
“Falsos profetas” – análise de uma tentativa de redefinição
Atualização de um artigo escrito originalmente em 1986.
Introdução
Toda pessoa que conhece a história das Testemunhas de Jeová sabe que a liderança delas elaborou uma longa série de profecias a respeito dos “últimos dias” do mundo e temas relacionados com isso. Essas profecias foram apresentadas ao longo de mais de cento e cinquenta anos e estão documentadas em dezenas de milhões de livros, folhetos, revistas e panfletos publicados pela organização. Trechos de algumas dessas publicações são apresentados a seguir:
O “Tempo do Fim” – 1799 a 1914:
O “Tempo do Fim”, um período de cento e quinze (115) anos, de 1799 A.D. a 1914 A.D., é particularmente marcado nas Escrituras. – Thy Kingdom Come (Venha o Teu Reino), 1891, pág. 23
O estudante atento terá observado que o período designado como “O Tempo do Fim” recebeu um nome muito apropriado, visto que não apenas a Era do Evangelho se encerra nele, mas também nele se concluem todas as profecias relativas ao fim desta era, alcançando o seu cumprimento. Essa mesma classe de leitores terá notado, também, a importância especial dos últimos 40 daqueles 115 anos (1874-1914), chamados de ‘O Fim’ ou ‘A Colheita’. – Thy Kingdom Come (Venha o Teu Reino), 1891, pág. 121.
Destruição de todas as igrejas e seus membros em 1918:
Além disso, no ano de 1918, quando Deus destruir as igrejas em massa e os membros das igrejas aos milhões, acontecerá que aqueles que escaparem recorrerão às obras do Pastor Russell para aprender o significado da queda da ‘Cristandade’. – The Finished Mystery (O Mistério Consumado), 1917, pág. 485.
Destruição de todos os reinos da terra em 1920:
Até mesmo as repúblicas desaparecerão no outono de 1920… Todo reino da terra passará, sendo tragado pela anarquia. – The Finished Mystery (O Mistério Consumado), 1917, pág. 258
Assim como os apóstatas do cristianismo, de mentalidade carnal, ao se aliarem aos radicais e revolucionários, se regozijarão com a herança de desolação que caberá à cristandade após 1918, assim também Deus agirá para com o movimento revolucionário vitorioso; ele será totalmente assolado, “até o último vestígio”. Nem sequer um traço dele sobreviverá às devastações da anarquia mundial e abrangente, no outono de 1920. – The Finished Mystery (O Mistério Consumado), 1917, pág. 542.
Ressurreição dos santos falecidos em 1878 e glorificação dos membros restantes da igreja em 1918:
Isso confirma a esperança da glorificação da Igreja quarenta anos (um ano por um dia) depois do despertar dos santos adormecidos, na primavera de 1878… Nossa proposição é que a glorificação do Pequeno Rebanho, na primavera de 1918 A.D., ocorrerá exatamente no meio do intervalo (três anos e meio para cada lado) entre o fim dos Tempos dos Gentios e o fim do Caminho Celestial, em 1921 A.D. – The Finished Mystery (O Mistério Consumado), 1917, pág. 64.
Ressurreição dos antigos profetas hebreus e início da reconstrução terrestre em 1925:
Baseado nos argumentos até aqui apresentados, isto é, que a ordem velha das cousas, o velho mundo está se findando e desapparecendo, e que a nova ordem ou organização está se iniciando, e que 1925 será a data marcada para ressurreição dos anciões dignos e fieis, e o principio da reconstrucção, chega-se á conclusão razoavel de que milhões dos que vivem agora na terra, ainda estarão vivos no anno de 1925. Então, baseados nas promessas encontradas nas palavras Divinas, chegamos á positiva e indiscutível conclusão de que, milhões que agora vivem jámais morrerão. – Milhões Que Agora Vivem Jamais Morrerão, 1923, página 122.
Os cinco exemplos anteriores não são exaustivos. Longe disso. Muitos outros poderiam ser citados facilmente, mas estes poucos são suficientes para estabelecer o ponto. Conforme a história teve a oportunidade de testificar sobre a precisão das profecias da organização das Testemunhas de Jeová, ela sempre emitiu o mesmo veredito: Eles são culpados de falsas profecias! Em alguns casos, esse veredito se manteve por muitos anos devido à natureza da profecia envolvida. Por exemplo, a afirmação de Russell de que Jesus retornou ‘invisivelmente’ em 1874 foi pregada por mais de 50 anos (1877-1929). Ainda em 1929, o livro Profecia dizia:
A prova bíblica é que a segunda presença do Senhor Jesus Cristo começou em 1874 A.D. – pág. 65.
