Uma Promessa Atraente, Não Cumprida

 

Como quando um homem faminto sonha que está comendo, mas acorda e sua fome continua; como quando um homem sedento sonha que está bebendo, mas acorda enfraquecido, sem ter saciado a sede. ― Isaías 29:8, Nova Versão Internacional.

O assunto anterior causa certa tristeza — tristeza pela imagem de algo que prometia tanto, mas que ficou bem aquém dessa promessa. O que aconteceu entre as Testemunhas de Jeová me recorda o pensamento expresso há algumas décadas por um membro do parlamento britânico.[1] Explicando por que sua conclusão era que “a única classificação que realmente importa é a que divide os homens entre Servos do Espírito e Prisioneiros da Organização”, ele demonstrou o modo como o espírito humano concebe uma idéia e depois, visando a concretizar a idéia, forma uma organização. Quanto ao que muitas vezes acontece, ele comentou:

 

O fato de a organização ser política, religiosa ou social é irrelevante à minha presente argumentação. A questão é que, tendo a idéia se materializado na organização, a organização passa gradualmente a destruir a idéia que lhe deu origem...

[Se for organização religiosa, sua] mensagem se cristalizará num credo. Sem demora, a principal preocupação da igreja será sustentar-se como organização. Para este propósito, todo desvio do credo tem de ser contestado e, se necessário, suprimido como heresia. Em poucas dezenas ou centenas de anos, aquilo que se concebeu como veículo da verdade mais nova e elevada torna-se uma prisão para as almas dos homens.

...quando a idéia dá a luz à organização, esta desenvolve um interesse próprio sem relação com a idéia que lhe deu início, e torna-se hostil a ela. Ora, o que permite que ocorra este processo de afastamento, de modo que a organização passe a defender o oposto da idéia que originalmente a inspirou, é a tendência de homens e mulheres de se tornarem Prisioneiros da Organização, em vez de serem Servos do Espírito... a organização torna-se menos o veículo da idéia do que o canal através do qual os interesses particulares têm de ser satisfeitos.[2]

O conhecimento humano é algo dinâmico, que se expande tanto pessoal como coletivamente. Quando as crenças se cristalizam na forma de credos ou ensinos oficiais aos quais se exige que as pessoas acatem a fim de perpetuar uma organização, o conflito é inevitável. Cria-se uma linha divisória entre o que o parlamentar citado chama de “Servos do Espírito” e “Prisioneiros da Organização”.

A organização agora conhecida como Testemunhas de Jeová, desde seu início há pouco mais de um século, fez promessas muito atraentes. Procurou romper com a adoração a Deus ligada a credos, para retornar à simplicidade do cristianismo do primeiro século, livre de ritualismo formal, elitismo, pensamento dominado por clérigos, dogmatismo sectário e intolerância. Em vez disso, daria ênfase à fraternidade simples, à atitude imparcial para com todas as pessoas sinceras sem interessar sua afiliação denominacional, à discussão aberta e à determinação de deixar a mensagem de Deus nas Escrituras ser o árbitro final em todas as conclusões e decisões. No decorrer do tempo, ela declarou que seu alvo era prover os meios para que pessoas de todos os países recebessem instrução das Escrituras e se beneficiassem do alicerce da fé baseada unicamente na mensagem bíblica, e não nas tradições de homens. Indicava às pessoas um modo de vida que seria sempre dirigido e abençoado por Deus, pondo sempre o reino do seu Filho em primeiro lugar nas suas vidas, vidas vividas em integridade, amor ao próximo, devoção irrestrita a valores espirituais sãos.

Esses eram os ideais. A realidade é diferente. E, como Jesus admoestou, “não julguemos pela aparência das coisas mas pela realidade”.[3]

Não é que tenham descartado totalmente os alvos ou não tenham feito progresso algum em direção a estes. Adotar o conceito de que não se pode encontrar nada de bom na religião das Testemunhas de Jeová e empenhar-se, como fazem algumas ex-Testemunhas, numa atitude de zombaria, só manifesta forte preconceito. Quando pessoas que saem, agem assim, levantam-se questões quanto à pureza da sua motivação para sair. Se absolutamente nada de bom havia ali, por que então foram de início atraídos para lá, ou por que lá permaneceram durante cinco, dez, vinte anos ou mais? Da mesma forma que os de outras denominações religiosas ― será que não percebem que em muitos casos as pessoas que entram na organização das Testemunhas fizeram isso exatamente devido à desilusão com as igrejas a que pertenciam? Muitas vezes, a organização das Testemunhas consegue em grande parte atrair o interesse das pessoas por causa dos defeitos vistos em muitas igrejas, sendo o fracasso delas em certas áreas um fator tão importante quanto os aparentes benefícios oferecidos pela organização das Testemunhas.

As pessoas muitas vezes se desiludem com a hipocrisia que vêem em muitos líderes e membros das igrejas; ficam confusas com a multiplicidade de divisões denominacionais e o espírito sectário que contribui para tais divisões. Preocupam-se com o nacionalismo expresso, o registro de guerras da cristandade, o histórico de opressão das minorias, e com o fato da ação política ter muitas vezes sido necessária para promover a igualdade racial dentro de comunidades “cristãs”.

Uma ex-Testemunha residente no norte da Virgínia [EUA], que entrou para uma pequena igreja após se desligar da organização Torre de Vigia, contou que “sempre fora ativa quando Testemunha” e continuou a sê-lo nesta pequena congregação. Em resultado disso começaram a dar-lhe responsabilidades adicionais, e isto continuou por cerca de dois anos. Ela disse, porém, que quanto mais a faziam ‘crescer’ mais se apercebia da “política da igreja”, e finalmente a deixou.

Desilusão similar pode resultar, e muitas vezes resulta mesmo, dos contatos com movimentos criados por pessoas que por sua vez saíram da organização Torre de Vigia. A mesma pessoa já citada escreveu sobre o telefonema de uma jovem de sua região que fora desassociada por ‘associar-se com pessoa desassociada’. Esta jovem disse que tinha sido afetada de modo tão negativo por um volumoso pacote legal que lhe enviara o advogado da Torre de Vigia, Leslie Long, para mostrar que qualquer ação legal contra a Sociedade seria inútil, que decidiu contatar algumas ex-Testemunhas. Primeiro contatou um homem cujo nome descobrira através dos meios noticiosos. Contou que falou com ele por telefone por quase duas horas. Em resultado do insistente dogmatismo dele contra certa doutrina “ortodoxa” e do interesse em receber dinheiro antes de enviar qualquer informação, ela comentou que achava que ‘se ele tivesse sido a única ex-Testemunha com quem ela entrou em contato, teria voltado para a organização Torre de Vigia’.

Outra senhora, residente na Califórnia, escreveu:

 

Seu livro foi uma mudança revigorante em relação aos livros que atacam e condenam as Testemunhas de Jeová, escritos por Testemunhas ressentidas. Posso entender por que alguns estão ressentidos; eu mesma combato isso, depois de passar 20 anos na organização...

...Preciso desesperadamente falar com alguém em busca de apoio emocional, mas é tão difícil encontrar conselho equilibrado, não condenatório, de grupos que parecem ter objetivos tão tendenciosos quanto as próprias Testemunhas... Eu já tinha tido a mente fechada por tempo demais.

Uma ex-Testemunha, residente em Indiana tinha obtido ― devido à posição repressiva da organização ― uma caixa postal com nome fictício, de forma a poder corresponder-se de modo seguro com ex-Testemunhas. Ela escreveu:

 

São tantas as ex-TJs que vi na televisão e cuja literatura li que mostram uma atitude que me desagrada, talvez por presunção ou desejo de vingança... Acho que elas são culpadas das mesmas coisas de que acusam a Torre de Vigia: meias-verdades, tirar coisas do contexto, etc.

Estou sinceramente grato de que, como tem sido o caso de muitos, ela me escreveu esta carta principalmente porque sentiu que Crise de Consciência expressava um espírito diferente.

O auto-exame, portanto, deve sempre preceder a avaliação crítica da posição ou alegações de outra pessoa; de outro modo podemos estar focalizando o grão de poeira no olho de nosso irmão e não reparar na trave que existe no nosso.[4]

Alguns, de fato, focalizam e exageram falhas e erros existentes na organização das Testemunhas, erros que são essencialmente superficiais. Vêem problemas superficiais, mas não notam problemas subjacentes mais significativos. Condenam apenas as áreas em que acham que suas próprias posições e afirmações (geralmente opostas) parecem superiores, em benefício dos sistemas religiosos que defendem. Deixam de ver onde os pontos vitais envolvidos podem exigir ajustes nas suas próprias atitudes, posições e alegações. Isto parece mais farisaísmo que cristianismo.[5] Do mesmo modo, quando as Testemunhas defendem sua organização, geralmente dão grande ênfase ao que tem que ver com a aparência mais que à substância, às alegações em vez da realidade, talvez às intenções em vez do próprio resultado.

Existe, inquestionavelmente, um enorme potencial para o bem na associação com milhões de membros que vivem em cerca de duzentos países. E é isso que acho particularmente trágico ― o modo como o esforço de pessoas sinceras para atingir objetivos nobres, esforço medido não apenas em horas, dias e anos, mas muitas vezes em vidas inteiras, é desviado para um canal que o faz ficar penosamente aquém desses objetivos. O próprio instrumento que supostamente as ajuda a atingir esses objetivos mostra ser o maior obstáculo para que consigam isso. Este desvia os “Servos do Espírito” para se tornarem “Prisioneiros da Organização”. A organização tornou-se “menos o veículo da idéia do que o canal através do qual os interesses particulares têm de ser satisfeitos”.

O paraíso espiritual

Digo a todos entre vós: não sejais presunçosos nem tenhais uma opinião muito elevada de vós mesmos; mas fazei uma estimativa sóbria do vosso caminho baseados na medida de fé que Deus deu a cada um de vós. ― Romanos 12:3, New English Bible.

Numa assembléia internacional das Testemunhas de Jeová em Nova York, em 1958, foi dito à assistência:

 

O florescimento do paraíso espiritual é o que explica a felicidade transbordante das testemunhas de Jeová... Este paraíso espiritual reflete a glória de Deus e atesta o estabelecimento do seu reino.[6]

Daí em diante, garante-se repetidamente às Testemunhas que elas formam este “paraíso espiritual” e que são o povo mais feliz, mais unido e mais limpo da face da terra. Diz-se que as profecias das Escrituras Hebraicas sobre o ‘deserto florescer como a rosa’ e a terra ‘se tornar como o Éden’, têm cumprimento espiritual hodierno na organização das Testemunhas.[7] Descrevem com palavras empolgantes o esplendor das condições neste “paraíso espiritual”, e retrata-se a organização como algo de harmonia quase perfeita, onde ‘pessoas que antes eram como lobos residem pacificamente com pessoas semelhantes a ovelhas’, “humanos deixando de lado as anteriores características agressivas e se revestindo, em vez disso, duma personalidade marcada pela pacificidade e pelo amor”, sem “competições, nem rivalidades, exaltação ambiciosa de si próprio acima dos outros... difamações malignas, nem rancor”, onde todos se alimentam num contínuo banquete de rico alimento espiritual num “lugar espiritualmente salutar, em que se produzem em abundância os frutos do espírito santo de Deus”.[8]

Muitas delas crêem nisto, em particular as que, como era o meu caso, não conheceram nada além de ser parte da “Sociedade do Novo Mundo”. Passam a ver tudo o que está fora dessa sociedade, inclusive todas as outras denominações religiosas, como altamente desprovidas de genuínos princípios morais e genuíno amor, ou pelo menos, notavelmente inferiores aos padrões e níveis de que sua própria organização afirma ser exemplo. A seguinte declaração da Sentinela de 15 de março de 1986, página 20, mostra até que ponto vão neste assunto:

 

Somente no paraíso espiritual, entre as Testemunhas de Jeová, podemos encontrar o amor abnegado que Jesus disse identificaria os seus verdadeiros discípulos. (João 13:34, 35)

Os falsos profetas, pelos seus maus frutos, são expostos como tais. Mas Jesus indicou que as árvores boas seriam identificadas pelos seus frutos excelentes. (Mateus 7:15-20) E que frutos excelentes nós temos no paraíso espiritual! Quase que em cada país há espantosos aumentos....

As Testemunhas de Jeová, por serem ensinadas por Deus, realmente produzem na sua vida os frutos do cristianismo. (Isaías 54:13) Só os do povo de Jeová se libertaram completamente das superstições babilônicas. Só eles têm uma organização que acata plenamente o que a Palavra de Deus tem a dizer sobre a imoralidade sexual, os abortos, a embriaguez, o furto, a idolatria, o preconceito racial, e sobre outros empenhos e práticas do mundo. E somente eles obedecem à ordem de pregar as boas novas do Reino de Jeová. (Mateus 24:14) A própria Palavra de Deus inquestionavelmente aponta para as Testemunhas de Jeová como o único povo organizado que tem a bênção dele!

Embora digam que isto é ‘inquestionável’, no interesse da verdade devemos perguntar: Quão factual é realmente a auto-avaliação da organização expressa acima? O que dizem não é que são um pouco melhores ou bastante melhores ou um aprimoramento de outras religiões. O que dizem é que são notavelmente melhores, têm real exclusividade nestas áreas. São “inquestionavelmente” o único oásis espiritual num deserto mundial. Em vista da exortação encontrada nas palavras do apóstolo Paulo em Romanos 12:3, já citadas, contra ter de si próprio uma opinião mais elevada que o devido, quão sóbria é a auto-imagem publicada pela organização?

O fruto da fé

O apóstolo enfatiza três frutos do espírito de Deus como da maior importância para o cristão: fé, esperança e amor.[9] A fé é a própria base do cristianismo. Sobre ela, constrói-se todo o resto. As próprias Escrituras nos ensinam a depositar nossa fé em Deus e no seu Filho. Não vemos nas Escrituras instruções ou incentivo para depositar nossa fé em homens ou num sistema humano. O apóstolo declara:

 

Quanto ao fundamento, ninguém pode colocar outro diverso do que foi posto: Jesus Cristo.... ninguém procure nos homens motivo de orgulho, pois tudo pertence a vós. Paulo, Apolo, Cefas, o mundo, a vida, a morte, as coisas presentes e as futuras. Tudo é vosso; mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus.[10]

Em contraste, as publicações da Torre de Vigia desviam a fé do seu verdadeiro objeto, de certa forma fragmentando-a, de modo que esta fé não se dirige total e indivisivelmente a Deus e seu Filho, não se alicerça neles. Encorajam as pessoas a “Depositar fé numa organização vitoriosa”, como diz a capa da Sentinela de 1º de setembro de 1979:

 

Pode-se encher todo um livro com exemplos de declarações bíblicas inteiras que falam de Deus e Cristo que são transferidas para a “organização visível”. Capítulos anteriores deste livro documentaram o modo como a lealdade a Deus é igualada à lealdade à organização visível, a submissão à direção de Deus é igualada à submissão à direção da organização visível, e a confiança na Palavra de Deus é igualada à confiança na palavra da organização visível. Conforme também documentado, apropriam-se de declarações bíblicas referentes a Cristo e as aplicam à organização. Esta tem a presunção de partilhar com Cristo seu papel de ser “o caminho, a verdade e a vida”.[11] De todos os erros evidentes da religião, o mais grave, creio eu, é este desvio da fé para um sistema humano. A organização Torre de Vigia não é o único sistema religioso a fazê-lo. Mas certamente apresenta um exemplo destacado de apropriação ― apropriação que merece ser chamada de arrogante ― de algo que de direito pertence só a Deus e Cristo.

Quando as pessoas se deixam levar nesta direção, os prejuízos à pureza de sua fé são inevitáveis. A fé genuína é adulterada pela credulidade. Quanto maior o desvio da fé em Deus para a fé no homem, mais danosos os resultados. A confiança posta num sistema humano e na sua aparente força pode eventualmente chegar ao ponto descrito em Jeremias 17:5-9, onde Jeová diz:

 

Maldito é o homem que confia em seres humanos, que procura sua força na carne, cujo coração se desvia de [Jeová]. Ele é como um arbusto árido no deserto que não usufrui mudança de estação, mas fica num resíduo de lava, terra salgada e vazia. Bendito é o homem que confia em [Jeová], cuja esperança está em [Jeová]. Ele é como uma árvore plantada junto às águas, que estende suas raízes para a corrente: não teme o calor quando este vem, suas folhas permanecem verdes; no ano de seca não mostra angústia, mas ainda dá fruto.[12]

Quanto mais a fé da pessoa se fixa num sistema humano, seja qual for, menos espiritual se torna. Há homens que são muito “religiosos” e todavia não são essencialmente espirituais. São “homens de organização”, não homens de fé. Suas vidas podem estar cheias de atividades que lhe trazem aprovação e apoio da organização, e o poder que esse apoio provê. Se perderem o apoio da organização, sua aparente força desaparece com ele.[13] Apesar de seu zelo por uma organização religiosa e seu crescimento e prosperidade, suas vidas podem mesmo assim ser “estéreis” nas coisas que trazem a aprovação de Deus e a Sua força ― estéreis quanto aos frutos do Seu Espírito em ações espontâneas, intimamente motivadas e impelidas pela fé, que são amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão e autodomínio.[14]

No mesmo ano em que saí da República Dominicana para integrar o pessoal da sede internacional, o presidente Knorr me designou como um dos quatro instrutores que dariam aulas especiais de um curso do “Ministério do Reino” a serem assistidas por superintendentes viajantes (de circuito e distrito) dos EUA.[15] As aulas tinham duração de duas semanas e os homens vinham em grupos sucessivos de cem. Fiquei surpreso de ver quão bem se pode conhecer cem homens em duas semanas de debates. E fiquei igualmente surpreso de perceber que de cada grupo, nunca encontrei mais que dois ou três homens que dessem evidência de entendimento profundo autêntico, perspicácia, ou mais seriamente, espiritualidade. Os outros 97 ou 98 eram basicamente “homens de empresa”, cujos “discursos de serviço” mostravam alguma habilidade oratória mas que tinham, em conteúdo, pouco nutriente espiritual, sendo geralmente pouco mais que discursos entusiastas, homens geralmente eficazes em “colocar” literatura às portas, e que em conhecimento estavam acima da média apenas por serem muito atualizados sobre as normas e regulamentos da Sociedade. Naquela época, eu próprio ainda era um crente firme, convencido de que fazia parte do único povo aprovado por Deus na terra. Todavia, lembro-me de dizer a mim mesmo: “Será realmente isto o melhor que podemos dar para ajudar nossos irmãos?”

O espírito mostrado ― em discursos, atitudes e ações ― pelos que depositam fé num sistema humano não é o celestial espírito de Deus; reflete uma fonte diferente, humana.[16] Eles podem ser rápidos em punir qualquer desvio das normas ou dogmas da organização. Mas, se notarem erros sérios cometidos por sua própria organização religiosa, ou se reconhecerem falácias cruciais nos seus ensinos, não têm força íntima nem coragem para falar e defender o que é certo, nem para tomar o lado da verdade contra a injustiça. Em vez de produzir pessoas de integridade, sua confiança implícita e subserviência quase total a um sistema organizacional ― e o medo de perder sua aprovação ― converte-os em homens sem fibra. Se todos os do povo de Jeová dos tempos pré-cristãos tivessem sido assim, não teriam existido profetas de cujas vidas e palavras pudéssemos derivar força e confiança ao enfrentar provas de nossa fé em Deus, em vez de em fontes humanas.[17] Nem teriam existido apóstolos cristãos que — acusados de perturbar a paz da comunidade religiosa e minar a autoridade dos seus líderes ― permaneceram firmes perante o corpo governante religioso do seu povo e disseram: “Não podemos parar de falar das coisas que vimos e ouvimos... temos de obedecer a Deus como governante antes que aos homens.”[18] Em tempos posteriores, não teriam existido relatos históricos de homens como Wycliffe, Tyndale, Servet, Huss, Valdo e outros, que puseram a consciência acima da submissão a uma autoridade religiosa e que prepararam o caminho, em maior ou menor grau, para certas liberdades que hoje usufruímos.

