"Interconexões de Textos "Aparentemente Díspares"?

EXAMINANDO UMA DETURPAÇÃO COMPLETA DO SALMO 23

Este artigo apresenta mais um exemplo que demonstra até que ponto os proponentes da ideia da “sobrevivência da alma após a morte” estão dispostos a chegar com o fim de encontrar “base bíblica” para suas teorias.

No fundo, esses imortalistas que acusam outros de 'aplicar mal' as Escrituras reconhecem (embora jamais admitirão, obviamente) que os trechos bíblicos que tratam diretamente da condição dos mortos não fornecem base para suas afirmações. Eles estão bem cientes de que o exame contextual destas referências levanta uma barragem de questionamentos das aplicações que fazem delas, com o fim de "apoiar" seu conceito. Por isso, eles se veem obrigados a procurar apoio em referências bíblicas que não discutem esse assunto. As considerações que seguem são questionamentos duma tentativa feita em conexão com uma referência desse tipo – o Salmo 23.

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O que acontece com os justos que estão no Seol?

Ao descrever o lugar para onde iria depois que morresse, Jó disse:

“Afasta-te de mim, para que eu tenha um instante de alegria, antes que eu vá para o lugar do qual não há retorno, para a terra de sombras e densas trevas, para a terra tenebrosa como a noite, terra de trevas e de caos, onde até mesmo a luz é escuridão.” – Jó 10:20-22, NVI.

Chegando em tal lugar, o que seria de Jó? Estaria ele completamente abandonado até que chegasse a prometida ressurreição?

Mais uma vez, há um texto na Bíblia que se encaixa perfeitamente nessa situação, mesmo se não houvessem evidências de que foi a intenção do escritor:

“Jeová é o meu Pastor. Nada me faltará. Ele me faz deitar em pastagens* relvosas; conduz-me junto a lugares de descanso bem regados. Refrigera a minha alma. Guia-me nos trilhos da justiça por causa do seu nome. Ainda que eu ande pelo vale da sombra tenebrosa**, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo; tua vara e teu bastão são as coisas que me consolam.” – Salmo 23:1-4.  

* “A palavra hebraica traduzida ‘pastagens’ pode significar ‘lugar agradável’ ”. – A Sentinela, 01/11/05, p. 17.

** Ou “vale da sombra da morte”, conforme uma nota da Tradução do Novo Mundo.

Embora várias expressões tenham sido grifadas no trecho citado do Salmo 23, o único elemento comum que poderia ser apontado entre este e o trecho do livro de Jó é a palavra “sombra(s)”. Qualquer pessoa que leia e compare as duas referências poderia muito bem se perguntar: Será que esta palavra, sozinha, já dá base suficiente para a afirmação de que as situações descritas nos dois textos ‘se encaixam perfeitamente’, de maneira que possamos estabelecer alguma “interconexão” do que Davi disse com as palavras de Jó?

Colocado de maneira mais simples e direta: Quando Jó falou em “terra de sombras e densas trevas,... terra tenebrosa como a noite, terra de trevas e de caos, onde até mesmo a luz é escuridão” e Davi falou em “vale da sombra da morte”, estavam eles falando sobre o mesmo lugar?

A resposta tem de ser: Definitivamente Não! Os dois escritores estavam tratando de situações completamente diferentes. Jó estava descrevendo o Seol, para onde iria depois da morte. Já o rei Davi estava falando do cuidado de Deus para com ele – durante sua vida.  A expressão “vale da sombra da morte” não tem nada que ver com o Seol – o lugar dos mortos. Esta expressão é metafórica e se refere a toda e qualquer situação de perigo; ameaça de morte. Há quem afirme, inclusive, que Davi tinha em mente um lugar específico do país dele (que seria também logicamente conhecido por seus leitores) usando tal local para ilustrar vividamente uma situação de perigo real de morte.1

O exegeta cristão F. R. dos Santos Saraiva menciona no seu comentário ao Saltério que as palavras acima foram escritas pelo salmista já em idade avançada, e que “é fácil de ver” que a maior parte dos termos empregados tem conotação espiritual. Neste caso, se entende porque o escritor mencionou o “vale da sombra da morte”. Ele sabia que dentro de pouco tempo estaria lá. Mesmo assim, mantinha a esperança que Deus continuaria com ele e, que nem uma ovelha perdida numa região árida, seria encontrado pelo seu Pastor e conduzido para um oásis reconfortante. Uma evidência que outros também enxergam um sentido espiritual neste Salmo é quando ouvimos o mesmo ser recitado em velórios. – Harpa de Israel, Edição de G. W. Chamberlain, 1898, pp. 329, 330.