Na verdade, a natureza evolutiva das previsões da organização deve-se a expectativas frustradas. Eles precisaram ‘ajustar’ continuamente seu pensamento nesses assuntos para compensar e explicar por que as coisas não aconteceram quando e como foram previstas. É por isso que o ano de 1914 – que antes era apontado como o fim do “tempo do fim” – agora deve ser encarado como o começo do “tempo do fim”:
As Testemunhas de Jeová têm mostrado coerentemente, à base das Escrituras, que o ano de 1914 marcou o começo do tempo do fim deste mundo e que se tem aproximado “o dia do julgamento e da destruição dos homens ímpios”. – A Sentinela de 15 de agosto de 1993, pág. 9.
As profecias bíblicas e os fatos históricos não deixam dúvidas de que Jesus começou a reinar no céu em 1914, marcando o início dos últimos dias do mundo de Satanás. – Livro A Adoração Pura de Jeová É Restaurada!, 2018, pág. 102.
Sendo assim, o início dos últimos dias foi adiantado 115 anos em relação ao ponto de partida que Russell tinha apontado originalmente, que era 1799.
A revista A Sentinela de 15 de novembro de 1984 dizia nas páginas 6 e 7 (grifos acrescentados):
Do ponto de vista puramente humano poderia parecer quase impossível que tudo isso ocorresse antes da extinção da geração de 1914. Mas, o cumprimento de todos os eventos preditos que afetam a geração de 1914 não depende da ação humana, relativamente vagarosa. A palavra profética de Jeová mediante Cristo Jesus diz: ”Esta geração [de 1914] de modo algum passará até que todas estas coisas ocorram.” (Lucas 21:32) E Jeová, que é a fonte de profecias inspiradas e infalíveis, fará com que as palavras de seu Filho se cumpram num prazo de tempo relativamente curto.
Conforme está bem documentado, a organização já foi obrigada a “ajustar” várias vezes seu pensamento sobre a duração dessa “geração de 1914”, visto que todas as expectativas relacionadas com isso fracassaram. Porém, isso não os impede de continuar até hoje fazendo declarações dogmáticas, tentando conectar de qualquer maneira a “geração do fim” com o ano de 1914, ao mesmo tempo em que usam liberalmente frases tais como “muito próximo”, “muito em breve”, etc., para manter os seguidores sempre em expectativa.
Em todos os casos, essas promessas para o “futuro imediato” ou para “muito em breve” jamais são apresentadas como de origem humana. Por exemplo, em diversos momentos a organização reviveu o antigo slogan “milhões que agora vivem jamais morrerão” — que foi cunhado no período de 1918-1925 — dando-lhe uma nova roupagem. Numa dessas ocasiões, um artigo de estudo publicado em A Sentinela de 1º de maio de 1984, intitulado “Milhões se preparam para a vida ininterrupta na terra”, dizia:
A espantosa declaração “Milhões hoje vivos jamais se extinguirão da terra” não se baseia em mero cálculo matemático humano, tal como um sobrevivente para cada 1.000 da atual população da terra. Jeová Deus, a Fonte de toda a vida, não decide assuntos vitais em tal base!… Existem fundamentos bíblicos convincentes para esperar que “milhões hoje vivos” sobrevivam. (Página 16).
De modo que Jeová Deus é sempre apontado como a fonte dessas profecias — e não o raciocínio humano. Devido à ênfase quase hipnótica com que as promessas são apresentadas, a maioria das Testemunhas de Jeová perde de vista que Deus não pode mentir nem jamais estar equivocado. Associar o nome dele a meras especulações humanas e afirmar falar em nome dele é uma coisa muito séria. (Jer. 23:21)
Análise da definição apresentada no livro Raciocínios à Base das Escrituras
Apesar de os registros mostrarem que a liderança da organização é culpada de agir como um falso profeta contumaz, eles fazem tudo para negar essa culpa. Qualquer revisão histórica feita pela própria organização é altamente tendenciosa para fazer parecer que quaisquer erros que possam ter sido cometidos, foram relativamente leves. Num livro que foi publicado originalmente em 1985, intitulado Raciocínios à Base das Escrituras adota-se essa posição. Um dos assuntos considerados neste livro é “Falsos Profetas” (páginas 158-163). É interessante observar como eles apresentam esse tópico, pois fica óbvio na leitura do material que ele é tendencioso; o objetivo é justificar suas muitas fraquezas nessa área e eximir-se de qualquer culpa.

