As Parábolas Exclusivas do Evangelho de Lucas

 

Escutai, povo meu, a minha lei; inclinai os vossos ouvidos às palavras da minha boca. Abrirei numa parábola a minha boca, proferirei enigmas tirados dos tempos antigos. – Salmo 78:1, 2

Profetizou-se que o Messias ensinaria usando parábolas ou ilustrações, e isto se cumpriu no ministério de Jesus Cristo (Mateus 13:35). As parábolas eram uma característica peculiar no ensino dele. Mas, por que esse uso de parábolas? Sem dúvida elas eram um auxílio poderoso ao ensino. As pessoas facilmente se lembrariam e compartilhariam delas com outros. As parábolas eram também ricas metáforas espirituais. Os significados profundos revelariam como um discípulo progrediu na caminhada cristã.

As parábolas serviam também a outro propósito. Jesus explicou que “a vocês foi dado o conhecimento dos mistérios do Reino de Deus, mas aos outros falo por parábolas, para que ‘vendo, não vejam; e ouvindo, não entendam’.” (Lucas 8:9, 10). As parábolas funcionavam como um “filtro” espiritual. Aqueles a quem as boas novas eram dirigidas entenderiam, outros não. Como somos privilegiados então, de sermos considerados dignos por nosso Senhor para entender o ensinamento divino oculto em suas parábolas!

No livro de Lucas, há 11 parábolas que não são encontradas nos demais evangelhos1:

• Os Dois Devedores (Lucas 7:41-43)
• O Bom Samaritano (Lucas 10:30-37)
• O Amigo Importunador (Lucas 11:5-8)
• O Rico Insensato (Lucas 12:16-21)
• A Figueira Estéril (Lucas 13:6-9)
• A Moeda de Prata Perdida (Lucas 15:8-10)
• O Filho Pródigo (Lucas 15:11-32)
• O Administrador Injusto (Lucas 16:1-9)
• O Rico e Lázaro (Lucas 16:19-31)
• O Juiz Injusto (Lucas 18:1-8)
• O Fariseu e o Cobrador de Impostos (Lucas 18:9-14)

Essas parábolas foram contadas dentro de um contexto histórico comum e compartilham um tema comum. O fim da era judaica se aproximava rapidamente, e ela seria substituída pela era do Evangelho. Os líderes religiosos hipócritas tinham abusado da confiança de Deus, e Jesus estava advertindo-os do julgamento iminente. Ele contrastava a hipocrisia e dureza de coração deles com o amor misericordioso de Deus. Ele previa que os párias da sociedade judaica, arrependidos e humildes, receberiam as bênçãos de Deus à frente deles. A era do Evangelho seria inaugurada com uma reversão completa das condições espirituais: Israel seria abandonado e Deus voltaria sua atenção para os povos de todas as nações. Os que eram os “primeiros” (pelo menos aos seus próprios olhos) seriam os últimos e os “últimos” seriam os primeiros (Lucas 13:30).

Essas parábolas ensinam uma série de lições importantes, não apenas para aqueles que as ouviram, mas para todos os cristãos.

Felizes São os que Conhecem Sua Necessidade Espiritual

Conhecermos nossa necessidade espiritual, seguido pelo arrependimento verdadeiro e sincero é o início da caminhada cristã.

Em Lucas capítulo sete, relata-se que Jesus foi jantar com o fariseu Simão, quando uma mulher, uma conhecida pecadora, entrou na casa. Ela lavou os pés de Jesus com suas lágrimas, enxugou-os com seus cabelos, e untou-os com óleo perfumado. A reação de Simão foi de reprovação. Como poderia Jesus permitir que uma pessoa tão pecadora o tocasse? Ele raciocinou intimamente que, se Jesus fosse realmente um profeta, ele iria perceber quem esta mulher era. Jesus tentou corrigir o pensamento de Simão, primeiro expondo seu raciocínio interior como errado, e em seguida por meio duma ilustração que conhecemos como a “parábola dos dois devedores”:

