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A última ceia e a morte de Cristo – em 14 ou 15 de nisã? – Parte 1

Introdução

A liderança das Testemunhas de Jeová sempre sustentou que Jesus morreu em 14 de nisã, de acordo com o calendário judaico, e que este é o único dia a ser levado em conta, já que Jesus seria o cordeiro pascoal antitípico. O cordeiro deveria ser sacrificado “entre o pôr do sol e a noite” em 14 de nisã (Êxodo 12:6). A obra de referência Estudo Perspicaz das Escrituras (1990), fala sobre “cumprir com exatidão o fator tempo retratado no tipo, ou sombra, fornecido na Lei.” (Vol. II, pág. 581). Veja também A Torre de Vigia de Sião (em inglês), abril de 1880 (= Reimpressões de A Torre de Vigia, pág. 94) e A Sentinela de 15 de fevereiro de 1945 (em inglês), pág. 57.

Os judeus contavam o dia do pôr do sol ao pôr do sol, e a liderança das Testemunhas de Jeová sempre defendeu que o cordeiro pascoal era sacrificado “ao pôr do sol, no começo do 14 de nisã” (A Sentinela de 15 de setembro de 1973, pág. 559). Dessa forma, o abate e a posterior ceia pascoal poderiam ocorrer na mesma data, 14 de nisã. Em consequência disso, ensina-se que os discípulos prepararam o cordeiro pascoal no mesmo dia em que Jesus comeu sua última refeição pascoal com eles, instituiu a Ceia do Senhor, foi preso, interrogado, sofreu e morreu.

Há controvérsia entre os judeus sobre esse ponto. A Sentinela de 15 de fevereiro de 1990 explica (pág. 14): “Judeus modernos apegam-se ao conceito rabínico de que o cordeiro devia ser morto perto do fim de 14 de nisã, entre o momento em que o sol começasse a declinar (por volta de 15 horas) e o pôr-do-sol de fato. Assim, eles realizam seu Seder após o pôr-do-sol, quando o 15 de nisã já começou. — Marcos 1:32.” A Sentinela de 15 de setembro de 1973, pág. 560, disse: “Ao passo que os judeus atuais, em harmonia com a tradição, comem a refeição pascoal em 15 de nisã, seu costume não é apoiado pelas Escrituras Sagradas. A data correta do aniversário é 14 de nisã.”

Enquanto a liderança das Testemunhas de Jeová afirma que o cordeiro pascoal era sacrificado no início do dia 14 de nisã, os judeus acreditam que era sacrificado no final do dia 14 de nisã. Se o conceito judaico estiver correto, Jesus deve ter comido sua última refeição pascoal no dia 15 de nisã, e teria morrido nesse dia.

O Corpo Governante das Testemunhas de Jeová está bem ciente dessas implicações. No artigo “É importante para os cristãos a data da celebração da Páscoa?”, publicado em A Sentinela de 15 de setembro de 1973, foi explicado que “a data em que se realizava a Páscoa determinaria quando se havia de comemorar a morte de Jesus” e que “os cristãos acham ser de interesse mais do que passageiro verificar quando se celebrava a Páscoa. Isto é importante, porque estão sob a ordem de comemorar a morte de Jesus.” (pág. 559).

O Corpo Governante afirma ter apoio para seu conceito entre o antigo grupo religioso judaico dos caraítas e entre os samaritanos modernos (A Sentinela de 15 de fevereiro de 1990, pág. 14). Mas será que os caraítas e os samaritanos realmente apoiam a afirmação de que o cordeiro pascoal deve ser sacrificado no início do dia 14 de nisã e consumido no mesmo dia? Como os judeus da época de Jesus encaravam essa questão? Como o assunto é compreendido no Novo Testamento? Como a expressão “entre o pôr do sol e a noite” ou “entre os dois anoiteceres” (TNM) em relação à Páscoa deve ser entendida? Será que a cronologia da primeira Páscoa e do Êxodo do Egito esclarece essas questões?

Examinaremos esses pontos numa série de artigos, começando por este. Visto que a cronologia da última Páscoa na vida de Jesus também foi questionada por críticos bíblicos, apresentaremos uma solução para a suposta contradição entre o Evangelho de João, de um lado, e os relatos dos Evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas, do outro.

Teria Jesus de morrer em 14 de nisã para ser o cordeiro pascoal?

