O Erro de 100 Anos na Cronologia de Russell

Começando na página 631, o livro Testemunhas de Jeová – Proclamadores do Reino de Deus aborda uma parte do desenvolvimento da estrutura cronológica usada por C. T. Russell. Naturalmente quase toda esta cronologia foi abandonada porque a pesquisa posterior mostrou que ela era bem antibíblica, mesmo na época em que foi esboçada originalmente. Num esforço para suavizar quão antibíblica esta especulação cronológica realmente era e para dar a impressão de que ela tinha realmente base bíblica, o livro diz, referente às esperanças e expectativas dos Estudantes da Bíblia quanto ao momento em que muitas das crenças deles se cumpririam: 

Era natural que devessem se perguntar quando e como essas coisas ocorreriam. Forneceram as Escrituras algumas pistas? 

Usando a cronologia bíblica originalmente elaborada por Christopher Bowen, da Inglaterra, eles pensavam que 6.000 anos de história humana terminara em 1873, que depois disso estavam no sétimo período de mil anos de história humana, e que certamente se haviam aproximado do alvorecer do predito Milênio. A série de livros conhecidos como Millennial Dawn (Aurora do Milênio) e mais tarde chamados de Studies in the Scriptures, escritos por C. T. Russell, chamara a atenção às implicações disso segundo o que os Estudantes da Bíblia entendiam das Escrituras. (Pág. 631 § 3, 4) 

Note-se que o livro Proclamadores chama a cronologia de Bowen de “cronologia bíblica”. Isso é o mesmo que chamar a crença no inferno de fogo de “doutrina bíblica”. 

Outra coisa tida como possível indicadora de tempo dizia respeito ao arranjo que Deus instituíra no Israel antigo para um Jubileu, um ano de libertação, a cada 50 anos. Este se dava depois de uma série de sete períodos de sete anos, cada qual terminando com um ano sabático. Durante o ano do Jubileu, os escravos hebreus eram libertados e as posses de terra hereditária que haviam sido vendidas eram recuperadas. (Lev. 25:8-10) Cálculos baseados nesse ciclo de anos levaram à conclusão de que talvez um Jubileu maior para toda a Terra começara no outono setentrional de 1874, que o Senhor evidentemente retornara naquele ano e estava invisivelmente presente, e que os “tempos da restauração de todas as coisas” haviam chegado. — Atos 3:19-21, Almeida, atualizada. (p.631 § 5).

Em seguida consideram-se outros aspectos da cronologia de Russell, como a alegação dele de que a ressurreição tinha começado em 1878. Por fim, discute-se um entendimento diferente dos ciclos dos jubileus. Isto se tornou a base para a predição fracassada de Rutherford do ano de 1925 como “o fim do mundo.”

Nas págs. 632 e 633, o livro Proclamadores prossegue dizendo: 

Mais tarde, durante os anos de 1935 a 1944, uma revisão do esquema geral da cronologia bíblica revelou que uma má tradução de Atos 13:19, 20 na King James Version*, junto com certos outros fatores, causara um erro de mais de um século na cronologia.#

As notas de rodapé dizem:

* Veja a tradução na The Emphasised Bible, traduzida por J. B. Rotherham; veja também a nota em Atos 13:20 na Tradução do Novo Mundo das Escrituras Sagradas  Com Referências. 

# Veja “A Verdade Vos Tornará Livres”, capítulo XI; “Está Próximo o Reino”, páginas 171-6; também The Golden Age, 27 de março de 1935, páginas 391, 412. À luz dessas tabelas de cronologia bíblica corrigidas, pôde-se ver que os anteriores usos das datas de 1873 e 1878, bem como de datas relacionadas derivadas destas à base de paralelos com eventos do primeiro século, baseavam-se em equívocos. 

