O Conceito do Novo Testamento Sobre a Natureza Humana


Em nossas Bíblias, a primeira página do Novo Testamento vem logo depois da última página do Antigo Testamento. Isso pode fazer leitores desinformados pensarem que não há qualquer intervalo de tempo entre os dois Testamentos. Na realidade, aproximadamente quatro séculos os separam. Durante esse período inter-testamentário, o povo judaico ficou exposto, tanto em sua pátria, na Palestina, como no estrangeiro, na diáspora (dispersão), à forte influência da cultura e filosofia helenísticas (gregas). O impacto do helenismo sobre o judaísmo é evidente em muitas áreas, inclusive na adoção do dualismo grego por algumas obras literárias judaicas produzidas naquela época.

A literatura judaica produzida durante o período inter-testamentário é geralmente conhecida como apócrifa ou pseudoepigráfica. [1] A maior parte dos cristãos não considera estes livros não canônicos como divinamente inspirados e autoritativos como os livros da Bíblia. Isso não diminui seu valor histórico, uma vez que eles são uma importante fonte de informação sobre os desenvolvimentos históricos e ideológicos da época.

No que se refere à natureza e ao destino humanos, desenvolveram-se duas escolas principais do pensamento judaico durante o período intertestamentário. A primeira, o Judaísmo Palestino, manteve-se fiel ao conceito holístico da natureza humana do Antigo Testamento e fornece um destacado pano de fundo para a compreensão do Novo Testamento. O Judaísmo Palestino encarava a morte como um sono inconsciente da pessoa inteira e enfatizava a necessidade da ressurreição final do corpo. A importância desse conceito para o estudo do Novo Testamento pode ser ilustrada pelo livro apócrifo do Apocalipse de Baruque (conhecido como 2 Baruque), que foi escrito por um judeu palestino na última metade do primeiro século da era cristã. O autor ensina que os mortos “dormem na terra” e quando o Messias retornar “todos os que adormeceram na esperança dele se levantarão novamente”. [2] Todos os justos serão reunidos num momento e os ímpios prantearão, pois o tempo de seu tormento chegou. [3] Esse conceito é notavelmente semelhante ao ensino neotestamentário da ressurreição do corpo que é parte do conjunto de idéias que pareciam “tolice” para os gregos (1 Cor. 1:23).

A segunda escola de pensamento é o Judaísmo Helenístico, que era amplamente influenciada pelo dualismo grego. O Judaísmo Helenístico floresceu principalmente em Alexandria, a terra natal de Filo, o famoso filósofo judeu que tentou fazer uma síntese das idéias hebraicas e gregas. Nos escritos dos judeus helenistas encontramos referências claras à sobrevivência e imortalidade da alma. A existência à parte do corpo parece ser o destino eterno dos salvos. Por exemplo, o Livro dos Jubileus, apócrifo (por volta de 135 A.C.) ensina que “os ossos” jazem na sepultura enquanto os “espíritos” vivem independentemente: “E seus ossos descansarão na terra, e seus espíritos terão muito gozo, e eles saberão que é o Senhor quem executa julgamento, e mostra misericórdia a... todos os que o amam” (23:31). [4] Numa linha similar de raciocínio, A Sabedoria de Salomão, escrito por um judeu helenista entre 50 e 30 A.C., diz que “as almas dos justos estão nas mãos de Deus, e nenhum tormento jamais as tocará... elas estão em paz... sua esperança é a plena imortalidade” (3:1, 3, 4). [5] O mesmo conceito é encontrado em 4 Macabeus, um tratado filosófico escrito por um judeu helenista pouco antes da era cristã. Os justos que morreram ascendem imediatamente para a ventura eterna [6] , enquanto que os iníquos descem ao tormento eterno, que varia em intensidade. [7]

Em resumo, durante o período inter-testamentário, conforme expresso aptamente por Wheeler Robinson: “A interpretação dualística da relação entre corpo e alma (ou espírito) é encontrado na linha helenística do judaísmo (Sabedoria 9:15); mas é alheia à linha de pensamento palestiniana, que liga diretamente o pensamento do Antigo Testamento com muito do Novo”. [8]

Ao abordarmos o estudo do conceito neotestamentário da natureza humana, não podemos ignorar a possível influência do judaísmo helenista sobre os escritores dos livros do Novo Testamento. Afinal, com a possível exceção de Mateus, todos os livros do Novo Testamento foram escritos em grego e usam as quatro grandes palavras antropológicas gregas: psychê-alma, pneuma-espírito, soma-corpo, e sarx-carne. Estas palavras eram comumente usadas na época do Novo Testamento com um significado dualístico grego. A alma e o espírito denotavam a parte imaterial e imortal da natureza humana, enquanto o corpo e a carne descreviam a parte material e mortal.

De modo que a questão é: Até que ponto o sentido dualístico dessas importantes palavras gregas se refletiu nos escritos do Novo Testamento? Surpreendentemente, conforme veremos neste capítulo, o sentido e o uso dualístico desses termos estão ausentes no Novo Testamento. Mesmo aquelas passagens que parecem ser dualísticas ao contrastarem a carne e o espírito, num exame mais atento revelam um entendimento holístico da natureza humana. A carne e o espírito não são colocados como duas partes distintas e opostas da natureza humana, e sim como dois diferentes tipos de estilo de vida: o centralizado no homem versus o centralizado em Deus.

A razão da ausência de influência dualística no Novo Testamento é que seus escritores utilizaram as importantes palavras gregas referentes à natureza humana em harmonia com seus equivalentes originais no Antigo Testamento, onde as idéias se originaram, e não de acordo com os significados prevalecentes na sociedade helenista.

Devemos ter sempre em mente que “o elo entre o hebraico do Antigo Testamento e o grego do Novo Testamento é a grande versão Septuaginta (grega) do Antigo Testamento feita em Alexandria no terceiro século A.C. A tradução foi feita por judeus, que obviamente entendiam o significado das palavras hebraicas e pretendiam fazer com que os termos gregos que utilizavam correspondessem a isso. Assim, a Septuaginta segue o hebraico, e o Novo Testamento segue a Septuaginta. A versão Septuaginta não foi inspirada, mas por providência divina ela forneceu este valioso elo linguístico entre o Velho e o Novo Testamentos.” [9]

A assimilação do dualismo grego dentro da tradição cristã ocorreu depois que o Novo Testamento tinha sido escrito. J. Robinson dá alguns excelentes exemplos de como o apóstolo Paulo usou palavras gregas de acordo com o significado dos termos hebraicos correspondentes, e não de acordo com o uso grego prevalecente. Por exemplo, a frase de Paulo “a mente carnal” (Col. 2:18), não tinha sentido algum para o pensamento grego, porque a mente (nous) era sempre associada com a alma (psychê) e nunca com a carne. Similarmente, as referências de Paulo ao corpo espiritual (1 Cor. 15:44, 46) e à contaminação da carne e do espírito (2 Cor. 7:1) “teriam parecido um absurdo para os gregos” [10] porque segundo eles o corpo não era espiritual e o espírito não podia ser contaminado. Indicações como estas mostram que o conceito neotestamentário da natureza humana reflete o pensamento hebraico (Antigo Testamento), não o grego.

Objetivos do Capítulo. Este capítulo procura entender o conceito do Novo Testamento sobre a natureza humana por examinar os quatro termos antropológicos destacados, a saber, alma, espírito, corpo e coração. Estes são os mesmos quatro termos que examinamos no capítulo anterior, em nosso estudo do conceito do Novo Testamento sobre a natureza humana. Os vários significados e usos desses termos são estudados para determinar se eles seguem os significados e usos dos termos hebraicos correspondentes no Antigo Testamento.

Nosso estudo demonstra que existe uma continuidade definida entre o Velho e Novo Testamentos no entendimento holístico da natureza humana. A noção da imortalidade da alma, embora popularmente mantida por outros na época em que o Novo Testamento foi escrito, está ausente dos escritos do Novo Testamento porque seus autores foram fiéis aos ensinos do Antigo Testamento.

O Novo Testamento revela não só continuidade com o Antigo Testamento no entendimento da natureza e destino humanos, como também uma compreensão ampliada à luz da encarnação e dos ensinos de Cristo. Afinal, Cristo é o verdadeiro cabeça da raça humana, já que Adão “era um tipo daquele que havia de vir” (Rom. 5:14). Enquanto no Antigo Testamento a natureza humana se relaciona primariamente com Adão em virtude da criação e da Queda, no Novo Testamento a natureza humana se relaciona com Cristo em virtude de Sua encarnação e Redenção. Cristo é a plenitude da revelação sobre a natureza, significado e destino humanos. Cristo fornece um significado mais profundo da alma, corpo e espírito humanos, porque o efeito imediato de Sua redenção foi a dádiva de Seu Espírito que “habita convosco e está em vós” (João 14:17).

PARTE I: A NATUREZA HUMANA COMO ALMA

A palavra grega psychê-alma é usada no Novo Testamento em harmonia com os significados básicos da palavra hebraica nephesh-alma, que encontramos no Antigo Testamento. Examinaremos brevemente o significado básico de psychê-alma, dando especial atenção ao significado ampliado da palavra à luz dos ensinos e do ministério redentor de Cristo.

A Alma Como Pessoa. A alma-psychê no Novo Testamento denota a pessoa integral, no mesmo sentido de nephesh no Antigo Testamento. Por exemplo, em sua defesa perante o Sinédrio, Estêvão menciona que “setenta e cinco almas-[psychê]” da família de Jacó desceram ao Egito, um numeral e uso encontrado no Antigo Testamento (Gên. 46:26, 27; Êxo. 1:5; Deut. 10:22). No dia do Pentecostes, “três mil almas-[psychê]” (Atos 2:41) foram batizadas e “em cada alma-[psychê] havia temor” (Atos 2:43). Falando sobre a família de Noé, Pedro diz que “oito almas-[psychê] foram salvas pela água” (1 Ped. 3:20). É evidente que em textos como esses a “alma-psychê” é usada como um sinônimo de pessoa.

Dentro deste contexto, mencionamos a famosa promessa de Cristo de descanso para as “almas-[psychê]” daqueles que aceitam o Seu jugo (Mat. 11:28). A expressão “descanso para as vossas almas-[psychê]” procede de Jeremias 6:16, onde o descanso para a alma é prometido àquele que anda de acordo com os mandamentos de Deus. O descanso que Cristo concede à alma, conforme assinala Edward Schweizer, “difere completamente do que encontramos no mundo grego, onde a alma encontra descanso quando é libertada do corpo, pois aqui a unidade e totalidade do homem é mantida. É em seus atos físicos de obediência que o homem encontra o descanso de Deus”. [11] Cristo dá o descanso (paz e harmonia interiores) às almas daqueles que aceitam Sua graciosa provisão de salvação (“vinde a Mim”) e vivem em harmonia com os princípios de vida que Ele ensinou e exemplificou (“aprendei de Mim”).

A Alma Como Vida. O significado mais frequente da palavra alma-psychê no Novo Testamento é o de “vida”. Segundo uma contagem, psychê é traduzida como “vida” 46 vezes. [12] Nestes casos, “vida” propicia uma tradução adequada do grego psychê porque é usada com referência à vida física. Para facilitar a identificação da palavra alma-psychê encontrada no texto grego, psychê será traduzida literalmente como “alma” em lugares onde a RSV [Versão Padrão Revisada, em inglês] traduz como “vida”.

No auge da tempestade, Paulo assegurou aos tripulantes do navio que “nenhuma das almas [psychê] entre vós se perderá, mas apenas o navio” (Atos 27:22; 27:10). Neste contexto, o termo grego psychê é traduzido corretamente como “vida”, porque Paulo está falando sobre perda de vidas. Um anjo disse a José: “Dispõe-te, toma o menino e sua mãe, e vai para a terra de Israel; porque já morreram os que atentavam contra a alma [psychê] do menino” (Mat. 2:20). Esta é uma das muitas referências a procurar, matar e salvar a alma-psychê, todas as quais sugerem que a alma não é uma parte imortal dos humanos, e sim a própria vida física que pode estar em perigo. Segundo o Antigo Testamento, a alma-psychê é levada à morte quando o corpo morre.

Jesus associou a alma com alimento e bebida. Disse ele: “Não andeis ansiosos pelas vossas almas [psychê], quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo quanto ao que haveis de vestir. Não é a alma [“psyche”] mais do que o alimento, e o corpo mais do que as vestes?” (Mat. 6:25). Aqui a alma-psychê é associada com comida e bebida e o corpo (o exterior visível) com roupa. Por associar a alma com comida e bebida, Jesus mostra que a alma é o aspecto físico da vida, embora Ele explique que há mais na vida além de comer e beber. Os crentes podem elevar seus desejos e pensamentos às coisas celestiais e viver para Cristo e para a eternidade. Assim, Cristo ampliou o significado de “alma” por incluir a vida superior ou eterna que ele veio oferecer à humanidade. Porém, permanece o fato de que por associar a alma com comida e bebida, Cristo revela que a alma é o aspecto físico de nossa existência e não um componente imaterial de nossa natureza.

Salvar a Alma Por Perdê-la. No Antigo Testamento, descobrimos que a alma-nephesh é usada frequentemente para denotar a incerteza da vida, constantemente encarando a possibilidade de ferimento ou mesmo de destruição. Por conseguinte, os antigos israelitas preocupavam-se com a salvação de suas almas, livrar suas almas, restaurar suas almas à segurança, e sustentar a alma por meio de provisões, especialmente o alimento. Neste contexto, os judeus devem ter ficado perplexos ao ouvirem Cristo dizer: “Quem quiser, pois, salvar a sua vida [psychê], perdê-la-á; e quem perder a sua vida [psychê] por causa de mim e do evangelho, salvá-la-á” (Marcos 8:35; compare com Mateus 16:25; 10:39; Lucas 9:24; 17:33; João 12:25).

O impacto da declaração de Cristo sobre os judeus deve ter sido dramático, porque ele teve a audácia de proclamar que as almas deles só poderiam ser salvas se eles a perdessem por causa dele. A idéia de salvar almas por perdê-las era desconhecida para os judeus porque não se encontra no Antigo Testamento. Cristo demonstrou seu ensino agindo num modo que culminou em sua própria crucificação. Ele veio “dar a sua alma [psychê] em resgate por muitos” (Mateus 20:28). Como o Bom Pastor, ele “dá a alma [psychê] pelas ovelhas” (João 10:11). Por ensinar que para salvar a alma é necessário que a pessoa a perca, e por perder a dele próprio, Cristo ampliou o sentido de nephesh-alma do Antigo Testamento como vida física tornando-a parte da vida eterna ganha pelos dispostos a sacrificar a vida (alma) atual por causa dele.

Encontramos confirmação para o sentido ampliado de alma na versão que João fez do mesmo pronunciamento de Cristo: “Quem ama a sua alma [psychê], perde-a; mas aquele que odeia a sua alma [psychê] neste mundo, preservá-la-á para a vida eterna” (João 12:25). A correlação entre “este mundo” e “vida eterna” indica que alma-psychê é usada para se referir tanto à vida terrena como à vida eterna. Na versão de João da declaração de Cristo é evidente que a alma não é imortal, porque, como Edward Schweizer assinala, “de outra maneira não deveríamos ser incentivados a odiá-la. Psychê é a vida dada ao homem por Deus e que mediante a atitude do homem para com Deus recebe o seu caráter como mortal ou eterno... Portanto, nunca lermos sobre a psychê aionios ou athanatos (alma eterna ou imortal), só sobre a psychê (alma) que é dada por Deus e mantida por Ele para a zoe aionios [vida eterna]”. [13]

O significado de alma como vida eterna aparece também em Lucas 21:19, onde Cristo diz: “É na vossa perseverança que ganhareis as vossas almas”. O contexto indica que Cristo não está falando da preservação da vida terrena, porque Ele prediz que alguns de seus seguidores serão traídos e levados à morte (versículo 16). Aqui a alma-psychê é claramente entendida como a vida eterna conseguida pelos dispostos a fazer um compromisso total, sacrifical com Cristo.

