Estão Abraão, Isaque e Jacó no Céu?

Numa mensagem enviada a alguns colaboradores do Mentes Bereanas, destinada a argumentar em favor da ideia da “imortalidade da alma” foi citado o trecho de Hebreus 11:13-16. Apresenta-se aqui a citação, bem como o que a referida mensagem declarou sobre o texto bíblico:

“Foi na fé que morreram [Abraão, Isaac e Jacó] sem receber as promessas. Somente as viram e saudaram de longe, confessando-se peregrinos e hóspedes [estrangeiros] na terra. Os que assim falam dão a entender que buscam uma pátria. Pois, caso se lembrassem da pátria de onde saíram, teriam tido ocasião de retornar. Mas desejam outra melhor, isto é, a pátria celeste. Por isso Deus não se envergonha de ser chamado Deus deles.” – Hebreus 11:13-16, Vozes.

Note que o tempo do verbo muda para o presente quando se refere aos anseios daqueles patriarcas, como se eles ainda estivessem vivos***. Se eles estão vivos, adorando o Deus vivente, o certo é dizer que eles ainda desejam, e não que desejavam.

*** Todo esse trecho se refere aos personagens mencionados, e não aos contemporâneos ou interlocutores de Paulo, por isso a Bíblia Fácil traduz essa passagem da seguinte maneira: “Se, por acaso, esses patriarcas estivessem se referindo àquela pátria (o país da Caldéia), donde tinham saído, eles teriam tido oportunidade de voltar para lá.” (Hebreus 11:15). Sendo assim, quando Paulo passa a usar o verbo no presente deve estar mesmo se referindo à atitude ainda demonstrada por esses patriarcas, ou por seus espíritos onde quer que se encontrassem no momento da escrita da carta aos Hebreus, estando então ainda vivos. Este entendimento é reforçado se o versículo 14 for considerado apenas um aposto, ou um breve comentário explicativo. E a Tradução do Novo Mundo reforça de maneira ainda melhor essa ideia, ao traduzir o versículo 16 assim: "Mas agora procuram alcançar um lugar melhor, isto é, um pertencente ao céu." Atualmente, talvez Abraão, Isaque e Jacó já tenham alcançado esse nobre objetivo.

 

QUESTIONAMENTOS

 

”... o tempo do verbo [o do versículo 16] muda para o presente quando se refere aos anseios daqueles patriarcas, como se eles ainda estivessem vivos. Se eles estão vivos, adorando o Deus vivente, o certo é dizer que eles ainda desejam, e não que desejavam.”

Há uma mistura de assuntos nesta proposição. Uma coisa é saber se os patriarcas estão vivos. O momento desses ‘anseios’ deles já é outra questão. São duas discussões independentes.

Evidência disso é que, embora seja verdade que a maior parte das versões bíblicas (incluindo as duas citadas – TNM e VOZ) apresentem o verbo “que se refere aos anseios daqueles patriarcas” no presente, é também fato que um considerável número de tradutores apresentou o verbo do versículo 16 no pretérito. Seguem-se exemplos:

AMP
eles ansiavam por uma pátria melhor, isto é, a celestial.
BLH
procuraram (NTLH: estavam procurando) uma pátria melhor, a pátria celestial.
BV
Eles estavam vivendo para o céu. (NBV: estavam esperando... uma pátria melhor.)
CBC
Eles aspiravam a uma pátria melhor, isto é, a celestial
CEV
eles buscavam um lar melhor no céu.
EP
eles aspiravam a uma pátria melhor, isto é, a pátria celeste.
ERV
eles esperavam por uma pátria melhor – uma pátria celestial
EXB
eles estavam esperando [desejando; ansiando]... uma pátria melhor – uma celestial.
FAC
Eles desejavam uma pátria melhor: o céu.
GNT
era uma pátria melhor que eles ansiavam, a pátria celestial
GW
estes homens estavam ansiando por uma pátria melhor – uma pátria celestial.
ICB
aqueles homens estavam esperando por uma pátria melhor – uma pátria celestial.
ISV
eles ansiavam por uma pátria melhor, isto é, uma celestial.
MEV
eles desejavam uma pátria melhor, isto é, uma celestial.
MH
desejavam outra melhor, isto é, a celeste.
MOU
eles ansiavam por uma pátria melhor, isto é, uma celestial.
MSG
eles estavam atrás de uma pátria muito melhor do que essa – uma pátria do céu
NCV
eles estavam esperando por uma pátria melhor – uma pátria celestial
NIRV
eles ansiavam por uma pátria melhor. Eles queriam uma celestial.
NIV
eles estavam ansiando por uma pátria melhor – uma celestial.
NLT
eles estavam procurando um lugar melhor, uma pátria celestial.
NLV
eles queriam uma pátria melhor.
NOG
estes homens estavam ansiando por uma pátria melhor – uma pátria celestial.
NVI
esperavam eles uma pátria melhor, isto é, a pátria celestial.
PHI
eles ansiavam por uma pátria inteiramente melhor, nada menos do que uma celestial.
TEB
aspiravam a uma pátria melhor, a pátria celeste
TLB
eles estavam vivendo para o céu.