Não dizemos isto com espírito condenatório ou desprezo. A experiência pessoal me fez ver o efeito incapacitante causado pela fé numa organização, o efeito debilitante da subserviência à autoridade humana, a facilidade com que a preocupação de não perder o favor dessa autoridade pode sutilmente se infiltrar na mente. Não achei fácil libertar-me desses efeitos. Estou convicto de que a coragem natural não provê a força que se precisa. Pessoas enfrentaram grande perigo às mãos de opositores externos para serem leais à sua organização religiosa, e até arriscaram a vida em território inimigo em favor de concrentes da religião.[19] Mas essa coragem por si só não garante proteção contra a covardia moral dentro dessa organização religiosa. Afinal, que sentido ou mérito há se um homem toma posição intransigente numa certa questão, talvez até passe algum tempo num campo de concentração por causa disso, e depois transige quando confrontado com uma questão paralela dentro de sua religião? Que importância genuína tem uma pessoa recusar envolver-se em conduta que encara como virtual idolatria a um Estado político, tendo fé nele e prestando-lhe lealdade quase cega, recusar fazer declarações que considera reconhecerem que a salvação está indissoluvelmente ligada a esse Estado, se ela depois participa em conduta que reflete virtual idolatria a um sistema religioso, tendo fé nele, e prestando-lhe lealdade quase cega a ponto de crer que sua salvação está inquestionavelmente ligada a esse sistema? Nem todas as Testemunhas chegam a esse ponto, mas um número incrivelmente grande o faz, e a mensagem que recebem persistente e insistentemente os leva nessa direção.

Nenhum de nós tem razão para se vangloriar na sua própria força ou na força de um sistema humano.[20] Era a fé em Deus, não a fé na organização nacional de Israel ou numa liderança humana, que distinguia os homens exemplares dos tempos bíblicos, cuja “fraqueza transformou-se em força”.[21] Parece-me seguro dizer que a grande maioria dos adeptos da Torre de Vigia sabe como “seguir a multidão”, mas acharia difícil atuar espiritualmente à parte de um sistema humano. À parte dele, sentir-se-iam sem rumo, desorientados, sem real objetivo na vida e sem força para lutarem por ela. Se tivessem uma fé não adulterada, centrada totalmente em Deus em vez de amplamente centrada em homens, isso não aconteceria.

O fruto da esperança

A esperança cristã passa por adulteração e substituição similares. O foco está em direção oposta à declarada pelo apóstolo, que escreveu:

 

Se, porém, fostes levantados junto com o Cristo, prossegui buscando as coisas de cima, onde o Cristo está sentado à direita de Deus. Mantende as vossas mentes fixas nas coisas de cima, não nas coisas sobre a terra.[22]

No primeiro século, foi devido à preocupação com a realização dos desejos terrenos ― inclusive a libertação da opressão das autoridades mundanas e a restauração e o usufruto de muitas bênçãos físicas ― que muitos se desapontaram com o Filho de Deus, com relação ao cumprimento de suas esperanças messiânicas.[23] Deixaram de apreciar a libertação e as bênçãos muito mais maravilhosas que ele efetivamente realizou. Suas falsas esperanças os cegaram para a verdadeira esperança e os fez aquiescer na morte do Filho de Deus.

Como vimos no capítulo anterior, um dos grandes atrativos para as pessoas se associarem com a organização Torre de Vigia é exatamente sua ênfase à satisfação de desejos físicos, terrenos. Essas esperanças e expectativas são simultaneamente estimuladas pela garantia de que o ansiado cumprimento “a ser materializado em breve”, está “muito perto”, “às portas”, “bem à frente”, garantias que se apóiam em interpretações humanas e que se repetem vez após vez. Ao predizer a vinda de falsos messias, Cristo falou também de homens que viriam, dizendo, “O tempo está agora muito próximo”, e aconselhou: “Nunca sigam homens deste tipo.”[24]

A verdadeira esperança cristã não se baseia em mero desejo ou sonho impossível, mas na realidade. Essa esperança genuína fortalece a fé e contribui para a perseverança, pois tem base sólida e inabalável, uma “âncora para a alma”.[25] Por isto, não desaponta nem engana, é sempre fidedigna.[26] Em contraste, as esperanças incutidas pela Torre de Vigia, muitas vezes ligadas a certas datas, vez após vez levaram a desapontamentos e, para muitos, à desilusão. As expectativas despertadas mostraram não ter mais substância que uma miragem, mais estabilidade que o fogo-fátuo, mais consistência que a luz trêmula e ondulante gerada pelo gás do pântano. Jovens acreditaram confiantemente que jamais “envelheceriam neste sistema de coisas” e basearam todos os seus planos e passos nessa crença. Mas eles envelheceram e muitas vezes enfrentaram problemas difíceis, até deprimentes, problemas devidos a decisões tomadas nos primeiros anos, altamente controladas por uma esperança com bases falsas. A organização, todavia, comprometida como é com sua data de 1914, continua afirmando saber com absoluta certeza que “o tempo está agora bem próximo”, que as pessoas nesse período especificado de tempo podem crer confiantemente que é possível escapar à própria experiência da morte. Não há nada de edificante em tais esperanças ilusórias. Ao contrário, destroem a verdadeira esperança, enfraquecem a genuína fé.

Num memorando incomumente franco, enviado ao departamento de redação da sede mundial em 1978, um escritório de filial descreve o efeito das especulações cronológicas e a espécie de motivação que isto causa, dizendo:

 

Há então a questão da cronologia bíblica e das motivações. Muitos irmãos começaram a pregar positivamente que a nova ordem viria em 1975 ou pouco depois disso. Isto despertou o interesse de algumas pessoas que buscaram mais informações sobre a nova ordem e gostaram do que ouviram. Convenceram-se também das doutrinas básicas. Então se batizaram e participaram na adoração com a congregação. Muitos foram evidentemente motivados por sua visão da nova ordem e sua proximidade. Era em grande parte uma motivação materialista. Quando 1975 chegou e passou sem trazer a nova ordem, tais pessoas, por não terem forte motivação espiritual, acharam melhor voltar a correr junto com o mundo em busca de coisas materiais, na esperança de usufruir uma situação melhor no atual sistema de coisas.

Lamentavelmente, muitos que estavam por muito mais tempo na verdade foram afetados de modo similar. Desde 1975 [ou, num período de cerca de três anos], por volta de 30.000 pessoas ou se desviaram da verdade ou se tornaram irregulares no serviço aqui neste país.[27]

Como admitiu a própria Sentinela, o desapontamento causado “em alguns casos tem levado ao desastre espiritual.”[28] O memorando da filial citado, embora mostrando que em muitos o efeito foi aumentar o apoio às atividades congregacionais, relata que “muitos que iniciaram o serviço de pioneiro tendo em vista essa data, suspenderam seus estudos, limitaram empregos regulares, recusaram oportunidades de ganhar mais dinheiro ou negligenciaram sua saúde”, e que com a passagem daquele ano “se sentiram desapontados e desiludidos”. Vi pessoas seriamente prejudicadas pela falsa urgência que cercava as predições sobre 1975, com alguns sofrendo forte tensão emocional, famílias enfrentando problemas econômicos durante anos, homens que tinham largado bons empregos lutando com o alcoolismo devido à dificuldade de achar novos empregos, idosos que encaravam um futuro desolador por terem usado prematuramente fundos de seguro ou similares, pessoas cuja saúde física fora seriamente afetada por terem cancelado cirurgias ou outros tratamentos. Se o sacrifício tivesse sido pela verdade, por Deus, por um objetivo nobre, teria então valido a pena. Mas foi devido ao esforço mental originado de uma só pessoa, depois proclamado por uma organização e que acabou em nada, provando-se completa ficção. Podem tentar ignorá-la, mas a responsabilidade por tudo isto cai sobre aqueles que deram origem às esperanças falsas, que incitaram e estimularam expectativas ilusórias.

Tanto Cristo como o apóstolo Paulo aconselharam calma e contra deixar que eventos e predições terrenos se tornassem uma fonte de empolgação alarmante.[29] As publicações da Torre de Vigia fazem o oposto, utilizando qualquer acontecimento mundial do momento para alimentar presságios inquietantes, a sensação de que algo cataclísmico está para ocorrer. Comprometem-se abertamente a manter um constante senso de urgência em todos os membros. Isto serve para “matar dois coelhos de um só golpe”, como diz o ditado. Por um lado, seduz com a perspectiva de “sobreviver ao Armagedom para um novo mundo e nunca morrer”, e por outro, serve de estímulo para intensificar a atividade de cumprir a programação da organização e trabalhar para seus objetivos.

É uma urgência baseada no significado associado aos eventos mundiais, implicando naquilo que a própria organização atribui aos eventos. No século 20, como em todos os anteriores, vimos numerosos períodos alternados de incrível violência e relativa paz. A organização Torre de Vigia descobriu a fórmula que usa qualquer circunstância para criar uma sensação de desastre iminente. Sempre que ocorre um período de maior violência e agitação, aponta-se isto como prova de que as predições feitas estão corretas e de que “o tempo está muito próximo!” Quando essas condições se amenizam e surgem depois condições exatamente opostas, mais favoráveis à paz, isto é usado como evidência de que a “repentina destruição” está próxima, com base no que Paulo falou sobre os homens que dizem “paz e segurança” em 1 Tessalonicenses 5:3. As publicações da Torre de Vigia têm feito afirmações como estas:

 

Esta profecia torna claro que, logo antes do fim deste sistema de coisas, declarar-se-á de forma excepcional “paz e segurança”, quer mediante as Nações Unidas, quer independentemente pelos líderes políticos e religiosos.[30]

Agora, nos meses finais do mandato do Presidente Reagan, e na atmosfera de degelo da política de glasnost (abertura) do Secretário Gorbachev, parece estar havendo sérias conversações para minorar o perigo das armas nucleares. Não podemos prever se isso é um prelúdio duma suposta paz e segurança para o mundo em geral. Mas, de acordo com a profecia bíblica, é isso que os cristãos estão aguardando.[31]

Contudo, ainda virá mais um acontecimento que servirá como sinal inconfundível de que a destruição do mundo é iminente.[32]

Todavia, o contexto das palavras do apóstolo vai exatamente contra este ponto de vista, pois ele afirma:

 

Irmãos, relativamente aos tempos e às épocas, não há necessidade de que eu vos escreva; pois vós mesmos estais inteirados com precisão de que o dia do Senhor vem como ladrão de noite. Quando andarem dizendo: Paz e segurança, eis que lhes sobrevirá repentina destruição.[33]

Visto que o “dia do Senhor” vem como ladrão, é claro que o apóstolo não está dizendo que as pessoas falarem de paz e segurança é um tipo de sinal ou alarme na forma de um pronunciamento notável. Os ladrões não dão “sinais inconfundíveis” ou alarmes para anunciar sua chegada “iminente”. É evidente que as palavras de Paulo correspondem às palavras anteriores proferidas por Cristo ― que Sua vinda encontrará as pessoas num aparente estado de normalidade, com a vida prosseguindo como de costume, pessoas comendo e bebendo, casando-se e sendo dadas em casamento, construindo e plantando, sem nada que estimule premonições ou dê indicações antecipadas de que o julgamento está para começar repentinamente.[34]

Os pronunciamentos periódicos de “paz e segurança” que as nações fazem vez após vez ao longo da história, mostraram-se sem substância e de curta duração, assim como as premonições baseadas neles.

Já em 1915, o primeiro presidente da Torre de Vigia, C. T. Russell, expressou num congresso a opinião de que o profetizado tempo de paz proclamada tinha começado com a primeira Conferência de Haia (1899).[35]

A 1ª Guerra Mundial demoliu os efeitos da conferência de Haia. Russell morreu em 1916, no meio daquela guerra.

Em 1917, seu sucessor, J. F. Rutherford, dizia que após a guerra haveria um “curto período de paz”, em cumprimento das palavras de 1 Tessalonicenses 5:3, com o “fim” vindo logo depois disso.[36] A “repentina destruição”, porém, demorava, e em meados dos anos 30 Rutherford escreveu que “agora” tinha chegado o tempo para o predito pronunciamento de paz (segundo ele, a ser feito em Roma), precedido pelo silenciamento global da obra das Testemunhas de Jeová.[37] Em vez disso, começou a 2a Guerra Mundial. Em 1940, Rutherford escreveu que a guerra seria interrompida por um breve período de paz, imediatamente seguido pela guerra de Deus, o Armagedom.[38]

Após a morte de Rutherford, em 1942, o folheto Paz ― Pode Durar? (escrito por Fred Franz, mas proferido por N. H. Knorr como discurso principal de um congresso), continuava a afirmar (na página 26) que o período de paz depois da 2a Guerra Mundial “terá duração muito curta” sendo rapidamente seguido do Armagedom. Hoje, mais de meio século depois, ainda estamos vivendo nesse período de paz, mais longo que qualquer período anterior de paz entre as grandes potências da história.[39]

Nos anos 70, com o foco no ano 1975, as publicações da Torre de Vigia falavam que “estranhos eventos ocorrem em nossos tempos” e que a profecia de “paz e segurança” “parece estar-se aproximando rápido de seu cumprimento”.[40] 1986 foi internacionalmente declarado como “Ano da Paz” e isto deu margem a mais expectativas empolgantes. A Sociedade lançou seu livro Verdadeira Paz e Segurança ― Como Poderá Encontrá-la?, com sua descrição, já citada, da vindoura proclamação de “paz e segurança” como “sinal inconfundível de que a destruição do mundo é iminente”. Em 1990, com a “guerra fria” chegando ao fim, o livro O Homem em Busca de Deus (página 371) mais uma vez referia-se a 1 Tessalonicenses 5:3, dizendo:

 

Já agora, há outra notável profecia bíblica perto de se cumprir, diante de nossos olhos...

Parece que as nações que antes eram beligerantes e suspeitosas umas das outras estão agora cautelosamente se aproximando duma situação em que poderão declarar paz e segurança mundial.

Alguém poderia pensar que ― após sete décadas estimulando a empolgação com declarações que mostraram ter menor duração que os movimentos de paz em que se baseavam ― a organização se sentiria motivada à humildade. Ao invés, A Sentinela diz:

 

...a Sociedade Torre de Vigia continuará a dar nas suas publicações avisos oportunos ao público leitor, para que você não seja apanhado desprevenido pela vindoura pretensiosa proclamação de “paz e segurança”, conforme arquitetada pelas nações deste velho sistema de coisas.[41]

Diz-se isto apesar da evidência inegável de que todos os “avisos oportunos” do passado mostraram-se mal calculados, mal concebidos e, finalmente, sem sentido. A linguagem empregada é uma mistura consistente em que se juntam declarações em tom confiante com a imprecisão e a indefinição deliberadas. A Despertai! de 8 de setembro de 1991, por exemplo, traz este parágrafo (página 10):

 

As Testemunhas de Jeová crêem firmemente que as Nações Unidas irão desempenhar um grande papel nos eventos mundiais no futuro bem próximo. Sem dúvida, estes acontecimentos serão muito excitantes. E os resultados terão um impacto de amplo alcance sobre seu futuro. Instamos-lhe a que peça às Testemunhas de Jeová em sua vizinhança mais pormenores sobre este assunto. A Bíblia pinta claramente um quadro que mostra que as Nações Unidas receberão, muito em breve, poder e autoridade. A ONU fará então coisas surpreendentes que bem que poderão deixá-lo estupefato. E ficará emocionado de saber que existe um melhor instrumento, bem às mãos, que certamente trará paz e segurança eternas!

A retórica poderosa ― “futuro bem próximo”, “muito excitantes”, “coisas surpreendentes”, “bem que poderão deixá-lo estupefato” ― só serve para deslumbrar o leitor e impedi-lo de perceber que não se disse nada de realmente sólido. Se ele recorrer aos textos bíblicos em que se baseiam supostamente estas afirmações (Revelação 17:7-14), achará somente a descrição de uma fera simbólica com sete cabeças (que se diz representarem sete reis) e dez chifres (representando outros dez reis), e de um oitavo rei ‘procedente dos sete’. O “quadro” que se diz que “a Bíblia pinta claramente” acaba dependendo totalmente das interpretações particulares destes símbolos feitas pela Torre de Vigia. Compare o tipo de linguagem usada na revista de 1991 com a seguinte:

 

....podemos esperar que o futuro imediato esteja cheio de eventos emocionantes para aqueles que depositam sua fé em Deus e em suas promessas. Isso significa que dentro de relativamente poucos anos testemunharemos o cumprimento das profecias restantes que têm que ver com o “tempo do fim.”

O futuro imediato com certeza estará repleto de eventos climáticos, pois este velho sistema se aproxima de seu fim completo. Dentro de alguns anos, no máximo, as partes finais da profecia bíblica relativas a estes “últimos dias” terão cumprimento, resultando na libertação da humanidade sobrevivente para o glorioso reino milenar de Cristo. Que dias difíceis, mas, ao mesmo tempo, que dias grandiosos estão bem à frente!

A mesma linguagem empolgante sobre “o futuro imediato” aparece como na publicação de 1991 já citada. Mas estas duas últimas citações e suas predições foram totalmente baseadas nas afirmações relativas ao ano 1975, agora descartadas, e apareceram na Despertai! de 22 de abril de 1967 e na Sentinela de 1o de novembro de 1968. Os “alguns anos, no máximo”, em que se cumpririam “as partes finais da profecia bíblica relativas a estes ‘últimos dias’”, já se estenderam por mais de um quarto de século.

Todo o empolgado senso de urgência gerado por estas táticas especulativas difere muito da urgência baseada na inegável incerteza da própria vida e da nossa existência, devido à relativa brevidade de nossas vidas, igual a “uma bruma que aparece por um pouco de tempo e depois desaparece”.[42] A compreensão sóbria destes fatos pode nos prover um senso apropriado e saudável de urgência, firmado na realidade. Da mesma forma, a própria imprevisibilidade da vinda do dia de julgamento de Deus pode impelir-nos a estar sempre “despertos” e “sóbrios”, de modo que este dia, venha quando vier, encontre-nos prontos.[43] Quer pessoalmente vivamos para ver isso ocorrer, quer morramos antes, nossa esperança é indestrutível e seu cumprimento assegurado.

Seria errado pensar que as Testemunhas de Jeová não aprendem a ter esperança no poder da ressurreição da morte através de Cristo. Elas aprendem e têm essa esperança. Mas, para a vasta maioria, os que não são da “classe ungida”, essa esperança é revestida da esperança de que, como Testemunhas, talvez não precisem dessa esperança biblicamente ensinada e possam fugir à necessidade de beneficiar-se dela. Com isto, tenta-se fechar a mente da pessoa para a realidade, a de que ‘a morte é um fato da vida’. As Escrituras tratam desse duro fato, não nos seduzem com alguma alternativa mais palatável.

Os que não são da classe ungida aprendem que, se conseguirem viver até a “grande tribulação” e passar por ela, seus casamentos continuarão em vigor. Se morrerem fiéis antes da “grande tribulação” eles serão ressuscitados para a vida na terra, mas deverão então viver para sempre no estado de celibato.

