
O “corpo de Cristo” – uma organização religiosa ou uma comunidade do tipo familiar?
Introdução
Se entramos numa relação pessoal com Deus por meio da fé em seu Filho e no sacrifício de seu Filho, não ficamos sós. Tormano-nos parte de um “povo livre” cuja “lei” é a lei do amor, escrita não em tábuas, mas nos corações humanos.1
Todos os que fazem isso são descritos como formando “o corpo de Cristo”.2 Ingressar numa organização religiosa, denominação ou igreja nada tem que ver com fazer parte desse corpo. Tornamo-nos membros desse corpo de Cristo apenas de uma maneira, pela nossa fé. Quem aceitou o Filho de Deus como sua Cabeça torna-se parte desse corpo.3 É a fé individual, pessoal, de cada um que o liga a essa Cabeça, e a liderança orientadora de Cristo continua sempre disponível a cada um como pessoa. Embora fazendo parte de uma coletividade em virtude de uma fé mutuamente partilhada, ninguém depende da intervenção de outro membro ou de um grupo de membros para ter acesso a essa liderança ou receber sua orientação. Pois Cristo é “a cabeça de todo homem” e, através de Cristo, “a manifestação do Espírito é concedida a cada um [a cada homem e cada mulher], visando a um fim proveitoso”, distribuindo Seus dons “a cada um, individualmente”.4 Os “dons são diversos”, há “diversidade nos serviços” e “diversidade nas realizações”, mas o “mesmo Espírito”, o “mesmo Senhor” e o “mesmo Deus é quem opera tudo em todos.”5
Este fato da relação pessoal com Deus e Cristo é declarado de outro modo nas palavras de Jesus registradas no capítulo 15 de João. Ali, ele se apresenta como uma videira, e a seus seguidores como ramos unidos a esta videira. Não se apresenta simplesmente como a raiz da videira dizendo que a congregação é o tronco ao qual seus seguidores devem estar ligados. Tampouco é a ligação com outros ramos o vínculo vital. Este é com Cristo, a videira, e só com ele. É por se apegarem firmemente a ele, só a ele, como a videira vivificante, que todos são levados à unidade. Permanecem nessa videira por ‘permanecerem no seu amor’. Esse amor é a força que os agrupa numa unidade, o corpo de Cristo.6
Como membros desse corpo, é certo também que individualmente somos “membros uns dos outros”.7 Mostra-se que os cristãos não são membros de um sistema religioso, mas de uma comunidade religiosa, um corpo familiar de pessoas sob um chefe de família, o Filho de Deus. O termo “família”, como em “família da fé”, é usado para descrevê-la, e este enfatiza a natureza familiar da comunidade.8 Descrevendo o efeito das boas novas sobre os crentes gentios, em abrir-lhes um novo relacionamento, o apóstolo escreve:
Mas agora em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, fostes aproximados pelo sangue de Cristo. Porque ele é a nossa paz… e reconciliasse ambos em um só corpo com Deus, por intermédio da cruz… porque, por ele, ambos temos acesso ao Pai em um Espírito. Assim já não sois estrangeiros e peregrinos, mas concidadãos dos santos, e sois da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular; no qual todo edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor; no qual também vós juntamente estais sendo edificados para habitação de Deus no Espírito.9
É verdade que, embora chamados de “família de Deus”, fala-se deles também como “concidadãos”, membros de uma “nação santa”.10 Isto pode parecer dar apoio a um forte aspecto “organizacional” para essa comunidade. Mas apesar de os cristãos serem comparados a uma nação, não se atribui ênfase alguma ao conceito de uma organização terrestre visível. Eles são lembrados de que sua “cidadania existe nos céus”, e que devem ser como os homens da antiguidade, que aguardavam “a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e edificador”, a “uma pátria superior, isto é, celestial.”11 São todos “concidadãos” de igual posição, e seu único governante é celestial. São concidadãos, de fato, em virtude de terem todos a Cristo como seu Rei, e por não terem nenhum governante terrestre, nem qualquer forma de corpo governante servindo numa capital terrestre — em Jerusalém, Roma, Nova Iorque ou qualquer outro lugar — por meio da qual fluem as leis e diretrizes. O canal do rei é através do Espírito santo, que guia, dirige e instrui. Se os apóstolos tivessem querido enfatizar o conceito de organização, esta analogia de uma nação teria sido ideal para fazê-lo. Em vez disso, em seus escritos, apenas raramente fazem referência a este aspecto e nunca o destacam como algo dominante. Por outro lado, é à relação familiar que se dá o destaque maior. Quando se dirigem aos concrentes, nunca dizem “meus concidadãos”, mas constante e predominantemente “meus irmãos”. (Do mesmo modo, embora constituam um templo espiritual e um sacerdócio real, não se dirigem aos outros como “meus co-sacerdotes”.)12 Todos fazem parte da família de Deus, irmãos e irmãs numa única família sob Cristo.13 O próprio Cristo tinha lançado o alicerce para este conceito de família, dizendo:
“Quem é minha mãe e meus irmãos?” E, correndo o olhar pelos que estavam sentados ao redor, disse: “Eis minha mãe e meus irmãos. Portanto, qualquer que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e mãe.”14
No mesmo espírito, Paulo escreveu a Timóteo:
Não repreendas ao homem idoso, antes exorta-o como a pai; aos moços como a irmãos; às mulheres idosas, como a mães; às moças, como a irmãs, com toda a pureza.15
Por que, em face de toda esta evidência e do exemplo apostólico, desejaria um sistema religioso preferir dar maior ênfase a um conceito organizacional do que a esta relação familiar? A razão evidente é porque a última, se realmente aplicada, não favorece uma atitude autoritária, pois nesta família, “um só é o vosso Pai, o celeste”, e “um só é o vosso Mestre e todos vós sois irmãos.”16
A ekklesia cristã do primeiro século
A expressão mais freqüente encontrada nas Escrituras Cristãs para descrever coletivamente os cristãos é o termo grego ekklesia, geralmente traduzido como “igreja” ou “congregação”. É notável, porém, que este termo em si não tenha significado religioso intrínseco. Seu uso comum no grego descrevia uma “assembléia” de cidadãos convocados para decidir assuntos que afetavam seu bem-estar. É neste sentido típico, secular e não-religioso que é usado em Atos 19:32, 39, 41, ao descrever a reunião dos prateiros de Éfeso convocada às pressas. É evidente que, em si, ele não traz nenhuma ideia de uma “organização” no sentido de um arranjo estruturado, mas simplesmente a de um agrupamento de pessoas para considerar alguma questão de interesse mútuo, ou das próprias pessoas assim reunidas.17
No primeiro século, os cristãos não “pertenciam” a uma eclésia, igreja ou congregação local, no sentido de pertencerem ou serem formalmente filiados a uma organização religiosa. Se se reuniam com outros, eles faziam, em virtude do ato de se reunir, parte do “agrupamento” ou “assembléia” (ekklesia) local. O “chamado” que os congregava não vinha de alguma autoridade religiosa. Era o chamado das boas novas que os atraía, não um mero chamado para partilhar suas próprias ideias e opiniões, mas primariamente para ouvir a mensagem de Deus. E ao longo dos dois primeiros séculos, quando se reuniam, não era em edifícios religiosos especiais, mas nos lares.18 Considerando o termo ekklesia conforme usado por Paulo em suas primeiras cartas, o erudito Robert Banks afirma:
…nunca, durante este período, o termo é aplicado ao edifício no qual os cristãos se reuniam. Quer consideremos as pequenas reuniões de apenas alguns cristãos de uma cidade quer as reuniões maiores de toda a população cristã [daquela cidade], é na casa de um dos membros que a ekklesia se realiza ― por exemplo, no ‘quarto de andar superior’ [Atos 20:8]. Até o terceiro século não temos evidência de que edifícios especiais fossem construídos para as reuniões cristãs e, mesmo depois disso, seu modelo era o das salas em que se recebiam convidados nas típicas casas de família romana e grega.19
Do mesmo modo, o comentário The Expositor’s Greek Testament afirma:
Até o terceiro século não temos nenhuma evidência segura da existência de edifícios de igrejas para propósitos de adoração; para este fim, todas as referências apontam para casas particulares.20
Visto que eles próprios constituíam um “lugar para Deus habitar” espiritual, não necessitavam de edifícios especiais para adoração (tampouco o fato de Deus “habitar” neles limitava-se a certos horários de certos dias).21 Como mostra a evidência arqueológica, as casas naquela época raramente tinham uma sala capaz de receber mais do que cerca de quarenta pessoas.22 As reuniões, portanto, eram relativamente pequenas. Tais reuniões em lares proviam um contexto em que a sensação de relação familiar podia se desenvolver, pois geravam uma atmosfera em que a manifestação dos vínculos que os uniam numa fraternidade, favoráveis a essa sensação de fraternidade, crescessem e se aprofundassem. Podiam mais prontamente vir a conhecer melhor uns aos outros, conscientizar-se mais das necessidades, interesses e preocupações mútuas.