A promessa de que a alma-vida será salva quando é sacrificada por Cristo demonstra que o que Cristo tinha em vista é a vida verdadeira e plena que Ele oferece aos que o aceitam como seu Salvador. A vida em Cristo não difere da vida natural porque é a vida experimentada por aqueles que estão livres de tentar preservá-la. É uma vida liberada e aberta, que oferece um senso de realização à vida natural. Este é o significado ampliado que Cristo atribui à alma; um sentido que nega a idéia da alma como uma entidade imaterial, imortal que coexiste com o corpo.

A Igreja Apostólica assimilou este significado ampliado da alma como denotando uma vida de total comprometimento com o Salvador. Judas e Silas tornaram-se homens que “arriscaram a alma [psychê] pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo” (Atos 15:26). Epafrodito arriscou “sua alma [psychê]” pela obra de Cristo (Fil. 2:30). O próprio apóstolo Paulo testificou: “Em nada considero minha alma [psychê] preciosa para mim mesmo, contanto que complete a minha carreira e o ministério que recebi do Senhor Jesus para testemunhar o evangelho da graça de Deus” (Atos 20:24). Se Paulo acreditasse que a alma é imortal, é improvável que ele a teria visto como sem valor e digna de ser perdida pela causa do evangelho. Estes textos mostram que a Igreja Apostólica vivia segundo o novo sentido ampliado da alma por viver uma vida de total comprometimento sacrificial para com Cristo. Os crentes entendiam que sua alma como vida física podia ser salva só por consagrá-la ao serviço de Cristo.

O erro mais tolo que alguém pode cometer é “ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma [psychê]”. (Mar. 8:36). É essa alma-psychê, a vida que transcende a morte, que é o objetivo primário da redenção (Heb. 10:39; 13:17; Tiago 1:21; 1 Ped. 1:9, 22). Enquanto o termo “alma” é usado com frequência consideravelmente menor no Novo Testamento do que no Velho, estas passagens-chave indicam uma significativa ampliação em seu sentido. O termo veio a incluir a dádiva da vida eterna recebida pelos que estão dispostos a sacrificar sua vida atual por causa de Cristo.

Em bem poucos casos é a alma-nephesh que é usada no Antigo Testamento para denotar a vida que transcende a morte. Um exemplo disso é o Salmo 49:15: “Deus remirá a minha alma do poder da morte, pois Ele me tomará a si”. É esse sentido de alma como vida além da morte que chega a ser ampliado no ensino de Jesus sobre perder e achar a alma. A continuidade entre a vida atual e futura é garantida, não pela residência de uma alma imortal no homem, mas pela fidelidade de Deus que dará vida eterna aos crentes.

A vida física e a vida eterna não são duas realidades diferentes, porque ambas são concedidas por Deus. A alma abrange ambas porque a vida eterna é a vida física vivida para Deus. Afinal, a vida física é a única forma de existência que conhecemos. Mas o significado ambivalente de alma serve para nos lembrar de que a vida humana não é apenas saúde e riqueza; é uma vida vivida em relacionamento com Deus.

O sentido bíblico duplo de alma como vida física e eterna nega a distinção helenística entre corpo e alma, entre a vida do corpo na terra e a vida da alma no céu. Do ponto de vista bíblico, a vida do corpo é a vida da alma, porque a maneira como uma pessoa vive esta vida atual determina o destino da alma como sendo a vida eterna ou a destruição eterna. A alma, pois, não é uma substância que sobrevive ao corpo por ocasião da morte; é a vida que vivemos pela graça de Deus e que será revelada e consumada por Deus no Juízo Final.

A Alma e a Carne. Um importante texto no Novo Testamento coloca a alma-psychê em clara oposição à carne-sarx. Encontra-se em 1 Pedro 2:11, onde o apóstolo declara: “Amados, exorto-vos, como peregrinos e forasteiros que sois, a vos absterdes das paixões carnais [sarx] que fazem guerra contra a alma [psychê]”. Edward Schweizer diz que este é o uso mais helenístico de alma no Novo Testamento, já que a antítese clara entre alma-psychê e carne-sarx pode sugerir uma composição dualística da natureza humana.

Um exame mais atento do texto, porém, mostra que Pedro foi influenciado, não pelo dualismo grego, mas pelo entendimento do Novo Testamento sobre a alma-nephesh. No Antigo Testamento, descobrimos que a alma-nephesh estava constantemente em perigo e precisava ser protegida. O mesmo é verdade no caso da admoestação de Pedro. A diferença é que Pedro está fazendo referência a um inimigo “interno” que ataca a alma de dentro. O inimigo são as paixões carnais que travam guerra contra a alma, fazendo uma pessoa viver só para satisfazer os apetites físicos.

Pedro encara a alma, não como uma entidade imaterial que sobrevive ao corpo por ocasião da morte, e sim como a vida de fé santificada pela obediência à verdade revelada de Deus. Ele expressa este conceito na mesma carta ao dizer: “obtendo o fim da vossa fé, a salvação das vossas almas [psychê]” (1 Ped. 1:9), “tendo purificado as vossas almas [psychê], pela vossa obediência à verdade” (1 Ped. 1:22). Uma vez que a salvação da alma (a vida eterna) é o resultado de uma vida de fiel obediência à verdade, as paixões carnais ameaçam a alma (a vida eterna) porque elas levam uma pessoa a viver de modo infiel e em desobediência à verdade. Assim, a oposição entre carne e alma neste trecho bíblico é ética e não ontológica, ou seja, é entre uma vida de desobediência (carne) e uma de obediência (alma). Veremos adiante que Paulo expressa a mesma oposição ao contrastar a carne com o espírito.

Deus Tem o Poder de Destruir a Alma. Esse significado ampliado do termo alma-psychê nos ajuda a compreender uma bem-conhecida, porém muito mal-entendida declaração de Cristo: “Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma; temei antes aquele que pode fazer perecer no inferno tanto a alma como o corpo” (Mat. 10:28; compare com Lucas 12:4). Os dualistas encontram apoio neste texto para o conceito de que a alma é uma substância imaterial que é mantida em segurança e sobrevive à morte do corpo. Robert Morey, por exemplo, insiste que “aqui [Mat. 10:28] Cristo diz claramente que embora possamos matar ou eliminar a vida física de um corpo, não podemos matar ou ferir a alma, ou seja, o eu transcendente imaterial, a mente ou o ego. Ele usa a dicotomia corpo/alma que se encontra através da Bíblia.” [14]

Essa interpretação reflete o entendimento dualístico grego da natureza humana e não o conceito holístico bíblico. A referência ao poder de Deus de destruir a alma [psychê] e o corpo no inferno refuta a noção de uma alma imortal, imaterial. Como pode a alma ser imortal se Deus a destrói com o corpo no caso dos pecadores impenitentes? Oscar Cullmann observa apropriadamente que “ouvimos na declaração de Jesus em Mateus 10:28 que a alma pode ser morta. A alma não é imortal”. [15]

Na discussão precedente vimos que Cristo ampliou o sentido da alma-psychê para denotar não somente a vida física, mas também a vida eterna ganha por aqueles que estão dispostos a assumir um compromisso sacrificial com ele. Se este texto for lido à luz do sentido ampliado dado por Cristo à alma, o significado da declaração será: “Não temais aqueles que podem trazer vossa existência terrena (corpo-soma) ao fim, mas não podem eliminar vossa vida eterna em Deus; e sim temais o Deus que é capaz de destruir vosso ser integral eternamente”.

A Morte da Alma É Morte Eterna. A advertência de Cristo dificilmente ensina a imortalidade da alma. Antes, ensina que Deus pode destruir a alma, bem como o corpo. Edward Fudge ressalta corretamente que “a menos que Jesus esteja fazendo ameaças vãs, a própria advertência significa que Deus executará essa sentença nos que persistentemente se rebelam contra Sua autoridade e resistem a toda manifestação de misericórdia”. [16] Fudge prossegue dizendo: “A advertência de nosso Senhor é clara. O poder do homem para matar restringe-se ao corpo e ao contexto da Era Atual. A morte que o homem inflige não é final, pois Deus chamará os mortos da terra e concederá a imortalidade aos justos. A habilidade de Deus em matar e destruir é ilimitada. Afeta mais profundamente do que o físico e vai além do momento presente. Deus pode matar o corpo e a alma, tanto agora quanto no além”. [17]

Lucas reproduz a declaração de Cristo omitindo a referência à alma. “Não temais os que matam o corpo e, depois disso, nada mais podem fazer. Eu, porém, vos mostrarei a quem deveis temer: Temei aquele que depois de matar, tem poder para lançar no inferno” (Lucas 12:4, 5). Lucas omite a palavra alma-psychê, referindo-se, em vez disso, à pessoa inteira que Deus pode destruir no inferno. É possível que a omissão do termo “alma-psychê” tenha sido intencional para impedir um mal-entendido na mente de leitores gentios acostumados a pensar na alma como um componente independente e imortal que sobrevive à morte. Para deixar claro que nada sobrevive à destruição de uma pessoa por Deus, Lucas evita usar o termo “alma-psychê” que poderia confundir seus leitores gentios.

Encontramos confirmação para esta interpretação em Lucas 9:25, onde ele novamente omite o termo psychê-alma; “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder-se ou a causar dano a si mesmo [eauton]?”. Presume-se que Lucas usou aqui o pronome “ele” em vez de alma-psychê, conforme usado em Marcos 8:36, porque o último, conforme Edward Schweizer sugere, “poderia ser mal interpretado [pelos leitores gentios] como punição da alma após a morte”. [18] Por usar, em vez disso, o pronome “ele”, Lucas indica que Jesus quis dizer a perda da pessoa inteira.

Se tivermos em mente o significado ampliado do termo “alma”, expresso por Cristo, então o sentido da declaração dele se torna claro. Matar o corpo significa tirar a vida atual na terra. Mas isso não elimina a alma, ou seja, a vida eterna recebida por aqueles que aceitaram a provisão da salvação de Cristo. Tirar a vida presente significa pôr uma pessoa para dormir, mas a pessoa só é finalmente destruída na segunda morte, a qual, conforme veremos, é igualada na Bíblia com o inferno.

O significado da declaração de Cristo em Mateus 10:28 é ilustrado pelas palavras dele sobre a filha de Jairo, de que ela não estava morta, e sim dormindo (Mat. 9:24). Ela estava realmente morta (“matar o corpo”), mas, já que iria despertar na ressurreição, poderia ser dito corretamente que ela só estava adormecida. O destino final dela ainda não havia sido decidido. Do mesmo modo, uma vez que todos os mortos serão ressuscitados no último dia, enquanto jazem em suas sepulturas, suas almas, ou seja, as vidas que levaram a favor ou contra Jesus Cristo, ainda estão aguardando seu destino final: salvação eterna para os crentes e destruição eterna para os que não creram. Esta última refere-se à destruição do corpo e da alma no inferno, conforme o aviso de Jesus.

A preservação da alma no ensino de Cristo não é um processo automático, estando no poder da própria alma, e sim um presente de Deus, recebido por aqueles que estão dispostos a sacrificarem sua alma (a vida atual) por Ele. Esse sentido ampliado de alma relaciona-se intimamente com o caráter ou a personalidade de um crente. Pessoas ou forças malignas podem matar o corpo, a vida física, mas não podem destruir a alma, o caráter ou a personalidade de um crente. Deus comprometeu-se a preservar a individualidade, personalidade e caráter de cada crente. Em sua vinda, Cristo ressuscitará aqueles que morreram nele, restaurando-lhes a alma, isto é, seu caráter e personalidade distintos.

A Alma de Um Corpo Morto. À luz da consideração anterior, verificaremos agora outra declaração frequentemente mal interpretada feita por Paulo quando da ressurreição de Êutico. Durante uma reunião de despedida em Troas, onde Paulo falou durante bastante tempo, um jovem chamado Êutico caiu em sono profundo, despencou da janela do terceiro andar, e morreu. Em Atos 20:10 lemos que “Descendo, porém, Paulo inclinou-se sobre ele e, abraçando-o, disse: Não vos perturbeis, que a vida está nele”.

Este evento tem paralelo com a ocasião em que Elias (1 Reis 17:17) e mais tarde Eliseu (2 Reis 4:32-36) deitaram-se sobre uma criança cuja alma [nephesh] retornou a ela. Os dualistas interpretam esses episódios como indicativos de que a alma é uma entidade independente que pode retornar após deixar o corpo. Essa interpretação é refutada por duas considerações importantes. Primeiro, no caso de Êutico, Paulo disse, “sua alma [psychê] está nele”, embora seu corpo estivesse morto. Isso significa que Paulo não acreditava que a alma é uma entidade imaterial que deixa o corpo por ocasião da morte. A alma ainda estava em Êutico, não porque ainda não tivesse partido, e sim porque, ao abraçar-se com o jovem, Paulo sentiu que a respiração dele estava retornando e assim ele estava voltando à vida. Ele ainda era uma alma vivente.

Em segundo lugar, para entender o que aconteceu no caso de Êutico e no dos meninos ressuscitados por Elias e Eliseu, precisamos nos lembrar de que a Bíblia encara a morte como uma criação ao reverso. Por ocasião da criação, o homem se torna uma alma vivente quando o corpo, feito do pó da terra, começa a respirar em resultado do sopro divino do fôlego de vida. Por ocasião da morte, uma pessoa deixa de ser uma alma vivente quando o corpo dá o último suspiro e retorna ao pó. No caso de Êutico e das crianças, a respiração deles retornou milagrosamente e assim tornaram-se outra vez almas viventes.

Paulo e a Alma. Em comparação com o Antigo Testamento, ou mesmo os Evangelhos, o uso do termo alma-psychê nos escritos de Paulo é raro. Ele usa o termo apenas 13 vezes [19] (incluindo as citações do Antigo Testamento) para referir-se ao corpo físico (Rom. 11;3; Fil. 2:30; 1 Tess. 2:8), uma pessoa (Rom. 2;9; 13:1), e a sede da vida emocional (Fil. 1:27; Col. 3:23; Efé. 6:6). Vale notar que Paulo nunca usa psychê-alma para denotar a vida que sobrevive à morte. A razão poderia ser o receio de Paulo de o termo psychê-alma ser entendido erroneamente por seus convertidos gentios, de acordo com o conceito grego da imortalidade inata.