“Dois homens deviam a certo credor. Um lhe devia quinhentos denários e o outro, cinquenta. Nenhum dos dois tinha com que lhe pagar, por isso perdoou a dívida a ambos. Qual deles o amará mais?" Simão respondeu: "Suponho que aquele a quem foi perdoada a dívida maior". "Você julgou bem", disse Jesus.” – Lucas 7:41-43

Daí, Jesus apontou que Simão tinha esquecido de lhe oferecer as cortesias comuns que se mostravam aos convidados na cultura deles: “Entrei em sua casa, mas você não me deu água para lavar os pés; ela, porém, molhou os meus pés com as suas lágrimas e os enxugou com os seus cabelos. Você não me saudou com um beijo, mas esta mulher, desde que entrei aqui, não parou de beijar os meus pés. Você não ungiu a minha cabeça com óleo, mas ela derramou perfume nos meus pés. Portanto, eu lhe digo, os muitos pecados dela lhe foram perdoados, pelo que ela amou muito. Mas aquele a quem pouco foi perdoado, pouco ama.”

O fariseu Simão tinha pouca consciência de sua necessidade espiritual. Por isso, ele mostrou pouco amor, especialmente para com aqueles que ele considerava abaixo do nível dele. A mulher tinha uma aguçada e profunda consciência dos pecados dela. Ela estava verdadeiramente arrependida de coração. A evidência de ela ser perdoada, conforme Jesus afirmou, foi mostrada por seu profundo amor. Para confirmar isso, ele disse: “Seus pecados estão perdoados.” e “Sua fé a salvou; vá em paz.” Infelizmente, essa lição foi despercebida pelos convidados do jantar. Em vez disso, eles ficaram indignados por Jesus ter a presunção de perdoar pecados!

A verdade é que ninguém está isento de pecados. Independentemente de nos acharmos em dívida de “50 denários” ou “500 denários”, todos somos pecadores e estamos aquém dos requisitos justos de Deus. Não é possível pagar qualquer parte dessa dívida por meio de nossas próprias obras. É só por meio do arrependimento de coração, e do sacrifício expiatório de Jesus Cristo, que podemos ter uma posição justa atribuída a nós por Deus. A parábola do “Fariseu e o Cobrador de Impostos” ensina uma lição semelhante.

Ajuntar Tesouros no Céu, não na Terra

Na parábola do “Administrador Injusto” (Lucas 16:1-9), Jesus demonstrou a importância de usar nossos recursos com sabedoria para “ajuntar tesouros no céu”: “O administrador de um homem rico foi acusado de estar desperdiçando os seus bens. Então ele o chamou e lhe perguntou: ‘Que é isso que estou ouvindo a seu respeito? Preste contas da sua administração, porque você não pode continuar sendo o administrador’.”

O administrador não era forte o suficiente para trabalhos manuais e tinha vergonha de mendigar, então ele concebeu um plano. Sabendo que logo ficaria em emprego, ele agiu rapidamente para reduzir o valor devido ao seu amo por dois dos devedores dele. O administrador esperava obter favores desses devedores quando ficasse desempregado. Seu amo, um empresário, apreciou sua estratégia inteligente, e o elogiou por isso, mas não mudou de ideia sobre encerrar a posição dele. Jesus, então, explica o significado: “Por isso, eu lhes digo: usem a riqueza deste mundo ímpio para ganhar amigos, de forma que, quando ela acabar, estes os recebam nas moradas eternas. "Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito, e quem é desonesto no pouco, também é desonesto no muito. Assim, se vocês não forem dignos de confiança em lidar com as riquezas deste mundo ímpio, quem lhes confiará as verdadeiras riquezas?”

Jesus ensina que devemos usar nossos recursos com sabedoria no serviço de Deus. Com efeito, ele está dizendo que se os filhos desta era devem demonstrar astúcia no uso do dinheiro para seu próprio ganho, quanto mais deveriam os que se consideravam filhos da luz – especificamente os escribas e fariseus que o ouviam – de usar seus recursos com sabedoria no serviço de Deus! Inversamente, se a pessoa desperdiçar seus recursos e oportunidades nesta era, como poderá esta pessoa ser confiável para assumir maiores responsabilidades na próxima?