Note-se que quando o Salmo 23 foi citado, primeiro apareceu a frase acauteladora “mesmo se não houvesse evidências de que foi a intenção do escritor” [em outras palavras: ‘Não há evidência de que Davi estava falando algo relacionado com o pós-morte ou o Seol’]. Mas aqui, paradoxalmente, afirma-se que Davi estava pensando exatamente nessas coisas quando compôs este salmo!2

Embora as expressões “idade avançada” e “é fácil de ver” constem realmente nesse comentário, a declaração acima transmite um quadro bem enganoso do que Saraiva disse sobre este salmo. Apresenta-se a seguir a declaração completa dele (como essa tradução do Saltério é de fins do século 19, a grafia e a redação foram atualizadas aqui, a bem da clareza):

Salmo XXIII: A este tão curto quanto belo salmo não se pode assinalar com certeza nem a época, nem o motivo de sua composição, por não oferecer dados que tenham relação com quaisquer circunstâncias históricas da vida de Davi. Mas a linguagem calma e estilo de madureza parecem indicar que deve ser atribuído à idade avançada do salmista, quando num período de tranquilidade, cheio de anos e de experiências, recorda e descreve o cuidado que Deus, em diversas circunstâncias, havia tido para com ele, representando-o sob a belíssima imagem de um pastor zeloso para com seu rebanho, imagem que a recordação das circunstâncias de seu primeiro ofício, o de pastor, pode ter sugerido a ele. É fácil ver que os termos deste salmo são quase todos usados em sentido metafórico e espiritual, e que era também destinado ao uso litúrgico do Templo.”

Em primeiro lugar, Saraiva não disse que o Salmo 23 foi escrito quando Davi já estava em idade avançada e sim que “a linguagem calma e estilo de madureza parecem indicar” isso. Qualquer pessoa que ler o comentário perceberá que ele não apresentou nada aqui como certeza, e sim como possibilidade.

Mas, mesmo que tenha sido este o caso, Saraiva não deu qualquer sugestão de que Davi tenha falado o que falou por já estar idoso e ‘contemplando a morte próxima’. O que Saraiva quis dizer foi que, caso Davi realmente estivesse em idade avançada, tal perspectiva privilegiada lhe permitiria recordar episódios nos quais ele teve a vida salva por Deus. Davi estava expressando sua fé com base na recordação do “cuidado que Deus, em diversas circunstâncias, havia tido para com ele” – ao longo de sua vida. Quem conhece a história do rei Davi sabe que ele, de fato, enfrentou várias situações em que poderia ter morrido. Conforme salientado acima, a expressão “vale da sombra da morte” aplica-se, e só pode aplicar-se – inteira e exclusivamente – a pessoas vivas não a pessoas que já faleceram! Em momento algum Davi sugeriu que só estaria nesse “vale da sombra da morte” no futuro, depois que morresse. De jeito nenhum! Ao longo de sua vida, Davi já tinha caminhado – e várias vezes – pelo “vale da sombra da morte”, e tinha sido livrado da morte por Deus em todas essas ocasiões.

Evidência adicional de que o rei Davi não poderia ter em mente nada relacionado com sua morte (ou com algum momento depois dela, como querem os defensores da “imortalidade da alma”), e estava, em vez disso, focalizando unicamente sua vida aos cuidados de Deus é o que ele diz na conclusão do Salmo:

“Sei que a bondade e a fidelidade me acompanharão todos os dias da minha vida, e voltarei à casa do Senhor enquanto eu viver.” (Sal. 23:6, NVI)

Toda e qualquer a perspectiva futura que Davi tinha, dessa continuidade da proteção de Deus abrangeria o período até o momento da morte dele. Pois, assim como todos os demais servos fiéis de Deus da antiguidade, Davi estava ciente de que “os mortos nada sabem” (Ecle. 9:5, NVI).

Outro comentário sobre o Salmo 23 diz o seguinte:

“Refrigera a minha alma.”

A Palestina é de extensão relativamente pequena, entretanto, o seu clima é extremamente variado, dependendo da localidade. Há a zona tropical do baixo Jordão, com altas temperaturas, a região desértica que contrasta com a marítima e vice-versa.

