Argumentos Favoráveis à Existência de Deus

01. O Argumento da Mudança

11. O Argumento da Verdade

02. O Argumento da Causalidade Eficiente

12. O Argumento da Origem da Ideia

03. O Argumento do Tempo e Contingência

13. O Argumento Ontológico

04. O Argumento dos Graus de Perfeição

14. O Argumento Moral

05. O Argumento do Projeto

15. O Argumento da Consciência

06. O Argumento Kalam

16. O Argumento do Desejo

07. O Argumento da Contingência

17. O Argumento da Experiência Estética

08. O Argumento do Todo Interativo

18. O Argumento da Experiência Religiosa

09. O Argumento dos Milagres

19. O Argumento do Senso Comum

10. O Argumento da Percepção

20. A Aposta de Pascal

 

INTRODUÇÃO

Encontram-se aqui argumentos de vários tipos diferentes em favor da existência de Deus. E fazemos a você, leitor, um apelo inicial. Percebemos que muitas pessoas, tanto crentes como não crentes, duvidam de que seja possível demonstrar a existência de Deus ou sequer debater sobre isso. Talvez você seja uma dessas pessoas. Talvez tenha uma opinião bem fixa de que não há como argumentar sobre isso. Entretanto, ninguém pode duvidar de que dar atenção a esses argumentos tem seu lugar num livro sobre apologética. Isso porque muitos outros acreditam que esses argumentos são plausíveis e alguns são realmente válidos.

Essas pessoas também acreditam que um argumento racional e efetivo a favor da existência de Deus é um primeiro passo importante para abrir a mente para a possibilidade da fé — para eliminar alguns dos obstáculos que impedem as pessoas de levar a sério a possibilidade da revelação divina. E nisto elas têm um apoio real.

Suponhamos que nossa melhor e mais sincera reflexão a respeito da natureza das coisas nos faça pensar no universo material como algo incriado e autossuficiente; que imaginemos que ele se formou como resultado de movimentos aleatórios, desprovidos de qualquer planejamento ou propósito. Você ficaria impressionado se lesse em um livro bem antigo que existe um Deus de amor e que os céus proclamam a glória dele? Estaria disposto a levar a sério essa mensagem? O mais provável é que você se recusaria a acreditar em qualquer ideia que fosse apresentada como uma comunicação vinda do Criador. É como alguém disse: “Não posso acreditar que somos filhos de Deus, porque não acredito que exista alguém para fazer essa adoção”.

É este horizonte finito e limitado que as provas apresentadas neste capítulo tentam expandir. Eles são tentativas de confrontar-nos com a radical insuficiência daquilo que é finito e limitado, abrindo nossa mente para um nível que vai além disso. Se esses argumentos forem bem-sucedidos nisso — e podemos afirmar por experiência que alguns realmente convencem muitas pessoas — eles poderão ser realmente de grande valia.

Talvez ache que esses argumentos não tenham valor algum para você, particularmente. Você pode ter sido abençoado com uma sensação vívida da presença de Deus; e isso é algo pelo qual deve ser profundamente grato. Entretanto, isto não significa que você não tenha de ponderar sobre esses argumentos. Muitos não foram abençoados desse modo. E as provas são destinadas a essas pessoas — ou pelo menos para algumas delas — para prover um tipo de ajuda que elas precisam. Você pode até ser solicitado a dar essa ajuda.

Além disso, embora possamos afirmar que não, qual de nós não precisa de alguma ajuda? Certamente existe um pouco de ceticismo em todos nós. Uma parte de nossa pessoa tenta acreditar que não existe nada mais além do que podemos ver e tocar; e outra parte busca uma razão, além das garantias dadas nas Escrituras, para acreditar que existe algo mais, sim. Não temos qualquer desejo de fazer declarações exageradas nessas demonstrações, nem confundir “razoabilidade” com “provas científicas”. Porém, cremos que há muitas pessoas que desejam e precisam do tipo de ajuda que essas provas dão, mais do que elas estariam dispostas a admitir de início.

Falemos algo sobre a organização dos argumentos. Nós os apresentamos em dois grupos básicos: aqueles que se baseiam em dados de fora — argumentos cosmológicos — e aqueles que se baseiam em fatores internos — argumentos psicológicos. O grupo dos argumentos cosmológicos começa com nossa versão dos famosos “cinco caminhos” de Tomás de Aquino. Estes não são os argumentos mais simples; por isso não são os mais convincentes para a maioria das pessoas. A ordem que seguimos não é do mais eficiente para o menos eficiente. O primeiro argumento, em particular, é bem abstrato e difícil.