É incrível como essas esperanças de criação humana podem afetar o raciocínio. Um amigo do pessoal da redação da sede internacional assistia o mesmo “estudo de livro de congregação” que Maxwell Friend. Maxwell era um dos membros mais antigos da sede mundial e tinha servido por muitos anos como instrutor da Escola de Gileade.[44] Nos anos 70, após um estudo de livro à noite, meu amigo relatou-me que Maxwell tinha dito ao grupo de estudo: “Bem, minhas orações foram atendidas.” Quando lhe perguntaram o que queria dizer, disse que tinha orado para que todos os seus parentes não-Testemunhas morressem antes de começar a “grande tribulação”. Desse modo, eles se habilitariam para a ressurreição, enquanto que se estivessem vivos quando viesse a “grande tribulação” eles seriam destruídos eternamente, sem esperança de ressurreição. Ele informou ao grupo que tinha acabado de saber que seu último parente vivo não-Testemunha morrera, e, portanto, suas orações tinham sido atendidas.

Parece incrível que alguém acredite que a aplicação ou a retirada da misericórdia divina, com todas as sérias conseqüências aí envolvidas, possam ser determinadas por um cronograma ― crendo-se que o fato de a pessoa morrer um dia ou mesmo uma hora antes do início da “grande tribulação” lhe dê esperança de ser ressuscitada, mas se morrer um dia ou uma hora depois não será ressuscitada. O indivíduo com certeza será essencialmente a mesma pessoa em qualquer das datas. Isto, e todas as outras preocupações com datas e períodos de tempo, sinais e avisos, não contribuem em nada para encorajar o apreço saudável pela esperança bíblica.

Preocupação com a verdade

 

Examinem tudo, fiquem com o que é bom. ― 1 Tessalonicenses 5:21, Bíblia na Linguagem de Hoje.

A fé e a esperança estão inseparavelmente ligadas à verdade. Sem esta, elas se tornam mera credulidade e ilusão. A adulteração da fé e da esperança ensinadas nas Escrituras resulta no enfraquecimento do apreço pela importância da verdade dentro do “paraíso espiritual”.

Deve-se admitir prontamente que a literatura da organização Torre de Vigia traz excelentes declarações de conduta cristã, inclusive artigos que enaltecem e promovem a compaixão, a misericórdia, a modéstia, a admissão humilde dos erros e qualidades similares do coração. O que simplesmente ocorre é que aquilo que se diz muitas vezes não é o que se faz. (Mateus 23:3) Para usar as palavras do ex-teólogo católico Davis, em vez da “preocupação com a verdade e da preocupação com as pessoas”, existe a “preocupação com a autoridade à custa da verdade”, e isto resultou claramente num “sistema impessoal e falto de liberdade”. Não é que falte totalmente a preocupação com a verdade e com as pessoas. O que ocorre, em vez disso, é que estes estão tão firmemente subordinados aos supostos interesses da organização que se tornam “sacrificáveis”.

Conheço pessoalmente, entre as Testemunhas de Jeová, muitos homens e mulheres inteligentes e perspicazes. Sei que muitos deles, incluindo certos membros do Corpo Governante, reconhecem alguns dos erros sérios nos ensinos da organização e na sua aplicação. Todavia, continuam a apoiar a organização como instrumento escolhido de Deus na terra. Em conseqüência, creio que a inteligência deles, ou pelo menos o exercício desta, é afetada, fica embotada e reprimida, é desviada para o esforço de justificar o erro. Alguns deles são escritores capazes, mas sempre escrevem conscientes de que o que escrevem tem de ajustar-se ao credo da organização, o espírito predominante do momento. Podem escrever artigos de conteúdo essencialmente saudável. Estes, porém, como partes do todo, oriundos da fonte organizacional, servem ao propósito maior de realçar a posição da organização na mente dos leitores e promover a submissão à sua autoridade. Isto é o que ela busca, sujeitando pessoas a um sistema. Entre os homens, a maioria aceita designações para fazer discursos nas assembléias, embora estes contenham afirmações e argumentos que eles próprios crêem estar errados. Sua integridade pessoal sofre. Eles representam um papel, não são eles mesmos, não são fiéis a si mesmos.

Estudos sobre comportamento de massa e controle da mente, como os do regime nazista, mostram que entre os fatores mais fortes estão a alteração e o controle do comportamento das pessoas, a conformidade de grupo e a virtual obediência indiscutível à autoridade, geralmente seguidas do controle da informação recebida. As pessoas têm naturalmente um senso de identidade pessoal através de suas idéias, sentimentos, ações ou conduta. Descobriu-se que se um destes elementos é alterado, os outros dois tendem a alterar-se junto com ele.

Portanto, se é possível mudar o padrão de comportamento da pessoa, suas idéias e sentimentos geralmente também mudam, pois do contrário ela sente um insuportável senso de discrepância e conflito (ou dissonância) dentro de si mesma. Quando, além de ter seu tempo canalizado para um programa restrito e constante de atividades específicas, todo o padrão de comportamento da pessoa ― conduta, expressão e relações com outros ― é afetado e alterado, ela sente a compulsão interior de ajustar seus pensamentos e sentimentos ou emoções para acomodarem esta mudança, no sentido de validar o novo padrão de comportamento. Seu conceito de si própria, seu conjunto de valores, podem todos ser ajustados para conformar-se ao padrão mudado de comportamento. Se este padrão lhe é imposto, e ela só se submete a este devido a uma suposta autoridade superior, isto pode privá-la não só de sua liberdade de ação. Pode privá-la também de sua liberdade de pensar e de sentir.

Quando alguém ingressa num programa altamente esquematizado de atividades específicas, tal como o da organização Torre de Vigia, faz-se com que sinta que sua própria fidelidade a Deus é demonstrada por ele ajustar-se a este programa. Não é só a ênfase ao programa de reuniões e serviço de campo que exerce pressão. Todo o seu comportamento ― em palavras, ações e atitude ― tem de ajustar-se a um padrão. Com o tempo, as Testemunhas se tornam hipersensíveis a qualquer palavra ou observação que pareça desviar-se, ainda que levemente, da norma da organização. O comportamento da pessoa para com os antigos amigos e vizinhos é igualmente alterado, já que agora se espera que ela os veja como “mundanos” e que os trate concordemente. Ela fica sujeita a uma infinidade de regulamentos e normas que envolvem seu emprego, seus relacionamentos com todas as pessoas com quem tem contato diário, inclusive os parentes que não são Testemunhas, sua recreação, aquilo que lê, e outros aspectos da vida. Com esta alteração drástica de sua conduta anterior, vem a tendência de racionalizar todo o resto para fazê-lo harmonizar-se com a conformidade exigida e justificá-la. Só deste modo é que se pode obter uma relativa paz mental, embora que por um preço.[45]

Este controle dos padrões de comportamento é forte entre todas as Testemunhas, embora a maioria viva em suas próprias casas, em família, e se ocupe em trabalho secular. Bem maior é o controle exercido sobre os que fazem parte das “famílias institucionais”, do pessoal da sede mundial com seus milhares de membros, ou do pessoal dos escritórios das filiais, que moram todos juntos em edifícios de residências coletivas, comem juntos em grandes refeitórios e passam a maior parte das horas em que estão acordados trabalhando cercados de pessoas que tentam ajustar-se ao padrão prescrito de comportamento. Para estes, a compulsão íntima subconsciente para ajustar o próprio pensamento, perspectiva, senso de valores e critérios segundo o padrão é especialmente forte. A sensação de “dissonância” que sentiriam se não o fizessem seria insuportável. Acho que alguns desses que conheço pessoalmente são mais prisioneiros das circunstâncias do que imaginam.

Esta tendência de sujeitar as idéias e sentimentos a um padrão de comportamento parece, pelo menos, explicar por que quando alguém aponta os claros erros nos ensinos e normas da organização, a maioria das Testemunhas se recusa a admiti-los ou nega sua importância.

Ao descrever o processo comumente usado no controle da mente, uma fonte afirma:

 

Outro aspecto-chave do controle da mente envolve treinar os membros para bloquear toda informação que seja crítica do grupo. Os mecanismos de defesa típicos da pessoa são torcidos de modo a defender sua nova identidade [religiosa] contra sua velha identidade anterior. A primeira linha de defesa inclui a negação (“O que você diz de modo algum está acontecendo”), a racionalização (“Isto está acontecendo por um bom motivo”), a justificação (“Isto está acontecendo por que tem de ser assim”) e o sonho impossível (“Eu gostaria que [a crença] fosse verdade, portanto talvez realmente o seja”).

...Se a informação transmitida... é interpretada como um ataque ao líder, à doutrina ou ao grupo, ergue-se uma muralha hostil. Os membros são treinados para não acreditar em quaisquer críticas....

A lealdade e a devoção são de todas as emoções as mais respeitadas... Não se permite às pessoas conversar umas com as outras sobre críticas ao líder, à doutrina ou à organização. Os membros devem espionar uns aos outros e denunciar atividades ou comentários impróprios com respeito aos líderes. E o mais importante, ensinam as pessoas a evitar contatos com ex-membros ou críticos.[46]

A fonte citada não trata especificamente das Testemunhas de Jeová e, de fato, nem sequer as menciona. Mas a descrição ajusta-se incrivelmente a elas. A verdade, no sentido bíblico, não é algo meramente intelectual ou acadêmico. Vai além do simples interesse pela veracidade ou falácia de idéias e doutrinas. Não inclui apenas o pensamento da pessoa, mas suas ações, seus tratos com outros, a influência que exerce sobre os outros. A preocupação com a verdade envolve a honestidade em todos estes aspectos. Se formos desonestos conosco mesmos, recusando-nos a enfrentar os duros fatos da realidade, dificilmente evitaremos ser desonestos com os outros. Creio que é por isso que os redatores da organização permitem-se apresentar informações que não só não são verídicas, mas em muitos casos, em certo sentido, são desonestas.

Não é prova de autêntico amor à verdade, pois, usá-la simplesmente como instrumento para expor as falácias das crenças de outros. O autêntico teste de nosso amor à verdade vem quando ele expõe falácias no nosso próprio sistema de crenças, e não só o aceitamos como ficamos gratos por sermos libertados do erro.

O fruto do amor

Enquanto a fé é o solo figurativo no qual criam raízes todos os frutos do Espírito de Deus, o fruto superlativo destes é o amor, pois ele valoriza e dá sentido a todos os outros. Como expressou o apóstolo:

 

Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa, ou como o címbalo que retine. Ainda que eu tenha o dom de profetizar e conheça todos os mistérios e toda a ciência; ainda que eu tenha tamanha fé ao ponto de transportar montes, se não tiver amor, nada serei. E ainda que eu distribua todos os meus bens entre os pobres, e ainda que entregue o meu próprio corpo para ser queimado, se não tiver amor, nada disso me aproveitará.[47]

Obviamente, o amor a Deus vem primeiro e o amor ao próximo em seguida. E no entanto, como deixa claro o apóstolo João, não podemos ter um sem o outro. A ausência de um é a negação do outro.[48]

Creio que, igual à fé e à esperança, entre as Testemunhas de Jeová o significado do amor a Deus foi obscurecido, distorcido. Nunca podemos perder de vista que, em nosso serviço a Deus, o que fazemos jamais é tão importante quanto por que o fazemos, a motivação e o espírito com que o fazemos. Estes fatores dão sentido a nossas obras, habilitando-as a mostrar que temos, não uma fé morta, mas uma fé viva.[49] Os programas altamente estruturados de atividades, a ênfase aos relatórios numéricos e dados, tão destacados no sistema da Torre de Vigia, tendem a obscurecer esta verdade, diminuem sua importância. A “regularidade” no cumprimento do que o programa exige torna-se o critério, e as pessoas ficam bem conscientes da necessidade de serem “publicadores regulares”, “regulares na assistência às reuniões”. Anteriormente, publicavam-se muitas cotas do número de revistas colocadas, revisitas feitas, horas gastas no campo. Embora não mais declaradas abertamente, permanecem as cotas invisíveis, e os que não as atingem, especialmente anciãos e servos ministeriais, logo percebem isto. Enfatiza-se a aparência, a conformidade exterior, a regularidade, em vez da motivação de coração. O mero cumprimento dos programas prescritos gera a sensação de ter realizado um serviço fiel para Deus, o que geralmente assegura a aprovação da organização.

Assim, o memorando da filial já citado faz esta observação:

 

Lamentavelmente, muitos perderam seu apetite espiritual. Um bom número dos novatos talvez jamais desenvolveu verdadeiro apetite pelo alimento necessário à nossa existência espiritual. Esta observação aplica-se tanto aos anciãos quanto aos irmãos em geral. Não podemos senão imaginar que fração considerável da inteira associação de nossos irmãos passou a ver nossa religião como simples questão de rotina, apenas se deixando levar pela corrente. (Isa. 29:13)[50]

Em vez de apenas uma “fração considerável”, a evidência é que esta atitude de serviço “de rotina” aplica-se a número maior de Testemunhas. Essa mesma perspectiva era evidente em muitos em Israel. Sua apresentação regular de múltiplos sacrifícios, ofertas, incenso, orações, seus jejuns regulares, celebração de sábados e épocas festivas ― tudo feito segundo o código da lei supostamente lhes garantiria a bênção de Jeová. Sobre eles Jeová disse:

 

Em mim buscam conselho dia a dia e dizem deleitar-se em conhecer meus caminhos... perguntam sobre as leis justas e dizem deleitar-se em chegar-se a Deus.

Todavia, apesar de tudo o que faziam, Jeová disse que “não se agradava” das ofertas e serviço deles, declarou-os “sem valor” e até “detestáveis”. Por quê? Porque, embora zelosos em obras prescritas, eles se mostravam insensíveis às necessidades dos outros. Sobre seus jejuns e auto-mortificações, ele afirma:

 

Serves apenas a teus próprios interesses em teus dias de jejum e fazes todos os teus homens trabalhar mais duramente, visto que teu jejuar leva apenas a contendas e rixas e a desferir cruéis golpes com o punho; num dia como este, o jejum que guardas não fará chegar ao céu teu clamor...

Não é este o jejum que peço de ti: que soltes os grilhões da injustiça, desfaças os nós do jugo, rompas todo jugo e libertes aqueles que foram esmagados?

Não é que partilhes teu alimento com os famintos, acolhas em tua casa os pobres desabrigados, que vistas os nus quando os encontrares e que não fujas a teus deveres com os de tua parentela?

Então tua luz irromperá como a aurora e logo crescerás saudável como o ferimento há pouco curado...

Então, se chamares, o SENHOR [Jeová] responderá; se clamares a ele, ele dirá: “Eis-me aqui.” Se cessares de perverter a justiça, de apontar o dedo acusador e lançar acusações falsas, se de tua própria abundância alimentares os famintos e satisfizeres as necessidades dos desafortunados, a tua luz então se erguerá como a alvorada dentre as trevas e teu crepúsculo será como o meio-dia; o SENHOR [Jeová] será continuamente teu guia e satisfará tuas necessidades no ermo ardente; fortalecerá teus ossos; serás como um jardim bem regado, como uma fonte cujas águas jamais faltam.[51]

Os escritores das Escrituras Cristãs mostram que Deus não mudou sua perspectiva. Seu Filho deu, em seus dias, uma mensagem similar, e seus discípulos fizeram o mesmo.[52] A escravidão física é em grande parte coisa do passado. Mas permanece a escravidão espiritual, mental e emocional, e as organizações religiosas muitas vezes são a causa. Através de seu profeta, Jeová condenou os que ferem com o punho iníquo. O apóstolo Paulo falou dos que, nos seus dias, professando ser discípulos zelosos e até apóstolos, exaltavam a si próprios, escravizando, dando ordens e, literal ou figurativamente, física ou verbalmente, “batiam no rosto” dos concrentes.[53] Vimos como a autoridade religiosa demonstra hoje o mesmo espírito. Por meio de Isaías, Jeová falou da necessidade de desfazer e romper todo jugo e libertar os esmagados e sobrecarregados. Cristo descreveu regulamentos e proibições impostos arbitrariamente pelas autoridades religiosas como fardos pesados, e seus discípulos reconheceram que a própria Lei fora um jugo difícil de carregar.[54] O legalismo e as pressões insistentes para realizar atividades específicas e observar proibições impostas, com a sensação de culpa pelo não cumprimento, continuam até hoje. A preocupação com a autoridade na organização, faz com que, igualmente, “perverta-se a justiça”, “apontem-se dedos acusadores” e se “lancem falsas acusações”, que só na forma diferem das que foram faladas pelo profeta.

Amor ao próximo

A substituição da preocupação com a verdade pela lealdade à organização gera inevitavelmente certo grau de insensibilidade para com as pessoas e suas necessidades. Normalmente, há tantas pessoas amorosas entre as Testemunhas de Jeová quanto em qualquer outra religião. Não é que agora deixem de ser amorosas. Em vez disso, ao expressarem este amor, fazem-no de modo notadamente restrito, reduzido em termos de ocasião, intensidade e alcance. Não se sentem livres, e às vezes, nem sequer motivadas, a expressar esse amor como de outra forma fariam.

Quando Jesus proferiu a parábola ilustrando o genuíno amor ao próximo, ele escolheu não a figura de um co-israelita ou judeu, mas a de um samaritano, um homem “de outra nação”, cuja religião diferia da dos judeus em geral, cuja religião muitos deles desprezavam, um homem em relação a quem eles se sentiam superiores em sua justiça.[55]

Ele disse que a condição de filho de Deus ― que “faz o seu sol levantar-se sobre iníquos e sobre bons, e faz chover sobre justos e sobre injustos” ― não se demonstra simplesmente pelo amor e a cordialidade aos irmãos enquanto se é frio e distante ao lidar com todos os outros. Pediu que se desse amor àqueles a quem é mais difícil amar, e até aos que parecem inimigos, e que se expressasse atitude amigável não só para com os irmãos, mas para com os que não são irmãos, para com “os de fora”.[56] Jesus praticava o que ensinava, estava disposto a fazer refeições e a hospedar-se em casas onde jamais um fariseu pusera o pé, o que o fez ser difamado e denunciado como “um homem comilão e dado a beber vinho, amigo de cobradores de impostos e de pecadores”.[57]

Em contraste, a organização Torre de Vigia estimula o espírito de sociedade fechada, cujo único interesse nas pessoas de fora é buscar convertê-las e torná-las membros dessa sociedade. Ela essencialmente cultiva o sentimento de que só em casos de grande emergência ― desastres naturais, acidentes ou outras situações de perigo de vida ― há razão particular para uma Testemunha mostrar interesse nas necessidades dos de fora de sua fraternidade.[58] É verdade que há Testemunhas que não manifestam esta perspectiva limitada, mesquinha, que não racionam desta forma sua cordialidade e amizade, que mostram espírito amigável e solidário para com vizinhos e outros membros da comunidade. Creio, porém, que a maioria das pessoas que têm vizinhos Testemunhas as vêem como pessoas essencialmente ordeiras e obedientes às leis, mas também as consideram geralmente frias e distantes. A maioria das Testemunhas sente que se for jantar na casa de vizinhos “mundanos” ou de outros, expõe-se a críticas da organização, críticas em muitos dos mesmos termos que a autoridade religiosa usou contra Jesus.