A definição de “Falsos Profetas” que o livro dá é a seguinte:
Indivíduos e organizações que proclamam mensagens que atribuem a uma fonte sobre-humana, que, porém, não se originam do verdadeiro Deus e não estão em harmonia com a sua vontade revelada. (página 158)
Isto é seguido por seis subtítulos que dividem seus argumentos:
1 – Os verdadeiros profetas tornam conhecida a sua fé em Jesus, mas requer-se deles mais do que professarem pregar em nome dele. (1 João 4:1-3; Mat. 7:21-23)
2 – Os verdadeiros profetas falam em nome de Deus, mas não basta meramente afirmar estar representando a ele. (Deut. 18:18-20; Jeremias 14:14; 28:11,15; João 5:43; 7:18; 8:28)
3 – A capacidade de realizar “grandes sinais”, ou “milagres”, não é forçosamente prova de profeta verdadeiro. (Mat. 24:24; 2 Tes. 2:9, 10; Êxo. 4:1-9; Atos 2:22)
4 – O que os profetas verdadeiros predizem acontece, mas podem não entender exatamente quando e como sucederá. (Dan. 12:9; 1 Pe. 1:10, II; 1 Cor. 13:9,10; Prov. 4:18; Lucas 19:11; João 21:22,23; Atos 1:6,7; 1 Crô. 17: 1-4,15)
5 – As declarações de um profeta verdadeiro promovem a adoração verdadeira e se harmonizam com a vontade revelada de Deus. ( Deut. 13: 1-4; Tia. 4:4; 1 João 2:15-17; Eze. 38:23; Atos 15: 14; Mat. 6:9,10; Sal. 146:3-6; Revelação 16:13, 14)
6 – Os verdadeiros e os falsos profetas podem ser reconhecidos pelos seus frutos conforme manifestos em sua vida e na vida dos que os seguem. (Mat. 7:15-20; Gál. 5:19-23; 2 Pedro 2:1-3)
Embora nenhum dos tópicos acima defina com precisão o que é um “falso profeta”, cada um dos aspectos dos profetas verdadeiros e falsos destacados nos tópicos acima aplica-se negativamente à própria organização das Testemunhas de Jeová. Os que conhecem bem a história deles poderiam responder às proposições da seguinte maneira, na ordem:
1 – Vocês afirmam ter fé em Jesus, mas isso não torna verdadeira a sua pregação, a menos que ela seja de fato verdadeira.
2 – Vocês falam em nome de Jeová, mas isso, por si só, não prova nada, a menos que o que vocês profetizam se cumpra. (Deut. 18:20-22)
Nota importante: É fácil entender por que o escritor desse tópico no livro Raciocínios à Base das Escrituras interrompe a citação de Deuteronômio, capítulo 18, no versículo 20. São justamente os próximos dois versículos que estabelecem a diferença entre um profeta verdadeiro e um falso e dão um testemunho condenatório contra as muitas profecias não cumpridas da organização. Estes versículos dizem:
Mas talvez você diga no seu coração: “Como saberemos que Jeová não falou essa palavra?” Quando o profeta falar em nome de Jeová e o que ele disser não acontecer nem se cumprir, então Jeová não falou aquela palavra. O profeta a falou presunçosamente. Você não deve ficar com medo dele. — Deut. 18:20-22, Tradução do Novo Mundo, 2015. (grifos acrescentados).
3 – Vocês apontam para sua unidade e crescimento mundiais como prova de que Deus os está abençoando (um “sinal”), mas outros grupos também têm unidade e crescimento, como os adventistas, os mórmons e a Igreja Mundial de Deus (Armstrong). Isso poderia ser um “sinal enganoso”.
4 – Vocês estão querendo dizer que um profeta verdadeiro pode predizer algo para um determinado momento, isso não acontecer, e ele ainda assim ser um verdadeiro profeta de Deus? Vocês não afirmaram saber não só o que iria acontecer, mas também quando e como isso aconteceria? Como podem comparar seus fracassos com os de qualquer verdadeiro profeta de Deus registrado na Bíblia?
5 – Pode estar de acordo com a “vontade revelada de Deus” iludir as pessoas com expectativas falsas? Está em harmonia com a vontade dele edificar a fé sobre falsas promessas que no fim levam a desapontamentos e à ruína da fé?
6 – É um bom “fruto” criar divisões por meio de sua afirmação presunçosa de serem o “profeta” de Deus e rotular todos os demais como “falsos cristãos” e “apóstatas” porque eles apontam seus erros? É um bom “fruto” criar animosidade entre vocês e outros cristãos e “espancar” esses escravos de Deus? Isso não divide ainda mais o corpo de Cristo em vez de trazer unidade?
Um paralelo com os primitivos cristãos?