Nem todos os argumentos são igualmente demonstráveis. Um deles (a Aposta de Pascal), não é um argumento a favor da existência de Deus, e sim a favor da fé em Deus como uma “aposta”. Outro (o Argumento Ontológico), apesar de o considerarmos fundamentalmente fraco, nós o incluímos aqui por ser bem famoso e influente, podendo ser mantido caso apareçam novas formulações para ele. Outros argumentos (como o dos Milagres, o da Experiência Religiosa e o do Senso Comum) declaram apenas fortes probabilidades, e não uma certeza que possa ser demonstrada. Nós os acrescentamos, porque compõem uma parte forte dum caso cumulativo. Acreditamos que só alguns desses argumentos, tomados individual e separadamente, demonstram a existência de um Ser que tem atributos que só Deus pode ter (não existe argumento que prove todos os atributos divinos); porém, os vinte argumentos somados, como uma corda entrelaçada, formam uma defesa bem forte. 

1. O ARGUMENTO DA MUDANÇA

O mundo material que conhecemos é um mundo de mudanças. Uma mulher pode ter chegado a 1,75 m de altura, mas ela nem sempre teve essa estatura. Uma grande árvore diante de nós cresceu a partir de uma pequena semente. Quando alguma coisa chega a um determinado estado, como por exemplo, um tamanho grande, este estado não pode produzir sua própria existência. Pois, até que algo venha a existir, esse algo não existe; e se ele não existe, não pode causar nada.

Quanto à coisa que muda, embora ela tenha o potencial de ser aquilo que se tornará, ela ainda não se tornou o que virá a ser. Ela existe agora no estado em que se encontra (por exemplo, em forma de semente), e existirá naquele estado futuro (como uma grande árvore). Mas ela ainda não se encontra naquele estado. Só tem o potencial para atingi-lo.

Agora consideremos uma questão: Para explicar a mudança, será que podemos considerar só a própria coisa que muda ou outras coisas também estão envolvidas? Obviamente, outras coisas devem estar envolvidas. Nada pode dar a si próprio o que não possui, e a coisa que muda não pode ter agora mesmo aquilo que só terá no futuro. O resultado da mudança não pode realmente existir antes da mudança. A coisa que muda só começa com o potencial para mudar, mas ela precisa receber a atuação de outras coisas fora dela para que esse potencial se tome realidade. Do contrário, ela não poderá jamais mudar.

Nada pode mudar a si mesmo. Coisas que aparentemente se movem sozinhas, tais como animais, movem-se pelo desejo e pela vontade — algo diferente de meras moléculas. E quando o animal ou o humano morre, as moléculas permanecem, mas o corpo não mais se move, porque o desejo ou a vontade não está mais presente para fazê-los se moverem.

Agora, uma questão adicional: As outras coisas fora dessa coisa que muda também estão mudando? E as que fazem estas outras coisas mudarem também estão mudando? Se for assim, todos esses elementos necessitam agora mesmo de receber uma atuação de outras coisas, senão não poderão mudar. Não importa quantos itens existam nessa série, cada um deles precisa de algo fora de si mesmo para tornar realidade seu potencial de mudança.

O universo é a soma total de todas essas coisas móveis, independentemente de quantas sejam. O universo inteiro está em processo de mudança. Porém, já vimos que essa mudança em qualquer ser exige uma força externa para torná-la realidade. Portanto, existe alguma força do lado de fora (que se soma) ao universo, algum Ser real que transcende ao universo. Essa é uma das coisas que entendemos por “Deus”.

Em poucas palavras, se não existe nada fora do universo material, então não há nada que possa causar mudança no universo. Porém, o universo está em processo de mudança. Desta forma, tem de haver algo além do universo material. Mas o universo é a soma total de toda matéria, espaço e tempo. Essas três grandezas dependem umas das outras. Assim, este ser externo ao universo está fora da matéria, do espaço e do tempo. Ele não é mutável; e sim a imutável Fonte da mudança.

2. O ARGUMENTO DA CAUSALIDADE EFICIENTE

Podemos notar que algumas coisas fazem outras coisas acontecerem (fazem com que elas comecem a existir, que continuem existindo, ou ambos). Por exemplo, um homem tocando piano está “causando” a música que ouvimos. Se ele parar, o mesmo ocorre com a música.