Uma das primeiras coisas que me perturbou seriamente foi notar a falta de amor ao próximo mesmo dentro da organização das Testemunhas, e isto por parte daqueles em alto nível. O modo como, após rápidas discussões, tomavam-se decisões que afetariam gravemente as vidas de milhares de pessoas era, mais que tudo, o que me incomodava. Passei a perceber que o conceito da exaltada importância da “organização” permitia aos homens cultivar uma atitude que só posso descrever como cínica para com o restante dos irmãos, e mesmo assim não ter sensação de culpa. Declarações feitas de vez em quando nas reuniões do Corpo Governante passavam a idéia de que as pessoas comuns das Testemunhas precisavam ser estritamente controladas por meio de regras e normas, para evitar transgressões em grande escala. A sinceridade das motivações de coração das Testemunhas em geral, era, deste modo, posta em dúvida. O espírito de muitos membros do Corpo Governante parecia ser o de “confiar apenas em nós mesmos”, não no restante da fraternidade.[59] O senso de responsabilidade para com os outros diminui seriamente. Não sentem sensação de culpa por apresentarem uma versão distorcida da história passada da organização, ocultando os fatos negativos, fatos geralmente não disponíveis à maioria das Testemunhas. Quando as predições baseadas em certas datas se mostraram erradas, a atitude, em essência, foi: Simplesmente nada dizer a respeito e as pessoas (da comunidade das Testemunhas) logo esquecerão. Os membros do Corpo Governante podiam até ter dúvidas pessoais quanto à validade das afirmações relativas a 1914 sem sentir necessidade das declarações acauteladoras que são dadas às Testemunhas em geral, sobre depositar confiança irrestrita nessas afirmações.[60] Deste modo e de vários outros, mostrava-se uma atitude cínica, que depreciava a inteligência da comunidade das Testemunhas como um todo.

Exemplo típico desta atitude é visto na mudança com respeito à distribuição de literatura nos Estados Unidos. A 25 de fevereiro de 1990, anunciou-se neste país que, a partir de 1º de março de 1990, a literatura da Torre de Vigia seria distribuída grátis, totalmente à base de donativos, sem se especificar contribuição alguma.* Nos Salões do Reino em todo o país, leu-se para as Testemunhas presentes a informação provida pela organização, que apresentava esta mudança de norma como algo baseado na preocupação de “simplificar grandemente nossa obra de educação bíblica e separar-nos daqueles que comercializam a religião.” Disseram que visava tornar a literatura mais acessível a todas as pessoas. Assim, toda a mudança da norma foi revestida com o manto da caridade e da falta de interesse egoísta.[61]

O que de modo algum se diz é que, muito antes de dado o anúncio, a Sociedade Torre de Vigia sabia que estava em julgamento nos tribunais o direito de um estado tributar a venda de literatura feita por um ministério religioso. Isto ocorreu em virtude do imposto de 6 por cento que o estado da Califórnia impôs sobre a literatura distribuída pelos Ministérios de Jimmy Swaggart, um dos mais destacados evangelistas da televisão americana. A Sociedade Torre de Vigia, junto com o Conselho Nacional das Igrejas de Cristo, a Sociedade Californiana para a Consciência de Krishna, e outros grupos religiosos, entrou com uma ação amicus curiae (amigo-do-tribunal) neste processo, solicitando ao tribunal que declarasse inconstitucional o imposto estadual sobre a venda de literatura religiosa por uma organização religiosa.[62] Em 17 de janeiro de 1991, contudo, a Suprema Corte dos EUA decidiu que o estado tinha esse direito. No mês seguinte, fevereiro de 1991, a Sociedade Torre de Vigia deu o anúncio da mudança para a prática da distribuição de “literatura grátis”. Esse anúncio não trazia uma única palavra sobre a questão do imposto. Transmitia à comunidade americana das Testemunhas a idéia de que a decisão da organização fora tomada exclusivamente por outros interesses, caritativos, altruístas. Isto é cinismo puro e ostensivo. Um artigo no The Atlanta Journal & Constitution de 3 de março de 1990, em parte baseado numa entrevista com o advogado da Torre de Vigia, Philip Brumley, afirmava:

Várias decisões da Suprema Corte, incluindo a decisão recente determinando que a Califórnia pode tributar literatura e fitas vendidas pelo ministério de Jimmy Swaggart, convenceram os líderes das Testemunhas a dispensar a contribuição sugerida, disse o Sr. Brumley.

Se o fator motivador foi deveras tornar mais acessível ao povo a mensagem contida na literatura da Torre de Vigia, por que foi limitada a “norma da literatura grátis”, na ocasião, aos Estados Unidos, Canadá, Alemanha e Itália, países de economia notavelmente forte? Por que não foi mundialmente? Ou, se era aconselhável a adoção gradual, por que não começar por alguns dos países mais pobres do mundo? Por que não foi primeiro implementada nos países do chamado “Terceiro Mundo”, onde a pobreza é tão extensa? Se a nova prática era mostrar que estão separados “daqueles que comercializam a religião”, por que prosseguiram com a antiga prática em todos estes países por vários anos? O fato é que mesmo a palavra “grátis” soa muito vazia quando comparada à prática efetiva. Anteriormente, as Testemunhas adquiriam sua literatura no Salão do Reino, e, quando a “colocavam” com o público, pediam “contribuições” específicas e ficavam com a quantia recebida para compensar o que tinham gasto inicialmente para obtê-la. Agora, passavam a obter a literatura no Salão sem pagar diretamente por ela, mas uma “caixa de contribuições” é colocada junto ao balcão de literatura, existindo uma óbvia sensação de pressão para contribuir com o que receberam. Daí, quando “colocam” a literatura com o público, são aconselhadas a informar ao morador que a recebe que aceitam uma contribuição pela mesma, embora sem especificar uma quantia. Se alguém faz a “doação”, a Testemunha é instruída a não ficar com ela (deste modo arcando ela mesma com o custo da literatura), mas deve devolvê-la como dinheiro doado à Sociedade Torre de Vigia. Assim, possivelmente em muitos casos, a organização não só recebe aquilo que recebia antes, mas, de fato, o dobro do que recebia antes. Agora, quando sai o anúncio de alguma publicação numa das revistas da Torre de Vigia, este talvez nada fale sobre contribuições. Contudo, se o leitor escrever pedindo a publicação e não enviar a contribuição correspondente, a prática da sede mundial é providenciar para que uma Testemunha local visite a pessoa em casa, levando a publicação pedida. Este método permite que a Testemunha sugira que ela dê uma contribuição.[63]

Ao mesmo tempo, a organização adotou (em alguns países) o arranjo de oferecer, nos serviços de alimentação das assembléias, refeições “grátis” aos presentes. Recordo que, nos anos 70, quando eu estava no Corpo Governante, o governo alemão impôs um pesado imposto à filial da Torre de Vigia, alegando que a atividade do setor de alimentação das assembléias era claramente lucrativa. Levantou-se entre as Testemunhas alemãs o equivalente a mais de um milhão de dólares para pagar o imposto. Nos EUA, todos os encarregados de administração de assembléias (chamados “superintendentes de distrito”) há muito são instruídos de que o departamento de alimentação tem de produzir lucro suficiente para cobrir todas as despesas da assembléia. As Testemunhas podem ter pensado que o dinheiro que punham nas muitas caixas de contribuição nos locais de assembléia era usado para cobrir tais despesas, mas os superintendentes de assembléias eram especificamente informados de que tais contribuições deviam ir diretamente para a Sociedade Torre de Vigia, e não ser usados para cobrir despesas de assembléia.

A organização tem estendido essas práticas a países mais pobres do mundo. Talvez achem que, ao contrário do resultado nos países economicamente fortes onde agora as normas são aplicadas, o apurado com essas atividades venha a se reduzir quando fizerem isso e se o fizerem, pois não só é provável que o público nesses países mais pobres dê menos contribuições pela literatura aceita, como muitas Testemunhas venham a sentir-se financeiramente incapazes de arcar com o custo de dar a literatura às pessoas sem pelo menos poderem cobrir sua própria despesa. O fato é que as palavras que a organização publica enaltecendo seu novo arranjo continuam a soar vazias, e por deixarem de reconhecer honestamente perante seus membros as razões por trás da mudança ― de fato, disfarçando as razões ― continuam sendo uma incrível evidência de cinismo, uma demonstração de desrespeito pela inteligência deles. Dificilmente seria este o amor ao próximo que faz a alguém aquilo que se faria a si mesmo.

Amizade amorosa

 

O verdadeiro companheiro está amando todo o tempo e é um irmão nascido para quando há aflição. ― Provérbios 17:17.

Recordemos a afirmação: “Somente no paraíso espiritual, entre as Testemunhas de Jeová, podemos encontrar o amor abnegado que Jesus disse identificaria os seus verdadeiros discípulos.” Quem observar as Testemunhas de Jeová ou se misturar com elas, reunidas num Salão do Reino, antes e depois das reuniões, ou numa de suas grandes assembléias, dará testemunho do sentimento de camaradagem, unidade e aparente felicidade entre elas. A questão é se isto, em si, constitui autêntica prova das afirmações feitas, especialmente quanto à profundidade destes sentimentos.

Será este sentimento genuinamente exclusivo, distintamente diferente do sentimento de camaradagem, unidade e aparente felicidade que se pode ver nas reuniões de muitas outras denominações, não só entre os que pertencem a determinada afiliação religiosa, mas até entre os que estão unidos por alguma causa social? Já que as Testemunhas são virtualmente proibidas de comparecer a reuniões que não sejam as delas, elas ficam sem outro padrão, senão o delas próprias, para julgar. Isto traz à mente estas palavras de Paulo:

 

Pois, não nos atrevemos a classificar-nos entre alguns ou a comparar-nos com alguns que recomendam a si mesmos [escrevem seus próprios testemunhos, Phillips Modern English]. Certamente, ao se medirem consigo mesmos e se compararem consigo mesmos, eles não têm entendimento.[64]

Não se pode medir o valor de um amigo bom e leal. Pode-se pensar que tais amizades floresçam num “paraíso espiritual”. Como em toda comunidade religiosa, fazem-se amizades entre as Testemunhas de Jeová, e algumas bem íntimas. Tive várias destas amizades durante os anos em que estive associado. E boa parte dessas pessoas ainda são meus amigos, pois mantiveram valores similares, valores que de modo geral as levaram a desligar-se da organização das Testemunhas. Mas vim também a perceber como são condicionais a maioria das amizades dentro da comunidade das Testemunhas. Isto, primariamente, não é por culpa das pessoas, pois elas são, na grande maioria, iguais às pessoas de todos os lugares. É, em vez disso, efeito do sistema sobre suas atitudes e seus relacionamentos.

Na realidade, a mera aceitação dentro da comunidade é totalmente condicional. Como vimos, o número de 1o de abril de 1986 de A Sentinela afirma (página 31):

 

A associação aprovada com as Testemunhas de Jeová requer a aceitação de toda a série dos verdadeiros ensinos da Bíblia, inclusive as crenças bíblicas singulares das Testemunhas de Jeová.

Não basta aceitar os “verdadeiros ensinos da Bíblia”. Deve-se acrescentar o requisito adicional das “crenças bíblicas singulares das Testemunhas de Jeová”.[65] Embora afirme ser distinta das organizações que mantêm um credo, credo muitas vezes respeitável, de muitos séculos, a organização tem seu próprio credo, ainda que certos de seus itens sejam muito recentes. O próprio termo “credo” é evitado e simplesmente substituído por expressões como “grandioso conjunto da verdade, que Jeová desenvolveu entre o seu povo unido nos últimos 100 anos” ou o “modelo da ‘língua pura’ que Jeová tão benevolamente tem ensinado ao seu povo durante o último século”.[66] Mas tal terminologia só gera uma distinção que não distingue, pois é exatamente isto que os credos afirmam ser, um conjunto oficialmente delineado de crenças fundamentais a ser aceito como verdade divina pelos que adotam o credo. Qualquer suposta diferença de outras religiões, neste aspecto, desaparece quando examinada. O credo pode mudar, aquilo que antes se ensinou pode ser rejeitado, talvez reinstituído depois, mas, seja qual for o credo do momento, a pessoa tem de aceitá-lo totalmente ou enfrentar a rejeição como ‘associado aprovado’. No “paraíso espiritual”, portanto, toda amizade fica condicionada a essa norma.

Quão sólida é esta base para amizade? Como vimos, muitas das crenças doutrinais têm sido extremamente voláteis, algumas delas mudando com freqüência e variedade quase caleidoscópicas. Isto se tornou tão evidente, mesmo para a liderança, que eles muitas vezes usaram a expressão “verdade atual” (ou “verdade presente”).[67] Os exemplos de mudança doutrinal são notavelmente numerosos, e só podem recordar e confirmar a veracidade dos princípios estabelecidos nas declarações de Jesus sobre o resultado decepcionante de construir sobre a areia, que cede e não tem estabilidade, e sobre a inutilidade da adoração edificada em regras humanas, bem como a referência do apóstolo a evitar ser como crianças, “arrastados pelas ondas e empurrados por qualquer vento de ensinamentos de pessoas falsas”, à medida que estas vão para um lado e para o outro anunciando suas opiniões.[68]

Só o tolo se recusa a mudar. A pessoa sensível reconhece suas próprias limitações e imperfeições. A verdadeira sabedoria é companheira inseparável da modéstia e da humildade.[69] Mas se é tolice recusar-se a mudar, tolice igual é basear a própria confiança e as próprias convicções naquilo que é instável, comprometer-se com um sistema de crenças edificado nos conceitos mutáveis e flutuantes de homens imperfeitos. O fator lamentável na história da organização das Testemunhas não é tanto a instabilidade de seus ensinos, mas sua insistência, principalmente dos anos 20 em diante, de que todos devem aceitar quaisquer ensinos que por acaso estejam em vigor como se fossem verdade sólida, estável. Aceitá-los significa estar “na Verdade”; rejeitar qualquer deles põe a pessoa “fora da Verdade”. A amizade condicionada a tal aceitação exige que a pessoa mude toda vez que os ensinos mudam, caso contrário a amizade condicional está ameaçada.

O verdadeiro teste de uma amizade vem por meio do modo como esta reage às dificuldades. No artigo intitulado “Amigos genuínos ― por que são tão difíceis de encontrar?”, A Sentinela comenta:

 

Algumas pessoas são superficiais, preocupam-se apenas com os aspectos perfunctórios da vida. Outras não estão dispostas a fazer os sacrifícios necessários para a amizade. “Não se envolva!” é o conselho muitas vezes ouvido na atualidade.

....Conforme observou certa senhora de idade: “[As pessoas] amam, mas à distância.” Mesmo nas culturas onde é muito comum abraçar e beijar, pode haver falta de verdadeiro apoio quando surge uma necessidade urgente.

Sob o subtítulo “Amizades Superficiais” o artigo prossegue:

 

Não obstante, muitos afirmam ter realmente amigos. Mas, quão profundos são tais relacionamentos? Muitas vezes a pessoa toma interesse por alguém por causa do que este tem a oferecer, não por causa do que ele é. Tais amizades, portanto, provavelmente serão efêmeras, pois assim que o “amigo” deixa de ser útil, ele é prontamente descartado.[70]

Creio que toda Testemunha que reservar tempo para pesar os fatos perceberá quanto da amizade entre as Testemunhas de Jeová, na análise final, depende de a pessoa estar no favor da “organização” e do que ela tem a oferecer neste contexto organizacional, não do que ela é como pessoa ou das qualidades que tem ou dos valores que adota. As qualidades e os valores da pessoa só têm mérito à medida que se ajustam aos interesses da organização e os promovem. Esse tipo de amizade assemelha-se bastante às que surgem quando a pessoa torna-se membro aprovado de um clube, associação, sindicato ou grupo semelhante.

A forte ênfase à participação no programa de obras da organização afeta muito as atitudes. Pessoas que outrora contribuíram muito em apoio à organização, por meio da grande atividade no “serviço de campo” e que, devido a dificuldades econômicas, problemas de saúde, questões familiares e outros motivos, tiveram de reduzir muito sua atividade, descobrem com demasiada freqüência que o interesse que se tinha neles se desvanece à medida que diminui o serviço que agora podem prestar. Alguns que participaram no “serviço de tempo integral” como pioneiros, missionários e superintendentes viajantes, fazendo-o até ficarem idosos, descobrem que não há reciprocidade nisso tudo. Enquanto tinham algo a dar, a organização alegremente aceitava seus sacrifícios e todo o aumento do número de membros que ajudaram a produzir, mas quando ficaram incapazes de dar da forma desejada, foram, na prática, “encostados”, recebendo uma carta formal reconhecendo os serviços passados e sendo daí em diante essencialmente esquecidos. Ao contrário de outros sistemas religiosos, a organização não tem provisões realistas de aposentadoria para estes representantes veteranos. Homens que, junto com as esposas, passaram anos no trabalho de circuito, mudando-se de um lugar para outro a cada semana, quando não são mais capazes de dar conta da rigorosa programação são postos na chamada “lista de pioneiros especiais inválidos”. A mesada que recebem nunca dá, sozinha, para cobrir adequadamente o custo de vida no mundo atual. A menos que recebam ajuda de parentes ou antigos conhecidos, têm muitas vezes de levar uma vida de verdadeira austeridade. Muitos vivem basicamente de caridade. O ardor do interesse demonstrado neles, o grau de estima e de expressões de apreço raramente continuam no mesmo nível. Eles são as mesmas pessoas e têm as mesmas qualidades, mas, para usar as palavras de A Sentinela, aquilo que eles “têm a oferecer” diminuiu e eles não são tão “úteis” como no passado.[71]

Em toda a organização, um número incrivelmente alto de homens que serviram fielmente como anciãos durante anos renunciaram, nas duas últimas décadas, a seus cargos de ancião. Às vezes, o motivo foi que simplesmente acharam que suas esposas e filhos mereciam mais tempo e atenção. Outras vezes, foi porque não podiam conscienciosamente aplicar certas normas da organização ou defender certos ensinos. Ao renunciarem, talvez tenham preferido não dar a conhecer suas opiniões e dizer apenas que a renúncia foi “por motivos pessoais”. Muitos, todavia, disseram que este passo causou uma reação inesperada de repentina frieza por parte da congregação, e até a diminuição das amizades, e, em certos casos, uma virtual rejeição, pois o anúncio de que não mais eram anciãos fez com que as co-Testemunhas passassem a vê-los como pessoas que deviam ser evitadas como transgressoras.

Num artigo seguinte sobre como encontrar “amigos genuínos”, a Sentinela citada falava do “amigo só para os bons momentos” e dizia que a verdadeira amizade:

 

 ...baseia-se no apreço pelo verdadeiro valor do amigo... o amigo genuíno não vacilará, e ele aderirá à amizade sem tomar em consideração condições provadoras ou difíceis, nem as situações esquadrinhadoras do coração que talvez surjam.

O amigo leal não se refreia de dizer a verdade, temendo a reação da outra pessoa. “Fiéis são os ferimentos infligidos por alguém que ama”, diz a Bíblia. (Provérbios 27:6)... O amigo genuíno o amará por ‘falar a verdade’, mesmo que se trate de conselho corretivo. — Provérbios 9:8.

