
Uso do sangue autólogo liberado para as Testemunhas de Jeová – um comentário
Por muitas décadas, a liderança das Testemunhas de Jeová proibiu terminantemente o uso do sangue autólogo em procedimentos médicos. Como um exemplo da expressão dessa posição da Igreja, a revista A Sentinela de 1° de março de 1989, trazia a seguinte pergunta na página 30:
Permitem as Testemunhas de Jeová o uso de sangue autólogo (auto-transfusão), como, por exemplo, por ter seu próprio sangue estocado e mais tarde recolocado nelas?
Após dizer que “Deus proveu diretrizes que possibilitam seus servos decidir se certos procedimentos médicos que envolvem sangue podem desagradá-Lo”, o artigo citava uma série de trechos bíblicos (Gênesis 9:3, 4, Atos 15:28, 29 e outros), e depois dizia:
Isso claramente torna proibido certo uso comum de sangue autólogo — a coleta pré-operatória, o armazenamento e posterior infusão do sangue do próprio paciente. Neste procedimento faz-se o seguinte: Antes da cirurgia eletiva umas unidades do sangue completo da pessoa são armazenadas ou então os glóbulos vermelhos são separados, congelados e estocados. Daí, se parecer que o paciente necessita de sangue durante ou depois da cirurgia, o seu próprio sangue estocado pode ser-lhe devolvido. Preocupações atuais a respeito de doenças transmissíveis pelo sangue tornaram comum esse uso de sangue autólogo. As Testemunhas de Jeová, porém, NÃO aceitam esse procedimento. Há muito entendemos que tal sangue estocado certamente não mais é parte da pessoa. Foi totalmente removido dela, assim, esse sangue deve ser descartado em harmonia com a Lei de Deus: “Deves derramá-lo na terra como água.” — Deuteronômio 12:24. (grifos e sublinhados acrescentados).
Outra publicação da organização apresentava graficamente esta mesma proibição:

– Posição religiosa e ética sobre tratamentos médicos e assuntos relacionados (Watch Tower Bible and Tract Society of Pennsylvania e Associação Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, 2012, pág. 3. Os destaques em vermelho foram acrescentados).
Alterando essa política, um pronunciamento oficial do dia 20 de março de 2026 descartou todas essas ideias. O Corpo Governante retirou-se da arbitragem sobre isso e já não apresenta mais a autotransfusão como “inaceitável” ou ‘contrária às diretrizes divinas’, declarando agora que “cada cristão deve decidir por si mesmo”. Em palavras simples: a partir de 20 de março de 2026 a transfusão de sangue autólogo foi liberada para as Testemunhas de Jeová.
Embora essa liberação seja muito bem-vinda, o benefício dela é limitado; será de ajuda apenas naqueles casos em que haja tempo suficiente para fazer a coleta prévia e preparar um estoque de sangue para ser usado em um procedimento médico. Já numa emergência que envolva maciça perda sanguínea, impossibilitando qualquer armazenagem (por exemplo, um acidente automobilístico grave) essa medida não terá qualquer efeito. Isso sem se mencionar o indeterminado número de Testemunhas de Jeová pelo mundo afora que não tiveram essa opção de usar o seu próprio sangue e morreram, ao longo das décadas em que vigorou essa proibição, por acreditarem no ensino da organização de que o uso do sangue autólogo ‘ofenderia a Lei de Deus’.

Quais as justificativas apresentadas pelo Corpo Governante para a liberação? Os argumentos expressos pelo porta-voz foram estes:
1 – “Os cristãos não estão debaixo da lei de que o sangue deve ser derramado e coberto com pó.”
2 – “A Bíblia não fala nada sobre o uso do sangue da própria pessoa por razões médicas ou durante uma cirurgia.”
Embora o Corpo Governante das Testemunhas de Jeová jamais irá admitir, estas duas declarações significam, na prática, que a proibição absoluta do uso do sangue autólogo era, afinal de contas, “ir além do que está escrito” na Bíblia (1 Coríntios 4:6). Inclusive, é curioso que só agora, após tantas décadas de proibição e “depois de muitas orações e de analisar as Escrituras”, eles “descobriram” que “os cristãos não estão debaixo da Lei Mosaica”, de maneira que não precisam seguir essa regra de ‘derramar o sangue e cobri-lo com pó’. Mas o problema dos pontos acima vai além disso. Embora o pronunciamento tenha focalizado apenas o “uso do sangue da própria pessoa”, o fato é que o silêncio da Bíblia – quer os homens do Corpo Governante tenham ou não parado para pensar – não se limita a isso.
Para começar, a Bíblia nem fala de sangue humano nas referências citadas no vídeo. Quando o Deuteronômio 12:24 fala em ‘derramar o sangue na terra como água’, está falando do sangue dum animal que foi morto. Todos os demais trechos, Gênesis 9:3, 4, Atos 15:28, 29 e os outros que o Corpo Governante cita regularmente até hoje para justificar suas proibições estão falando do sangue de animais, não sobre o sangue de humanos. Assim, se é verdade que “a Bíblia não fala nada sobre o uso do sangue da própria pessoa por razões médicas ou durante uma cirurgia” é igualmente verdadeiro que a Bíblia nada diz sobre o uso do sangue de outras pessoas por razões médicas ou cirúrgicas. Em momento algum a Bíblia trata de uso clínico do sangue humano – qualquer que seja a procedência dele. Todos os textos falam, não de transfundir sangue humano e sim de comer sangue de animais que foram mortos em sacrifício ou para servir de alimento. É isso que é proibido.
Se reconhecidamente, não há como encontrar nas Escrituras (dentro ou fora da Lei Mosaica), qualquer referência ao armazenamento do sangue humano (seja o alogênico [da própria pessoa] ou o autólogo [de outros doadores]) para um procedimento médico e se o Corpo Governante realmente acredita que esse argumento (‘se a Bíblia não fala nada, então pode’) é válido, então quer dizer que em qualquer momento no futuro eles poderão usar este mesmo argumento para eliminar todas as demais proibições relacionadas com o sangue que ainda são mantidas.
Por exemplo, a Bíblia também não diz uma palavra sobre “glóbulos vermelhos”, “glóbulos brancos”, “plaquetas” e “plasma” (os quatro componentes do sangue que aparecem no gráfico acima e que continuam na lista dos “inaceitáveis” para as Testemunhas de Jeová). Muito menos fala de uso de algum desses componentes “por razões médicas ou durante uma cirurgia”. Sendo assim, a proibição da transfusão deles pode ser levantada sem qualquer problema com base nisso. No caso de haver necessidade de um procedimento médico, qualquer Testemunha de Jeová está justificada desde já a autorizar o uso desses quatro componentes, provenientes do sangue armazenado de outros, sem precisar esperar qualquer “liberação” por parte de seu Corpo Governante!