Quando a liderança das Testemunhas de Jeová fala em “cumprir com exatidão o fator tempo retratado no tipo, ou sombra, fornecido na Lei.” (Estudo Perspicaz, Vol. 2, pág. 581), eles esquecem que o texto de Êxodo 12:6 não se refere só a 14 de nisã, mas também ao período da tarde, ou, como a Tradução do Novo Mundo traduz literalmente, “entre as duas noitinhas” [“entre os dois anoiteceres”, na TNM revisada de 2013]. Segundo a própria definição deles, essa expressão  “referia-se ao período que ia do crepúsculo, do pôr-do-sol (que começa em 14 de nisã), até a escuridão de fato.” (A Sentinela de 15 de fevereiro de 1990, pág. 14). Porém, Jesus não morreu ao pôr-do-sol! A liderança das Testemunhas de Jeová compartilha o conceito comum, que é apoiado pelo texto bíblico, de que “Jesus morreu à “nona hora” depois do nascer do sol, ou por volta das três da tarde no dia da Páscoa judaica.” (Perguntas Bíblicas Respondidas, artigo 120 – “Por que Jesus morreu?”).

Portanto, há algo incontestavelmente errado aqui. Obviamente, eles precisam abrir mão de parte do “fator tempo retratado no tipo”. E daí surge a pergunta: se a hora do dia não precisa ser exata, por que o próprio dia precisaria ser exatamente o mesmo?

A questão de se Jesus precisaria morrer exatamente em 14 de nisã para ser o cordeiro pascoal antitípico é respondida completamente se fizermos uma comparação com outro tipo. De acordo com a Lei, no Dia da Expiação anual, 10 de tisri, um novilho e dois bodes deveriam ser sacrificados como ofertas pelo pecado (Levítico 16:1-34). A Carta aos Hebreus explica que esses novilhos e bodes tipificavam Cristo (Hebreus 9:7, 12-14, 24-26; 10:3, 4). 10 de tisri caía em setembro ou outubro, cerca de seis meses depois da Páscoa! Como é que fica o “fator tempo retratado no tipo” aqui? Ele se dissipa ou desaparece, caso contrário Cristo haveria de ter morrido em setembro ou outubro! Somos, portanto, obrigados a reconhecer que os modelos proféticos têm seus limites.

Jesus não precisaria morrer em 10 de tisri para ser o novilho antitípico da oferta pelo pecado e os dois bodes da oferta pelo pecado. Assim como não precisaria morrer exatamente em 14 de nisã para ser o cordeiro pascoal antitípico. O Novo Testamento diz que “Cristo, o nosso cordeiro pascoal, já foi sacrificado.” (1 Coríntios 5:7), mas em nenhum lugar diz que isso ocorreu em 14 de nisã.

Deturpados os fatos sobre os judeus caraítas

Quando a liderança das Testemunhas de Jeová determinou pela última vez que a expressão “entre as duas noitinhas” em Êxodo 12:6 (NM) “referia-se ao período que ia do crepúsculo, do pôr-do-sol (que começa em 14 de nisã), até a escuridão de fato”, foi declarado: “Os antigos judeus caraítas entendiam isso dessa maneira, como entendem os samaritanos até os dias de hoje.” (A Sentinela de 15 de fevereiro de 1990, pág. 14)

Isso não é verdade. Os judeus caraítas não entendiam dessa maneira. O livro Karaite Anthology (Antologia Caraíta, Série Judaica de Yale, Vol. VII, New Haven, 1963) oferece uma descrição abrangente da Páscoa segundo o entendimento dos caraítas. O texto original citado é de 1434 DC e afirma especificamente que o horário do sacrifício pascal é “a véspera do dia 15 de nisã”. Afirma ainda: “Este período é considerado parte de dois dias: o dia comum, que é o décimo quarto dia de nisã, como mencionado acima; e o dia legal, que é o décimo quinto.” (Antologia Caraíta, pág. 199)

Embora os caraítas observassem o crepúsculo ao pôr do sol, faziam-no um dia inteiro depois do que a liderança das Testemunhas de Jeová fez parecer na revista A Sentinela citada. Para os caraítas, o que importava era a conjunção entre os dias 14 e 15, e não entre os dias 13 e 14, como o Corpo Governante das Testemunhas de Jeová gostaria de acreditar!

