O Sangue e a Vida, a Lei e o Amor

 

A letra mata, mas o Espírito vivifica. ― 2 Coríntios 3:6, Tradução Ecumênica.

O que vai ser considerado agora de modo algum implica em que o uso do sangue não envolva um alto grau de risco. É evidente que há riscos. Tampouco significa que alguém que faz a opção pessoal, sem coação, de evitar transfusões (ou algum componente ou fração do sangue, se for o caso) com base puramente religiosa, esteja agindo de modo impróprio. Até as ações que em si são corretas se tornam más se forem praticadas de má consciência. Como disse o apóstolo: “Feliz aquele que não se condena na decisão que toma... pois tudo que não procede da boa fé é pecado.”[1] Se, em vista da evidência a ser apresentada, certos escrúpulos relacionados ao sangue refletem uma consciência forte ou fraca, deixo a critério do leitor.

Ao mesmo tempo, não se deve subestimar a séria responsabilidade que cai sobre uma organização que impõe suas opiniões à consciência pessoal do indivíduo. O que tem acontecido com a Sociedade Torre de Vigia na questão do sangue ilustra, de modo contundente, como o legalismo pode levar uma organização a um emaranhado de inconsistências, com a possibilidade de seus membros virem a sofrer todas as conseqüências desfavoráveis daí resultantes.

Começando no final dos anos 40, a organização declarou inicialmente a proibição absoluta de aceitar sangue sob qualquer forma, quer total quer em frações. Então, com o passar dos anos, ela acrescentou novas normas, que entravam cada vez mais nos aspectos técnicos da questão.

As mais recentes regras referentes às frações do sangue são as apresentadas na Sentinela de 15 de junho de 2000, págs. 29-31 e 15 de junho de 2004, págs. 14-24, 29-31. Estas regras abordam uma nova definição do que pode ser permitido em relação aos componentes do sangue. Alega-se agora que quatro “componentes primários” – glóbulos vermelhos, glóbulos brancos, plaquetas e plasma – são proibidos, mas as “frações” derivadas de todos os quatro “componentes primários” são permitidas.

O quadro que segue apresenta basicamente a posição atual da organização acerca do uso do sangue: 

Esta posição, especificando elementos do sangue “Inaceitáveis” (parte superior) e elementos classificados sob “O Cristão Deve Decidir” (parte inferior), é esboçada na revista A Sentinela de 15 de junho de 2004. Analisando o artigo e o raciocínio por trás dele, um correspondente da Suécia escreveu:

 

Isto quer dizer que as partes do sangue liberadas em artigos anteriores podem agora ser apresentadas como meras “frações” do plasma. A façanha óbvia é que as partes do sangue anteriormente aprovadas (globulinas, albumina, fator de coagulação VIII, etc.) podem ser reduzidas em significância, em comparação com os glóbulos brancos e vermelhos e as plaquetas. Assim, a inconsistência da posição anterior em fazer uma distinção arbitrária entre os vários componentes do sangue é agora removida para as Testemunhas que confiam submissamente. A Sociedade tinha dificuldade em lidar com essa inconsistência quando era desafiada. A solução para seu dilema necessariamente tinha de envolver novos componentes, tais como “fragmentos” de glóbulos brancos e vermelhos e plaquetas, mencionados especificamente. Essa tolerância, agora expressa claramente, teria estado fora de cogitação antes. Já que um glóbulo vermelho do sangue refinado na forma de hemoglobina liberada de sua membrana está bem a caminho – PolyHeme, Hemospan e Hemopure, para citar alguns dos produtos prometidos – a nova posição da Sociedade pode ter conseqüências de longo alcance para as Testemunhas. Logo elas poderão receber o que, para todos os fins práticos, constitui glóbulos vermelhos do sangue.

Com exceção da recente liberação para diversos novos componentes, o entendimento de “componentes primários” versus “frações” não tinha feito qualquer diferença quando os componentes do sangue anteriormente permitidos foram liberados gradualmente. Só agora isso é usado como uma racionalização. Em vez disso, muitas outras explicações tinham sido dadas, uma das quais era claramente inválida e algumas das quais, se levadas à sua conclusão lógica, eliminariam todas as objeções ao uso clínico do sangue. A referência a “Lucas 6:1-5” na Sentinela de 1º de dezembro de 1978, página 31, era particularmente desastrosa. O texto refere-se a Davi e seus homens, que comeram pães proibidos – não algumas frações permitidas deles, mas pães inteiros! Se isso pudesse ser convertido em algum componente sanguíneo, certamente poderia legitimar o uso de todos os componentes e até de sangue integral. Como mostra o relato bíblico sobre Davi e seus homens, a necessidade, e não a quantidade era o fator determinante na época. [Que a Sociedade Torre de Vigia ainda considera válido o argumento da Sentinela de 1º de dezembro de 1978 é evidente pelo fato de que ainda faz referência a ele em 2004 (veja a seção “Perguntas dos Leitores” na Sentinela de 15 de junho de 2004, pág. 30).]

A nova posição desde 2000 é arbitrária e está em desarmonia com os fatos. Por um lado, alega-se que a Bíblia proíbe receber os “componentes primários”, mas as “frações” deles são permitidas, já que a Bíblia “não fornece detalhes” (A Sentinela de 15 de junho de 2000, pág. 30; 15 de junho de 2004, pág. 30). Porém, já que a Bíblia não fala de “componentes primários” mais do que fala sobre “frações”, este argumento é falso. Na verdade, seria mais lógico permitir até os chamados “componentes primários” e erguer a linha divisória para a posição entre eles e o sangue integral. Por outro lado, uma razão constantemente apontada quando se proíbe o uso clínico do sangue é alegar que o único uso aprovado do sangue era para a expiação no altar. Alega-se que o sangue pertence a Deus. Mas isso é convenientemente esquecido quando se declara que o uso das “frações” do sangue é permitido! Mas seria difícil aceitar qualquer uso secular de algo que pertence exclusivamente a Deus, porque isso seria o mesmo que usar propriedade roubada! Um carro roubado é um carro roubado e o roubo não seria mais tolerável se o carro for separado em “componentes primários”, a saber, o motor, a carroceria e a transmissão, e daí separado de novo em “frações” tais como carburador, pistões, capô, portas e eixo de direção. Só no caso de o carro não ser roubado é que alguém teria o direito de usá-lo ou vender suas peças. E se o carro não é roubado, todas as partes, tanto as grandes como as pequenas, podem ser devidamente separadas e usadas à vontade. Assim, se as “frações” do sangue podem ser permitidas, certamente os “componentes primários” e até o sangue integral pode também!

Ademais a classificação que a Sociedade faz dos “componentes primários” não parece estar de acordo com o que diz a ciência médica moderna. Isso não é de admirar, pois a albumina, o Fator VIII e IX, etc. são componentes completos e funcionais, como os glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas. Todos estes componentes são transportados no plasma. O fato de alguns componentes (glóbulos vermelhos, glóbulos brancos e plaquetas) poderem ser separados do plasma por centrifugação e outros componentes só poderem ser separados por métodos diferentes não faz com que os primeiros sejam “frações” do sangue mais do que os demais. Os glóbulos vermelhos e as proteínas da albumina não são comparáveis a “tios” e “sobrinhos” e são, em vez disso, “irmãos”! Seria necessário fracionar uma proteína de albumina para corresponder a uma fração de um glóbulo vermelho. Não admira que uma autoridade em medicina tal como o livro Práticas Modernas de Armazenagem de Sangue e Transfusões (em inglês – 4ª edição, Filadélfia, EUA, 1999) inclui a albumina, a imunoglobulina, bem como os fatores VIII e IX entre os “componentes maiores” do sangue e não faz qualquer menção da classificação específica feita agora pela Sociedade. (págs. 237-240, 246-248 em inglês). Similarmente, o manual sueco Blodsjukdomar Handbok I Hematologi (Manual de Hematologia e Doenças do Sangue), Gösta Garthon & Bengt Lundh, 1999, inclui a albumina e os fatores de coagulação entre “alguns dos componentes importantes no sangue”, novamente sem usar a classificação feita pela Sociedade. (pág. 422 em sueco) A explicação dada pela Sociedade acerca disso é claramente insustentável. Não há margem para distinção entre os componentes do sangue, fazendo com que alguns sejam permissíveis e outros não.