Agora pergunte a si mesmo: Todas as coisas que existem neste exato momento estão sendo trazidas à existência por outras coisas? Suponhamos que sim. Ou seja, suponhamos que não exista um Ser Não Causado, nenhum Deus. Então, nada poderia existir agora mesmo. Pois devemos lembrar que todas as coisas precisam de uma causa presente fora de si mesmas para que existam. Portanto, agora mesmo, todas as coisas, incluindo todas as que estão causando outras coisas, precisam de uma causa. Elas só podem gerar algo a partir do momento em que foram trazidas à existência. Nesta hipótese, portanto, tudo que existe tem necessidade de ser trazido à existência.

Mas, trazido à existência pelo que? Tirando tudo o que existe, só há o nada. Mas isso é absurdo: tudo da realidade é dependente — mas dependente do nada! A hipótese de que tudo o que existe é causado, mas não há um Ser Não Causado é absurda. Portanto, tem de haver algo não causado, algo do qual todas as coisas que precisam de causa eficiente para existir sejam dependentes.

A existência é como um presente dado pela causa ao efeito. Se não há ninguém que possua o presente, este não pode ser passado adiante na cadeia de receptores, não importando o quanto esta seja curta. Se todos precisarem tomar emprestado determinado livro, mas ninguém realmente tiver a obra, então jamais alguém irá obtê-la. Se não há um Deus que possua existência por sua própria natureza eterna, então o dom da existência não poderia ser transmitido à série de criaturas, e nós nunca poderíamos recebê-lo. Entretanto, nós conseguimos esse dom; nós existimos. Portanto, tem de existir um Deus: um Ser Não Causado, que não precisa receber a existência como nós — e como qualquer outro elo da série de receptores. 

Questão 1: Por que precisamos de uma causa não causada? Por que não pode haver simplesmente uma série infinita de coisas, que mutuamente mantêm umas às outras em existência?

Resposta: Esta é uma hipótese atraente. Pensemos em um bêbado. Ele provavelmente não conseguirá manter-se de pé sozinho. Porém, um grupo de bêbados, todos eles sustentando-se uns aos outros, poderá manter-se de pé. Eles podem até conseguir caminhar ao longo duma rua. Note-se, porém, o seguinte: por haver tantos bêbados e um chão firme debaixo dos pés deles podemos compreender como o andar cambaleante de cada um pode cancelar o dos demais, e o grupo pode permanecer (relativamente) ereto. Mas não poderíamos compreender como eles permaneceriam de pé se o solo não os sustentasse — se estivessem, por exemplo, suspensos vários metros acima do chão. E, naturalmente, se não existisse bêbado algum, não haveria nada para se entender.

Isso nos leva de volta ao nosso argumento. As coisas precisam existir de maneira a serem mutuamente dependentes; elas não podem depender umas das outras para sua existência total, senão elas teriam de ser, simultaneamente, a causa e o efeito umas das outras. Um raciocínio do tipo “A” causa “B”, “B” causa “C” e “C” causa “A” é absurdo. O argumento está tentando mostrar porque um mundo de causas causadas pode vir à existência — ou existir. E ele simplesmente indica o seguinte: uma coisa só pode existir porque algo mais está gerando sua existência, então deve existir algo que não esteja recebendo existência de nada. Caso contrário, tudo o que existe necessitaria ser trazido à existência, mas, ao mesmo tempo, nada (acrescido a esse tudo) existiria para gerar essa existência. Isso significaria que o nada realmente existe.

Segunda Questão: Por que não poderia haver uma série infinita de causas causadas remontando ao passado? Então, tudo existiria — embora suas causas não existissem mais.

Resposta: Em primeiro lugar, se o Argumento Kalam (o sexto argumento) estiver correto, não poderia haver uma série infinita de causas remontando ao passado. Suponhamos, porém, que exista essa série. O argumento não leva em consideração o passado; independentemente de o passado ser finito ou infinito, ele continuaria válido. O argumento só se preocupa com o que existe agora mesmo.

Mesmo enquanto lê este texto, você depende de outras coisas para existir. Você não poderia existir neste instante sem elas. Suponhamos que haja sete dessas coisas. Se estas sete coisas não existissem, você também não existiria. Suponha agora que todas as sete coisas, para existirem, dependam de outras coisas. Sem estas, as sete coisas das quais você depende não existiriam — e nem você. Imagine agora que o universo inteiro consiste em você e nessas sete coisas que o sustentam. Se não houvesse nada além desse universo de coisas mutáveis e dependentes, então o universo — e você como parte dele — não poderia existir. Pois tudo o que existe agora mesmo teria a necessidade de receber existência, mas não haveria nada capaz de fornecê-la. No entanto, você existe, bem como o universo à sua volta. Portanto, nesse caso tem de haver algo além do universo de coisas interdependentes — algo que não possua essa dependência como essas coisas.

