nomeados, sendo esta propriedade e instalações dedicadas a Jeová e ao uso de seu reino, sendo usadas dessa maneira para sempre. Qualquer pessoa que vier para tomar posse do referido local deverá primeiro provar e identificar-se para os oficiais credenciados da referida Sociedade como sendo a pessoa ou pessoas descritas em Hebreus capítulo 11 e nesta escritura.

O livro O Novo Mundo, publicado em 1942, relatou na pág. 104:

… assim, pode-se esperar que esses homens fiéis da antiguidade retornem da morte a qualquer dia… Nesta expectativa, a casa em San Diego, Califórnia, casa esta que recebeu muita publicidade com intenção maliciosa por parte de inimigos religiosos, foi construída em 1930 e chamada de “Beth-Sarim”, que significa “Casa dos Príncipes”. É mantida agora em fideicomisso para ser ocupada por esses príncipes por ocasião de seu retorno.

De modo que, apesar de ter aprendido a “parar de marcar datas”, Rutherford continuava a todo vapor com uma ação igualmente tola.

Depois da morte de Rutherford em 1942, outros funcionários da organização Torre de Vigia queriam enterrá-lo na propriedade de Beth Sarim, mas esse pedido foi negado pelas autoridades de San Diego. Um artigo intitulado “Funcionários de San Diego Alinham-se Contra os Príncipes da Nova Terra” na revista Consolação de 27 de maio de 1942, página 3, criticou as autoridades por sua recusa:

Antes de sua morte o Juiz Rutherford fez o pedido simples de que seus restos mortais fossem enterrados em algum lugar da propriedade de cem hectares, em San Diego, Califórnia, mantida em fideicomisso para os Príncipes da Nova Terra. A casa construída nela, à qual ele chamou de “Beth-Sarim”, teve a escritura lavrada para os príncipes. Em 14 de março, mais de dois meses depois de ter ido para a sua recompensa em 8 de janeiro, a Comissão de Planejamento do Condado de San Diego proferiu a decisão de que os ossos dele não poderiam repousar em lugar algum daquela terra.

A Torre de Vigia vendeu quietamente Beth Sarim em 1948. Isso parece ser um tanto embaraçoso para a organização hoje, e durante muito tempo ela preferiu que o verdadeiro propósito da casa não fosse conhecido. O Anuário das Testemunhas de Jeová de 1976, só dava uma informação parcial na página 194:

Na década de 1920, [Rutherford] foi para San Diego sob tratamento médico. O clima ali era excepcionalmente bom e o médico instou com ele a que passasse o maior tempo possível em San Diego. Foi isso que o irmão Rutherford fez por fim.

Com o tempo, foi feita uma contribuição direta para a construção duma casa em San Diego para uso do irmão Rutherford. Ela não foi construída às custas da Sociedade Torre de Vigia (EUA). A respeito desta propriedade, declarava o livro Salvação, de 1939: “Em San Diego, Califórnia Estados Unidos, há um terreno pequeno, no qual, em 1929, construiu-se uma casa, que se chama e se conhece como Beth-Sarim.”

Conforme se aproximava a Segunda Guerra Mundial, J. F. Rutherford encontrou solo fértil para mais predições do fim.

O folheto Guerra Universal Próxima, escrito em 1935, dizia na página 26:

Durante os poucos meses restantes até ao quebrar este cataclismo universal, os poderes que governam as nações da terra continuarão fazendo tratados e dizendo ao povo que com tais meios conservarão a paz no mundo e trarão prosperidade. Também continuarão a passar e a forçar leis rigorosas para suprimir a liberdade de palavra e para tirar as liberdades do povo. Continuarão a perseguir e a se opor às testemunhas de Jeová que estão procurando levar a verdade ao povo. Tendo lançado poderosa mão sobre o povo e tendo-o subjugado completamente, então dirão os poderes ditatoriais das nações da terra: “Agora temos paz e segurança”; porém as Escrituras, em 1 Tessalonicenses 5:3, V.A., replicam a isso: “Pois que, quando disserem: Há paz e segurança; então lhes sobrevirá repentina destruição, como as dores de parto àquela que está grávida; e de modo nenhum escaparão”.

O livro Salvação, de 1939, dizia:

As abundantes evidências bíblicas, juntamente com os acontecimentos naturais que se deram mostrando o cumprimento da profecia, provam concludentemente que o tempo da batalha do grande dia do Deus Todo-Poderoso está muito próximo e que nessa batalha serão destruídos todos os seus inimigos e a terra ficará limpa de iniquidade, como preparação para o completo estabelecimento da justiça. (pág. 275, debaixo do subtítulo “VINDO JÁ”).

Assim também agora, todas as nações e povos da terra estão enfrentando a máxima emergência. Estão sendo avisados, por ordem de Deus, de que o desastre do Armagedon está pendente. (pág. 318).

O livro Religião, publicado em 1940, disse:

As profecias do Deus Todo-Poderoso, cujo cumprimento vê-se agora pelos factos físicos, mostram que chegou o fim da religião e com êle a queda total de toda a organização de Satanaz… (Página 290)… O dia do ajuste final de contas está próximo. (página 292).

A revista A Sentinela de 1º de setembro de 1940, disse na página 265:

A obra de testemunho para A TEOCRACIA parece estar quase completa na maior parte dos países da “Cristandade”…

… Agora, o governo totalitário suprimiu a mensagem Teocrática, e deve-se esperar que, quando pararem de lutar entre si todos os governantes totalitários vão voltar sua atenção para a supressão completa de tudo o que pertence ao governo teocrático.

O que significa isso, então, o fato de o governo teocrático estar agora suprimido em muitas nações? Significa que está se aproximando rapidamente a hora em que o “sinal” do Armagedom será claramente revelado e todos os que estão do lado de Jeová vão vê-lo e apreciá-lo.

A Sentinela de 15 de setembro de 1941, página 288, disse sobre a distribuição do livro Filhos (escrito por Rutherford):

Ao receber o presente, as crianças enfileiradas o acolheram a si, não como um brinquedo ou passatempo para o prazer ocioso, mas como o instrumento de Deus para a obra mais efetiva nos meses que restam antes do Armagedom.

Será que “os fatos físicos” mostram que qualquer destas previsões se cumpriu? O que significavam as expressões “muito próximo”, “se aproximando rapidamente” ou “poucos meses restantes”? Não quer dizer nada o fato de que todas as crianças que receberam esse livro Filhos são avós hoje ou até já faleceram?

As Especulações Sobre 1975 Ser o Ano do Fim do Mundo

Em meados da década de 1960, a organização Torre de Vigia tinha aparentemente esquecido grande parte do que havia aprendido sobre ‘parar de marcar datas’. O livro Vida Eterna – Na Liberdade dos Filhos de Deus, publicado em 1966, disse nas páginas 26-30:

Aproxima-se rapidamente o tempo em que a realidade prefigurada pelo Jubileu de liberdade será proclamada em toda a terra a toda a humanidade agora oprimida por muitas coisas escravizadoras. Em vista da situação global e das condições mundiais, parece ser da maxima urgência que a libertação igual à do Jubileu venha em breve. Certamente, o tempo mais apropriado para ela seria o futuro próximo. A própria Palavra escrita de Deus indica que este é o tempo designado para ela

… Neste século vinte, realizou-se um estudo independente que não acompanha cegamente certos cálculos cronológicos tradicionais da cristandade, e a tabela de tempo publicada, resultante deste estudo independente, fornece a data da criação do homem como sendo 4026 A.E.C. Segundo esta cronologia bíblica fidedigna, os seis mil anos desde a criação do homem terminarão em 1975 e o sétimo período de mil anos da história humana começará no outono (segundo o hemisfério setentrional) do ano de 1975 E.C… Assim, dentro de poucos anos em nossa própria geração atingiremos o que Jeová Deus poderia considerar como o sétimo dia da existência do homem.

Quão apropriado seria se Jeová Deus fizesse deste vindouro sétimo período de mil anos um período sabático de descanso e livramento, um grandioso sábado de jubileu para se proclamar liberdade através da terra a todos os seus habitantes! Isto seria muito oportuno para a humanidade. Seria muito apropriado da parte de Deus, pois, lembre-se de que a humanidade ainda tem na sua frente o que o último livro da Bíblia Sagrada chama de reinado de Jesus Cristo sobre a terra por mil anos, o reinado milenar de Cristo. Jesus Cristo, quando na terra há dezenove séculos, disse profeticamente a respeito de si mesmo: “Por que Senhor do sábado é o que é o Filho do homem.” (Mateus 12:8) Não seria por mero acaso ou acidente, mas seria segundo o propósito amoroso de Jeová Deus que o reinado de Jesus Cristo, o “Senhor do sábado”, correspondesse ao sétimo milênio da existência do homem.

Embora o escritor não tenha dito taxativamente que 1975 marcaria o início do milênio, ele certamente insinuou isso. Parece razoável que, se ele disse que seria “apropriado” para Deus fazer certas coisas, então ele deveria estar com uma boa dose de certeza. Se ele não tinha certeza, então foi presunçoso. Ao dizer que “seria segundo o propósito amoroso de Jeová Deus” os dois milênios coincidirem, não estava ele dando ao leitor uma forte impressão de sua certeza? Principalmente levando-se em conta que todas as sugestões do “escravo fiel e discreto” devem ser encaradas com grande consideração?

A revista Despertai! de 22 de abril de 1967 publicou um artigo intitulado “Quanto Tempo Ainda Levará?” e, debaixo do subtítulo “Os 6.000 Anos Terminam em 1975”, estabeleceu fortemente a base para a ideia de que o milênio constituiria os últimos 1.000 anos de um dia de descanso de 7.000 anos de Deus. Deixando um pouco de lado a cautela mostrada acima, a revista disse na página 20:

Por conseguinte, estarmo-nos aproximando do fim dos primeiros 6.000 da existência do homem é algo de grande significado.

Será que o dia de descanso de Deus decorre paralelamente ao tempo em que o homem tem estado na terra, desde sua criação? Parece que sim. Segundo as investigações mais fidedignas da cronologia bíblica, harmonizadas com muitas datas aceitáveis da história secular, descobrimos que Adão foi criado no outono do ano 4026 A.E.C. Em algum tempo naquele mesmo ano, Eva bem que poderia ter sido criada, logo após o que começou o dia de descanso de Deus. Em que ano, então, terminariam os primeiros 6.000 anos do dia de descanso de Deus? No ano de 1975. Isto é digno de nota, especialmente em vista de que os “últimos dias” começaram em 1914, e que os fatos físicos de nossos dias, em cumprimento da profecia, marcam esta como a última geração deste mundo iníquo. Por conseguinte, podemos esperar que o futuro imediato esteja cheio de eventos emocionantes para aqueles que depositam sua fé em Deus e em suas promessas. Isto significa que dentro de relativamente poucos anos testemunharemos o cumprimento das profecias restantes que têm que ver com o “tempo do fim”.

A revista A Sentinela de 15 de fevereiro de 1967 apresentou os seguintes comentários (págs. 124-127):

Somente um povo liberto pode pregar a libertação aos cativos, foi dito aos congressistas na palestra: “Preguem o Livramento aos Cativos”, que os emocionou com sua perspectiva esperançosa. “Jeová, o Deus de liberdade e de libertação, livrou seu povo da escravidão babilônica e lhes deu uma obra de libertação a executar. Tal obra de libertação e de salvação tem de prosseguir até o fim! A fim de ajudar, atualmente, nestes tempos críticos, aos filhos prospectivos de Deus”, anunciou o presidente Knorr, “ foi publicado um novo livro em inglês, intitulado “A Vida Eterna – na Liberdade dos Filhos de Deus”. Em todos os lugares de assembléia em que foi lançado, o livro foi entusiasticamente acolhido. Multidões se juntaram em volta dos balcões e dentro em poucos se esgotaram os suprimentos do livro. Imediatamente se examinou o seu conteúdo. Não demorou muito para que os irmãos achassem a tabela que começa na página 31, mostrando que 6.000 anos da existência do homem terminam em 1975. A palestra sobre 1975 eclipsou tudo o mais. “O novo livro nos obriga a compreender que o Armagedom, com efeito, está muito próximo”, disse certo congressista. Por certo, foi uma das bênçãos notáveis com que se pôde voltar para casa!…

O ANO DE 1975

Na assembléia de Baltimore, EUA, o irmão Franz, em seus comentários finais, teceu interessantes comentários a respeito do ano de 1975. Começou dizendo casualmente: “Pouco antes de vir à tribuna um rapaz se aproximou de mim e disse: ‘Diga-me, o que significa este negócio de 1975? Será que significa isto, aquilo ou alguma outra coisa?’” Em parte, o irmão Franz passou a dizer: ‘Os irmãos notaram a tabela [em páginas 31-35 do livro A Vida Eterna – na Liberdade dos Filhos de Deus, em inglês]. Mostra que 6.000 anos da experiência humana terminarão em 1975, cerca de nove anos a contar de agora. O que isso significa? Será que significa que o dia de descanso de Deus começou em 4026 A.E.C.? É possível que tenha começado. O livro A Vida Eterna não diz que não começou. O livro simplesmente apresenta a cronologia. Poderão aceitá-la ou rejeitá-la. Se este é o caso, o que significa para nós? [Demorou-se um tanto no assunto, para demonstrar a possibilidade da data de 4026 A.E.C. ser o começo do dia de descanso de Deus.].

‘O que dizer do ano de 1975? O que irá significar, caros amigos?’ perguntou o irmão Franz. ‘Será que significa que o Armagedom estará terminado, com Satanás preso, por volta de 1975? É possível! É possível! Todas as coisas são possíveis para Deus. Será que significa que Babilônia, a Grande, terá sido derrubada por volta de 1975? É possível. Será que significa que o ataque de Gogue de Magogue será lançado contra as testemunhas de Jeová, para eliminá-las, daí o próprio Gogue sendo posto fora de ação? É possível. Mas, não estamos afirmando. Todas as coisas são possíveis para Deus. Mas, não estamos afirmando. E que nenhum dos irmãos seja específico em dizer algo que irá acontecer daqui até 1975. Mas o ponto capital de tudo é isso é o seguinte, caros amigos: O tempo é curto. O tempo se escoa, não há dúvida sobre isso.

‘Quando nos aproximávamos do fim dos Tempos dos Gentios em 1914, não havia sinal de que os tempos dos gentios iriam terminar. As condições na terra não nos davam indício do que viria, mesmo até fins de junho daquele ano. Daí, subitamente, houve um assassinato. Estourou a Primeira Guerra Mundial. Já conhecem o resto. Fomes, terremotos e pestes se seguiram, conforme Jesus predisse que aconteceria.

‘Mas, o que temos hoje, ao nos aproximarmos de 1975? As condições não têm sido pacíficas. Temos tido guerras mundiais, fomes, terremotos, pestes e ainda temos tais condições ao nos aproximarmos de 1975. Será que tais coisas significam algo? Estas coisas significam que estamos no “tempo do fim”. E o fim tem que chegar, mais cedo ou mais tarde. Disse Jesus: “Mas, quando estas coisas principiarem a ocorrer, erguei-vos e levantai as vossas cabeças, porque o vosso livramento está-se aproximando.” (Lucas 21:28) Assim, sabemos que, ao nos aproximarmos de 1975, o nosso livramento está esse tanto mais próximo.’

No ano seguinte ano as expectativas eram grandes. O trecho que segue é retirado de um discurso intitulado “Servindo com a Vida Eterna em Vista”, proferido numa assembléia de circuito, na primavera [setentrional] de 1967, em Sheboygan, Wisconsin, EUA, por um representante da Torre de Vigia. O palestrante enfatizou a proximidade do Armagedom e disse especificamente que ele viria antes de 1975. Falando sobre o mundo que viria depois do Armagedom, ele disse:

Bem, agora, quem estará lá, dentre nós que estamos aqui esta noite? Pois a Sociedade fez aplicação deste texto, apontando que os dentre nós Testemunhas de Jeová que não estão se associando regularmente com o seu povo, sem justa causa, como estando deitados de costas, não estarão na nova ordem. E são os que virão quando as portas se fecharem e dirão ‘quero entrar agora. Senhor, abre para nós!’ E Jesus terá de dizer, ‘Sinto muito, eu nem sequer os conheço.’ Ora, isso seria uma coisa terrível. Vocês podem perceber agora por que a Sociedade nos implora, ano após ano, a mesma coisa: ‘Irmãos, entrem no rebanho. Não deixem que qualquer desculpa se interponha em nosso caminho. Nada de qualquer tipo. Só há uma coisa que vai contar quando chegar a hora, e é estarmos dentro.’ E esperamos que todos nós aqui esta noite ouçam a admoestação da Sociedade. Vamos ouvir a súplica persistente, ‘Entrem, irmãos!’, porque eles sabem o que está por vir. E está vindo rápido – e não esperem até ’75. A porta vai estar fechada antes disso.

A revista A Sentinela de 1º de novembro de 1968 deu continuidade a esse estímulo da expectativa. Usando grande parte do mesma argumentação presente no artigo citado acima, esta revista disse na página 660:

O futuro imediato com certeza estará repleto de eventos climáticos, pois este velho sistema se aproxima de seu fim completo. Dentro de alguns anos, no máximo, as partes finais da profecia bíblica relativas a estes “últimos dias” terão cumprimento, resultando na libertação da humanidade sobrevivente para o glorioso reino milenar de Cristo. Que dias difíceis, mas, ao mesmo tempo, que dias grandiosos estão bem à frente!