Para assegurar que a nova vida em Cristo seria vista inteiramente como uma dádiva divina, e não como uma posse inata, Paulo usa o termo pneuma-espírito, em lugar de psychê-alma. Depois, neste capítulo, examinaremos o uso que Paulo faz do termo “espírito”. O apóstolo certamente reconhece uma continuidade entre a vida atual e a vida pós-ressurreição, mas uma vez que ele a vê como uma dádiva de Deus e não como algo encontrado na natureza humana, ele usa, em vez disso, pneuma-espírito. [20]

No seu famoso pronunciamento sobre a ressurreição em 1 Coríntios 15, Paulo demonstra que usa alma-psychê de acordo com o sentido de vida física, apresentado no Antigo Testamento. Ele explica que o primeiro Adão tornou-se “alma vivente” e o último Adão (Cristo) “espírito [pneuma] vivificante”. Ele aplica a mesma distinção à diferença entre o corpo presente e o corpo da ressurreição. Ele escreve: “Semeia-se corpo natural [psychikon] é ressuscitado corpo espiritual [pneumatikon]”. O corpo atual é psychikon, literalmente “almado” de psychê-alma, denotando um organismo físico sujeito à lei do pecado e da morte. O futuro corpo ressuscitado é pneumatikon, literalmente “espiritual” de pneuma-espírito, significando um organismo controlado pelo Espírito de Deus.

O corpo ressurreto é chamado “espiritual”, não pelo fato de não ser físico, e sim por ser governado pelo Espírito Santo, em vez de por impulsos carnais. Isso se torna evidente quando observamos que Paulo aplica a mesma distinção entre o natural-psychikos e o espiritual-pneumatikos no caso da vida atual em 1 Coríntios 2:14, 15. Aqui Paulo distingue entre o homem-psychikos natural, que não é guiado pelo Espírito de Deus, e o homem espiritual [pneumatikos], que é guiado pelo Espírito de Deus.

Nenhuma Imortalidade Natural. É evidente que para Paulo a continuidade entre o corpo atual e o futuro deve ser encontrada, não no sentido ampliado de alma que encontramos nos Evangelhos, e sim no papel do Espírito de Deus que nos conduz a uma vida nova, tanto agora como por ocasião da ressurreição. Ao dar enfoque ao papel do Espírito, Paulo nega a imortalidade da alma. Para ele é muito importante esclarecer que a nova vida do crente, tanto no presente quanto no futuro, é inteiramente uma dádiva do Espírito de Deus. Nada há inerentemente imortal na natureza humana.

A expressão “imortalidade da alma” não ocorre nas Escrituras. A palavra grega comumente traduzida como “imortalidade” em nossas versões modernas da Bíblia é athanasia. Este termo só ocorre duas vezes no Novo Testamento, a primeira vez em conexão com Deus, “o único que possui a imortalidade [athanasia] e habita em luz imarcescível, a quem nenhum homem viu nem pode ver.” (1 Tim. 6:16). É óbvio que imortalidade aqui significa mais do que existência infindável. Significa que Deus é a fonte de vida (João 5:26) e todos os outros seres recebem vida eterna dele.

Na segunda vez, a palavra “imortalidade-athanasia” ocorre em 1 Coríntios 15:53, 54 em relação com a natureza mortal, que se reveste de imortalidade por ocasião da ressurreição: “Porque é necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que este corpo mortal se revista da imortalidade [athanasia]. E quando o corruptível se revestir de incorruptibilidade, e o que é mortal se revestir de imortalidade [athanasia], então se cumprirá a palavra que está escrita: Tragada foi a morte pela vitória”. Paulo não está falando da imortalidade natural da alma, e sim da transformação da mortalidade para a imortalidade que os crentes experimentarão quando Cristo retornar. As implicações deste trecho são claras: a natureza humana não é dotada com qualquer forma de imortalidade natural, porque é perecível e mortal. A imortalidade não é uma possessão atual; é uma dádiva a ser concedida aos crentes por ocasião da vinda de Cristo.

Na filosofia de Platão, a alma é considerada indestrutível, porque partilha de uma substância incriada e eterna que o corpo não possui. É lamentável que este dualismo platônico tenha cegado a mente até mesmo de grandes reformadores tais como Calvino, que chegou ao extremo de dizer que “dificilmente alguém, exceto Platão, afirmou corretamente a substância imortal [da alma]”. [21] Ele prossegue: “De fato,  já ensinamos à base das Escrituras que a alma é uma substância incorpórea; agora devemos acrescentar que, embora ela não seja propriamente limitada no espaço, embora estabelecida no corpo, ela reside lá como numa casa; não só pode animar todas as partes e tornar seus órgãos adequados e úteis para suas ações, mas pode também ocupar o primeiro lugar em dirigir a vida do homem, não só em relação aos deveres de sua vida terrena, como ao mesmo tempo despertá-lo a honrar a Deus”. [22]

É difícil crer que um estudante tão diligente da Bíblia como Calvino poderia interpretar tão mal os ensinos bíblicos referentes à natureza humana. Isso serve para nos lembrar de quão facilmente a mente humana pode tornar-se tão condicionada pelo erro que deixa de discernir a verdade bíblica. Na Bíblia, a alma não é uma “substância incorpórea e imortal”, e sim a vida física e regenerada, criada e sustentada por Deus e dependente dele para sua existência.

Não há qualidade inerente na natureza humana que possa tornar uma pessoa indestrutível. A esperança cristã não se baseia na imortalidade da alma, e sim na ressurreição do corpo. Se desejarmos usar a palavra “imortalidade” com referência à natureza humana, devemos falar não da imortalidade da alma, e sim da imortalidade do corpo (a pessoa inteira) por meio da ressurreição. É a ressurreição que concede a dádiva da imortalidade ao corpo, ou seja, sobre a pessoa inteira do crente.

A Alma Como o Aspecto Mortal da Natureza Humana. A definição paulina do corpo atual como psychikon-físico (literalmente “almado”), ou seja, corruptível e mortal, mostra claramente que ele identifica a alma com o aspecto físico e mortal de nossa existência humana. Isto está em harmonia com o conceito do Antigo Testamento da alma-nephesh como o aspecto físico e mortal da vida. É evidente que a noção de imortalidade da alma está totalmente ausente dos ensinos de Paulo e da Bíblia como um todo. Mas essa definição de alma apresenta um problema. Como se pode conciliar a noção de que os humanos são mortais por natureza com a declaração de Paulo em Romanos 5:12 de que a morte entrou neste mundo “por meio do pecado”, e não por causa da natureza física mortal dos humanos?

A solução dessa aparente contradição deve ser encontrada no reconhecimento de que, conforme dito por Wheeler Robinson, “Paulo concebia o homem como sendo mortal por sua natureza original, mas com a perspectiva da imortalidade; isto, porém, ele perdeu quando foi expulso do Éden, e, portanto, afastado da árvore da vida, que teria nutrido a imortalidade nele; assim a morte veio por meio do pecado”. [23]

Paulo não explica como o homem, por conta da desobediência, perdeu a possibilidade de tornar-se imortal. A preocupação dele é mostrar como Cristo nos redimiu da trágica consequência do pecado, a morte. Os ensinos de Paulo, porém, apóiam o que ele pode ter visto como duas verdades complementares: a mortalidade real da natureza humana, por um lado, e a justiça dessa mortalidade como uma penalidade pela desobediência humana.

Alma e Espírito. A distinção entre alma e espírito aparece em dois outros importantes trechos do Novo Testamento que precisamos considerar brevemente. O primeiro é 1 Tessalonicenses 5:23, e o segundo é Hebreus 4:12. Escrevendo aos tessalonicenses Paulo diz: “O mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, alma e corpo, sejam conservados íntegros e irrepreensíveis na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (1 Tess. 5:23).

Alguns apelam para este texto para defender o conceito de que o homem foi criado como um ser tripartite, consistindo de um corpo, uma alma e um espírito, cada um sendo uma entidade separada. Os católicos reduzem os três a dois, fundindo o espírito com a alma. O novo Catecismo da Igreja Católica faz referência a este texto para explicar que “‘espírito’ significa que desde a criação o homem é destinado a um fim sobrenatural e que a alma dele pode ser soerguida graciosamente acima de tudo o que ela merece para comunhão com Deus”. [24] Para os católicos, o espírito e a alma são essencialmente um, porque é o espírito que cria cada alma como uma entidade espiritual, imortal. Conforme o Catecismo coloca: “A Igreja ensina que toda alma espiritual é criada imediatamente por Deus – ela não é ‘produzida’ pelos pais – e ela é também imortal: não perece quando se separa do corpo por ocasião da morte”. [25]

Este ensino católico tradicional ignora o conceito holístico fundamental da natureza humana. Segundo a Bíblia, a alma não é uma substância imortal que se separa do corpo por ocasião da morte, e sim a vida física e mortal que pode tornar-se imortal para aqueles que aceitam a dádiva de Deus da vida eterna. Tornar o Espírito subserviente à alegada natureza “espiritual” e imortal da alma significa ignorar que uma função vital do Espírito de Deus é dar vida a nossos corpos mortais: “Se habita em vós o Espírito daquele que ressuscitou a Jesus dentre os mortos, esse mesmo que ressuscitou a Cristo Jesus dentre os mortos, vivificará também os vossos corpos mortais, por meio do seu Espírito que em vós habita” (Rom. 8:11).

Devemos observar, primeiramente, que 1 Tessalonicenses 5:23 não é uma declaração doutrinária, e sim uma oração. Paulo ora para que os tessalonicenses possam ser totalmente santificados e preservados irrepreensíveis até a vinda de Cristo. É evidente que quando o apóstolo ora para que o espírito, alma, e corpo dos tessalonicenses sejam preservados irrepreensíveis, ele não está tentando dividir a natureza humana em três partes, mais do que Jesus teve a intenção de dividir a natureza humana em quatro partes quando disse: “Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força” (Marcos 12:30).

“Espírito, Alma e Corpo”. A chave para se entender a referência de Paulo ao “espírito, alma e corpo” em 1 Tessalonicenses 5:23 é o fato de que o apóstolo está se dirigindo a crentes cristãos que, enquanto ainda estão na carne (corpo), possuem duas naturezas: a natureza adâmica original recebida no nascimento (a alma) e a nova natureza espiritual criada dentro deles pelo poder capacitador do Espírito. A natureza adâmica, como já vimos, é chamada de “alma-psychê” e denota os vários aspectos da vida física associados com a alma na Bíblia. A natureza espiritual é chamada de “espírito” porque é o Espírito de Deus que renova e transforma a natureza humana. O corpo é, naturalmente, a parte exterior, visível da pessoa.

A oração de Paulo pelos tessalonicenses para manterem sua “alma-psychê” sã e íntegra para a vinda de Cristo significa que eles não deveriam viver só para a vida física (Mat. 6:25; Atos 20:24), que é ameaçada pela morte, mas também pela vida eterna superior, que transcende a morte. Similarmente, a oração de Paulo para que os tessalonicenses mantivessem seus corpos saudáveis e irrepreensíveis significa que não deveriam dar asas “aos desejos da carne” (Gál. 5:16) ou produzir “as obras da carne” tais como fornicação, impureza e lascívia (Gál. 5:19).

Por fim, a oração de Paulo para que eles mantivessem seu espírito são e irrepreensível significa que ele seriam conduzidos pelo Espírito (Gál. 5:18) e produziriam “o fruto do Espírito” como amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, fidelidade (Gál. 5:22). Assim, a oração de Paulo para que os tessalonicenses conservassem o corpo, a alma e o espírito saudáveis e irrepreensíveis não teve a intenção de alistar os componentes estruturais da natureza humana, e sim enfatizar o estilo completo de vida  dos que aguardam a vinda de Cristo. A distinção entre os três é ética, não ontológica.

O segundo texto no qual o mesmo contraste entre alma e espírito aparece encontra-se em Hebreus 4:12: “Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até a divisão da alma [psychê] e espírito [pneuma], juntas e medulas, e é capaz de discernir os pensamentos e propósitos do coração”. A questão aqui é se a Palavra de Deus separa a alma e espírito ou se ela penetra ambos. Edward Schweizer observa aptamente que “uma vez que é difícil imaginar a divisão de juntas e medula, o texto provavelmente está dizendo que a Palavra penetrou o pneuma [espírito] e a psychê [alma] como fez no caso das juntas e medula. [26]

Tendo em mente que a alma e o espírito denotam, respectivamente, os aspectos físico e espiritual da vida humana, o texto diz que a Palavra de Deus penetra e examina toda a existência humana, mesmo o mais íntimo recesso de nosso ser. O estudo das Escrituras nos revela se nossos desejos, aspirações, emoções e pensamentos são inspirados pelo Espírito de Deus ou por considerações carnais egoístas. O texto diz simplesmente que a Palavra de Deus penetra em nosso recesso mais interior, tornando manifestos os motivos secretos de nossas ações.

De certa maneira, este trecho tem paralelo com o que Paulo disse em 1 Coríntios 4:5: “O Senhor trará à luz as coisas agora ocultas nas trevas e manifestará os propósitos dos corações”. Desta forma, ninguém tem qualquer razão para interpretar Hebreus 4:12 como ensinando uma distinção estrutural na natureza humana entre a alma e o espírito.

Os trechos acima que fazem distinção entre alma e espírito nada têm a dizer sobre a imortalidade da alma. Eles não sugerem que um membro dessa dupla poderia sobreviver separado do outro por ocasião da morte, ou que eles se referem a substâncias diferentes. Pelo contrário, o papel do Espírito de Deus como o agente do soerguimento moral nesta vida atual e da ressurreição para a vida eterna no fim nega a noção de imortalidade da alma, porque a única imortalidade é a concedida pelo Espírito de Deus no fim.

A Alma Como o Lugar do Sentimento e do Raciocínio. A discussão anterior demonstrou que o termo “alma-psychê” é geralmente usado no Novo Testamento para denotar a vida física que pode tornar-se vida eterna quando vivida pela fé por causa de Cristo. Existem poucos casos nos quais o termo alma-psychê é usado como o centro do sentimentos e a fonte dos pensamentos e ações. Os cristãos em Antioquia estavam perturbados com falsas instruções procedentes de pessoas que estavam “transtornando as almas [deles]” (Atos 15:24). Aqui a “alma-psychê” refere-se à mente dos crentes que estavam confusos por instruções desorientadoras.

Um uso semelhante do termo se encontra em João 10:24 onde os judeus perguntam a Jesus: “Até quando nos deixarás nossas almas [psychê] em suspenso? Se tu és o Cristo, dize-nos francamente”. Aqui a “alma-psychê” é a mente com a qual as decisões são feitas a favor ou contra Cristo. A alma, como mente, pode ser influenciada tanto para o bem como para o mal. Assim, lemos que Paulo e Barnabé estavam em Antioquia “fortalecendo as almas-psychê dos discípulos, incentivando-os a permanecerem firmes na fé” (Atos 14:22). Neste caso, as almas são as pessoas que eram influenciadas e motivadas em pensamento e sentimento.

Em Lucas 12:19 encontramos um exemplo interessante em que “alma” refere-se tanto a atividades físicas como psíquicas. O homem rico cuja terra havia produzido em abundância disse: “Então direi à minha alma”-psychê: “Tens em depósito muitos bens para muitos anos: descansa, come e bebe, e regala-te.” Embora aqui a ênfase seja no aspecto físico da vida, por exemplo comer, beber e alegrar-se, o fato de a alma expressar auto-satisfação sugere uma função psíquica. No versículo seguinte, Deus pronuncia o seu julgamento sobre essa alma auto-gratificada: “Mas Deus lhe disse: Louco, esta noite te pedirão a tua alma” (Lucas 12:20). O texto sugere que a vida ou morte da alma será, em última análise, a dádiva ou a punição da parte de Deus.

Todos os evangelhos sinópticos relatam a famosa declaração de Cristo onde a alma é usada como um paralelo perfeito do coração: “Amarás, pois, o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e de toda a tua força” (Marcos 12:30; compare com Mateus 22:37; Lucas 10:37). Nessa declaração, citada de Deuteronômio 6:5, o coração, a alma, a mente e a força são todos usados para expressar o terno comprometimento emocional e racional para com Deus.