Na página 162, debaixo do subtítulo: “Não cometeram as Testemunhas de Jeová erros nos seus ensinamentos?”, eles tentam demonstrar que outros servos de Deus mantiveram conceitos errados similares, mas ainda assim permaneceram no favor de Deus. Eles dizem: “Como no caso dos apóstolos de Jesus Cristo, tiveram às vezes expectativas erradas. — Luc. 19:11; Atos 1:6.”
Esses dois trechos bíblicos citados dizem:
Enquanto escutavam essas coisas, ele contou outra ilustração, porque estava perto de Jerusalém e eles achavam que o Reino de Deus ia aparecer instantaneamente.” — Lucas 19:11 (TNM).
Assim, quando se reuniram, eles lhe perguntaram: ‘Senhor, é agora que o senhor vai restabelecer o reino a Israel?’ — Atos 1:6 (TNM).
Para sermos justos: será que algum desses trechos tem paralelo com as previsões não cumpridas da liderança das Testemunhas de Jeová? Sugerir que pregar dogmaticamente o erro durante 30, 40, 50 ou 60 anos — e usar todos os meios disponíveis para divulgar esses erros — é comparável ao fato de os discípulos do Senhor ‘acharem que o Reino de Deus ia aparecer instantaneamente’ é ridículo. Os discípulos foram corrigidos pelo Senhor em questão de minutos, porque Jesus sabia o que eles estavam achando. Eles jamais pregaram o que pensavam! Mas a liderança das Testemunhas de Jeová fez com que as pessoas dedicassem milhões de horas doutrinando sistematicamente outros sobre esses assuntos.
Além disso, o trecho de Atos 1:6 só nos diz que os discípulos fizeram uma pergunta: “é agora que o senhor vai restabelecer o reino a Israel?” Mais uma vez, Jesus os corrigiu imediatamente. Eles nunca saíram pelo mundo pregando isso. O fato de a liderança das Testemunhas de Jeová selecionar essas referências para demonstrar como outros fizeram o mesmo que eles é prova, por si só, de quão insustentável é a posição deles à luz das Escrituras.
E quanto à questão apresentada a Jesus em Atos 1:6, é importante considerar como Jesus respondeu a essa pergunta. Ele disse:
Não cabe a vocês saber os tempos ou as épocas que o Pai colocou sob sua própria autoridade. Mas, quando o espírito santo vier sobre vocês, receberão poder e serão minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até a parte mais distante da terra. – Atos 1:7, 8, TNM. (grifo acrescentado)
Embora seja verdade que os discípulos estivessem muito interessados em saber sobre as coisas relacionadas com o “fim dos tempos”, fica claro que eles foram informados de que isso permanecia sob a autoridade de Deus, o Pai, e fora da capacidade de conhecimento deles. Daquele momento em diante, não seria apropriado ensinar que podemos conhecer os “tempos e épocas” e chegar ao ponto de marcar datas e fazer declarações dogmáticas que contradizem tanto o Senhor quanto a realidade. Não é ser espiritualmente “vigilante” marcar datas ou selecionar uma certa “geração” na qual certas coisas preditas devem acontecer. Jesus disse:
Portanto, mantenham-se vigilantes, porque vocês não sabem em que dia virá o seu Senhor. – Mateus 24:42. (grifo acrescentado).
Era o fato de não saberem o momento da volta do Senhor que tornaria a vigilância espiritual tão importante e necessária, pois sempre existiria o perigo de se tornarem sonolentos devido à passagem do tempo. Nesse sentido, a liderança das Testemunhas de Jeová não está “vigiando”, pois insiste em dizer que Jesus está presente e prestes a se manifestar em julgamento. Dificilmente é preciso ‘manter-se vigilante’ se você sabe que o fim é iminente.
Erros “mínimos”?
O mesmo subtítulo do livro Raciocínios prossegue dizendo:
Os assuntos em que foram necessárias correções de ponto de vista têm sido relativamente mínimos em comparação com as verdades bíblicas vitais que discerniram e publicaram.
Ora, se os cinco exemplos de falsas profecias da organização das Testemunhas de Jeová que foram apresentados acima devem ser considerados “mínimos”, o que seria necessário para que algo fosse considerado um erro grave? Eles argumentam que ensinaram algumas coisas verdadeiras e que estas superam quaisquer erros que possam ter ensinado. Porém, eles não usam esse mesmo raciocínio quando julgam outras religiões.