Mas isso não é tudo. Tanto a Sentinela de 15 de junho de 2000 como a de 15 de junho de 2004 alega que “frações” do sangue, tais como as imunoglobulinas “passam do sangue da gestante para o sistema sanguíneo, separado, do feto” e que “alguns cristãos podem concluir que visto que frações de sangue podem passar para outra pessoa neste ambiente natural, eles poderiam aceitar uma fração de sangue derivada de plasma ou de glóbulos sanguíneos.” (págs. 30 e 31). O problema aqui é que não são apenas as “frações”, segundo a definição da Sociedade, que passam “para outra pessoa neste ambiente natural”, mas “componentes primários”, segundo sua definição, passam também! Assim, a obra Práticas Modernas de Armazenagem de Sangue e Transfusões, de Denise M. Harmening, citada acima, diz na pág. 423 (em inglês): “A hemorragia transplacentária de glóbulos vermelhos do feto para dentro da circulação materna ocorre em até 7 por cento das mulheres durante a gestação.” Assim, os glóbulos vermelhos do sangue podem “passar para outra pessoa” naturalmente. Isto tornaria os glóbulos vermelhos tão aceitáveis quanto as imunoglobulinas. Mais uma vez a posição da Sociedade é demonstravelmente insustentável.

O que dizer das “frações” de glóbulos vermelhos que poderão estar logo disponíveis e para as quais a Sociedade agora deu permissão? Essa “fração” é nada mais que um glóbulo vermelho refinado, sendo que a hemoglobina transportadora de oxigênio vital está liberada da membrana onde estava antes. A obra de referência sueca Människokropen Fysiologi Ochanatomi (A Fisiologia e a Anatomia do Corpo Humano), Jan G. Bjålie, Egil Haug, Olav Sand, Öystein V. Sjaastad (Estocolmo, 1998), diz: “Os glóbulos vermelhos... podem ser apropriadamente comparados com pequenas membranas, preenchidas com a molécula de hemoglobina oxigenada ...É a hemoglobina que dá ao sangue sua cor vermelha. A hemoglobina constitui 95% das proteínas dos eritrócitos e cerca de 34% de seu peso. O restante das proteínas é composto principalmente de enzimas que participam na renovação de energia nas células.” (pág. 269 em sueco)

Se os novos produtos forem o PolyHeme ou o Hemospan, a parte principal será a hemoglobina extraída dos glóbulos vermelhos do sangue humano. Se o Hemopure for disponibilizado, ele será baseado em hemoglobina do sangue bovino. Será um bom produto que, diferente dos glóbulos vermelhos armazenados, poderá durar muito tempo e estará isento de contaminação. Ele será capaz de transportar oxigênio satisfatoriamente, diferente do Dextran e outros chamados substitutos usados para expandir o volume do sangue. Mas ele É SANGUE! Um glóbulo vermelho do sangue ainda é sangue, da mesma forma que uma laranja descascada ainda é uma laranja. Com a casca ou sem ela, uma laranja ainda continua sendo uma laranja. Se fosse inventado um método de remover os segmentos de uma laranja e arranjar os segmentos em grupos de quatro sem a casca, o produto ainda seria uma laranja, e ninguém diria que é outra coisa. Da mesma forma, glóbulos vermelhos refinados, hemoglobina liberada e preparada, permanecerão sendo sangue. De modo que afirmar que tomar glóbulos vermelhos é um pecado, e aceitar hemoglobina refinada não é pecado, é uma hipocrisia farisaica completa.

Percebendo que esta conclusão é difícil de evitar, a Sentinela de 15 de junho de 2004, pág. 24, declarou: “Além disso, alguns produtos derivados de um dos quatro componentes primários podem desempenhar uma função tão similar à do componente primário e ter a mesma capacidade de sustentar a vida, que a maioria dos cristãos os consideraria objetáveis.” Assim, considera-se uma questão de consciência aceitar produtos feitos de glóbulos vermelhos, embora se diga que “a maioria” das Testemunhas de Jeová consideraria que eles são objetáveis. Uma Testemunha que aceite tais produtos derivados de glóbulos vermelhos é considerada como estando em boa posição. Por outro lado, uma Testemunha que aceite glóbulos vermelhos não processados – mesmo no caso de só estes estarem disponíveis – será considerada uma pecadora e terá problemas com seus anciãos locais. Com certeza a credibilidade da Torre de Vigia agora é zero.

O uso de componentes sanguíneos implica obviamente na armazenagem de grandes e até maciças quantidades de sangue. Por um lado a organização Torre de Vigia decreta como permitido o uso destes componentes do sangue, e conseqüentemente da armazenagem envolvida na sua extração e produção, enquanto por outro afirma que se opõe a toda armazenagem de sangue, pois é biblicamente condenada. Este é o único motivo apresentado para proibir o uso de sangue autólogo por uma Testemunha (isto é, armazena-se um pouco do próprio sangue da pessoa para depois reintroduzi-lo na corrente sangüínea durante ou após a cirurgia).[2] Essas posições são claramente arbitrárias, inconsistentes e contraditórias. É difícil crer que tanto os que formulam tais normas como os redatores que as explicam e defendem, ignorem os fatos a ponto de não verem a inconsistência e arbitrariedade envolvidas. No entanto, só isso poderia evitar que essa posição também seja classificada como desonesta.

Decidir sobre questões de saúde ou tratamento médico – proibindo isto e permitindo aquilo – é pisar em terreno perigoso. De um lado, podemos ser culpados de criar um medo irracional, e de outro, podemos criar uma falsa sensação de segurança. O proceder sábio – e humilde – é deixar a responsabilidade de decidir sobre tais distinções a quem ela pertence em primeiro lugar, à consciência individual.

O risco inerente à transfusão de sangue e componentes ou frações de sangue é real. Ao mesmo tempo, também é verdade que pessoas podem morrer na cirurgia devido a grandes hemorragias. O uso do próprio sangue, armazenado até a hora da cirurgia, seria uma opção lógica para pessoas preocupadas com possíveis infecções relacionadas ao sangue. Porém, como vimos, a organização assume a autoridade de declarar que isto não cabe à decisão pessoal, proibindo até a “drenagem intra-operatória” do sangue (na qual, durante a operação, recolhe-se algum sangue num recipiente plástico, depois o devolvendo ao corpo).[3] E muitos milhares de pessoas estão dispostas a abrir mão do direito à própria decisão em casos tão cruciais, deixando que a organização decida por elas, apesar de esta, em sua história, mostrar-se bem pouco disposta  a admitir a responsabilidade pelos danos que suas normas possam causar. Supridas quase totalmente apenas pelas declarações e experiências favoráveis, elas raramente, se é que tanto, são informadas dos fatores negativos.

Considere só um exemplo, tirado de um artigo da revista Discover de agosto de 1988. A partir dos 42 anos, ao longo de vários anos, uma mulher Testemunha passou por remoções cirúrgicas de tumores recorrentes da bexiga. Da última vez, ela esperou demais antes de ir ao médico, sangrava muito, e estava gravemente anêmica. Insistiu em não receber transfusão e a recusa foi respeitada. Por mais de uma semana os urologistas tentaram sem êxito estancar a hemorragia. A contagem sangüínea dela continuava a cair. A médica autora do artigo descreve o que aconteceu: 

 

Gradualmente, à medida que sua contagem sangüínea caía ainda mais, a Sra. Peyton passou a ter falta de ar. Os órgãos do corpo precisam de certa quantidade de oxigênio para funcionar. O oxigênio é transportado dos pulmões para a periferia pelas moléculas de hemoglobina que estão nos glóbulos vermelhos... A equipe médica deu à Sra. Peyton oxigênio adicional através de uma máscara até que ela estava praticamente respirando O2 puro. Os poucos glóbulos vermelhos que ela tinha estavam totalmente carregados, mas simplesmente não havia veículos suficientes para transportar o combustível de que seu corpo precisava.

Sua ânsia por ar aumentou. Seu ritmo respiratório caiu. Ela ficava cada vez mais instável. Finalmente, e inevitavelmente, as fibras do músculo cardíaco mostraram sua necessidade desesperada de oxigênio. Ela sofria uma dor no peito, forte e esmagadora.

A médica que escreve o artigo descreve o que sentiu ao chegar ao quarto da paciente:

 

Quando entrei no quarto... assustei-me com a cena à minha frente. No centro de todas as atenções estava uma mulher grande com uma máscara de oxigênio, ansiosa por ar, respirando mais rápido do que parecia humanamente possível. À cabeceira da cama estavam três amigos, membros da igreja [Testemunhas], instruindo-a... A seu lado estavam vários médicos ― um monitorando sua pressão sangüínea em queda, outro extraindo um pouco de sangue duma artéria. O fluido que lentamente enchia a seringa tinha a consistência de ponche havaiano; testes no mesmo revelaram uma contagem de glóbulos vermelhos de apenas 9 [o normal seria 40]. Pendurado na grade da cama havia um saco com urina cor de cereja. A mulher estava morrendo Os traços do cardiograma mostravam as grandes oscilações que assinalam um coração agonizante. Em poucas horas o dano que representavam se tornaria irreversível.