E na região da alta Galiléia, que também é tropical, com calor intenso, em determinado horário, o sol é tão escaldante, o clima fica tão abafado, que fica difícil até de seus habitantes se alimentarem.

Porém quando o vento do norte sopra mais forte, traz um refrigério, um sopro de frescor que vem do monte Hermom, que fica no norte de Israel e há em seu cume uma grande quantidade de neve, que quando há vento, ajuda a trazer este refrigério, amenizando a temperatura da região.

Tendo em mente o acima descrito, é inevitável não relacionar o Salmo 23 com a parábola do rico e Lázaro. (Lucas 16:19-31) Quando o rico chegou ao Hades e se viu no meio das chamas, em angústia clamou por apenas uma gota de água que pudesse, quem sabe, refrescar-lhe a língua. O mendigo, por sua vez, fora acolhido no Seio de Abraão onde desfrutava do refrigério dispensado aos justos, talvez naquele ambiente relvoso descrito pelo salmista.

Embora a palavra “inevitável” tenha sido usada aqui, no interesse da verdade devemos perguntar novamente: Que relação poderia haver entre o que esse comentário diz sobre o Salmo 23:3 e a situação descrita na Parábola do Rico e Lázaro (mesmo que fôssemos obrigados a entendê-la literalmente)? Quantos leitores do Salmo 23 pensariam nessa parábola de Cristo? Está o comentário acima falando alguma coisa que lembre duas ‘regiões’, uma composta de um lago de “chamas” e outra com um “ambiente relvoso”, sendo que ninguém pode passar jamais da região causticante para o lugar melhor?

O fato é que o comentário acima não foi citado na íntegra. O trecho principal do comentário ao versículo foi omitido. Se alguém ler o parágrafo que vem logo em seguida, entenderá a razão de o autor ter dado essa explanação sobre o clima da Palestina:

“E muitas vezes as circunstancialidades da nossa existência parecem atuar de forma semelhante, onde o calor dos acontecimentos faz com que nos sintamos abafados e cansados com tantas coisas. Temos dificuldades até para buscar o alimento espiritual. Mas nestes momentos, o Espírito do Senhor vem como uma brisa suave, que desce do alto, e refrigera a nossa alma, e renova as nossas forças, nos capacita a continuarmos a caminhada pelos seus caminhos.”

Pelo visto, nem o autor do comentário enxergou alguma semelhança com a parábola de Cristo! Ele falou claramente sobre uma melhoria de condições, duma situação desagradável para uma condição melhor (não sobre algo ‘imutável’, como no caso da parábola de Cristo). E, assim como Santos Saraiva, ele não entendeu nada aí literalmente. Tanto o ‘calor’ como o ‘refrigério da alma’ aqui tem sentido metafórico. O ‘calor’ refere-se aos problemas da vida neste mundo que provocam o cansaço da alma, não tem nada que ver com um lago de “chamas” onde a pessoa implore por uma gota d’água para “quem sabe, refrescar-lhe a língua”. O ‘refrigério da alma’ é decorrente da ajuda divina – que é prestada diretamente e na base de pessoa a pessoa – nada que ver com algum “ambiente relvoso” no Seol, onde “talvez” os justos estejam, em coletividade.

Numa bem-vinda intertextualidade, vemos o mesmo cenário na obra judaica que provavelmente Jesus tinha em mente quando contou o destino de Lázaro:

“[E o anjo disse a Abraão:] A paz esteja contigo, ó justa alma, amigo do Altíssimo, aquele que recebeu os santos anjos quais convidados, sob seu teto hospitaleiro!.... [E Deus disse aos anjos:] Levem o meu amigo Abraão ao Paraíso, à morada dos meus justos, as residências dos meus santos, onde não há nem trabalho, nem luto, nem pesar, mas sim paz, e alegria, e vida sem fim”. – A Hagadá Pré-Talmúdica, The Jewish Quarterly Review, Vol. 7, No. 4 (Jul., 1895), pp. 589, 591, colchetes acrescentados.