A era judaica estava prestes a acabar, e a era do Evangelho mal tinha começado. O administrador injusto representava os líderes religiosos judaicos que haviam desperdiçado a confiança de Deus e estavam prestes a serem dispensados. Eles haviam tratado duramente as pessoas que estavam sob seus cuidados (Mateus 23:4). Se eles possuíssem a verdadeira sabedoria, teriam agido rapidamente para aliviar as cargas das pessoas em antecipação à nova dispensação. Isto teria beneficiado tanto o povo como eles próprios, pois este procedimento contaria com a aprovação do Senhor. Em vez disso, eles continuaram a depositar sua confiança na astúcia mundana e nas “riquezas injustas”. Por esta tolice eles perderiam tudo. Isso ocorreu em 70 DC, quando Jerusalém foi destruída pelos romanos como castigo divino (Lucas 13:34-35; 21:20).

Em contraste com os fariseus, nós nos provamos como verdadeiros discípulos de nosso mestre Jesus Cristo, por darmos tudo o que temos para ajudar os outros em sua caminhada cristã, ou para trazer alívio aos necessitados (João 21:15-17). Jesus desistiu de todas as coisas, até mesmo de sua própria vida, para servir aos outros, e o mesmo devemos fazer nós se estivermos seguindo os passos dele. Se fizermos isso, estaremos “fazendo amigos” para nós mesmos com as “riquezas injustas”. Quando estas falharem, no momento em que a era atual chegar ao fim, os recursos deste mundo não terão valor. Só então os “amigos” que fizemos nos receberão nas moradas eternas, o reino dos céus, onde seremos recompensados com maiores responsabilidades (Lucas 22:28). Abraão era amigo de Deus (Isaías 41:8, Tiago 2:23), e Jesus disse: “Vós sois meus amigos, se fizerdes o que vos mando.” (João 15:14). Da mesma forma, podemos ser amigos do Altíssimo e de seu Filho, por darmos o nosso tudo no serviço de Deus.

As parábolas do “Rico Insensato” e do “Rico e Lázaro” ensinam lições semelhantes. (Veja o Apêndice para obter mais informações sobre a parábola do “Rico e Lázaro”.

A Fé Sem Obras Está Morta

Setenta discípulos acabavam de voltar de uma missão de pregação e estavam relatando suas experiências ao Senhor (Lucas 10:17-24). Entusiasmado, Jesus diz: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e cultos e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, pois assim foi do teu agrado.” Voltando-se para os seus discípulos, ele diz “Felizes são os olhos que veem o que vocês veem.” Em meio a essa manifestação de alegria, um advogado, perito na Lei de Moisés, levantou-se para testar Jesus:

"Mestre, o que preciso fazer para herdar a vida eterna?" "O que está escrito na Lei?", respondeu Jesus. "Como você a lê?" Ele respondeu: "‘Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todas as suas forças e de todo o seu entendimento’ e ‘Ame o seu próximo como a si mesmo’". Disse Jesus: "Você respondeu corretamente. Faça isso, e viverá". Mas ele, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: "E quem é o meu próximo?" – Lucas 10:23-29

Jesus respondeu com a parábola do “Bom Samaritano” (versículos 30-37). Um homem foi atacado por assaltantes durante a viagem de Jerusalém a Jericó. Tanto um sacerdote como um levita por passar tanto, sem oferecer qualquer ajuda, abandonando-o para morrer. Todavia, um samaritano parou e ajudou o homem a um tempo e custo consideráveis, cuidando de suas feridas e levando-o para uma hospedagem. “Qual destes três você acha que foi o próximo do homem que caiu nas mãos dos assaltantes?” “Aquele que teve misericórdia dele”, respondeu o perito na lei. Jesus lhe disse: “Vá e faça o mesmo”.

O advogado havia perguntado: "Quem é o meu próximo?" A palavra grega é pleesion que pode significar qualquer outra pessoa, ou pode significar um amigo.2 O advogado queria saber a quem ele deveria direcionar o seu amor. Com efeito, Jesus disse a ele que a questão não deve ser “quem é o meu próximo”, e sim “como eu posso ser um amigo para aqueles que estão em necessidade.” A resposta é simples: fornecer ajuda sem distinção de raça ou condição.