É também sábio evitar ser excessivamente perguntador, pessoal, ou possessivo. A modéstia nos induzirá a evitar ser dogmáticos. Certamente, a amizade não nos dá o direito de impor aos outros nossas opiniões ou nossos gostos pessoais.[72]

Todas estas declarações expressam verdades e sentimentos nobres. Foram usadas na revista, porém, de modo a promover o conceito de que a genuína amizade só pode ser achada dentro da comunidade das Testemunhas. Nessa comunidade, o critério para demonstrar amizade e a lealdade que caracteriza o amigo genuíno estão firmemente ligados à conformidade organizacional. Muitas Testemunhas têm qualidades que fariam delas os melhores amigos: natureza genuinamente afetuosa, preocupação altruísta com os interesses dos outros, modéstia, mente aberta, respeito à privacidade dos outros e a suas opiniões. E demonstram isto ― até onde a norma da organização permite. Essa norma as obriga a expressar uma amizade condicionada a que a outra pessoa tenha a aprovação da organização, condicionada à total aceitação, por ela, dos ensinos e regras da organização, ao apoio dela a seu programa de atividades. O amor a Deus e a Cristo, o respeito às Escrituras, o amor às pessoas, os elevados padrões morais, a boa consciência ― nada disto garantirá a continuidade da afeição para com a pessoa se esta não satisfizer as condições da organização já declaradas.

Há um ditado segundo o qual uma organização nada mais é que a sombra alongada do homem ou homens que estão à sua frente e a controlam. Age, então, a própria organização Torre de Vigia, como amiga genuína, conforme defende em seus próprios comentários, já citados? Ou exige de seus membros uma lealdade que ela mesma não provê? Mostra-se ela própria amigável e leal, ou faz isso única e principalmente aos que podem conceder apoio, tempo, dinheiro, esforço e submissão aos pontos de vista e normas dela ― contribuindo para o aumento de seu tamanho, poder e influência? Mostra-se ela calorosa e enaltece os que fazem isso em alto grau e dão muito, mas é fria com os que o fazem num grau menor, sugerindo sutilmente que esperava mais deles? Ama os que são motivados a dirigir-se a ela “dizendo a verdade” de modo construtivo, ou considera-se acima de receber correção por parte de alguém, mas só de si mesma ou de Deus, iradamente rotulando os que expressam reprovação como inimigos não só dela, mas inimigos de Deus? “Evita ser excessivamente perguntadora, pessoal ou possessiva” em relação aos membros, ou arroga-se, em vez disso, o direito de imiscuir-se praticamente em todos os aspectos da vida deles, promovendo suas próprias opiniões dogmáticas quanto a como devem conduzir grande parte de seus assuntos pessoais, como devem gastar seu tempo, o que devem ler, que emprego é aceitável, que atitude devem tomar quanto à educação de seus filhos, até que ponto devem os membros interessar-se por pessoas de fora da própria área de controle da organização, até que ponto devem ir em demonstrar caridade para com tais pessoas? Mostra-se, de vários outros modos, ‘excessivamente pessoal e possessiva’? Dá ela suas opiniões apenas como simples opiniões, ou, em vez disso, proclama persistentemente estas opiniões, enquanto sugere que deixar de acatá-las demonstra falta de respeito? Não seria opressiva essa espécie de “amizade” se mostrada a nível pessoal e individual? Todavia, ao passo que muitos não tolerariam esta imposição de normas vindas de um indivíduo, eles a aceitam quando vêm de um sistema.

O conhecimento que a Testemunha tem das posições da organização não pode senão distorcer a qualidade de sua própria amizade com qualquer outro membro; o espírito possessivo mostrado pela organização só pode restringir seriamente o grau e a força desse relacionamento, criando um clima em que se põe em risco o espírito de altruísmo, coragem, lealdade e auto-sacrifício da genuína amizade.

Geralmente, quando a pessoa que passou grande parte da vida na organização das Testemunhas chega à conclusão de que suas pretensões exclusivas de ter o favor de Deus não têm base sólida, isto gera um sentimento de aflição, um período de crise marcado por um forte conflito entre o apelo à lealdade organizacional e a voz da consciência. Numa hora destas, a pessoa normalmente recorre aos amigos íntimos em busca de ajuda, conselho ou apoio. Um dos grandes benefícios da verdadeira amizade é exatamente a sensação de liberdade de abrir-se com respeito a assuntos de séria preocupação, sabendo que, embora o amigo possa não concordar, ele o escuta e dá sincera atenção às suas razões e especialmente à sua motivação. No “paraíso espiritual”, contudo, qualquer expressão franca de opinião divergente, não importa quão conscienciosa, levanta quase automaticamente uma nuvem de suspeitas. Ventos de boatos começam a soprar. A prova para saber se os amigos são só para os “bons momentos” ou não, se mostrarão lealdade “sem tomar em consideração condições provadoras ou difíceis, nem as situações esquadrinhadoras do coração que talvez surjam” (para usar as palavras de A Sentinela) começa aí. Embora nem sempre, os resultados são geralmente decepcionantes. Raramente há interesse em saber se as observações da pessoa são ou não verdadeiras, pois aquele com quem se fala pode nem tomar o tempo necessário para analisar a validade do assunto. A “sombra alongada” da liderança da organização se ergue sobre a amizade, com o efeito quase automático de esfriá-la.

Com freqüência, quando alguém passa por uma situação de crise que traz a perda do favor da organização, a reação (usando as palavras que A Sentinela atribui aos falsos amigos) é: “Não se envolva!” Alguns disseram: “Não sei dos detalhes e prefiro não saber.” Outros, sabendo da ação adversa tomada por uma “comissão judicativa”, disseram: “Não conheço as circunstâncias, mas a pessoa deve ter transgredido ou a organização não teria tomado a ação que tomou.” Portanto, considera-se a pessoa culpada de transgressão mesmo sem ter ouvido qualquer evidência. Sei pessoalmente de vários casos de longas amizades em que ambas as partes perceberam as mesmas falácias e erros da organização e sentiram-se livres para discuti-los em conversa particular. Quando, porém, uma das partes passou a ser escrutinada pela organização, a outra ― talvez com certo embaraço e dando garantias como “Meu respeito por você não mudou e você continua a ser meu amigo” — disse, não obstante, que as circunstâncias tornavam necessário o corte de comunicações e a associação. Como diz A Sentinela citando o comentário da senhora idosa: “[As pessoas] amam, mas à distância”, em contraste com o amigo “que se apega mais do que um irmão” nas horas de crise.[73]

Esta preocupação em ser aceito pela organização e a conseqüente falta de preocupação com a verdade de modo algum são exclusivas das Testemunhas de Jeová. Ocorre também com outras organizações religiosas. Alguns anos atrás, quando visitei a Califórnia, alguns amigos me levaram para conhecer o Ambassador College. É o principal centro educativo da Igreja Mundial de Deus, fundada pelo falecido Herbert W. Armstrong, algo comparável à Escola de Gileade da Sociedade Torre de Vigia. Quando estive na grande lanchonete que serve de refeitório, não pude deixar de notar a semelhança das pessoas e do ambiente com os do refeitório de uma das instituições da Torre de Vigia, tal como o Betel de Brooklyn. Os ambientes eram agradáveis, tudo era escrupulosamente limpo. Os jovens ali, de diferentes origens raciais, vestiam-se todos com esmero, muitos carregavam pastas e seus rostos refletiam senso de dedicação. A impressão inicial só podia ser de pacífica unidade, de determinação em tornar conhecido aquilo que entendiam ser o propósito de Deus.

Mais recentemente, li uma carta publicada num periódico chamado Ambassador Review. Foi escrita por um ex-membro da Igreja Mundial de Deus que fizera parte da equipe do Ambassador College. Em 1972, ele começou a ter sérias dúvidas quanto à validade das pretensões da religião, mas, como diz ele, achava que esta era a única verdadeira igreja de Deus e que Deus “cuidaria da situação”; e, se esta era, sem dúvida, “a única igreja verdadeira, aonde mais se poderia ir?” Ele acrescenta que “muitos [na igreja] diziam que não devíamos sequer abrir um artigo de literatura escrita por um ‘dissidente’”. Ele, porém, finalmente deixou a organização (em 1974), e entre as conclusões a que depois chegou, estão:

Antes de a pessoa tornar-se membro da Igreja Mundial de Deus, ela é incentivada a “pôr à prova todas as coisas, e apegar-se ao que é verdadeiro”. O ministro lhe diz: “Não acredite no que dizemos ― confira.” “Se ensinarmos algo contrário à Palavra de Deus, não nos siga.” Infelizmente, o processo inverso começa quando a pessoa já está na Igreja Mundial de Deus. Diz-se ao membro que o “Sr. Herbert W. Armstrong está mais próximo de Deus e tem mais do seu Espírito Santo que qualquer outra pessoa.”... Este tipo de raciocínio circular é ensinado aos membros, e é aplicado num grau menor [às camadas sucessivas de encarregados de cima para baixo]. Quando se chega ao membro leigo de menor categoria, a opinião dele nada vale, se comparada às das centenas daqueles que devem estar mais próximos de Deus, ou que têm posições mais elevadas, já que estão mais próximos de Deus.

Muito do que vemos aqui é familiar. O mesmo processo inicial que destaca a convicção pessoal para atrair as pessoas, seguido do mesmo processo de subordiná-las a uma estrutura de autoridade quando estão dentro. Para as Testemunhas de Jeová, nenhuma pessoa é considerada como estando numa relação mais próxima de Jeová Deus e Cristo que aqueles que compõem o Corpo Governante. Elas crêem que o espírito santo atua de maneira especial em relação a estes homens. Aqueles a quem A Sentinela referiu-se como “as fileiras” sentem que questionar a orientação deste Corpo é questionar a orientação de Deus sobre seu povo.

O ex-membro da Igreja Mundial de Deus prossegue dizendo:

 

Deste modo, tira-se do adepto qualquer confiança de que possa ter o Espírito de Deus. Ele põe o Sr. Herbert W. Armstrong e o resto dos ministros na posição de definir aquilo em que ele deve crer — em vez de Jesus Cristo e a Bíblia. Os ministros mostram cuidadosamente aos leigos como provar com a Bíblia as crenças da Igreja Mundial de Deus. O membro acha que sua crença está firmemente alicerçada na Bíblia, mas para provar isso ele tem de apoiar-se totalmente nos textos e explicações que lhe deram. Não quero com isso dizer que todas estas crenças ou explicações estejam incorretas, mas o adepto está sendo transformado numa pessoa espiritualmente dependente, e sua principal dependência não é de Cristo ou do Espírito Santo, mas do Sr. Herbert W. Armstrong e do ministério da Igreja Mundial de Deus.

...Não é preciso ser uma pessoa espiritualmente forte apenas para aceitar exatamente aquilo que a [igreja] ensina e obedecê-la estritamente. Mas é preciso ter firmeza de caráter e de espírito para questionar, pesquisar, comprovar, e depois ser fiel as próprias convicções, apesar do que [a igreja] ou qualquer outra pessoa diga.[74]

O notável paralelo entre as condições que ele descreve nesta religião e as que vigoram entre as Testemunhas de Jeová deve ser óbvia para qualquer Testemunha — basta substituir as referências ao Sr. Armstrong ou ao “ministério” da igreja por “Corpo Governante” e “a organização” e a descrição ajusta-se com precisão. Todas as organizações religiosas, obviamente, empenham-se em incutir lealdade em seus membros, encorajam-nos a submeter-se à direção da liderança. O que é mais repreensível é quando este agudo contraste entre a realidade e as exageradas afirmações que uma organização faz de si mesma, com seu constante auto-louvor e auto-recomendação, são acompanhadas da desaprovação igualmente constante a todas as outras e ao histórico religioso delas.

O clima de medo encontrado no “paraíso espiritual” e seu efeito na liberdade de expressão é flagrante como os dos países dominados por sistemas totalitários, onde as pessoas têm de estar constantemente em guarda devido a um sistema de “informantes”. Em inúmeros casos, o próprio cônjuge ou familiares da pessoa ameaçaram “ir aos anciãos” simplesmente devido à pessoa ter conscienciosamente questionado a base bíblica de certo ensino, ou ter discretamente deixado de assistir às reuniões da organização. Às vezes, é o cumprimento desta ameaça pelos membros da família que leva às audiências judicativas. O resultado é uma situação semelhante à de muito tempo atrás, que fez o profeta de Jeová dar esta advertência:

 

Não tenhais fé no companheiro. Não tenhais confiança no amigo íntimo. Guarda o abrir da tua boca diante daquela que se deita ao teu seio. Pois o filho despreza o pai; a filha se levanta contra a sua mãe; a nora contra a sua sogra; os inimigos do homem são os homens da sua casa.[75]

Na literatura da Torre de Vigia cita-se muito a amizade de Davi e Jonatã como exemplo da unidade leal que deve haver na congregação de Deus.[76] A lealdade de Jonatã a Davi, porém, faz pleno contraste com a amizade que geralmente se vê na organização das Testemunhas. Davi viu-se subitamente em situação de completo desfavor diante daquilo que constituía a estrutura organizacional da nação de Israel, tendo à frente seu cabeça visível, ‘teocraticamente designado’, o rei Saul. Era visto como inimigo por este líder organizacional ungido, foi forçado a viver como “desassociado” ou “excomungado”.[77] Davi chegou a esconder-se por algum tempo em Gate, entre os filisteus pagãos, povo que no final causou a morte de Saul, e também colocou seus pais sob a proteção do rei de Moabe.[78] Se Jonatã tivesse vivido segundo o conceito da Torre de Vigia, de absoluta obrigação de sustentar e acatar todas as ações e práticas organizacionais, ele teria imediatamente cortado toda a associação com Davi. Muito pelo contrário, embora sabendo que a mais alta autoridade da organização nacional considerava aquele homem como inimigo, ele continuou a encontrar-se com Davi e a agir em seu favor, até mesmo falando em defesa deste homem condenado e exilado, perante a autoridade organizacional ungida, teocraticamente designada. Fez isso por crer que Davi era abençoado por Jeová, apesar da rejeição organizacional que sofria.[79] A lealdade de Jonatã não dependia da organização e nem era controlada pela aceitação e aprovação desta. Tinha uma base bem mais elevada. Embora talvez raras, há pessoas entre as Testemunhas de Jeová que têm corajosamente demonstrado essa espécie de amizade, apesar das conseqüências que sabiam que podiam vir.

O fruto da alegria

Ao alistar os frutos do Espírito, o apóstolo coloca a “alegria” depois do “amor”.[80] Como no caso de outros aspectos do suposto “paraíso espiritual”, a autenticidade deste fruto apresenta um contraste entre a aparência e a realidade.

Durante os quase sessenta anos de vida que passei associado às Testemunhas de Jeová, tive muitas experiências felizes e delas guardo lembranças agradáveis. Embora eu seja definitivamente mais feliz agora, eu não era “infeliz” na época. Sei, porém, que o grau de felicidade que tinha era sempre restrito e limitado por uma sensação de contínua pressão. O problema não era a pressão interna, resultante da motivação de coração, pois essa levava a atos espontâneos que me davam muita felicidade. O problema era a pressão externa, que parecia exigir todo o meu tempo e tudo o que eu era, que restringia as ações verdadeiramente espontâneas e o uso do tempo. Durante os vinte anos em que fui missionário, senti sincera afeição pelas pessoas a quem servia, muitas delas de condição humilde, e ainda trago este sentimento. Gostei de viver entre elas, em seus países. Olhando para trás, percebo agora que a maior parte da felicidade que tinha se devia a elas como pessoas, em vez de algo diretamente atribuído à própria religião.

Já vimos nos capítulos anteriores como representantes responsáveis da organização expressaram, eles mesmos, a sensação de pressão sentida pela maioria das Testemunhas, pressão mantida pelo constante fluxo de exortações por um maior esforço através dos comunicados recebidos da sede mundial em Brooklyn e seus representantes viajantes. Essa pressão constante e a tensão que ela causa não contribui para a saúde emocional ou a genuína felicidade. Tampouco leva ao autêntico progresso espiritual e à alegria que este proporciona. Contribui para uma rotina de atividades que geralmente traz pouco senso de realização, e que é em grande parte mantido pela permanente sensação de culpa criada pela pressão organizacional.

Muita da alegria das Testemunhas de Jeová é atribuída ao fato de partilharem um “rico banquete” de alimento espiritual. Embora lhes digam regularmente que são espiritualmente “o povo mais bem-alimentado da terra”, o fato é que, quando se sentem livres para fazê-lo, as Testemunhas freqüentemente admitem a sensação de cansativa monotonia de suas reuniões, e até suas grandes assembléias são repetições anuais do que foi dito vez após vez em assembléias anteriores. Suas “reuniões de serviço” manifestam muitos aspectos de reuniões comerciais, com ênfase às técnicas e às constantes exortações a aumentos de atividade e produtividade. Os programas das assembléias ficam extremamente previsíveis a cada ano. Todos os discursos, de qualquer tamanho, quer em nível local quer nas assembléias, devem ajustar-se escrupulosamente aos esboços providos pela própria organização. Quem escuta, escuta, de fato, a organização, não a pessoa que fala Muitas vezes, quando lhes perguntam o que aprenderam na reunião ou no programa da assembléia, as Testemunhas acham difícil recordar algo de substancial para responder. Raramente falam que ficou na mente algo genuinamente fortalecedor da fé ou que possa contribuir para o aprimoramento do seu serviço a Deus e de seus esforços por uma vida cristã.

Os jovens entre as Testemunhas de Jeová expressam, em particular, sensação de enfado nestas reuniões, achando-as muito monótonas. Sempre foi muito alta a proporção de filhos de Testemunhas de Jeová que deixam a organização ao se tornarem adultos. Uma carta enviada à sede mundial por um ancião veterano e “superintendente de cidade” fez estes comentários sobre a instrução que os jovens recebem tanto em casa quanto na congregação:

O ensino nos lares tem sido, na maioria dos casos, superficial. Faltam profundidade e relevância. Alguns pais têm edificado jovens com materiais “à prova de fogo”. Outros se educam por si próprios, e embora expostos à verdade, esta nunca teve grande significado para eles. Portanto, eles se casam, arranjam emprego, iniciam uma família e desaparecem na multidão. Estão presentes, mas sempre na periferia.

Por exemplo, dirigi reuniões com rapazes da congregação, visando a aprimorar a fala e a leitura. Destina-se também a aprender e ensinar a Bíblia. Não é algo organizado; é informal. Mas todos os participantes imploram por mais destas reuniões. Eles apreciam vir, e logo outros vêem com eles. Esta atitude é completamente oposta às reuniões congregacionais. Por que? Eles se ENVOLVEM PESSOALMENTE. Suas opiniões são valorizadas, seu progresso é percebido, e eles se esforçam para qualificar-se para designações... Sei que isto não pode ser feito em toda parte. Mas o conceito está correto, eu acho, pois funciona.[81]

O próprio ancião diz que os rapazes ‘apreciam vir’, numa atitude “completamente oposta às reuniões congregacionais” e que o envolvimento pessoal e o apreço por suas opiniões faziam muita diferença. O que ele fez foi por sua conta, não algo apoiado pelo programa da própria Sociedade ou incentivado por ela. Na verdade, se outros, mesmo sendo anciãos, tivessem começado a seguir seu exemplo, certamente teriam sido advertidos para não criar uma alternativa ao programa da própria Sociedade.[82] É assim até hoje.

É fato conhecido que a maioria das Testemunhas só lêem a matéria programada no livro ou revista designada (se é que chegam a lê-la de antemão) e raramente tomam tempo para pesquisar ou meditar nos textos citados. Praticamente em cada artigo ou explicação bíblica, a organização — suas normas, objetivos, sua pretensa importância — são regularmente entrelaçados na discussão, e estes é que determinam o entendimento dos textos citados, e obscurecem ou mesmo desviam o sentido do seu contexto. Os membros não são encorajados a usar a mente individualmente como cristãos maduros, mas são, em vez disso, constantemente lembrados da necessidade de submeter-se, de evitar qualquer coisa que lembre o “pensamento independente”, de aceitar o que o “escravo fiel” provê como se viesse de Deus. Parecem nunca lembrar de que para se ter convicção genuinamente pessoal é preciso existir o pensamento independente, pois cada um de nós deve tirar conclusões como indivíduos, com o livre exercício da consciência e da capacidade mental.