A mulher teve uma parada cardíaca. A equipe de médicos e enfermeiras começou a reanimação cárdio-pulmonar. Administraram-lhe epinefrina e atropina e depois uma descarga elétrica no coração. Este começou a bater, depois parou de novo. Mais RCP, mais epinefrina e atropina, outra descarga elétrica, mais RCP. Isto continuou durante uma hora até não haver mais esperança ou objetivo. A paciente estava morta, além de recuperação.

A médica que descreve isto não considerou a mulher como uma simples fanática. Ela escreve: 

 

Disseram-me que era uma mulher inteligente, que compreendia totalmente as conseqüências da sua decisão. Mas seu discernimento, pareceu-me, provinha de um conceito cego imposto por sua fé.[4]

Tratava-se de uma mulher com um problema recorrente que exigia cirurgias periódicas. Sabendo disto, armazenar um pouco do próprio sangue podia ter-lhe parecido um recurso seguro e aconselhável. A “lei Teocrática”, porém, descartou isto. A obediência à “lei Teocrática” não lhe permitiu uma opção pessoal na questão.

Se as normas da organização tivessem realmente base bíblica, qualquer sofrimento que resultasse de acatar essas normas ― tal como o adiamento ou a recusa de uma cirurgia devido à preocupação ou incerteza sobre questões ligadas ao sangue, até a própria perda da vida por sentir-se sob obrigação divina de recusar componentes do sangue além  dos  “permitidos”  ― tudo   poderia  ser  simplesmente  encarado como o sofrimento que o servo de Deus deve estar disposto a suportar.[5] Muitas Testemunhas de Jeová são bem sinceras em apegar-se aos padrões da sua organização a este respeito. Algumas até viram filhos pequenos morrerem em resultado disso, e seria cruelmente injusto atribuir isto à falta de amor dos pais. Eles simplesmente aceitaram que os padrões e normas organizacionais ― embora complexos e até confusos ― são baseados na Bíblia e, portanto, ordenados por Deus. Todavia, poucas afirmações tiveram base mais frágil que essa.

Como se observa, muito da argumentação da Torre de Vigia concentra-se em textos das Escrituras Hebraicas, principalmente das ordenanças da Lei Mosaica. Visto que a Sociedade reconhece que os cristãos não estão debaixo dessa Lei, o texto de Gênesis, capítulo 9, versículos 1-7, é freqüentemente citado. Ele diz:

 

E Deus prosseguiu abençoando Noé e seus filhos, e dizendo-lhes: “Sede fecundos e tornai-vos muitos, e enchei a terra. E o medo de vós e o terror de vós continuará sobre toda criatura vivente da terra e sobre toda criatura voadora dos céus, sobre tudo o que se está movendo no solo, e sobre todos os peixes do mar. Na vossa mão estão agora entregues. Todo animal movente que está vivo pode servir-vos de alimento. Como no caso da vegetação verde, deveras vos dou tudo. Somente a carne com a sua alma ― seu sangue — não deveis comer. E, além disso, exigirei de volta vosso sangue das vossas almas. Da mão de cada criatura vivente o exigirei de volta; e da mão do homem, da mão de cada um que é seu irmão exigirei de volta a alma do homem. Quem derramar o sangue do homem, pelo homem será derramado o seu próprio sangue, pois à imagem de Deus fez ele o homem. E quanto a vós, homens, sede fecundos e tornai-vos muitos, fazei a terra pulular de vós e tornai-vos muitos nela.”

Alega-se que, como todos os humanos descendem de Noé e seus filhos, estas ordens ainda se aplicam a todas as pessoas. Sugere-se que as ordenanças sobre o sangue na Lei Mosaica devem por isso ser vistas simplesmente como repetições ou considerações adicionais da lei básica anteriormente estabelecida, e que, portanto, ainda vigoram. De outro modo, já que os cristãos não estão sob a Lei Mosaica, não faria sentido citar textos dela como tendo relevância no assunto.[6] Afirma-se que o decreto divino sobre o sangue dado a Noé tem aplicação eterna.

Se é assim, não devemos então aplicar isso também à ordem seguinte, “sede fecundos e tornai-vos muitos”, e “fazei a terra pulular de vós e tornai-vos muitos nela”? Se é assim, como pode a Sociedade Torre de Vigia justificar o incentivo, não só a ficar solteiro, mas até a não ter filhos, no caso das Testemunhas casadas? Sob o título “Ter Filhos Hoje”, A Sentinela de 1º de março de 1988 (página 21) diz que, em vista do “tempo limitado” que resta para terminar a obra de testemunho, “é apropriado que os cristãos perguntem a si mesmos até que ponto o casar-se, ou terem filhos, caso sejam casados, afetará a sua participação nessa obra vital”. O artigo admite que criar filhos fazia parte da ordem de Deus após o dilúvio, mas declara (página 26) que “Atualmente, gerar filhos não é especificamente parte da tarefa dada por Jeová a seu povo... Portanto, ter filhos ou não neste tempo do fim é um assunto pessoal que todo casal precisa decidir por si mesmo. Contudo, visto que ‘o tempo que resta é reduzido’, os casais farão bem em pesar cuidadosamente e com oração os prós e os contras de se ter filhos nestes tempos.” Se as palavras de Jeová a Noé a respeito de criar filhos e ‘pulularem e serem fecundos’ podem ser postas de lado como não mais aplicáveis, como podem coerentemente argumentar que as palavras Dele a respeito do sangue têm de ser encaradas como ainda em vigor, e usar isso como base para justificar a aplicação das ordenanças da Lei Mosaica sobre o sangue como ainda em vigor para os cristãos hoje? 

Mais significativo, contudo, é que fazem essas palavras em Gênesis dizerem algo muito diferente do que de fato dizem. Qualquer leitura do texto deixa claro que Deus ali fala de sangue inteiramente em relação a matar animais e depois em relação a matar humanos. No caso dos animais, o sangue era derramado no solo em reconhecimento evidente de que a vida sacrificada desse modo (para alimento) só era tomada por permissão divina, não por direito natural. No caso do homem, seu sangue exigia a vida daquele que o derramava, sendo a vida humana um dom de Deus que o homem não foi de modo algum autorizado a tirar  à  vontade. O sangue  derramado  de animais  mortos  e  humanos assassinados representa a vida que eles perderam.[7] O mesmo ocorre no caso dos textos da Lei Mosaica regularmente citados, que requerem que o sangue seja “derramado”. Em todos os casos, isto se refere claramente ao sangue dos animais que foram mortos. O sangue representava a vida tirada, não a vida ainda ativa na criatura.[8]

As transfusões de sangue, contudo, não são resultado da morte de animais ou humanos, pois o sangue vem de um doador vivo que continua a viver. Em vez de representar a morte de alguém, esse sangue é utilizado exatamente com objetivo oposto, a saber, a preservação da vida. Não dizemos isto para declarar as transfusões de sangue como prática desejável, ou inquestionavelmente apropriadas, mas simplesmente para mostrar que não existe nenhuma relação real ou paralelo entre a ordem de Gênesis a respeito de matar e depois comer o sangue do animal morto, e o uso de sangue numa transfusão. O paralelo simplesmente não existe.

Em dezembro de 1981, um homem que estudava com as Testemunhas de Jeová escreveu à Sociedade Torre de Vigia, expressando dificuldade em harmonizar a norma sobre as transfusões de sangue com os textos citados em apoio. Seus comentários sobre os textos revelam conclusões similares às que acabamos de apresentar:

 

Assim, estas passagens citadas acima parecem indicar que as proibições de comer sangue na Bíblia, referem-se apenas à situação em que o homem mata a vítima e depois usa o sangue sem devolvê-lo a Deus, que é o único que tem o direito de tirar uma vida.

Impressionei-me especialmente, porém, com esta declaração feita quase no final da carta:

 

Outro ponto que me preocupa com relação a este mesmo assunto é que as Testemunhas de Jeová dizem que Deus proíbe comer o sangue porque este simboliza a vida, que é de grande valor aos olhos de Deus, e porque ele quer incutir no homem o valor da vida através da proibição de comer sangue. E isto me parece muito razoável. Contudo, não consigo entender como o símbolo possa ser de maior valor do que a realidade que ele simboliza.

É certo que na maioria dos casos as transfusões de sangue são de pouca utilidade ou até prejudiciais, no entanto, num percentual muito pequeno dos casos, o sangue é o único meio que permite sustentar a vida até que se possa fazer outro tratamento, como por exemplo, grave hemorragia interna que não pode ser imediatamente estancada. Parece-me que neste tipo de situação, deixar uma pessoa morrer a fim de manter o símbolo da vida é em si uma contradição e também atribuir mais importância ao símbolo do que à realidade que ele simboliza

... Eu creio tão firmemente quanto as Testemunhas de Jeová que o verdadeiro cristão deve estar preparado para dar a vida pela sua fé em Deus, se isso for exigido. Mas dar a própria vida quando Deus realmente não requer ou deseja, não parece ter qualquer valor real.[9]

Finalmente, usar leis que ordenam o derramamento do sangue como base para condenar sua armazenagem é ignorar o propósito declarado dessas leis. Segundo o contexto, ordenou-se aos israelitas que derramassem no solo o sangue dos animais que matavam para garantir que o sangue não seria comido, não para garantir que não seria guardado. A armazenagem nem estava em discussão. Empregar tais leis desse modo não só é ilógico quanto é pura manipulação da evidência, forçando-as a significar algo que não é declarado ou mesmo sugerido.