Jesus está ensinando que as ações falam mais alto do que as aparências. O sacerdote e o levita, que pareciam justos e tementes a Deus, revelaram sua hipocrisia através de sua inação. Só o samaritano, um pária da sociedade judaica, agiu como verdadeiro próximo.

Sabemos que obras em si não podem salvar ninguém (Romanos 9:30-33). No entanto, as boas obras se seguem naturalmente se existe fé no coração. “Você tem fé; eu tenho obras”. Mostre-me a sua fé sem obras, e eu lhe mostrarei a minha fé pelas obras.” (Tiago 2:18). Boas obras provam que somos “filhos de [nosso] Pai que está nos céus. Porque ele faz raiar o seu sol sobre maus e bons e derrama chuva sobre justos e injustos.” (Mateus 5:45).

A parábola da Figueira Estéril (Luc 13:6-9) ensina uma lição semelhante, destacando a proximidade do julgamento de Israel por sua falta de frutos espirituais.

Abençoados os Misericordiosos, Pois Eles Receberão Misericórdia

Os cobradores de impostos e pecadores tinham se achegado a Jesus para ouvi-lo ensinar. Mas “os fariseus e os mestres da lei o criticavam: ‘Este homem recebe pecadores e come com eles’.” Estes líderes não percebiam que Deus estava, por meio de Jesus, estendendo a mão para os pecadores. Eles não conseguiam perceber que aos olhos de Deus um pecador arrependido é de grande valor, um motivo de alegria. Jesus ensinou esta lição com uma série de parábolas, incluindo a da “Moeda de Prata Perdida” (Dracma) (Lucas 15:8-10) e a do “Filho Pródigo” (Lucas 15:11-32). Na parábola da moeda perdida, uma mulher que tem 10 moedas de prata perde uma. Ela a procura com uma lâmpada, e varre toda a casa até encontrá-la. Então, ela convida as suas vizinhas para celebrar sua felicidade com ela. E assim é com Deus. Ele procura diligentemente na terra pelos humanos que se perderam, os que estão afastados dele e mostra benignidade imerecida e misericórdia para aqueles que retornam (1 Pedro 3:10-12).

Na parábola do Filho Pródigo, o mais jovem de dois filhos solicita que o pai lhe antecipe a herança e põe-se a desperdiçá-la numa vida desregrada numa terra estrangeira. Quando sua situação se torna desesperadora ele “foi empregar-se com um dos cidadãos daquela região, que o mandou para o seu campo a fim de cuidar de porcos.” Ele tinha atingido as profundezas da miséria e da humilhação – os porcos eram animais imundos e repugnantes para os judeus. “Ele desejava encher o estômago com as vagens de alfarrobeira que os porcos comiam, mas ninguém lhe dava nada.”

Por fim, ele cai em si: “‘Quantos empregados de meu pai têm comida de sobra, e eu aqui, morrendo de fome! Eu me porei a caminho e voltarei para meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e contra ti. Não sou mais digno de ser chamado teu filho; trata-me como um dos teus empregados’.” Seu pai vê seu filho perdido andando em direção a ele à distância e “cheio de compaixão, correu para seu filho, e o abraçou e beijou.” Ele perdoa o filho e é envolvido por grande alegria. “‘Depressa! Tragam a melhor roupa e vistam nele. Coloquem um anel em seu dedo e calçados em seus pés. Tragam o novilho gordo e matem-no. Vamos fazer uma festa e comemorar. Pois este meu filho estava morto e voltou à vida; estava perdido e foi achado’.’ Seu pai o aceita de volta para a família com todos os privilégios de um verdadeiro filho.

O filho mais velho, porém, não está contente. Ele tem ciúmes da atenção dada a seu irmão mais novo, que ele acha que não a merece. Ele se recusa a entrar na casa e se juntar à celebração, por isso o pai compassivo sai da casa para falar com ele. Seu pai tenta, em vão, mostrar ao seu filho mais velho, que uma grande tragédia foi revertida: “... nós tínhamos que comemorar e alegrar-nos, porque este seu irmão estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi achado’”.