E se deve existir nesse caso, deve existir no nosso caso. Em nosso mundo, há certamente muito mais do que sete coisas que precisam, agora mesmo, receber existência. Todavia, essa necessidade não é menor pelo fato de haver mais do que sete coisas. Enquanto imaginarmos um número cada vez maior delas — talvez até um número infinito, se possível — estaríamos apenas expandindo o grupo de seres que necessitam de existência. E essa necessidade — de existir, de ser algo — não pode ser produzida a partir de dentro do grupo. Entretanto, obviamente essa necessidade foi satisfeita, já que existem seres contingentes. Portanto, existe uma Fonte de existência da qual nosso universo material depende neste exato momento.

3. O ARGUMENTO DO TEMPO E CONTINGÊNCIA

1. Notamos que as coisas ao nosso redor vêm a existir e deixam de existir. Uma árvore, por exemplo, surge dum frágil broto, floresce majestosamente, depois seca e morre.

2. Não importa o que passe a existir ou deixe de existir, não tem necessariamente de existir; a não existência é uma possibilidade real.

3. Suponhamos que nada tenha de existir; que a não existência seja uma possibilidade real para todas as coisas.

4. Então, agora mesmo, nada existiria.

5. Pois, se o universo começou a existir, então todos os seres teriam de traçar sua origem em algum momento no passado no qual não existia — literalmente — coisa alguma. Porém,

6. Nada pode surgir do nada.

7. Assim, o universo não poderia ter surgido.

8. Mas, suponhamos que o universo nunca surgiu. Então, pela duração infinitamente longa da história cósmica, todos os seres teriam a possibilidade inerente de não existir.

9. Mas, se num tempo infinito essa possibilidade nunca se tornou realidade, não pode ter sido uma possibilidade real de qualquer maneira.

10. Logo, tem de haver algo que tenha de existir, que não pode não existir. Esse tipo de ser é chamado de necessário.

11. Ou essa necessidade é inerente a um ser, ou ela deriva de outro ser. Se ela deriva de outro, tem de haver, em última instância, um ser cuja necessidade não seja derivada de ninguém, isto é, um ser absolutamente necessário.

12. Este ser absolutamente necessário é Deus.

Questão: Mesmo que alguém nunca saísse de casa o dia inteiro, seria possível essa pessoa fazer isso. Por que é impossível que o universo tenha vindo a existir, mesmo sendo possível que ele deixasse de existir?

Resposta: Esses dois casos não são realmente paralelos. Sair de casa num determinado dia é algo que podemos decidir fazer ou não. Mas, se a não existência é uma possibilidade real para alguém, essa pessoa é um tipo de ser que não poderia durar para sempre. Em outras palavras, a possibilidade da não existência deve ter sido incluída, “programada”, como parte da própria constituição da pessoa; uma propriedade necessária. E, se todos os seres são assim, então como algo poderia ainda existir depois da passagem de um intervalo infinito? Um período infinito é tão longo quanto a eternidade. Portanto, o Ser deve ter o que é necessário para durar para sempre, ou seja, para permanecer em existência por um período infinito. Portanto, tem de existir no reino dos seres algo que não tenha a tendência de deixar de existir. Esse tipo de Ser, como disse Aquino, é chamado de “necessário”.

4. O ARGUMENTO DOS GRAUS DE PERFEIÇÃO

Podemos notar que as coisas ao nosso redor variam de diversas maneiras. Uma cor, por exemplo, pode ser mais clara ou mais escura do que outra; uma torta de maçã que acabou de sair do forno está mais quente do que outra que foi retirada horas antes; a vida de uma pessoa que dá e recebe amor é melhor do que a de outra que não faz isso.

Ou seja, nós discriminamos as coisas em termos de “mais” e “menos”. Quando fazemos isso, naturalmente pensamos nelas em termos duma escala do valor menor até o maior. Pensamos, por exemplo, que um objeto mais claro está mais próximo do branco puro, e outro, mais escuro, está mais próximo da opacidade do preto. Isso significa que pensamos nas coisas com base em várias “distâncias” dos extremos, com tais coisas possuindo em graus de “mais” e “menos” o que estes extremos possuem em plena medida.