Caso exista alguma conexão aqui é, no máximo, entre a parábola e o trecho da obra citada. Porém, essa chamada “bem-vinda intertextualidade” não é de qualquer serventia para esclarecer o questionamento acima. O que “provavelmente Jesus tinha em mente quando contou o destino de Lázaro” não está em discussão. Aqui, isso não passa de mera divagação. A questão é saber se essa Parábola do Rico e Lázaro tem alguma similaridade com o que diz o Salmo 23. A “interconexão” do que Davi e Jesus disseram continua carente de evidências.

Por que Deus não encravaria um paraíso no meio do deserto causticante do Seol para acolher os justos que morressem? Estariam assim bem acomodados até serem transferidos para a cidade celestial que foi preparada para eles. Não seria surpresa se um dia descobríssemos que Abraão era o governante desse domínio ajardinado, imitação do Paraíso de Deus.

Mais divagações. Especular sobre ‘o que Deus faria ou não faria’ para se adaptar às nossas preferências e teorizar sobre a existência de alguma “imitação do Paraíso de Deus”, supostamente ‘governado por Abraão’ também não serve para comprovar a “interconexão” da parábola de Cristo com o que diz o Salmo 23. Quanto à parábola, em si, qualquer um é livre para entendê-la literalmente, se preferir. A dificuldade é explicar as questões geradas por esse entendimento. Mais difícil ainda é encontrar base bíblica para as teorias que foram elaboradas por teólogos, que são decorrentes dessa mesma intepretação literal.

Existe uma referência na literatura cristã do século II que parece indicar uma continuidade do pensamento judaico entre os cristãos, a respeito dos justos que vão para o Hades ficarem numa região melhor feita apenas para eles. Leia a seguir:

“Após a exibição, Trifena a recebeu novamente, pois sua filha Falconila, que havia morrido, disse para ela em um sonho: ‘Mãe, deves colocar esta estranha Tecla em meu lugar, para que ela ore por mim, e eu possa ser transferida para o lugar dos justos’.” – Atos de Paulo e Tecla, c. 160 d.C.

Portanto, não deveríamos duvidar que Jesus tenha dito o seguinte ao ladrão arrependido:

“Eu lhe garanto: Hoje você estará comigo no paraíso.” – Lucas 23:43, NVI.

O “pensamento judaico” sobre o Seol (Hades) reflete-se naquilo que está registrado nas referências do cânon hebraico da Bíblia. E é errado dar a entender que algum cristão verdadeiro ‘duvida’ da promessa de Cristo feita ao ladrão na cruz.

Porém, ainda que fosse apropriado usar o que dizem escritos pós-exílicos para contradizer as referências bíblicas sobre o Seol (Hades), ainda que se pudesse afirmar que o conteúdo desses escritos pós-exílicos é que constitui verdadeiramente o “pensamento judaico” sobre o Seol (Hades) e ainda que fosse verdade que os cristãos ao longo da história sempre tiveram exatamente o mesmo entendimento do que Cristo disse ao ladrão na cruz, nada disso serviria para comprovar a “interconexão” disso ou da Parábola do Rico e Lázaro com o que foi dito por Davi no Salmo 23. O questionamento levantado ainda continuaria sem resposta.

Mais uma possibilidade de entendimento...

“O Senhor é meu pastor e nada me falta…. Por isso, ainda que ande no meio da sombra da morte, não temerei males, porque estás comigo.” – Samos 23:1, 4, Matos Soares.

Observe outra possível interconexão entre textos aparentemente díspares. A palavra grega usada pelos escritores do Novo Testamento para se referir à ressurreição é “anastasis”, que significa literalmente “levantar” ou “erguer”. Foi esse mesmo verbo grego que o evangelista usou* referindo-se a quando Jesus disse o seguinte:

“Quem é o homem entre vós que, tendo uma só ovelha, e, caindo esta numa cova, no sábado, não a agarra e levanta para fora?.” – Mateus 12:11.

Temos aqui o recorte de um retrato que representa a atitude de um pastor com suas ovelhas. Se uma delas cai em uma cova e fica presa, ele não poderá ter outra atitude senão a de tirá-la de lá. De maneira similar, o Pastor Celestial poderá resgatar sua ovelha daquela “cova” bem mais profunda que é o Seol. A isto chamamos de ressurreição!

* Comentaristas dizem que Mateus foi primeiramente escrito em hebraico e só depois traduzido para o grego. De qualquer modo, o verbo grego mencionado aparece mesmo nesse texto, mesmo que este seja uma tradução do original, atualmente perdido.