Da mesma maneira, a revista Despertai! de 22 de abril de 1969, página 13, enfatizava a brevidade do tempo restante:

O fato de que já se passaram quase cinqüenta e cinco anos do período chamado de ‘últimos dias’ é altamente significativo. Quer dizer que restam apenas alguns anos, no máximo, antes de o corrupto sistema de coisas que domina a terra ser destruído por Deus.

Hoje, décadas depois destes pronunciamentos, alguém poderia muito bem perguntar: O que significa a expressão “o futuro imediato”? Quantos anos representam “alguns anos, no máximo”?

A Sentinela de 15 de fevereiro de 1969, falou muito sobre o significado de 1975 nas páginas 104-117. No artigo intitulado “O Livro de Datas Históricas Verídicas” foi dito na página 104:

Sabemos que no sétimo ano, desde agora, terminará o 6.000º desde a criação de Adão? E, se chegarmos a viver até aquele ano de 1975, que devemos esperar que aconteça?

Nesta mesma edição, de A Sentinela de 15 de fevereiro de 1969, o artigo intitulado “Por Que Está Aguardando 1975?” criou uma grande dose de expectativa ao dizer na página 110:

“O que há com toda esta conversa sobre o ano de 1975? Nos meses recentes surgiram repentinamente animadas palestras, algumas baseadas em especulação, entre sérios estudantes da Bíblia. Seu interesse foi suscitado pela crença de que 1975 marcará o fim de 6.000 anos da história humana desde a criação de Adão. A proximidade de tal data importante deveras estimula a imaginação e apresenta ilimitadas possibilidades para palestras.”

… Depois de tanta matemática e genealogia, realmente, que nos aproveita esta informação hoje em dia?… Afinal de contas, por que deveríamos estar mais interessados na data da criação de Adão, do que no nascimento do Rei Tut? Bem, em primeiro lugar, se adicionarmos 4.026 a 1.969 (tomando em conta a falta de um ano zero entre E.C. e A.E.C.), obtemos o total de 5.994 anos neste outono (segundo o hem. set.), e desde a criação de Adão. Isto significa que no outono (hem. set.) do ano de 1975, dentro de pouco mais de seis anos contados desde agora (e não em 1997, como seria o caso se os algarismos de Ussher fossem corretos), terão passado 6.000 anos desde a criação de Adão, o pai de toda a humanidade!

Note-se o senso de urgência, e a sugestão de que os 6.000 anos é um número com significado especial. A revista prossegue dizendo na página 115:

“Devemos presumir, à base deste estudo, que a batalha do Armagedom já terá acabado até o outono de 1975 e que o reinado milenar de Cristo, há muito aguardado, começará então? Possivelmente, mas, nós esperamos para ver quão de perto o sétimo período de mil anos da existência do homem coincide com o reinado milenar de Cristo, que é como um sábado. Se este dois períodos decorrerem paralelamente quanto ao ano calendar, não será por mero acaso ou acidente, mas será segundo os propósitos amorosos e oportunos de Jeová. Nossa cronologia, porém, que é razoavelmente exata (mas, admitidamente não infalível,) no melhor dos casos apenas aponta para o outono de 1975 como o fim de 6.000 anos da existência do homem na terra. Isto não necessariamente significa que 1975 assinala o fim dos primeiros 6.000 anos do sétimo “dia” criativo de Jeová. Por que não? Porque, depois de sua criação, Adão viveu algum tempo durante o “sexto dia”, quantidade desconhecida de tempo que teria de ser descontada dos 930 anos da Adão, para se determinar quando terminou o sexto período ou “dia” de sete mil anos e quanto tempo Adão viveu no “sétimo dia”. Não obstante, o fim deste sexto “dia” criativo pode ter terminado no mesmo ano do calendário gregoriano em que Adão foi criado. A diferença talvez envolva apenas semanas, ou meses, não anos.

Note-se como este raciocínio produz um senso de urgência no leitor. Ele ignora também a declaração expressa em Gênesis 2:23: “Esta, por fim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne.” Por que a Bíblia usaria o termo “por fim” se só um curto período de menos de um ano estavam envolvido? A Torre de Vigia está bem ciente disso; Frederick Franz fez a maior parte da tradução das Escrituras Hebraicas (da Tradução do Novo Mundo) e ele escreveu o livro Vida Eterna – Na Liberdade dos Filhos de Deus, no qual esta contagem foi originalmente enfatizada. Além disso, não há qualquer justificativa bíblica obrigando que a criação de Eva tenha assinalado o fim do sexto dia criativo. Há muita margem para tempo extra, como os eventos desde 1975 têm confirmado.

Na realidade, não existe qualquer justificativa bíblica para a ênfase forte e contínua na ideia de que 6.000 ou 7.000 anos signifiquem alguma coisa. C. T. Russell colocou a aceitação do esquema profético de 6.000 anos na perspectiva correta, quando escreveu, em Está Próximo o Tempo (1889), página 39:

E embora a Bíblia não contenha qualquer declaração direta dizendo que o sétimo milênio será a época do reino de Cristo, o grande Dia Sabático de restituição para o mundo, ainda assim a venerável tradição não deixa de ter um fundamento razoável.

Uma das pessoas de quem Russell obteve muitas idéias foi um ministro luterano da Filadélfia chamado Joseph A. Seiss. Por muitos anos Seiss foi o editor de uma revista chamada Os Tempos Proféticos. Na edição de janeiro de 1870, Vol. VIII, nº 1, páginas 12, 13, Seiss abordou suas idéias sobre cronologia bíblica, apresentando números que, segundo ele, davam evidência de que “1870 nos leva ao início do Sétimo Milhar de anos, desde que o mundo atual começou.” Em contraste com Barbour e Russell, Seiss não era dogmático quanto a esses números: “Não colocamos muita ênfase na aritmética da profecia, porque os pontos de partida, bem como muitos dos números inteiros dos cálculos estão na zona da incerteza.”

Com relação à tradição do “Grande Dia Sabático”, Russell escreveu:

É uma teoria muito antiga e na qual se acreditou amplamente, de que o mundo do qual Adão foi o início deve continuar por 6.000 anos em sua condição secular, doentia e penosa, e que o sétimo milhar de anos deve ser um período de glorioso descanso sabático, iniciado com a obliteração da era ou dispensação atual.

A ideia é realmente uma tradição venerável. Ela pode, em última análise, basear-se numa antiga tradição de que o sétimo dia criativo de Gênesis é em si de 7.000 anos, e que o Messias reinaria durante os últimos 1.000 anos dele. Uma fonte bem primitiva, mui possivelmente do 1º século DC, é o livro apócrifo do Novo Testamento chamado “A Epístola de Barnabé”. Existem diversos textos cristãos primitivos, aos quais se refere às vezes como os apócrifos do Novo Testamento, que foram em alguns momentos cogitados para serem incluídos no cânon do Novo Testamento. Eis aqui alguns trechos relevantes da reedição de 1979 de uma tradução (em inglês) deles, do ano de 1926, chamada de Os Livros Perdidos da Bíblia:

Ademais, nos Dez Mandamentos que Deus transmitiu no Monte Sinai a Moisés, face a face, está escrito sobre o sábado; Santificai o sábado do Senhor com mãos purificadas, e com um coração puro. E em outro lugar, ele diz: Se teus filhos guardarem os meus sábados, então eu porei minha misericórdia neles. E até mesmo no princípio da criação, ele faz menção do sábado. E em seis dias Deus fez as obras de suas mãos; e ele as acabou no sétimo dia, e descansou no sétimo dia, e o santificou.

Notem, meus filhos, que isso significa que ele as terminou em seis dias. O significado disto é o seguinte; que em seis mil anos o Senhor Deus vai levar todas as coisas ao fim. Pois para ele um dia é como mil anos; como ele mesmo testifica, dizendo: Eis que este dia será como mil anos. Portanto, filhos, em seis dias, ou seja, em seis mil anos, todas as coisas serão cumpridas. E quando ele diz, E ele descansou no sétimo dia: ele quer dizer o seguinte; que quando o seu Filho vier e abolir a era do Maligno, e julgar os ímpios; mudando o sol, a lua e as estrelas; daí ele deverá descansar gloriosamente neste sétimo dia. [Os Livros Perdidos da Bíblia, págs. 160-2; Cap. 13, A Epístola de Barnabé].

Escrevi uma carta para a Torre de Vigia no início da década de 1970, expressando minhas dúvidas sobre os 6.000 e os 7.000 anos como números exatos. A resposta disse, essencialmente, que o arredondamento dos números era uma suposição, ou seja, uma vez que já estávamos perto do marco dos 6.000 anos, e com o fim tão próximo, o número redondo de 6.000 parecia muito bom.

Outro ponto é que, se o período de 6.000 anos, como um número exato, tem algum significado, e se Jesus foi realmente aquele por meio de quem Deus criou todas as coisas, e se os anjos foram testemunhas de todas as atividades criativas, conforme o livro de Jó 38:7 parece indicar, então Jesus e os anjos teria sido capazes de descobrir quando exatamente o fim do mundo viria. Mas Jesus disse explicitamente: “Acerca daquele dia e daquela hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, mas unicamente o Pai.” Portanto, supor que 6.000 anos é um número redondo deve estar errado.

Ignorando estas considerações, o artigo da revista A Sentinela  de 15 de fevereiro de 1969 prossegue dizendo nas páginas 115, 116:

Note-se que este tempo entre a criação de Adão e o começo do sétimo dia, o dia de repouso, não precisava ter sido longo. Poderia ter sido antes bastante curto. Dar Adão nomes aos animais e descobrir que não havia complemento para ele não exigiu muito tempo.

Observe-se quão taxativo o escritor é sobre este ponto. É evidente que a criação de um senso de urgência é o ponto fundamental do artigo inteiro. Continuando na página 116:

Uma coisa é absolutamente certa, a cronologia bíblica, reforçada pela profecia bíblica cumprida, mostra que em breve, sim, dentro desta geração, acabarão seis mil anos da existência do homem! (Mateus 24:34) Portanto, este não é o tempo para se ser indiferente e complacente.

O artigo dá a entender ainda que se deve ter cuidado em dar muito crédito às próprias palavras de advertência de Jesus:

Não é o tempo para se brincar com as palavras de Jesus de que “acerca daquele dia e daquela hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, mas unicamente o Pai”. (Mateus 24:36) Ao contrário, é o tempo em que se deve estar vivamente apercebido de que o fim deste sistema de coisas está chegando rapidamente ao seu término violento. Não se engane, basta que o próprio Pai saiba ‘o dia e a hora’!

O artigo chegou até a justificar a criação desse senso de urgência:

Os apóstolos não podiam ver nem até aqui; não sabiam nada sobre 1975. Tudo o que podiam ver era um tempo curto na frente para terminar a obra que se lhes designara (1 Ped. 4:7) Por isso havia um tom de alarme e um clamor de urgência em todos os seus escritos (Atos 20:20; 2 Tim. 4:2) E isso corretamente. Se tivessem demorado ou protelado, e se tivessem sido complacentes, com a ideia de que o fim demoraria ainda milhares de anos, nunca teriam acabado de correr a carreira que se lhes apresentava. Não, eles correram com vigor e com rapidez e venceram! Era para eles uma questão de vida ou de morte.

Como se os apóstolos precisassem ser mantidos no escuro, senão teriam desistido! Esse trecho diz muito sobre a atitude da liderança da Torre de Vigia para com as pessoas sob seu comando.

A Sentinela de 1º de novembro de 1968 abandonou toda a cautela ao dizer na página 659:

Assim, dar Adão nome aos animais e compreender que precisava de alguém correspondente teria levado apenas breve período de tempo depois de sua criação. Visto que o propósito de Jeová para o homem também era que este se multiplicasse e enchesse a terra, é lógico que criaria Eva pouco depois de Adão, talvez apenas algumas semanas ou meses mais tarde, no mesmo ano, 4.026 A.E.C. Depois de sua criação, o dia de descanso de Deus, o sétimo período, seguiu-se imediatamente.

Daí, a pergunta de estudo para este parágrafo foi: “Quando Adão e Eva foram criados?” Os parágrafos 5 e 6 diziam em seguida:

Por conseguinte, o sétimo dia de Deus e o tempo em que o homem tem estado na terra, pelo que parece, decorrem paralelamente. Para calcular onde o homem se acha na corrente de tempo em relação ao sétimo dia de Deus de 7.000 anos, precisamos determinar quanto tempo decorreu desde o ano da criação de Adão e Eva em 4026 A.E.C.

… O sétimo dia da semana judaica, o sábado, bem prefiguraria o reinado final  de 1.000 anos do reino de Deus sob Cristo, quando a humanidade será soerguida dos 6.000 anos de pecado e de morte. (Rev 20:6) Por isso, quando os cristãos notam pela tabela cronológica de Deus o fim aproximador dos 6.000 anos da história humana, isso os enche de expectativa. Isto se dá especialmente porque o grande sinal dos “últimos dias” tem estado em cumprimento desde o começo do “tempo do fim” em 1914.

Comparemos isso com o que Russell havia dito em Está Próximo o Tempo (acima) – a ideia de que o dia de sábado representa o 7º período de 1000 anos era uma venerável tradição nos dias dele.

O artigo da revista A Sentinela acrescentou uma nota acauteladora na página 661:

Será que isto significa que o ano de 1975 trará a batalha do Armagedom? Ninguém pode afirmar com certeza o que determinado ano trará.

Todavia, esta cautela ficou isolada, em vista das fortes declarações anteriores. Que alguns escritores da Torre de Vigia perderam sua cautela é ainda mais enfatizado pela declaração na Despertai! de 22 de abril de 1969, que disse na página 14:

Segundo a fidedigna cronologia bíblica, Adão e Eva foram criados em 4026 A. E. C.

A publicação Ajuda ao Entendimento da Bíblia (lançada originalmente em inglês em 1971), indica que Adão e Eva foram criados no mesmo ano. Na página 333, sob o tema “Cronologia”, disse que do tempo da criação de Adão até o nascimento de Sete decorreram 130 anos, e na página 538, sob o verbete “Eva”, o livro disse que à idade de 130 anos, Eva deu à luz Sete.* Uma vez que este livro foi publicado como uma enciclopédia autorizada de referência, estes comentários novamente garantiram ao leitor que a organização Torre de Vigia tinha certeza de que Adão e Eva foram criados no mesmo ano, e deu a entender que tinha certeza de que “tudo estaria terminado” por volta de 1975.

[* Nota do tradutor: É realmente desta maneira que o assunto estava expresso na edição original em inglês de Ajuda ao Entendimento da Bíblia (lançada em 1971). Na página 538, a frase dizia: “À idade de 130 anos, nasceu outro filho a ela. Eva chamou-o de Sete…” Na edição em português (publicada em 1982, portanto vários anos depois do fracasso das afirmações sobre 1975) isso foi mudado discretamente. A frase (na página 564) diz: “Quando Adão, marido dela, tinha 130 anos, Eva deu à luz outro filho. Ela chamou-o de Sete…” (Os grifos são nossos.).]

O folheto A Paz de Mil Anos Que Se Avizinha, lançado em 1969, foi também taxativo quanto a 1975. Nas páginas 24-26, ele disse:

Mais recentemente, pesquisadores sérios da Bíblia Sagrada verificaram novamente sua cronologia. Segundo os seus cálculos os seis milênios da vida da humanidade na Terra terminariam nos meados de década de mil novecentos e setenta. Portanto, o sétimo milênio a partir da criação do homem por Jeová Deus começaria em menos de dez anos.

… A fim de que o Senhor Jesus Cristo seja ‘Senhor até do sábado’, seu reinado de mil anos terá de ser o sétimo de uma série de períodos de mil anos ou milênios.

O material acima é notavelmente similar em espírito às alegações reconhecidamente tolas feitas por J. F. Rutherford na publicação Milhões Que Agora Vivem Jamais Morrerão.

Algumas declarações bem diretas sobre 1975 saíram no periódico Ministério do Reino. A edição de maio de 1968 (página 4) incentivou os irmãos a entrar rapidamente no serviço de pioneiro, dizendo:

Em vista do curto período de tempo que resta, desejamos fazer isso tão amiúde quanto as circunstâncias o permitam. Apenas pensem, irmãos, restam menos de noventa meses até que se completem os 6.000 anos da existência do homem na terra. Lembram-se do que aprendemos nas assembléias no verão passado? A maioria das pessoas que vivem atualmente estarão vivas provavelmente quando irromper o Armagedom, e não há esperança de ressureição para os que forem destruídos então. Assim, agora, mais do que nunca, é vital não desconsiderar aquele espírito de querer fazer mais.

Ministério do Reino de dezembro de 1969 (Artigo:  SERVIÇO DE TEMPO INTEGRAL – Oportunidade Esplêndida Para Jovens) mencionou com aprovação que alguns estavam rejeitando bolsas de estudo e de emprego, no espírito da incrementada atividade de pioneiro.

Ministério do Reino, de julho de 1974, referindo-se ao “pouco tempo que resta”, disse com aprovação:

Receberam-se notícias a respeito de irmãos que venderam sua casa e propriedade e que planejam passar o resto dos seus dias neste velho sistema de coisas empenhados no serviço de pioneiro. Este é certamente um modo excelente de passar o pouco tempo que resta antes de findar o mundo iníquo.