Há quem argumente que ‘se o verbo grego original está no presente do indicativo, ninguém deveria traduzi-lo no pretérito, pois tal tradução não representa corretamente o sentido do texto.’ Em termos exegéticos, porém, isso não tem qualquer razão de ser. As traduções acima são perfeitamente cabíveis. Pois todos os tradutores bíblicos estão cientes de que o texto descreve a realidade da vida terrestre dos patriarcas. A situação descrita era “presente” no período da vida deles, não depois disso.

Em harmonia com isso, em seu comentário sobre este trecho, Albert Barnes disse:

16. Mas agora desejam uma pátria melhor, isto é, a celestial. Isto é, na época referente a quando eles confessavam que eram estrangeiros e peregrinos, eles mostraram que buscavam uma pátria melhor do que aquela que eles tinham deixado. Eles viviam como se não tivessem qualquer expectativa de uma residência permanente na terra, e estavam à procura de um outro mundo. O argumento do apóstolo aqui parece se basear no que é evidente com base na história inteira, que eles tinham uma crença confiante de que a terra de Canaã seria dada à sua posteridade, mas quanto a eles próprios, não tinham qualquer expectativa de residir permanentemente ali, mas contemplavam um lar na pátria celestial. Assim, eles não elaboraram quaisquer planos de conquista; não reivindicaram qualquer título na terra; não fizeram quaisquer compras de fazendas para cultivo; viveram e morreram sem possuir terra alguma, a não ser a suficiente para enterrar seus mortos. Tudo isso aparenta ser como se eles olhassem para uma residência final em um “país melhor, no próprio céu.”

(Notes, Explanatory and Practical, on the Epistle to the Hebrews [Notas, Explicativas e Práticas, Sobre a Epístola aos Hebreus], Harper & Brothers, Nova Iorque, 1857, pág. 274)

Outro comentário diz:

“Mas agora desejam uma pátria melhor,... Que não é para ser entendido em relação ao então presente momento, em que o apóstolo escrevia; pois os patriarcas de quem ele fala não estavam na terra naquele momento, nem em algum terceiro lugar entre o céu e a terra; naquele momento eles estavam no céu; e, embora certamente haja no céu desejos de felicidade perfeita, na alma e no corpo; ainda assim isto significa os desejos destes santos, quando na terra, e que são comuns a todos os crentes na atual condição das coisas; os quais, assim como os patriarcas desejavam uma pátria melhor do que a Caldéia, ou até mesmo a própria Canaã, assim eles desejam uma pátria melhor do que este mundo; e tal [pátria] é o céu.”

(Comentário Bíblico de John Gill. Os comentários de Gill foram publicados originalmente em duas partes: An Exposition of the New Testament [Uma Exposição do Novo Testamento, em 3 volumes publicados entre 1746 e 1748,] e An Exposition of the Old Testament [Uma Exposição do Antigo Testamento, em 6 volumes publicados entre 1748 e 1763]. O texto completo do inteiro conjunto de comentários está disponível online.)

Portanto, o fato de a maioria dos tradutores ter optado por apresentar o verbo “que se refere aos anseios daqueles patriarcas” no presente, não quer dizer que eles acreditam que os patriarcas ainda estavam ‘ansiando’ alguma coisa no momento da escrita destas palavras. Eles sabem que quando o autor de Hebreus as escreveu, ele estava se referindo a uma situação passada. O considerável número de tradutores que não viram problema algum em usar verbos no pretérito imperfeito, conforme mostrado acima, atesta isso. Não existe base para criticar tais tradutores por procederem desta maneira. A menos, é claro, que haja a motivação de forçar o entendimento de que esta ainda é a situação dos patriarcas.1

“Este entendimento [de que o trecho “deve estar mesmo se referindo à atitude ainda demonstrada por esses patriarcas, ou por seus espíritos onde quer que se encontrassem no momento da escrita da carta aos Hebreus”] é reforçado se o versículo 14 for considerado apenas um aposto, ou um breve comentário explicativo.”

Em primeiro lugar, não é “se o versículo 14 for considerado apenas um aposto, ou um breve comentário explicativo.” Este versículo é um comentário explicativo. Não existe outra maneira de entendê-lo. O autor da carta está dizendo que este modo de se expressar pode ser usado por qualquer pessoa que tenha a atitude daqueles patriarcas – não importa qual seja a época em que essa pessoa esteja vivendo ou tenha vivido. Em outras palavras, a fraseologia do versículo 14, da maneira que está traduzida na maioria das versões não se aplica apenas aos três patriarcas. Isso é uma expressão geral. Sobre tal expressão, Barnes comentou:

“Pois os que dizem tais coisas, etc. Que falam de si mesmos como tendo vindo para uma terra de estranhos; e que negociavam um pequeno pedaço de terra, não para cultivar, e sim para enterrar seus mortos. O mesmo nós pensaríamos de quaisquer pessoas estranhas que viessem para o nosso meio agora – que vivessem em tendas; que frequentemente mudassem sua residência; que não comprassem qualquer terra a não ser para enterrar seus mortos, e que nunca falassem em fixar residência permanente. Nós pensaríamos que eles estão em busca de algum lugar como seu lar, e que ainda não o encontraram. Os patriarcas hebreus eram pessoas assim. Eles viviam e agiam como se ainda não tivessem encontrado uma habitação permanente, mas estavam viajando em busca de uma.”