O significado da palavra ἀνάστασις / anástasis (de aná, “para cima, de novo” e  hístēmi, “por-se de pé”) é literalmente: “ficar de pé de novo”. Ela refere-se à ressurreição física. Não foi essa a palavra que Jesus usou em Mateus 12:11. O termo que ele usou lá foi ἐγείρω / egeiro, que tem um leque de significados bem mais amplo. Eis alguns exemplos de outros trechos bíblicos onde esta palavra ocorre (conforme a NVI):

Então ele se levantou [ἐγερθεὶς / egertheis], tomou o menino e sua mãe durante a noite, e partiu para o Egito. (Mateus 2:14)

Não pensem que vocês podem dizer a si mesmos: ‘Abraão é nosso pai’. Pois eu lhes digo que destas pedras Deus pode fazer surgir [ἐγεῖραι / egeirai] filhos a Abraão. (Mateus 3:9)

Nação se levantará [ἐγερθήσεται / egerthēsetai] contra nação, e reino contra reino. Haverá fomes e terremotos em vários lugares. (Mateus 24:7)

Pois aparecerão [ἐγερθήσονται / egerthēsontai] falsos cristos e falsos profetas que realizarão sinais e maravilhas para, se possível, enganar os eleitos. (Marcos 13:22)

Eu lhes digo: embora ele [o juiz] não se levante para dar-lhe [à viúva] o pão por ser seu amigo, por causa da importunação se levantará [ἐγερθεὶς / egertheis] e lhe dará tudo o que precisar. (Lucas 11:8)

A rainha do Sul se levantará [ἐγερθήσεται / egerthēsetai] no juízo com os homens desta geração e os condenará, pois ela veio dos confins da terra para ouvir a sabedoria de Salomão, e agora está aqui o que é maior do que Salomão. (Lucas 11:31)

Será que o fato de o verbo ἐγείρω / egeiro aparecer em todos os casos acima dá margem para a conclusão de que existe uma "interconexão" entre tais textos "aparentemente díspares"? Estão eles falando do mesmo assunto? Acaso refere-se algum deles à ressurreição?

Embora seja verdade que a palavra ἐγείρω / egeiro também pode ser usada com referência à ressurreição (já que esta envolve necessariamente um ‘levantamento’), a palavra ἀνάστασις / anastasis jamais poderia ser usada nos casos acima, ou no caso de Mateus 12:11, que trata simplesmente do ato de 'levantar' (erguer) uma ovelha para fora dum buraco, e não de um levantamento dentre os mortos. Ou seja, enquanto ἐγείρω / egeiro é um termo genérico, sendo aplicado a diversas situações, a palavra ἀνάστασις / anastasis é específica. Em toda e qualquer ocorrência, ela sempre se refere à ressurreição.3 Nos casos em que a palavra ἐγείρω / egeiro é usada em conexão com os mortos, ela não pode estar isolada. Isso tem de ser especificado claramente no texto, para não haver margem para dúvida de que não está se falando apenas de um simples 'levantamento' físico de cadáveres, ou de eles serem tirados duma cova, e sim especificamente de sua ressurreição, seu retorno efetivo à vida. Seguem-se duas referências, como exemplos:

Pois assim como o Pai levanta (ἐγείρει / egeirei) os mortos e lhes dá vida, assim também o Filho dá vida a quem ele quer. (João 5:21, ASV)

A multidão que estava com ele quando chamou Lázaro para fora do túmulo e o levantou (γειρεν / ēgeiren) dentre os mortos dava testemunho sobre ele. (João 12:17, CEB)

Portanto, as palavras ἀνάστασις / anastasis (ressurreição) e ἐγείρω / egeiro (levantar / erguer) não são intercambiáveis. Embora, conforme exemplificado acima, a palavra ἐγείρω / egeiro possa ser usada (com as devidas especificações) para se referir à ressurreição, a palavra ἀνάστασις / anastasis não pode ― em hipótese alguma ― ser usada indiscriminadamente em qualquer situação que envolva um 'levantamento', tal como um pastor humano 'levantar' (tirar) uma ovelha dum buraco. Essa "interconexão" entre textos "aparentemente díspares", apregoada acima, simplesmente não existe. Se o simples fato de o verbo grego ἐγείρω / egeiro aparecer num texto bíblico fosse indicativo de “interconexão”, seríamos obrigados a concluir que os seis trechos citados acima ― bem como outras dezenas de trechos bíblicos onde este verbo aparece ― estão falando de “ressurreição”!