Conclusão. Nossa pesquisa do uso que o Novo Testamento faz do termo “alma-psychê” indica que não há qualquer apoio para a noção da alma como uma entidade imaterial e imortal que sobrevive à morte do corpo. Nada há na palavra psychê-alma que até mesmo remotamente deixe implícita uma entidade consciente capaz de sobreviver à morte. O Novo Testamento não apenas desautoriza a noção de imortalidade da alma, como também mostra claramente que a alma-psychê significa a vida física, emocional e espiritual. A alma é a pessoa como um ser vivo, com sua personalidade, apetites, emoções e habilidades mentais. A alma descreve a pessoa integral viva e, assim, inseparável do corpo.

Descobrimos que embora Cristo tenha expandido o significado de alma-psychê para incluir o dom da vida eterna recebida por aqueles que estão dispostos a sacrificar por ele sua vida terrena, ele nunca sugeriu que a alma é uma entidade imaterial, imortal. Pelo contrário, Jesus ensinou que Deus pode destruir a alma, bem como o corpo (Mat. 10:28) dos pecadores impenitentes.

Paulo jamais usa o termo “alma-psychê” para denotar a vida que sobrevive à morte. Em vez disso, ele identifica a alma com nosso organismo físico (psychikon) que está sujeito à lei do pecado e da morte (1 Cor. 15:44). Para assegurar que seus conversos gentios entenderiam que nada é inerentemente imortal na natureza humana, Paulo usou o termo “espírito-pneuma” para descrever a nova vida em Cristo que o crente recebe inteiramente como um dom do Espírito de Deus tanto agora como por ocasião da ressurreição.

PARTE II: A NATUREZA HUMANA COMO ESPÍRITO

O estudo anterior do conceito do Novo Testamento sobre a alma-psychê humana revelou como Cristo ampliou o significado de nephesh como vida física no Antigo Testamento para incluir também o dom da vida eterna. O que é verdadeiro no caso da alma humana é também verdadeiro de muitas maneiras no caso do espírito humano. A vinda de Cristo contribuiu para revelar o sentido e função mais amplos do espírito-ruach na redenção do homem. O significado de espírito-pneuma como o princípio de vida é ampliado para incluir o princípio da nova vida de regeneração moral, tornada possível por meio da redenção de Cristo.

O espírito-pneuma é amplamente sinônimo de psychê, sendo que ambas as palavras são com frequência usadas intercambiavelmente no Novo e Velho Testamentos. Entretanto, parece haver uma diferença entre ambas. A palavra “Espírito” é usada com frequência em relação a Deus enquanto a palavra “alma” nunca é usada desse modo. A utilização geral das duas palavras sugere que o “espírito” representa principalmente a orientação de uma pessoa no que se refere a Deus, enquanto a “alma” constitui a orientação de uma pessoa em relação aos seus semelhantes. Colocando isso de outra maneira, a alma descreve geralmente o aspecto físico da existência humana, enquanto o espírito significa o aspecto espiritual da existência humana (o eu interior) que conecta uma pessoa com o mundo eterno. Para apreciar o sentido e a função do espírito-pneuma na natureza humana, conforme expressos no Novo Testamento, é importante primeiro entender o papel do Espírito na vida e no ministério de Cristo.

Cristo, o Homem do Espírito. Em certo sentido real, o Novo Testamento identifica Cristo com o Espírito na obra da salvação. Como o segundo Adão, Cristo tornou-se “um espírito vivificante” (1 Cor. 14:45). O Espírito de Deus torna-se o Espírito de Cristo: “Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai” (Gál. 4:6). O “Espírito de Deus” habitando nos crentes é visto como intercambiável com o “Espírito de Cristo” em Romanos 8: 9, 10. O Espírito é tão identificado com a vida e o ministério de Cristo que Paulo pode dizer: “O Senhor é o Espírito” (2 Cor. 3:17).

O Espírito que habita em Cristo habita também na pessoa que está “em Cristo” (Rom. 8:2). “O próprio Espírito dá testemunho com o nosso espírito de que somos filhos de Deus” (Rom. 8:16). O efeito imediato da redenção é a concessão do Espírito “...que habita em vós e estará convosco” (João 14:17). O Espírito que habita num crente não é uma alma imortal separável, e sim um poder divino que regenera a vida atual, tornando a pessoa uma nova criatura (Rom. 7:6; Gál. 6:8).

Cristo é o Homem do Espírito por excelência. Ele foi concebido pelo Espírito Santo (Mat. 1: 18, 20; Luc. 1:35). Por ocasião do batismo o Espírito Santo desceu sobre ele em forma de uma pomba (Mar. 1:10; Atos 10:38). Após o batismo, Cristo “foi guiado pelo Espírito por quarenta dias no deserto” (Luc. 4:1, 2). No Espírito, Ele confrontou o Diabo no deserto (Mat. 4:1). Mais tarde “Jesus, no poder do Espírito, retornou para a Galiléia” (Luc. 4:14). Em seu discurso inaugural, proferido na sinagoga de Nazaré, Cristo aplicou a si mesmo a predição feita por Isaías da unção do Messias pelo Espírito Santo: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para evangelizar aos pobres... Hoje se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir” (Luc. 4: 18, 21). Dotado de poder pelo Espírito Santo, Cristo “andou por toda parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo” (Atos 10:38).

O Espírito de Deus e o Espírito Humano. Como o Espírito de Deus, mediado por Cristo, se relaciona com o espírito humano? Qual é a relação entre o espírito como princípio animador de vida, presente em toda pessoa vivente, e o Espírito como princípio regenerador moral da vida ativo na vida dos crentes? A resposta a estas questões reside no reconhecimento de que tanto o aspecto físico como o aspecto moral-espiritual da vida necessitam do Espírito para sua existência. Como o homem é um ser vivente animado pelo sopro do Espírito de Deus, é por isso que ele é capaz de receber o Espírito Santo.

No Antigo Testamento encontramos numerosos textos segundo os quais o espírito-ruach é o sopro de Deus que concede e sustém a vida humana. A mesma função do espírito-pneuma é expressa no Novo Testamento. Por exemplo, Tiago diz: “Porque assim como o corpo sem espírito está morto, assim também a fé sem obras está morta” (Tiago 2:26). Similarmente, Apocalipse 11:11 fala do espírito-pneuma de vida que entrou nos corpos mortos e eles reviveram e se ergueram. Assim, todo ser humano tem o espírito de vida da parte de Deus dentro em si. Quando Jesus ressuscitou a filha de Jairo, “voltou-lhe o espírito e ela se levantou imediatamente.” (Luc. 8:55). Já observamos que o espírito que retornou era o fôlego de vida de Deus que tornou a moça uma pessoa vivente outra vez.

O espírito como princípio da vida física eventualmente veio a significar a fonte da vida psíquica, racional. Assim, o espírito é usado para representar a sede do pensamento, sentimento e raciocínio, a disposição interior ou caráter do crente. Isso explica muitos usos do termo “espírito” tanto no Velho como no Novo Testamento. “O espírito do homem é agitado (Eze. 2:2), ou perturbado (Gên. 41:8); regozija-se (Luc. 1:47), ou é quebrantado (Êxo. 6:9); está ansioso (Mat. 26:41), ou é endurecido (Deut. 2:30). Um homem pode ser paciente de espírito (Ecl. 7:8), orgulhoso de espírito ou pobre de espírito (Mat. 5:3). A necessidade de dominar o espírito é declarada (Pro. 25:28). É o espírito do homem que busca a Deus (Isa. 26:9), e é ao espírito do homem que o Espírito de Deus, habitando no íntimo, dá testemunho (Rom. 8:16)”. [27]

A Atividade do Espírito na Humanidade. Já que o espírito-pneuma é o verdadeiro eu interior de uma pessoa, é com o espírito que um crente serve a Deus (Rom. 1:9). Uma pessoa como espírito é capaz de desfrutar da comunhão com Deus (1 Cor. 6:17). O louvor e a profecia são exercícios do espírito humano (1 Cor. 14:32). A graça de Deus é concedida ao crente no âmbito do espírito (Gál. 6:18). A renovação é sentida no espírito (Efé. 4:23). Mediante o Espírito, Deus dá testemunho ao espírito dos crentes de que eles são filhos de Deus (Rom. 8:16).

Tanto o aspecto físico como o psíquico da vida necessitam do espírito para sua existência, e assim o termo pode razoavelmente ser aplicado tanto ao princípio geral da vida física como ao princípio regenerador da vida moral. A nova natureza é certamente o princípio de uma nova vida, mas é essencialmente um princípio da vida moral que se manifesta numa disposição santa de caráter. É difícil estabelecer o exato relacionamento entre o espírito como princípio de vida e o espírito como princípio regenerador da vida moral.

Por exemplo, alguns trechos de Romanos capítulo 8 tornam difícil decidir se o termo “Espírito” deve ser escrito com “E” maiúsculo para designar o Espírito Santo, ou com um “e” minúsculo, referindo-se ao espírito humano redimido e renovado. Talvez Paulo intencionasse permitir-nos ler as palavras dele de qualquer desses modos. Os versículos 5 a 9 não perdem nada de seu significado profundo se esse intercâmbio for permitido. “Os que se inclinam para a carne cogitam das cousas da carne; mas os que se inclinam para o Espírito, das cousas do Espírito” (Rom. 8:5.). “Vós, porém, não estais na carne, mas no Espírito, se de fato o Espírito de Deus habita em vós” (Rom. 8:9).

A ligação entre os dois parece ser encontrada no fato de que o espírito que toda pessoa possui como um princípio animador de vida capacita os crentes a serem receptivos e sensíveis à operação do Espírito Santo em sua vida. Em outras palavras, é o espírito como sede da vida psíquica e racional (o eu interior), com o qual Deus dotou cada pessoa, que torna possível ao Espírito de Deus habitar nos seres humanos. W. D. Stacey destaca este ponto ao dizer: “Todos os homens têm pneuma [o espírito] desde o nascimento, mas o pneuma [espírito] cristão, em associação com o Espírito de Deus, adquire um novo caráter e uma nova dignidade (Rom. 8:10)”. [28]

O Espírito Humano é Capaz de Receber o Espírito de Deus. O espírito humano não tem poder algum para regenerar-se. Não é uma faísca divina que pode ser avivada numa chama de fogo. Antes, é uma capacidade que Deus concedeu a toda pessoa de experimentar o poder regenerador de Seu Espírito. Quando uma pessoa nasceu de novo pelo Espírito de Deus, sua natureza “natural” (psychikos) torna-se “espiritual” (pneumatikos) (1 Cor. 2:14, 15).

O espírito humano que é obediente a Deus experimenta o poder orientador e transformador do Espírito de Deus. A comunhão com Deus é conseguida pelo espírito humano por meio do Espírito de Deus. Claude Tresmontant descreve essa função do espírito-pneuma: “O espírito do homem, seu pneuma, é aquilo que dentro dele permite um encontro com o Pneuma [Espírito] de Deus. É a parte de um homem que pode entrar em diálogo com o Espírito de Deus, não como um estranho, mas como um filho: ‘O próprio Espírito testifica com o nosso espírito de que somos filhos de Deus’ (Rom. 8:16)”. [29]

O espírito humano habilita uma pessoa a servir a Deus: “Porque Deus é minha testemunha, a quem sirvo em meu espírito-pneuma, no evangelho de seu Filho...”. (Rom. 1:9). A sentença “sirvo em meu espírito” sugere que o espírito é uma capacidade mental e volitiva que habilita uma pessoa a servir a Deus. Poderíamos dizer que a intenção de Deus era unir o espírito humano com o Espírito Santo. Em razão de o homem ser espírito-pneuma, ou seja, um ser vivo animado pelo sopro do Espírito de Deus (ruach-pneuma), ele é capaz de receber o Espírito Santo e assim chegar a um relacionamento íntimo e vivo com Deus.

Henry Barclay Swete explica a orientação humana para com o Espírito Santo: “O Espírito Santo não cria o ‘espírito’ no homem; ele está potencialmente presente em todo homem, ainda que de maneira rudimentar e não desenvolvida. Todo ser humano tem afinidades com o espiritual e eterno. Em cada indivíduo da raça o espírito do homem que está nele (1 Cor. 2:11) responde ao Espírito de Deus, na medida em que o finito pode corresponder-se com o infinito;... Mas, embora o Espírito de Deus encontre no homem uma natureza espiritual na qual pode operar, o espírito humano se acha numa condição tão imperfeita e depravada que uma completa renovação, até mesmo recriação, se faz necessária (2 Cor. 5:17)”. [30]

Permitir que o Espírito de Deus renove e transforme nossa vida não é renunciar à nossa própria personalidade, e sim fazê-la submissa. Em harmonia com o Antigo Testamento, o Novo Testamento encara a natureza humana holisticamente, onde o corpo, alma, e espírito são partes integrais do mesmo ser. O espírito é uma força, inseparável do fôlego e da vida (Lucas 8:55; 23:46) que renova a mente (Efé. 4:23) e habilita uma pessoa a tornar-se uma nova criatura, “criada segundo a semelhança de Deus, em verdadeira justiça e santidade.” (Efé. 4:24).

O Espírito Como o Renascimento Espiritual. O Espírito de Deus é o agente ativo da criação e da recriação. Vimos que no Antigo Testamento a criação do homem é atribuída ao Espírito de Deus. O homem existe como alma vivente por causa do sopro de Deus (Gên. 2:7). A recriação de ordem moral é também a obra do Espírito. Somos lembrados com base na visão de Ezequiel que os ossos secos voltaram à vida por meio do Espírito de Deus. Os ossos secos, que representam “a inteira casa de Israel” (Eze. 37:14) em sua condição apóstata foi trazida de volta à vida, ou seja, ao renascimento espiritual pelo Espírito de Deus: “Porei em vós o meu Espírito, e vivereis.” (Eze. 37:14).

No Novo Testamento, a transformação moral realizada pelo Espírito Santo é descrita de maneira mais completa do que no Antigo Testamento, principalmente nos escritos de João e Paulo. Os dois apóstolos descrevem este processo de maneiras diferentes, porém complementares. João concebe a transformação moral interior como renascimento e Paulo como nova criação. As duas metáforas, conforme veremos, são complementares, cada uma destinada a ajudar-nos a compreender a nova vida possibilitada pelo Espírito Santo.

No Evangelho de João, Jesus compara a transformação moral efetuada pelo Espírito Santo com um renascimento. Falando a Nicodemos, Jesus diz: “Em verdade, em verdade te digo: Quem não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus” (João 3:5). Ser nascido do Espírito é contrastado com ser nascido da carne: “O que é nascido da carne, é carne; e o que é nascido do Espírito, é espírito” (João 3:6). O nascimento físico é de acordo com a carne (kata sarka), colocando uma pessoa num nível horizontal de existência natural. O nascimento espiritual é “de cima” (João 3:3) pelo Espírito, colocando uma pessoa num nível vertical de existência pelo poder capacitador do Espírito.

Na noite de sua ressurreição Jesus “soprou sobre eles [os discípulos], e disse: Recebei o Espírito Santo” (João 20:22). Esta ação, que assinalou a recriação dos discípulos, tem paralelo com a primeira criação do homem, quando Deus soprou-lhe o fôlego de vida. A criação e a recriação, o nascimento e o renascimento, são atos do Espírito, porque, conforme Jesus explicou, “é o espírito que vivifica” (João 6:63). Isto é verdade tanto no caso da vida física como no caso da espiritual.