(Notes, Explanatory and Practical, on the Epistle to the Hebrews [Notas, Explicativas e Práticas, Sobre a Epístola aos Hebreus], Harper & Brothers, Nova Iorque, 1857, pág. 273)

Evidência adicional disso é o procedimento seguido por uns poucos tradutores que não usaram esta forma geral de se expressar do versículo 14, e quiseram focalizar unicamente os patriarcas. O que fizeram eles? Mudaram o tempo do verbo para o pretérito imperfeito. Haveria algum cabimento em classificar este procedimento deles como impróprio? É claro que não! O motivo aqui é o mesmo: Tais tradutores entenderam que aqueles homens, especificamente, só poderiam falar desse modo enquanto estavam vivos.

Seguem-se exemplos de versões que usaram esta redação no versículo 14, refletindo esse entendimento coerente:

AMPC
Ora, essas pessoas que falam como eles falavam mostram claramente que estão em busca de uma pátria (sua própria pátria).
CBC
Dizendo isto, [eles] declaravam que buscavam uma pátria.
EP
Falando assim, eles demonstraram que estavam em busca de uma pátria.
FAC
E ao dizerem (“que eram peregrinos e hóspedes nesta terra”) estes patriarcas estavam demonstrando, claramente, que estavam em busca de uma “pátria”.
NBV
Quando eles falavam assim, estavam com olhos fixos na sua verdadeira pátria no céu.
TLB
E é bem óbvio que quando eles falavam assim, estavam ansiando por seu verdadeiro lar no céu.

Portanto, o versículo 14 não reforça o entendimento de que o autor de Hebreus deveria “estar mesmo se referindo à atitude ainda demonstrada por esses patriarcas, ou por seus espíritos onde quer que se encontrassem no momento da escrita da carta”.2 De maneira alguma. Ele só faz reforçar que o autor da carta se referia a uma atitude que os patriarcas tinham enquanto estavam vivos. Ao longo de sua vida, os três realmente diziam o tempo todo que eram residentes forasteiros (“peregrinos e hóspedes”, conforme a versão citada). Depois da morte, não! Seria bem estranha a ideia de os “espíritos” desses patriarcas estarem agora mesmo ‘peregrinando’ de lugar em lugar atrás de alguma coisa, ou se declarando “residentes forasteiros” em algum lugar.

E se é verdade que os patriarcas (ou “seus espíritos”) já se encontram no céu neste momento (ou já se encontravam quando o autor de Hebreus escreveu isso) – como entendem alguns promotores do conceito da “sobrevivência da alma após a morte” – que coerência haveria na alegação de que eles ainda ‘aspiram’, ‘anseiam’, ‘desejam’ ou ‘esperam’ agora por uma “pátria celestial”? Não já seria esta a realidade deles neste momento? O que mais eles poderiam estar 'ansiando'?

"a Tradução do Novo Mundo reforça de maneira ainda melhor essa ideia, ao traduzir o versículo 16 assim: "Mas agora procuram alcançar um lugar melhor, isto é, um pertencente ao céu.""

O fato de a versão citada, bem como outras versões bíblicas traduzirem o termo grego νῦν como “agora” não obriga ninguém ao entendimento de que os patriarcas estão desejando isso “no presente momento”. A palavra "agora" é apenas uma das traduções do termo grego. Sobre esta palavra νῦν, a Concordância de Strong (#3568) diz:

Palavra original: νῦν
Classe gramatical: Advérbio
Transliteração: nun
Definição: adv[érbio]
(a) de tempo: precisamente agora, agora mesmo; bem próximo, imediatamente,
(b) de conexão lógica: pois bem
(c) em ordens e petições: neste instante.

Neste texto, a palavra νῦν não é um advérbio de tempo e sim um conectivo lógico, conforme é atestado pelos eruditos:

Mas agora. — Veja Cap. viii.6; o significado não é “neste presente momento”, e sim “como é realmente o caso.”

(A New Testament Commentary for English Readers  [Comentário ao Novo Testamento para os Leitores de Inglês], editado por Charles John Ellicott, Cassell And Company, Ltda – Londres, Paris e Melbourne, Volume 3, 1897, pág. 334.).

11:16.  νῦν δέ] o lógico: mas agora. Compare com Hebreus 8:6.