Os samaritanos comem o cordeiro pascal no dia 15 de nisã, não no dia 14

A referência que se faz aos samaritanos também está incorreta. McClintock e Strong, autoridades frequentemente citadas pela liderança das Testemunhas de Jeová, afirmam que o momento da celebração da Páscoa entre os samaritanos “é o décimo quinto dia do mês de nisã”. Na famosa obra deles, consta ainda o seguinte:

“No décimo quarto dia de manhã cedo a comunidade inteira, com poucas exceções, deixa suas moradias na cidade e sobe o monte, em cujo topo, e em frente às ruínas de seu antigo templo, armam suas tendas em círculo… Ao pôr do sol, os cordeiros são sacrificados por cinco ou seis homens jovens vestidos com túnicas azuis… Os cordeiros são então colocados em espetos e baixados ao forno… À meia-noite, os cordeiros são tirados e a festa da Páscoa começa.” — Cyclopedia of Biblical, Theological, and Ecclesiastical Literature (Enciclopédia de Literatura Bíblica, Teológica e Eclesiástica), editada por John McClintock e James Strong, Vol. IX, 1894, pág. 305.

A mesma informação consta no livro Passover – Its History and Traditions [A Páscoa Judaica – Sua Historia e Tradições], de Theodor Herzl Gaster (Nova Iorque, 1949). O capítulo “A Páscoa Samaritana” afirma que a data do sacrifício pascoal é “o décimo quinto dia do mês” (pág. 78). “No décimo quarto dia, eles removem todo o fermento dos seus recipientes e lavam todos os utensílios…Nesse dia, eles não comem nenhum tipo de pão, seja ele fermentado ou não fermentado, de acordo com uma tradição transmitida desde a antiguidade a respeito da observância dessa instituição.” (pág. 78) “No início da décima hora, o sumo sacerdote vai ao local onde está o forno, acompanhado pelos anciãos da comunidade e pelos matadores, e juntos acendem o fogo nele.” (pág. 79) “Meia hora antes do pôr do sol, os membros da comunidade se apresentam em meio a grande alegria e pompa.” (pág. 79) “O abate ocorre ao crepúsculo.” (pág. 81)

SAMARITANOS ABATENDO O CORDEIRO PASCOAL
(Passover – Its History and Traditions, pág. 80)

Note-se que a “décima hora” é no dia 14 de nisã, que em breve terminará e se tornará o dia 15 de nisã! A interpretação da liderança das Testemunhas de Jeová pressupõe que isso ocorria no final do dia 13 de nisã, que ao pôr do sol se torna o dia 14 de nisã.

Um erudito que se dedicou ao estudo da celebração da Páscoa samaritana no Monte Gerizim, na Palestina, foi o teólogo alemão Joachim Jeremias. Em 1932, ele publicou um estudo abrangente intitulado Die Passahfeier der Samaritaner (A Festa da Páscoa dos Samaritanos). Ninguém foi mais qualificado para comentar sobre a refeição pascoal samaritana do que o Professor Jeremias. Ele não poupa críticas aos que afirmam que os samaritanos comem o cordeiro pascoal no dia 14 de nisã. Em seu livro posterior, The Eucharistic Words of Jesus (As Palavras Eucarísticas de Jesus), Filadélfia, 1986, ele os chama de “dilettantes” (“amadores”). “Tudo isso é fábula”, declara ele. (pág. 16, nota 3)

Os samaritanos de fato sacrificam seus cordeiros pascoais ao entardecer, mas um dia depois do que a liderança das Testemunhas de Jeová apresenta, ou seja, no final do dia 14 de nisã, de modo que a refeição subsequente ocorre no dia seguinte, 15 de nisã. Os samaritanos, portanto, representam um caso paralelo ao dos caraítas, e ambos os grupos testemunham fortemente contra o entendimento publicado pela liderança das Testemunhas de Jeová.

A liderança das Testemunhas de Jeová atribui tanta importância ao conceito samaritano que cita a seguinte opinião do livro The Origins of the Seder (A Origem do Seder), de B. M. Bokser (University of California Press, 1984), pág. 21: “Alguns eruditos têm sugerido que a religião samaritana talvez se assemelhe muito à religião bíblica antes de o judaísmo rabínico a ter remodelado.” (A Sentinela de 15 de fevereiro de 1990, pág. 14, nota de rodapé). No entanto, não há diferença significativa entre os samaritanos e o judaísmo rabínico quanto à data da Páscoa. Os samaritanos não apoiam a liderança das Testemunhas de Jeová nesse ponto, e sim o judaísmo rabínico.

Artigos subsequentes desta série abordarão a questão de saber se o conceito dos samaritanos sobre a data da Páscoa é consistente com a “religião bíblica”.


Imagem em destaque: Guiame, com informações de Discovery News, consultado em 23/03/2026

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