Esta imagem de congregação pode ser muito diferente do conceito hoje prevalecente da maioria das pessoas, e certamente difere daquilo a que a maioria está acostumada. Todavia, ela envolve um aspecto talvez ainda mais fundamental do cristianismo e do sentido básico da palavra “congregação” ou “igreja” (ekklesia) em termos cristãos. Destacando isto, o conhecido erudito suíço Emil Brünner escreve:
Onde se prega e se crê na Palavra de Deus, onde dois ou mais se reúnem em nome de Cristo, ali está a Igreja. Mesmo que se diga qualquer coisa além disso a respeito da Igreja, esta é fundamental. Esta declaração nunca — nem mesmo nos dias atuais ― foi compreendida em toda a sua força revolucionária. A reunião de dois ou três deve ser reconhecida como Igreja, ainda que numa forma imperfeita. Quando um pai reúne a família ao seu redor para lhe explicar o Evangelho à sua maneira humilde e simples, ou onde um leigo, motivado por um coração pleno, proclama a Palavra de Deus a um grupo de jovens, ali está a Igreja. Quem se afastar desta regra, quem achar que algo mais tem de ser acrescentado para tornar isto uma verdadeira Igreja, entendeu mal o significado do próprio âmago da Fé evangélica.23
A maioria hoje acha que “algo mais tem de ser acrescentado”. A própria simplicidade da questão vai contra seu conceito de “congregação”. As religiões geralmente buscam acoplar à ideia de “organização” ou “denominação” a ideia de uma estrutura de autoridade como algo necessário para validar qualquer agrupamento como “verdadeira” congregação cristã. A mensagem bíblica não apóia isso. A promessa de Cristo não as apóia.24 Isso não quer dizer que devamos contentar-nos com uma reunião de dois ou três, nem deve isso reduzir o empenho de alcançar outros mais, mas é suficiente para que se apliquem as palavras de Cristo: “Ali estou no meio deles.” O acréscimo de cem ou mil pessoas às duas ou três, a transferência do local de reuniões para um grande edifício, ou a presença de uma dúzia ou mais de homens com cargos designados por uma organização, não acrescenta um milímetro à “realidade” de que aquilo é um agrupamento ou congregação cristã. A presença do Filho de Deus, o Cabeça da congregação, é a única validação necessária.
Reunindo-se para encorajar ao amor e às boas obras
Estes fatos nos ajudam a apreciar o sentido e a força desta exortação muito citada:
E consideremos uns aos outros para nos incentivarmos ao amor e às boas obras. Não deixemos de reunir-nos como igreja, segundo o costume de alguns, mas procuremos encorajar-nos uns aos outros, ainda mais quando vocês veem que se aproxima o Dia.25
A liberdade cristã não admite a apatia para com outros, viver apenas para si mesmo. O amor une as pessoas. Como membros do corpo de Cristo, somos individualmente “membros uns dos outros”.26 Será, então, que esta ênfase a reunir-se declarada no texto citado, limita nossa liberdade cristã, inibe nossa manifestação dela, ou mais uma vez nos sujeita à lei, a regras? Pelo contrário, ela confere maior significado e maior valor à nossa liberdade.
Não há nada relacionado com a rigidez ou o formalismo das obras da lei no nosso interesse pessoal pelos outros, em mostrarmos afeição fraternal por eles e por seu crescimento espiritual, em buscarmos nos reunir fraternalmente com eles. Tampouco vemos na exortação de Hebreus 10:24, 25 ou qualquer outra parte das Escrituras um conjunto expresso de regras regulando as reuniões entre os concrentes.27 Embora alguns usem este texto como uma espécie de “cassetete” espiritual para impor o estrito comparecimento a reuniões de rotina realizadas em datas específicas, isto exige que se vá além do que a exortação diz. A palavra grega neste texto traduzida por “deixemos” (ou traduções similares) implica em deserção ou abandono, algo muito mais sério que a mera irregularidade ou faltas ocasionais no comparecimento às reuniões.28 Tampouco há nada que mostre que os apóstolos de Jesus tenham alguma vez descrito a assistência a essas reuniões como de maior mérito na “adoração” que outras expressões de amor e fé feitas na vida cristã diária. Não encontramos esta ideia em nenhum escrito apostólico. Como explica a obra já citada, os cristãos aprenderam, ou foram encorajados a aprender que:
…a adoração envolve a vida da pessoa como um todo, cada palavra e ação, e não conhece local ou hora especial… Visto que todos os lugares e horas tornaram-se agora palco para a adoração, Paulo não pode falar de cristãos que se reúnem na igreja [ekklesia] distintivamente com este objetivo. Eles já estão adorando a Deus, de modo aceitável ou inaceitável, em tudo que estiverem fazendo.29
Ao considerar a evidência bíblica da primitiva comunidade cristã, o fato notável é que simplesmente não encontramos nenhum padrão sobre como devem ser as reuniões cristãs. De início, depois de Pentecostes, os apóstolos e outros reuniam-se diariamente no templo para debate e exortação.30 Não é realista presumir que a maioria seria capaz de fazer isso após aquele período inicial, e não há qualquer indício de que o faziam. O fato de partilharem refeições com seus irmãos em vários lares é mencionado junto com as reuniões no templo, e, visto que as refeições eram muitas vezes ocasiões para que os cristãos transmitissem informalmente benefícios espirituais, era isto o que provavelmente ocorria neste caso.
Em Éfeso, durante os primeiros três meses Paulo fez reuniões na sinagoga em base semanal, cada sábado.31 Ao se mudar da sinagoga, proferia “diariamente discursos no auditório de Tirano”, fazendo isto por dois anos.32 Não é lógico supor que os que se reuniam com ele eram as mesmas pessoas, todo dia, já que poucas pessoas podiam estar livres para gastar seu tempo deste modo durante dois anos. Sabemos que Paulo estava ali dia após dia; não sabemos definitivamente de alguém mais que estivesse. Tampouco há nada que mostre que dali em diante em Éfeso — ou em algum outro lugar — os cristãos se reunissem com idêntica freqüência. Em muitas cidades do império romano a população escrava era muito grande, compondo plenamente um terço da população das maiores cidades, tais como Roma, Éfeso, Antioquia e Corinto.33 Embora muitos destes não fossem meros trabalhadores mas tivessem às vezes posições de alta responsabilidade, ainda é improvável que a maioria dos escravos estivesse livre para assistir reuniões à vontade.