Como os cristãos não estão sob um código de leis, mas sob a “lei régia do amor” e a “lei da fé”, estes pontos merecem certamente séria consideração e meditação.[10] Mostra verdadeiro apreço pelo valor da vida permitir que normas arbitrárias ditem como se deve proceder em situações cruciais? Demonstra amor a Deus e ao próximo fazer isto sem apoio de declarações claras na Palavra de Deus?

Sem dúvida, o principal texto bíblico usado na argumentação da Torre de Vigia é o de Atos 15:28, 29. Estes versículos trazem a decisão de um concílio em Jerusalém e incluem as palavras: “Persisti em abster-vos de coisas sacrificadas a ídolos, e de sangue, e de coisas estranguladas, e de fornicação.” A evidência bíblica de que isto não foi dito como uma forma de declaração com efeito obrigatório legal será considerada mais adiante neste capítulo. Este assunto é vital visto que é a base principal para o argumento da Sociedade de que as ordenanças da Lei Mosaica são transferíveis para o cristianismo. Embora tratemos deste ponto mais adiante, podemos logo dizer que a exortação para se “abster do sangue” refere-se claramente a comer sangue. A Sentinela de 1º de dezembro de 1978 (página 23), de fato, cita o professor Eduard Meyer dizendo que o significado de “sangue” neste texto é “tomar sangue que  era  proibido  pela lei  (Gên. 9:4) imposta a Noé, e, assim, também à humanidade como um todo.” Esse “tomar” era por meio de comer.[11]

Uma questão vital, pois, é se pode ser demonstrado que transfundir sangue é o mesmo que “comer” sangue, como pretende a organização Torre de Vigia. Não há, na realidade, base sólida para essa pretensão. Há, é claro, métodos clínicos de “alimentação intravenosa” na qual líquidos especialmente preparados contendo nutrientes, como a glicose, são introduzidos nas veias e fornecem nutrição. Contudo, como sabem as autoridades médicas e como a Sociedade Torre de Vigia às vezes admitiu, uma transfusão de sangue não é alimentação intravenosa; é de fato um transplante (de um tecido fluido), e não infusão de um nutriente.[12] No transplante de rim, o rim não é comido como alimento pelo novo corpo em que é introduzido. Continua a ser um rim com a mesma forma e função. Ocorre o mesmo com o sangue. Não é comido como alimento quando “transplantado” para outro corpo. Continua a ser o mesmo tecido fluido, com a mesma forma e função. As células do corpo não podem utilizar esse sangue transplantado como alimento. Para fazê-lo, o sangue teria primeiro de passar pelo sistema digestivo, ser decomposto e preparado de modo que as células do corpo pudessem absorvê-lo ― assim, apenas sendo real e literalmente comido é que ele poderia servir de alimento.[13]

Quando os profissionais médicos acham necessária uma transfusão de sangue não é porque o paciente está subnutrido. Na maioria dos casos é porque o paciente sente falta de oxigênio, não de nutrientes, e isto se deve à falta de portadores de suprimento adequado de oxigênio, a saber, os glóbulos vermelhos do sangue, que levam oxigênio. Em outros casos, administra-se sangue devido à falta de outros fatores, como os agentes coagulantes (como as plaquetas), imunoglobulina contendo anticorpos ou outros elementos, mas, novamente, este não é um meio de prover “nutrição”.

No esforço de contornar a evidência de que transfundir sangue não é o mesmo que comer, nem tem como objetivo “nutrir” o corpo, a Torre de Vigia tenta muitas vezes ampliar arbitrariamente o assunto pondo juntos, ou até substituindo, o termo “nutrir” pela expressão “sustentar a vida”.[14] Esta tática de desvio só serve para confundir a questão. Nutrir o corpo por comer, e sustentar a vida, não são coisas idênticas. Comer é apenas um dos meios de sustentar a vida. Sustentamos a vida de muitos outros modos, igualmente vitais, como respirar, beber água ou outros líquidos, manter o calor do corpo numa temperatura adequada, e dormir ou descansar. Quando se referem ao sangue, as próprias Escrituras não tratam do aspecto amplo de “sustentar a vida”, mas do ato específico de comer sangue, e referem-se claramente a comer o sangue de animais que são mortos. Quando um israelita comia carne que continha sangue, ele não dependia desse sangue para “sustentar” sua vida — a carne sozinha faria isso tão bem sem o sangue ou com ele. Se a vida dele era ou não “sustentada” por comer o sangue simplesmente não vinha ao caso. O ato de comer sangue era proibido, e a motivação ou as conseqüências finais por comê-lo não foram mencionadas nas leis do sangue.

A confusão criada no assunto pela introdução injustificada do conceito de “sustentar a vida”, permite à organização Torre de Vigia impor a seus membros a idéia de que a pessoa que aceitar uma transfusão de sangue mostra desprezo pelo resgate vivificante realizado pelo poder salvador do sangue de Cristo, derramado em sacrifício. A duplicidade desta linha de raciocínio é vista no fato de que as frações do sangue que a organização Torre de Vigia permite que seus membros recebam, são geralmente administradas exatamente para salvar ou “sustentar” a vida da pessoa, como no caso do Fator VIII, administrado aos hemofílicos, ou como no caso da imunoglobulina, injetada como proteção contra certas doenças perigosas ou para evitar a morte de crianças por incompatibilidade de Rh.[15] É injusto e desamoroso condenar a motivação dos que buscam preservar sua vida ou a vida de entes queridos por não se apegarem a certas regras e proibições originadas de uma organização religiosa, fazendo isto por atribuir sua motivação à negação da fé, quando simplesmente não há base bíblica válida, ou qualquer outra, para fazê-lo. Tenta-se sobrecarregá-los com um sentimento de culpa que é imposto por padrões humanos, e não padrões divinos.

‘Abstende-vos de sangue’

A carta enviada pelos apóstolos e anciãos de Jerusalém, registrada em Atos capítulo 15, usa o termo “abster-se” em relação a coisas sacrificadas a ídolos, sangue, coisas estranguladas e fornicação.[16] O termo grego que eles usaram (apékhomai) tem o significado básico de “afastar-se de”. As publicações da Torre de Vigia argumentam que, em relação ao sangue, ele tem um sentido total, abrangente. Assim, a publicação Poderá Viver Para Sempre no Paraíso na Terra, página 216, diz: “‘Abster-se do sangue’ significa definitivamente não introduzi-lo em seu corpo.” De modo similar, A Sentinela de 1º de maio de 1988, página 17, diz: “Andar nas pisadas de Jesus significaria não introduzir sangue no corpo, seja oralmente, seja de outro modo.” Mas será que este termo, como é usado nas Escrituras, tem realmente o sentido absoluto indicado nestas publicações? Ou pode, em vez disso, ter sentido relativo, relacionado com uma aplicação específica e limitada? 

Que pode ser aplicado, não num sentido total, abrangente, mas de modo limitado, específico, pode-se ver no seu uso em textos como 1 Timóteo 4:3. Ali o apóstolo Paulo avisa que alguns professos cristãos introduziriam ensinos de natureza perniciosa, “proibindo o casar-se, mandando abster-se de alimentos que Deus criou para serem tomados com agradecimentos”. Não queria dizer, é claro, que estas pessoas ordenariam a outros que se abstivessem totalmente, sob qualquer forma, de todos os alimentos criados por Deus. Isso significaria jejum total e levaria à morte. Ele se referia obviamente à proibição de alimentos específicos, evidentemente os proibidos pela Lei Mosaica. 

De modo similar, em 1 Pedro 2:11 o apóstolo admoesta:

Amados, exorto-vos como a forasteiros e residentes temporários a que vos abstenhais dos desejos carnais, que são os que travam um combate contra a alma.

Se tomássemos esta expressão literalmente, em sentido absoluto, significaria que não podemos satisfazer nenhum desejo da carne. Certamente não é esse o significado das palavras do apóstolo. Temos muitos “desejos carnais”, incluindo o desejo de comer, de respirar, de dormir, de recreação e muitos outros desejos, que são perfeitamente apropriados e bons. Portanto, “abster-se de desejos carnais” aplicava-se apenas no contexto do que o apóstolo escreveu, referindo-se, não a todos os desejos carnais, mas apenas a desejos prejudiciais, pecaminosos, que de fato “travam um combate contra a alma”.