Igual à situação descrita no texto de Isaías, o alimento dos “banquetes espirituais” mostra ser mais ilusão que realidade, e a fome espiritual permanece. É triste, mas quando a pessoa se empenha em aumentar seu conhecimento e progresso espiritual por meio do esforço pessoal, indo além do programa rotineiro estabelecido, o mais provável é que isto a leve a entrar em conflito com a organização.

Pureza e unidade superiores?

 

É claro que não nos atrevemos a nos igualar ou a nos comparar com aqueles que pensam que são tão importantes... medem a si mesmos pelas medidas que eles próprios fizeram. — 2 Coríntios 10:12, A Bíblia na Linguagem de Hoje.

O grau de moralidade entre as Testemunhas de Jeová é sem dúvida mais elevado que no mundo em geral. Creio nisso com base na minha própria experiência entre elas ao longo de muitas décadas. A questão é se o nível moral é tão excepcionalmente alto e a incidência de delitos tão notavelmente baixa, de modo a ajustar-se ao conceito de um “paraíso espiritual”, sem igual em lugar nenhum. O que aqui se afirma, pois, de modo algum representa uma tentativa de rebaixar ou minimizar o bom registro de obediência à lei e de moralidade das Testemunhas quando contrastadas com as pessoas em geral. Tampouco se trata de “condenar com elogios tímidos”. O objetivo é somente considerar se esse registro é tão notavelmente superior de modo a justificar a organização Torre de Vigia quando se descreve como virtual ilha de moralidade, distinta de todas as outras religiões e superior a elas. Os padrões de julgamento que a organização usa ao se recomendar a si própria merecem um exame.

Pode-se criar um quadro ilusório por meio do uso seletivo de experiências ou declarações. De 100 experiências, 95 podem ser negativas, mas se apenas as 5 positivas são divulgadas é possível criar um impressão muito favorável, e também falsa.

O inverso também acontece, quando uns poucos fatores negativos são divulgados e os favoráveis, mais numerosos, são escondidos, desta forma criando uma impressão igualmente falsa.

Seria errado avaliar a organização das Testemunhas por qualquer destes métodos. Seria também errado que a organização das Testemunhas avaliasse outras religiões com base nestes métodos. O que mostram as evidências?

Seria extremamente difícil achar uma declaração favorável acerca de alguma outra religião nas publicações da Sociedade Torre de Vigia, pelo menos dos anos 20 em diante. Em contraste, qualquer coisa desfavorável sobre outro sistema religioso, como por exemplo atos de imoralidade, desonestidade ou outras transgressões, torna-se matéria digna de consideração a ser incluída em suas publicações. Quanto mais desfavorável mais provável é que seja incluída. Se o incidente, circunstância ou atitude é ou não é, de fato, representativo do grupo religioso como um todo, isso não parece importar. Este padrão crítico é aplicado a todas as outras religiões. Um padrão bem diferente, praticamente oposto, é aplicado à própria religião deles.

Só em raras ocasiões é possível ler a admissão de uma transgressão específica cometida por membros da organização das Testemunhas. Um exemplo disso veio na Sentinela de 15 de março de 1988 (página 17), a respeito de um ancião que cometeu adultério com uma mulher Testemunha casada. O marido da mulher, não-Testemunha, foi ao Salão do Reino e disparou com um revólver contra sua esposa e o homem. Mas deve-se notar que, muito antes disso aparecer na revista Sentinela, este assunto já recebera publicidade no jornal de maior circulação da cidade de Nova York e já estava, portanto, “escancarado”. Dificilmente se pode citar a admissão de algo que já é amplamente conhecido como exemplo de transparência, franqueza ou humildade por parte de uma organização.[83]

Não é que se deva esperar que uma organização espalhe ao mundo as faltas e transgressões de seus membros individualmente, pois isso não teria nenhum objetivo válido e tanto seria desamoroso como prejudicial. O errado é criar uma impressão de grande superioridade moral por divulgarem amplamente as falhas de pessoas de outras crenças, fazendo parecer que estas são comuns e típicas da totalidade dos membros. Ao mesmo tempo, suprime quase que totalmente qualquer admissão de falhas similares em escala similar dentro de seu próprio sistema religioso. Mas serão tais falhas evidentes em escala similar entre as Testemunhas de Jeová?

Na sede mundial em Brooklyn, como tive conhecimento porque ali trabalhei, no Departamento de Serviço, há arquivos inteiros cheios de registros de casos de transgressão, alguns menos sérios, muitos deles graves, entre os membros das Testemunhas. Abrangem toda uma gama de transgressões, que vão de fornicação, adultério, homossexualismo, incesto e abuso sexual de crianças até fraude, roubo, espancamento de esposas e assassinato. Registros comparáveis a estes dos E.U.A podem ser encontrados nos escritórios de filial da organização em todo o mundo. Em outra declaração rara, A Sentinela de 1o de janeiro de 1986 (página 13) reconheceu que o “paraíso espiritual” não oferecia garantia real de proteção contra a imoralidade. Dizia:

Como reconhece a declaração citada, estas transgressões não se limitam a um único segmento, mas atinge todos os níveis. Pessoas em posições de autoridade na sede internacional ou nas filiais da organização de modo algum estão isentos. Recordo-me de casos de representantes de filial que incorreram em roubo, furto de fundos de filial, registros de alcoolismo, prática de relações sexuais adúlteras, um dos casos com uma prostituta, outro com a esposa de um missionário que morava no escritório da filial, e outras falhas morais.

Como exemplo da aparência enganosa transmitida, A Sentinela de 1o de maio de 1984 (página 7) refere-se a um jornalista de Quebec que escreveu de modo favorável sobre um congresso das Testemunhas em Montreal. Ele é citado dizendo:

 

Se elas fossem as únicas pessoas na terra, à noite não teríamos de trancar as portas e ligar o alarme contra ladrões.

Ele pode pensar assim. Não sabe que na sede internacional em Brooklyn, onde se acha a maior concentração de Testemunhas da terra, foi preciso, há algumas décadas, instalar cadeados em todas as portas do bloco residencial, e não consigo lembrar-me de nenhum período durante meus quinze anos ali em que não houvesse no mínimo um ladrão Testemunha agindo dentro da “família de Betel”. Eram necessários avisos periódicos nas mesas de refeição quanto a deixar objetos de valor sem vigilância. Enquanto roubo, alcoolismo ou falhas similares se limitavam a relativamente poucos, é preciso lembrar que se tratava de uma comunidade de menos de 1900 pessoas, bem semelhante a uma pequena cidade, mas com uma população especial da qual se podia esperar uma incidência de transgressões bem menor que a de uma pequena cidade.

As publicações da Torre de Vigia alegam constantemente que a atividade regular no “serviço de campo” de porta em porta constitui forte proteção contra a fraqueza espiritual e a transgressão. No entanto, a maioria desses já descritos, dos escritórios de filial e da sede internacional, estavam ativos nesta obra. Falta evidência que comprove que a incidência de transgressão seja reduzida em alguma medida por fatores tais como atividade de serviço de campo e assistência às reuniões; tampouco há nada que prove que sejam menos freqüentes os casos de transgressão entre os que estão no serviço de “tempo integral” do que entre os que não estão. Numa carta à sede mundial em Brooklyn, uma Testemunha com mais de trinta anos de associação escreveu:

 

Receio que minha tentativa de transmitir o que está acontecendo aqui acabe parecendo exagerada, pois a realidade da situação é um tanto desagradável. Penso nas quatro pessoas da congregação que cometeram suicídio (duas delas pioneiras). Penso nos sérios problemas conjugais na congregação (incluindo pelo menos meia dúzia de pioneiros). Estes problemas parecem estar diretamente relacionados aos problemas congregacionais, não são eventos isolados. Lembro-me de ter conversado com uma irmã que fora pioneira auxiliar por muitos meses, que disse que estava “planejando deixar a verdade no próximo mês de modo a poder deixar meu marido”, nas palavras dela. Ela tinha me pedido para levá-la a [certa cidade] para ver um ancião ali que era conselheiro formado, mas cancelou a consulta. Quando descobri mais tarde que ela tinha cometido um desatino e perguntei por que não tinha procurado ajuda antes disso acontecer, ela respondeu: “Eu tinha de fazer minhas horas primeiro.” Ela não é a única aqui com essa atitude.[84]

Acho que se cada Testemunha parasse para comparar as afirmações feitas com a realidade que se vê em praticamente todos os setores, ela seria obrigada a admitir que o número de casos de infidelidade conjugal, casamentos desfeitos com conseqüente divórcio, relações familiares relativamente instáveis, crianças emocionalmente perturbadas, delinqüência juvenil, problemas com drogas e ocorrências similares de modo algum são raras, mas de fato muito freqüentes.

Sei de homens que se tornaram anciãos, e, em resultado de serem designados a participar em “audiências judicativas” ficaram chocados em constatar a freqüência das transgressões, e às vezes as espécies extremas de transgressão que ocorrem nas congregações. Enquanto se exalta regularmente a superioridade das Testemunhas de Jeová como empregados, e citações favoráveis de empregadores aparecem com freqüência nas revistas da organização, escutei pessoalmente de vários comerciantes ― Testemunhas de Jeová ― que seus empregados Testemunhas amiúde lhes davam consideravelmente mais problemas que os chamados empregados “mundanos”. Embora, de modo geral, evitassem mais escrupulosamente cometer transgressões sérias, os casos de desonestidade trivial, desperdício de tempo, falta de cooperação, qualidade inferior do serviço e outras falhas em atuar nos melhores interesses da empresa, eram evidentes numa proporção que simplesmente não se harmonizava com o alarde feito pela organização.

Muitos grupos religiosos poderiam seguir o exemplo das Testemunhas de Jeová na área da integração racial, em desconsiderar as distinções de classe, no senso relativamente forte de compromisso e obrigação para todos que, ainda que completamente estranhos, sejam membros aprovados da organização. Talvez um dos aspectos mais atraentes ― e dramáticos ― de sua história sejam as ocasiões em que enfrentaram situações de crise, em épocas de intensa perseguição, desastres naturais ou guerra, quando muitas se mostraram dispostas a arriscar a própria segurança, os bens e até a própria vida no interesse, de um modo ou de outro, dos concrentes. Os relatos das experiências das Testemunhas durante o regime nazista na Alemanha, durante o governo de Duplessis em Quebec, ou durante o período da violência das turbas nos Estados Unidos nos anos 40, são uma leitura absorvente. A sinceridade dos que mostraram interesse corajoso e altruísta pelos outros é certamente inquestionável, e considero o exemplo delas tanto encorajador como louvável.

Tendo sentido pessoalmente certa medida do que significa viver anos de dificuldades materiais, violência das turbas ou o perigo de ser preso por participar de reuniões e outras atividades quando estas eram proibidas por um governo opressor, não subestimo a coragem que isto muitas vezes exige, a determinação de apegar-se a certos padrões. Tendo participado de tais provações, não acho desrespeito questionar também se estas ações tão dramáticas necessariamente legitimam as alegações de unidade espiritual exclusiva da organização ou podem ser vistas como algo que a distingue como aquela que reúne os únicos cristãos genuínos da terra. Encarando as coisas de uma perspectiva ampla, não tenho dúvida de que o que eu mesmo fiz em tais circunstâncias de modo algum foi algo exclusivo das Testemunhas de Jeová. Sem dúvida isso foi feito em dobro, ou até mais, por pessoas de outras crenças em circunstâncias semelhantes, quer os perigos que enfrentaram tenham vindo de perseguição quer tenha sido por buscarem ajudar pessoas em áreas assoladas por violência, selvageria, doença e animosidade ou ódio religiosos. Tampouco acho que seja falta de apreço por estes exemplos de auto-sacrifício reconhecer que aquilo que se faz em tempos de crise nem sempre é indicativo da regra que prevalece em tempos normais, na vida diária, que constitui a maior parte da vida humana em qualquer sociedade. Estou convicto de que as atitudes de dar, de auto-sacrifício, de compaixão, companheirismo, apego fraternal e forte amizade demonstrados no dia a dia normal são, quando constantes e inabaláveis, na análise final, muitas vezes de maior importância que manifestações similares feitas no calor de situações mais dramáticas. Creio que a evidência demonstra a veracidade dessa opinião.[85]

Quero fazer uma referência final ao memorando da filial já citado. Vem da Nigéria, nação mais populosa e a que tem o maior número de Testemunhas de Jeová da África (mais de 100.000 na época da escrita do memorando). Este memorando trazia muitas declarações favoráveis sobre as Testemunhas nigerianas, suas persistentes provações, seus esforços de manter neutralidade durante a Guerra de Biafra, as dificuldades enfrentadas por crianças que se recusaram a saudar a bandeira. Destaca a firmeza das Testemunhas em se apegarem às posições da organização nestas questões, firmeza esta comentada por alguns observadores.

O memorando também respondia a uma pergunta sobre a manifestação dos frutos do Espírito de Deus nos assuntos normais da vida diária, e aqui, mais uma vez, contaram-se experiências favoráveis. Tudo isto era o que se podia esperar, algo costumeiro em tais relatórios. A diferença estava na franqueza expressa em reconhecer o lado negativo dos assuntos. Mostrava que a unidade, quer racial quer de outros tipos, supostamente tão exclusiva e distintiva das Testemunhas de Jeová, estava consideravelmente abaixo do ideal. O memorando afirma:

Às vezes surgem nas congregações situações em que há divisões traçadas por razões tribais ou familiares, mostrando que em alguns casos os vínculos carnais são mais fortes que os espirituais. Assim, há em muitas congregações irmãos que não se associam verdadeiramente com outros membros da congregação. Chegam às reuniões na hora do primeiro cântico e saem na hora do cântico final. Existe muito pouca comunicação. Alguns não têm praticamente contato algum com outros irmãos, ou apenas com uns poucos escolhidos. Há também aqueles que alimentam animosidades e nunca falam com certos irmãos em momento algum.

Até entre os anciãos manifestam-se atitudes não-fraternais. As reuniões de anciãos têm sido conhecidas como fóruns de contendas e recriminações. Alguns travam discussões violentas nas quais atacam uns aos outros com palavras grosseiras. Às vezes, as considerações tribais ou raciais influenciam a aceitação ou a rejeição de sugestões.

É desconcertante, mas os irmãos com freqüência mostram atitudes não-fraternais nas relações comerciais e entre empregados e empregadores. Os irmãos empregados às vezes exploram e roubam os irmãos que os empregam; e alguns empregadores [Testemunhas] tratam seus empregados de modo duro e humilhante, até mesmo sem consideração para com sua necessidade de assistir as reuniões e participar do serviço de campo. Alguns sofreram prejuízos e relações foram destruídas por causa de tratos comerciais, quer devido a mal-entendidos, quer devido à franca desonestidade. Às vezes, irmãos promovem acusações contra irmãos como fariam por meio de advogados em tribunais mundanos, e alguns chegam a recorrer a tribunais mundanos. Mesmo no caso de pecadores arrependidos, os anciãos com freqüência têm a tendência de não ser misericordiosos.[86]

Não tenho intenção de sugerir que estas condições são típicas de todas as Testemunhas nigerianas. Visitei a Nigéria em 1979 e conheci ali ótimas pessoas entre as Testemunhas. Na mesma época, tinha se solicitado à filial em seu memorando que provesse a informação, não com base em incidentes raros e isolados, mas que abordasse os problemas genuínos que afetavam as Testemunhas do país. Não só o uso de “muitas”, “com freqüência” e expressões similares, mas todo o teor do relatório, deixa claro que o quadro de um paraíso espiritual exclusivo, superlativamente abundante em frutos do Espírito de Deus, dificilmente se harmoniza com os fatos. Mostra que as Testemunhas se parecem muito com as pessoas que se acham em outras denominações religiosas em que ocorrem problemas similares.

As condições relatadas pela filial da Nigéria não são surpreendentes nem incomuns. Se não as mesmas condições, condições comparáveis podem ser vistas nas congregações das Testemunhas de Jeová na maioria dos países do mundo. Incomum é a franqueza do pessoal da filial em reconhecer a existência e a extensão dos problemas. É incomum porque os representantes da organização, de modo geral, hesitam em apresentar à sede mundial assuntos que se chocam com o conceito de uma condição espiritual paradisíaca.

Nos anos que passei na sede internacional, a vasta maioria das comunicações apresentava apenas o lado “brilhante” dos assuntos, tópicos como os que são publicados na literatura da Torre de Vigia. Quando relatórios de natureza mais franca chegavam ao Corpo Governante ou a uma de suas comissões, estes raramente eram considerados de modo extenso. Acho que se pode verazmente dizer que a informação perceptiva, indicativa de qualquer falta de espiritualidade genuína e suas causas básicas, criava certa sensação de desconforto entre os membros, como se estes preferissem não saber dela. Eles pareciam achá-las perturbadoras, inquietantes, fora de sintonia com as declarações publicadas acerca de uma comunidade mundial que usufrui de superlativa saúde espiritual e inédita unidade fraternal, uma comunidade onde se pode encontrar os únicos cristãos verdadeiros da terra. Quanto mais franco o relatório e mais profunda a visão que dava da natureza subjacente dos problemas, menos tempo se dispunham a gastar em discuti-lo os membros do Corpo Governante. Sua rapidez em mudar para outros assuntos, ou para os trechos do relatório de maior conformidade com o quadro publicado, traziam à mente a descrição que Deus fez de Israel por meio de seu profeta Isaías:

 

[Eles] disseram aos que vêem: “Não deveis ver”, e aos que têm visões: “Não deveis visionar para nós nenhumas coisas diretas. Falai-nos coisas macias [agradáveis, NVI]; visionai coisas enganosas [ilusões, ARA].”[87]

Não posso crer que o amor à verdade, e principalmente o interesse pelas pessoas, autorizem este conceito mental semelhante a uma “torre de marfim”.

Não há, pois, intenção alguma de retratar as Testemunhas de Jeová como uma comunidade essencialmente imoral. Elas não o são. Creio que, no conjunto, a maioria das Testemunhas de Jeová são pessoas decentes e de boa moral. Tampouco se deve esperar perfeição dentro de qualquer comunidade de pessoas. Mas realmente falta a evidência necessária em apoio às afirmações sobre uma distintiva superioridade moral sobre todas as outras comunidades religiosas, de modo a dar motivo para jactância. Jamais se fez um censo organizacional envolvendo esta área e por isso não há estatísticas disponíveis. Com base em quase 60 anos de associação e relacionamento com os membros em lugares de todo o mundo, pessoalmente não duvido que se tais estatísticas estivessem disponíveis, elas mostrariam que não há, entre os adeptos da organização Torre de Vigia e os de muitas outras denominações religiosas, grande diferença no percentual de casamentos desfeitos, divórcios, transgressões juvenis ou conduta pecaminosa de qualquer espécie. Em poucos casos, especialmente em certas religiões que dão grande ênfase a fortes laços de família, a diferença pode de fato mostrar-se desfavorável às Testemunhas de Jeová. A evidência existente certamente não provê base para a declaração pública sobre ser muito mais pura que todas as outras (a síndrome da parábola de Jesus sobre o fariseu que disse “Agradeço-te Deus, que não sou como os outros homens”).