Fora estes relatos do livro de Atos, as Escrituras Cristãs, embora cheias de todo tipo de exortações, simplesmente não trazem esboço ou recomendação de qualquer programa específico para as reuniões cristãs, com respeito a horários, freqüência ou formato. A exortação para reunir-se existe, sendo o amor ao próximo a força motivadora. Declara-se que o objetivo e propósito essencial é estimular-se ao amor e às obras excelentes; mas a maneira e a forma estão em aberto.
Este aspecto de reuniões informais entre os primitivos cristãos permitia que as pessoas se expressassem, fossem elas mesmas, falassem de sua própria mente e coração, não simplesmente repetissem uma matéria fornecida, participando numa sessão de perguntas e respostas rigidamente controlada, pré-programada, catequética. As pessoas vinham realmente a conhecer umas às outras, saber como de fato encaravam as questões, não simplesmente ouvindo pessoas fazerem declarações que na verdade representavam o raciocínio e os conceitos de outras, não os do próprio indivíduo.
Na falta do rígido controle de uma estrutura de autoridade, o que impede que tais reuniões degenerem em debates sobre opiniões dissidentes? Mesmo durante a época dos apóstolos, que tinham uma autoridade especial divinamente designada, não há nada que mostre que eles ou quaisquer outros, individual ou coletivamente, exercessem um controle rígido sobre as reuniões e debates dos cristãos. A mais extensa, talvez praticamente a única explanação sobre reuniões é a de Primeira aos Coríntios, capítulo 14. E ali a única ênfase que se dá é à ordem básica e respeitosa e à busca de transmitir entendimento.
Em outras partes, é claro, há exortações contra debater e falar de modo antagônico, envolver-se inutilmente em discussões e práticas igualmente negativas.34 Mas, em vez de exercer um poder coercivo sobre os crentes, o meio de combater estes erros era principalmente persuasivo, enfatizando e incentivando qualidades positivas.
Esta abertura, portanto, representava tanto uma oportunidade como uma prova. Exigia que todos os participantes demonstrassem que de fato se reuniam para edificar-se uns aos outros e encorajar-se ao amor e a obras excelentes — não meramente para exibir conhecimento pessoal ou promulgar e debater teorias pessoais. Ao invés, iam para mostrar consideração aos outros, exercendo autodomínio para o bem de todos, manifestando humildade, paciência, compreensão, companheirismo, compaixão e interesse sincero em refletir a chefia do Filho de Deus.35 Estes são os verdadeiros remédios contra confusão e contendas, a fonte apropriada de paz e harmonia. São fruto do Espírito santo de Deus, e esse Espírito é que serviria de elemento controlador, preservando a ordem e assegurando às reuniões ambiente e qualidade saudáveis e proveitosos.36 Desde que as pessoas mostrassem o espírito de profundo respeito pela chefia de Cristo, vendo-o como estando “entre eles”, ainda que seu número visível pudesse ser aparentemente tão insignificante quanto dois ou três, as questões não fugiriam ao controle nem degenerariam em disputas inúteis e perniciosas.37 O mesmo se aplica à nossa época.
As divisões surgem quando as pessoas tentam tornar definido, explícito e conclusivo aquilo que as próprias Escrituras deixam indefinido ou sujeito a mais de um entendimento possível. Surgem quando as pessoas transformam coisas de menor importância em grandes questões; quando tentam formular regras a partir do que é simples conselho ou declaração geral de um princípio. Podem surgir também quando as pessoas deixam de reconhecer que, enquanto elas próprias têm uma relação pessoal com Deus e Cristo, o mesmo ocorre com todos os irmãos e irmãs, e que ninguém tem uma “linha de comunicação” especial com Deus e seu Filho que não esteja disponível a cada membro do corpo. Isto pode nos proteger de pensar que temos um discernimento exclusivo ou uma relação especialmente íntima que nos separa de outros, que nos torna um “canal” divino para eles.
Quando Paulo escreveu aos Coríntios aconselhando-os a estar “unidos na mesma mente e na mesma maneira de pensar”, o contexto mostra que estava pedindo, não a uniformidade total no entendimento de cada ponto das Escrituras, mas sim para pôr de lado as atitudes desagregadoras que os estavam separando em facções, de modo que pudessem ter disposição e perspectiva unidas.38
A prova da verdadeira unidade não é a uniformidade de crença em cada ponto. As cartas de Paulo, quase sem exceção, mostram que entre os cristãos de diferentes lugares aos quais escreveu, alguns encaravam certos assuntos de modo diferente de outros. A unidade cristã se prova genuína quando existem diferenças de ponto de vista e assim mesmo as pessoas que têm estas opiniões divergentes não permitem que isto as divida. E fazem isto por reconhecerem que, embora divergindo no entendimento de certos pontos, fazem parte de uma família espiritual que partilha uma fé comum baseada em ensinos claramente declarados e fundamentais, contidos nas boas novas.39 O amor é que “é o perfeito vínculo de união”, não a uniformidade, e muito menos a uniformidade imposta por homens.40
Isto também provê o clima favorável no qual o conhecimento e o entendimento podem crescer e se aprofundar. Diferenças de ponto de vista, em vez de dividir, podem motivar pessoas a um esforço maior para compreender — tanto no que se refere à opinião em si como à pessoa que a expressa. As diferenças podem nos levar a estudar e refletir mais, de modo a podermos lidar com qualquer problema que essas opiniões possam apresentar, e podem nos impelir ao esforço de achar uma solução para elas no amor. Podem, desta maneira, resultar em tornar evidente quão genuíno é o cristianismo de cada um, exatamente como indica o apóstolo em 1 Coríntios 11:19.
Assim, a liberdade cristã nos apresenta um desafio em nossa relação com outros, pois requer que demonstremos ter verdadeiramente “a mente de Cristo”.41 Se constante e sinceramente ‘nos apegarmos a ele como nossa cabeça’ em todas as coisas e em todas as épocas, jamais falharemos em mostrar ser membros harmoniosos “que se pertencem uns aos outros” em seu corpo de seguidores.42
É necessária uma estrutura de autoridade?
Como vieram a existir congregações cristãs no primeiro século? Nada há que indique que as pessoas eram “organizadas” numa congregação. Como se formava uma congregação? Formava-se simplesmente em resultado de as pessoas se congregarem, fazendo-o em razão da fé mútua e do interesse mútuo em edificar uns aos outros na fé. Que dizer então dos diferentes termos encontrados nas Escrituras Cristãs, tais como ancião, superintendente, diácono, instrutor, pastor?
Neste respeito, as circunstâncias do primeiro século podem servir de modelo. Este não pode, contudo, ser um modelo preciso. A razão é que nem todas as circunstâncias permanecem hoje as mesmas.