Dificilmente poderia haver uma analogia mais apropriada aqui do que essa do “recorte de um retrato”! Assim como um recorte pode mutilar um quadro, descaracterizando-o completamente, foi feita aqui novamente a mesma ‘mutilação’ do ensino bíblico da ressurreição já vista em outros momentos.

Pastor algum jamais retirou uma ovelha morta duma cova. Quando um pastor resgata uma ovelha duma cova, esta ovelha está viva, e ele faz isso justamente para evitar a morte dela. Caso a ovelha estivesse morta, seria deixada lá, visto que pastor algum tem o poder de trazer alguma criatura de volta à vida. Já a ressurreição não consiste em simplesmente tirar uma pessoa viva da “cova bem mais profunda que é o Seol”.4 O Seol (Hades) é o lugar dos mortos. Os que lá se encontram estão inconscientes e inativos, conforme declarado por toda e qualquer referência bíblica relacionada com o assunto. A ressurreição é um milagre de Deus que resulta no retorno efetivo dos mortos à vida, uma mudança da condição de inexistência, inatividade e inconsciência para a de existência, atividade e consciência. Conforme já foi enfatizado, ressurreição não é ― nem jamais poderia ser ― uma simples “transferência de local” de pessoas vivas.

Ademais, se fosse mesmo verdade que as “ovelhas” em questão usufruem a vida em certa “região do Hades” que é um “domínio ajardinado, imitação do Paraíso de Deus”, um “ambiente relvoso”, a “morada dos meus justos, as residências dos meus santos, onde não há nem trabalho, nem luto, nem pesar, mas sim paz, e alegria, e vida sem fim”, qual seria a finalidade de o “Pastor Celestial” tirá-las dum lugar tão maravilhoso assim? Não já estariam os justos muito bem por lá? E por que a necessidade de se expressar a expectativa ansiosa de Cristo não ser abandonado no Hades (BJ; sepulcro, NVI) e ser resgatado de lá ‘antes que sofresse decomposição’?  (Sal. 16:10, Atos 2:31) Será que existe mesmo base para se fazer alguma “divisão” de Cristo em termos “tricotômicos”, alegando que ‘apenas a alma dele foi para o Hades e o corpo não foi’?

Assim, esta é “mais uma possibilidade de entendimento”, que pode ser descartada com segurança. Ela não é de qualquer ajuda em sustentar a tese da "sobrevivência da alma após a morte". Pois, assim como as demais ‘interconexões de textos aparentemente díspares’, ela gera muito mais questões do que respostas.

Embora seja lamentável esse esforço de descaracterizar o ensino bíblico da ressurreição, por meio da promoção dessas “possibilidades de entendimento” (que nada mais são que vãs tentativas de “salvar” o mito da “sobrevivência da alma após a morte”), este artigo não será concluído com lamentações. Muito mais adequado para finalizá-lo é uma apresentação do Salmo 23 completo. A versão que segue é a de F. R. dos Santos Saraiva (com a grafia atualizada e substituições de algumas palavras por termos sinônimos, para efeito de clareza). Brindamos aqui os leitores com uma oportunidade adicional de apreciar a beleza e a profunda espiritualidade da verdadeira mensagem contida neste salmo:

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NOTAS:

1 Num comentário evangélico ao Salmo 23:4 aparecem as seguintes declarações:

Ainda que eu Andasse Pelo Vale da Sombra da Morte: Há em Israel um vale profundo e íngreme, onde a luz só consegue atingir a sua base quando o sol está em toda a sua força, ao meio dia. Após esse horário, faz-se sombra durante o restante do dia. Certamente Davi conheceu este vale em suas peregrinações com suas ovelhas, pela Palestina. Vales são o extremo contrário de montes. Montes são lugares altos, falam de vitórias. Vales, porém, são lugares baixos que ficam entre os montes. Vales falam de dificuldades, tempos de sofrimentos, de angústias. Em nossa caminhada por este mundo, podemos enfrentar situações e circunstâncias difíceis de resolver. Muitos problemas de diversas naturezas podem chegar até nós.”