Como é costumeiro no livro Proclamadores, a informação mínima que se transmite ao leitor faz com que este fique com uma imagem distorcida da verdadeira situação. As coisas que foram feitas são descritas com verbos na voz passiva e as pessoas que fizeram essas coisas não são mencionadas. Isto lança um confortável anonimato sobre essas ações e isola os responsáveis do que eles fizeram. Tudo é visto sob um manto de obscurantismo.

O último parágrafo da citação acima transmite a impressão que a cronologia usada por Russell e pelos Estudantes da Bíblia foi prejudicada por um fator além do controle deles, a saber, “uma má tradução de Atos 13:19, 20 na King James Version”. Veja também a nota de rodapé na pág. 133 do livro. Mas este fator só constituiria um problema para Christopher Bowen, não para qualquer outra pessoa que tivesse acesso às mais recentes traduções da Bíblia, baseadas em antigos textos gregos, que estavam aparecendo bem naquele momento. Por exemplo, a Emphatic Diaglott, publicada pela primeira vez em forma completa em 1864, tinha uma nota marginal mostrando a maneira alternativa de traduzir com base no “Manuscrito Vaticano”, que não estava disponível aos tradutores da Versão Rei Jaime, mas é a base para a Tradução do Novo Mundo da Torre de Vigia. Esta tradução alternativa deu parte da base para as mudanças que a Torre de Vigia fez em sua cronologia entre 1935 e 1946. A tradução surgiu já em 1775, quando o primeiro dos textos gregos de J. J. Griesbach foi disponibilizado. Este texto foi a base para a Diaglott. Naturalmente, a Diaglott era bem conhecida, tanto por N. H. Barbour como por C. T. Russell, já que o fato de ela traduzir a palavra grega parousia como “presença” foi a base para a doutrina deles da “presença invisível” de Cristo. Eles conheciam muito bem esta versão bíblica.

Será que a Emphatic Diaglott era a única versão bíblica que indicava uma maneira alternativa de traduzir Atos 13:19, 20? De modo algum. Depois de meados do século 19 foram disponibilizadas muitas versões que usavam os textos gregos mais recentes. O bem conhecido texto de Westcott e Hort, que hoje é um texto padrão, tornou-se disponível em 1881, embora outros estivessem disponíveis muito antes disso. A Bíblia Inglesa Revisada, que usava os textos gregos mais recentes, ficou disponível em 1885, e muitas outras Bíblias que usavam os textos mais recentes ficaram disponíveis por volta de 1900. A Versão Padrão Americana, uma edição revisada da Bíblia Inglesa Revisada, foi publicada em 1901. Segundo o livro Proclamadores (págs. 604-606) a Torre de Vigia estava distribuindo uma variedade de Bíblias por volta de 1896, das quais as seguintes usavam os textos gregos mais recentes para traduzir Atos 13:19, 20: O Novo Testamento de Tischendorf, Bíblia Variorum, tradução de Rotherham, Edição Paralela Linear da Bíblia de Holman, contendo a Versão Inglesa Revisada e a Emphatic Diaglott.

Sendo assim, embora Christopher Bowen possa ser desculpado por publicar uma cronologia incorreta, não há essa desculpa para N. H. Barbour no início da década de 1870 e certamente não para a Torre de Vigia depois de 1900. É bem evidente que a única razão de a cronologia ter sido mantida apesar de estarem disponíveis traduções corretas é que essa cronologia já tinha se tornado uma doutrina bem estabelecida e era encarada por Russell como divinamente inspirada. Sobre essas datas, a revista A Torre de Vigia de Sião de 15 de julho de 1894 (em inglês) disse na pág. 226, debaixo do subtítulo “Pode Ser Adiado Até 1914?”:

Não vemos qualquer motivo para mudar as datas – nem poderíamos mudá-las se quiséssemos. Elas são, conforme cremos, datas de Deus, não nossas.