O Espírito é a fonte imediata de vida que é mediada por Cristo. “Se alguém tem sede, venha a mim e beba. Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva.” Isto ele disse a respeito do Espírito que as pessoas que nele cressem haveriam de receber; pois o Espírito até aquele momento não tinha sido dado, já que Jesus ainda não havia sido glorificado” (João 7:37-39). Cristo é a fonte meritória do Espírito, porque mediante seu sacrifício expiatório ele pode conceder seu Espírito vivificador ao crente. É por isso que Paulo fala que o “Espírito da vida em Cristo Jesus te livrou da lei do pecado e da morte.” (Rom. 8:2).

Resumindo, podemos dizer que embora João não mencione o espírito do homem como tal, ele o visualiza como cumprido e realizado pelo Espírito por meio do qual Cristo concede ao crente uma nova vida, um renascimento espiritual. Em certo sentido, o significado definitivo do sopro de Deus como fonte da vida física é revelado e cumprido na nova vida possibilitada pelo “Espírito de vida em Cristo Jesus” (Rom. 8:2). Em parte alguma João identifica o Espírito vivificador com uma alma imaterial, imortal, capaz de separar-se do corpo. A função do espírito é simplesmente operar um renascimento espiritual, isto é, uma transformação moral na pessoa inteira do crente. Nos escritos de João não há qualquer dualismo entre um corpo material, mortal, e uma alma espiritual, imortal, porque o Espírito traz nova vida à pessoa inteira.

O Espírito Como Nova Criação. Paulo descreve a transformação moral efetuada pelo Espírito, não como um renascimento, e sim como uma “nova criação” (2 Cor. 5:17; compare com 1 Cor. 6:11; Gál. 3:27; 6:15; Efé. 4:24). As duas metáforas transmitem essencialmente a mesma idéia. Paulo atribui importância vital ao papel do Espírito na nova vida do crente. Isto é indicado pelo fato de que em suas cartas ele faz referência ao espírito 146 vezes, em comparação com apenas 13 referências à alma. Wheeler Robinson afirma corretamente que pneuma-espírito é “a palavra mais importante no vocabulário psicológico de Paulo, talvez em seu vocabulário como um todo”. [31] A razão é que Paulo está preocupado em mostrar que salvação é exclusivamente uma dádiva divina de graça mediada pelo “Espírito de vida em Cristo Jesus” (Rom. 8:2), e não uma propriedade natural de uma alma imortal.

A salvação não é a remoção do espírito ou da alma do corpo ou do mundo em que o corpo vive, e sim uma renovação do corpo mediante o poder capacitador do Espírito. Desse modo, a descrição que Paulo faz da vida cristã é em grande medida feita em termos do poder do Espírito, que habilita o crente a viver segundo a vontade revelada de Deus. O apóstolo explica que Cristo veio “a fim de que o preceito da lei se cumprisse em nós que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Rom. 8:4).

Andar segundo o Espírito significa colocar a mente “nas coisas do Espírito” (Rom. 8:5), ou seja, viver em conformidade com os princípios de vida que Deus revelou, em vez de andar de acordo com os desejos da carne. “Mas eu digo, andai no Espírito, e jamais satisfareis os desejos da carne” (Gál. 5:16). Andar segundo a carne (kata sarka) significa fazer “as obras da carne” tais como “fornicação, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias, e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos declaro, como já outrora vos preveni, que não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam” (Gál. 5: 19, 20). Em contraste, andar segundo o espírito (kata pneuma) significa produzir “o fruto do Espírito”, como “amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gál. 5:22, 23).

Os efeitos da nova criação que ocorrem na vida do crente por meio do Espírito Santo são manifestos especialmente num relacionamento de filiação; numa fé e esperança inabaláveis; num ardente amor pelos irmãos; e num sólido testemunho por Cristo. Mediante o Espírito, tornamo-nos membros da família de Deus. “E porque vós sois filhos, enviou Deus aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai!. Assim, por meio de Cristo não sois mais escravos e sim filhos e portanto herdeiros.” (Gál. 4:6).

O Espírito instila no crente a fé e a esperança em Cristo. “E o Deus da esperança vos encha de todo o gozo e paz no vosso crer, para que sejais ricos de esperança no poder do Espírito Santo” (Rom. 15:13; compare com Gál. 3:14; 5:5). A nova vida do Espírito é manifesta especialmente no espírito de amor fraternal que flui de Cristo para a vida do crente. “Ora, a esperança não confunde, porque o amor de Deus é derramado em nossos corações pelo Espírito Santo, que nos foi outorgado” (Rom. 5:5; compare com 15:30; Col. 1:8; 2 Cor. 6:6). O Espírito libera a força para sofrer por causa de Cristo. “Se, pelo nome de Cristo, sois injuriados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória e de Deus” (1 Ped. 4:14).

Por fim, o Espírito é a miraculosa força dadora de vida da terceira pessoa da Divindade* que efetuará a ressurreição do corpo. “Se habita em vós o espírito daquele que ressuscitou a Jesus dentre os mortos, esse mesmo que ressuscitou a Cristo Jesus dentre os mortos, vivificará também os vossos corpos mortais, por meio do seu Espírito que em vós habita” (Rom. 8:11; compare com 1 Cor. 6:14; 2 Cor. 3:6; Gál. 6:8). Assim como o Espírito esteve em operação na primeira criação (Gên. 2:7), assim estará na ressurreição final. No capítulo 4 deste livro vemos que a Bíblia em parte alguma sugere que o corpo ressuscitado será religado a uma alma desincorporada. Em vez disso, a Bíblia ensina que este corpo terreno será ressuscitado num “corpo espiritual-pneumatikos” (1 Cor. 15:44), ou seja, uma pessoa inteiramente dominada pela força vital do espírito divino.

A Carne e o Espírito. O contraste que Paulo faz entre a carne e o Espírito tem levado muitos a crer que o apóstolo distingue entre o corpo mortal, material, e a alma imortal, espiritual. [32] Esta interpretação ignora o fato de que a antítese que Paulo faz entre a carne e o espírito não é uma dualidade de substâncias metafísicas, e sim um contraste de orientação ético-religiosa.

O contraste mais claro entre carne e espírito encontra-se na primeira parte de Romanos 8. Aqui Paulo contrasta fortemente os que vivem “segundo a carne” dos que vivem “segundo o Espírito”. “Porque os que se inclinam para a carne cogitam das coisas da carne; mas os que se inclinam para o Espírito, das coisas do Espírito. Porque o pendor da carne dá para a morte, mas o do Espírito, para a vida e paz” (Rom. 8:5, 6).

A primeira coisa a destacar neste e em trechos semelhantes (Gál. 5:16-26) é que Paulo nunca usa as palavras gregas para “corpo” e “alma” (soma e psychê). Em vez disso, ele sempre usa um conjunto diferente de termos, a saber, sarx e pneuma que são traduzidos como “carne” e “espírito”. Se Paulo tivesse em mente enfatizar a distinção entre o corpo mortal e a alma imortal, ele teria usado as palavras gregas soma (corpo) e psychê (alma) que eram padrão na doutrina dualística grega. Mas o que Paulo tinha em mente era algo inteiramente diferente, de modo que ele usa um conjunto diferente de palavras para expressar isso.

Não pode haver qualquer dúvida de que para Paulo “a carne” e “o Espírito” representam, não duas partes separadas e opostas da natureza humana, e sim duas diferentes orientações éticas. Isso se faz claro quando se compara sua lista das “obras da carne” (Gál. 5:19, 20) com o “fruto do Espírito” (Gál. 5:22, 23). Aqui novamente as duas listas mostram que “carne” e “Espírito” representam, não duas partes separadas e opostas da natureza humana, mas dois tipos diferentes de estilo de vida. Os pecados atribuídos à carne, tais como “idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas” nada têm que ver com impulsos físicos. “Poderiam muito bem ser praticados por um espírito desincorporado”. [33]

Charles Davis expõe claramente o significado bíblico de carne e espírito, dizendo: “Ele [Paulo] é plenamente hebreu em sua visão de mundo; ele via o homem simplesmente como uma unidade. Consequentemente, sua antítese de carne (sarx) e espírito (pneuma) não constitui uma oposição entre matéria e espírito, entre corpo e alma. A ‘carne’ não é uma parte do homem; e sim o homem inteiro, em sua fraqueza e mortalidade, em seu distanciamento de Deus, em sua solidariedade com a criação corrupta e pecaminosa. O ‘espírito’ é o homem aberto à vida divina e pertencente à esfera do divino, o homem sob a influência e atividade do Espírito. A carne e o espírito são dois princípios ativos que afetam o homem e estão em conflito dentro dele”. [34]

Numa linha de raciocínio similar, George Eldon Ladd escreve que a “carne” refere-se ao homem “como um todo, visto em sua condição falha, em oposição a Deus. Esse uso é um desenvolvimento natural do uso que o Antigo Testamento faz da palavra basar [carne], que é o homem visto em sua fragilidade e debilidade perante Deus. Quando isto é aplicado ao campo ético, torna-se o homem em sua fraqueza ética, isto é, como pecaminoso perante Deus. Sarx [carne] representa, não uma parte do homem, mas o homem como um todo – um homem não regenerado, caído, pecaminoso”. [35]

A carne e o Espírito representam respectivamente o poder da morte e o poder da vida que podem operar dentro de uma pessoa. Oscar Cullmann oferece esta esclarecedora comparação entre ambas: “A ‘carne’ é o poder do pecado ou o poder da morte. Abrange o homem exterior e interior conjuntamente. O Espírito (pneuma) é o seu grande antagonista: o poder da criação. Ele também abrange o homem exterior e interior em conjunto. A carne e o espírito são poderes ativos, e como tais eles operam dentro de nós. A carne, o poder da morte, entrou no homem com o pecado de Adão. Ela entrou no homem completo, interior e exterior, de maneira tal que está bem intimamente ligado com o corpo. O homem interior encontra-se menos ligado à carne; embora devido à culpa este poder da morte tenha se apossado cada vez mais do homem interior. O espírito, por outro lado, é o grande poder de vida, o elemento da ressurreição; o poder criativo de Deus é dado a nós por meio do Espírito Santo”. [36] O poder animador do Espírito Santo é manifestado nesta vida presente em nosso “homem interior [que] se renova de dia em dia” (2 Cor. 4:16) pelo poder transformador do Espírito (Efé. 4:23, 24).

A Carne Como a Natureza Humana Pecaminosa. A carne-sarx representa a natureza humana não regenerada, pecaminosa, mas não porque o pecado resida na natureza física do corpo, em vez de residir na natureza “espiritual” da alma. Afinal, o corpo de carne é o templo do Espírito (1 Cor. 6:19), um membro de Cristo (1 Cor. 6:15), e um meio de glorificar a Deus (1 Cor. 6:20). A razão de a carne-sarx representar a natureza humana decaída e pecaminosa é que ela representa a fragilidade humana que pode tornar-se um instrumento do pecado.

O significado de “carne”, assim como o significado de “mundo”, é ambivalente nos escritos do apóstolo Paulo, assim como na Bíblia em geral. A carne e o mundo, enquanto criados por Deus para o apropriado desfrute da humanidade, são bons (Gên. 1:18, 21, 25, 31). Todavia, quando a carne e o mundo negam sua condição de serem coisas criadas e se rebelam contra Deus, reivindicando independência e auto-suficiência, então se tornam maus. É nesse sentido que carne (natureza carnal) e o mundanismo são sinônimos de pecaminosidade. Poderíamos dizer que “a carne-sarx” é neutra quando se refere à vida de uma pessoa no mundo, mas é pecaminosa quando caracteriza uma pessoa que vive para o mundo e permite que o mundo governe toda a sua vida e conduta.

É evidente, então, que a antítese entre “a carne” e “o Espírito” nada tem que ver com o dualismo corpo-alma. A carne, em si mesma, não representa a parte da natureza humana (o corpo) que é supostamente má, e o espírito não representa a parte da natureza humana que é supostamente boa (a alma). Quando usadas de modo negativo, “a carne” significa o tipo de pessoa em quem a vida inteira, tanto física quanto psíquica, está mal-direcionada, centrada no eu, em vez de em Deus. Similarmente, “o espírito” não representa simplesmente a parte espiritual da natureza humana, e sim o tipo de pessoa em quem a vida total, tanto física quanto psíquica, é direcionada a Deus em vez de a si mesma. O contraste entre “carne” e “espírito” é ético, não ontológico.

É lamentável que muitos tenham interpretado mal o que Paulo disse sobre isso. A razão para isto é a falha em entender que para Paulo, e para a Bíblia como um todo, o que corrompe uma pessoa não é o corpo ou a carne, e sim o pecado. A carne pode tornar-se um instrumento do pecado, e como tal afeta o corpo e a alma, assim como sua contrapartida, o Espírito, transforma o corpo e a alma. [37] “O inimigo final do Espírito de Deus não é a carne, e sim o pecado, do qual a carne se tornou o instrumento fraco e corrupto”. [38]

Conclusão. Nosso estudo do uso do termo “espírito-pneuma” no Novo Testamento revelou que o espírito, assim como a alma, não é um componente espiritual independente da natureza humana que opera à parte do corpo. Pelo contrário, o espírito é o princípio de vida que anima o corpo físico e regenera a pessoa inteira.

Descobrimos que o significado e a função do Espírito foram ampliados com a vinda de Cristo,  o qual foi identificado com o Espírito na obra de salvação. O significado do espírito-pneuma como princípio de vida é ampliado para incluir o novo princípio vital de regeneração moral, possibilitado pela redenção de Cristo. O Espírito sustém tanto o aspecto da vida física como o da moral-espiritual.

A transformação moral efetuada pelo Espírito Santo é descrita de modo mais pleno no Novo Testamento do que no Antigo Testamento. João e Paulo descrevem este processo com duas metáforas diferentes, mas complementares. João concebe a transformação moral interior como renascimento; Paulo, como nova criação.

O “Espírito-pneuma” é a palavra mais importante do vocabulário de Paulo pois ela serve para mostrar que a salvação é exclusivamente uma dádiva divina de graça mediada pelo “Espírito de vida em Cristo Jesus” (Rom. 8:2), e não a posse natural duma alma imortal. Em parte alguma o Novo Testamento identifica o Espírito dador de vida com uma alma imaterial, imortal, capaz de separar-se do corpo.

A função do Espírito não é sustentar uma alma imortal, espiritual, e sim suster tanto a vida física como a espiritual. Tanto a criação como a recriação, nascimento e renascimento, são ações do Espírito, pois, conforme Jesus explicou, “é o Espírito que dá vida” (João 6:63).

A antítese de Paulo entre “a carne” e “o Espírito” nada tem quer ver com o dualismo corpo-alma. Os dois representam, não partes separadas e opostas da natureza humana, e sim duas orientações éticas diferentes de uma pessoa: viver uma vida centralizada no eu versus viver uma vida centralizada em Deus. Em suma, podemos dizer que o espírito, assim como a alma, descreve, não uma entidade separada da natureza humana, e sim um aspecto da totalidade da natureza humana.