Outro comentário diz:

“Neste capitulo, ao mencionar o “vale da sombra da morte”, Davi, sem duvida, estava falando de um lugar peculiar e famoso pela insegurança para os que por ali transitavam. Existem algumas referências de que ele falava da estrada que liga Jerusalém a Jericó, por onde pastores de ovelhas conduziam seus rebanhos na busca de melhores pastagens... A passagem conhecida como "Ladeira do Sangue", era um caminho tortuoso, íngreme e sem nenhuma segurança para os que transitavam pelo local, uma descida de aproximadamente 1.200 metros em apenas 27 quilômetros, com muitos vales apertados de onde, em cavernas construídas nas rochas, ladrões, criminosos e malfeitores espreitavam e emboscavam os viajantes. Muitos tiveram a vida ceifada ao passarem por aquele local. Os abismos formados por penhascos e estreitas trilhas eram algo assustador e muitos pastores viram suas ovelhas despencarem ladeira abaixo perdendo a vida, e só com o auxilio da vara e do cajado as tragédias podiam ser minimizadas.”

(Os grifos nas duas citações foram acrescentados).

2 A falta de apoio bíblico para a doutrina da “sobrevivência da alma após a morte” é tão completa que nem mesmo seus mais ardorosos defensores conseguem evitar admitir isso em algum momento. Daí a razão de apelarem para essas tentativas de “leitura da mente” dos personagens bíblicos. O raciocínio que usam para tentar convencer seus leitores (bem como a si mesmos) seria: ‘Os escritores bíblicos nunca disseram essas coisas, mas a ideia está lá de qualquer maneira, porque eles pensavam assim’. Este “argumento” é comum no discurso imortalista.

3 As fontes usadas para esse estudo etimológico foram The Englishman's Greek Concordance of the New Testament (Concordância Grega do Novo Testamento Para os Leitores de Inglês) e A Greek-English Lexicon of the New Testament (Léxico Greco-Inglês do Novo Testamento), editado por Joseph Henry Thayer. Mas o leitor poderá usar qualquer outra concordância e/ou versão interlinear que possua, para confirmar o que é apresentado aqui.

O Léxico Greco-Inglês do Novo Testamento, editado por Thayer, alista estes sentidos para o verbo grego ἐγείρω / egeirō:

estimular, fazer levantar;
despertar do sono, acordar;
despertar do sono da morte, trazer os mortos à vida;
fazer levantar de um assento ou cama, etc.;
suscitar, produzir, fazer surgir;
fazer aparecer, trazer a público;
erguer-se, colocar-se contra alguém;
dar origem, isto é, causar o nascimento;
erguer, construir, erigir (edifícios).

É possível encontrar exemplos da maior parte destes significados de ἐγείρω / egeiro em meio aos trechos bíblicos. Deveria ser claro que o fato de a mesma palavra aparecer em todos estes casos não estabelece automaticamente alguma “interconexão” entre os versículos. A palavra pode ser a mesma, mas o sentido não; os versículos estão tratando de assuntos completamente diferentes. O fato de Jesus ter usado o verbo ἐγείρω / egeiro em Mateus 12:11 não quer dizer que ele estava falando de “ressurreição”, como se o pastor humano estivesse ressuscitando a ovelha que caiu no buraco. Esta ideia não se encontra no texto; a palavra ἐγείρω / egeiro lá tem outro sentido.

Esta variabilidade de significados não ocorre, porém, no caso da palavra ἀνάστασις / anastasis. Esta significa ― invariavelmente ― “ressurreição”, qualquer que seja a referência bíblica onde ela apareça. Só se tivesse sido esta a palavra usada por Jesus na declaração de Mateus 12:11 é que se poderia falar em “interconexão” desta declaração com outras referências bíblicas à ressurreição dos mortos.

4 Todo o debate que alguns gostariam de fomentar em torno de temas tais como “profundidade” ou “localização” do Seol é inútil, pois isso é completamente irrelevante para a discussão sobre a condição dos mortos. A ênfase nessas coisas não passa de divagação, um desvio do assunto. A questão não é saber a “definição precisa” de Seol (nem mesmo a Bíblia fornece isso, diga-se de passagem), "onde é que fica", nem "quão profundo” ele é. A evidência fornecida pelas referências bíblicas sobre a condição de inatividade e inconsciência dos que estão mortos tem um peso enorme e os defensores do conceito da "sobrevivência da alma após a morte" estão bem cientes disso. É por isso que alguns deles tentam desesperadamente transferir a discussão para outros assuntos.