(Heinrich Meyer's Critical and Exegetical Commentary on the New Testament – Hebrews [Comentário Crítico e Exegético ao Novo Testamento de Heinrich Meyer] - disponível online)

Agora desejam (νῦν ὀρέγονται)
νῦν agora é lógico: como é o caso agora.

(Vincent's Word Studies [Estudos da Palavra de Vincent] - também disponível online)

Isto explica porque tantos tradutores optaram por palavras ou expressões que estabelecem uma conexão lógica clara e nem usaram o advérbio “agora”.3 Os seguintes exemplos podem ser alistados:

AMP
a verdade é que eles ansiavam por uma pátria melhor
BLH Mas, pelo contrário, procuraram uma pátria melhor
CBC, EP Mas não. Eles aspiravam a uma pátria melhor.
CJB, DLNT, ESV, NAS, RSV, NRS
assim como é, eles aspiram / estão aspirando a / desejam uma pátria melhor
FAC Mas não. Eles desejavam uma pátria melhor
GW, GNT, ISV, NIRV, NIV, NOG
Em vez disso, estes homens ansiavam por uma pátria melhor
MOU
assim como é, eles ansiavam por uma pátria melhor
NBV Mas não quiseram. Eles estavam esperando por uma pátria melhor.
NET, OJB
assim como é, eles aspiram a uma terra / a algo melhor
NVI em vez disso, esperavam eles uma pátria melhor
PHI
o fato é que eles ansiavam por uma pátria melhor
TEB
de fato, aspiravam a uma pátria melhor
TLB
Mas eles não queriam. Eles estavam vivendo para o céu.
TLV
assim como é, eles anseiam por uma terra melhor

Como exemplo adicional pertinente para o entendimento do sentido da palavra νῦν em Hebreus 11:16, a WNT o apresenta com a seguinte tradução:

“Mas, assim como é, nós os vemos ansiosos por uma terra melhor, isto é, uma celestial.”

Será que é obrigatório o entendimento de que esta é a situação no presente momento, ou que estamos vendo agora mesmo tais homens “ansiosos por uma terra melhor”? Dificilmente! Por mais que os verbos "ser" e “ver” estejam no presente aqui, eles se referem à ‘visualização’ duma situação passada.4

Nós conhecemos a atitude que tais patriarcas demonstravam porque temos à disposição um registro escrito sobre a vida deles – que transcorreu milhares de anos atrás. (Este era também o caso dos cristãos hebreus que receberam a carta.) Não há razão para insistir na ideia de que pelo fato de os dois verbos estarem no presente do indicativo nesta declaração, isso quer dizer que "assim como é" equivale a "agora mesmo" ou que estamos vendo algo ocorrer neste exato momento.

“atualmente, talvez Abraão, Isaque e Jacó já tenham alcançado esse nobre objetivo [ou seja, residir na pátria celestial]”

Para começar, em se tratando de ensinos bíblicos claros não existe essa coisa de “talvez”. O uso de um advérbio de dúvida aqui mostra que esta declaração está mais para especulação do que outra coisa.

Se estes patriarcas (ou "seus espíritos") 'talvez foram para o céu', em que momento teria sido isso? Logo depois da morte deles? Neste caso, que validade teriam as palavras de Jesus em João 3:13: "Ninguém subiu ao céu senão aquele que de lá desceu, a saber, o Filho do Homem"?

Teria sido depois da ressurreição de Cristo, quando, segundo alguns imortalistas, o “seio de Abraão foi transferido para o céu”? Neste caso, por que o autor de Hebreus e os demais escritores da Bíblia disseram o que disseram, e não fizeram a mínima referência a isso?

Se não foi logo depois da morte deles, nem logo depois da ressurreição de Cristo, mas 'atualmente eles já podem estar lá', a partir de que momento eles ascenderam? Em que século da Era Cristã isso aconteceu? Algum promotor da "imortalidade da alma" se habilitaria a responder a isso? Com que autoridade fazem alegações desse tipo? Acaso receberam alguma "revelação"?

Quando a Bíblia apresenta ensinos cruciais para a fé cristã, ela não dá ‘toque incerto’ (1 Coríntios 14:8). Não há lugar para "talvez". Este é o caso do ensino – verdadeiramente bíblico – da ressurreição dos mortos. Por exemplo, onde é que está a evidência de que alguém foi para o céu sem ter sido ressuscitado? Enquanto Jesus não foi ressuscitado, ele não ascendeu ao céu. A ideia de alguns de que o "espírito" ou a "alma" de Jesus foi para lá e compareceu perante Deus enquanto seu corpo jazia no túmulo é pura especulação, do mesmo tipo da que está sendo contestada aqui. Existe alguma informação bíblica sobre isso? Absolutamente nenhuma!