Portanto, a questão é: Em que contexto Tiago e o concílio apostólico usaram a expressão “abster-se” de sangue? O próprio concílio tratava especificamente da tentativa de alguns de exigir que os cristãos gentios fossem, não só circuncidados, mas também “observassem a lei de Moisés”.[17] Era esse o assunto a que o apóstolo Pedro se referia, a observância da Lei Mosaica, que ele descreveu como “jugo” pesado.[18] Quando Tiago falou perante o concílio e recomendou que os cristãos gentios fossem aconselhados a abster-se de certas coisas ― coisas poluídas por ídolos, fornicação, coisas estranguladas e sangue ― ele declarou em seguida: 

Pois, desde os tempos antigos, Moisés tem tido em cidade após cidade os que o pregam, porque ele está sendo lido em voz alta nas sinagogas, cada sábado.[19]

Sua recomendação, portanto, evidentemente levou em conta o que as pessoas ouviam quando ‘Moisés era lido’ nas sinagogas. Tiago sabia que nos tempos antigos havia gentios, “pessoas das nações” que moravam na terra de Israel, residindo no meio da comunidade judaica. Que requisitos lhes impunha a Lei Mosaica? Não exigia que fossem circuncidados, mas exigia que se abstivessem de certas práticas que são descritas no livro de Levítico, capítulos 17 e 18. Essa lei especificava que, não só os israelitas, mas também os “residentes forasteiros” entre eles tinham de abster-se de participar em sacrifícios idólatras (Levítico 17:7-9), de comer sangue, inclusive o de animais mortos não sangrados (Levítico 17:10-16) e de práticas classificadas como sexualmente imorais (inclusive incesto e práticas homossexuais). — Levítico 18:6-26.

Embora a própria terra de Israel estivesse então sob controle gentio, com grande número de judeus vivendo fora dela, em vários países (estes eram chamados de “Diáspora”, que significa os “dispersos”). Tiago sabia que em muitas cidades por todo o Império Romano a comunidade judaica era como um microcosmo que refletia a situação da Palestina dos tempos antigos, na qual era muito comum os gentios assistirem às reuniões dos judeus na sinagoga, misturando-se assim com eles.[20]

Os próprios cristãos primitivos, tanto judeus como gentios, continuaram a freqüentar estas reuniões nas sinagogas, e até sabemos que Paulo e outros fizeram ali muito de sua pregação e ensino.[21] A referência de Tiago à leitura de Moisés nas sinagogas numa cidade após outra, certamente dá motivos para crer que, ao enumerar as coisas que mencionara imediatamente antes, ele tinha em mente as abstinências que Moisés estabelecera para os gentios que pertenciam à comunidade judaica nos tempos antigos. Como vimos, Tiago alistou não só as mesmíssimas coisas que estão no livro de Levítico, mas até na mesmíssima ordem: abstenção de sacrifícios idólatras, sangue, coisas estranguladas (não sangradas, portanto) e imoralidade sexual. Ele recomendou a observância dessas mesmas coisas por parte dos crentes gentios e a razão evidente para esta abstenção era a situação então prevalecente, a presença de judeus e gentios nas reuniões cristãs e a necessidade de manter paz e harmonia nessa situação. Quando os cristãos gentios foram instados a ‘abster-se de sangue’, isto devia ser entendido, claramente, não num sentido total e abrangente, mas no sentido específico de refrear-se de comer sangue, algo abominável para os judeus. Levar a questão além disso e tentar fazer do sangue em si uma espécie de “tabu”, é tirá-la do seu contexto bíblico e histórico e impor-lhe um significado que de fato não existe.[22]

É significativo que Tiago não incluiu coisas como assassinato ou roubo entre as ações de que se deviam abster. Essas coisas já eram condenadas tanto pelos gentios em geral como pelos judeus. Mas os gentios toleravam a idolatria, toleravam comer sangue e comer animais não sangrados e toleravam a imoralidade sexual, tendo até “prostitutas de templo” em locais de adoração. Portanto, as abstenções recomendadas visavam os  costumes  gentios que eram mais propensos a ofender seriamente os judeus e resultar em atritos e perturbações.[23] A Lei Mosaica não exigira a circuncisão dos residentes forasteiros como condição para viver em paz em Israel, nem Tiago exigiu isto.

A carta que resultou da recomendação de Tiago foi dirigida especificamente aos cristãos gentios, pessoas “das nações”, em Antioquia, Síria e Cilícia (regiões vizinhas ao norte de Israel) e, como vimos, tratava do assunto específico da tentativa de exigir que os crentes gentios “observassem a lei de Moisés”.[24] A carta tratava das áreas de conduta mais propensas a criar dificuldades entre os crentes judeus e gentios. Como mostraremos adiante, não há nada que indique que a carta pretendia ser vista como “lei”, como se as quatro abstenções formassem um “Quadrálogo”, em substituição ao “Decálogo” dos Dez Mandamentos da Lei Mosaica. Era um conselho específico para uma circunstância específica, prevalecente naquele período da história.

Regras preferenciais

Enquanto estive no Corpo Governante, não pude deixar de notar que havia certa medida de aplicação discriminatória da norma da organização em favor dos que ocupam certas posições profissionais. Os professores podem ensinar a evolução como matéria, fazendo-o do “ponto de vista puramente objetivo” e de preferência explicando antes à turma sua opinião divergente.[25] Como já vimos, os advogados são autorizados a servir em centros de eleições políticas. O mais incrível de tudo, porém, talvez seja que os médicos não só podem pertencer a organizações médicas que aprovam práticas como transfusões de sangue e abortos, como podem também, eles próprios, administrar uma transfusão de sangue a um paciente que não é Testemunha e que a peça.[26] O raciocínio por trás disto baseia-se na Lei Mosaica que permitia aos israelitas vender a estrangeiros a carne de animais que não tivessem sido sangrados![27] Todavia, o sangue daqueles animais ainda estava em seus corpos, onde sempre estivera; não fora extraído nem armazenado, processo que a organização condena como falta de respeito pela lei de Deus.[28] Todo o forte apelo para mostrar “profundo respeito à santidade do sangue”, todas as advertências sobre a culpa de sangue relacionada a qualquer mau uso do sangue, toda a argumentação condenando qualquer armazenagem de sangue como desrespeito  às  leis  de Deus, subitamente perdem a força quando estão envolvidos esses médicos Testemunhas.[29]

Com toda a sinceridade, e sem querer ofender ninguém, quando revejo as várias ordenanças, regras, normas e detalhes técnicos da organização que foram considerados, só posso pensar que se um indivíduo usasse nos assuntos mais “corriqueiros” da vida diária o tipo de raciocínio refletido nessas posições e regras, as pessoas se veriam obrigadas a questionar a sanidade mental dessa pessoa.

Por que as pessoas aceitam isto?

No seu tempo, o apóstolo Paulo falou dos que queriam “estar debaixo de lei.” (Gálatas 4:21) Muitos hoje ainda querem. Ao contrário dos judaizantes dos dias de Paulo, os homens podem não advogar a submissão à Lei Mosaica, mas por meio de uma abordagem legalista do cristianismo convertem-no num código de leis, num conjunto de regras. Criam um tipo de escravidão a regras e normas tradicionais, e são estas que governam o relacionamento das pessoas com Deus.

Mas por que se submetem outros a tais imposições? O que faz com que as pessoas abram mão da preciosa liberdade de exercer seu próprio julgamento moral, inclusive nas áreas mais íntimas das suas vidas? O que as leva a submeter-se às interpretações e regras de homens imperfeitos, mesmo com o risco de perder o emprego, ser presas, colocar seus casamentos sob grande tensão e até arriscar a própria vida ou a de seus entes queridos?

Há muitos fatores. Podem ser as pressões sociais e familiares, sendo a conformidade o meio de evitar discordâncias e até conflitos. Pode ser o enorme e paralisante temor da rejeição divina e da eventual destruição se a pessoa se aventurar fora da “arca” organizacional. Mas há outra razão que é talvez mais básica, e que está muitas vezes na própria raiz do problema.

A maioria das pessoas gosta que as coisas sejam pretas ou brancas, que sejam nitidamente catalogadas para elas como certas ou erradas. Tomar decisões com base na própria consciência pode ser difícil e às vezes torturante. Muitos preferem não fazer esse esforço, preferem simplesmente deixar que alguém lhes diga o que fazer, atue como sua consciência. Foi isto que permitiu o desenvolvimento do controle rabínico e do corpo de tradições rabínicas nos dias de Jesus. Em vez de decidir algo com base na Palavra de Deus e na consciência pessoal, tratava-se de “perguntar ao Rabi”. Entre as Testemunhas de Jeová isto inegavelmente transformou-se em “Pergunte à organização” ou simplesmente “Pergunte à Sociedade”.