Neste ponto, alguns poderiam dizer: “Ah, mas todas essas declarações só demonstram que a Torre de Vigia só estava especulando sobre 1975.” De jeito nenhum! O livro O “Propósito Eterno” de Deus Triunfa Agora Para o Bem do Homem, lançado em inglês em 1974, mostra que a ideia de que o “7º dia criativo” começou em 4026 A.E.C. era nesta ocasião uma doutrina bem estabelecida. Sem qualquer hesitação, a página 51 mostra o subtítulo “COMEÇA A “NOITINHA” DO SÉTIMO “DIA” CRIATIVO, 4026 A.E.C.” [Nota do tradutor: Na edição em português deste livro, lançada em 1976 (ou seja, depois de 1975 ter passado), este subtítulo foi silenciosamente mudado para “COMEÇA A “NOITINHA” DO SÉTIMO “DIA” CRIATIVO, APROXIMADAMENTE EM 4026 A. E. C.” (Página 44 – Grifo acrescentado)]

Tendo em vista as citações acima, fica claro que a Torre de Vigia ensinou dogmaticamente que Adão e Eva foram criados em 4026 A.E.C., que o 7º dia criativo começou naquele ano, que 6.000 anos de história humana se completariam em 1975, e que o Milênio seria a última parte do 7º dia. Estas afirmações dogmáticas levaram inevitavelmente à conclusão de que a batalha do Armagedom teria terminado em 1975.

Conforme 1975 ia se aproximando, a Torre de Vigia recuou um pouco do dogmatismo anterior. Às vezes, ao comentar sobre a “lacuna entre a criação de Adão e de Eva”, a Torre de Vigia ou seus representantes diziam que não se sabia ao certo quanto tempo durou esta lacuna, mas daí voltavam-se e davam forte indicação da ideia de que tinha de ser “um curto período de tempo”. Por exemplo, Fred Franz proferiu um discurso na Los Angeles Sports Arena em 10 de fevereiro de 1975. Em seu discurso, “O Tempo no Qual Estamos Agora Interessados”, Franz afirmou que 6.000 anos de história humana iriam terminar ao pôr do sol de 5 de setembro de 1975. Ele também revelou o que muitas Testemunhas estavam esperando em 1975:

Agora [em] nossas pesquisas junto aos irmãos em todo o mundo, quanto ao que eles estão esperando que ocorra entre agora e o fim de 1975, revela-se que alguns estão muito otimistas sobre as questões num futuro próximo, e eles estão esperando que a grande tribulação ocorra e a destruição de Babilônia, a Grande, e a aniquilação de todos os sistemas políticos do mundo, e, em seguida, a prisão de Satanás e seus demônios e o lançamento deles no abismo ocorram antes deste ano terminar. Este ano de 1975. E que logo depois disso o reinado de mil anos de Jesus Cristo comece. Assim, eles esperam muitas coisas. E eles estão divulgando seus pontos de vista para seus irmãos e irmãs nas congregações e aumentando suas expectativas muito, muito alto, realmente. Ora, não estamos dizendo que até o fim deste ano de 1975 todas essas coisas não possam ocorrer. Que Deus não pode trazer todas essas coisas! Ele pode! Ele é Todo-Poderoso. E este onipotente pode trazer isso rapidamente, se ele quer fazer isso. Mas, em vista do que as Escrituras nos informam, estamos garantidos em esperar que tantas coisas ocorram até 5 de setembro de 1975? …

Daí, Franz explicou novamente o significado do “lacuna entre Adão e Eva”, que havia um intervalo de tempo entre a criação de Adão e a criação de Eva, e que o 6º dia criativo só terminou depois da criação de Eva. Assim, embora  o dia 5 setembro de 1975 marcaria o fim de 6.000 anos da existência do homem, isso não significava necessariamente que a humanidade estaria 6.000 anos dentro do 7º dia. Este conceito foi depois apresentado na edição de A Sentinela de 1º de outubro de 1975.* Se este intervalo de tempo foi de um mês, então as coisas poderiam terminar em outubro, se foi de dois meses, em novembro, e assim por diante. Franz disse: “Bem, se este é o caso, então não temos de necessariamente insistir ou até mesmo esperar que tudo vai ocorrer e terminar até 5 de setembro deste ano…”

*Nota do tradutor: Em português esta matéria só apareceu depois de 1975 ter acabado, na edição de A Sentinela de 1º de janeiro de 1976, pág. 3:

“DESDE o começo do novo ano lunar judaico em setembro de 1975 atingiu-se um ponto significativo na história humana. Qual? Segundo a cronologia bíblica, a humanidade completou então 6.000 anos de existência na terra. Sim, o primeiro homem Adão, se tivesse escolhido permanecer obediente à regência de Deus, ainda estaria vivo e teria tido 6.000 anos de idade em setembro do ano findo.

Significa isso, então, que a humanidade já avançou agora 6.000 anos dentro do período de 7.000 anos que Deus ‘abençoou e fez sagrado’ como seu grande ‘dia de descanso’? Significa isso que o Reinado milenar de Cristo, como os últimos 1.000 anos deste ‘dia de descanso’, deve ser contado a partir de setembro de 1975? — Gên. 1:27, 31; 2:2, 3; Rev. 20:1-6.

Não, não significa isso. Por que não? Ora, o registro bíblico mostra que as criações de Deus no “dia” que precedeu àquele ‘dia de descanso’ de 7.000 anos não terminaram com a criação de Adão. Mostra que houve um intervalo de tempo entre a criação de Adão e a de sua esposa Eva. Durante este tempo, Deus fez que Adão desse nomes aos animais. Não sabemos se este período durou semanas, meses ou anos. Por isso não sabemos exatamente quando começou o grande ‘dia de descanso’ de Jeová, nem sabemos exatamente quando terminará. O mesmo se aplica ao começo do reinado milenar de Cristo. A Bíblia não nos fornece meios para fixarmos a data, e por isso não adianta especular qual seria esta data.

Apesar dessas palavras de cautela, Franz voltou a criar o senso usual de urgência:

… Depois de 5 de setembro, as coisas podem ocorrer, e parece bem provável que vão ocorrer, conforme a maneira que estão indo os assuntos do mundo … Assim, poderiam vir rapidamente, dentro de um curto período de tempo depois do dia final do ano lunar de 1975. E não deveríamos nos voltar para decisões erradas por conta disso e dizer, bem, o período depois de 5 de setembro de 1975 é indefinidamente longo e por isso ele vai me permitir realizar minhas aspirações humanas, casar e criar uma família – ter filhos; ou ir para a faculdade por alguns anos e aprender engenharia e encontrar uma boa colocação como engenheiro… ou alguma outra atividade proeminente e bem remunerada. Não! O tempo não permite isso, queridos amigos …. Evidentemente, não resta muito tempo…

Assim, segundo Franz, que era, na prática, o teólogo principal da Torre de Vigia, o Armagedom e o reinado milenar de Cristo poderiam ocorrer quase imediatamente – ou em algum momento durante os próximos poucos anos.

A revista A Sentinela de 15 de setembro de 1975, pág. 552, informou que Franz pouco depois discursou numa formatura da Escola Bíblica de Gileade da Torre de Vigia, realizada em 2 de março de 1975, e, de maneira bem semelhante ao que ele havia dito na Los Angeles Sports Arena, ele disse:

Outro orador, F. W. Franz, vice-presidente da Sociedade, incutiu fortemente na assistência a urgência da obra cristã de pregação. Salientou que, segundo a cronologia bíblica, fidedigna, 6.000 anos da história humana acabarão neste setembro, segundo o calendário lunar. Isto coincide com o tempo em que ‘a espécie humana está prestes a matar-se de fome’, bem como a ser confrontada com o envenenamento pela poluição e com a destruição por armas nucleares. Franz acrescentou: “Não há base para se crer que a humanidade, confrontada com o que agora enfrenta, possa existir durante o sétimo período de mil anos” sob o atual sistema de coisas.

Significa isso que sabemos exatamente quando Deus destruirá este velho sistema e estabelecerá o novo? Franz mostrou que não sabemos, porque não sabemos quão breve foi o intervalo de tempo entre a criação de Adão e a criação de Eva, ponto em que começou o dia de descanso de Deus, de sete mil anos. (Heb. 4:3, 4) Mas, ele salientou que “não devemos pensar que este ano de 1975 não seja de nenhum significado para nós”, porque a Bíblia prova que Jeová é “o maior cronologista” e “temos a data-base de 1914 assinalando o fim dos Tempos dos Gentios”. Assim, prosseguiu, “estamos cheios de expectativa quanto ao futuro próximo, quanto à nossa geração”. — Mat. 24:34.

A organização foi ainda mais direta em suas comunicações particulares com seus próprios agentes. O trecho a seguir foi extraído de uma carta da Torre de Vigia para o superintendente de distrito Lester Duggan, aparentemente em algum momento do ano de 1975, em resposta a uma pergunta sobre o subtítulo na página 51 da edição em inglês do livro O “Propósito Eterno” de Deus Triunfa Agora Para o Bem do Homem (mencionado acima):

Embora o início do “sétimo dia” seja admitidamente provisório, o fim dos seis mil anos de história do homem no outono [setentrional] de 1975 não é algo provisório, mas é aceito como uma data certa. Assim, em boa fé e com a motivação correta de promover a educação bíblica, a data de 1975 foi apresentada com confiança, como uma data de grande significância. Ao passo que algumas pessoas de fora têm sido rápidas em denunciar a Sociedade, ainda assim aguardamos calmamente a conclusão deste ano bíblico de 1975, à medida que continuamos a fortalecer-nos espiritualmente. Do ponto de vista de Jeová e seu propósito eterno para a terra, a conclusão de seis mil anos de residência do homem nesta terra é obrigatoriamente importante.

Até mesmo os textos do ano para os anos iniciais da década de 1970 refletiam o senso de urgência que a Torre de Vigia estava criando:

1973: “Mas nós, da nossa parte, andaremos no nome de Jeová, nosso Deus, por tempo indefinido, para todo o sempre.” — Miq. 4:5.

1974: “Ainda que a própria figueira não floresça… vou rejubilar com… Jeová.” — Hab. 3:17, 18.

1975: “Vou dizer a Jeová: ‘Tu és meu refúgio e minha fortaleza.’” — Sal. 91:2.

O senso de urgência continuou a ser enfatizado durante 1974 e 1975. Observe-se a maneira como o trecho da revista A Sentinela  de 15 de março de 1975 (págs. 189, 190) fez isso:

… E agora, neste ano crítico de 1975, pode-se perguntar: Será que o Deus Altíssimo da profecia fez para si um nome? A resposta é óbvia: Sim! Por meio de quem? Não pela cristandade, nem pelo judaísmo, mas pelas testemunhas cristãs de Jeová! …

Só a partir do fim do ano de 1928 abriu-se ao entendimento espiritual do restante ungido do “Israel de Deus” a perspectiva de sobreviver à “guerra do grande dia de Deus, o Todo-poderoso”, no Har-Magedon, e entrar aqui na terra na nova ordem justa de Jeová… E agora, no ano de 1975, alguns milhares dos do restante ungido, ainda vivos nesta terra, aguardam o cumprimento desta perspectiva alegre. A crescente “grande multidão” de seus companheiros semelhantes a ovelhas aguarda com eles entrar na Nova Ordem sem interrupção de vida. Na Nova Ordem, Jeová Deus aumentará a “longura de dias” do restante ungido na terra ao ponto de fartar os membros dele. Resta a ver se serão ainda retidos aqui na terra para ver o começo da ressurreição dos mortos terrestres e para conhecer testemunhas fiéis dos tempos antigos, pré-cristãos. Gostariam disso, antes de serem tirados do cenário terrestre para a recompensa celestial junto a Cristo.

Note-se como o artigo citado acima enfatizou o “ano crítico de 1975”. Se, como afirmam hoje alguns apologistas, a Torre de Vigia só sugeriu 1975 como uma data possível para o “fim”, então porque o artigo o chamou de “ano crítico”? O que havia de “crítico” sobre ele, exceto que ele provavelmente seria o ano do “fim”?

Em dezembro de 1975 publicou-se uma versão revisada do livro As Testemunhas de Jeová e a Especulação Profética (Edmond C. Gruss, Igreja Presbiteriana e Reformada, 1972, 1975). Nas páginas vii-viii ele citou o jornal religioso londrino Evangelical Times de janeiro de 1975, que publicou um artigo intitulado “O Mundo Acabará Neste Ano?”” (Escrito pelas ex-Testemunhas de Jeová Richard E. Cotton e George Terry). O artigo disse:

O ano de 1975 raiou, e com ele vem a pergunta: Poderia ser este o ano da Nêmesis, da retribuição, para as Testemunhas de Jeová? Poderia ser o ano de mais uma esperança frustrada?

Para muitos dentro das fileiras do Movimento da Torre de Vigia, 1975 significa só uma coisa – o tão esperado esperado ano da Ira Divina. A hora do julgamento, quando Deus destruiria os ímpios e restauraria esta velha terra a uma condição paradisíaca. A vida eterna na terra restaurada tem sido a esperança das maioria das Testemunhas de Jeová.

Por quase dez anos 1975 paira sobre as cabeças dos fiéis como uma cenoura cronológica. É verdade que se escreveu muito pouco sobre o assunto nas publicações oficiais da Torre de Vigia, mas já se disse muito no nível das bases. E quando as Testemunhas são ensinadas a acreditar que Deus está usando a organização Torre de Vigia com a exclusão total de todas as outras igrejas ou organizações (pois isto é o que a organização alega) exige-se apenas uma sugestão de uma data para iniciar uma onda de especulação. Isso é muito compreensível em um grupo que sustenta que estamos vivendo no próprio final do que a Bíblia menciona como o “tempo do fim”.

Uma data como 1975 teve um toque bem apocalíptico, quando ela ainda estava dez anos ou perto disso à frente. Em 1966 uma publicação chamada Vida Eterna – Na Liberdade dos Filhos de Deus anunciou que uma pesquisa independente sobre a cronologia bíblica havia estabelecido que 6.000 anos da história humana chegariam ao fim no outono [setentrional] de 1975. Como as Testemunhas de Jeová acreditam que haverá um milênio para completar um ciclo divino de 7.000 anos, era claro que o período longamente aguardado começaria por volta do outono de 1975.

Quando a data foi tornada pública em 1966, o escritor deste livro era Testemunha de Jeová e pôde ver o que aconteceu. Muito pouco além dessa declaração foi publicado, mas coisas começaram a ser ditas e foi grande a especulação. Sem dúvida, muitos podem recordar o famoso astro do futebol, que afirmou na televisão que a Bíblia ensina que o fim viria em 1975. Ele tinha tanta certeza disso, que disse aos espectadores que se os resultados esperados não se concretizassem, ele atiraria longe sua Bíblia.

Nos meses e anos que se seguiram, superintendentes e oradores visitantes do culto eram conhecidos por falar à congregação sobre o “pouco tempo que resta”. Alguns dos mais convencidos contavam o número de dias até outubro de 1975. Quando moradores de casas diziam, indignados: “Vocês sempre vêm às nossas portas”, um trabalhador por tempo integral [das Testemunhas de Jeová] respondeu: “Nós não vamos tocar muitas vezes mais.”

Os estudos bíblicos com os não convertidos se limitavam a um determinado número de semanas por causa da proximidade do fim. Algumas Testemunhas nunca se preocupavam em aumentar seus reembolsos da hipoteca à medida que as taxas de juros subiam. Elas estavam esperando por uma solução definitiva sobre o montante em dívida em 1975. Alguns estavam tão convencidos de que o mundo estava em seus últimos passos que especulavam que o sistema poderia não durar até 1975.

Empreendedores que seguiam a organização eram conhecidos por enfatizarem no início da década de 1970 que nem seria necessário repintar a casa. Houve até Testemunhas de Jeová que precisavam de cirurgias, que preferiram conviver com a situação até que os raios curativos do milênio restaurassem todos à saúde perfeita.

Perguntamo-nos: Quantas testemunhas estão sofrendo de amnésia neste ano sobre suas esperanças expressas há apenas um ano ou mais? Mas estas coisas foram ditas e nenhuma quantidade de esquecimento pode desdize-las.

Para alimentar mais ainda as chamas da especulação, algumas Testemunhas conseguiam cópias datilografadas de algum discurso que se alegava ter sido feito por um dos diretores da Torre de Vigia em algum país distante. Este material explosivo indicava que logo calamidades e até mesmo pragas consumidoras da carne, de natureza cósmica, se abateriam sobre o mundo da humanidade. No entanto, membros da organização Torre de Vigia não seriam tocados por essas manifestações da cólera divina.

Quão seguros todos pareciam estar. Porém, agora 1975 está aqui e o dilema das Testemunhas de Jeová continua a aumentar…

Mas isso não é tudo. Surgem agora outros problemas para a visão de mundo das Testemunhas de Jeová. Elas já não se podem dar ao luxo de poder estender seu período de espera por mais anos adicionais. Há décadas as publicações vêm enfatizando que a segunda vinda ou presença de nosso Senhor começou no ano de 1914. Usando este ano como uma âncora cronológica para o plano dos “últimos dias”, elas dizem confiantemente (“com base em” Mateus 24:34) que num período menor que a passagem de uma geração humana a partir de 1914 tudo estará terminado.

O observador honesto pode muito bem se perguntar o que muitas Testemunhas de Jeová pensantes desejam. Quanto tempo dura uma geração? De 1914 a 1975 são 61 anos, um período bem longo. Se pensarmos em termos de 40 anos como um período razoável e bíblico, então o culto fracassou. Mesmo que ampliemos o período pós-1914 até o seu limite total, atribuindo-lhe um valor bíblico total de “setenta anos”, ainda encontramos problemas.

Conforme já foi dito, a organização salienta que é a geração que está viva agora e que presenciou os eventos de 1914, que ainda estará por aqui quando o ponto final vier. De modo que estamos tratando de um período de tempo inferior ao total de 70 anos.