A provável reação da organização a isto seria que as Testemunhas de Jeová são superiores no sentido de que tomam ação contra os transgressores e desassociam os que consideram impenitentes, mantendo assim uma “organização limpa”. Não se pode deixar de apreciar a preocupação de agir quando a transgressão se manifesta. Como vimos num capítulo anterior, porém, seu registro de desassociar pessoas é consideravelmente mais notável que seu registro de ajudar os transgressores a se corrigirem e se restabelecerem, que é a missão do verdadeiro pastor das ovelhas.[88] Qualquer alegação de pureza superior à de outras comunidades religiosas precisa apoiar-se em mais do que neste último fator, e também na capacidade demonstrada de produzir um ambiente que encoraje e ajude as pessoas com vistas à força espiritual que evita a transgressão, de modo a fazer com que esta seja excepcionalmente baixa. A mera punição à transgressão em si não torna uma organização “limpa” ou superior em sua pureza a outras organizações. Um governo pode consistentemente exilar todos os que discordam de seu regime e decisões. Mas isso não prova que o país está livre de discordância ou descontentamento ― não se os exílios prosseguem ano após ano. Tampouco a prática de executar todos os criminosos significa que um país está livre do crime e é superior a outros países quanto a usufruir um ambiente livre de crimes, particularmente se os crimes (e as subseqüentes execuções) continuam a ocorrer essencialmente à mesma taxa de sempre. A afirmação às vezes feita de que não se encontram Testemunhas de Jeová nas prisões (senão por motivo de consciência) também pode ser enganosa. Se uma Testemunha, considerada culpada de cometer um crime por um tribunal, é declarada desassociada antes ou depois de ser condenada à prisão, isto não muda o fato de que ela era Testemunha na ocasião em que cometeu o crime.

Na realidade, jamais houve época em que a organização das Testemunhas de Jeová pudesse corretamente se exaltar por ser singularmente “limpa”, pois jamais houve qualquer intervalo de tempo em que milhares de pessoas não estivessem, naquele exato momento, praticando sérias transgressões. No momento em que escrevo isto, há, dentro da organização, um percentual de pessoas praticando infidelidade conjugal, fornicação, embriaguez, atos de ganância e desonestidade, e outras formas de transgressão já alistadas nos extensos arquivos da organização existentes para este fim. Há indivíduos entre estes, é claro, que com o tempo, sem nenhuma audiência “judicativa”, deixarão voluntariamente tal proceder e levarão vidas exemplares. Ao mesmo tempo, outros estarão praticando tal conduta  ao  longo  de  muitos  anos;  alguns não serão descobertos por muitos anos, se o forem.[89] E continua a ser assim apesar dos milhares que são desassociados anualmente. Tampouco há algo que mostre que o percentual de transgressores seja hoje menor do que era há dez, vinte ou trinta anos.[90] Mais vital para validar uma suposta autoridade moral, é a incapacidade de a organização provar que seu percentual é de algum modo mais baixo que o de muitas outras comunidades religiosas. Afirma-se isso, é claro. Mas não há evidência factual em apoio às afirmações. Não que as Testemunhas de Jeová sejam necessariamente piores nesta área que outras associações e comunidades religiosas, ou que não sejam melhores que algumas associações religiosas. O histórico delas simplesmente não comprova as afirmações feitas quanto a uma superioridade exclusiva sobre qualquer outro grupo religioso. Ele de modo algum autentica o quadro descrito de um “paraíso espiritual” singularmente limpo.

Não tenho dúvida alguma de que a abordagem legalista do cristianismo, as multidões de regras, e, ao mesmo tempo, a freqüente aplicação de critério duplo, tudo contribui para um conceito essencialmente embotado de justiça cristã. Quando o indivíduo acha que não está sendo observado pela autoridade organizacional, estes fatores podem de fato resultar em debilitar a resistência à transgressão.

Os mais afetados

Nem todos são afetados no mesmo grau pelos fatores aqui considerados. Há, é claro, como havia no tempo de Jesus, aqueles que parecem satisfeitos em seguir a rotina específica que lhes designam, alguns dos quais até sentem prazer (e, muitas vezes, orgulho) no cumprimento de requisitos tradicionais e programas estruturados. Outros não são particularmente afetados porque simplesmente não se preocupam em medir ou ganhar aprovação. São protegidos pela própria apatia.

É lamentável que os mais afetados pela pressão constante para que se faça cada vez mais em atividades dirigidas pela organização são as Testemunhas que são mais sensíveis e conscienciosas. Para muitas destas, a argumentação — que sutilmente atribui culpa se a pessoa não segue as “sugestões” e “recomendações” da organização — cria a preocupação constante de não estar fazendo o bastante, não estar correspondendo. Como num redemoinho, nunca há uma sensação de realização, mas apenas a necessidade de continuar a atender mês após mês às exigências por desempenho, exigências que por sua vez podem não ser abertamente declaradas, mas que são apresentadas de modo a sugerir falta de fé, zelo ou amor se a pessoa não corresponde. Assim, enquanto muitas Testemunhas apenas ‘seguem a corrente’ e mostram pouco o efeito da pressão, o verdadeiro teste da religião cristã não é o que ela faz pelos que estão livres de necessidade, mas o que faz pelos que estão de algum modo debilitados, aflitos. A rejeição de Deus aos líderes espirituais do rebanho de Israel concentrava-se nisto, dizendo:

 

“Não fortalecestes as adoentadas, e não curastes a doentia, e não pensastes a quebrada, e não trouxestes de volta a dispersada, e não procurastes a perdida.”... “Eu mesmo apascentarei as minhas ovelhas e eu mesmo as farei deitar-se”, é a pronunciação do Soberano Senhor Jeová. “Procurarei a perdida e trarei de volta a dispersa, e pensarei a quebrada e fortalecerei a doentia, mas aniquilarei a gorda e a forte. A esta apascentarei com julgamento.”... “Eis aqui estou, eu mesmo, e hei de julgar entre o ovídeo gordo e o ovídeo magro, visto que continuastes a empurrar com o lado e com o ombro, e visto que continuastes a marrar com os vossos chifres a todas as adoentadas até que as tínheis espalhado para fora.”[91]

Os mesmos princípios aplicam-se aos pastores cristãos, e não é por seu interesse pela “gorda e forte”, mas principalmente pelas fracas, feridas e quebradas que se testa a sinceridade de sua devoção ao rebanho. Estes certamente teriam de ser os primeiros entre todos aqueles a quem os pastores cristãos devem “tratar com ternura”.[92] Deixar de reconhecer as pressões e tensões que a vida diária do mundo atual impõe a tais pessoas, é estar cego para com suas condições e necessidades. Empurrar estas pessoas com “aguilhoadas” mentais e emocionais, deixar de prover-lhes o necessário repouso e alívio emocionais e espirituais, só pode trazer a desaprovação do Pastor excelente, Cristo Jesus.

Estes pensamentos foram expressos numa carta escrita em 1977 e dirigida a Fred Franz, presidente da Torre de Vigia. O remetente dizia:

 

Tenho a impressão de que as pessoas especialmente sensíveis, que já têm problemas em lidar com um mundo exigente e cruel, recebem de nós uma carga com muitas pressões e ameaças de destruição adicionais. Os que realmente tentam ser fiéis em todas as coisas, e depois descobrem que são apenas homens e mulheres imperfeitos, que nunca alcançarão a combinação dos estritos alvos de serviço, reuniões, estudos, conduta, etc., vindos de vocês, arriscam-se a entrar em colapso sob a pressão conjunta de requisitos que são inculcados neles um a um, por meio de métodos dos quais eles nem sequer se apercebem, de forma que não são capazes de pesar a ordem de prioridade de todos estes requisitos e caem em depressão quando tentam cumpri-los todos.

Concluí que só podia suportar o peso reduzindo minha exposição às constantes pressões de vocês. Só assistia a determinadas reuniões e deixava de ir a certas reuniões que me deixavam deprimido e aborrecido.

O autor da carta era René Greutmann, natural da Suíça. Cito aqui suas declarações visto que creio que as experiências que ele relata resumem e confirmam muito do que foi dito em todo este capítulo.

Como Testemunha, René tinha passado um tempo na prisão por recusar-se a servir no exército suíço. Sentia o desejo de ajudar os doentes mentais, formou-se como enfermeiro e obteve um emprego num hospital psiquiátrico de Zurique. Demitiu-se um ano depois devido ao problema de ter de servir aos pacientes alimentos que continham plasma sangüíneo. Demonstrou assim leal apoio às posições das Testemunhas com relação ao serviço militar e ao sangue.

Em sua carta ao presidente da Torre de Vigia, disse que sua razão de escrever era:

 

....dar-lhe um retorno de como seus ensinos e métodos me afetaram durante os últimos vinte e dois anos em que fui Testemunha de Jeová.  Tenho esperança de que esta contribuição possa lançar alguma luz sobre muitos casos de depressão e suicídio entre irmãos e irmãs muito conscienciosos.

Deu então detalhes de quatro suicídios de Testemunhas dos quais ficara sabendo pessoalmente e outros casos de Testemunhas que precisavam de cuidado psiquiátrico.[93] René, todavia, tinha um caso bem mais pessoal para relatar.

Ele contou como conheceu e se casou com sua esposa Clarisse. Testemunha zelosa, ela tinha se mudado para a região de língua alemã da Suíça, morou com uma família de Testemunhas, e com o tempo começou o serviço de “pioneira”, enquanto trabalhava em meio expediente como secretária para manter-se. Muitas vezes andava de bicicleta durante uma hora para chegar ao seu território rural designado. Conscienciosa, obrigava-se a ir até o ponto de não mais poder continuar, mas ainda assim era incentivada a prosseguir pelo superintendente de circuito com quem conversava. Para aumentar sua tensão, enfrentou problemas com uma Testemunha, um homem casado que a importunava. Ela relatou o assunto ao superintendente da congregação, mas daí em diante, por causa disso, sofreu a ira da esposa do homem. Não demorou muito e sofreu um colapso emocional. Seus pais a levaram para casa na região de língua francesa da Suíça, mas ela estava extremamente deprimida. Na manhã seguinte, ela subiu ao teto do prédio de quatro andares e pulou.

Ela sobreviveu, mas sofreu fraturas múltiplas em ambas as pernas e na pelve. Os médicos tiveram de amputar-lhe a perna direita abaixo do joelho.

Quando René a conheceu, ela tinha aprendido a andar com uma perna artificial, mas nunca conseguiu recuperar-se dos efeitos do que havia acontecido. Achava que tinha fracassado como pioneira e assim tinha fracassado para com Deus e que seu propósito na vida estava acabado. Não conseguia perdoar-se pelas coisas que tinha feito. Em sua carta endereçada à organização Torre de Vigia, René escreveu:

Naturalmente, ela escutou depois que ‘ninguém a tinha forçado a ir além de sua capacidade no serviço de pioneira’. Nem as pessoas que fizeram aqueles comentários nem Clarisse sabiam do poder das “recomendações” e “conselhos” constantemente repetidos numa programação cansativa. Mas você sabe e Deus sabe.

René descobriu que Clarisse era uma mulher amável, apesar de sua deficiência, e era normalmente, uma pessoa inteligente e comunicativa. Casaram-se e três anos depois tiveram um filho, e René a levou para morar na Califórnia, na esperança de que isso a ajudasse a esquecer o passado e a superar seu sentimento de culpa e depressão. Associaram-se com uma congregação das Testemunhas, mas a acolhida que lhes deram não foi muita compreensiva ou calorosa e isto perturbou Clarisse. René admitiu que sua incapacidade de dar pleno apoio a todos os ensinos e práticas da organização pode ter contribuído para que as Testemunhas locais não lhes dessem muita atenção. Ele disse que sentiu que para obter plena aceitação teria de “submeter-se a todos os ensinos sem  pensar;  tornar-se  um gravador  que  repete fielmente tudo que lhe é dito.” Ele acrescenta: “Não sei por quanto tempo eu suportaria isto sem ficar eu mesmo deprimido.”[94]

Clarisse fez tratamento psiquiátrico por algum tempo na Suíça e depois voltou aos Estados Unidos, mas com uma melhora apenas mínima em seu sentimento de depressão. Persistia a sensação de ter falhado religiosamente. René propôs-lhe que voltassem para a Suíça, mas ela preferiu ficar na Califórnia. Uma noite, em outubro de 1975, ela saiu para uma consulta no Hospital Kaiser. Ela não voltou. Na manhã seguinte, o carro dela foi localizado estacionado perto da ponte Golden Gate. Seu corpo foi encontrado boiando nas águas da baía. Tinha 34 anos.

Sei que não se pode atribuir os problemas de alguém totalmente a uma única fonte. Tampouco René o fez, reconhecendo não só a frágil constituição emocional de sua esposa, mas também as próprias imperfeições e incapacidades dele, imaginando o que mais ele poderia ter feito. Mas ele também não tinha dúvida alguma de que havia um fator subjacente que atuou contra todos os esforços de trazer alívio a sua esposa. Como ele diz em sua carta para a organização:

 

Eu estendia meus braços e meu coração para ela. Mas não sei como ela percebia o mundo e as pessoas ao redor dela. Eu não estava no lugar dela e não tinha uma perna artificial. Não sofri a dor e aflição dela. Ela era o tipo de pessoa incapaz de proteger a si mesma se estivesse programada com requisitos sobrepostos e conflitantes.

....eu gostaria muito de recomendar nossa associação às pessoas instáveis e sensíveis, mas não posso, no fundo do meu coração, recomendar uma religião cuja pressão quase me matou, e que, estou convicto, foi um dos principais fatores na tragédia de minha esposa e de outros.

Quando abordados por René, os anciãos da congregação da Califórnia recusaram-se a realizar uma cerimônia fúnebre, com base no que entendiam do artigo sobre funerais para pessoas que cometem suicídio na Sentinela de 1o de janeiro de 1976, página 31. Disseram que tinham de ‘proteger a boa reputação da congregação’. René não pôde entender a razão desta posição inflexível. Conforme escreveu:

 

Não temos de aprovar o ato dela. Foi errado, foi um pecado. Para mim um funeral não significa a aprovação do modo de vida da pessoa, mas um ato de apoio e amor pela família que ela deixou para trás.

....fiz eu mesmo a cerimônia fúnebre. Fui à funerária com minha mãe. Pus algumas rosas sobre o corpo dela, acariciei-a pela última vez e então me ajoelhei e orei, agradecendo a Deus pelo tempo que passamos juntos, orando para que ele se lembrasse dela na ressurreição. Orei para que ele me ajudasse a aumentar em amor e consciência das necessidades das pessoas ao meu redor, que me ajudasse a criar nosso filho para ser um cristão amoroso e responsável.

Pode-se ressaltar que dois anos depois, na Sentinela de 1o de dezembro de 1977, publicou-se um artigo permitindo especificamente que um ancião realizasse o funeral de alguém que tivesse tirado sua vida por “extrema depressão ou desequilíbrio mental”. Isto não foi por causa da carta de René Greutmann, pois esta jamais chegou ao Corpo Governante. Outro incidente levou à discussão do tema. Ao defender a mudança de ponto de vista durante o debate, recordo pessoalmente de ter chamado a atenção para o canto fúnebre de Davi após as mortes de Saul e Jonatã, no qual Davi incluiu ambos os homens, embora o ferido Saul, para evitar maus tratos nas mãos dos filisteus, tivesse tirado a própria vida.[95] A mudança descrita na Sentinela acima mencionada é positiva e elogiável. Os anciãos da congregação da Califórnia, se já tivessem essa matéria, teriam sem dúvida agido de modo diferente. Mas acho que o que se precisa notar é que suas ações, seus pensamentos e seus sentimentos, eram, e provavelmente ainda são, inteiramente governados pelo que a organização diz, não pelo que a compaixão e a razão humanas, os princípios bíblicos e o exemplo do Filho de Deus moveriam alguém a fazer. Ao fazer a mudança com respeito aos funerais para suicidas, o artigo da Sentinela de 1o de dezembro de 1977 não apresentava nenhum argumento bíblico como razão para isso. Simplesmente anunciava que, “Visto que isso [um discurso público] serve a um propósito tão excelente, o ministro cristão talvez veja a conveniência de realizar” um funeral em tais casos. A organização tinha falado e os anciãos agora podiam fazer o que talvez seus próprios corações normalmente os teriam motivado a fazer.

Se, porém, a organização não tivesse falado, não se teriam sentido livres para agir desse modo compassivo, teriam sem dúvida se sentido culpados se o fizessem, certamente se teriam preocupado em manter seus cargos de ancião se deixassem de sujeitar-se plenamente à norma da organização, e familiares enlutados continuariam a ouvir a mesma recusa que René ouviu após a trágica morte de sua esposa. Sou forçado a me perguntar o que existe, em tudo isto, que possa de algum modo ser descrito como espiritualmente “paradisíaco”.

Algum tempo após a morte da esposa, René e seu filhinho voltaram para a Suíça. Soube que enquanto sua esposa estava em tratamento na Suíça, um homem que estava de serviço como guarda de fronteira no lago Genebra a tinha visto, totalmente vestida, caminhar para dentro da água e tinha ido atrás dela, puxando-a para fora. Coincidentemente, a esposa do homem conhecera Clarisse quando criança. René visitou o casal para agradecer o que tinham feito por sua esposa, agora falecida. Durante a conversa, ele mencionou que as Testemunhas de Jeová não serviam no exército, pelo motivo de que não queriam matar. A esposa do homem respondeu de um modo que René nunca esqueceu. Ela disse: “Às vezes também matamos com palavras.”

Não sei se o presidente da Torre de Vigia viu ou leu a carta de René. Sei que a carta não chegou ao Corpo Governante, mas isso era normal. De qualquer modo, o presidente não a respondeu, pois ela foi entregue a um dos homens das “mesas de correspondência” para ser respondida. Acho que o tom geral dessa resposta reflete notavelmente o tom das declarações dos anciãos da congregação a quem René tinha apelado:

 

 

Tradução do texto da carta:

Prezado irmão Greutmann, 

Sua carta adicional recebida no mês passado e endereçada ao irmão Franz foi encaminhada ao Departamento de Redação.

Observamos as circunstâncias que levaram à morte de sua esposa. Lamentamos muitíssimo saber da perturbação emocional que resultou, ao que parece, em ela ter tirado a própria vida. Embora tenha tirado certas conclusões, irmão Greutmann, quanto ao que a influenciou neste respeito, estamos certos de que entende que é muito difícil avaliar as questões quando se trata das emoções e motivações humanas. É melhor deixar as questões nas mãos misericordiosas de Jeová, ao passo que continuamos a recorrer à orientação dele, sabendo que Ele julgará cada situação com o devido equilíbrio entre misericórdia e justiça. Você tentou jogar alguma culpa na organização de Jeová, alegando que aquilo que se espera do povo de Jeová quanto a assistir reuniões e participar do serviço é excessivo e leva a frustrações e até a problemas emocionais. Mais uma vez, porém, você tenta julgar o povo de Jeová e a congregação cristã através de suas conclusões pessoais. Até que ponto sua própria atitude e opinião sobre os assuntos, e o modo como tratou do problema de sua esposa contribuíram para as coisas que aconteceram com ela, é uma questão à qual não podemos responder. Como uma observação franca, irmão Greutmann, recomendaríamos que reconheça o modo como Jeová está conduzindo e ensinando seu povo em conjunto, e a bênção evidente que ele tem da parte de Jeová. Você se inclina a encontrar falhas no encorajamento para participar regularmente na assistência às reuniões e na pregação das boas novas, achando que aquilo que se diz estabelece algo que está acima do razoável para o povo de Deus. Os irmãos aqui na sede, através das publicações e de outras maneiras, e os anciãos das congregações locais, estão apenas se empenhando em cumprir suas responsabilidades perante Jeová em prover encorajamento e ajudar nossos irmãos em todo o mundo a permanecerem fiéis a Jeová e a cumprirem a comissão de pregar as boas novas do reino em testemunho a todo o mundo. Cada um individualmente tem de decidir como vai reagir ao encorajamento das Escrituras segundo suas próprias circunstâncias e capacidades. Quando se estima sinceramente o encorajamento dado, não se vê tentativa de dominar ou exercer o controle da mente dos irmãos de modo a fazer deles robôs. Sua alegação de que a organização tenta fazer lavagem cerebral ou controlar a mente dos irmãos não tem realmente fundamento. A menos, é claro, que você esteja apontando para aquilo que Jesus e os apóstolos fizeram quando treinaram os cristãos e os ajudaram a fazer o que o apóstolo Paulo disse em 1 Coríntios 1:10, ''estejais aptamente unidos na mesma mente e na mesma maneira de pensar.''