Outra razão é a sutileza com que tais raciocínios e interpretações legais são apresentados e impostos. A ênfase religiosa à lei, o legalismo, tem sido consistentemente marcado pelo uso de tecnicismos e sofismas, raciocínios que não são apenas sutis, mas também plausíveis, às vezes até engenhosos ― e, no entanto, falsos. Desmontar tais raciocínios e reconhecê-los como o que realmente são exige esforço, esforço que muitos não estão dispostos a fazer e que outros simplesmente parecem incapazes de realizar. 

Considere só dois exemplos de antigas fontes rabínicas. Nos tempos antigos, os “instrutores da lei” tentaram tornar mais explícita a ordem de Êxodo 16:29 (“Ninguém saia do seu lugar no sétimo dia”). Determinaram que, no sábado, um homem só poderia caminhar certa distância (pouco mais de 1 quilômetro) fora do limite externo de sua cidade ou aldeia. Chamava-se “jornada de um sábado” (expressão em uso no tempo de Jesus; veja Atos 1:12). Havia, porém, uma maneira de um homem fazer uma viagem mais longa que essa e, do ponto de vista rabínico, ainda estar em condição “legal”. Como?

Ele podia, com efeito, “criar” um segundo domicílio em alguma casa ou lugar fora da sua localidade (mas ainda dentro do limite de cerca de 1 quilômetro) simplesmente por depositar nesse local, no dia anterior ao sábado, mantimentos para no mínimo duas refeições. Depois, no sábado, ele podia caminhar para esse segundo “domicílio” e em seguida deixá-lo e estender a sua viagem por mais 1 quilômetro.

A declaração de Jeremias 17:22, que proíbe tirar qualquer “carga dos vossos lares no dia de sábado”, foi igualmente ampliada. Os instrutores da lei raciocinaram que não era proibido carregar coisas de uma parte para outra de uma casa, mesmo sendo a casa ocupada por mais de uma família. Assim, resolveram que as pessoas que morassem em casas dentro de certo setor (como as que vivem em casas construídas ao redor de um pátio comum), podiam construir uma passagem “legal” para todo o setor erguendo umbrais na entrada da rua para o setor, talvez com uma trave por cima como verga da porta. Agora, todo o setor era visto como se fosse um só domicílio e podia-se carregar coisas duma casa para outra dentro da área, sem violar a lei.[30]

Compare agora esse método de raciocínio e o uso de tecnicismos com o método que a Sociedade Torre de Vigia usa quando aplica suas regras relativas a certos aspectos da prática médica. A Sentinela de 1° de março de 1989, na seção “Perguntas dos Leitores”, considera o método de retirar sangue do paciente algum tempo antes da operação e armazená-lo para reutilização durante a operação ou depois. Daí, diz categoricamente que as Testemunhas de Jeová “NÃO aceitam este procedimento”. A razão? O sangue “não é mais parte da pessoa”. Cita o texto de Deuteronômio 12:24, que diz que o sangue de um animal que foi morto tem de ser derramado na terra. Por algum raciocínio, esta lei a respeito de matar animais é vista como se apresentasse uma situação paralela ao caso da armazenagem do sangue de uma pessoa viva, como acabamos de descrever.

Mas, depois, o artigo considera outro método, no qual, durante a operação, o sangue do paciente é desviado para uma bomba cárdio-pulmonar ou máquina de hemodiálise (rim artificial) para ser oxigenado ou filtrado antes de retornar ao corpo do paciente. O artigo informa os leitores que, ao contrário do outro método, este pode ser encarado como aceitável pelo cristão. Por quê? Porque o cristão pode vê-lo “como uma extensão de seu sistema circulatório de tal modo que o sangue possa passar através de um órgão artificial”, e portanto pode considerar “o sangue nesse circuito fechado como ainda dele e não necessitando ser ‘derramado’”.

Que diferença existe entre esta “extensão” do sistema circulatório e o legalismo rabínico que permitia a “extensão” da jornada de um dia de sábado por certa distância por meio do tecnicismo de um segundo domicílio artificial? Ou até que ponto é esta classificação do sangue como estando tecnicamente num “circuito fechado” diferente do antigo legalismo de fazer um “circuito fechado” em certo número de casas através de uma passagem artificial? O mesmo tipo de raciocínio casuísta e uso legalista de tecnicismos é utilizado em ambos os casos, antigo e moderno.

No seu próprio íntimo muitas Testemunhas talvez achem que o primeiro método, aquele em que a pessoa armazena seu próprio sangue, não é na realidade mais contrário às Escrituras do que o segundo método, o de fazer o sangue circular através de uma máquina coração-pulmão artificial. No entanto, não estão livres para seguir sua própria consciência. A vida duma pessoa pode estar em jogo, mas os raciocínios interpretativos e os tecnicismos da Torre de Vigia têm de ser observados, pois são parte do “grande conjunto de lei Teocrática”. Deixar de obedecer seria correr o risco da desassociação.

A fraqueza da lei e o poder do amor

A lei amiúde produz uma conformidade exterior que disfarça o que as pessoas são no íntimo. Nos dias de Jesus, ela permitia aos líderes religiosos, por escrupulosamente ‘viverem segundo as regras’, “por fora parecerem justos aos homens, mas por dentro [estarem] cheios de hipocrisia e de iniqüidade”.[31] Funciona do mesmo modo em nossa época. 

A lei, portanto, é menos eficaz nas áreas que são mais intimamente relacionadas com o coração. A lei pode identificar e punir um ladrão. Mas não pode fazer o mesmo com o homem que obedece à lei, mas que também é ganancioso, e cuja ganância e mesquinhez fazem os outros sofrer. A lei pode condenar e até executar o assassino. Mas pouco pode fazer para processar o homem que odeia, que tem ciúme, inveja ou rancor e que procura a vingança, especialmente se ele tiver cuidado em fazer isso por meios “legítimos”. Conheci homens dessa espécie, mesmo em postos elevados.

Podemos ver um contraste notável entre a atitude legalista do controle por meio de “normas”, regras e regulamentos, e a abordagem adotada pelo apóstolo Paulo quando admoestou contra a prática do mal. Seu apelo deu ênfase primária, não à lei, mas ao amor. Assim, na sua carta aos Romanos, ele escreve:

 

A ninguém fiqueis devendo coisa alguma, exceto que vos ameis uns aos outros; pois, quem ama o seu próximo tem cumprido a lei. Pois o código da lei: “Não deves cometer adultério, não deves assassinar, não deves furtar, não deves cobiçar”, e qualquer outro mandamento que haja, está englobado nesta palavra, a saber: “Tens de amar o teu próximo como a ti mesmo.” O amor não obra o mal para com o próximo; portanto, o amor é o cumprimento da lei.[32]

Paulo exemplificou esta abordagem ao lidar com problemas. Um exemplo notável é o da questão de comer alimento oferecido a ídolos (uma das quatro coisas alistadas na carta registrada em Atos, capítulo 15). Em Corinto, alguns cristãos até estavam indo a templos de ídolos onde essa carne sacrificada era depois cozida e servida (por um preço) nos recintos do templo pagão. Para um cristão, comer ali era, aos olhos de muitos de seus condiscípulos ― especialmente os de origem judaica ― indubitavelmente comparável ao modo como as Testemunhas de Jeová veriam hoje um de seus membros participar de uma ceia na igreja, consistindo em alimento previamente abençoado pelos padres e servido na catedral católica romana de São Patrício em Nova York, com o dinheiro pago pela refeição revertendo para a igreja. Embora o ponto de vista possa ser comparável, a questão em si era muito mais séria. Como, então, tratou o apóstolo do assunto? 

Ameaçou ele os que comiam esta carne, advertindo-os dos procedimentos judicativos e da provável desassociação? Apelou para a lei, um conjunto de regras, como meio de restringir esta prática? Ao contrário, ele mostrou que a ação em si mesma não era condenável. Mas poderia ter conseqüências indesejáveis, e até trágicas. Aconselhando com base, não na lei, mas no amor, ele escreveu: 

 

Na verdade, como se diz, “todos nós temos conhecimento”. Porém esse tal conhecimento enche a pessoa de orgulho; mas o amor edifica. Se alguém pensa que sabe alguma coisa, de fato ainda não sabe tanto quanto devia saber. Mas quem ama Deus é conhecido por ele.