O tempo não está mais do lado da Torre de Vigia. Sua ampulheta profética está vazia, exceto por uns poucos grãos de areia. Conforme o ano crítico avança, pode muito bem acontecer que a pressão seja aliviada por manobras de despistamento. Não temos dúvida quanto à habilidade dos “homens da cúpula” em fazer novos cálculos para o futuro, mas a verdade é que este ano pode muito bem ser crítico para o movimento.

As previsões do artigo acima, em relação às ações da organização Torre de Vigia depois de 1975 acertaram direto no alvo. Em 1977, as Testemunhas de Jeová começaram a ver um decréscimo no número de membros da organização, pela primeira vez desde o final da década de 1920. Em 1995, a Torre de Vigia se apercebeu que até suas especulações proféticas sobre a duração da “geração de 1914” estavam erradas, e por isso eles desconectaram totalmente “a geração” de 1914 por completo, deixando-a com uma duração indeterminada.

Por volta do início de 1976, tornou-se evidente que as expectativas da Torre de Vigia para 1975 não se realizariam, assim como tinha sido o caso em 1914 e 1925. Seguiriam os líderes da organização o exemplo dos escritores bíblicos, assumindo o erro? Mostrariam os líderes a mesma candura daqueles escritores? Não. Em vez disso, seguiram exatamente o mesmo procedimento que J. F. Rutherford havia seguido depois do fracasso de 1925, e lançaram a culpa pela decepção sobre as próprias Testemunhas de Jeová. A revista A Sentinela de 15 de janeiro de 1977, página 57, abordou o problema por alto. Sem qualquer menção ao ano de 1975, a revista disse:

… não é aconselhável que fixemos a vista em certa data, negligenciando coisas cotidianas, de que devemos normalmente cuidar, como cristãos, coisas tais como as de que nós e nossa família realmente precisamos. Talvez nos esqueçamos de que, quando o “dia” vier, não mudará o princípio de que os cristãos precisam sempre cuidar de todas as suas responsabilidades. Caso alguém tenha ficado desapontado, por não seguir este raciocínio, deve agora concentrar-se em reajustar seu ponto de vista, por não ter sido a palavra de Deus que falhou ou o enganou e lhe causou desapontamento, mas, sim, seu próprio entendimento baseado em premissas erradas.

Quem teria estabelecido essas “premissas erradas”? Será que cada uma das Testemunhas de Jeová havia concluído por si mesma que 1975 deveria ser o fim de 6000 anos da história humana, que “não devemos pensar que este ano de 1975 não seja de nenhum significado para nós”, que “segundo a fidedigna cronologia bíblica, Adão e Eva foram criados em 4026 A. E. C.”, que “o sétimo milênio a partir da criação do homem por Jeová Deus começaria em menos de dez anos”, que “a fim de que o Senhor Jesus Cristo seja ‘Senhor até do sábado’, seu reinado de mil anos terá de ser o sétimo de uma série de períodos de mil anos ou milênios” e que “o sétimo dia de Deus e o tempo em que o homem tem estado na terra, pelo que parece, decorrem paralelamente”? Eu sei e afirmo que nunca pensei essas coisas por mim mesmo. E nem me teria sido permitido expressar ou agir com base nelas, se fosse eu quem as tivesse pensado.

Em 1979 tornou-se evidente que o fracasso de 1975 tinha criado um furo na credibilidade da organização. Pior ainda, os anos de 1977 e 1978 mostraram uma queda no número mundial de pregadores das Testemunhas de Jeová, pela primeira vez em décadas. Por isso, em 1980 a liderança da Torre de Vigia finalmente admitiu que estivera errada, que tinha tido pelo menos uma parte da responsabilidade pela criação de falsas esperanças para 1975.

A edição da revista A Sentinela de 15 de setembro de 1980 contém, nas páginas 17 e 18, o reconhecimento de que a Torre de Vigia desencaminhou as pessoas ao promover o ano de 1975. Que esta admissão só tenha vindo mais de quatro anos depois que o fracasso da predição de 1975 tornou-se evidente é indesculpável. O artigo intitulado “A Escolha do Melhor Modo de Vida” dizia:

Nos tempos modernos, tal avidez, embora elogiável em si mesma, tem levado a tentativas de fixar datas para a desejada libertação do sofrimento e das dificuldades, que são o quinhão das pessoas em toda a terra. Quando foi publicado o livro Vida Eterna — na Liberdade dos Filhos de Deus e seus comentários sobre quão apropriado seria se o reinado milenar de Cristo fosse paralelo ao sétimo milênio da existência do homem, criou-se muita expectativa sobre o ano de 1975. Fizeram-se naquele tempo, e depois, declarações que enfatizavam que se tratava apenas de uma possibilidade. Infelizmente, porém, ao lado de tal informação acauteladora, publicaram-se outras declarações que davam a entender que tal cumprimento da esperança até aquele ano era mais uma probabilidade do que mera possibilidade. Lamenta-se que estas últimas declarações, pelo visto, tenham ofuscado as acauteladoras e tenham contribuído para o aumento duma expectativa já criada.

A Sentinela, no seu número de 15 de janeiro de 1977, comentou que não era aconselhável fixarmos a vista em determinada data, dizendo:

“Caso alguém tenha ficado desapontado, por não seguir este raciocínio, deve agora concentrar-se em reajustar seu ponto de vista, por não ter sido a palavra de Deus que falhou ou o enganou e lhe causou desapontamento, mas, sim, seu próprio entendimento baseado em premissas erradas.” Ao dizer “alguém”, A Sentinela incluiu todos os desapontados entre as Testemunhas de Jeová, portanto, inclusive os que tinham que ver com a publicação da informação que contribuiu para criar as esperanças que giravam em torno daquela data.

Note-se que até mesmo essa admissão está embutida dentro de um artigo sobre “a escolha do melhor modo de vida”. Ele não admite imparcialmente que a Torre de Vigia teve alguma responsabilidade pelo ocorrido. Em vez disso, o artigo usa a voz passiva, transferindo a responsabilidade para o ar: “Lamenta-se que” essas coisas ocorreram.

Quanto ao fato de as ‘declarações que indicavam probabilidade terem ofuscado as acauteladoras’, será que não teria sido esta a intenção desde o princípio? Por que outra razão essas declarações empolgantes teriam sido tão enfatizadas? Que outro resultado poderia ser esperado? Não têm os líderes da organização emitido frequentemente declarações sobre como esperam que as Testemunhas de Jeová reajam diante do que eles publicam, tais como:

Faremos bem em perguntar-nos: “Reconhecemos realmente como Jeová dirige a sua organização visível?… Quando aceitamos com apreço as provisões espirituais que são feitas por intermédio da classe do “escravo” e seu Corpo Governante, a quem mostramos respeito? (Livro Unidos na Adoração do Único Deus Verdadeiro, pág. 123).

Hoje em dia, um restante desse “escravo fiel” ainda está vivo na terra. Seus deveres incluem receber e passar adiante a todos os servos terrestres de Jeová o alimento espiritual no tempo apropriado… Quão vital é que todos os da família de Deus se sujeitem realmente aos ensinos e aos arranjos do Grande Teocrata, Jeová, e de seu Filho-Rei, Cristo Jesus, conforme transmitidos por intermédio do “escravo fiel” na terra! (Revista A Sentinela de 1º de dezembro de 1982, pág. 13).

É verdade que a Torre de Vigia reconheceu alguma responsabilidade pelas esperanças suscitadas devido às predições para 1975, mas isso não foi para consumo público geral. O Anuário das Testemunhas de Jeová de 1981, página 23, falou sobre um discurso proferido nos congressos de 1979, com o mesmo título do artigo da revista A Sentinela citado acima (“A Escolha do Melhor Modo de Vida”). Segundo esse Anuário, “os irmãos apreciaram também a candura deste mesmo discurso, que reconheceu a responsabilidade da Sociedade por parte do desapontamento que alguns sentiram quanto a 1975.” (Grifo e sublinhados acrescentados.).

Hoje, toda aquela década (1966-1975) de criação de expectativas baseadas no ano de 1975 é desconsiderada como não tendo importância alguma. Muitas pessoas que se tornaram Testemunhas de Jeová depois de 1975 tem, no máximo, uma noção muito vaga do senso de urgência que estava no ar por causa dessa data. A essência das palavras de Russell em 1916 é expressa outra vez pela organização: Isso “certamente teve um efeito bem estimulante e santificador sobre milhares, todos os quais podem louvar ao Senhor – até mesmo pelo erro.”

A Organização Torre de Vigia Afirma Ser Profeta e Inspirada

Afirma Ser Profeta

A revista A Sentinela de 15 de janeiro de 1959 (em inglês), págs. 40, 41 mostrou que a Torre de Vigia vê a si própria como uma organização “profeta” quando disse:

Quem Deus usou realmente como seu profeta?… As Testemunhas de Jeová estão profundamente gratas hoje pelos fatos simples mostrarem que Deus se agradou em usá-las… Jeová estendeu sua mão de poder e tocou nos lábios delas e colocou as suas palavras nas bocas delas.

A revista A Sentinela de 15 de dezembro de 1964, pág. 749 diz que as Testemunhas de Jeová profetizam de um modo “sem paralelo” na história:

Assim como Jeová revelou suas verdades por meio da congregação cristã do primeiro século, assim também ele o faz, atualmente, por meio da atual congregação cristã. Por meio desta agência, faz com que se cumpra o profetizar em escala intensificada e sem paralelo. Toda esta atividade não é feita por acaso. Jeová é quem está por trás dela. A abundância de alimento espiritual e dos surpreendentes pormenores dos propósitos de Jeová que têm sido revelados às testemunhas ungidas de Jeová, são evidência clara de que são as mencionadas por Jesus, quando ele predisse a classe do “escravo fiel e discreto” que seria usada para dispensar as revelações progressivas de Deus, nestes últimos dias.

A revista A Sentinela de 1º de outubro de 1972, págs. 581, 584, fez as seguintes declarações:

Portanto, tem Deus algum profeta para ajudá-las, para adverti-las dos perigos e para declarar-lhes coisas futuras?

IDENTIFICAÇÃO DO “PROFETA”

A estas perguntas pode-se responder na afirmativa. Quem é este profeta?… Este “profeta” não era um só homem, mas um grupo de homens e mulheres. Era o grupo pequeno dos seguidores das pisadas de Jesus Cristo, conhecidos naquele tempo como Estudantes Internacionais da Bíblia. Hoje são conhecidos como testemunhas cristãs de Jeová… Naturalmente, é fácil dizer-se que este grupo age como “profeta” de Deus. Outra coisa é provar isso. A única maneira em que isto pode ser feito é recapitular a história. O que demonstra ela?…

O rolo foi sem dúvida entregue a Ezequiel pela mão de um dos querubins da visão. Isto indicaria que as testemunhas de Jeová fazem hoje a sua proclamação das boas novas do Reino sob direção e apoio angélicos. (Rev. 14:6, 7; Mat. 25:31, 32) E visto que nenhuma palavra ou obra de Jeová pode fracassar, por ele ser o Deus Todo-poderoso, as nações verão o cumprimento daquilo que estas testemunhas dizem segundo são orientadas desde o céu.

Sim, em breve terá de vir o tempo em que as nações terão de saber que houve realmente um “profeta” de Jeová no seu meio. Na realidade, mais de um milhão e meio de pessoas ajudam agora este “profeta” coletivo ou composto na sua obra de pregação, e bem mais do que aquele número estudam a Bíblia com o grupo do “profeta” e seus companheiros… Jeová não só está interessado na vindicação de seu próprio nome, mas também na vindicação de seu “profeta”.

A revista A Sentinela de 1º de janeiro de 1974 afirmou na página 18 que a Torre de Vigia é a 

… única organização na terra que compreende as “coisas profundas de Deus”.

Fazendo referência a sua profecia sobre os “Tempos dos Gentios” terminarem em 1914, este número da revista declarou na mesma página:

Apenas Deus, por seu espírito santo, podia ter revelado isso àqueles primitivos estudantes da Bíblia com tanta antecedência.

É claro que tendo Deus revelado isso para algum homem ou grupo de homens, quem quer que fossem, estas pessoas seriam profetas de Deus, em virtude de ensinar essa revelação a outros. O livro As Nações Terão de Saber Que Eu Sou Jeová, de 1973, disse nas páginas 54, 55, 57 e 58:

Quem é o equivalente atual de Ezequiel, cuja mensagem e conduta correspondem às daquele antigo profeta de Jeová? De quem, na atualidade, era ele “sinal” ou “portento”? Não de algum homem individual, mas de um grupo de pessoas. Constituído de um grupo unido de pessoas, o hodierno Ezequiel é uma pessoa composta, constituída de muitos membros, do mesmo modo como o corpo humano… Assim se dá com o equivalente hodierno de Ezequiel: não é o corpo de uma só pessoa, mas é um corpo composto, constituído de muitos membros… Então, quem é o grupo de pessoas, que, perto do início deste “tempo do fim”, foi comissionado a servir como porta-voz e agente ativo de Jeová? A fim de determinar isso, verifique a história de 1919, o primeiro ano do após-guerra depois da Primeira Guerra Mundial…

Certamente, pois, lá no ano de após-guerra de 1919, não havia ninguém entre os elementos religiosos, culpados da guerra, do judaísmo e da cristandade, que estivesse habilitado para ser comissionado como o equivalente moderno ou o antítipo de Ezequiel… A quem podia o verdadeiro “carro” da organização de Jeová dirigir-se e confrontar, para que Ele pudesse dar a tal habilitado a comissão de falar como profeta em nome de Jeová? Ora, havia um grupo, cujos membros haviam sofrido perseguição religiosa durante a Primeira Guerra Mundial às mãos de Babilônia, a Grande, o império mundial da religião falsa, e cujos membros, de fato, haviam saído das organizações religiosas de Babilônia, a Grande. De fato, haviam recusado a participar ativamente com a cristandade e com todos os demais de Babilônia, a Grande, na guerra carnal durante a Primeira Guerra Mundial. Quem eram eles?  

O “EZEQUIEL” HODIERNO

Eram um pequeno grupo minoritário de homens e mulheres que se dedicaram a Jeová como Deus por seguirem as pisadas de Seu Filho Jesus Cristo…

Por alguma razão o livro evita em vários momentos dizer explicitamente quem compunha esse grupo, mas sugere fortemente que era o grupo mais influenciado pela revista A Torre de Vigia e Arauto da Presença de Cristo. Estes eram, naturalmente, os Estudantes Internacionais da Bíblia. Por fim o livro menciona novamente quem era a “classe de Ezequiel”, na página 63:

O mesmo se deu com as testemunhas ungidas e dedicadas de Jeová lá no ano de 1919 E. C. Os fatos desde então provam que receberam sua ordenação, designação e comissão para seu trabalho neste “tempo do fim” do próprio Jeová, mediante sua organização celestial semelhante a um carro. Por isso têm tomado muito a sério sua comissão divina, como sendo a verdadeira coisa bíblica, e têm procurado cumpri-la fielmente…

A revista A Sentinela de 15 de fevereiro de 1980 disse na página 29:

Já por mais de 60 anos, os da classe de Jeremias têm proclamado fielmente a Palavra de Jeová.

A Sentinela de 1º de maio de 1983, págs. 26, 27 descreve como a organização Torre de Vigia encara a si mesma como um profeta semelhante a Jeremias:

É por causa de tais pessoas de coração reto que Jeová, com consideração, suscitou seu “profeta para as nações”. Jeová fez isso durante este “tempo do fim”, desde o fim da Primeira Guerra Mundial em 11 de novembro de 1918… Em prol de tais pessoas, que no coração buscam antes o governo de Deus do que o governo do homem, o “profeta” suscitado por Jeová não tem sido um único homem, como no caso de Jeremias, mas uma classe. Os membros desta classe, iguais ao profeta-sacerdote Jeremias, estão plenamente dedicados a Jeová Deus, por meio de Cristo, e, pela geração pelo espírito santo de Jeová, foram tornados parte duma “raça escolhida, sacerdócio real, nação santa, povo para propriedade especial”. (1 Pedro 2:9) Nesta data avançada, existe apenas um restante desta classe do “profeta” ainda na terra. A “guerra do grande dia de Deus, o Todo-Poderoso”, no Har-Magedon, não pode começar antes de findar a obra deste “profeta” composto.

A Organização Alegou Ser Inspirada

Segundo o Webster’s New Collegiate Dictionary, “inspirar” significa “influenciar, mover ou guiar por inspiração divina ou sobrenatural; exercer animação, animar, ou exaltar a influência sobre; estimular, impelir, motivar”. 2 Timóteo 3:16 diz: “Toda a Escritura é inspirada por Deus”. Segundo a obra Estudo Perspicaz das Escrituras, Vol. 2, pág. 399, “a expressão “inspirada por Deus” traduz o termo grego composto the·ó·pneu·stos, que significa, literalmente, “[por] Deus soprado” ou “soprado por Deus”.”

Além disso, segundo Estudo Perspicaz, pág. 399, “inspiração” é “a qualidade ou o estado de ser movido, ou produzido, sob a direção de um espírito originário de uma fonte sobre-humana. Quando esta fonte é Jeová, o resultado são pronunciamentos ou escritos que são realmente a palavra de Deus… os homens utilizados para escrever as Escrituras cooperaram com a operação do espírito santo de Jeová. Estavam dispostos e mostravam-se submissos à direção de Deus (Is 50:4, 5), estavam ansiosos de conhecer a Sua vontade e orientação… Deus os orientava, de modo que aquilo que escreviam coincidia com Seu propósito e o cumpria… Como homens espirituais, seu coração e sua mente estavam sintonizados com a vontade de Deus, ‘tinham a mente de Cristo’, de modo que não redigiam mera sabedoria humana, nem “a visão do seu próprio coração”, como faziam os profetas falsos.