Lemos que os da casa ou família de Deus foram “edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a pedra angular.” Embora não esteja presente na terra, Cristo Jesus permanece conosco, “no qual todo edifício, bem ajustado, cresce para santuário dedicado ao Senhor.”43 Mas esse não é o caso dos apóstolos. Eles já não estão aqui. O próprio fato de que serviam de ‘fundamento’ ou ‘alicerce’ implica em que suas funções se ajustavam aos estágios iniciais do cristianismo. Os “profetas” citados podem ser profetas cristãos, em vez dos profetas pré-cristãos das Escrituras Hebraicas.44 Se for assim, o fato de que os profetas são mencionados do mesmo modo que os apóstolos indicaria um papel inicial similar no cristianismo, papel que, como o dos apóstolos, estava destinado a acabar.45
Como muitas outras religiões, as Testemunhas de Jeová crêem que não existe sucessão apostólica além do primeiro século. Todavia, como vimos, mesmo não assumindo o título de apóstolo, nem dizendo que ocupam o cargo de apóstolo, homens de diferentes religiões tentam revestir-se da autoridade apostólica. O Corpo Governante das Testemunhas de Jeová assume uma autoridade igual a dos apóstolos, chegando às vezes a ir além da dos apóstolos.46 A liderança de várias outras religiões faz o mesmo. Só podemos ser “apostólicos” hoje no sentido de nos apegarmos ao ensino apostólico. Além de Cristo Jesus, do Espírito santo e da Palavra de Deus, aqueles poucos homens eram, em virtude de sua designação divina, a única fonte externa de autoridade que qualquer grupo congregado de cristãos podia corretamente reconhecer. Mas sua designação e autoridade apostólicas divinamente recebidas eram exclusivas. Não existem hoje. Isso tem um efeito considerável sobre nosso entendimento de como certas circunstâncias da etapa inicial do cristianismo podem diferir da nossa própria época.
Um arranjo dinâmico — não estático
Outro fator de peso para nossa compreensão é o princípio estabelecido em Efésios 4:11-16. Este afirma que os serviços prestados por pessoas nas congregações, inclusive os providos por apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e instrutores, visavam todos a levar as pessoas a um objetivo. Como vimos, o objetivo era, não que permanecessem como crianças, precisando que outros os instruíssem e pastoreassem, mas que “crescessem em tudo naquele que é o cabeça, Cristo.”47 O passar do tempo diminuiria a necessidade de outros lhes prestarem tais serviços e aumentaria sua própria capacidade de agir como pessoas adultas, maduras, que não estivessem constantemente dependentes de outros. Na carta aos Hebreus, o autor reprova aqueles a quem escreve, dizendo: “Depois de tanto tempo, vocês já deviam ser mestres.”48
Todo sistema religioso que perpetua a dependência de seus membros aos serviços de certos homens trabalha contra o objetivo estabelecido. Não se trata de esperar que cada pessoa se desenvolva para tornar-se igual a todas as outras, tendo as mesmas capacidades ou “dons” em igual medida. Mas todos deviam tornar-se cristãos “adultos”, maduros em entendimento e capacidade de levar uma vida cristã, de tomar decisões maduras por sua conta, não de outros. Todos devem ser membros ativos do “corpo de Cristo”, não apenas recebendo o serviço de outros membros, mas cada um contribuindo, por si mesmo, com serviço valioso e proveitoso. Esse é o quadro que nos transmitem as Escrituras Cristãs.49
Em vez de continuar na constante necessidade do serviço de pastoreio de outros, têm de se fortalecer para que eles mesmos sejam capazes de ajudar outros. Não é aos encarregados da igreja ou líderes organizacionais, mas aos cristãos da Galácia, em geral, que Paulo escreve:
Irmãos, se alguém for surpreendido nalguma falta, vós que sois espirituais, corrigi-o, com o espírito de brandura; e guarda-te para que não sejas também tentado. Levai as cargas uns dos outros, e assim cumprireis a lei de Cristo.50
Explicando esta exortação, diz um comentário:
É bem impressionante que ‘amar uns aos outros’, ‘levar as cargas uns dos outros’ e ‘cumprir a lei’ sejam três expressões equivalentes. Mostra que amar uns aos outros como Cristo nos amou pode nos levar não a algum feito heróico e espetacular de auto-sacrifício, mas ao ministério muito mais mundano e não-espetacular de levar cargas. Quando vemos uma mulher, uma criança ou uma pessoa idosa levando uma caixa pesada, não nos oferecemos a levá-la por ela? Assim também, quando vemos alguém com uma carga pesada no coração ou na mente devemos estar prontos a acompanhá-lo e partilhar sua carga. De modo similar, temos de ser humildes o bastante para deixar que outros partilhem a nossa. Levar cargas é um grande ministério. É algo que todo cristão pode e deve fazer. É a conseqüência natural de andar pelo Espírito. Cumpre a lei do Cristo.
Ênfase ao serviço e à função, não ao cargo e à posição
Um fator final que requer consideração é que as várias designações de pastor, instrutor, evangelizador, e assim por diante, descrevem serviços a serem prestados, trabalho a ser feito em favor da comunidade cristã, não cargos no sentido de posições institucionais num arranjo estruturado.51 Como vimos, o apóstolo de fato menciona “apóstolos, profetas, mestres” quando compara a comunidade cristã ao corpo humano. Mas, antes disso, descreve os dons espirituais que habilitam a todos, a cada um dos membros, (incluindo assim os apóstolos, profetas e mestres) a cuidarem uns dos outros, e ao fazê-lo ele chama a atenção, não para cargos ou posições organizacionais, mas serviços e trabalho, dizendo:
Há variedades de serviço, mas o mesmo Senhor. Há muitas formas de trabalho, mas todas estas, em todos os homens, são trabalho do mesmo Deus. Em cada um de nós o Espírito é manifestado de uma maneira particular, para algum propósito útil… Mas todos estes dons são trabalho do único e mesmo Espírito, distribuindo-os separadamente a cada indivíduo assim como quer.52
O apóstolo Paulo demonstra a ênfase ao serviço ou atividade realizada, não ao cargo, por utilizar às vezes simplesmente uma forma verbal em vez de um substantivo. Como ilustração, se alguém usa o substantivo “presidente” transmite-se imediatamente a ideia de um cargo. Se, em vez disso, usa-se a forma verbal “presidir”, a ideia passa a ser de ação, não de cargo ou posição. No versículo 28 do trecho da carta de Paulo aos Coríntios do qual se tirou a citação anterior, junto com substantivos tais como “apóstolos”, “instrutores” e “profetas”, o apóstolo alista também algumas formas verbais, literalmente “ajudar” e “dirigir”.53 Algumas traduções convertem estes verbos em substantivos tais como “ajudadores, administradores” (Revised Standard Version), “ajudadores, bons líderes” (Jerusalem Bible), “ajudadores, conselheiros” (Phillips Modern English), “assistentes, administradores” (New American Bible). Outras traduções, reconhecendo claramente que o que ali se descreve não são posições oficiais mas funções e serviços, traduzem estas expressões por “formas de assistência, formas de liderança”, (New Revised Standard Version) “prestar ajuda, administração” (NVI), “assistência e direção” (TEB). Conforme declara o erudito Robert Banks:
Estas [as duas formas verbais gregas] significam simplesmente prestar assistência e dar orientação de modo menos personalizado… as ‘ações de ajuda’ e as ‘iniciativas práticas’ são tão próximas quanto possível. Mais uma vez, estes termos não são de caráter técnico. Certamente, não têm que ver com posições oficiais na igreja. Sua aplicação a funções, mais que às pessoas que se empenham nelas, sua posição no final da lista dos dons e, talvez, sua ocorrência apenas aqui no Novo Testamento, todas apóiam isto.54
Relacionado com isto, achamos, no New International Dictionary of the New Testament, Vol. I, página 197, este comentário:
Este autor crê que ainda não existiam quaisquer cargos institucionalizados ou precisamente diferenciados na igreja que Paulo conheceu… Isto é confirmado pela lista de dons em Rom. 12:8, onde prohistamenos [“prover direção” ou “cuidar”] é caracterizado por spoude (zelo). O prohistamenos é alistado aqui junto com didaskon (aquele que ensina), parakalon (aquele que exorta) e eleon (aquele que pratica atos de misericórdia) Todas estas palavras são formas verbais que sugerem mais uma atividade que um cargo.