Pelo contrário, todas as informações que a Bíblia apresenta sobre a ressurreição permitem afirmar, com toda a segurança, que não há a menor possibilidade de os três patriarcas já terem passado por essa experiência. Todas as referências bíblicas pertinentes contradizem frontalmente esta hipótese. No momento em que se escreve isso, estes fiéis estão na mesma condição de todos os demais humanos que faleceram: Eles estão no Seol (sepultura, sepulcro, etc, conforme outras versões) – inconscientes e inativos.  A eles, bem como a todos os outros servos fiéis de Deus falecidos, aplica-se o que diz Daniel 12:2:

“E muitos dos que dormem no pó da terra ressuscitarão, uns para a vida eterna e outros para vergonha e desprezo eterno.” (ARC)

Referindo-se a esta mesma esperança declarada nos escritos dos profetas, Jesus disse:

"Não fiquem admirados com isto, pois está chegando a hora em que todos os que estiverem nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão; os que fizeram o bem ressuscitarão para a vida, e os que fizeram o mal ressuscitarão para serem condenados." (João 5:28,29, NVI).

Em outra referência que fez a este momento, ele disse:

“A vontade daquele que me enviou é esta: que eu nada perca de tudo o que ele me tem dado, mas que eu o ressuscite no último dia. Pois esta é a vontade de meu Pai: que todo o que vê o Filho do Homem e nele crê tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia.” – João 6:39, 40, TB. (Veja também João 6:44, 54; 11:24)

O apóstolo Paulo confirmou que a ressurreição desses fiéis "para a vida" é futura:

"Tenho esperança em Deus, como também eles esperam, de que há de haver a ressurreição dos justos e dos pecadores." (Atos 24:15, CBC; "haverá", TEB)

As seguintes palavras dele, na primeira carta aos cristãos em Tessalônica, lançam luz sobre o momento histórico do “último dia” a que Jesus havia se referido:

“De acordo com o ensinamento do Senhor, afirmamos a vocês o seguinte: nós, os que estivermos vivos no dia da vinda do Senhor, não iremos antes daqueles que já morreram. Porque haverá o grito de comando, e a voz do arcanjo, e o som da trombeta de Deus, e então o próprio Senhor descerá do céu. Aqueles que morreram crendo em Cristo ressuscitarão primeiro. Então nós, os que estivermos vivos, seremos levados nas nuvens, junto com eles, para nos encontrarmos com o Senhor no ar. E assim ficaremos para sempre com o Senhor. Portanto, animem uns aos outros com essas palavras.” – 1 Tessalonicenses 4:15-18, NTLH.

Não pode haver qualquer dúvida razoável sobre isso: A ressurreição dos mortos é um evento posterior ao retorno de Cristo. Não há como afirmar – com respaldo bíblico – que alguém já tenha sido ressuscitado dentre os mortos, com vistas à “vida” ou à “condenação”. Em sua segunda carta a Timóteo, Paulo tornou a confirmar isso, e ainda deu um conselho muito pertinente a esta discussão:

“Continue a lembrar essas coisas a todos, advertindo-os solenemente diante de Deus, para que não se envolvam em discussões acerca de palavras; isso não tem proveito, e serve apenas para perverter os ouvintes... Evite as conversas inúteis [discussões tolas, NBV] e profanas, pois os que se dão a isso prosseguem cada vez mais para a impiedade. O ensino deles alastra como câncer; entre eles estão Himeneu e Fileto. Estes se desviaram da verdade, dizendo que a ressurreição já aconteceu, e assim a alguns pervertem a fé.” (2 Timóteo 2:14, 16-18, NVI; “estão atrapalhando a fé cristã de alguns.”, NTLH).

Os patriarcas Abraão, Isaque e Jacó (que estão entre os "justos" que "fizeram o bem") ainda se encontram "nos túmulos"; eles "dormem no pó da terra" – inconscientes e inativos. A ressurreição deles é um evento futuro. Eles não estão no céu. Portanto, qualquer sugestão de que ‘talvez eles já estejam lá’ é falsa. Isso nada mais é que alegação voluntariosa, sem qualquer apoio das Escrituras.

O mesmo se aplica a toda essa especulação (baseada em "advérbio de tempo", ou tempo "presente do indicativo" de algum verbo) sobre “espíritos” de patriarcas estarem ‘demonstrando atitude’ em algum lugar ou ‘desejando’ alguma coisa – entendimento que, para começar, decorre de má compreensão da gramática grega.5 Conversas desse tipo não merecem apenas ser questionadas. Elas merecem ser expostas como aquilo que realmente são: nada mais que 'falatórios inúteis', elucubrações 'sem qualquer proveito', meras 'discussões sobre palavras', que não servem a qualquer outro fim a não ser obscurecer o que a Bíblia ensina sobre a ressurreição dos mortos e, desta forma, ‘atrapalhar a fé cristã de alguns’.

A APLICAÇÃO ESPIRITUAL DE HEBREUS 11:13-16

“Todo esse trecho se refere aos personagens mencionados, e não aos contemporâneos ou interlocutores de Paulo.”