Portanto, a respeito da comida oferecida aos ídolos, nós sabemos que um ídolo representa alguma coisa que realmente não existe. Sabemos que há somente um Deus... Mas nem todos conhecem essa verdade. Há pessoas tão acostumadas com os ídolos, que até agora, quando comem, ainda pensam que aquela comida pertence aos ídolos. A consciência delas é fraca, e por isso se sentem contaminadas pela comida... Portanto, tenham cuidado para que a liberdade de vocês não faça que os fracos na fé caiam em pecado. Se alguém que tem a consciência fraca neste assunto vir você, que tem “conhecimento”, comendo no templo de um ídolo, será que ele não vai querer também comer comida oferecida aos ídolos? Assim este cristão fraco, este seu irmão por quem Cristo morreu, vai se perder por causa do “conhecimento” que você tem! Desse modo, pecando [isto é, pelo mau uso da liberdade cristã] contra o seu irmão e ferindo a consciência dele, você estará pecando contra Cristo.[33]

Se alguém comia ou não comia, portanto, não dependeria da lei e do receio de ser considerado culpado de violar uma lei. Dependeria do amor e do receio de não prejudicar um irmão “por quem Cristo morreu” ― realmente uma atitude superior que faria o cristão revelar o que tinha no coração, e não simplesmente a submissão a uma regra.

O mesmo conselho demonstra que o apóstolo não encarava a decisão dos apóstolos e outros em Jerusalém (registrada no capítulo 15 de Atos) como uma “lei”. Se fosse uma lei, Paulo nunca teria escrito como fez aos cristãos em Corinto, dizendo francamente que comer ou não comer alimento oferecido a ídolos era questão de consciência, e o fator determinante era se comer faria outros tropeçar ou não. Encarar a carta de Jerusalém como lei e, com base nisso, pretender que sua menção ao sangue indica que os cristãos permanecem sob as ordenanças da Lei Mosaica a respeito do sangue, é ignorar claramente as declarações do apóstolo Paulo, na questão dos “alimentos oferecidos a ídolos”, mostrando que tal raciocínio não é válido. Se nenhum tropeço era provável, ninguém então podia corretamente julgar Paulo ou algum outro cristão por comer tal alimento. Como Paulo declara:

 

Pois, por que haveria de ser julgada a minha liberdade pela consciência de outra pessoa? Se estou participando com agradecimentos, por que se há de falar de mim de modo ultrajante por causa daquilo pelo qual dou graças?[34]

Com respeito à imoralidade sexual (ou “fornicação”, em algumas traduções), também incluída na carta de Jerusalém, o apóstolo não apresenta isto como algo que pode ser certo ou errado, dependendo de causar tropeço ou não. Ele evidentemente a encarava como não tendo nenhuma justificativa. No entanto, também não se apresenta nenhuma regra legal como necessária para que o cristão reconheça a necessidade de evitar a imoralidade sexual. Conforme Paulo observa em 1 Coríntios 6:13-19, se a pessoa é guiada pela lei do amor, achará isso inadmissível, reconhecendo a imoralidade sexual como mau uso do seu corpo, que está em união com Cristo. (Veja também 1 Tessalonicenses 4:3-6.)

A liberdade cristã nunca deve tornar-nos insensíveis à consciência e aos escrúpulos dos outros. Ao mesmo tempo, ninguém tem o direito de impor sua consciência aos outros, colocando desta forma limites à liberdade que estes usufruem em Cristo. E nenhum grupo ou corpo seleto de homens, atribuindo a si mesmos o papel de executores da autoridade apostólica, tem o direito de impor sua consciência coletiva aos outros, emitindo decretos com base nisso.

Vimos no capítulo anterior a distinção entre lei e preceito, uma que deriva sua força pela imposição da autoridade, o outro que transmite princípios pelo ensino. Jesus ensinou regularmente por parábolas, histórias que não continham leis, mas traziam vigorosamente à atenção preceitos, lições morais vitais. A parábola do filho pródigo não estabelece a lei de que se deve receber de volta os filhos desobedientes, dar-lhes um banquete e assim por diante. Mas enfatiza o espírito amoroso, a atitude generosa, misericordiosa. Encontramos nas Escrituras uma combinação de métodos — há ordens firmes, é verdade, mas há também relatos apresentando modos de vida aprovados (viver em amor, manter relações pacíficas com outros); há respostas para questões muito contextuais. Paulo, por exemplo, responde a várias delas, mas claramente não faz isso estabelecendo leis, e sim dando sólido conselho espiritual, destinado à questão específica.

Quão genuína é a unidade conseguida?

É verdade que por estabelecer um controle legal sobre outros pode-se conseguir certa unidade e ordem. Mas quão genuína é? Não são, de fato, unidade e ordem baseadas na uniformidade e na conformidade? Por outro lado, será que a recusa em permitir que homens exerçam, através da interpretação legalista, controle sobre a vida pessoal dos outros, vai contra a verdadeira unidade e coesão? Significa que cada um toma seu próprio rumo, à sua vontade, auto-suficiente e auto-satisfeito? Não precisa nem deve ser assim ― se a pessoa aceitar genuinamente a liderança Daquele que dá tal liberdade.

Assim como não se pode amar o Deus invisível e ao mesmo tempo odiar o próximo, também não se pode estar unido ao Filho invisível de Deus e em desacordo ou isolado de todos os outros que estão igualmente unidos e que se submetem humildemente à mesma liderança.[35] Segundo as Escrituras, é o amor, e não ser membro de uma organização, que é “o perfeito vínculo de união,” pois o amor é longânime, benigno, não é ciumento, não se gaba, não se enfuna, nem procura os próprios interesses, mas procura o bem dos outros.[36]

O amor não obriga as pessoas a ter um relacionamento coeso; ele cordialmente atrai umas às outras. Qualquer pretensa unidade cristã firmada em outra base é fictícia, não genuína, e só pode ser mantida por meios não cristãos.

A bênção da liberdade cristã

Um conjunto de regras incrivelmente complexo vigora hoje entre as Testemunhas de Jeová e toma delas o uso da consciência pessoal numa área muito ampla da vida e da conduta, sujeitando-as a um órgão legislador eclesiástico e supremo tribunal composto de alguns homens falíveis.[37] Como ex-membro desse órgão legislador e tribunal, estou convicto de que a raiz de todo o problema está em não se reconhecer a verdade de que, como cristãos, não estamos mais debaixo de lei, mas da benignidade imerecida de Deus através de Cristo. Através do Filho de Deus, podemos alegrar-nos de estar livres da lei, regozijar-nos na justiça que resulta, não de guardar a lei, mas da fé e do amor. 

Deixar de apreciar esta provisão divina, duvidar de que é realmente possível uma Pessoa invisível exercer liderança e direção efetivas sobre seus seguidores sem uma estrutura de autoridade altamente organizada, visível, servindo de tribunal religioso, e a relutância em crer que as pessoas podem se proteger contra a má conduta sem estar rodeadas por uma “cerca” de leis, regras e decretos ― é isto que faz com que muitas pessoas, talvez a maioria, se choquem com a idéia de não estar debaixo de lei, e é por isso que rejeitam essa idéia, não só como impraticável, mas também perigosa, perniciosa, que conduz à licenciosidade. Isso faz com que sejam facilmente influenciadas e convencidas pelos argumentos dos que querem estabelecer — usando os termos da Torre de Vigia ― um “arranjo legal de controle”, que é “imposto” humanamente por um sistema judiciário religioso.

É pelo fato de o Espírito santo de Deus, concedido através de Jesus Cristo, ter força superior à da lei, através do seu poder que motiva o cristão a amar a Deus e ao próximo, que o apóstolo pôde dizer: 

 

Mas, se vocês são guiados pelo Espírito, não estão debaixo da Lei... o fruto do Espírito é amor, alegria, paz, paciência, amabilidade, bondade, fidelidade, mansidão e domínio próprio. Contra essas coisas não há lei.[38]

Esta é a grandeza da liberdade cristã, saber que se pode usufruir o livre e espontâneo exercício dessas qualidades divinas sem que uma autoridade religiosa tenha o direito de interferir e anular expressões de amor, bondade, brandura ou qualquer outra dessas qualidades. Pode-se fazer isto livre de ansiedade, sabendo que “não há lei” nem conjunto de regras que nos refreie de fazer aquilo de que estamos convencidos, nos corações, que é a coisa certa, boa, amável e amorosa a fazer, aprovada por Deus, mesmo que desaprovada por certos homens.

Seguramente, então, não estarmos debaixo de lei, mas debaixo da benignidade imerecida de Deus de modo algum diminui nosso sentimento de responsabilidade como libertados por Cristo. De fato, o aumenta. Pois sabemos que nossa obrigação é: “Falai, pois, e agi como os que hão de ser julgados [não por um código de leis ou por um conjunto de padrões humanos, mas] pela Lei da liberdade, porque o julgamento será sem misericórdia para aquele que não pratica a misericórdia. A misericórdia, porém, desdenha o julgamento.”[39] Essa “lei da liberdade” é a que o discípulo Tiago acabara de mencionar na sua carta como a “lei soberana” ou “lei suprema”, a saber: “Tendes de amar o vosso próximo como a vós mesmos.”