PARTE III: A NATUREZA HUMANA COMO CORPO

O sentido de corpo-soma ou de carne-sarx no Novo Testamento é semelhante às palavras correspondentes do Antigo Testamento (corpo-geviyyah e carne-bashar), examinadas no capítulo anterior. Em seu uso literal, o termo “corpo” descreve a realidade concreta da vida humana que consiste de carne e sangue. No Novo Testamento, porém, “corpo-soma” é usado na maior parte das vezes em sentido figurado para denotar a pessoa como um todo (Rom. 6:12; Heb. 10:5), a natureza humana corrupta (Rom. 6:12; 8:11; 2 Cor. 4:11), a Igreja como corpo de Cristo (Efé. 1:23; Col. 1:24), o corpo ressuscitado dos remidos (1 Cor. 15:44), e a presença espiritual de Cristo simbolizada pelo pão e vinho (1 Cor. 11:27). Para o propósito de nossa investigação, focalizamos primariamente o conceito do Novo Testamento do corpo humano em relação à pessoa total.

Cristo e o Corpo Humano. Para apreciar a avaliação positiva do corpo humano no Novo Testamento, precisamos refletir sobre sua doutrina central da encarnação. Por exemplo, o evangelho de João anuncia no início que o Filho eterno de Deus “se fez carne e habitou entre nós” (João 1:14). A própria idéia de que o Filho eterno de Deus entrou no tempo e no espaço humanos e assumiu uma natureza humana plena, incluindo um corpo, era incompreensível para o pensamento grego. De fato, o Gnosticismo, um influente movimento sectário cristão, influenciado pelo dualismo grego, rejeitava abertamente a encarnação de Cristo. Isso ilustra vigorosamente a diferença entre o conceito holístico bíblico da natureza humana, que atribui valor ao corpo, e o conceito dualístico grego, que considera o corpo como a prisão da alma, a ser descartado com a morte.

Qualquer pessoa que aceite totalmente a doutrina neotestamentária da encarnação nunca poderia acusar os escritores do Novo Testamento de denegrir o corpo humano ou a ordem física. O fato de que o Filho divino de Deus assumiu um corpo humano para viver nesta Terra dá dignidade e importância ao corpo e a todo o domínio físico.

É também significativo observar que o mesmo Verbo eterno por meio do qual “todas as coisas foram feitas” (João 1:3) na criação veio a este mundo para redimir e restaurar não só a “alma”, e sim o homem integral e o mundo inteiro. “Este é o significado da estranha doutrina da ressurreição do corpo, que, mais do que qualquer outra coisa, horrorizava e causava rejeição no mundo grego. Esta doutrina servia para realçar, na forma mais vigorosa possível, o conceito do Novo Testamento de que não é alguma parte do homem (sua ‘alma’ racional) que está destinada à eternidade; é a pessoa inteira que tem o seu lugar no propósito de Deus”. [39]

A doutrina da ressurreição do corpo, que é examinada no capítulo 7, ensina que nossa natureza física e o mundo material, que desempenham um papel vital em moldar nossa existência terrena, têm significância eterna no arranjo divino das coisas. Isto nos ensina, como Ronald Hall diz aptamente, que “mesmo no além-túmulo, o corpo não é um mero adorno do espírito, mas um elemento essencial no ser da pessoa. É difícil entender por que Paulo teria baseado a fé na crença da ressurreição se ele tivesse outra idéia. Se ele pensasse, por exemplo, que a salvação tivesse que ver só com uma alma desincorporada liberta do corpo, certamente não teria insistido tanto no tema da ressurreição do corpo; ele teria se contentado com a noção grega de uma alma imortal”. [40]

A crença na ressurreição do corpo baseia-se na ressurreição corporal de Cristo. “Se Cristo não ressuscitou, é vã a vossa fé, e ainda permaneceis nos vossos pecados” (1 Cor. 15:17, 18). A encarnação de Cristo num corpo humano e a ressurreição num corpo glorificado (João 20:27) nos diz que o corpo tem significância eterna no propósito de Deus para este mundo. Diz-nos que o corpo não é uma prisão temporária ou campo de provas para as “almas” destinadas à aniquilação final. Em vez disso, fala-nos que o corpo é nossa personalidade total que Deus se compromete a preservar e trazer de volta à vida no dia da ressurreição.

A ressurreição do corpo é necessária para a vida no mundo futuro porque o Novo Testamento nunca aceitou a crença na imortalidade da alma. A vida sem o corpo é inconcebível. Uma vez que o corpo é nossa existência humana concreta, a ressurreição dele é indispensável para assegurar uma personalidade e vida plenas na nova terra.

A Fé Cristã é “Materialística”. Neste ponto vale a pena lembrar que a esperança do Antigo Testamento para o mundo por vir é extremamente “materialística”. Enquanto os gregos tinham a expectativa de um escape final da alma desta terra para uma região etérea, os crentes do Antigo Testamento aguardavam o estabelecimento do reino de Deus sobre esta terra (Dan. 2:44; 7:27). O reino messiânico trará a consumação da história humana sobre a Terra de acordo com o propósito criativo de Deus.

A mesma crença é proeminente no Novo Testamento. Cristo veio a este mundo para redimir tanto o homem quanto a criação sub-humana (Rom. 8:22, 23) e ele retornará a esta Terra para estabelecer uma nova ordem física. “Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe” (Rev. 21:1). A terra inteira, incluindo o corpo humano, não é aniquilada, e sim aperfeiçoada. “E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras cousas passaram” (Rev. 21:4). “Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu esposo” (Rev. 21:2).

A renovação final desta Terra é a contrapartida cosmológica da doutrina da ressurreição do corpo. Assim como o crente individual não escapará do corpo no fim, mas receberá um corpo imperecível (1 Cor. 15:53), os remidos também não serão arrebatados para sempre deste planeta para o céu, mas serão estabelecidos nesta Terra, restaurada à sua perfeição original como o lugar do reino glorioso e eterno de Deus.

“Não há qualquer sugestão aqui”, escreve D. R. G. Owen, “de ‘almas’ desincorporadas buscando penosamente o seu caminho para o céu, para ali permanecerem por toda a eternidade como ‘espíritos’ puros. É exatamente o contrário: Deus desce até o homem; o Verbo tornou-se carne; o céu desce à Terra; a cidade santa desce da parte de Deus no céu... Assim, ao final da Bíblia, em sua doutrina das últimas coisas, da mesma forma que no princípio, em sua doutrina das primeiras coisas, a significância eterna de todo o reino físico é inequivocamente declarada.” [41]

Owen conclui observando que “as implicações deste materialismo bíblico para a antropologia bíblica – implicações que são delineadas pela doutrina da ressurreição do corpo em oposição à doutrina da imortalidade da alma separada – são as seguintes: primeiro, o ‘corpo’ é um aspecto essencial da personalidade humana e não uma parte descartável que finalmente será posta de lado; e, em segundo lugar, a pessoa inteira, e não uma ‘alma’ desincorporada, é que se destina à vida eterna”. [42]

O Corpo Como a Pessoa Completa. No Novo Testamento, o corpo-soma não é algo exterior que se apega ao eu verdadeiro de uma pessoa (a alma), mas significa a pessoa inteira. Isso leva Rudolf Bultmann a afirmar: “O homem não tem um soma [corpo]; ele é um soma”. [43] Embora haja uns poucos trechos em que o corpo ou a carne são contrastados com a alma ou o espírito, esses contrastes não têm a intenção de dividir a natureza humana em duas entidades diferentes. Em vez disso, eles descrevem diferentes aspectos da pessoa total.

O corpo-soma pode significar a pessoa completa. Por exemplo, quando Paulo diz: “ainda que eu entregue o meu próprio corpo para ser queimado” (1 Cor. 13:3), ele está se referindo obviamente à sua pessoa integral. Similarmente, quando ele diz, “esmurro o meu corpo, e o escravizo, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado” (1 Cor. 9:27) ele quer dizer que está colocando a si mesmo sob controle. O oferecimento do corpo como um sacrifício vivo (Rom. 12:1) significa a submissão do próprio eu a Deus. O desejo de Paulo de que “em nada serei envergonhado; antes, com toda a ousadia, como sempre, também agora, será Cristo engrandecido no meu corpo, quer pela vida, quer pela morte” (Fil. 1:20) significa honrar a Cristo como pessoa completa. Em referências como essas, o corpo representa a pessoa inteira, como responsável por certas ações.

A existência corpórea é o modo normal e apropriado de existir. Portanto, o corpo é um elemento essencial da existência humana. A vida do corpo não é contrastada com a vida da alma ou do espírito, como se o corpo fosse um obstáculo à plena realização da vida superior da alma ou espírito. O corpo pode tornar-se um obstáculo quando ele é usado como um instrumento do pecado, mas isso não é um impedimento em si mesmo. O corpo não é necessariamente mau, porque ele é parte da boa criação de Deus. Isto é também indicado pelo fato de que nenhum mal esteve presente em Cristo, embora ele tenha compartilhado de nosso corpo humano.

O Corpo Como Um Instrumento de Pecado. Sendo corruptível e mortal (Rom. 6:12; 8:11; 2 Cor. 4:11), o corpo pode tornar-se um instrumento do pecado. Isso explica por que Paulo fala do “corpo da morte”. “Desventurado homem que sou! quem me livrará deste corpo de morte?” (Rom. 7:24). Aqui o quadro mental do apóstolo não é físico, e sim ético. A morte é o domínio do pecado revelado na vida física da qual uma pessoa é livrada por meio da regeneração, pela fé em Cristo. Uma vez que o pecado pode reinar em nosso corpo mortal (Rom. 6:12), o corpo visto como instrumento do pecado pode ser chamado de “corpo do pecado” (Rom. 6:6) e “corpo de morte” (Rom. 7:24). Assim, é necessário que um crente “mortifique os feitos do corpo” (Rom. 8:13) por viver de acordo com o Espírito. Isto não significa a mortificação do corpo em si, mas a renúncia aos atos pecaminosos.

Como o corpo se torna um instrumento de pecado, o alvo da vida cristã é exercer autodomínio sobre ele para impedi-lo de dominar a vida espiritual de alguém. Paulo estabelece esta verdade claramente em 1 Coríntios 9 onde ele se compara com um atleta em treinamento que exerce rigoroso autocontrole para impedir que seu corpo prevaleça sobre sua vida espiritual. “Mas esmurro o meu corpo, e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado” (1 Cor. 9:27).

O autodomínio sobre o corpo é conseguido principalmente por consagrá-lo a Deus como um sacrifício vivo (Rom. 12:1). Isto é obtido, não por meio de práticas ascéticas e mortificação do próprio corpo, e sim por fazê-lo sensível aos ditames da Palavra de Deus. O cristão reconhece que o seu corpo é a morada do Espírito Santo (1 Cor. 6:19). Cultivar a presença do Espírito Santo no corpo de alguém significa fazer todos os nossos prazeres e atividades físicas subservientes a objetivos espirituais.

Conclusão. O corpo no Novo Testamento denota a pessoa inteira, tanto literalmente, como na realidade concreta da existência humana, e figurativamente, na submissão da pessoa à influência do pecado ou ao poder do Espírito Santo. O Novo Testamento vê o corpo como um aspecto essencial da pessoa inteira que não pode ser separado da alma, nem descartado.

O significado do corpo no Novo Testamento é reforçado pela encarnação de Cristo que tomou um corpo humano para cumprir Sua missão redentora na Terra. A encarnação de Cristo num corpo humano e Sua ressurreição num corpo glorificado (João 20:27) nos dizem que o corpo tem significação eterna no propósito criativo e redentor de Deus. Isso é confirmado pela ressurreição do corpo, o que demonstra que até mesmo na nova terra, o corpo será uma parte essencial da existência humana.

Figurativamente, o corpo é usado no Novo Testamento de maneira ambivalente. Por um lado, pode tornar-se um “corpo do pecado” (Rom. 6:6) e o “corpo da morte” (Rom. 7:24), quando se torna um instrumento do pecado. Por outro lado, pode tornar-se o templo do Espírito Santo (1 Cor. 6:19) e o meio de glorificar a Deus (1 Cor. 6:20), quando se torna um instrumento no serviço de Cristo. A redenção significa, não a remoção da alma do corpo, mas a renovação do corpo (a pessoa inteira) nesta vida atual e a ressurreição do corpo (a pessoa inteira) no mundo por vir.

PARTE IV: A NATUREZA HUMANA COMO CORAÇÃO

O termo coração-kardia no Novo Testamento é usado com a mesma ampla gama de sentidos que encontramos no Antigo Testamento (leb e lebab). Não precisamos deter-nos no estudo do significado e usos do termo coração no Novo Testamento. Essencialmente, o coração-kardia representa a vida interior completa de uma pessoa em seus vários aspectos. Ela significa, assim como o espírito, o centro emocional, intelectual e espiritual de uma pessoa. O fato de que “coração” e “espírito” são usados de maneira similar demonstra novamente o conceito holístico bíblico da natureza humana, onde uma parte da natureza humana pode ser usada com referência à pessoa inteira.

O Coração é o Centro das Emoções. Tanto as boas como as más emoções nascem do coração. O coração sente alegria (João 16:22; Atos 2:26; 14:17), temor (João 14:1), sofrimento (João 16:6; 2 Cor. 2:4), amor (2 Cor. 7:3; 6:11; Fil. 1:7), luxúria (Rom. 1:24), anseio (Rom. 10:1; Luc. 24:32), e desejo (Rom. 1:24; Mat. 5:28; Tia. 3:14). Paulo expressou o desejo de seu coração pela conversão de seus irmãos judeus (Rom. 10:1). Ele escreveu aos coríntios com “angústia de coração” (2 Cor. 2:4). Incentivou os coríntios a abrirem o coração para recebê-lo e a seus companheiros em amor (2 Cor. 7:2).

O Coração é o Centro da Atividade Intelectual. Jesus disse que “do coração do homem vem pensamentos maus” (Mar. 7:21) e “a boca fala do que o coração está cheio” (Mat. 12:34). Paulo exorta todo homem a dar liberalmente “como propôs em seu coração” (2 Cor. 9:7). Os “olhos do coração” devem ser iluminados (Efé. 1:8) para entender a esperança cristã. As decisões têm sua origem no coração (Luc. 21:14; Atos 11:23).

Às vezes é Deus quem influencia a decisão dos corações humanos: “Porque em seus corações incutiu Deus que realizem o seu pensamento, o executem à uma e dêem a esta o reino que possuem, até que se cumpram as palavras de Deus” (Rev. 17:17). Às vezes é o Diabo quem faz isso: “Durante a ceia, tendo já o diabo posto no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, que traísse a Jesus . . . ” (João 13:2). Outras vezes o coração é sinônimo de consciência: “Amados, se o coração não nos acusar, temos confiança diante de Deus” (1 João 3:21). Os gentios possuem uma lei, escrita em seus corações que os habilita a distinguirem entre o bem e o mal (Rom. 2:14, 15).

O Coração Como Sede da Experiência Religiosa. Deus se comunica com uma pessoa no coração. Ele pesquisa o coração humano e o põe à prova (Luc. 16:15; Rom. 8:27; 1 Tes. 2:4). Deus escreve sua lei no coração humano (Rom. 2:15; 2 Cor. 3:2; Heb. 8:10). Ele abre o coração humano (Luc. 24:45; Atos 16:14). Ele brilha em nossos corações para nos dar luz do conhecimento de Jesus Cristo (2 Cor. 4:6). A paz de Deus guarda nossos corações e mentes em Cristo (Fil. 4:7). O Espírito de Deus é derramado em nossos corações. (Rom. 5:5; 2 Cor. 1:22; Gál. 4:6).

Cristo habita o nosso coração e atua nele por meio da fé (Efé. 4: 17, 18). O coração cristão é purificado e santificado por meio da fé e do batismo (Atos 15:9; Heb. 10:22). O coração é purificado (Mat. 5:8) e fortalecido por Deus (1 Tes. 3:13). A paz de Cristo pode reinar no coração (Col. 3:15). O coração recebe as primícias do Espírito (2 Cor. 1:22).

