O Desejo da Eternidade

Dizem que há três coisas na vida que todos devem fazer antes de morrer: ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. Artistas e escritores de todas as épocas muitas vezes expressaram seu desejo de não desaparecer para sempre e que pelo menos seu trabalho poderia perdurar no tempo. E é fato que a ideia de desaparecer para sempre desta existência, sem deixar vestígios, não costuma ser agradável. Uma pessoa pode contar com seu filho, seu neto e talvez até seu bisneto para se lembrar dela, mas na maioria dos casos ninguém sequer saberá que essa pessoa existiu quando a quarta geração chegar.

Existe uma espécie de água-viva, denominada Turritopsis nutricula que quando se sente em perigo é capaz de reverter seu ciclo de vida; ela rejuvenesce por si mesma em um processo que pode durar indefinidamente. É também chamada de Água-viva Imortal. Alguns mexilhões podem viver 500 anos; existem algumas tartarugas que vivem 200 anos, assim como a carpa Koi; e as sequóias da Califórnia podem atingir 3.000 anos. Embora o ser humano viva em média 70 ou 80 anos, as Escrituras dizem que “Deus pôs a eternidade no coração do homem” (Eclesiastes 3:11). Isto significa que projetamos para o futuro, não importa qual seja nossa idade. A eternidade está “marcada” em nós.

O desejo da eternidade é algo inerente ao ser humano.
Sequóias da Califórnia

Através dos tempos, alquimistas, sábios e médicos almejaram encontrar algum componente ou elixir que concedesse a eternidade ao ser humano. Alguns cientistas consideraram a possibilidade de hibernar de alguma maneira o corpo falecido de uma pessoa, na esperança de que no futuro algum tipo de solução seja encontrada para ativar-lhe a vida novamente.

Além disso, o desejo de permanecer com uma aparência mais jovem e saudável, tem feito com que muitas pessoas vivam somente para cuidar do corpo físico em academias ou gastem enormes quantias em vitaminas, loções e cremes “milagrosos”.

Uma esperança compatível com o desejo da eternidade

No cristianismo, porém, a possibilidade de viver para sempre é encarada como uma realidade. O próprio Jesus afirmou que “todo aquele que tem fé em mim tem a vida eterna” e também que “eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente.” (João 10:10). Sobre Deus se diz “louvem o SENHOR, o Deus de Israel, que vive de eternidade a eternidade.” (Salmo 106:48, NVT). E Jesus disse: “Aquele que ama a sua vida, a perderá; ao passo que aquele que odeia a sua vida neste mundo, a conservará para a vida eterna.” (João 12:25).

É fato que envelhecemos e morremos um pouco a cada dia, desde o momento em que nascemos. O apóstolo Paulo também reconheceu isso, mas sem renunciar à esperança:

“Por isso nunca ficamos desanimados. Mesmo que o nosso corpo vá se gastando, o nosso espírito vai se renovando dia a dia. E essa pequena e passageira aflição que sofremos vai nos trazer uma glória enorme e eterna, muito maior do que o sofrimento.” – 2 Coríntios 4:15-17, NTLH.

Quando se entende isso, pode-se relativizar esta nossa passagem pela existência física que temos, porque se espera uma realidade superior na qual o ser humano alcançará sua plena transcendência. O filósofo Julián Marías expressou isso muito bem quando disse:

A morte é inevitável; o homem termina na morte. Mas a vida não, a vida é projeto e não há porque deixar de projetar. O que significa que a vida humana postula a permanência, postula a vida após a morte, e acredito que o homem deve continuar projetando para depois da morte. Já foi dito muitas vezes que o homem não pode levar nada, como riquezas ou honras. Mas, a pessoa pode sim levar os projetos, o que se quis ser e não foi possível. Penso na vida após a morte como a realização das trajetórias autênticas.” – “La perspectiva cristiana” [A Perspectiva Cristã], Alianza Editorial, 1999.

Ninguém deveria estranhar esse desejo da eternidade porque, de uma forma ou de outra, todos temos isso dentro de nós e a almejamos quando temos saúde e uma vida feliz. Quem se sentiu assim, no fundo da alma, foi Miguel de Unamuno (dramaturgo e filósofo espanhol), que escreveu:

“Não vejo orgulho, nem saudável nem insano. Não estou dizendo que merecemos uma vida além da morte ou que a lógica nos mostra isso; digo é que preciso dela, quer eu mereça, quer não. E nada mais. Digo que o que me acontece não me satisfaz, que tenho sede de eternidade e que sem ela tudo é igual. Eu preciso disso, eu preciso! E sem ela nem há alegria de viver, nem a alegria de viver significa alguma coisa. Isso é muito parecido com dizer: ‘Devemos viver!’, ‘Devemos estar contentes com a vida!’ E aqueles dentre nós que não estão contentes com ela?”

Reflitamos um pouco: Se temos sede é porque existe a água; se temos sede de eternidade, é porque a eternidade também existe. Existem pessoas que gostam de sua profissão ou exercem alguma arte ou ofício durante toda a sua vida, mesmo depois da aposentadoria. Conforme o ator Woody Allen (cineasta americano) costumava dizer “aposentadoria é para pessoas que passaram a vida toda odiando o que fizeram”. O maestro catalão Pau Casals (Pablo Casals) continuou compondo e apreciando a música até bem depois  de seus noventa anos. E ele nunca disse que queria morrer. A música projetava seu coração e sua vida ao futuro e mais além. E Fred Astaire (cantor, ator e coreógrafo americano) tinha isso claro. Neste vídeo, pode-se ver que o corpo dele já não era o mesmo, porque estava com 71 anos na época, mas ele continuava “projetando” para o futuro; ele não parecia ter qualquer desejo de “desaparecer”. Era a eternidade que continuava em seu coração e “marcando” a vida dele.

Sim, nosso espírito se recusa a deixar de existir. Amamos a vida com intensidade porque fomos feitos para viver. E é aqui que a oferta da vida eterna feita por Jesus adquire todo o seu sentido.

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Artigo original: El deseo de eternidad

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