As seguintes citações de publicações da Torre de Vigia deixam bem claro que a organização acredita que suas atividades se enquadram nessa definição, embora reserve a palavra “inspiração” para a Bíblia somente, e use outras palavras para descrever suas atividades. Mas, quão diferente é orientação ou direção de inspiração? É uma distinção sem qualquer diferença.

Mantenhamos em mente as definições acima ao ler as seguintes citações, conforme elas refletem a língua que falamos e o conceito bíblico de inspiração.

A revista A Sentinela (em inglês) de 1º de novembro de 1956 declarou na página 666, para todos os efeitos práticos, que a Torre de Vigia é inspirada:

Quem controla a organização, quem a dirige? Quem está à frente? Um homem? Um grupo de homens? Uma classe clerical? Um papa? Uma hierarquia? Um concílio? Não, nenhum destes. Como isso é possível? Em qualquer organização, não é necessário que haja um cabeça dirigente ou uma parte formuladora de políticas que controle ou guie a organização? Sim. É o Deus vivente,  Jeová, o diretor da organização teocrática cristã? Sim!

Embora o escritor dessa A Sentinela não use aqui a palavra “inspirada”, por razões óbvias, o fato é que ser dirigido por Deus é o mesmo que ser inspirado. Essa é a definição de inspiração, conforme mostrado acima.

A revista A Sentinela de 1º de outubro de 1972 disse na página 584:

O rolo foi sem dúvida entregue a Ezequiel pela mão de um dos querubins da visão. Isto indicaria que as testemunhas de Jeová fazem hoje a sua proclamação das boas novas do Reino sob direção e apoio angélicos. (Rev. 14:6, 7; Mat. 25:31, 32) E visto que nenhuma palavra ou obra de Jeová pode fracassar, por ele ser o Deus Todo-poderoso, as nações verão o cumprimento daquilo que estas testemunhas dizem segundo são orientadas desde o céu.

O livro Espírito Santo — A Força por Detrás da Vindoura Nova Ordem!, 1976, disse na página 148:

O espírito santo, sobre o qual Jeová profetizou que o derramaria nos últimos dias, não deixou de operar, pois o restante ainda está batizando discípulos de Cristo no nome desse espírito… O propósito anunciado deste derramamento de seu espírito por Deus, sobre toda sorte de carne, é que aqueles que o recebessem pudessem profetizar. Os fatos confirmam que os do restante dos discípulos ungidos de Cristo têm profetizado a todas as nações, em testemunho a favor do reino de Deus. Portanto, é lógico que eles devem ser aqueles sobre quem realmente foi derramado o espírito de Deus. Este espírito está por detrás de sua pregação mundial. Por que disputar isso?

É claro que alguém a quem Deus move a falar suas próprias palavras é, por definição, inspirado. Observe o que o livro Espírito Santo — A Força por Detrás da Vindoura Nova Ordem! disse adicionalmente, nas páginas 175, 176:

O seguinte é o que ele [Jeová] disse em Isaías 51:15, 16:

“Eu, Jeová, sou teu Deus, Aquele que agita o mar para tumultuar as suas ondas. Jeová dos exércitos é seu nome. E porei as minhas palavras na tua boca e hei de cobrir-te com a sombra da minha mão, a fim de plantar os céus e lançar o alicerce da terra, e para dizer a Sião: ‘Tu és meu povo.”

Nenhum obstáculo colocado no Seu caminho pelos inimigos mostrará ser invencível para Jeová. Assim como no monte Sinai Ele colocou sua palavra na boca de seu povo escolhido, por meio do mediador Moisés, e depois os guiou sob a sombra protetora de sua mão para a Terra da Promessa, assim fez com o restante do Israel espiritual. Pôs a sua palavra, sua mensagem do momento, na boca do restante espiritual, para que este a confessasse abertamente, perante todo o mundo, para a salvação de si mesmo e de todos os ouvintes favoráveis.

Qualquer pessoa em cuja boca Jeová “colocou sua palavra” é inspirada por Ele, por definição. Essa palavra é, por definição, “soprada por Deus”, e se enquadra na definição dada acima pela enciclopédia Estudo Perspicaz. Claramente, este material prova que a organização Torre de Vigia considera suas próprias palavras como equivalentes às de Moisés no Monte Sinai, por meio de quem Jeová transmitiu sua palavra aos israelitas. Moisés certamente foi inspirado naquele momento, e nada que Jeová falou por meio dele falhou – “tudo se cumpriu.” (Josué 21:45) Além disso, nenhuma palavra precisou ser revisada em algum momento posterior, devido ao aparecimentos de alguma “nova luz”. Não se pode dizer o mesmo sobre as informações que a Torre de Vigia tem disponibilizado em suas publicações.

Da mesma maneira, invocando a noção de “soprada por Deus”, o livro Sobrevivência Para Uma Nova Terra (1984), disse na página 109:

Os membros do Israel espiritual aguardavam uma herança “reservada nos céus” para eles. (1 Pedro 1:3-5) Mas antes de realmente receberem esta recompensa, Jeová tinha um trabalho para eles. Sobre isso ele disse profeticamente: “Porei as minhas palavras na tua boca e hei de cobrir-te com a sombra da minha mão, a fim de plantar os céus e lançar o alicerce da terra, e para dizer a Sião: ‘Tu és meu povo.’” (Isaías 51:16) Ele pôs as suas “palavras”, sua mensagem, na boca de seus servos para as proclamarem em toda a terra. Estes começaram confiantemente a divulgar que Deus implantou os “novos céus” tão firmemente, que nem homens, nem demônios podem deslocá-los. A maneira em que Jeová tem lidado com os representantes da Sião celestial os tem identificado claramente como seu povo. Em contraste com a condição espiritual e moralmente desolada do mundo, a “terra” ocupada pelo Israel espiritual, seu campo de atividade, tem-se tornado um lugar em que prosperam valores e atividades espirituais. É um paraíso espiritual!

As duas citações acima dizem explicitamente que Deus faz com que o “restante ungido” fale as palavras de Deus. Isso é inspiração.

O livro Luz I, de 1930, disse na página 12 (em inglês):

O restante agora “tem visões”; ou seja, é dado a ele um entendimento de coisas até agora não compreendidas… O tempo para o cumprimento da profecia de Revelação parece ser de por volta de 1879 em diante até que o reino esteja com pleno domínio. Foi por volta dessa data que a segunda presença do Senhor começou a ser observada, e essa e outras verdades começaram a aparecer em A Torre de Vigia, que desde então até agora tem sido o meio de comunicar a verdade para os que amam o Senhor. Todos os que amam a Deus acreditam extremamente que A Torre de Vigia foi iniciada e mantida pelo seu poder e graça.

Na página 106, o mesmo livro, Luz I, dizia:

As criaturas humanas visíveis tinham que ver com a mensagem, [uma resolução adotada no congresso de Cedar Point, Ohio, EUA, em 1922], no entanto, ela era de fato uma mensagem do Senhor enviada por meio de seus anjos invisíveis, porque sem dúvida estes são revestidos com autoridade para dirigir a ação dos membros terrestres da organização de Deus.

Na página 113 o livro dizia:

… parece claro que o espírito do Senhor, operando por meio de seus anjos invisíveis, dirigiu seu povo na terra para tomar esta ação [a distribuição de uma resolução adotada num congresso em Los Angeles, EUA, em 1923].

A revista A Sentinela de 15 de agosto de 1976 disse nas páginas 507, 508:

Temos de tomar a sério o que a sua Palavra diz e o que a sua organização nos revela… ‘Será que nós queremos mesmo o governo de Deus?’ Não indicaria o não acatarmos a orientação de Deus, por meio de sua organização, que na realidade rejeitamos o governo divino?

A organização Torre de Vigia até publicou histórias que tentam provar que houve a orientação direta de Deus nas ações de alguns de seus membros. O Anuário das Testemunhas de Jeová de 1976 descreveu como as Testemunhas de Jeová adquiriram seu nome, e contou esta história em páginas 150, 151:

Quando tinha 88 anos, A. H. Macmillan compareceu à Assembléia “Frutos do Espírito” das Testemunhas de Jeová na mesma cidade. Ali, em 1.° de agosto de 1964, o irmão Macmillan teceu os seguintes comentários interessantes sobre como ocorreu a adoção daquele nome:

“Tive o privilégio de estar aqui em Columbus, em 1931, quando recebemos . . . o novo título ou nome . . . eu estava entre os cinco que deveriam comentar o que achávamos da ideia de aceitar esse nome, e eu lhes disse brevemente o seguinte: Achava que era esplêndida ideia, porque esse título ali dizia ao mundo o que fazíamos e qual era nosso propósito. Antes disso, éramos chamados Estudantes da Bíblia. Por quê? Porque era isso que éramos. Daí, quando outras nações começaram a estudar conosco, fomos chamados de Estudantes Internacionais da Bíblia. Mas, agora, somos testemunhas a favor de Jeová Deus, e esse título diz ao público exatamente o que somos e o que fazemos…

“Com efeito, creio que foi o Deus Todo-poderoso que nos levou a isso, pois o irmão Rutherford mesmo me dissera que acordara, certa noite, quando se preparava para esse congresso e disse: ‘Por que será que fui sugerir um congresso internacional quando não tenho nenhum discurso ou mensagem especial para eles? Por que trazê-los todos para cá?’ Então, começou a pensar sobre isso, e Isaías 43 lhe veio à mente. Levantou-se às duas da madrugada e escreveu, em taquigrafia, na sua própria escrivaninha, um esboço do discurso que iria proferir sobre o Reino, a esperança do mundo e sobre o novo nome. E tudo que foi proferido por ele naquela ocasião foi preparado naquela noite, ou naquela madrugada, às duas horas. E não [há] dúvida alguma em minha mente — nem naquele tempo nem agora — que o Senhor o guiou nisso, e que é o nome que Jeová deseja que levemos e estamos felicíssimos e contentíssimos de tê-lo.”

Naturalmente, quase toda pessoa que se põe a pensar bastante sobre determinado assunto pode experimentar algo semelhante. Alguém pode estar fazendo alguma coisa totalmente alheia ao assunto quando lhe ocorre um “flash” de pensamento e ele sente que o problema foi resolvido. Isto ocorre até mesmo no meio da noite, quando a pessoa está deitada, mas com o pensamento alerta. Os que não são dados a pensar muito não costumam ter essa experiência e não entendem como é que algo assim pode acontecer.

Às Vezes não é Inspirada

Quando é conveniente, a Torre de Vigia afirma que é falível e que não é inspirada. O livro Raciocínios á Base das Escrituras disse na página 162:

As Testemunhas de Jeová não professam ser profetas inspirados. Cometeram enganos. Como no caso dos apóstolos de Jesus Cristo, tiveram às vezes expectativas erradas… É verdade que as Testemunhas cometeram erros de entendimento, sobre o que ocorreria no fim de certos períodos de tempo, mas não cometeram o erro de perder a fé ou de cessar de ficar vigilantes quanto ao cumprimento dos propósitos de Jeová… Os assuntos em que foram necessárias correções de ponto de vista têm sido relativamente mínimos em comparação com as verdades bíblicas vitais que discerniram e publicaram.

Observe como as grandes predições consideradas acima são trivializadas como “correções de ponto de vista”. O teste dum falso profeta, que Deuteronômio 18:20-22 fornece não é mencionado. Esse teste era: “Quando o profeta falar em nome de Jeová e a palavra não suceder nem se cumprir, esta é a palavra que Jeová não falou. O profeta proferiu-a presunçosamente. Não deves ficar amedrontado por causa dele.” As boas intenções e principalmente ensinamentos corretos não são suficientes para negar ter falhado nesse teste. Predições fracassadas feitas por alguém que afirma falar em nome de Deus têm toda a relação com o teste. Alegar ter direção e apoio de Deus e ser o “canal de comunicação entre Deus e os homens” num determinado momento, e em outro momento afirmar não ser inspirado, não é outra coisa além de conversa dupla.

A revista Despertai! de 22 de abril de 1969 disse na página 23:

É verdade, houve aqueles que, em tempos passados, predisseram um “fim do mundo”, até mesmo anunciando uma data específica… Todavia, nada aconteceu. O “fim” não veio. Eram culpados de profetizar falsamente.

Esta é verdadeiramente uma admissão surpreendente, quando se consideram todas as predições feitas pela Torre de Vigia que fracassaram, tendo em vista o fato de que Mateus 12:37 diz:

“Pois por suas palavras você será absolvido, e por suas palavras será condenado.”

Neste ponto, deve estar evidente que a única razão de se mudarem quaisquer das datas previstas, como a da presença do Senhor de 1874 para 1914, foi o fracasso das predições. Como já vimos anteriormente, numa série de assembléias em 1975, Frederick Franz proferiu um discurso no qual ele contou como J. F. Rutherford caracterizou sua predição quanto a 1925:

“Eu sei que me fiz de tolo.”

A Torre de Vigia trata os problemas que resultaram nesta admissão como decorrentes simplesmente da imperfeição humana, e como prova do grande desejo e entusiasmo em ver as promessas de Deus cumpridas.

Porém, há mais envolvido nisso. Uma coisa é alguém fazer de si mesmo um “tolo” por causa do desejo de ver algo acontecer. Outra coisa é essa pessoa incentivar outros a compartilhar seus conceitos, criticá-los se eles não o fazem, e questionar sua fé ou suas motivações se não fizerem, chegando até o ponto da expulsão da comunidade (desassociação).

Ainda mais grave é uma organização que se apresenta como porta-voz designado por Deus para toda a humanidade fazer isso – e durante décadas, em nível mundial. A responsabilidade pelos resultados dificilmente poderia ser descartada, por simplesmente dizer: “Bem, ninguém é perfeito.” No que se refere a todas as predições não cumpridas, não é verdade que as palavras da Torre de Vigia caíram “por terra” (1 Sam. 3:19)? No que se refere às palavras de Jesus em Mateus 24:44 “o Filho do homem vem numa hora em que não pensais”, não violam o princípio delas todas as atuais exortações da Torre de Vigia quanto à proximidade do fim? Não está todo o espírito dos relatos do Evangelho na ideia de que os cristãos devem ignorar os tempos e as datas e estar sempre prontos para a volta de Cristo?

Mas as Testemunhas de Jeová individuais não estão autorizadas a aceitar este ponto de vista. Em vez disso, devem aceitar as interpretações proféticas que são publicadas, sem questionar. A Torre de Vigia pode mudar seus conceitos sobre uma interpretação a qualquer momento. Mas uma Testemunha que, depois de estudar uma interpretação publicada de um trecho bíblico, concluir que está errada e persistir nessa conclusão antes de a liderança da Torre de Vigia chegar à mesma conclusão, seria desassociada.

Declarações Oficiais

Fica evidente com base no trecho da transcrição do julgamento que segue, que o Corpo Governante das Testemunhas de Jeová encara sua autoridade, e a unidade da organização, mostrada pelo apoio das Testemunhas aos conceitos do momento, como algo mais importante do que a verdade. O depoimento é extraído do Levantamento de Provas do julgamento de Douglas Walsh, realizado na Corte Escocesa de Sessões, em novembro de 1954.

Frederick W. Franz, na época vice-presidente da Torre de Vigia, foi o primeiro a ser chamado e respondeu às perguntas do advogado do Ministério do Trabalho e Serviço Nacional:

P. Além destas publicações regulares, vocês produzem e lançam vários panfletos e livros teológicos de tempos a tempos?

R. Sim.

P. Poderia me dizer: Estas publicações teológicas e os periódicos quinzenais são usados para a consideração de declarações doutrinárias?

R. Sim.

P. Estas declarações doutrinárias são consideradas como autoritativas dentro da Sociedade?

R. Sim.

P. A aceitação delas é uma questão de opção ou é obrigatória para todos os que são e desejam continuar sendo membros da Sociedade?

R. É obrigatória.

P. Quer dizer então que, efetivamente, haverá na terra uma nova sociedade humana em resultado disso?

R. Sim. Haverá uma sociedade do novo mundo numa nova terra sob os novos céus, tendo os céus e a terra anteriores passado, depois da batalha do Armagedom.

P. Então a população desta nova terra consistirá unicamente de Testemunhas de Jeová?

R. Inicialmente consistirá só de Testemunhas de Jeová. Os membros do restante esperam sobreviver a essa batalha do Armagedom, assim como uma grande multidão destas outras ovelhas. A permanência do restante sobre a terra depois da batalha do Armagedom será temporária, pois eles devem primeiro terminar sua carreira terrestre, fiéis até a morte, mas as outras ovelhas, se continuarem obedecendo a Deus, poderão continuar a viver na terra para sempre.

P. E são estes poderes disciplinares de fato exercidos quando surge a ocasião?

R. Sim, são.

P. Bem, não vou mais lhe fazer perguntas sobre este lado da questão, mas existem ofensas consideradas graves o bastante para ocasionar a expulsão sem esperança de readmissão?

R. Sim. O fato é que a excomunhão em si mesma pode levar à aniquilação do excomungado, se esse indivíduo jamais se arrepender e corrigir seu proceder, e continuar fora da organização. Não haveria para ele esperança alguma de vida no novo mundo, mas existe um proceder que resultaria em excomunhão, da qual se pode ter certeza que o indivíduo jamais retorna, e este é chamado de pecado contra o Espírito Santo.