Existe um efeito purificador, que fortalece o coração, em saber que agradarmos ao nosso Pai celestial será determinado, não por termos vivido segundo a lei, um “conjunto de regras”, mas por termos vivido segundo o amor. O Filho de Deus, nosso Cabeça e Amo, que nos concede a liberdade de não guardar a lei ― e dos que querem impor leis religiosas humanas ― deu exemplo desse amor por nós. Por isso, não precisamos concentrar-nos em memorizar nenhum conjunto complexo de regras e normas organizacionais, nem sequer pensar em termos de lei. Em vez disso, concentramos a atenção no Filho de Deus e no que aprendemos dele através da Palavra de Deus e procuramos fielmente seguir na nossa própria vida o exemplo da vida dele.


NOTAS DE RODAPÉ:


[1] Romanos 14:22, 23, BJ.

[2] A posição da organização sobre isto é exposta com muitos detalhes técnicos e raciocínios na Sentinela de 1° de março de 1989, páginas 30 e 31.

[3] Veja a Despertai! de 22 de dezembro de 1982, página 22.

[4] Elisabeth Rosenthal, no artigo intitulado “Cegados pela Luz”, revista Discover, agosto de 1988, páginas 28-30.

[5] Em 1970, minha esposa quase morreu de uma hemorragia, quando sua contagem de plaquetas caiu do padrão normal de 200.000 a 400.000 por milímetro cúbico para cerca de 15.000 por milímetro cúbico. Após dias de hemorragia grave, ela foi internada num hospital de Brooklyn e tanto ela como eu deixamos clara nossa rejeição a plaquetas ou quaisquer outros produtos derivados do sangue (incluindo os que depois foram considerados “permitidos” pela organização.) Felizmente, duas semanas depois e tendo continuado com a terapia de prednisona, ela recuperou basicamente a saúde. O que digo neste livro, portanto, não é motivado por relutância pessoal em suportar a perda de um ente querido se eu acreditasse que a obediência à vontade de Deus exigia isso.

[6] Romanos 6:14; 10:4; Hebreus 8:6, 13.

[7] Contrário às afirmações da Torre de Vigia, o sangue em si, nas Escrituras, representa consistentemente, não a vida, mas a morte, equivalendo figurativamente à vida perdida ou sacrificada. Confira Gênesis 4:10, 11; 37:26; 42:22; Êxodo 12:5-7 (compare este texto com 1 Pedro 1:18, 19); Êxodo 24:5-8; Mateus 23:35; 26:28; 27:24, 25, e assim por diante. Quando é parte de uma criatura vivente, pode-se dizer, então, que o sangue representa a vida ou uma “alma” vivente.

[8] Levítico 17:13, 14; Deuteronômio 12:15, 16, 24, 25.

[9] Conforme uma pessoa disse, dar ao sangue, como símbolo, importância maior que à própria vida é como um homem dar maior importância à sua aliança de casamento (símbolo do seu estado de casado) que a seu próprio casamento, ou à sua esposa. É como se ele, obrigado a escolher entre o sacrifício da esposa ou o sacrifício da sua aliança de casamento, optasse por salvar a aliança.

[10] Romanos 3:27; 6:14; 10:4; Gálatas 3:10, 11, 23-25; Tiago 2:8, 12.

[11] A Sentinela de 1° de fevereiro de 1959 (páginas 95, 96), declara: “Cada vez que se menciona a proibição do sangue nas Escrituras, é em relação com tomá-lo como alimento, é como nutrição que nos interessa sua proibição.” Esta ainda parece ser a posição básica e por isso a Sociedade ainda argumenta que uma transfusão de sangue é o mesmo que comer sangue, introduzi-lo no corpo como alimento.

[12] Despertai! de 22 de outubro de 1990, página 9. Na tentativa de angariar apoio médico para seu conceito de sangue transplantado ser “alimento” para o corpo, as publicações da Torre de Vigia têm sempre recorrido a citações de alguma fonte médica de séculos anteriores, como o francês Denys, do século 17. (Veja, por exemplo, A Sentinela de 15 de abril de 1985, página 13.) Não conseguem citar uma única autoridade moderna em apoio a este conceito.

[13] A Sociedade Torre de Vigia, às vezes, tem comparado a transfusão com injetar álcool nas veias. Mas o álcool é um líquido bem diferente, já está numa forma que as células do corpo podem absorver como nutriente. O álcool e o sangue são completamente diferentes neste aspecto.

[14] Veja, por exemplo, A Sentinela de 1° de março de 1989, página 30; 15 de abril de 1985, página 12.

[15] Veja, por exemplo, A Sentinela de 1° de junho de 1990, páginas 30, 31. O apóstolo Pedro declara que Cristo “sobre o madeiro, levou os nossos pecados em seu próprio corpo, a fim de que, mortos para os nossos pecados, vivêssemos para a justiça. Por suas feridas fostes curados.” (1 Pedro 2:24, BJ; compare com Isaías 53:4, 5; Atos 28:27.) Mas isto certamente não justifica dizer que o fato de uma pessoa tentar curar feridas ou outros problemas físicos recorrendo a tratamento médico é equivalente a mostrar falta de apreço pelo poder de cura de Cristo nesses aspectos espirituais vitais.

[16] Atos 15:20, 29.

[17] Atos 15:5.

[18] Atos 15:10.

[19] Atos 15:19-21.

[20] Confira Atos 13:44-48; 14:1; 17:1-5, 10-12, 15-17; 18:4.

[21] Confira Atos 18:1-4, 24-28.

[22] Aqui, uma vez mais, se atribuíssemos um sentido absoluto à expressão ‘abster-se do sangue’, encarando-a como um tipo de proibição total, significaria que não nos poderíamos submeter a nenhum tipo de análise de sangue, nem a cirurgias, a menos que fossem do tipo que não envolve sangue, e teríamos de “permanecer afastados” do sangue de outras maneiras e em todos os aspectos. O contexto não dá nenhuma indicação de que se pretendia essa proibição total, indicando em vez disso que a injunção dirigia-se especificamente à própria ação de comer sangue.

[23] Já em 15 de abril de 1909, A Sentinela reconhecia que era esta a intenção da carta, ao dizer (página 117): “As coisas aqui recomendadas eram necessárias para a preservação da boa convivência no ‘corpo’ composto por judeus e gentios com sua formação e sentimentos diferentes.”

[24] Atos 15:5, 23-29.

[25] Este assunto é tratado no Ajuda Para Responder Correspondência proposto, sob o tópico “Escolas, Educação Secular”.

[26] Veja A Sentinela de 1° de junho de 1965, páginas 330, 331; também A Sentinela de 1° de outubro de 1975, página 600, sobre fazer exames de sangue para transfusões. O Ajuda Para Responder Correspondência revisto (tal como foi proposto) diz que o médico ou enfermeira podem administrar tal transfusão se lhe for “mandado por um superior”.

[27] Deuteronômio 14:21.

[28] Deve-se notar que a mesma Sentinela de 1° de junho de 1965 também considera questão de consciência que um merceeiro ou açougueiro venda morcela (chouriço) “a pessoas do mundo”. Parece que, tendo decidido usar esta parte da Lei Mosaica para justificar a posição tolerante em relação aos profissionais médicos, o autor da matéria achou necessário incluir também este comentário sobre merceeiros e açougueiros. Mais uma vez, contudo, isto não é vender carne de animais não sangrados, e sim vender um produto fabricado por meio da coleta, da armazenagem e do processamento de sangue ― condenados em todas as outras situações pela norma da Torre de Vigia.

[29] Nos Estados Unidos, as Testemunhas que são médicos e advogados têm reuniões anuais para discutir assuntos como “confidencialidade e privilégios” em suas relações com outras Testemunhas, e tópicos similares. Duvido sinceramente que outras Testemunhas com profissões menos conceituadas pudessem fazer reuniões semelhantes sem que estas fossem encaradas desfavoravelmente ou desencorajadas pela organização.

[30] Veja Judaísmo (em inglês) Vol. II, George Foot Moore (Cambridge, Harvard University Press, 1954), páginas 31 e 32.

[31] Mateus 23:27, 28, BJ.

[32] Romanos 13:8-10, NM.

[33] 1 Coríntios 8:1-12, BLH.

[34] 1 Coríntios 10:29, 30, NM.

[35] 1 João 4:20; 1 Coríntios 12:12-26; Efésios 4:15, 16.

[36] Colossenses 3:14, 1 Coríntios 13:4-7.

[37] Numa carta de Leslie R. Long, advogado da Torre de Vigia, de 29 de março de 1987, ele se refere a uma comissão judicativa congregacional como “um tribunal eclesiástico”. Se o termo se aplica em nível congregacional, é muito mais aplicável no nível mais elevado, onde o Corpo Governante atua como um supremo “tribunal eclesiástico”.

[38] Gálatas 5:18, 22, 23, NVI.

[39] Tiago 2:12, 13, BJ.