O ponto destas parábolas já havia sido explicado por Jesus: “Eu lhes digo que, da mesma forma, haverá mais alegria no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não precisam arrepender-se.”... “Eu lhes digo que, da mesma forma, há alegria na presença dos anjos de Deus por um pecador que se arrepende.” (Lucas 15:7, 10) Os fariseus deveriam ter imitado a misericórdia de Deus. Em vez disso, eles “[atavam] fardos pesados e os [colocavam] sobre os ombros dos homens, mas eles mesmos não [estavam] dispostos a levantar um só dedo para movê-los.” (Mateus 23:4). Assim como o filho mais velho da parábola, eles achavam que eram exclusivamente os mais dignos das bênçãos de Deus. Não entenderam que Deus foi misericordioso e bondoso para com todos; que Ele estendeu a mão para os pecadores que se arrependeram.

Os cristãos devem imitar a misericórdia de Deus. Devemos respeitar e apreciar todos aqueles que Deus atrai para si mesmo, independentemente de quais possam ser as origens deles. Devemos perdoar, de nossos corações, aqueles que pecaram contra nós, e reconhecer e respeitar o perdão de Deus para com todos os que estão verdadeiramente arrependidos (Mateus 18:21,22). Não só devemos perdoar, mas devemos esquecer. Então, Deus terá misericórdia para nós.

Nunca Deixe de Orar

“Então Jesus contou aos seus discípulos uma parábola, para mostrar-lhes que eles deviam orar sempre e nunca desanimar. Ele disse: "Em certa cidade havia um juiz que não temia a Deus nem se importava com os homens. E havia naquela cidade uma viúva que se dirigia continuamente a ele, suplicando-lhe: ‘Faze-me justiça contra o meu adversário’. "Por algum tempo ele se recusou. Mas finalmente disse a si mesmo: ‘Embora eu não tema a Deus e nem me importe com os homens, esta viúva está me aborrecendo; vou fazer-lhe justiça para que ela não venha me importunar’”. (Lucas 18:1-5)

Esta viúva, por sua persistência, foi capaz de conseguir a justiça deste juiz impiedoso. Jesus raciocinou: “Acaso Deus não fará justiça aos seus escolhidos, que clamam a ele dia e noite? Continuará fazendo-os esperar? Eu lhes digo: ele lhes fará justiça, e depressa.”

Quanto mais amoroso e justo o Deus Todo-Poderoso é em comparação com um juiz do mundo! Durante os tempos de tribulações, não devemos nunca desistir e nunca parar de orar. Quando Jonas foi engolido por um grande peixe, ele orou a Deus enfaticamente: “Quando a minha vida já se apagava, eu me lembrei de ti, Senhor, e a minha oração subiu a ti, ao teu santo templo.” (Jonas 2:7). Deus ouviu a oração de Jonas e o livrou de sua grande aflição. Quando Jacó estava com medo de que seu vingativo irmão Esaú iria fazer o mal a ele ou a sua família, ele pediu a Deus: “Livra-me, rogo-te, das mãos de meu irmão Esaú, porque tenho medo que ele venha nos atacar, tanto a mim como às mães e às crianças.” (Gênesis 32:11). Deus ouviu a oração de Jacó e abrandou o coração de seu irmão. Assim como Jonas, Jacó, e muitos outros exemplos bíblicos de pessoas tementes a Deus, devemos ter fé de que Deus tanto ouve como responde às nossas orações (Hebreus 11:6). Quando enfrentamos provações, oremos persistentemente a Deus com palavras sinceras, mostrando profundo respeito. Nosso Pai Celestial nos ouvirá e virá em auxílio de seus filhos que sofrem (Lucas 11:13).

A parábola do Amigo Importuno ensina uma lição semelhante.