As virtudes cristãs são atribuídas ao coração. O amor é associado com o coração (2 Tes. 3:5; 1 Ped. 1:22). A obediência está ligada ao coração. (Rom. 6:17; Col. 3:22). O perdão deriva do coração. (Mat. 18:35). A gratidão reside no coração. (Col. 3:16). A paz de Deus habita no coração. (Fil. 4:7). Acima de tudo, o amor a Deus e ao próximo procede do coração (Mar. 12:30, 31; Luc. 10:27; Mat. 22:37-39).

Os exemplos de textos citados acima indicam claramente que a palavra “coração” é usada para descrever a vida interior da pessoa completa. Isso levou Karl Barth a concluir que “o coração não é simplesmente uma parte e sim a realidade do homem, tanto na inteireza da alma, como na inteireza do corpo”. [44] O fato de o coração representar a vida interior completa de uma pessoa, assim como se dá exatamente no caso do espírito, revela novamente a perspectiva holística bíblica da natureza humana.

O conceito dualístico que atribui as funções moral e espiritual da natureza humana à alma cai em descrédito pelo fato de que tais funções são igualmente atribuídas ao coração e ao espírito. Isto é possível porque, conforme vimos, na Bíblia a natureza humana é uma unidade indissolúvel e não uma composição de diferentes “peças”. O conceito holístico bíblico da natureza humana nega a possibilidade de que a alma exista e atue como uma entidade distinta, imaterial, à parte do corpo.

Apoio Erudito Para o Conceito Holístico. Como um breve apêndice a esta pesquisa do conceito bíblico da natureza humana, cito, como exemplos, alguns dos numerosos eruditos de diferentes confissões que apóiam o conceito holístico bíblico, que nega a crença na imortalidade da alma. [45]

Em vários de seus livros, William Temple, Arcebispo de Cantuária, afirma o conceito holístico e declara ser “antibíblica a noção da indestrutibilidade natural da alma individual”. [46] Ele escreveu: “O homem não é imortal por natureza ou por direito; mas ele é capaz da imortalidade e lhe é oferecida a ressurreição dos mortos e a vida eterna, se ele desejar recebê-la de Deus e nos termos de Deus”. [47]

Na “Conferência Ingersoll Sobre a Imortalidade do Homem”, realizada na Capela Andover da Universidade de Harvard em 1955, o teólogo suíço Oscar Cullmann acentuou a diferença fundamental entre a doutrina cristã da ressurreição e o conceito grego da imortalidade da alma. Disse ele: “A alma não é imortal. Deve haver uma ressurreição para ambos [corpo e alma]; pois desde a Queda o homem inteiro é ‘semeado corruptível’”. [48] Esta famosa conferência, que depois foi publicada em forma de livro, sob o título Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos? provocou violenta hostilidade por parte de alguns que acusaram Cullmann de ser um “monstro que se deleita em causar angústia espiritual”. [49] Um autor declarou: “Ao povo francês, morrendo por falta do Pão da Vida, foi em vez disso oferecido pedras, se não serpentes”. [50] Essas reações violentas exemplificam quão difícil é para as pessoas reexaminarem crenças que acalentam há muito tempo.

Em seu livro Ensinos Cristãos Básicos, o teólogo luterano Martin Heinechen rejeita como “falso dualismo” a noção de que por ocasião da criação “Deus fez uma alma, que é a pessoa verdadeira, e que daí Ele deu a essa alma uma lar temporário num corpo, feito do pó da terra... O homem deve ser considerado como uma unidade... O dualismo cristão não é o da alma e corpo, mente eterna e coisas transitórias, e sim o dualismo do Criador e criatura. O homem é uma pessoa, um ser unificado, um centro de responsabilidade, apresentando-se perante seu Criador e Juiz. Ele não tem qualquer vida ou imortalidade dentro de si mesmo”. [51]

No Comentário Bíblico de Bolso, Basil F. C. Atkinson, bibliotecário da Universidade de Cambridge, escreve, com referência a Gênesis 2:7: “Às vezes se pensou que a concessão do princípio de vida, conforme nos é apresentado neste versículo, implica em imortalidade do espírito ou da alma. Têm-se dito que ser feito à imagem de Deus envolve a imortalidade. A Bíblia nunca diz isso. Se envolve imortalidade, por que não envolve também onisciência ou onipotência, ou qualquer outra qualidade ou atributo do Infinito?... Ao longo da Bíblia o homem, à parte de Cristo, é concebido como feito de pó e cinzas, uma criatura física, a quem o princípio de vida é emprestado por Deus. Os pensadores gregos tendiam a pensar no homem como sendo uma alma imortal aprisionada num corpo. A ênfase é oposta à da Bíblia, mas encontrou amplo espaço no pensamento cristão”. [52]

Alguns eruditos católicos também reconhecem que o conceito tradicional da imortalidade natural da alma não é um conceito bíblico. Claude Tresmontant, um erudito católico dominicano francês, contrasta a “ressurreição” bíblica da pessoa integral com o conceito dualístico tradicional. Escreve ele: “Mas o ensino judaico-cristão sobre a ressurreição é uma questão bem diferente. Não significa que uma parte do homem – sua alma – será libertada por se descartar a outra parte – seu corpo material; o ensino bíblico significa que o homem inteiro é salvo”. [53]

Em O Significado Bíblico do Homem, Dom Wulstan Mork, que é também um erudito católico dominicano, desafia o conceito dualístico tradicional da natureza humana e encoraja o leitor a recuperar a perspectiva holística bíblica. Escreve ele: “O homem bíblico, ou seja, o homem conforme revelado na Bíblia, é uma unidade de carne, alma, e espírito, não uma tricotomia, nem uma dicotomia de corpo e alma”. Ele prossegue observando que a Bíblia vê o “homem como um todo, um conceito salutar para uma vida integral e equilibrado, e fortemente relacionada com Deus, a humanidade e toda a criação. Precisamos desse conceito hoje, para contrapor a uma atitude platônica ainda à espreita, e corrigir uma aceitação por demais natural e secularizada da situação humana”. [54] Mork acredita que uma recuperação da perspectiva holística bíblica da natureza humana contribuirá para “uma atitude mais salutar para com a pessoa humana, e, de fato, para com a questão em geral”. [55]

Reinhold Niebuhr, renomado teólogo americano e durante muito tempo professor no Seminário Teológico Union, contrasta o conceito holístico bíblico da natureza humana com o conceito dualístico clássico. Ele conclui: “Todas as provas plausíveis e não plausíveis para a imortalidade da alma são esforços por parte da mente humana de compreender e controlar a consumação da vida. Todos estes esforços tentam provar de um modo ou de outro que um elemento eterno na natureza do homem é digno e capaz de sobreviver além da morte. Mas toda técnica mística ou racional que procura criar o elemento eterno tende a negar o significado da unidade histórica de corpo e alma; e com isso o sentido de todo o processo histórico com suas infinitas elaborações dessa unidade’”. [56]

Em seu livro A Esperança Cristã, o teólogo luterano T. A. Kantonen observa que “tem sido característica do pensamento ocidental, desde Platão, fazer uma distinção radical entre a alma e o corpo. O corpo é supostamente composto de matéria, e a alma de espírito. O corpo é uma prisão da qual a alma se liberta por ocasião da morte para levar adiante sua existência própria não física. Assim, o tema da vida após a morte tem sido uma questão de demonstrar a imortalidade, a capacidade da alma de desafiar a morte. O corpo é de pouca consequência. Este modo de pensar é inteiramente alheio à Bíblia. Em perfeita harmonia com as Escrituras e rejeitando decididamente a visão grega, o Credo Apostólico não diz, ‘Creio na imortalidade da alma’, e sim ‘Creio na ressurreição do corpo’”. [57]

Em seu notável estudo sobre o conceito bíblico da natureza humana, intitulado Corpo e Alma, R. G. Owen, ex-reitor do Trinity College, da Universidade de Toronto, oferece uma perspicaz análise do contraste entre o conceito dualístico grego e o conceito holístico bíblico da natureza humana. Owens constata que o homem na Bíblia é um “todo psicossomático unificado” e que “não pode haver parte separável do homem que sobreviva à morte física”. [58] “A Bíblia”, escreve ele, “presume que a natureza humana é uma unidade; no Novo Testamento ela ensina que o destino final do homem envolve a ‘ressurreição do corpo’”. [59] Owens propõe que “a velha doutrina da imortalidade da alma separada deve ser tranquilamente posta agora mesmo no lugar dos espíritos dos mortos.” [60]

Emil Brunner, um bem conhecido teólogo suíço, acha o conceito dualístico da natureza humana irreconciliável com a perspectiva holística bíblica. Ele escreve: “Em alguma parte da fé cristã deve ter havido alguma abertura pela qual essa doutrina estranha pôde penetrar. Seguramente, do ponto de vista bíblico, só Deus é quem possui imortalidade. A opinião de que nós homens somos imortais em razão de nossa alma ser de uma essência indestrutível, por ser divina, é, de uma vez por todas, irreconciliável com o conceito bíblico sobre Deus e o homem”. [61]

Brunner considera várias implicações negativas da concepção dualística da natureza humana. Primeiramente, ele assinala que o efeito do dualismo “não é simplesmente tornar a morte inócua, mas também roubar do mal o seu aguilhão. Assim como a morte afeta só a parte inferior do homem, isso se dá igualmente no caso do mal. Essa parte inferior consiste apenas no sensual e impulsivo. Eu mesmo não sou verdadeiramente responsável pelo mal, só minha parte inferior, que está como que ligada ao meu melhor, mais elevado e verdadeiro ser. Desse modo, o mal não é ação do espírito, nem rebeldia do eu contra o Criador, mas simplesmente uma natureza sensual ou impulsiva que não foi domada pela mente. Em suma, o mal é a ausência da mente, não pecado”. [62]

Uma segunda implicação é que “o homem em seu ser espiritual e mais elevado é divino, não tem caráter de criatura. Deus não é seu criador, Deus é o todo do qual o espírito humano constitui só uma parte. O homem é um participante do divino no sentido mais direto e literal. Daí, uma vez que essa maneira de retirar do mal o seu aguilhão é necessariamente paralelo com tornar a morte inócua por meio do ensino da imortalidade, esta solução do problema da morte revela-se em irreconciliável oposição ao pensamento cristão”. [63]

Em seu livro Creio no Segundo Advento, Stephen H. Travis, um respeitado teólogo britânico, diz que se ele fosse pressionado a escolher entre “punição eterna” e “imortalidade condicional”, ele optaria pela última. A primeira razão que ele dá é que a “imortalidade da alma é uma doutrina não bíblica derivada da filosofia grega. No ensino bíblico o homem é ‘condicionalmente imortal’ - isto é, ele tem a possibilidade de tornar-se imortal se receber a ressurreição ou imortalidade como uma dádiva de Deus. Isso deixaria implícito que Deus concede a ressurreição àqueles que o amam, mas os que a Ele resistem são eliminados da existência”. [64]

Travis observa que “o velho conceito da alma, que costumava ser a salvaguarda da continuidade da pessoa desta vida para a próxima, foi amplamente abandonado no pensamento moderno. A natureza do homem é concebida como uma unidade; ele não consiste em duas partes, um corpo físico que morre e uma alma que continua vivendo para sempre. Sua ‘alma’ ou ‘eu’ ou ‘personalidade’ é simplesmente uma função cerebral. Assim, quando o cérebro morre, a pessoa morre, e não fica nada para adentrar noutra vida”. [65]

Bruce Reichenbach, um filósofo americano, examina a natureza humana em seu livro É o Homem a Fênix?. Ele conclui que “a doutrina de que o homem como pessoa [alma] não morre apresenta dificuldades particulares para o cristão dualista. Por um lado, isso é evidentemente contrário aos ensinos das Escrituras... [Ele cita vários textos]. Cada um destes e numerosos outras trechos indicam que cada um de nós, como pessoa, deve morrer. Não há qualquer indício de que a única coisa sobre a qual se fala é a destruição do organismo físico, e que a pessoa verdadeira, a alma, não morre, mas prossegue vivendo”. [66]

Donald Bloesch, proeminente erudito evangélico, dá apoio à mesma conclusão, dizendo: “Não existe imortalidade inerente da alma. A pessoa que morre, até mesmo aquela que morre em Cristo, confronta-se com a morte tanto do corpo quanto da alma”. [67] Anthony Hoekema, teólogo calvinista, concorda: “Não podemos apontar qualquer qualidade inerente no homem ou qualquer aspecto do homem que o torne indestrutível”. [68] F. F. Bruce, respeitado erudito britânico em Novo Testamento, adverte que “nosso pensamento tradicional sobre uma ‘alma que nunca morre’, que deve tanto à nossa herança greco-romana, torna difícil que apreciemos o conceito [holístico] de Paulo”. [69] Murray Harris, erudito bíblico americano, conclui seu artigo sobre “Ressurreição e Imortalidade” dizendo: “O homem não é imortal porque possui ou é uma alma. Ele se torna imortal porque Deus o transforma por levantá-lo dentre os mortos”. [70] Ele explica que enquanto o pensamento platônico tornou a imortalidade “um atributo inalienável da alma,... a Bíblia não contém qualquer definição da constituição da alma que implique sua destrutibilidade”. [71]

Em sua dissertação de doutorado “O Sheol no Antigo Testamento”, Ralph Walter Doermann conclui sua análise do conceito do Antigo Testamento sobre a natureza humana dizendo: “É evidente com base na perspectiva hebraica da unidade psicossomática do homem que havia pouco espaço para a crença na ‘imortalidade da alma’. Ou a pessoa completa vivia ou a pessoa inteira sucumbia à morte. Não havia existência independente para o ruach [espírito] ou para a nephesh [alma] à parte do corpo. Com a morte do corpo o ruach [espírito] impessoal ‘retornou para Deus que o deu’ (Ecl. 12:7) e a nephesh [alma] foi destruída, embora ela esteja ainda presente, num sentido muito débil, nos ossos e no sangue”. [72]

H. Dooyeweerd, filósofo holandês calvinista, critica fortemente o conceito dualístico da natureza humana. Ele rejeita essa perspectiva não só porque “a idéia de uma substância centralizada na razão humana (ou seja, a alma) está em conflito com a confissão da corrupção radical da natureza humana, como também porque a separabilidade da alma do corpo suscita vários problemas”. Um dos problemas que ele menciona é a impossibilidade de a “alma” executar atividades estando separada do corpo, porque as funções psíquicas estão indissoluvelmente ligadas ao relacionamento temporal total e às funções do corpo.

Conclusão. Chegamos ao final de nossa pesquisa das quatro palavras proeminentes usadas no Antigo Testamento para descrever a natureza humana, a saber, alma, espírito, corpo e coração. Descobrimos que o Novo Testamento amplia o sentido veterotestamentário desses termos à luz dos ensinos e do ministério redentor de Cristo.

No Novo Testamento, a “alma-psychê” não é uma entidade imaterial e imortal que sobrevive à morte do corpo, mas a pessoa inteira como um corpo vivo, com sua personalidade, apetites, emoções e habilidades de raciocínio. A alma-psychê denota a vida física, emocional e espiritual.

Cristo ampliou o sentido de alma-psychê para incluir a dádiva da vida eterna, recebida por aqueles que estão dispostos a sacrificar sua vida terrena por ele, mas nunca sugeriu que a alma seja uma entidade imaterial, imortal. Pelo contrário, Jesus ensinou que Deus pode destruir a alma, tanto quanto o corpo (Mat. 10:28) dos pecadores impenitentes.