Outro fator que se deve ter em mente, se quisermos desenvolver um ponto de visto exato neste setor, é que muitas vezes as palavras do idioma original permitem uma variedade bastante ampla de significados. Alguns tradutores optam pelos significados que apóiam o conceito de um arranjo estruturado e de considerável autoridade oficial. Como exemplo, a New American Bible emprega em Romanos 12:8 a expressão “o que governa deve exercer sua autoridade com cuidado”. Aqui a expressão “o que governa” traduz o grego ho proistámenos (literalmente, o que fica na dianteira). Outras versões que dão sentido de autoridade à sua tradução, usam termos como “quem tem autoridade” (BLH), “líder” (NEB), “liderança” (NVI), “que preside” (ARA, BJ e TEB), “encarregado” (American Translation). Todavia, a Revised Standard Version traduz esta mesma expressão simplesmente por “aquele que dá ajuda”. Por que esta diferença?
É porque o termo da língua original (proistemi) tem ampla gama de significados. As fontes mostram que pode significar liderar, dirigir, assistir, proteger, representar, cuidar, apoiar, preocupar-se, dedicar-se.55 O contexto nos orienta quanto ao significado envolvido, e, geralmente, nos lugares onde este termo aparece nas Escrituras Cristãs, os tradutores escolhem entre os dois sentidos de “liderar” e “cuidar”.56 Os que tendem para o lado da autoridade fazem isso; os que preferem o sentido de cuidar e apoiar também mostram isso por meio de sua tradução. Seja como for, a tradução “aquele que dá ajuda” tem plena validade e certamente se harmoniza bem com o espírito geral das Escrituras Cristãs, e particularmente com o exemplo e o espírito do Filho de Deus.
A mesma expressão ocorre em 1 Tessalonicenses 5:12, onde encontramos esta exortação (da New Revised Standard Version):
Apelamos-vos, irmãos e irmãs, para que respeiteis os que labutam entre vós, e que estão encarregados de vós no Senhor e vos admoestam.
Mais uma vez encontramos um amplo espectro de versões desta expressão. Algumas rezam: “os que os presidem no Senhor” (ARA); “vos são superiores… no Senhor” (BJ); “que os lideram no Senhor” (NVI). Outras traduções, contudo, rezam: “velam por vós no Senhor” (TEB) e “aqueles que o Senhor escolheu para guiá-los” (BLH). Neste versículo, novamente, como em 1 Coríntios 12:28, não se usam substantivos, mas as três formas verbais “trabalhar”, “cuidar (ou presidir)” e “ensinar (ou admoestar).” Mostrando a diferença que isto faz, Banks comenta:
Juntas, estas três palavras simplesmente indicam o esforço despendido por tais pessoas em realizar suas tarefas, o caráter de apoio de seu trabalho e a nota de exortação e advertência que lhe é apropriada… o que se considera aqui não são posições oficiais dentro da comunidade, mas funções especiais.57
Conceitos rígidos gerados por preconceitos
Além das tendências de certas traduções, nós mesmos podemos nos permitir ser influenciados em nosso entendimento do passado por aquilo a que hoje estamos acostumados. Temos a tendência natural de transpor ou projetar para trás os conceitos costumeiros atuais, sobrepondo-os a circunstâncias passadas. Se vivemos numa sociedade altamente organizada, ou estamos acostumados a um sistema religioso estruturado, talvez permitamos que isto influencie nosso entendimento das expressões bíblicas de modo a ir além do que mostra a evidência.
Se vemos a palavra “ministro” num texto bíblico, talvez pensemos nos “ministros” religiosos conforme os entendemos hoje. No entanto, a palavra usada pelos escritores cristãos (diakonos) significa apenas “servo, ajudante, assistente”.58 O sentido modesto, humilde, que a palavra transmite talvez seja mais bem expresso na declaração de Jesus:
“No mundo, os governantes dominam sobre os seus súditos, e seus grandes homens os fazem sentir o peso da sua autoridade; mas não será assim entre vós. Entre vós, quem quiser ser grande tem de ser o vosso servo [diakonos, “ministro” (NM)] e quem quiser ser o primeiro tem de ser servo disposto de todos ― como o Filho do Homem; ele não veio para ser servido [do verbo diakoneo], “para que se lhe ministrasse” (NM), mas para servir.”59
Neste sentido básico, todo cristão, não só uma ou poucas pessoas de um grupo, devem ser “ministros”, isto é, pessoas que se põem a serviço de outros. Ser “ministro” neste sentido é bem diferente do que a maioria das pessoas hoje entende como o significado do termo.60
A mesma palavra grega é vertida por “diácono” em certos casos, e isto também talvez nos faça pensar em termos de cargos eclesiásticos, embora o sentido, outra vez, seja simplesmente o de “ajudador” ou “assistente”, alguém que serve de algum modo necessário.61 As Escrituras não dão detalhes nem estabelecem funções específicas ou formas de serviço para os chamados a servir em benefício de um grupo.
As traduções amiúde vertem o termo episkopos como “bispo” e é quase impossível ao leitor não pensar em termos de cargo eclesiástico neste caso.62 Mesmo onde aparece a tradução mais correta “superintendente”, porém, pode ainda haver a tendência de pensar em superintendência num sentido oficial e organizacional. Eu pensava assim até preparar o artigo “Superintendente” para a obra Ajuda ao Entendimento da Bíblia, e descobri então que o sentido básico do termo de modo algum exige tal conceito. Conforme diz a matéria preparada para essa obra com relação ao sentido original do termo:
Assim, o Theological Dictionary of the New Testament… mostra que as formas verbais (episkópeo e episképtomai) eram empregadas no sentido secular básico de “encarar, considerar, mostrar consideração por algo, ou alguém”, “velar por”, “refletir sobre algo, examiná-lo, submetê-lo à investigação”, e “visitar”, sendo empregado neste último sentido especialmente ao se falar de visitas aos doentes, quer por parte de amigos, que lhes ministravam, quer por parte dum médico. O mesmo dicionário mostra que a Septuaginta emprega tais termos no sentido mais profundo de “preocupar-se com algo”, “cuidar de algo” e o aplica desta forma a um pastor e suas ovelhas.63
Visto que, em seu uso secular, o termo (episkopos) pode ser usado para significar superintender, escrutinar e inspecionar, poderíamos sobrepor às referências das Escrituras Cristãs a ideia de um superintendente ou supervisor organizacional que “superintende” a atividade de outros, inspecionando-os e exortando-os em seu trabalho designado.64 Mas por que deveríamos fazer isso quando o próprio termo não exige? Mesmo onde essa definição pode ser admissível, por que adotá-la em vez do sentido igualmente básico e válido do interesse cuidadoso, de velar por uma pessoa ou visitá-la por se preocupar com suas necessidades? Certamente esse sentido se harmoniza muito mais com o espírito das declarações de Cristo a seus discípulos, os princípios de serviço humilde que estabeleceu. Paulo captou este espírito quando afirmou:
Não dominamos a vossa fé, mas cooperamos [colaboramos, BJ] para a vossa alegria, pois, quanto a fé, estais firmes.65
Os anciãos da comunidade cristã
O termo mais básico relacionado à direção da congregação é “ancião”. Nas línguas bíblicas, a palavra significa simplesmente “pessoa mais idosa”. Seria um erro pensar que o conceito de ancião é algo inerentemente ligado à religião. Na verdade, talvez seja a mais antiga forma de direção comunitária que a história conhece.66 Nos tempos bíblicos, Egito, Moabe, Midiã e Gibeão tinham seus anciãos, que atuavam representando as famílias das comunidades em que viviam.67 Quando Israel se estabeleceu em Canaã, cada cidade e aldeia tinha seus anciãos, que serviam de modo similar.68 Eles não são descritos como uma espécie de corpo fixo de administradores funcionando continuamente de modo oficial. Em vez disso, eram simples e evidentemente indivíduos respeitados que estavam disponíveis sempre que surgia a necessidade, preparados quando chamados a prestar assistência ao lidar com dificuldades ou problemas, quer em favor de uma pessoa quer em favor da comunidade como um todo.69 Não há nada que mostre que havia costume de designar os anciãos israelitas num sentido organizacional ― nenhum rei ou sacerdote os “designava” como anciãos ― nem que fossem vistos como pessoas que ocupavam um “cargo”. A ausência de qualquer evidência neste sentido parece indicar que tratava-se apenas da questão de ser considerado pela comunidade como uma pessoa que manifestava sabedoria e discernimento maduros, e ser tido ou reconhecido como tal pelos que já eram considerados anciãos na comunidade. Era visto como ancião basicamente em virtude daquilo que era como pessoa. O assunto todo reflete a atitude de respeito e deferência demonstrados naqueles tempos para com as pessoas de mais idade e experiência, quer na família quer na comunidade.