Que Jeová o abençoe em seu desejo de servi-lo de acordo com a oração do apóstolo Paulo em favor dos cristãos filipenses em Filipenses 1:9-11.              

          Seus irmãos no serviço de Jeová, 

Sociedade Torre de Vigia de B. e T.

DE NOVA YORK, INC.[96]

Esta resposta é quase inteiramente dedicada a justificar a atitude da organização e, falando francamente, é uma reprimenda ao homem que obviamente escreveu motivado pela preocupação com um tipo especial de pessoas dentro da organização e com o bem-estar delas. Como René indulgentemente expressou: “A resposta deles não me foi muito encorajadora, e ao invés, deixou-me só com meus questionamentos e em busca da verdade e do amor.” Ele passou por sérios problemas após a morte de sua esposa, mas, com o tempo, por meio da oração e fora da organização, ele os superou e tem manifestado bom equilíbrio.

Creio que o conjunto das evidências, vistas em escala mundial, revela por que é razoável dizer que pessoas sensíveis e emocionalmente frágeis estão particularmente em risco no chamado “paraíso espiritual”. Não posso deixar de recordar novamente as palavras do profeta: “Com o lado e com o ombro dais empurrões, e com os chifres impelis as fracas até as espalhardes fora”.[97]

No início desta consideração expressei a sensação de tristeza, e aquilo que discutimos apenas aumenta essa sensação. Aquilo que parecia oferecer tal promessa, que parecia indicar o caminho para algo belo, provou-se bem o contrário. As qualidades excelentes que muitos demonstraram foram desviadas do seu fluxo natural. Houve um efeito despersonalizante, e até certo ponto, desumanizante, em resultado da exaltação e da quase deificação da autoridade da organização. A tristeza, como no caso do ex-teólogo católico romano, é fruto dos “casos de dano causado a pessoas pela atuação de um sistema impessoal e falto de liberdade.” Não foram os interesses humanitários, nem o amor às pessoas, aquele tipo de amor que motivou Deus a dar seu Filho em favor delas, mas os interesses de uma organização em sustentar a si própria, de inculcar seus conceitos essencialmente organizacionais em cada vez mais pessoas e em ampliar e manter sua autoridade sobre elas. Isso teve o efeito de “destruir a idéia que lhe deu origem”.

Notas:

[1] W. J. Brown, falecido em 1960; não pude determinar se as declarações dele aqui citadas são de um discurso ou de um tratado.

[2] As palavras de Brown são um eco das expressas anteriormente por Dean Inge (1860-1954) que disse: “Toda instituição, até mesmo a igreja, acaba por estrangular as idéias para cuja proteção foi fundada.” (Citado na revista Good News Unlimited, de outubro de 1989, página 10.)

[3] João 7:24, Phillips Modern English.

[4] Mateus 7:1-5.

[5] Mateus 23:25-28.

[6] Citado na Despertai! de 22 de maio de 1987, página 15.

[7] A Sentinela, 1º de maio de 1984, página 5.

[8] Veja Está Próxima a Salvação do Homem da Aflição Mundial! (1975) páginas 178, 179, 193-194; A Sentinela, 15 de março de 1986, página 20; 1º de maio de 1984, páginas 4-7.

[9] 1 Coríntios 13:13.

[10] 1 Coríntios 3:11, 21-23, BJ.

[11] João 14:6.

[12] Tradução da New American Bible.

[13] Confira Revelação 3:1, 2, 17, 18.

[14] Gálatas 5:22, 23, BJ.

[15] Os outros instrutores designados foram Edward Dunlap, Ulysses Glass e Fred Rusk.

[16] Tiago 3:17, 18.

[17] Confira Isaías 58:1; Hebreus 11:36-38; 12:1-3.

[18] Atos 4:5, 12, 18-20; 5:27-29.

[19] Confira 1 Coríntios 13:3.

[20] 1 Coríntios 1:26, 27, 29.

[21] Hebreus 11:32-34, ARA.

[22] Colossenses 3:1, 2; veja também Filipenses 3:19.

[23] Confira Lucas 24:17-21.

[24] Lucas 21:8, Phillips Modern English.

[25] 1 Tessalonicenses 1:3; Hebreus 6:18-20; 11:1, 2.

[26] Romanos 5:5

[27] Memorando enviado pelo escritório de filial da Torre de Vigia da Nigéria, de 12 de outubro de 1978, página 10.

[28] A Sentinela, 15 de abril de 1990, página 27.

[29] Mateus 24:6, 2; 2 Tessalonicenses 2:1, 2. A palavra grega traduzida por “apavorados” em Mateus 24:6 na Tradução do Novo Mundo é a mesma palavra traduzida por “provocados” em 2 Tessalonicenses 2:2.

[30] A Sentinela, 15 de novembro de 1984, página 6.

[31] Despertai!, 8 de abril de 1988, página 14.

[32] Verdadeira Paz e Segurança ¾ Como Poderá Encontrá-la? (1986), página 85.

[33] 1 Tessalonicenses 5:1-3, ARA.

[34] Confira Mateus 24:26-39, 42-44; Lucas 17:26-30; 21:34-36.

[35] Veja O Que Disse o Pastor Russell (em inglês, de L. W. Jones, associado íntimo de Russell), página 529. Neste, como nos pontos seguintes, estou grato à pesquisa feita por Carl Olof Jonsson.

[36] Veja A Sentinela, 1o de janeiro de 1917, páginas 4, 5; 1o de dezembro de 1917, página 358.

[37] Veja o folheto Escolhendo ¾ Riquezas ou Ruína? (1936, em inglês), páginas 31, 32; o livro Inimigos (1937, em inglês), páginas 292, 293.

[38] A Sentinela (em inglês), números de 15 de agosto de 1940, página 246 e 1o de setembro de 1940, páginas 259-266.

[39] Veja International Security, Vol. 13 (1988), página 80; International Studies Quarterly 30, dezembro de 1986, página 269.

[40] Veja a Despertai! de 22 de abril de 1973, páginas 4, 9; Aproximou-se o Reino de Deus de Mil Anos! (1975), página 365.

[41] A Sentinela, 1º de setembro de 1987, página 23.

[42] Tiago 4:13-15.

[43] Mateus 24:42, 44; Lucas 21:34, 36; 1 Tessalonicenses 5:6-8.

[44] Ele tinha sido ator shakespeariano antes de ser Testemunha na sua terra natal, a Suíça, e sua voz era usada em muitas das gravações dos dramas de congressos da Torre de Vigia.

[45] Uma carta que recebi de uma ex-Testemunha da Nigéria expressa isto de modo bem incisivo. Disse que estava escrevendo para transmitir seu apreço por ter obtido “uma visão mais íntima da organização das Testemunhas de Jeová ¾ e das organizações às quais hipotequei minha consciência, desde a infância até a idade adulta.”

[46] Combatendo o Controle da Mente das Seitas (em inglês), páginas 61-65.

[47] 1 Coríntios 13:1-3, ARA.

[48] 1 João 2:9-11; 3:11-24; 4:7-12, 16-21.

[49] Tiago 2:12, 24-26. O proceder de Raabe, citado por Tiago, ilustra claramente uma ação totalmente espontânea, não uma ação prescrita realizada por ordem de uma autoridade terrestre.

[50] Memorando enviado do escritório da filial da Nigéria, página 8.

[51] Isaías 58:2-11, New English Bible. Confira Isaías 1:11-17.

[52] Mateus 6:1, 16; 15:8, 9; 23:23; Tiago 1:26, 27; 2:14-16; 1 João 3:17, 18.

[53] 2 Coríntios 11:5, 9, 12-14, 20.

[54] Mateus 23:1-3; Atos 15:10, 11; Gálatas 5:1.

[55] Lucas 10:29-37; 17:15-18; João 4:9; 8:48.

[56] Mateus 5:43-48. A palavra traduzida por “cumprimentardes” pode transmitir a idéia de “agir de maneira amigável”. Veja The Expositor´s Greek Testament, Vol. 1, página 115.

[57] Mateus 11:19; João 4:9, 40.

[58] E quando se dá ajuda aos de fora em tais emergências, quase sempre isto é publicado depois em artigos de A Sentinela e Despertai! Contraste isto com as palavras de Jesus em Mateus 6:1-4.

[59] Veja também Crise de Consciência, capítulo 5 (especialmente a partir da nota 8 daquele capítulo).

[60] Veja Crise de Consciência, capítulo 9.

* Nota do tradutor: A partir de 1º de janeiro de 2000, o mesmo arranjo foi adotado no Brasil.

[61] Um passo inicial em direção a esta mudança fora dado nos congressos de distrito de 1989, nos EUA, quando as novas publicações lançadas foram oferecidas “gratuitamente” aos da assistência, embora que com caixas de contribuição colocadas convenientemente próximas. O mensário da Torre de Vigia, Nosso Ministério do Reino, de julho de 1990, página 3, trazia um suplemento que citava a carta de uma família, dizendo: “Um aspecto novo e notável que realmente tocou o nosso coração foi o modo como os irmãos lançaram as novas publicações. Minha esposa e eu nos sentimos movidos a ‘realmente abrir a mão’ e contribuir muito mais do que já contribuímos em qualquer assembléia nos muitos anos em que nos associamos.” Isto ilustra a idéia que a organização deseja criar entre os membros, de que a mudança de norma da “literatura grátis” é puramente motivada pelo interesse generoso e caridoso nas pessoas.

[62] Veja, entre outros relatos noticiosos similares, a reportagem do Washington Post de 18 de janeiro de 1990.

[63] Note-se que outras organizações religiosas, tais como a Igreja Mundial de Deus, durante décadas deram sua literatura gratuitamente ao público, e isto sem nenhum pedido implícito de doação.

[64] 2 Coríntios 10:12.

[65] Na verdade, muitas das crenças alistadas na matéria de A Sentinela de modo algum são exclusivas das Testemunhas de Jeová. Os Adventistas do Sétimo Dia, a Igreja Mundial de Deus e outros, também crêem na proximidade do Armagedom, no reinado milenar de Cristo e no estabelecimento de um paraíso terrestre. Estas crenças e outras mais das que foram classificadas como “singulares” podem ser encontradas nos diversos grupos de “Estudantes da Bíblia”, tais como a associação da Aurora, o movimento Missionário Lar do Leigo e em religiões como a Igreja de Deus da Fé Abraâmica e duas outras Igrejas de Deus com sedes em Illinois e Oregon. A maioria destas têm origens que remontam ao século 19. A crença de que ‘Cristo teve uma existência pré-humana e está subordinado ao seu Pai celestial’ de modo algum é exclusiva das Testemunhas de Jeová. As únicas crenças realmente “singulares” dentre as alistadas pelo artigo de A Sentinela são as que identificam o “escravo fiel e discreto” como associado com o Corpo Governante das Testemunhas de Jeová. Até a data de 1914 é tida como importante por alguns dos grupos religiosos mencionados e a única coisa “singular” é a interpretação peculiar que agora lhe dá a Sociedade Torre de Vigia.

[66] Veja A Sentinela de 1o de junho de 1982, página 28.

[67] Veja Crise de Consciência, capítulo 9, nota 8. A expressão ainda apareceu em 1988, no livro Revelação ¾ Seu Grandioso Clímax Está Próximo!, página 8, que fala da “necessidade de a pessoa se manter em dia com a verdade atual”, fazendo isto apesar do fato de que, desde o início de seu uso nas publicações da Torre de Vigia, a expressão foi adotada da Versão Rei Jaime ou Autorizada, com sua tradução de 2 Pedro 1:12, que não foi seguida por nenhuma tradução moderna e nem a própria Tradução do Novo Mundo, da Sociedade. A idéia não é a de “presente” ou “atual” no sentido de estar em vigor ou ser atual no sentido temporal, mas no sentido de presença, de localização, referindo-se à verdade que já fora recebida, e ainda estava naqueles e com aqueles a quem Pedro escrevia. A Almeida Revista e Atualizada, por exemplo, reza: “Por esta razão sempre estarei pronto para trazer-vos lembrados acerca destas cousas, embora estejais certos da verdade já presente convosco, e nela confirmados.” O escritor da Torre de Vigia, ao empregar esta expressão ultrapassada, deixa de seguir o próprio conselho quanto a “se manter em dia”.

[68] Mateus 7:24-27; 15:9; Efésios 4:14, BLH; 2 Timóteo 3:7; para ver alguns exemplos de mudanças de ensinos e normas, veja Crise de Consciência, nos apêndices aos capítulos 5, 6, 7, 10 e 12.

[69] Tiago 3:13.

[70] A Sentinela, 15 de maio de 1985, páginas 3, 4.

[71] Como no caso de Sue Walker, relatado num capítulo anterior, tal atividade cristã de cuidar de pais idosos não é vista como tão meritória quanto a atividade em algum “serviço teocrático” tal como ser missionário ou servir em “Betel”. Veja o relato a respeito dela e de sua família no capítulo 11 deste livro.

[72] A Sentinela, 15 de maio de 1985, páginas 5, 6, 9.

[73] Provérbios 18:24.

[74] De uma carta enviada por Bob Gerringer a Charles Hunting.

[75] Miquéias 7:5, 6.

[76] Veja, por exemplo, A Sentinela, 15 de maio de 1985, página 9 e 1o de janeiro de 1989, página 28.

[77] 1 Samuel 19:11, 12; 20:1; 22:1, 2.

[78] 1 Samuel 21:10; 22:3, 4.

[79] 1 Samuel 20:16.

[80] Gálatas 5:22.

[81] Citada de uma carta enviada por Robert Mackey, datada de 1o de março de 1978.

[82] Mackey era não só superintendente de cidade em Tampa, Flórida, mas também quem gravava os relatos dos evangelhos para as fitas bíblicas da Torre de Vigia. Estou muito convicto de que isto lhe proporcionava uma consideração especial.

[83] Em outro caso relatado em Nova York em 1987, uma jovem que pôs fim a seu relacionamento amoroso com um homem de 27 anos, recebeu dele mais tarde um pacotinho contendo o que parecia ser uma caneta, mas que escondia uma lâmina com uma mola que cortou a mão dela ao abrir o pacote. Um mês depois, ela recebeu outro pacote e começou a abri-lo. Então, imaginou de quem poderia ser — e antes que pudesse soltá-lo este explodiu, causando-lhe cortes e quebrando seu dedo polegar ao mesmo tempo em que jogou sua sobrinha de 18 meses ao outro lado do aposento. O remetente de 27 anos, acusado de enviar um artefato explosivo pelo correio, foi descrito por seu patrão como uma “Testemunha de Jeová profundamente religiosa”. O Tribune de Chicago (de 15 de novembro de 1990) relatou que um jovem de 16 anos primeiro baleou mortalmente o pai a sangue frio e depois aguardou a mãe voltar para casa e a matou. Amigos da família foram citados descrevendo-os como Testemunhas de Jeová que “faziam tudo juntos”. Um antigo vizinho descreveu o rapaz como um “anjinho” que fazia “trabalho de porta em porta com os pais desde criança”. Ao contrário do outro caso, estes e outros crimes similares de Testemunhas não foram contados nas publicações da Torre de Vigia.

[84] Carta de 10 de julho de 1985; omitimos o nome do remetente por razões de privacidade.

[85] Mesmo com respeito a seitas como a dos Moonies, Steve Hassan diz em seu livro: “Os relacionamentos são geralmente superficiais dentro destes grupos porque partilhar com outros seus sentimentos íntimos pessoais, especialmente os negativos, é altamente desencorajado. Este aspecto da vida nas seitas prevalece ainda que um adepto possa achar que é mais íntimo de seus companheiros do que foi de qualquer pessoa antes. De fato, quando os adeptos das seitas passam por dificuldades ou perseguições, eles sentem mesmo um profundo senso de camaradagem e martírio compartilhado que é excepcional. Mas devido a que a única verdadeira lealdade que têm é ao líder, uma análise mais atenta mostra que tais laços são realmente superficiais e às vezes apenas fantasia particular.” (página 82)

[86] Páginas 20 e 21 do memorando da Nigéria.

[87] Isaías 30:10.

[88] Veja os capítulos 10 e 11.

[89] Como apenas um exemplo, em 1985, a edição de 23 de setembro do Alberta Report (Canadá) trazia um artigo sobre a condenação de um advogado que foi “preso por roubar mais de 200.000 dólares de seus clientes entre 1973 e 1984 ― mais da metade da quantia roubada de companheiros Testemunhas de Jeová da igreja onde ele era ancião.” Muitas das Testemunhas que foram vítimas nesse período de mais de dez anos eram ucranianas que não sabiam ler nem escrever em inglês e que “depositavam sua total confiança” no ancião Testemunha. As vítimas incluíam uma mulher idosa que tinha entregado ao homem todo um processo de seguro por um acidente de trânsito que a deixou paraplégica. Em resultado da desonestidade do ancião ela recebeu menos da metade do seguro. (Este advogado foi conceituado orador numa das reuniões anuais de advogados e médicos Testemunhas.)

[90] O relatório da Sentinela de 1986 sobre 36.000 desassociados não é extraordinário. Cada ano produz um número similar. Em 1988, por exemplo, houve outros 40.000 desassociados em todo o mundo (dados do The Milwaukee Journal, de 18 de maio de 1989, citando Merton Campbell, do pessoal da sede mundial da Torre de Vigia).

[91] Ezequiel 34:4, 15, 16, 20, 21.

[92] Atos 20:29.

[93] Isto não é algo excepcional. Também sei de vários suicídios entre as Testemunhas, inclusive um que ocorreu quando eu estava na sede internacional, quando um membro do pessoal saltou para a morte do alto de um dos edifícios da gráfica da Sociedade, e outro em 1990, quando um membro antigo do pessoal e ex-membro da Comissão da Gráfica saltou para a morte do terceiro andar de um dos edifícios residenciais da Sociedade. Tenho correspondência que alista um número ainda maior de suicídios conhecidos pelos que escreveram. Quaisquer levantamentos feitos em outros países, especialmente das nações industrializadas, dariam sem dúvida números consideráveis, embora tais assuntos sejam geralmente mantidos em silêncio e jamais publicados.

[94] Entre outras coisas, ele considerava a prática de relatar horas nas ”folhinhas de relatório” como indesejável, achando que isto tinha um efeito coercitivo, algo que até membros do pessoal da sede mundial, como Karl Adams e Robert Wallen basicamente admitiram, como já vimos.

[95] 2 Samuel 1:17-27

[96] O símbolo EF indica que a carta foi escrita por Fred Rusk, do Departamento de Redação da sede mundial.

[97] Ezequiel 34:21, ARA.