Conforme foi demonstrado aqui, o esforço de encontrar em Hebreus 11:13-16 alguma evidência de ‘sobrevivência da alma ou do espírito após a morte’ resulta numa série de argumentos bem questionáveis e ainda distorce ensinos bíblicos fundamentais para os cristãos. E não só isso: Tal esforço de impor essa ideia ao trecho desacerta completamente o objetivo do autor ao escrever estas palavras.

O que esta passagem nos ensina? Qual foi, então, o propósito do autor em mencionar a situação e a postura daqueles antigos patriarcas judaicos? Isto foi analisado aptamente por um dos eruditos citados acima, Albert Barnes. Em seu comentário sobre Hebreus 11:15, ele escreveu:

E realmente se tivessem se lembrado daquele país... - Se eles tivessem lembrado com interesse e afeição suficientes para fazê-los desejosos de voltar.

Eles teriam a oportunidade de voltar – A viagem não era tão longa ou perigosa que eles não pudessem ter refeito seus passos. Não teria sido mais difícil ou perigoso para eles fazer isso do que tinha sido fazer a viagem na primeira vez. Isto mostra que sua permanência como estrangeiros e peregrinos na terra de Canaã foi voluntária. Eles preferiram isso, com todos os seus inconvenientes e dificuldades, a um retorno à sua terra natal. O mesmo é verdade no caso de todo o povo de Deus agora. Se eles optassem por voltar ao mundo, e se envolver de novo em todas as suas atividades vãs, não há nada que os impediria. Existem “oportunidades” suficientes. Existem muitos incentivos nesse sentido. Existem inúmeros amigos frívolos e mundanos que consideram uma questão de alegria e triunfo fazê-los retornar à vaidade e à loucura novamente. [Esses amigos] os receberiam de braços abertos em sua sociedade; ficariam contentes de vê-los participando de seus prazeres; e estariam dispostos a que eles compartilhassem das honras e riquezas do mundo. E eles [os cristãos] poderiam fazer isso. Há multidões de cristãos que poderiam adornar o salão de baile, como fizeram antes: que poderiam animar a festa da sociedade com música e humor; que poderiam galgar as mais altas posições, ou competir de igual para igual com outros na corrida em busca da fama. Eles viram e experimentaram o suficiente das atividades vãs do mundo para satisfazê-los com a sua vaidade; eles estão convencidos da pecaminosidade de fazer dessas coisas os grandes objetivos da vida; as afeições deles estão agora fixas em objetivos mais elevados e nobres, e eles “escolhem” não voltar a essas metas novamente, e sim viver como estrangeiros e peregrinos na terra – pois não existe nada mais “voluntário” do que a religião.6

(Notes, Explanatory and Practical, on the Epistle to the Hebrews [Notas, Explicativas e Práticas, Sobre a Epístola aos Hebreus], Harper & Brothers, Nova Iorque, 1857, págs. 273, 274)

Esta é, pois, a grande mensagem! Embora estas palavras de Hebreus 11:13-16 tenham sido dirigidas aos “contemporâneos ou interlocutores” do autor (a saber, todos os cristãos hebreus da época dele) elas são do maior interesse de todos os cristãosde qualquer época ou nacionalidade. Elas se referem, não apenas a Abraão, Isaque e Jacó, e sim a toda e qualquer pessoa que manifeste em sua vida a mesma atitude espiritual que esses patriarcas demonstraram ao longo da vida deles. Claramente, este trecho da Carta aos Hebreus não tem nada que ver com ‘sobrevivência da alma ou do espírito após a morte’. O conteúdo espiritual destas palavras do autor da carta não tem relação alguma com este conceito. Em momento algum ele teve a intenção de promovê-lo.

______________________________________________

(Para uma consideração sobre a situação dos mortos e temas relacionados com isso, sugerimos o artigo Alma e Espírito - "Textos Mal Aplicados Pelos Aniquilacionistas"?. As abreviaturas das versões bíblicas citadas aqui são as mesmas usadas naquele artigo.).

NOTAS:

1 Vale lembrar que existem tanto tradutores imortalistas que apresentam o verbo no pretérito como tradutores mortalistas que o apresentam no presente. Nenhum erudito que pontificou sobre este assunto considerou que o fato de o verbo "desejar" ("ansiar", "aspirar", etc.) estar no presente seja – em si mesmo – evidência de alguma coisa. A questão não é se os eruditos citados aqui advogavam a “imortalidade da alma”, que os patriarcas encontram-se no céu, etc. Não é a crença pessoal deles que está em discussão. Assim como há eruditos que acreditam nisso, há outros, igualmente capacitados, que questionam essas mesmas coisas (e com base bíblica). O que está sendo discutido aqui é se o fato de o verbo estar no presente do indicativo no texto grego original de Hebreus 11:16 comprova alguma coisa nesse sentido. Os pronunciamentos destes mesmos eruditos (imortalistas, enfatizamos) desautorizam isso. Conforme eles entenderam – corretamente – esse “tempo presente” era em relação à vida dos patriarcas. Discutir “tempo verbal” no contexto do que diz Hebreus 11:16, portanto, não leva a nada. A ênfase nisso não produz qualquer evidência em favor da tese da “sobrevivência da alma após a morte”.