Depois, o advogado do governo britânico voltou a atenção para certos ensinos que a organização Torre de Vigia com o tempo rejeitou, inclusive alguns envolvendo certas datas específicas. O que dizer de alguém que, na época em que o ensino estava em voga percebesse o erro e em conseqüência não o aceitasse? Que atitude teria a organização em relação a esta pessoa? O depoimento explica:

P. Não foi o caso de o Pastor Russell ter fixado essa data em 1874?

R. Não.

P. Não fixou ele a data antes de 1914?

R. Sim.

P. Que data ele fixou?

R. O fim dos tempos dos gentios ele fixou em 1914.

P. Ele não fixou 1874 como outra data crucial?

R. 1874 costumava ser entendida como a data da Segunda Vinda de Jesus em espírito.

P. O senhor disse ‘costumava ser entendida’?

R. Correto.

P. Isto foi publicado como um fato a ser aceito por todos os que eram Testemunhas de Jeová?

R. Sim.

P. Isso não é mais aceito, é?

R. Não.

P. Ao concluir isso, o Pastor Russell publicou o conceito com base numa interpretação do livro de Daniel, não foi?

R. Em parte.

P. E especificamente Daniel, capítulo 7, versículo 7, e Daniel, capítulo 12, versículo 12?

R. Daniel 7:7 e 12:12. O que o senhor disse, que ele baseou alguma coisa nestes textos?

P. A data dele de 1874 como data crucial e a data da Segunda Vinda de Cristo?

R. Não.

P. E como o senhor disse que ele a fixou; entendi que foi isso o que o senhor disse, será que o entendi mal?

R. Ele não baseou 1874 nestes textos.

P. Ele se baseou nestes textos, associados ao conceito de que a Monarquia Austro-Gótica ocorreu em 539?

R. Sim. 539 era uma data que ele utilizava no cálculo. Mas 1874 não se baseou nisto.

P. Mas era um cálculo que não é mais aceito pelo Corpo de Diretores da Sociedade?

R. Correto.

P. Bem, se estou correto, estou simplesmente curioso para definir precisamente esta posição: tornou-se obrigação das Testemunhas de Jeová aceitar este cálculo errado?

R. Sim.

P. De modo que o que é publicado como verdade hoje pela Sociedade, pode ter de ser considerado errado poucos anos depois?

R. Temos de esperar para ver.

P. E enquanto isso a comunidade das Testemunhas de Jeová fica seguindo um erro?

R. Elas ficam seguindo más interpretações das Escrituras.

P. Um erro?

R. Bem, um erro.

De novo entrou em discussão o grau da autoridade atribuída às publicações da Torre de Vigia. Embora em certo momento o vice-presidente tenha dito que “a pessoa não tem de aceitar compulsoriamente”, o depoimento dele daí em diante reverte à posição anterior, conforme podemos ver:

R. Para tornar-se ministro ordenado da congregação ele deve obter entendimento das coisas contidas nesses livros.

P. Mas, então, o batismo não é a ordenação da pessoa como ministro?

R. Sim.

P. Sendo assim, para o batismo, ela deve conhecer esses livros?

R. Ele tem de entender os propósitos de Deus que são explicados nesses livros.

P. Explicados nesses livros e explicados neles como uma interpretação da Bíblia?

R. Estes livros fornecem uma interpretação de toda a Escritura.

P. Mas, é esta exposição imposta?

R. Eles expõem a Bíblia ou as declarações feitas nela, e o indivíduo examina as declarações e depois as Escrituras para ver se elas têm apoio bíblico.

P. Ele o quê?

R. Ele examina as Escrituras para ver se as declarações têm apoio nas Escrituras. Como disse o apóstolo: “Examinai todas as coisas; apegai-vos ao que é bom.”

R. Entendi qual é a posição – corrija-me, por favor, se eu estiver errado – um membro das Testemunhas de Jeová deve aceitar como interpretação bíblica verdadeira o que é fornecido nos livros a que me referi?

R. Mas ele não faz isso compulsoriamente, ele tem seu direito cristão de examinar as Escrituras para confirmar se isto tem base bíblica.

P. E se ele descobrir que as Escrituras não concordam com os livros ou vice-versa, o que ele faz?

R. Os textos bíblicos estão lá, em apoio da declaração, é por isso que são colocados ali.

P. O que faz um homem se encontrar desarmonia entre a Bíblia e esses livros?

R. É preciso que o senhor me apresente um homem que ache isso, para que eu possa responder, ou ele.

Note-se que Frederick Franz não estava disposto, nem sob juramento, a admitir que a compreensão atual de um assunto pode estar errada, muito embora ele tinha acabado de dizer que o que é publicado como verdade hoje pode ser considerado errado poucos anos depois.

P. O senhor quis dizer que o membro individual tem o direito de ler os livros e a Bíblia e formar sua própria opinião quanto à interpretação apropriada dos Escritos Sagrados?

R. Ele passa a —

P. Poderia dizer sim ou não, e depois explicar melhor?

R. Não. Quer que eu explique melhor agora?

P. Sim, se desejar.

R. O texto bíblico é fornecido lá em apoio da declaração e, portanto, quando o indivíduo consulta as Escrituras e confirma a declaração, ele passa então a ter o conceito bíblico do assunto, o entendimento bíblico, conforme escrito em Atos, capítulo 17, versículo 11, que os bereanos eram mais nobres do que os de Tessalônica, pois recebiam a Palavra com a maior prontidão, e pesquisavam as Escrituras para ver se aquelas coisas eram assim, e nós orientamos a seguir esse nobre proceder dos bereanos, de pesquisar as Escrituras para ver se estas coisas são assim.

P. Uma Testemunha não tem alternativa a não ser aceitar como compulsórias e obedecer às instruções publicadas em “A Sentinela”, no “Informante” ou na “Despertai”, ela tem?

R. Ela deve aceitá-las.

P. Há alguma esperança de salvação para o homem que depende apenas de sua Bíblia, quando ele está numa situação no mundo em que não é possível obter os tratados e publicações de sua Corporação?

R. Ele estará dependente da Bíblia.

P. Será ele capaz de interpretá-la corretamente?

R. Não.

P. Não pretendo ficar trocando textos bíblicos com o senhor, mas não disse Jesus, “Aquele que crê em mim, viverá, e aquele que crê em mim jamais morrerá”?

R. Sim.

A Fonte Apropriada

O próximo a ser chamado foi o conselheiro jurídico da Sociedade, Hayden C. Covington:

P. Não é vital falar a verdade em assuntos religiosos?

R. Certamente é.

P. Há, em sua opinião, margem para que uma religião mude suas interpretações dos Escritos Sagrados de tempos a tempos?

R. Em nossa visão, há todas as razões para uma mudança na interpretação da Bíblia. Nossa visão se torna mais clara à medida que vemos o tempo cumprir as profecias.

P. Os senhores já anunciaram – perdoe-me a expressão – falsas profecias?

R. Não acho que anunciamos falsas profecias, houve declarações que eram errôneas, é assim que coloco, e equivocadas.

P. É uma questão bem vital, na situação atual do mundo, saber, caso esta profecia esteja corretamente interpretada, quando ocorreu a Segunda Vinda de Cristo?

R. Isto é verdade, e sempre nos esforçamos em verificar se estamos com a verdade, antes de anunciá-la. Pautamo-nos pelas melhores informações que temos, mas não podemos esperar até ficarmos perfeitos, porque se esperássemos até ficarmos perfeitos jamais poderíamos falar.

P. Prossigamos nisso um pouco mais. Foi promulgado como um fato, no qual todos os membros das Testemunhas de Jeová tinham de crer, que a Segunda Vinda do Senhor ocorreu em 1874?

R. Não estou familiarizado com isso. O senhor está falando de um assunto que desconheço.

P. O senhor ouviu a evidência do Sr. Franz?

R. Ouvi o Sr. Franz depor, mas não estou familiarizado com o que ele disse sobre isso, quero dizer, o assunto sobre o qual ele estava falando, assim não posso dizer mais do que o senhor, tendo ouvido o que ele disse.

P. Deixa-me fora disso?

R. Essa é a fonte de minha informação, o que ouvi no tribunal.

P. O senhor estudou a literatura do seu movimento?

R. Sim, mas não toda. Não estudei os sete volumes de “Estudos das Escrituras”, e não estudei este assunto que o senhor está mencionando agora sobre 1874. Não estou familiarizado com isso de modo algum.

P. Supõe, à base de minha informação, que a Sociedade anunciou oficialmente que a Segunda Vinda de Cristo foi em 1874?

R. Tomando esta suposição como um fato, é uma afirmação hipotética.

P. Isso foi a publicação de uma falsa profecia?

R. Isso foi a publicação de uma falsa profecia, foi uma afirmação falsa ou uma declaração errônea do cumprimento de uma profecia que era falsa ou errônea.

P. E todas as Testemunhas de Jeová tinham de acreditar nisso?

R. Sim, porque o senhor deve entender que precisamos ter unidade, não podemos estar desunidos, com muitas pessoas indo para todas as direções, um exército deve marchar alinhado.

P. Vocês não acreditam nos exércitos do mundo, acreditam?

R. Acreditamos no exército cristão de Deus.

P. Acreditam nos exércitos do mundo?

R. Nada temos a dizer sobre isso, não pregamos contra eles, dizemos simplesmente que os exércitos do mundo, assim como as nações do mundo atual, são parte da Organização de Satanás, e nós não tomamos parte dela, mas não dizemos que as nações não podem ter seus exércitos, não pregamos contra a guerra, apenas reivindicamos isenção dela, só isso.

P. Voltemos ao assunto agora. Foi promulgada uma falsa profecia?

R. Concordo com isso.

P. Ela tinha de ser aceita pelas Testemunhas de Jeová?

R. Está correto.

P. Se um membro das Testemunhas de Jeová adotasse a posição pessoal de que essa profecia estava errada e dissesse isso, ele seria desassociado?

R. Sim, se dissesse isso e persistisse em criar problemas, porque se a organização inteira acredita numa coisa, ainda que errônea, e alguém, por conta própria começa a divulgar suas idéias, então haverá desunião e problemas, não pode haver harmonia nem marcha alinhada. Quando vem uma mudança, ela deve partir da fonte apropriada, da dianteira da organização, o corpo governante, não de baixo para cima, porque cada um teria idéias próprias e a organização se desintegraria e iria em mil direções diferentes. Nosso objetivo é ter unidade.

P. Unidade a todo custo?

R. Unidade a todo custo, porque cremos e temos certeza que Jeová Deus está usando nossa organização, o corpo governante de nossa organização, para dirigi-la, mesmo que de vez em quando se cometam erros.

P. Unidade baseada na aceitação obrigatória de falsa profecia?

R. Admite-se que isso é verdade.

P. E a pessoa que expressou sua opinião, conforme o senhor diz, de que isso estava errado, e foi desassociada, estaria ela violando o Pacto, sendo ela batizada?

R. Está correto.

P. E como o senhor disse ontem expressamente, ela seria merecedora da morte?

R. Acho que —-

P. Poderia dizer sim ou não?

R. Digo sim, sem hesitação.

P. O senhor chama isso de religião?

R. Certamente é.

P. O senhor chama isso de cristianismo?

R. Certamente chamo.

P. Com relação aos erros, vocês foram extensamente analisados quanto às diferenças de conceito que aconteceram nas exposições oficiais das Escrituras feitas ao longo dos anos, desde a fundação da Sociedade, e penso que o senhor concordou que tem havido diferenças.

R. Sim.

P. O senhor também concordou bem francamente que as pessoas que, em qualquer momento, não estiverem dispostas a aceitar as interpretações oficiais, estão passíveis de expulsão pela Sociedade, com todas as conseqüências espirituais que isso possa acarretar?

R. Sim, eu disse isso e digo novamente.

O depoimento de Covington em favor da Torre de Vigia é certamente significativo.

1. Como assessor jurídico e ex-vice-presidente da Torre de Vigia, ele admitiu que nunca tinha sequer lido os sete volumes de Estudos das Escrituras, sendo que todos os quais, exceto o último, foram escritos por C. T.  Russell, o fundador da Sociedade.

2. Ele concordou que a Sociedade era culpada de publicar e promulgar “falsa profecia”.

3. A unidade pode exigir de um cristão que aceite como verdade o que ele acredita que a Palavra de Deus mostra ser falso.

Assim, segundo Covington, independentemente do que leia na Bíblia, um cristão não pode expressar isso se não coincidir com os ensinos oficiais da organização. Ele deve esperar que a “fonte apropriada”, o Corpo Governante lhe diga o que é aceitável para crer e considerar. Uma “unidade a todo custo”, ainda que baseada na “aceitação obrigatória de falsa profecia” sob penalidade de desassociação e morte eterna para quem não acatar isso, não parece ser um ensino cristão. Com efeito, embora alguém possa ler as próprias palavras do Amo, por escrito, ele não pode aceitá-las ou agir de acordo com elas se o alegado “escravo” do Amo lhe diz algo diferente. Este é, em termos claros, o que a Torre de Vigia tem exigido de seus seguidores desde o tempo de seu segundo presidente, J. F. Rutherford.

Não admira que o advogado tenha perguntado a Covington: “O senhor chama isso de cristianismo?” Em parte alguma as Escrituras apresentam a ideia de que a verdadeira unidade cristã é criada, sustentada, protegida e forçada por alguma instituição humana. Onde na Bíblia podemos encontrar um princípio ou declaração de que Deus exige “unidade a todo custo” ou com o sacrifício da verdade? Poderíamos encontrar esses princípios nos excessos da Inquisição Católica, não na Bíblia.

O último a depor foi Grant Suiter, que era Secretário-Tesoureiro da Sociedade Torre de Vigia, e ele fez as seguintes declarações sobre a posição oficial:

P. Qual é a posição de um servo de companhia* quanto a isso?

R. Ele tem de preencher os requisitos a que nos referimos anteriormente, maturidade, discernimento e compreensão espiritual e a capacidade de compreender a congregação. Ele tem de passar por esse treinamento já mencionado, na Escola do Ministério Teocrático, assumir a liderança no próprio ministério de campo, estar habilitado para ensinar e ter todos as outras qualificações que as Escrituras determinam. Como o senhor pode ver, o homem não pode estabelecer requisitos que as Escrituras não estabelecem.

P. Isso em termos gerais. Mas, para chegar à prática efetiva ele deve assistir à Escola do Ministério Teocrático, não é?

R. Sim.

P. E lá ele encontra uma biblioteca?

R. Sim.

P. Não se espera que ele se familiarize com as publicações da Sociedade?

R. Certamente ele deve.

P. Ele pode, de alguma maneira, na opinião das Testemunhas de Jeová, ter um entendimento das Escrituras fora das publicações das Testemunhas de Jeová?

R. Não.

P. Só por meio das publicações é que ele pode ter um entendimento correto das Escrituras?

R. Está correto.

P. Isso não é arrogância?

R. Não.

P. O senhor ouviu as evidências de que 1874 mostrou ser errada como data material e crucial, e de que 1925 era uma data errada. Nestes dois itens, a aceitação, a aceitação absoluta como Verdade era imposta a todas as Testemunhas de Jeová da época?

R. Está correto.

P. O senhor concorda que isso foi uma aceitação do que era falso?

R. Não, não totalmente. Os pontos que estavam errados eram falsos porque estavam errados, mas o resultado geral é que é o importante. Ao longo de todos estes anos do ministério das Testemunhas de Jeová, desde a formação da Sociedade, a corporação de Pensilvânia, houve uma obra constante de voltar os corações e mentes das pessoas para a Palavra de Deus e seus preceitos justos, e de prover-lhes força espiritual para tomar posição em favor do que sabem ser correto, para enaltecer o nome de Jeová e anunciar o seu Reino. Não há qualquer comparação entre os pontos incidentais que foram corrigidos e a importância da coisa principal, a adoração de Jeová Deus. Isso foi inculcado nas mentes das Testemunhas de Jeová e de um número incontável de pessoas ao longo de todos estes anos.

[*Nota do tradutor: Nome que se dava antigamente ao principal responsável por uma congregação das Testemunhas de Jeová.]

Suiter afirmou: “O homem não pode estabelecer requisitos que as Escrituras não estabelecem.” Porém, o próprio depoimento dele, bem como o dos outros dois representantes, é que “só por meio das publicações da Torre de Vigia é que se pode ter o entendimento correto das Escrituras.” Embora falsas profecias tenham sido publicadas, “a aceitação absoluta (delas) como Verdade foi imposta a todas as Testemunhas de Jeová da época”, e ele declarou firmemente que esta imposição está correta. Suiter asseverou que “o resultado geral é que é o importante”, de modo que a organização não deveria ser julgada de modo negativo porque promulgou erros em “pontos incidentais”, já que a “coisa principal, a adoração de Jeová Deus” foi divulgada. Não seria justo igualar a importância desses erros à mensagem principal. “Não há qualquer comparação”, disse Suiter.

Esta última declaração não está errada em si mesma. Mas o próprio depoimento de Suiter, assim como os dos outros dois homens, mostra que, enquanto a organização pede essa tolerância e tratamento equilibrado para si mesma, como seu devido direito, ela nega isso a outros. Ao mesmo tempo em que pede tolerância para si, ela não a concede a nenhum membro que faça objeção a ensinos errôneos, e que não possa aceitá-los. Para estes o resultado é a desassociação, ser cortado como alguém merecedor da morte. O caso é esse, não importa o quanto a pessoa aceite o ponto “principal” da mensagem ou a sinceridade e devoção dela em “adorar a Jeová Deus”. Não, a pessoa deve aceitar a mensagem inteira, o pacote completo, do jeito que o mensageiro organizacional ache bom apresentar, incluindo os erros, sendo a expulsão a única alternativa. A organização minimiza como apenas “incidentais” os erros que ela publica, e porém, se esses mesmos erros não forem aceitos ou houver objeções, eles assumem, paradoxalmente, uma importância enorme, suficiente para dar base à ação de desassociar pessoas.