As Parábolas São Para Nós

Podemos ver que os aspectos negativos dessas parábolas se aplicavam aos líderes religiosos corruptos de Israel, mas as lições têm também uma aplicação mais ampla. O conselho é também destinado aos cristãos durante a Era do Evangelho (2 Timóteo 3:16). Os escribas e fariseus daquela época de Cristo não estão mais conosco, mas temos visto os seus correspondentes na Cristandade. A história está cheia de exemplos de abusos de autoridade religiosa por parte desses homens. Muitos cristãos tementes a Deus e honestos de coração sofreram perseguições horríveis e até assassinatos às mãos de autoridades religiosas católicas e protestantes que alegavam representar a Deus. Em nosso tempo, mesmo com os nossos modernos sistemas judiciais, muitos continuam a sofrer abuso emocional, físico ou sexual dessa mesma classe de hipócritas. Conforme disse Jesus, conheceremos uma árvore pelos seus frutos, e estas árvores mostraram ser podres. Suas atitudes e ensinamentos corruptos podem sutilmente encontrar espaço em qualquer grupo de crentes, até mesmo em nossos corações! Precisamos estar vigilantes (Lucas 12:1, Mateus 16:5-12).

Para ‘aqueles que têm ouvidos’, os que ‘conhecem o Bom Pastor’ e são conhecidos por ele – os aspectos positivos das parábolas se aplicam juntamente com as bênçãos prometidas. Se compreendermos os ensinamentos nas parábolas, então estamos entre aqueles a quem o Senhor tem “... dado o conhecimento dos mistérios do Reino de Deus”. (Lucas 8:9). Que grande privilégio! Demos graças a Deus por esta grande bênção. Reconheçamos com humildade nossa necessidade espiritual, e tomemos as lições destas parábolas ao coração, pedindo a Deus por seu Espírito Santo (Lucas 11:13). Juntemos um tesouro no céu, não na terra. Provemos nossa fé por nossas obras, e demonstremos misericórdia divina. Oremos incessantemente, tendo fé que o nosso Deus, o “Ouvinte de oração”, responderá (Salmo 65:2). E sigamos nosso Senhor Jesus Cristo para onde quer que ele nos leve, perseverando pacientemente e em oração, até que a vontade de Deus seja feita na terra como no céu.

Apêndice

“O Rico e Lázaro”

A parábola do “homem rico e Lázaro” é usada com frequência para apoiar a doutrina do tormento eterno. No entanto, as parábolas não são declarações literais de doutrina, e não podem ser usadas desta maneira. Elas são comparações, ilustrações de verdades espirituais. Para entender as parábolas, devemos primeiro entender o contexto em que foram contadas. Neste caso em particular, foi numa série de encontros com os fariseus hipócritas. Jesus adaptou provavelmente uma estória folclórica comum3, com o fim de ensinar uma lição marcante e incisiva: logo haveria uma reversão de destinos espirituais. Os fariseus cairiam do favor de Deus, e os excluídos da sociedade judaica, retratados por Lázaro, que aceitaram Jesus Cristo, receberiam grandes bênçãos espirituais. A parábola ensinou uma lição que se aplicou principalmente para aquela época, e é a única parábola em que uma pessoa tem um nome. O significado disso, muitas vezes esquecido pelos comentaristas, tornou-se evidente pouco tempo depois, quando Jesus ressuscitou seu amigo, Lázaro, dos mortos. Fiel à lição da parábola, os fariseus mesmo assim não acreditaram (João 12:9,10), assim como não acreditaram quando o próprio Senhor ressuscitou. Esta parábola predisse uma reversão surpreendente de situações espirituais, segundo o propósito de Deus e a sua justiça, e mostra a tolice de se perseguir a proeminência mundana. Ela não ensina a doutrina do tormento eterno, que desonra a Deus.

_________________

Gordon Coulson. As referências bíblicas nesta tradução são da Nova Versão Internacional.

 

NOTAS:

1 N.T. : O autor se baseou na informação que está na The Companion Bible, pág. 1428.

2 Léxico Greco-Inglês de Thayer do Novo Testamento, de Strong #4139

3 A Bíblia do Intérprete, pág. 290; Comentário de Peake, pág. 837