2 O fato de o versículo 14 ser um comentário explicativo, declarado em termos gerais, explica porque são comparativamente poucos os tradutores que acharam necessário mudar os verbos para o pretérito. Como a declaração é geral, todos eles poderiam ter deixado os verbos no presente do indicativo, e os leitores de qualquer tradução entenderiam perfeitamente que a declaração se aplica a qualquer pessoa. Já no caso do versículo 16, o número de tradutores que optaram por mudar os verbos para o pretérito é bem maior. Por quê? Porque este versículo não é uma declaração geral; ele trata especificamente dos patriarcas. Dificilmente algum tradutor endossaria a ideia de que o autor de Hebreus estava se referindo a uma “atitude ainda demonstrada pelos patriarcas” no momento em que a carta foi escrita. De jeito nenhum: tanto os eruditos que deixaram os verbos no presente, como os que traduziram usando verbos no pretérito entenderam muito bem que o autor da carta só poderia estar se referindo a uma postura que os patriarcas demonstraram durante a vida deles, apenas.

3 Não se afirma aqui que traduzir νῦν / nun como “agora” em Hebreus 11:16 seja errado. Não, em absoluto. Isto foi feito em grande número de excelentes versões bíblicas, e não há motivo para criticar seus tradutores. O que está errado é sugerir que eles fizeram isso por acreditarem que o autor de Hebreus estava dizendo que os patriarcas tinham tais 'anseios' no momento em que ele escrevia isso (até porque entre os tradutores bíblicos que procederam desta forma há mortalistas, que nem sequer acreditam que tais patriarcas permaneceram vivos depois da morte). Usar a palavra "agora" só não é o mais recomendável neste caso, visto que o entendimento mais usual dela é “no presente momento”. Uma vez que νῦν neste trecho não é advérbio de tempo, outras palavras ou expressões conectivas representam de maneira mais adequada o sentido do texto, evitando o mal-entendido expresso na mensagem que está sendo analisada aqui.

Vale chamar atenção para o fato de que nenhuma das três versões citadas nesta mensagem (FAC, TNM e VOZ) usa este termo. Na FAC, optou-se pelo conectivo lógico ("Mas não."). Os tradutores da VOZ não usaram advérbio algum. No caso da TNM (classificada, um tanto zombeteiramente, como ‘versão de aniquilacionistas’), o termo "now" (“agora”) foi usado, mas só no caso da primeira edição (1950). Na edição revisada (2013), isso foi alterado para:

Mas o fato é que tais pessoas procuram alcançar um lugar melhor, isto é, um lugar que pertence ao céu.

4 Que o termo νῦν / nun pode aplicar-se também a um momento passado em relação à narrativa, sendo perfeitamente apropriado coloca-lo lado a lado com verbos no pretérito pode ser confirmado em qualquer bom dicionário etimológico. Seguem-se exemplos:

Merrian-Webster:

agora

...

4: à época referida no passado

- Os pais dela chegaram a casa no dia seguinte. Agora o problema realmente começava.

- Eu a encontrei novamente anos depois. Ela tinha agora 30 anos de idade e trabalhava num escritório de advocacia.

 

Oxford:

agora

Origem da palavra: Inglês arcaico , de origem germânica; relacionado ao holandês nu, ao alemão nun, de uma raiz indo-europeia compartilhada pelo latim nunc e pelo grego nun. [Grifo acrescentado.]

Entre as aplicações do termo, este dicionário também alista a que segue (juntamente com exemplos):

...

1.5 Em uma narrativa ou relato de eventos passados em relação ao momento da menção ou referência:

‘Ela tinha dezenove anos agora, e estava sozinha.’

‘Até então Callum tinha ficado apenas sentado calmamente observando o rato de biblioteca, mas agora ele falava.’

‘Saria tinha mentido sobre coisas referentes a ele no passado e agora tanto Miriam como Paulo mentiam para pegar Paulo na armação.’

‘Olhei para meu irmão enquanto ele segurava sua mochila junto ao peito e andava atrás de mim, agora sem se atrever a olhar para mim.’

Portanto, mesmo que a palavra "agora" fosse a única tradução possível do termo grego νῦν / nun, isso ainda não provaria coisa alguma sobre "imortalidade da alma ou do espírito". Insistir que tal tradução significa que o autor estava falando duma ocorrência então em curso e não poderia estar se referindo a uma ocorrência passada e ainda criticar os tradutores bíblicos que associaram a este termo verbos no pretérito tem, como única motivação, defender uma opinião teológica particular.

5 Outra obra de referência apresenta as seguintes definições para o termo νῦν:

1. advérbio de tempo, agora, isto é, no presente momento

...

2. Assim como o nosso [termo] agora e o latim nunc, ele fica numa conclusão ou sequência; como as coisas são agora, como o assunto está agora; sob estas circunstâncias; na presente condição das coisas, visto que essas coisas são assim... note porém, mas agora, mas assim como é...; especialmente depois de uma sentença condicional com εi e o pretérito do indicativo."