Quando se formaram as comunidades cristãs, entrou em vigor um padrão similar de orientação e ajuda. É verdade que lemos que Paulo e Barnabé “designaram anciãos” em várias cidades que visitaram e que Paulo instruiu Tito a fazer “designações de anciãos” (“estabeleças anciãos”, TEB) em locais por toda a Creta.70 O Theological Dictionary of the New Testament, porém, diz sobre Atos 14:23:
No grego secular presbyteros significava simplesmente ‘homem mais maduro’ ― pelo menos fora do Egito. Muito possivelmente Lucas entendeu o termo desta forma em Atos [14:23]. Se o fez, Paulo então designou alguns ‘anciãos’ para uma responsabilidade específica, não algumas pessoas para a posição de ancião.71
Seja como for, estas eram circunstâncias especiais e envolviam a autoridade apostólica, exercida quer diretamente quer por delegação (como no caso de Tito), autoridade que já não existe. É certo que nem todos os anciãos de todos os lugares chegaram a essa condição por visita pessoal de apóstolos ou representantes apostólicos, e nada se diz quanto à condição de ancião ser conferida por correspondência nos tempos cristãos. Assim, eles a obtinham, evidentemente, em virtude de serem estimados localmente como pessoas de discernimento e sabedoria maduros, resultando em serem reconhecidos como irmãos mais velhos por aqueles com quem se congregavam. E como sugere a obra citada acima, nesses casos, qualquer “designação” visava não tornar alguém ancião, mas designar alguém que já era ancião para prestar um determinado serviço dentro da congregação. (Veja o Apêndice para informações adicionais.)
Assim, os arranjos dos tempos bíblicos parecem ter seguido linhas muito naturais. Os cristãos são apresentados como uma fraternidade, com uma atmosfera do tipo familiar.72 Numa família, quando o chefe da casa (neste caso, Cristo) está ausente, os filhos mais velhos geralmente são encarregados de zelar pela família. Seu dever é o de servir a família de modo benéfico e protetor por representar fielmente o chefe ausente, mas nunca agir como se eles mesmos fossem o chefe. Não proclamam sua própria vontade ou instituem regras por sua própria conta, mas em vez disso recordam fielmente aos outros membros da família as coisas que o chefe lhes deixou como conselho, instruções ou padrões a serem seguidos.
Em qualquer grupo de pessoas que hoje se reúnam como crentes cristãos, existirão razoavelmente pessoas que são respeitadas porque demonstram discernimento e sabedoria maduros e que, quando a ocasião exige, podem atender aos pedidos ou às necessidades individuais de alguém, ou podem atuar em favor do grupo como um todo em assuntos importantes. De modo algum as Escrituras estabelecem a “designação” formal como algo essencial. O próprio arranjo familiar retratado nas Escrituras parece ir contra essa formalidade.73
Uma comunidade internacional
Os cristãos do primeiro século se reuniam em grupos relativamente pequenos nos lares, e, uma vez passado Pentecostes, em parte alguma aparecem promovendo grandes assembléias envolvendo grandes números de pessoas vindas de diferentes regiões. Todos, no entanto, faziam parte de uma comunidade, agrupamento ou congregação maior, mundial, em virtude de estarem todos espiritualmente reunidos ao Filho de Deus como seu Cabeça. Como mostramos, esta relação ampliada não se expressava por estarem ligados ou sujeitos a Jerusalém como centro de administração religiosa, pois eles olhavam, em vez disso, para uma fonte celestial como seu centro de orientação. Esta unidade se expressava no seu amor a todos os outros com quem partilhavam uma fé em comum, vistos ou não-vistos, pessoalmente conhecidos ou não, pois esse amor é “o perfeito vínculo de união”.74 Demonstravam sua relação unida por meio da hospitalidade, estendendo-a aos que antes eram estranhos, partilhando suas coisas boas uns com os outros, por vir em socorro dos necessitados onde eles estivessem, partilhando cartas e outras notícias encorajadoras com os que se reuniam em outros lugares, orando por eles, sentindo com eles suas provações e dificuldades, exatamente como os membros de uma família fariam naturalmente uns pelos outros.75 Portanto, faz-se este comentário com respeito à participação de Paulo em tudo isto:
[Ele] buscava edificar relacionamentos duradouros de caráter pessoal em vez de institucional…. Estes grupos cristãos dispersos não expressavam sua unidade por se amoldarem a uma organização jurídica, mas, em vez disso, através de uma rede de contatos diretos entre pessoas que se consideravam membros da mesma família cristã.76
Podemos fazer o mesmo hoje. Temos a liberdade para fazer o mesmo hoje. É correto que desejemos associação. Temos de estar abertos a ela, e não só abertos, mas temos de desejá-la e buscá-la, lutar para mantê-la apesar das imperfeições. No entanto, se prezarmos a liberdade cristã, nunca faremos isto pelo preço de sacrificar a integridade para com a verdade. Lembramos da exortação apostólica: “Vocês foram comprados por alto preço; não se tornem escravos de homens.”77 Não precisamos comprar companheirismo pelo preço de deixar que um sistema religioso nos amarre a seu credo e nos submeta à sua estrutura de autoridade, ou deixar que seus líderes nos façam sentir que devemos ser apoiadores da denominação deles. O vivo interesse, de mente e coração abertos, nas pessoas, a disposição até mesmo de comprometer-se com as pessoas com genuíno interesse e amizade, é uma coisa. Comprometer-se com um sistema é outra.
Na segunda carta a Timóteo, Paulo comparou os adeptos da fé cristã a “uma casa grande”. Essa “casa” está incrivelmente grande em nossa época. Ele descreveu a casa como tendo vasos de tipos opostos, alguns valiosos, e alguns usados apenas para fins ignóbeis. E aconselhou Timóteo a ser criterioso, do mesmo modo como alguém não usaria para comer e beber vasos que eram utilizados para lavar coisas sujas.78 Não que ele tivesse de se considerar acima dos outros, ou não quisesse ter contato com eles, nem mostrar interesse por eles nem ajudá-los. Mas ele discerniria o benefício da associação com aqueles cujas qualidades e atitudes fossem saudáveis, proveitosas, genuinamente edificantes.79 Faremos bem em mostrar tal critério hoje. Em vez de deixar que a pressão para encontrar associações nos faça tomar decisões apressadas, seremos sábios em demonstrar paciência, pesando o efeito que a associação oferecida terá em nossa liberdade cristã, avaliando calmamente seus supostos benefícios, examinando a base do seu atrativo. Pode levar tempo para encontrar companhias que nos edifiquem e sobre as quais possamos ter um efeito edificante ― em liberdade. Mas vale a pena esperar.