A nota de rodapé assinalada com um asterisco acima admite que esta informação já era conhecida no início. A nota de rodapé assinalada com o símbolo # cita diversas referências. É interessante que o capítulo XI de A Verdade Vos Tornará Livres publicado em 1943, cita Atos 13:19, 20 da Versão Padrão Americana e não faz nenhuma referência a quaisquer mudanças de entendimento de publicações anteriores, nem da Versão Rei Jaime, nem da Diaglott. Nem mesmo a referência em Está Próximo o Reino, (de 1944) explica estas coisas. Estas referências limitam-se a apresentar as conclusões como se fossem algo já corriqueiro.

Aparentemente a explicação para o que foi feito que deu origem à mudança ficou a cargo do livro publicado em 1973, intitulado Aproximou-se o Reino de Deus de Mil Anos. O capítulo 11 contém uma explicação do raciocínio por trás da apresentação dos livros anteriores. O livro dá uma explicação nas páginas 206-211, que não será reproduzida aqui. Basta dizer que é evidente uma defasagem de 100 anos entre o período de 450 anos dos juízes, conforme a tradução que a Versão Rei Jaime e a Diaglott fazem de Atos 13:19, 20 e os 350 anos calculados na consideração feita no parágrafo 51 do livro Mil Anos. O livro Proclamadores diz que a defasagem foi decorrente duma má tradução destes versículos na Versão Rei Jaime, mas o livro Aproximou-se o Reino de Deus de Mil Anos diz expressamente que o erro foi devido a eles terem seguido a sugestão de uma nota de rodapé na Emphatic Diaglott. O parágrafo 52 diz que a Versão Rei Jaime concorda com a Diaglott, mas transmite-se a impressão que o argumento da Diaglott é que foi o fator decisivo. Assim o livro admite claramente que existiram fatores que tornariam possível que se chegasse a uma cronologia correta, caso se tivesse levado em conta toda a informação relevante que estava disponível naquele momento. Deve-se perguntar: Se a informação correta já estava disponível para N. H. Barbour e C. T. Russell, por que o espírito de Deus não os guiou a um entendimento correto? Queria Deus realmente que o entendimento correto ficasse escondido durante uns 70 anos, até 1943?

Além disso, o livro Aproximou-se o Reino de Deus de Mil Anos só menciona C. T. Russell como tendo feito estes cálculos. Não se faz qualquer referência a N. H. Barbour, nem a Christopher Bowen, nem a qualquer outro chamado cronologista bíblico daquela época. Este é outro exemplo das tentativas da Torre de Vigia no passado de dar o crédito a Russell como originador de todos os seus ensinos, em vez de atribuí-los a vários adventistas e outras fontes. A Torre de Vigia deve ser parabenizada por retificar isso no livro Proclamadores.

Continuando a nossa consideração do que é apresentado no livro Proclamadores, uma grave omissão é que este livro não informa o leitor sobre a tradução alternativa para Atos 13:19, 20, mencionada na Diaglott, conforme foi discutido acima. Em vez disso, lança-se a culpa pelo erro sobre a Versão Rei Jaime. Se esta tradução alternativa tivesse sido seguida, obrigaria a avançar toda a cronologia de Barbour e de Russell 100 anos à frente. A presença de Cristo teria de começar em 1974 e não em 1874. É claro que este não era um resultado desejável, por isso em vez de avaliar honestamente ambas as maneiras de traduzir, que estavam disponíveis na Emphatic Diaglott, eles usaram a tradução errada, mas conveniente, de Atos 13 como base para os seus cálculos.

Esta consideração ressalta outro problema no livro Aproximou-se o Reino de Deus de Mil Anos. Ele diz que o erro no cálculo do início da presença de Cristo foi devido à informação equivocada na Diaglott. Porém, a diferença entre 1874 e 1914 é de 40 anos, não 100. No parágrafo 55 (págs. 209, 210), o livro omite a explicação de como a data 1874 foi mudada para 1914 como o início da presença de Cristo. Em vez de explicar como a discrepância de 100 anos se harmoniza com isso, o livro simplesmente diz:

No ano de 1943 (em português em 1946), a Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados publicou o livro “A Verdade Vos Tornará Livres”. No capítulo 11, intitulado “A Contagem do Tempo”, eliminou a inserção dos cem anos do período dos Juízes e seguiu o texto mais antigo e mais autêntico de Atos 13:20, aceitando os números soletrados das Escrituras Hebraicas. Isto avançou o fim dos seis mil anos da existência do homem para a década de 1970. Naturalmente, eliminou o ano 1874 E.C. como data da volta do Senhor Jesus Cristo e do começo de sua presença ou parusia invisível. O milênio, que havia de ser assinalado pelo acorrentamento de Satanás, o Diabo, no abismo e pelo reino dos 144.000 co-herdeiros de Cristo em glória celestial, portanto, ainda era futuro. Então, que dizer da parusia (presença) de Cristo? Na página 330, o livro mencionado diz positivamente: “A presença ou parousia do Rei começou em 1914.”

Assim, com uma simples frase escrita no papel – “o livro mencionado diz positivamente...” – o autor do livro Aproximou-se o Reino de Deus de Mil Anos esquiva-se de uma explicação difícil. O mesmo já havia sido feito no livro de 1944, Está Próximo o Reino. Na página 171, este livro disse que o livro A Verdade Vos Tornará Livres tinha explicado como foi que a Torre de Vigia mudou a data da destruição de Jerusalém do verão [setentrional] de 606 A.C. para 607 A.C. Mas o livro A Verdade Vos Tornará Livres não deu explicação alguma, de modo que a Torre de Vigia nunca deu realmente uma razão para a mudança, embora tenha alegado que deu. Este mesmo procedimento foi seguido quando se mudou a data inicial da profecia das 69 semanas até a vinda do Messias, de 454 para 455 A.E.C. em meados da década de 1940.

Nossa consideração levanta mais alguns pontos interessantes. O parágrafo 49 do livro Aproximou-se o Reino de Deus de Mil Anos faz diversas suposições não declaradas que foram todas provadas como não tendo fundamento. Embora a Bíblia nunca diga isso, o livro presume que Russell estava certo em apresentar 7.000 anos como um período de tempo “mágico”. Em outras palavras, o livro presume que um “dia” da semana criativa tem exatamente sete milênios. Esta idéia pode ser remontada ao pensamento rabínico judaico. O próprio Russell sabia que isto era só uma suposição, mas seus sucessores aparentemente esqueceram isso. Russell escreveu no livro Está Próximo o Tempo, pág. 39:

Embora a Bíblia não contenha qualquer declaração direta dizendo que o sétimo milênio será a época do reino de Cristo, o grande Dia Sabático de restituição para o mundo, ainda assim a venerável tradição não deixa de ter um fundamento razoável.

A Torre de Vigia aplicou esta “venerável tradição” à sua predição de 1975 e o fracasso desta predição é conhecido de todos os estudantes dessa religião.

Um pouco de reflexão mostra imediatamente a falta de razoabilidade desta suposição. Quando Deus criou a Terra, “todos os filhos de Deus começaram a bradar em aplauso.” (Jó 38:7) Assim, os anjos estavam presentes quando Deus criou o homem e eles sabiam a data exata em que isto ocorreu. Por isso, se o sétimo milênio correspondesse ao reinado de Cristo, os anjos saberiam quando ele começaria, e também a data do início do Armagedom e “aquele dia e aquela hora” de Mateus 24:36. Porém, uma vez que Mateus 24:36 diz “acerca daquele dia e daquela hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, mas unicamente o Pai”, não pode haver correspondência alguma entre o reino de mil anos e o sétimo período de mil anos da história humana.

Deveria ser claro para todos que as publicações da Torre de Vigia, incluindo o livro Testemunhas de Jeová – Proclamadores do Reino de Deus (sobre o qual se afirmou no discurso público de seu lançamento que apresentava informação ‘objetiva e cândida’ sobre a história das Testemunhas de Jeová”), não dão um quadro completo das muitas especulações cronológicas que foram feitas pela organização ao longo dos anos.

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Alan Feuerbacher