(A Greek-English Lexicon of the New Testament [Léxico Greco-Inglês do Novo Testamento], revisado e ampliado por Joseph Henry Thayer, Harper & Brothers, Nova Iorque, 1886, pág. 430. Grifos acrescentados).

E ele cita uma série de versículos bíblicos, como exemplos dessas várias aplicações do termo. Entre os trechos citados estão os seguintes:

Pois Cristo não entrou em santuário feito por homens, uma simples representação do verdadeiro; ele entrou no próprio céu, para agora [νῦν] se apresentar diante de Deus em nosso favor; não, porém, para se oferecer repetidas vezes à semelhança do sumo sacerdote que entra no Santo dos Santos todos os anos, com sangue alheio. Se assim fosse, Cristo precisaria sofrer muitas vezes, desde o começo do mundo. Mas agora [νῦν] ele apareceu uma vez por todas no fim dos tempos, para aniquilar o pecado mediante o sacrifício de si mesmo. (Hebreus 9:24-26, NVI).

Estaria Cristo se 'apresentando perante Deus' e 'aparecendo' no momento da escrita destas palavras ou estaria ele fazendo essas coisas continuamente? As palavras do trecho acima nos obrigam a tais entendimentos? Não. Estes eventos haviam ocorrido “uma vez por todas”, num determinado momento anterior à escrita da carta aos hebreus.

Se eu não tivesse vindo e lhes falado, não seriam culpados de pecado. Agora [νῦν], contudo, eles não têm desculpa para o seu pecado. Aquele que me odeia, também odeia o meu Pai. Se eu não tivesse realizado no meio deles obras que ninguém mais fez, eles não seriam culpados de pecado. Mas agora [νῦν] eles as viram e odiaram a mim e a meu Pai. (João 15:22-24, NVI)

Era naquele momento que os opositores de Jesus estavam vendo as obras que ele fez? Não. Eles as tinham visto antes disso, ao longo do ministério dele.

Disse Jesus: ‘O meu Reino não é deste mundo. Se fosse, os meus servos lutariam para impedir que os judeus me prendessem. Mas agora [νῦν] o meu Reino não é daqui”. (João 18:36, NVI)

Devemos entender que pelo fato de a palavra “agora” estar sendo usada aqui, o Reino de Cristo antes era "deste mundo", e foi só no momento em que Jesus disse isso que ele passou a ter natureza celestial? É óbvio que não! O Reino dele nunca foi “deste mundo”. Da mesma forma que fez o autor da carta aos Hebreus, Jesus não falou nada sobre “presente momento”. O conectivo lógico (traduzido nesta versão como “agora”) foi usado para confrontar duas ideias opostas.

A fraseologia usada em todos os trechos acima é idêntica à que o autor de Hebreus usou no trecho discutido aqui. A palavra “agora”, foi usada em todos os casos, e os verbos estão no presente do indicativo. Porém, se fosse obrigatório entender o termo "agora" como advérbio de tempo (significando "neste momento") e ninguém pudesse entender o "tempo presente" dos verbos em questão como aplicável ao contexto dos eventos mencionados, todas as declarações acima seriam questionáveis; realmente absurdas!

Assim, qualquer alegação de que os eruditos que traduziram o verbo de Hebreus 11:16 no pretérito 'não deveriam fazer isso' porque 'estão obscurecendo o sentido do texto’ é vazia, não só em sentido gramatical, como também exegético. Se o termo νῦν neste caso não é um advérbio de tempo, a tradução do verbo do versículo no pretérito é admitida pela gramática grega. A recusa de aceitar este fato, assim como a insistência em entender o termo grego νῦν unicamente como advérbio de tempo tem o claro propósito de manter a ideia de que estes patriarcas falecidos “estão vivos adorando o Deus vivente” neste momento. Além de essa ideia ser fruto de má compreensão da gramática grega, ela contradiz frontalmente outras referências bíblicas sobre a condição dos mortos. Por exemplo, as palavras do Salmo 115:17 (e outros), que declaram explicitamente que pessoas mortas não louvam a Deus.

6 Nesta mesma linha de raciocínio, o Comentário de John Gill (o outro erudito citado) diz sobre Hebreus 11:15:

eles teriam a oportunidade de voltar: pois o caminho de Canaã ou do Egito, onde eles peregrinaram, era curto e fácil: ... assim, quando os homens são chamados pela graça, e convertidos, eles saem de um país, este mundo, que é uma terra de pecado e iniquidade, de grande insensatez e ignorância, de escuridão e da sombra da morte; um deserto, um mero ermo; um país onde Satanás reina, cheia de homens maus e ímpios; e que é a terra de sua natividade, quanto ao seu primeiro nascimento: e pode-se dizer que eles saem dela, não em um sentido natural e civil, e sim em sentido espiritual...”