Esta ideia faz parecer que Deus fica descontente com qualquer pessoa que não aceitar os erros que um suposto mensageiro fale em seu nome, ou se desagrada em que a pessoa insista em ‘examinar todas as coisas; apegar-se ao que é bom”, provindo genuinamente de Deus. Se esta pessoa for expulsa da organização Torre de Vigia, Deus a julgará como indigna da vida. Incrivelmente, os que deram esse depoimento evidentemente não viram qualquer inconsistência em tudo isso.

Tudo isso faz lembrar o que diz Provérbios 20:23: “Dois tipos de pesos são algo detestável para Jeová, e uma balança fraudulenta não é boa.” (Tradução do Novo Mundo) Parece razoável que este texto não se aplica só a transações comerciais, mas especialmente a transações envolvendo interesses espirituais, no qual os homens aplicam um padrão para si mesmos ao reivindicar tolerância e um padrão muito diferente para os outros. Jesus disse: “Pois da mesma forma que julgarem, vocês serão julgados; e a medida que usarem, também será usada para medir vocês.” (Mat. 7:2) Claramente, padrões duplos não são aceitáveis ​​a Deus.

Jó 13:7-11 tem algo a dizer sobre as pessoas que distorcem a verdade, com o fim de defender Deus:

Acaso falareis injustiça para com o próprio Deus, E falareis dolo para ele? Sereis parciais com ele, Ou contendereis em juízo pelo [verdadeiro] Deus? Porventura seria bom que ele vos sondasse? Ou o ludibriareis assim como se ludibria o homem mortal? Ele decididamente vos repreenderá. Se tentardes às escondidas ser parciais; Não vos assustará a sua própria dignidade, E não cairá sobre vós o próprio pavor dele? (Tradução do Novo Mundo).

Vocês vão falar com maldade em nome de Deus? Vão falar enganosamente a favor dele? Vão revelar parcialidade por ele? Vão defender a causa a favor de Deus? Tudo iria bem, se ele os examinasse? Vocês conseguiriam enganá-lo, como podem enganar os homens? Com certeza ele os repreenderia, se no íntimo vocês fossem parciais. O esplendor dele não os aterrorizaria? O pavor dele não cairia sobre vocês? (Nova Versão Internacional).

Falareis por Deus injustamente, E usareis de engano em nome dele? Sereis parciais por ele? Contendereis a favor de Deus? Estais prontos a que ele vos esquadrinhe? Ou zombareis dele, como quem zomba de um homem? Certamente vos repreenderá, Se em oculto vos deixardes levar de respeitos humanos. Porventura não vos amedrontará a sua majestade, E não cairá sobre vós o seu terror? (Sociedade Bíblica Britânica).

Porventura por Deus falareis perversidade e por ele falareis mentiras? Fareis acepção da sua pessoa? Contendereis por Deus? Ser-vos-ia bom, se ele vos esquadrinhasse? Ou zombareis dele, como se zomba de algum homem? Certamente vos repreenderá, se em oculto fizerdes acepção de pessoas. Porventura não vos espantará a sua alteza, e não cairá sobre vós o seu terror? (Almeida Revisada e Corrigida).

Para defender Deus, ireis dizer mentiras. Será preciso enganardes em seu favor? Tereis, para com ele, juízos preconcebidos, e vos arvorais em ser seus advogados? Seria, porventura, bom que ele vos examinasse? Iríeis enganá-lo como se engana um homem? Ele não deixará de vos castigar, se tomardes seu partido ocultamente. Sua majestade não vos atemorizará? Seus terrores não vos esmagarão? (Tradução Ecumênica).

Será que para defender a Deus vocês vão dizer mentiras? Vão falar palavras enganosas a favor dele? Será que vocês vão ficar do lado dele? Vão defender a causa dele no tribunal? Por acaso, seria bom que ele os examinasse? Vocês pensam que podem enganar a Deus como enganam as pessoas? Se vocês forem injustos, mesmo em segredo, ele certamente os repreenderá; a sua grandeza os encherá de medo, e os seus terrores cairão sobre vocês. (A Bíblia na Linguagem de Hoje).

Comentário Keil-Delitzsch ao Antigo Testamento, Vol. 4, sob o verbete “Jó”, páginas 209, 210 (em inglês), fez o seguinte comentário sobre Jó 13:7-11, tratando do falso testemunho dado pelos companheiros de Jó:

A defesa que eles fizeram de Deus – este é a ideia desta estrofe – é uma injustiça para com Jó, e um desserviço a Deus, que não pode escapar da punição clara por parte dele. Eles se apresentam como advogados de Deus … e, ao mesmo tempo, aceitam Sua pessoa, … ou enaltecem, ou seja, favorecem, ou dão preferência à pessoa dele, mas ao custo da verdade: eles são parciais em seu favor, como se lembra e se dá a entender duas vezes a eles… Eles sabem que Jó não é um pecador flagrante, porém, enganam-se com a ideia de que ele é, e por causa dessa ilusão assumem a causa de Deus contra ele. Essa perversão da verdade in majorem Dei gloriam é uma abominação para Deus. Quando Ele os escrutina, seus advogados… vão se conscientizar disso; será que se mofa de Deus como alguém mofa de homens mortais?… Deus não fica satisfeito com latreia [grego, ‘serviço sagrado’] (João xvi. 2) que dá a honra a Ele, mas não com a verdade, esse zelos Theou all ou kat epignosin [grego: ‘zelo de Deus, mas não de acordo com o conhecimento exato’] (Rom x. 2), esse tipo de advocacia contrária ao melhor conhecimento e consciência de alguém, em que se pensa que o fim justifica os meios. Esse tipo de defesa deve ser exposta à vergonha e frustrada quando Aquele que não precisa da ocultação da verdade para Sua justificação se manifestar… e por sua influência direta expor toda a mentira à luz. Este é o mais ousado pensamento imaginável, que o que não se atreve a ter respeito até mesmo para com a pessoa de Deus, quando se obriga a mentir para si mesmo. Além do que é também auto-evidente. Pois Deus e a verdade nunca podem ser antagônicos.

Não só no caso Walsh, como também muitas outras vezes a Torre de Vigia conclamou as Testemunhas de Jeová a fazerem pouco caso de seus erros, afirmando que estes são contrabalançados e superados por outros fatores mais favoráveis. A revista A Sentinela de 1º de agosto de 1982 contém uma série de artigos que defendem claramente esse padrão. Entretanto, a organização não o aplica às suas ações para com os que estão sob sua autoridade. Se estas pessoas promoverem qualquer conceito, ainda que trivial, que não coincida com os ensinamentos da organização, isso não é considerado só como um erro humano, que pode ser corrigido com o tempo, mas, em vez disso é considerado como base para desassociação. O fato de o “resultado geral” mostrar que o indivíduo discordante manifesta claramente genuínas qualidades cristãs não é considerado relevante. A pessoa deve concordar totalmente com a organização. As palavras de Jesus deixam claro que ele não aprova essa aplicação desigual de padrões.

A Nova Luz

Na revista A Sentinela de 1º de agosto de 1982, pág. 30, a Torre de Vigia rejeitou o princípio patriótico: “Nossa pátria!… que ela sempre tenha razão; mas nossa pátria acima de tudo, tenha ela razão ou não.”, dizendo: “Mas isso não se dá com as testemunhas cristãs de Jeová!” Todavia, conforme o testemunho acima de Frederick Franz, Hayden Covington e Grant Suiter prova, a liderança da organização exige que as Testemunhas endossem esta ideia: “A Torre de Vigia!… que ela sempre tenha razão; mas a Torre de Vigia acima de tudo, tenha ela razão ou não.”

Charles T. Russell teria ficado bem surpreso se ouvisse depoimentos como os transcritos acima. Na revista A Torre de Vigia de Sião de setembro de 1893, página 264, ele escreveu:

O esforço para obrigar todos os homens a pensarem da mesma maneira em todos os assuntos culminou na grande apostasia e no desenvolvimento do grande Sistema Papal; e desse modo o ‘evangelho’, a ‘uma só fé’ que Paulo e os outros apóstolos estabeleceram, foi perdida – enterrada sob a massa de decretos não inspirados de papas e concílios. A unidade da igreja primitiva – baseada no evangelho simples e mantida unicamente por meio do amor – deu lugar à servidão à igreja de Roma – uma servidão dos filhos de Deus sob a qual ainda padecem as multidões. O movimento da Reforma no século dezesseis surgiu como um esforço para recuperar a liberdade de consciência; mas, iludido pela ideia de um credo elaborado… formou outros sistemas de escravidão muito similares aos do Papado.

Curiosamente, a princípio Russell não concordava com o que depois se tornou prática costumeira na Torre de Vigia com relação à “nova luz”. Na página 188 da edição de A Torre de Vigia de Sião de fevereiro de 1881, ele escreveu:

Se estivéssemos seguindo um homem isto seria sem dúvida diferente conosco; indubitavelmente uma ideia humana contradiria a outra e o que era luz um, dois ou seis anos atrás seria  agora considerado como escuridão: Mas com Deus não há variação, nem virada da sombra, e assim é com a verdade; qualquer conhecimento ou luz que vêm de Deus deve ser como seu autor. Uma nova visão da verdade nunca pode contradizer uma verdade anterior. A “nova luz” nunca extingue a velha “luz”, e sim a complementa. Se você estivesse iluminando um edifício com sete lamparinas, você não iria apagar uma a cada vez que acendesse outra, mas adicionaria uma luz à outra e elas estariam em harmonia para, desta forma, aumentar a luz: Assim é com a luz da verdade, o verdadeiro aumento se dá por adicionar, não por substituir uma por outra.

A Torre de Vigia não endossa este conceito hoje em dia. Em vez disso, promove a doutrina da “revelação progressiva”, um conceito particularmente obscuro que nunca é claramente definido e jamais é cuidadosamente analisado. Isso normalmente significa uma compreensão organizacional progressiva da Bíblia por meio da aplicação do raciocínio, estudo, e algum tipo de orientação indefinida do espírito santo. Afirma-se que este conceito é baseado em Prov. 4:18, que diz: “Mas a vereda dos justos é como a luz clara que clareia mais e mais até o dia estar firmemente estabelecido.” (Tradução do Novo Mundo).

Entretanto, um exame contextual deste texto mostra que não há base para a interpretação da Torre de Vigia. O escritor de Provérbios estava estabelecendo um simples contraste entre o que acontece com os ímpios, de um lado e os justos do outro. (Veja Provérbios 4: 14-19) Este texto não tem relação alguma com “revelação de novas verdades” a indivíduos ou a uma organização.

A revista A Sentinela de 1º de agosto de 1982 afirmou na página 17:

As profecias esclarecem-se para nós, ao passo que o espírito santo de Jeová lança luz sobre elas e à medida que se cumprem nos acontecimentos mundiais ou no que acontece com o povo de Deus.

E quanto às profecias que foram rejeitadas depois? De que maneira foram elas esclarecidas à Torre de Vigia pelo espírito de Deus? Não eram elas apenas produtos do desejo de acreditar? Não dá a aplicação que a Torre de Vigia faz de Prov. 4:18 base para justificar virtualmente qualquer mudança de direção, não importa quão radical seja ela? Não é verdade que sempre que o novo conhecimento era revelado aos servos de Deus na Bíblia, ele não contradizia o conhecimento anterior, mas o completava e cumpria? E não é verdade que nenhum verdadeiro servo de Deus é descrito na Bíblia como tendo feito predições falsas? Eles cometeram muitos erros, é verdade, mas nunca ao emitir profecias em nome de Deus.

A liderança da Torre de Vigia às vezes faz uso de ilustrações para justificar suas muitas predições fracassadas e mudanças doutrinárias. A contida na revista A Sentinela de 1º de agosto de 1982, página 27, é um exemplo disso:

No entanto, a alguns talvez tem parecido que a vereda nem sempre seguiu reto em frente. Ocasionalmente, as explicações dadas pela organização visível de Jeová têm indicado ajustes que aparentemente voltam a pontos de vista anteriores. Mas, na realidade, não tem sido assim. Poderia ser comparado ao que se conhece em náutica como “bordejar”. Manobrando as velas, os marujos podem fazer o barco ir da direita para a esquerda, em ziguezague, mas sempre avançando em direção ao seu destino, apesar de ventos contrários.

Será que o navio da Torre de Vigia não navegou em círculos, em alguns casos? Não houve um giro completo em relação ao entendimento de quem são as “autoridades superiores”? E o entendimento de quem deve ser chamado de “ministro ordenado”? Como se poderia dizer que estas mudanças doutrinárias não voltaram a “pontos de vista anteriores”?

Na ilustração os marinheiros estabelecem o rumo do navio. Quem é que faz isso no caso da Torre de Vigia? Não é esta ilustração um exercício de sofisma? Não se enquadraria isso na descrição dada em Provérbios 3:32: “Porque a pessoa sinuosa é algo detestável para Jeová, mas ele tem intimidade com os retos.”? E não faz lembrar a descrição do apóstolo Paulo em Efésios 4:14: “Não sejamos mais pequeninos, jogados como que por ondas e levados para cá e para lá por todo vento de ensino, pela velhacaria de homens, pela astúcia em maquinar o erro.”?

Embora referindo-se a outras religiões, a revista A Sentinela de 15 de abril de 1977, pág. 246 apresenta uma boa descrição de andar em círculos:

É assunto sério representar Deus e Cristo de um modo, e depois achar que nosso entendimento dos principais ensinos e das doutrinas fundamentais das Escrituras estava errado, e, daí, retornar às mesmas doutrinas que, por anos de estudo, cabalmente verificamos ser erradas. Os cristãos não podem vacilar — ser indecisos — a respeito de ensinos fundamentais. Que confiança se pode ter na sinceridade ou no critério de tais pessoas?

Ilustrando bem como o princípio da “crescente luz” funciona, a edição de  1º de setembro de 1979 de A Sentinela  disse em páginas 23, 24:

Por causa desta esperança, o “escravo fiel e discreto” tem alertado a todos os do povo de Deus ao sinal dos tempos, indicando a proximidade do governo do Reino de Deus. Neste respeito, porém, é preciso observar que este “escravo fiel e discreto” nunca foi inspirado, nunca foi perfeito. Os escritos feitos por certos membros da classe do “escravo”, que passaram a constituir a parte cristã da Palavra de Deus, foram inspirados e são infalíveis, mas isto não se dá com outros escritos desde então. O que foi publicado nos dias de Charles Taze Russell, primeiro presidente da Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, dos E. U. A., não era perfeito; nem o que foi publicado nos dias de J. F. Rutherford, o presidente que lhe sucedeu. A crescente luz sobre a Palavra de Deus, bem como os fatos da história, exigiram repetidas vezes ajustes de uma espécie ou de outra, até o tempo atual. Mas, não nos esqueçamos de que a motivação deste “escravo” sempre foi pura, altruísta; sempre foi bem-intencionada. Além disso, as palavras encontradas em Romanos 8:28 também são apropriadas aqui: “Deus faz que todas as suas obras cooperem para o bem daqueles que amam a Deus, os que são os chamados segundo o seu propósito.” Na realidade, quaisquer ajustes que tiveram de ser feitos no entendimento ofereceram a oportunidade para os servidos por este “escravo” mostrarem lealdade e amor, a espécie de amor que distinguiria os seguidores de Jesus, conforme ele disse. (João 13:34, 35; veja 1 Pedro 4:8.) Para os que realmente amam a lei de Deus, não há pedra de tropeço. — Sal. 119:165.

Não é este praticamente o mesmo argumento usado por Russell ao justificar o fracasso óbvio da maioria de suas predições, a saber, que isso “certamente teve um efeito muito estimulante e santificador sobre milhares, todos os quais podem louvar ao Senhor – até mesmo pelo erro”? Esta é mais uma prova de que, ainda que as Testemunhas de Jeová tenham sido obrigadas a acreditar em muitas doutrinas que mudaram ao longo dos anos, sempre que as doutrinas se tornarem insustentáveis a Torre de Vigia irá se sair com a afirmação de que o “escravo fiel e discreto” não é perfeito nem infalível, mas deve progredir com o aumento da “nova luz”.

Avisos Contra os Falsos Profetas

Algumas declarações oficiais da Torre de Vigia sobre os falsos profetas são encontrados na página 3 da edição de 1º  de fevereiro de 1992 de A Sentinela, no artigo “Cuidado Com os Falsos Profetas!”:

Quando se pensa em profetizar, talvez a primeira coisa que vem à mente seja predizer o futuro. Este era, de fato, um aspecto do trabalho dos profetas de Deus na antiguidade, mas não era o trabalho principal.

Daí, o artigo tenta igualar um falso profeta com alguém que não entende e ensina falsidade sobre o “Reino”. Embora isso possa ser um teste de um falso profeta, desconsidera-se o teste da Bíblia de um falso profeta, registrado em Deut. 18:20-22, no qual a Torre de Vigia obviamente falhou. Focalizar apenas o argumento que aparece na revista A Sentinela evita ter de considerar as muitas predições da Torre de Vigia que fracassaram.