Por algum tempo, talvez até enfrentemos certo grau de solidão. Os exemplos que Deus nos dá por meio de seus servos como encorajamento à nossa fé são em grande parte de pessoas que também suportaram épocas de solidão. Alguns até “vagueavam pelos desertos, e pelas montanhas, e pelas covas, e pelas cavernas da terra”! Lembrando deles e da recompensa que lhes foi assegurada, podemos alentar-nos, ‘levantar as mãos pendentes, fortalecer os joelhos debilitados e endireitar as veredas para os nossos pés’ em vez de disparar por um caminho de menor resistência.80 Se a escolha tem de ser feita, podemos sem temor, por certo período, dispensar as associações humanas na convicção de que jamais estamos sós, que mantemos em todas as épocas a amizade transcendente de Deus e seu Filho. Esta é a única sem a qual não podemos passar, tudo o mais podemos fazer, se for preciso. A fé nos assegura que eles nos levarão com eles, sustentarão, fortalecerão e encorajarão com seu amor. À medida que nossos esforços forem recompensados ao fazermos amizades edificantes com outros, poderemos ver isto como algo extra, acrescentado, nunca algo essencial.
Creio que essa perspectiva pode resultar, de fato, em encontrarmos, se não um maior número de amigos, pelo menos amigos mais dignos, genuínos, cuja amizade não esteja condicionada pelo modo como uma organização ou denominação ou homens de autoridade nos encaram, mas por aquilo que nós mesmos somos.
Qualquer que seja o caso, nossa liberdade se fortalece por sabermos que existem amizades superiores, amizades mais vitais. As pessoas podem nos faltar. Não importa quão sinceramente nós as respeitemos, admiremos ou amemos, elas podem nos faltar. As experiências de Davi e daquele a quem ele às vezes tipificou, Cristo Jesus, ilustram vigorosamente isto.81 Mas Deus e seu Filho nunca nos faltarão, nunca nos deixarão “cambaleando”, estarão sempre ali em nosso favor nas épocas de necessidade.82
Notas
1 – Tiago 2:8, 12; Jeremias 31:33-34; Romanos 7:6; Hebreus 8:10-13.
2 – Romanos 12:4, 5; 1 Coríntios 12:12, 13.
3 – 1 Coríntios 10:16, 17; Efésios 4:4-6, 15, 16. A doutrina da Torre de Vigia sobre duas classes de cristãos cria uma situação impossível para aqueles que não são considerados da classe “ungida”. Se não são dessa classe, não estão incluídos no “corpo de Cristo”. Todavia, estes com certeza aceitam a Cristo como sua Cabeça, e assim, como podem eles não fazer parte do corpo de Cristo?
4 – 1 Coríntios 11:3; 12:6-11, ARA.
5 – 1 Coríntios 12:4-6, 27-31, ARA.
6 – João 15:1-17.
7 – Romanos 12:5, ARA.
8 – Gálatas 6:10; confira Efésios 2:19.
9 – Efésios 2:13-22, ARA; confira também 1 Coríntios 6:19.
10 – Efésios 2:19; Hebreus 8:11; 1 Pedro 2:9.
11 – Filipenses 3:20, NM; Hebreus 11:8-10, 15, 16, ARA.
12 – Efésios 2:21, 22; 1 Pedro 2:5, 9.
13 – 1 Timóteo 3:15; 2 Timóteo 2:19-21; Hebreus 3:6; 1 Pedro 4:17.
14 – Marcos 3:33-35, ARA.
15 – 1 Timóteo 5:1, 2, ARA.
16 – Mateus 23:8, 9, BJ.
17 – Veja, por exemplo, a consideração do termo em Paul’s Idea of Community, páginas 34, 35.
18 – Confira Romanos 16:3-5; 1 Coríntios 16:19; Colossenses 4:15; Filêmon 2.
19 – Paul’s Idea of Community, página 41.
20 – Vol. IV, página 212 (comentando o versículo 2 de Filêmon.).
21 – Efésios 2:21, 22.
22 – Veja Paul’s Idea of Community, páginas 41 e 42; St. Paul’s Corinth, Texts e Archaeology, Jerome Murphy-O’Connor (Michael Glazier, Inc., Wilmington, 1983) páginas 153-159.
23 – The Divine Imperative, Emil Brünner (The Westminster Press, Filadélfia, 1937), página 529.
24 – Mateus 18:20.
25 – Hebreus 10:24, 25, NVI.
26 – Romanos 12:5, ARA.
27 – O Expositor’s Greek Testament (Vol. IV, página 347), explicando Hebreus 10:25, comenta que o uso pelo autor da expressão um pouco longa epsynagoge eauton (ajuntando-se entre si mesmos) em vez do simples synagoge (assembléia, congregação), dizendo que synagoge “podia muito bem ter sugerido o edifício e reuniões formais declaradas, enquanto epsynagoge eauton denota simplesmente o ajuntamento dos cristãos.”
28 – Confira seu uso em Mateus 27:46; 2 Coríntios 4:9.
29 – Paul’s Idea of Community, página 92.
30 – Atos 2:46; 5:42.
31 – Atos 19:1, 8. A evidência aponta para o comparecimento similar de muitos cristãos à sinagoga, no início, e evidentemente continuaram a comparecer até que a oposição tornou isso desaconselhável. (Atos 18:24-26; confira João 16:1, 2).
32 – Atos 19:8-10, NEB.
33 – The International Standard Bible Encyclopedia, Vol. V, página 544.
34 – Gálatas 1:13-15; 1 Timóteo 1:3-7; 6:4, 5; 2 Timóteo 2:14-16; Tito 3:9.
35 – Romanos 12:3, 9, 10, 16; Colossenses 3:7, 12-17; 2 Timóteo 2:23-26; Tito 1:9, 13; Tiago 3:13-17; 1 Pedro 4:8-11; 1 Pedro 5:2-5.
36 – Efésios 4:3; Gálatas 5:13-21.
37 – Mateus 18:20.
38 – 1 Coríntios 1:10-17. Sobre a palavra “mente” (grego, nous) conforme usada por Paulo, o Theological Dictionary of the New Testament (Edição Resumida), página 537, afirma: “Ela primeiro significa ‘mente’ ou ‘disposição’ no sentido de orientação interior ou atitude moral.” Confira também Romanos 15:5, 6.
39 – Romanos 14:1-6, 13-22.
40 – Colossenses 3:14.
41 – 1 Coríntios 2:16; 1 Timóteo 6:3-5; Tito 3:2-7.
42 – Efésios 4:15, 16; Colossenses 2:17-19; Romanos 12:5.
43 – Efésios 2:19, 20, ARA.
44 – Confira Atos 15:32; 21:8-10; 1 Coríntios 12:10, 28; Efésios 4:11.
45 – The New International Dictionary of New Testament Theology, Vol. III, página 84, comenta similarmente: “Em Efé. 2:20 os profetas formam parte do ‘alicerce’ da igreja. Esta imagem sugere que o período no qual foram lançados os alicerces da igreja terminou, isto é, o cargo profético é uma coisa do passado. Os apóstolos são no NT o equivalente dos profetas do AT. Juntos eles constituem o alicerce, ‘sendo ele mesmo, Cristo Jesus, a principal pedra angular.’” Note-se que o termo “profeta” no grego original (prophétes) significa basicamente “proclamador, aquele que torna conhecidas mensagens de uma fonte divina”. (Isto foi analisado em detalhes nos artigos que preparei para Ajuda ao Entendimento da Bíblia nos tópicos “Profecia” e “Profeta”, a mesma matéria que se encontra na edição revisada, Estudo Perspicaz das Escrituras.) A proclamação pode envolver ou não predição de eventos e circunstâncias futuras. (Confira Atos 15:30-32.) Os próprios apóstolos, de modo verbal ou por escrito, cumpriram a função essencial de um profeta, e a mensagem divina que divulgaram, dali em diante registrada e preservada, constitui parte integral do alicerce da nossa fé até o dia de hoje. Quaisquer mensagens divulgadas por outros profetas cristãos, não tinham, evidentemente, maior importância, pois não temos mais que duas proclamações registradas, ambas do mesmo indivíduo, Ágabo. — Atos 11:27, 28; 21:10, 11.