A pergunta é: A organização das Testemunhas de Jeová agiu como um falso profeta, conforme definido na Bíblia em Deuteronômio 18:20-22? A resposta a essa pergunta é: Sim! Estão eles ainda agindo como falsos profetas? Sim! Pois continuam ensinando que uma “geração” relacionada com o ano de 1914 é a que deverá presenciar o fim do mundo. Com base no que Jesus disse sobre conhecer os tempos e as épocas que estão sob a autoridade de Deus, é possível que o Corpo Governante das Testemunhas de Jeová saiba “os tempos e as épocas”? A resposta tem de ser: Não! E quanto àquelas “verdades bíblicas vitais” que eles dizem ter ensinado? O fato é que eles usaram seus cálculos cronológicos para revogar certas verdades bíblicas vitais!
Conforme já mencionado, às vezes leva 50 anos ou mais para que uma profecia seja comprovada como falsa. Nesse intervalo, enquanto, por assim dizer, o ‘veredito’ ainda não foi dado, todo tipo de afirmação pode ser feito e divulgado. O passar dos anos permite que essas afirmações sejam ensinadas como “verdade”. Algumas pessoas se convencem de que essas coisas são verdadeiras e se dedicam a doutrinar outros. Novas gerações surgem, sem jamais questionar ou duvidar dessas “verdades” e podem até passar a encará-las como verdade simplesmente porque estão exclusivamente associadas ao seu grupo. A repetição incessante de certos conceitos e frases ou slogans reforça a aceitação total, a ponto de que se uma pessoa não aceitar o conceito publicado, isso é igualado a questionar o próprio Deus. Congregações são formadas, prédios são construídos e certas pessoas ganham destaque em uma estrutura sectária. Em pouco tempo, o crescimento organizacional passa a ser encarado como “prova” de que Deus os está abençoando e confirmando que estão certos. Mas tudo isso é uma ilusão. Os resultados são tangíveis, mas a premissa por trás deles é um mito.
A parte final da apresentação do livro Raciocínios à Base das Escrituras, oferece sugestões sobre como lidar com objeções sobre o assunto que possam surgir durante o trabalho de pregação das Testemunhas de Jeová. Se algum morador que as atender disser que seu ministro falou que “as Testemunhas de Jeová são os falsos profetas”, elas podem perguntar se o ministro ‘mostrou-lhes algo na Bíblia para provar isso’. Outra consideração é “se o morador mencionar algumas ditas ‘predições’ que não se cumpriram”. É digno de nota que os escritores do livro falem desse modo. Fica evidente que a liderança das Testemunhas de Jeová conta com a falta de conhecimento específico sobre a história da organização. Pouquíssimas Testemunhas têm alguma noção da extensão dos erros de sua liderança nessa questão.
A última coisa sugerida é a Testemunha pedir ao morador permissão para explicar a posição da organização. Visto que as Testemunhas são incentivadas a usar os argumentos apresentados no próprio livro Raciocínios à Base das Escrituras, é óbvio que elas seguirão unicamente o que é apresentado nesse tópico “Falsos Profetas”. É lamentável a falta de conhecimento dos fatos — tanto por parte da Testemunha típica quanto do público em geral. Isso permite que a liderança das Testemunhas de Jeová contorne essas questões com manobras evasivas. E, mesmo que algum morador apresentasse provas documentais, dificilmente a Testemunha se dignaria a examiná-las.
É claro que a organização das Testemunhas de Jeová não é a única religião culpada de profetizar coisas que não se concretizaram ou de fazer predições até hoje. Tampouco é o único grupo religioso a corromper as boas novas, criando outras que são fruto de sua própria imaginação. Não faltam exemplos desse tipo de coisa no meio religioso. Só que a afirmação pública deles de que eles — e só eles — falam legitimamente em nome de Deus hoje em dia só os torna mais condenáveis. Nenhum cristão individual ou grupo de cristãos possui conhecimento e compreensão perfeitos (ou completos). (1 Cor. 13:9-13) Existem áreas de incerteza, onde um assunto não está totalmente desenvolvido, o que, por sua vez, pode abrir margem para diversas possibilidades. Porém, essas coisas devem ser apresentadas como possibilidades, e não como verdades. É preciso ter cautela ao expor esses conceitos. Uma coisa é expressar uma convicção dizendo: “Eu acredito nisso” ou “Eu penso desse modo”; outra, bem diferente, é dizer: “Eu tenho a orientação do Espírito de Deus sobre isso e você também deve acreditar no que estou dizendo, ou será condenado!” Onde a Palavra de Deus é clara, podemos ser claros; mas, onde ela é menos definida, temos de ser cautelosos. Não devemos afirmar que um determinado ensino é essencial para a salvação, a menos que a Bíblia o apresente dessa forma. Agir de outra maneira é querer correr na frente de Deus.