Paulo nunca usa o termo “alma-psychê” para denotar a vida que sobrevive à morte. Em vez disso, ele identifica a alma com nossa natureza física (psychikon), que está sujeita à lei do pecado e da morte (1 Cor. 15:44). Para assegurar que seus conversos gentios entendiam que nada há de imortal na natureza humana em si mesma, Paulo usou o termo “espírito-pneuma” para descrever a nova vida em Cristo, a qual o crente recebe integralmente como um dom do Espírito de Deus tanto agora quanto na ressurreição.

O “espírito-pneuma”, assim como a alma, não é um componente espiritual independente da natureza humana que trabalha à parte do corpo, e sim o princípio de vida que anima o corpo físico e regenera a pessoa inteira. Descobrimos que o significado e a função do Espírito são ampliados com a vinda de Cristo, que é identificado com o Espírito na obra da salvação. O significado do espírito-pneuma como princípio de vida é ampliado para incluir o princípio da nova vida de regeneração moral possibilitada por meio da redenção de Cristo.

O Espírito sustenta tanto o aspecto físico quanto o moral da vida. A transformação moral realizada pelo Espírito Santo é descrita mais plenamente no Novo Testamento do que no Antigo Testamento. João e Paulo descrevem este processo com duas metáforas diferentes, contudo complementares: renascimento e nova criação.

O Espírito-pneuma é a palavra mais importante do vocabulário de Paulo sobre este tópico porque ela serve para demonstrar que a salvação é exclusivamente uma dádiva divina de graça mediada pelo “Espírito de vida em Cristo Jesus” (Rom. 8:2) e não a posse natural duma alma imortal. Em parte alguma o Novo Testamento identifica o Espírito dador de vida com uma alma imaterial, imortal capaz de se separar do corpo.

A função do Espírito não é suster uma alma espiritual, imortal, e sim dar sustentação tanto à nossa vida física quanto espiritual. Tanto a criação quanto a recriação, o nascimento e o renascimento, são atos do Espírito porque Jesus explicou: “é o Espírito que vivifica” (João 6:63). O espírito, da mesma forma que a alma, descreve, não uma entidade separada da natureza humana, mas a pessoa inteira, enquanto sustentada e transformada pelo Espírito de Deus.

O corpo no Novo Testamento significa a pessoa inteira, tanto literalmente, na realidade concreta da existência humana, como figurativamente, na submissão da pessoa à influência do pecado ou ao poder do Espírito Santo. O significado do corpo humano no Novo Testamento é reforçado pela encarnação de Cristo num corpo humano e pela ressurreição dele num corpo glorificado (João 20:27).

O corpo tem significação eterna no propósito criativo e redentor de Deus. A redenção significa, não a remoção da alma do corpo, e sim a renovação do corpo como a pessoa inteira nesta vida presente, e a ressurreição do corpo como a pessoa inteira no mundo por vir. “O corpo não é o túmulo da alma, e sim um templo do Espírito Santo; o homem não é completo à parte do corpo”. [74] Assim, mesmo na nova terra, o corpo será uma parte essencial da existência humana porque os remidos existirão, não como almas desincorporadas, mas como pessoas ressuscitadas corporalmente.

O coração no Novo Testamento representa a vida interior completa de uma pessoa. Significa, assim como o Espírito, as funções emocionais, intelectuais e espirituais de alguém. O fato de que tais funções são igualmente atribuídas ao coração e ao espírito demonstra que o Novo Testamento, assim como o Antigo Testamento, vê a natureza humana como uma unidade indissolúvel, não como uma composição de diferentes “peças”.

Resumindo nossa pesquisa do conceito da natureza humana tanto no Antigo como no Novo Testamento, podemos dizer que a Bíblia é coerente ao ensinar que a natureza humana é uma unidade indissolúvel, na qual o corpo, a alma e o espírito representam diferentes aspectos da mesma pessoa, e não diferentes substâncias ou entidades que funcionam de maneira independente. Esta perspectiva holística da natureza humana remove a base para a crença na sobrevivência da alma por ocasião da morte do corpo.

O conceito holístico da natureza humana que encontramos na Bíblia levanta algumas questões importantes: O que acontece quando uma pessoa morre? Será que a pessoa completa, corpo, alma, e espírito, perece por ocasião da morte de modo que nada sobrevive? Se for assim, por que a Bíblia fala da ressurreição dos mortos? Qual é a condição dos mortos entre a morte e a ressurreição, um intervalo geralmente conhecido como estado intermediário? Qual é a natureza do corpo ressuscitado? Será semelhante ou diferente do corpo atual? Estas são algumas das perguntas que deveremos responder nos capítulos que seguem.

Notas:



[1] Uma pesquisa bem abrangente da literatura intertestamentária que aborda a natureza e o destino humanos encontra-se em H. C. C. Cavalin, Vida Após a Morte: O Argumento de Paulo em Favor da Ressurreição dos Mortos em I Coríntios; Parte 1: Uma Investigação Dentro do Contexto Judaico. (Lund: Holanda 1974). Outro estudo erudito é o de George Nickelsburg Jr. em Ressurreição, Imortalidade e Vida Eterna no Judaísmo Intertestamentário. (Cambridge, 1972).

[2] 2 Baruque 30, citado de R. H. Charles, Os Apócrifos e Pseudoepígrafos do Velho Testamento em Inglês Com Notas Introdutórias e Explanações Críticas para Vários Livros (Oxford, 1913), pág. 498.

[3] Comentando sobre este texto, R. H. Charles escreveu: “Esta imortalidade condicional do homem aparece também em 1 Enoque 69:l 1; Sabedoria 1:13, 14; 2 Enoque 30:16, 17; 4 Esdras 3:7” (Ibid., pág. 477).

[4] Ibid., pág. 49. Segundo R. H. Charles, “Este é o exemplo atestado mais antigo desta expectativa nos dois últimos séculos A.C.”. (Ibid., pág. 10).

[5] Ibid., pág. 538.

[6] Veja 4 Macabeus 10:15; 13:17; 18:18; 18:23.

[7] Veja 4 Macabeus 9:8,32; 10:11,15; 12:19; 13:15.

[8] H. Wheeler Robinson, A Doutrina Cristã do Homem (Edimburgo, 1952), pág. 74.

[9] Basil F. C. Atkinson, Vida e Imortalidade (Taunton, Inglaterra, S. D.), pág. 12.

[10] John A. T. Robinson, O Corpo: Um Estudo da Teologia Paulina (Londres, 1966), pág. 23.

[11] Edward Schweizer, “Psyche”, Dicionário Teológico do Novo Testamento, ed., Gerhard Friedrich, (Grand Rapids, 1974), Vol. 9, pág. 640.

[12] O dado numérico é fornecido por Basil F. C. Atkinson (nota 9), pág. 14.

[13] Edward Schweizer (nota 11), pág. 644. (Veja também a pág. 653).

[14] Robert A. Morey, A Morte e a Vida Após a Morte (Mineápolis, 1984), pág. 152.

[15] Oscar Cullmann, “Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos?” em Imortalidade e Ressurreição. A Morte no Mundo Ocidental: Duas Correntes de Pensamento Conflitantes, ed. Krister Stendahl (Nova Iorque, 1968), págs. 36, 37.

[16] Edward William Fudge, O Fogo Que Consome (Houston, l989), pág. 173.

[17] Ibid., pág. 177.

[18] Edward Schweizer (nota 11), pág. 646.

[19] O dado numérico é fornecido por Edward Sehweizer (nota 11), pág. 648, n. 188.

[20] Este conceito é expresso por Edward Schweizer (nota 11), pág. 650. Similarmente, Tony Hoff observa que “Paulo nunca usa psychê para a vida que sobrevive à morte [porque] ele estava ciente da possibilidade dessa exata distorção durante esse tempo. Ele sabia que a presença de uma tradição platônica iria confundir particularmente os conversos gentílicos” (“Nephesh e o Cumprimento Que Ela Recebe Como Psyche” em Para um Conceito Bíblico do Homem: Algumas Leituras, ed. Arnold H. De Graff e James H. Olthuis [Toronto, 1978], pág. 114).

[21] João Calvino, Institutos da Religião Cristã, tradução de F. L. Battles (Filadélfia, 1960), Vol. 1, pág. 192.

[22] Ibid.

[23] H. Wheeler Robinson (nota 8), pág. 122.

[24] Catecismo da Igreja Católica (Roma, 1994), págs. 93-94.

[25] Ibid., pág. 93.

[26] Edward Schweizer (nota 11), pág. 651.

[27] W. White, “Espírito”, Enciclopédia Pictórica da Bíblia Zondervan, ed. Merrill C. Tenney (Grand Rapids, 1978), Vol. 5, pág. 505.

[28] David W. Stacey, O Conceito Paulino do Homem (Londres, 1956), pág. 135.

[29] Claude Tresmontant, Um Estudo do Pensamento Hebraico (Nova Iorque, 1960), pág. 107.

[30] Henry Barclay Swete, O Espírito Santo no Novo Testamento (Londres, 1910), pág. 342.

[31] Wheeler Robinson (nota 8), pág. 109.

* Nota do revisor: O autor deste livro evidentemente aceitava o ensino da Trindade. Não compartilhamos este conceito. Para mais informações sobre nossa posição nesta questão, veja o folheto “O Único Deus Verdadeiro” – Um Estudo Bíblico Sobre a Trindade, disponível no Mentes Bereanas.

[32] Veja por exemplo, Robert A. Morey (nota 14), pág. 62; W. Morgan, A Religião e a Teologia de Paulo (Nova Iorque, 1917), pág. 17 e seguintes. Uma apresentação clássica da interpretação dualística de carne e Espírito se encontra em O. Pfleiderer, Cristianismo Primitivo (Nova Iorque, 1906), Vol. 1, pág. 280 em diante. Veja também a dissertação de Mary E. White, “A Contribuição Grega e Romana”, em A Herança da Cultura Ocidental, ed. R. C. Chalmers (Toronto, 1952), págs. 19-21. Ela argumenta que o contraste entre carne e espírito deriva do dualismo grego e “tem resultado em muitos séculos de mortificação da carne antes que o equilíbrio seja restaurado” (pág. 21).

[33] D. E. H. Whiteley, A Teologia de S. Paulo (Grand Rapids, 1964), pág. 39.

[34] Charles Davis, “A Ressurreição do Corpo”, Theology Digest (1960), pág. 100.

[35] George Eldon Ladd, Uma Teologia do Novo Testamento (Grand Rapids, 1974), pág. 472.

[36] Oscar Cullmann (veja a nota 15), págs. 25, 26.

[37] Para uma iluminadora discussão sobre o entendimento do dualismo de Paulo, ver Ronald L. Hall, “Dualismo e Cristianismo. Uma Reconsideração”, Center Journal (outubro de 1982), págs. 43-55.

[38] H. Wheeler Robinson (nota 8), pág. 117.

[39] D. R. G. Owen, Corpo e Alma (Filadélfia, 1956), pág. 171.

[40] Ronald Hall (nota 37), pág. 50.

[41] D. R. G. Owen (nota 39), pág. 174.

[42] Ibid., págs. 174-175.

[43] Rudolf Bultmann, Teologia do Novo Testamento (Nova Iorque, 1951), pág. 194.

[44] Karl Barth, Church Dogmatics (Edimburgo, 1960), Vol. 3, parte 2, pág. 436.

[45] Para uma pesquisa abrangente de líderes eclesiásticos e eruditos que ao longo da história cristã mantiveram a visão holística da natureza humana e assim a imortalidade condicional, veja os monumentais dois volumes de LeRoy Edwin Froom, A Fé Condicionalista de Nossos Pais: O Conflito das Eras Sobre a Natureza e o Destino do Homem (Washington, D. C., 1965).

[46] William Temple, Fé e Vida Cristã (Londres, 1954), pág. 81.

[47] William Temple, Homem, Natureza e Deus (Londres, 1953), pág. 472.

[48] Oscar Cullmann (veja a nota 36), pág. 28.

[49] Ibid., pág. 47.

[50] Ibid.

[51] Martin J. Heinecken, Ensinos Cristãos Básicos (Filadélfia,1949), págs. 37, 133.

[52] Basil F. C. Atkinson, Comentário Bíblico de Bolso (Londres, 1954), Parte 1, pág. 32.

[53] Claude Tremontant, S. Paulo e o Mistério de Cristo (Nova Iorque, 1957), págs. 132-133. Os itálicos foram acrescentados. Numa linha de pensamento semelhante, Y. B. Tremel, erudito dominicano francês, fez uma notável admissão: “O Novo Testamento obviamente não concebe a vida humana após a morte filosoficamente ou em termos da imortalidade natural da alma. Os autores sagrados não pensam na vida por vir como o termo de um processo natural. Pelo contrário, para eles é sempre o resultado de salvação e redenção; depende da vontade de Deus e da vitória em Cristo” (“O Homem Entre a Morte e a Ressurreição”, Theology Digest [outono de 1957], pág. 151).

[54] Dom Wulstan Mork, O Significado Bíblico do Homem (Milwaukee, WI, 1967), pág. x.

[55] Ibid., pág. 49.

[56] Reinhold Niebuhr, A Natureza e o Destino do Homem (Nova Iorque, 1964), pág. 295. Itálicos acrescentados.

[57] T. A. Kantonen, A Esperança Cristã (Filadélfia, 1954), pág. 28.

[58] Derwyn R. G. Owen, Corpo e Alma: Um Estudo do Conceito Cristão do Homem (Filadélfia, 1956), pág. 27.

[59] Ibid., pág. 29.

[60] Ibid., pág. 98.

[61] Emil Brunner, Esperança Eterna (Filadélfia, 1954), pág. 106. Itálicos adicionados.

[62] Ibid., pág. 101.

[63] Ibid.

[64] Stephen H. Travis, Eu Creio na Segunda Vinda de Jesus (Grand Rapids, 1982), pág. 198.

[65] Ibid., pág. 163.

[66] Bruce R. Reichenbach, É o Homem a Fênix? Um Estudo Sobre a Imortalidade (Grand Rapids, 1978), pág. 54.

[67] Donald G. Bloesch, Essenciais da Teologia Evangélica (São Francisco, 1979), Vol. 2, pág. 188.

[68] Anthony Hoekema, A Bíblia e o Futuro (Grand Rapids, 1979), pág. 90.

[69] F. F. Bruce, “Paulo Sobre a Imortalidade”, Scottish Journal of Theology 24, 4 (novembro de 1971), pág. 469.

[70] Murray Harris, “Ressurreição e Imortalidade: Oito Teses”, Themelios 1, no. 2 (primavera de 1976), pág. 53.

[71] Ibid.

[72] Ralph Walter Doermann, “Sheol no Antigo Testamento”, (Dissertação de doutorado, Duke University, 1961), pág. 205.

[73] H. Dooyeweerd, “Kuypers Wetenschapsleer,” Philosophia Reformata, IV, págs. 199-201, conforme citado por G. C. Berkouwer, Homem: A Imagem de Deus (Grand Rapids, 1972), págs. 255, 256.

[74] Anthony A. Hoekema, A Bíblia e o Futuro (Grand Rapids, 1979), pág. 91.

 

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Este artigo é o capítulo 3 do livro Imortalidade ou Ressurreição? – Samuele Bacchiocchi. A tradução é de Azenilto Brito (Revisada por um associado do Mentes Bereanas).