46 – Veja os capítulos 4, 5 e 12.
47 – Efésios 4:11-16, ARA.
48 – Hebreus 5:12-14, BLH.
49 – 1 Coríntios 12:4-25; 1 Pedro 4:10, 11.
50 – Gálatas 6:1, 2, ARA.
51 – O termo “cargo” pode, é claro, referir-se a uma obrigação ou tarefa designada, mas infelizmente o conceito de posição e autoridade organizacional é o que logo vem à mente da maioria das pessoas. Enquanto muitas traduções trazem a expressão “cargo” em 1 Timóteo 3:1 com referência ao desejo de um homem servir como superintendente, a redação original do apóstolo não traz um termo equivalente a “cargo”, mas refere-se simplesmente a “superintendência” (episkope). Portanto, algumas traduções trazem versões como: “Se alguém deseja ser bispo (superintendente)”. (NVI) O fato de o apóstolo imediatamente continuar dizendo, “deseja uma nobre função”, mostra também que o que se tinha em vista era um trabalho (grego, ergon), não um cargo ou posição eclesiástica ou organizacional. Confira 1 Coríntios 16:10, 12; Efésios 4:12; 1 Tessalonicenses 5:13.
52 – 1 Coríntios 12:5-11, 28, NEB.
53 – 1 Coríntios 12:28, BLH.
54 – Paul’s Idea of Community, páginas 144, 145.
55 – Theological Dictionary of the New Testament (Edição Resumida), página 938; The New International Dictionary of New Testament Theology, Vol. I, página 193.
56 – São exceções as ocorrências em Tito 3:8, 14, onde o sentido é o de aplicar-se, ocupar-se com, concentrar-se em algo.
57 – Paul’s Idea of Community, página 144.
58 – A forma verbal, por exemplo, é usada em Lucas 10:40, sobre Marta cuidar dos deveres domésticos.
59 – Mateus 20:25-28, NEB.
60 – A organização Torre de Vigia vai além deste sentido básico de serviço em sua insistência de que todas as Testemunhas batizadas são “ministros ordenados”. Esforça-se em compará-los aos ministros denominacionais que ocupam um cargo em virtude de ordenação eclesiástica. Contraste os artigos na Sentinela de 1o de março de 1976 e na de 15 de setembro de 1981. Na última, o batismo é comparado a uma “cerimônia de ordenação”. Veja também Crise de Consciência, capítulo 10, nota de rodapé 13, bem como o apêndice a esse mesmo capítulo.
61 – 1 Timóteo 3:8-13.
62 – “Bispo” é, na verdade, a forma aportuguesada, não a tradução do grego episkopos.
63 – Ajuda ao Entendimento da Bíblia, página 1587. Robert Banks comenta: “Finalmente, os próprios termos episkopos [superintendente] e diakonos [diácono, ministro] devem ser libertados das conotações oficiais eclesiásticas que hoje têm para nós, pois não são essencialmente diferentes dos vários outros termos pastorais que Paulo usa. Não há nenhuma evidência real sugerindo que estes termos tinham qualquer sentido técnico nesta época. Isto é confirmado pelo fato de que, no segundo século, Inácio e Policarpo não têm conhecimento de um padrão episcopal na igreja de Filipos.” ― Paul´s Idea of Community, página 147.
64 The New International Dictionary of New Testament Theology, Vol. I, páginas 188, 189.
65 – 2 Coríntios 1:24, TEB.
66 – Veja Ajuda ao Entendimento da Bíblia, páginas 83 e 84. Poucos percebem que tanto o termo hebraico (zaquen) como o termo grego (presbyteros) para “ancião” correspondem em significado ao árabe “xeque”, ao latim “senator” e ao anglo-saxônico “alderman”, todos eles significando basicamente “homem mais maduro”.
67 – Gênesis 50:7; Números 22:4, 7, 8; Josué 9:3-11.
68 – Josué 20:4; Juízes 8:14, 16.
69 – Confira Rute 4:1-11; Lucas 7:3-5.
70 – Atos 14:23; Tito 1:5. Mesmo esta expressão (em grego, cheirotonéo) está sujeita a uma variedade de entendimentos. O Theological Dictionary of the New Testament (Edição Resumida), página 1312, diz sobre cheirotonéo: “1. Levantar a mão expressa concordância, e desta forma cheirotonéo significa primeiro ‘votar em’. Outros significados que decorrem são ‘selecionar’ e ‘nomear.’… 2. 2 Cor. 8:19 usa o verbo no sentido de ‘selecionar’. Paulo refere-se à pessoa que foi ‘escolhida’ para acompanhá-lo na questão da coleta. Em Atos 14:23 Paulo e Barnabé ‘nomeiam’ os anciãos e depois os estabelecem em seu trabalho com oração e jejum.”
71 – Edição Resumida, página 1312.
72 – 1 Timóteo 4:6; 5:1, 2.
73 – The New International Dictionary of New Testament Theology, Vol. I, página 200, observa que João inicia sua segunda e terceira cartas referindo-se a si mesmo como um presbyteros ou “ancião”, e diz: “R. Bultmann crê que isto represente mais um título honroso para um portador e divulgador da tradição apostólica, e não que fosse membro de um corpo local de anciãos (KEK 14, 7, 95). Isto significava que não era um ocupante de cargo no sentido institucional, mas, em vez disso, um homem grandemente valorizado e respeitado nas igrejas da época, de modo similar ao dos primitivos profetas e instrutores. Sua autoridade residia unicamente na importância do que dizia, no poder da verdade e do Espírito.” Há razão para crer que isto se aplicava a todos os anciãos cristãos ― que a fonte de seu poder e o peso de sua palavra derivavam, não de serem designados por uma organização, mas de divulgarem fielmente a Palavra de Deus, especialmente os ensinos do Filho de Deus, e do poder do Espírito santo de Deus. — 1 Coríntios 2:1-10; 4:19-21; 14:37; 2 Coríntios 3:1-6; 10:1-11.
74 – Colossenses 3:12-14.
75 – Mateus 25:34-40; Romanos 12:10, 13, 15; 2 Coríntios 7:5-7, 13; Filipenses 2:19, 25-29; Colossenses 4:16; 1 Tessalonicenses 5:14, 15; Hebreus 6:10; 10:32-34; 10:1-11.
76 – Paul’s Idea of Community, página 48.
77 – 1 Coríntios 7:23, NVI.
78 – 2 Timóteo 2:20, 21.
79 – Compare 2 Timóteo 2:16-26 com 1 Coríntios 15:1, 2, 12, 33, 34.
80 – Hebreus 11:38; 12:1, 12, 13.
81 – Salmo 35:11-15; 38:11; 55:12-14; confira João 1:11; Mateus 26:20, 21, 33-49, 56; 2 Timóteo 1:15.
82 – 2 Coríntios 4:8, 9; Hebreus 13:5, 6; Salmo 16:5-8; 30:5.
Artigo extraído de Em Busca da Liberdade Cristã, Raymond Victor Franz, capítulo 18.
Imagem em destaque: House Churches in Early Christianity