Como visto acima, a edição de 1º de setembro de 1979 apresentou outro argumento que impediria a Torre de Vigia de ser classificada como um falso profeta:

Mas, não nos esqueçamos de que a motivação deste “escravo” sempre foi pura, altruísta; sempre foi bem-intencionada.

Onde é que lemos na Bíblia que “motivação pura” tem algum valor para determinar se as palavras de um profeta são verdadeiras ou falsas? A própria Torre de Vigia diz com frequência que Deus vai destruir os membros de todas as outras religiões, exceto as Testemunhas de Jeová, não importa quão sinceros eles sejam, uma vez que o padrão de Deus é a Verdade, não a sinceridade. Isso não é um padrão duplo de pensamento? Se uma Testemunha de Jeová discordar publicamente de algum ensino da Torre de Vigia, não estará ela sujeita à expulsão (desassociação), não importa quão certa ela esteja, ou quão puras sejam as motivações dela?

Com relação a deturpações da Bíblia, o livro É Esta Vida Tudo o Que Há?, publicado em 1975, disse na página 46, sem levar em conta as motivações do deturpador:

Sabendo disso, o que fará você, leitor? É evidente que o verdadeiro Deus, sendo “Deus da verdade” e odiando a mentira, não considerará com favor os que se apegam a organizações que ensinam a falsidade. (Salmo 31:5; Provérbios 6:16-19; Revelação 21:8) Realmente, gostaria mesmo de se associar com uma religião que não o tratou com honestidade?

Uma Profecia Falsa Mais Recente

A organização Torre de Vigia muitas vezes fez comentários sobre os capítulos 11 e 12 do livro bíblico de Daniel. A organização afirma que os que são da “classe ungida” cumprem Daniel 12:3, 4, onde se lê na Tradução do Novo Mundo:

“E os perspicazes raiarão como o resplendor da expansão; e os que levam muitos à justiça, como as estrelas por tempo indefinido, para todo o sempre. E quanto a ti, ó Daniel, guarda em segredo as palavras e sela o livro até o tempo do fim. Muitos [o] percorrerão, e o [verdadeiro] conhecimento se tornará abundante.”

A Torre de Vigia acredita que os que são Testemunhas de Jeová da “classe ungida” são “os perspicazes”, conforme se mostra na edição de 1º de julho de 1987 da revista A Sentinela, que disse que, nas páginas 23-5, debaixo dos subtítulos “Brilhando Como Iluminadores” e “O Verdadeiro Conhecimento se Tornará Abundante”:

Mas a profecia diz a respeito daqueles que permanecem fiéis: “E os perspicazes raiarão como o resplendor da expansão; e os que levam muitos à justiça, como as estrelas por tempo indefinido, para todo o sempre.” (Daniel 12:3) “Os perspicazes”, evidentemente, são os fiéis membros remanescentes da ungida congregação cristã, os quais estão “cheios do conhecimento exato da sua vontade, em toda a sabedoria e compreensão espiritual”… Desde 1919, embora ‘a própria escuridão cubra a terra e densas trevas os grupos nacionais’, eles estão “brilhando como iluminadores” no meio da humanidade. (Isaías 60:2; Filipenses 2:15; Mateus 5:14-16) ‘Brilham tão claramente como o sol, no reino de seu Pai.’ — Mateus 13:43.

Como é que mostram que são “os que levam muitos à justiça”? (Daniel 12:3) Graças ao fiel testemunho que dão, os últimos do Israel espiritual foram ajuntados e declarados justos para a vida nos céus. Além disso, tem-se manifestado uma grande multidão de “outras ovelhas”, afluindo à luz provinda de Jeová conforme refletida pelo ‘povo de Daniel’…

O anjo deu então palavras de conselho a Daniel: “E quanto a ti, ó Daniel, guarda em segredo as palavras e sela o livro até o tempo do fim. Muitos o percorrerão, e o verdadeiro conhecimento se tornará abundante.” (Daniel 12:4) Estas palavras atraem a nossa atenção. Embora a profecia do anjo, a respeito dos dois reis, começasse a se cumprir há uns 2.300 anos, o entendimento dela se tornou claro principalmente durante “o tempo do fim”, em especial desde 1919. Nestes dias, ‘muitos percorrem’ a Bíblia, e o verdadeiro conhecimento deveras tornou-se abundante. Este é o tempo em que Jeová tem dado conhecimento aos entendidos…

Portanto, mantenha-se achegado aos “perspicazes”, que ‘raiam como o resplendor da expansão’.

O trecho acima quer dizer que durante o tempo do fim, o verdadeiro conhecimento se tornaria abundante devido ao ensino vindo dos “perspicazes”. Este verdadeiro conhecimento incluiria especialmente a compreensão do livro de Daniel em si, já que Dan. 12:9, 10 diz:

E ele prosseguiu, dizendo: “Vai, Daniel, porque as palavras são guardadas em segredo e seladas até o tempo do fim. Muitos se purificarão, e se embranquecerão, e serão refinados. E os iníquos certamente agirão iniquamente, e absolutamente nenhum iníquo entenderá; mas os perspicazes entenderão.

Nesta mesma linha de raciocínio, o livro Seja Feita a Tua Vontade na Terra (publicado em português em 1962), disse:

O livro de Daniel foi aberto e o selo quebrado para nós os que vivemos neste “tempo do fim”. (pág. 304, veja também A Sentinela de 1º de abril de 1960, pág. 222 [em inglês].).

Somente aos biblicamente inteligentes será permitido entender o livro de Daniel e todo o resto da Bíblia (pág. 308, veja também A Sentinela de 15 de abril de 1960, pág. 250 [em inglês]).

A revista A Sentinela de 15 de novembro de 1969 apresentou todas estas idéias, afirmando que o livro de Daniel havia sido “aberto”:

O profeta Daniel predisse os tempos momentosos em que vivemos agora… O anjo disse-lhe que o cumprimento era segredo e ficaria selado até o “tempo do fim”, e é neste que nos encontramos agora. Quão emocionado Daniel se sentiria se pudesse viver hoje, quando seu livro de profecia é aberto ao entendimento humano! Quanto ele se alegraria e deleitaria de ter chegado a este tempo na história, para a culminação de suas palavras proféticas! Por isso, deve deleitar-nos muito examinarmos as palavras de Daniel para os nossos dias, sentindo-nos especialmente privilegiados de compreender o que o próprio Daniel não pôde discernir. (pág. 680).

Alguns dos servos de Jeová talvez palestrarão com ele [Daniel] sobre o conteúdo do livro ‘Seja Feita a Tua Vontade na Terra’, que contém uma consideração pormenorizada de muitas das profecias de Daniel. Ele estará bem interessado em saber como se cumpriram as suas maravilhosas profecias, para a glória de Deus. Nós estaremos interessados ​​em suas reações e nos alegraremos com ele na sua sorte.

Sim, o companheiro angélico de Miguel indicou uma grande obra para os verdadeiros seguidores do messiânico Príncipe Miguel neste “tempo do fim”. Aqui está a profecia: “Os perspicazes raiarão como o resplendor da expansão; e os que levam muitos à justiça, como as estrelas por tempo indefinido, para todo o sempre.” (Daniel 12:3) Aqui se prediz, pois, o nosso trabalho para hoje. Os espiritualmente inteligentes precisam brilhar com a luz celestial. As testemunhas de Jeová têm raiado como o sol com as boas novas do recém-nascido reino de Deus, sol que não deixa nada ocultar-se do seu calor em volta do globo. Na escuridão de meia-noite deste mundo, temos de brilhar como estrelas de luz, para ajudar a muitos mais das “outras ovelhas” a se voltarem para a justiça, que é a adoração e o ministério do grande Deus, Jeová. Sendo que vivemos neste “tempo do fim”, desde que Miguel, o Grande Príncipe se pôs de pé, vivemos num tempo mais favorecido do que o de Daniel. Abriu-se o livro de Daniel. Benditos os que agem em harmonia com as palavras de Daniel para os nossos dias! (pág. 692).

O livro O Reino de Deus — Nosso Iminente Governo Mundial, publicado em 1977, disse:

… podemos reconhecer que vivemos num tempo favorecido. Desde o fim dos tempos dos gentios, em 1914, vivemos no “tempo do fim”. E tempo para crescente esclarecimento espiritual, para muitas das profecias não explicadas da Bíblia Sagrada, inclusive a profecia de Daniel, serem abertas para a nossa mente e o nosso coração. Nosso é o tempo indicado pelo anjo, quando disse a Daniel: “E quanto a ti, ó Daniel, guarda em segredo as palavras e sela o livro até o tempo do fim. Muitos o percorrerão, e o verdadeiro conhecimento se tornará abundante.” — Daniel 12:4. (Pág. 125)

Daniel ‘não podia entender’ o que ouvia, nos seus dias. Mas nós, atualmente, neste “tempo do fim”, desde 1914, podemos entender. (Pág. 132)

Será que a organização Torre de Vigia entende realmente o que o livro de Daniel diz sobre o nosso período de tempo, que a organização diz ser o tempo do fim? Numa série de artigos sobre as profecias de Daniel capítulos 11 e 12, a revista A Sentinela de 1º de julho de 1987 disse na página 11:

Há muitos anos, Jeová revelou o desenrolar histórico de acontecimentos que levariam a ele trazer paz à terra. Por meio dum anjo, ele falou ao seu fiel profeta Daniel sobre a “parte final dos dias”, o nosso tempo. (Daniel 10:14) Ele predisse a atual rivalidade das superpotências e mostrou que ela acabará em breve dum modo que nenhuma dessas duas potências suspeita…

Em seguida, os artigos falavam sobre alguns dos cumprimentos de Daniel 11, encaminhando o leitor interessado ao livro ‘Seja Feita a Tua Vontade na Terra’. Especificamente, os artigos discutiam as atividades do “rei do norte” e do “rei do sul”. Em 1987, supunha-se que estes eram, respectivamente, o “bloco na maior parte socialista de nações” e o “bloco na maior parte capitalista” (pág. 13).

A descrição aplicada ao bloco socialista soava bem marcante em 1987 (págs. 13, 14):

A disposição de ânimo do mais recente rei do norte é bem descrita nos versículos 37, 38: “E não dará consideração ao Deus de seus pais… Mas dará glória ao deus dos baluartes, na sua posição; e dará glória a um deus que seus pais não conheceram, por meio de ouro, e por meio de prata, e por meio de pedras preciosas, e por meio de coisas desejáveis.” Pode-se deixar de reconhecer esta descrição? O atual rei do norte promove oficialmente o ateísmo, rejeitando os deuses religiosos dos anteriores reis do norte. Prefere confiar em armamentos, o “deus dos baluartes”…

Então, o que acontece por fim entre esses dois reis? O anjo diz: “E, no tempo do fim [no fim da história dos dois reis], o rei do sul se empenhará com ele em dar empurrões, e o rei do norte arremeterá contra ele com carros, e com cavaleiros, e com muitos navios.” (Daniel 11:40; Mateus 24:3) É evidente que as conferências de cúpula não são a solução para a rivalidade entre as superpotências. As tensões causadas pelos “empurrões” do rei do sul e o expansionismo do rei do norte podem atravessar fases mais agudas ou menos agudas; mas, por fim, de algum modo, o rei do norte será provocado a tomar a ação extremamente violenta descrita por Daniel.

Este mesmo artigo encaminha o leitor à “luz” exposta no livro ‘Seja Feita a Tua Vontade na Terra’, capítulo 11. Eis aqui alguns exemplos do que a organização Torre de Vigia predizia nesse livro. Como essas coisas se encaixam no fato de que as Testemunhas de Jeová, junto com a maioria das outras religiões, estão agora se expandindo na ex-União Soviética e seus aliados, devido à legalização da religião?

Predisse-se que esta perseguição [pelo rei do norte contra os cristãos verdadeiros] continuaria até que o rei do norte viesse ao seu “tempo do fim” no Armagedom. Quando o Diabo, no seu papel de Gog de Magog, fizer o seu ataque final e total, ele terá certamente o rei comunista do norte entre suas forças de assalto. (pág. 265).

… tanto o rei do sul como o rei do norte estarão no Armagedom… Até o “tempo do fim” no Armagedom haverá coexistência rivalizadora entre os “dois reis”. Na luta confusa entre os “dois reis” como inimigos estonteados de Jeová Deus e do seu reino, os “reis” terão a oportunidade e a ocasião de experimentar e usar um contra o outro as suas terríveis e mortíferas armas de todas as espécies. (Págs. 275, 276).

Mas agora, no tempo designado por Deus para a batalha do Armagedom, o rei do norte está decidido a destruir a “terra gloriosa” [condição terrestre da “classe ungida”] para eliminá-la da terra… Esta se torna então a ocasião para Jeová iniciar a guerra do seu grande dia. Consequentemente, Daniel 11:41 avisa de antemão a classe do santuário contra o assalto final do rei do norte sob a chefia invisível de Gog de Magog. (Págs. 276, 277).

O anjo de Jeová predisse ainda outras agressões do rei comunista do norte, antes do seu fim no Armagedom: “Extenderá a sua mão também contra os paizes; e a terra do Egypto não escapará. Apoderar-se-á dos thesouros de ouro e de prata, e de todas as cousas preciosas do Egypto; os Lybios e os Ethiopes o seguirão.”… Só o futuro dirá até onde o rei do norte conseguiu avançar quando ele chegar ao seu “tempo do fim”. Mas, está predito que ele obterá o controle sobre os tesouros de ouro, de prata e de todas as coisas preciosas deste mundo, comercializado e materialista, inclusive sobre o petróleo. (Págs. 278, 281).

Claramente, a dissolução da União Soviética e da maioria de seus aliados colocou essas previsões além da possibilidade de se cumprirem. Como a organização Torre de Vigia não pode afirmar que as profecias de Daniel poderiam estar erradas, então a predição fracassada deve estar na interpretação que a própria organização deu. Mas, segundo Dan. 12:3, 4, 10, os perspicazes entenderiam as profecias que Daniel tinha sido instruído a selar, e as fariam amplamente conhecidas. O livro de Daniel em si mesmo indica que os “perspicazes” não poderiam estar errados ao fazerem “amplamente conhecidas” as interpretações das profecias de Daniel. Uma vez que as interpretações da Torre de Vigia do livro de Daniel estão evidentemente erradas, esta organização não se qualifica entre os “perspicazes”. Mas, como eles alegam ter esta designação, devem ser, portanto, falsos mestres, e por seu próprio padrão de julgamento, falsos profetas.

Conforme a revista A Torre de Vigia de 15 de maio de 1930 disse nas páginas 154-155:

… um profeta verdadeiro é aquele que está proclamando fielmente o que está escrito na Bíblia… Mas, pode-se perguntar: Como vamos saber se a pessoa é um verdadeiro ou um falso profeta? Há pelo menos três maneiras pelas quais podemos decidir terminantemente: (1) Se ele for um profeta verdadeiro, sua mensagem irá se cumprir exatamente como foi profetizada. Se ele for um falso profeta, sua profecia vai deixar de ocorrer… A diferença entre um profeta verdadeiro e um falso é que um deles está declarando a palavra do Senhor e o outro está declarando seus próprios sonhos e palpites… O profeta verdadeiro de Deus hoje vai antecipar o que a Bíblia ensina, e as coisas que a Bíblia nos diz que em breve ocorrerão. Ele não proclamará teorias feitas pelo homem ou suposições, sejam as suas ou as de outros …. No Novo Testamento, e em nossos dias, a palavra “profeta” tem um sentido semelhante ao da nossa palavra “instrutor”, significando um expositor público. Assim, quando a expressão “falso profeta” é utilizada, teremos o pensamento correto, se tivermos em mente um falso instrutor.

Quem é realmente que faz com que a organização Torre de Vigia publique o que ela publica? Por exemplo, não são homens falíveis os que editam a revista A Sentinela? Não, de acordo com a liderança da Torre de Vigia. Com relação às declarações publicadas na edição de 1º de novembro de 1914 da revista A Torre de Vigia acerca dos acontecimentos que haviam sido preditos para 1914, o livro Luz I, lançado em 1930, disse na página 195:

O Senhor previu e predisse o que estava acontecendo, e … ele sem dúvida fez com que seus anjos dirigissem a preparação exatamente do que foi publicado.

Segundo Frederick W. Franz (vice-presidente da Sociedade Torre de Vigia de 1945-1977 e presidente de 1977 até sua morte, em 1992), sob juramento no caso Olin Moyle (Supremo Tribunal de Nova Iorque, Kings County Clerk’s Index Nº. 15845, 1940, pág. 795), Jeová é o editor de A Sentinela. Franz deu o seu depoimento maio de 1943, o qual é reproduzido aqui:

P. Quem se tornou depois o editor da revista, o editor principal da revista “A Torre de Vigia”?

R. Em 15 de outubro de 1931, pelo que me lembro, “A Torre de Vigia” descontinuou a publicação dos nomes de qualquer comissão editorial na segunda página.

O Tribunal. Ele lhe perguntou quem se tornou o editor.

A Testemunha. E foi dito –

O Tribunal. Quem se tornou o editor?

P. Quem se tornou o editor quando isto foi descontinuado?

R. Jeová Deus.

P. A revista “A Torre de Vigia” é dogmática?

R. A revista não é dogmática. Dogma significa literalmente opinião e “A Torre de Vigia” não estabelece a opinião de homem. “A Torre de Vigia” em vez de ser dogmática é confiante porque baseia suas conclusões na palavra de Deus e, portanto, está segura quanto ao terreno onde pisa. Ela não expressa arrogantemente qualquer opinião categórica de maneira infundada.

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