Às vezes, é a distância física de um extremo que faz toda a diferença para algo ter ou ser mais ou menos. Por exemplo, os objetos são mais (ou menos) quentes quando estão mais próximos (ou mais distantes) duma fonte de calor. Esta fonte transfere a esses objetos o calor que possui. Isso significa que o calor que esses objetos têm é causado por uma fonte externa, à parte deles.

Agora, quando pensamos na bondade dos seres, parte do que queremos dizer está relacionado simplesmente àquilo que eles são. Cremos, por exemplo, que uma existência relativamente estável e permanente é melhor do que uma que se mostre precária e efêmera. Por quê? Porque apreendemos em um nível profundo (mas nem sempre consciente) que o ato de ser é a fonte e a condição de todos os valores; logo, ser algo é melhor do que não ser. E reconhecemos a superioridade inerente de todos esses modos de existência que expandem as possibilidades que nos libertam dos confinamentos da matéria, e nos permitem compartilhar, enriquecer e ser enriquecidos pela existência de outras coisas. Em outras palavras, todos nós reconhecemos que um ser inteligente é melhor do que um não inteligente; que um ser capaz de dar e receber amor é melhor do que um que não pode fazer isso; que nossa existência é melhor, mais rica e mais completa do que a de uma pedra, uma flor, uma minhoca, uma formiga ou até mesmo de um filhote de foca.

Entretanto, se esses graus de perfeição estão relacionados ao ato de ser e o ato de ser é causado nas criaturas finitas, então deve existir um “melhor”, uma fonte e um padrão verdadeiro de todas as perfeições que reconhecemos como pertencentes a nós como seres. Este Ser absolutamente perfeito — o “Ser de todos os seres”, a “Perfeição de todas as perfeições” — é Deus.

Questão 1: O argumento assume que existe algo verdadeiramente “melhor”. Mas, não são todos os nossos juízos de valor comparativo meramente subjetivos?

Resposta: A própria formulação dessa pergunta já a responde. Pois o questionador não teria perguntado isso a menos que achasse que é melhor perguntar do que não perguntar, e é realmente melhor encontrar a verdadeira resposta do que não fazê-lo. Pode-se até falar em subjetivismo, mas não se pode vivê-lo na prática.

5. O ARGUMENTO DO PROJETO

Esse tipo de argumento tem um apelo amplo e perene. Quase todo mundo admite que a reflexão sobre a ordem e a beleza da natureza estimula profundamente nosso íntimo. Entretanto, será que a ordem e a beleza são produtos de um desígnio inteligente e um propósito consciente? Para os teístas, a resposta e “sim”. Os argumentos a favor do projeto divino são tentativas de defender essa resposta; de demonstrar porque ela é a mais razoável a ser dada. Esses argumentos foram formulados de maneiras tão ricamente variadas quanto a experiência na qual estão arraigados. As declarações a seguir apresentam seu âmago, sua ideia central.

1. O universo revela uma quantidade surpreendente de inteligibilidade tanto dentro das coisas que observamos como na maneira como essas coisas se relacionam com outras externas. Em outras palavras: a maneira como elas existem e coexistem mostram uma ordem bela e intricada e uma regularidade que pode deixar até o observador mais casual totalmente perplexo. A norma natural é que muitos seres diferentes trabalhem em conjunto para produzir o mesmo fim valoroso — por exemplo, os órgãos em nosso corpo trabalham para manter nossa vida e nossa saúde. (Veja também o Argumento 8.)

2. Ou essa ordem inteligível é produto do acaso, ou de desígnio inteligente.

3. Nada acontece por acaso.

4. Portanto, o universo é produto de desígnio inteligente.

5. O projeto só pode vir duma mente, dum projetista.

6. Portanto, o universo é o produto de um Projetista inteligente.

A primeira premissa é verdadeira — até os que contestam esse argumento admitem isso. Só mesmo alguém quase pateticamente obtuso não concordaria. Uma simples molécula de proteína possui uma ordem tremendamente impressionante, e mais ainda uma única célula. E muito mais ainda um órgão como o olho, no qual as partes ordenadas de enorme e delicada complexidade trabalham juntas com inúmeras outras para atingir uma única finalidade. Até os elementos químicos são ordenados para combinar com outros elementos de determinadas maneiras e sob certas condições. A aparente desordem é um problema precisamente por causa da esmagadora predominância da ordem e da regularidade. Portanto, a primeira premissa se sustenta.

Se toda essa ordem não é de modo algum o produto de um desígnio inteligente — então qual seria sua origem? Obviamente, isso “simplesmente aconteceu”. As coisas simplesmente aconteceram “por acaso”. Mas, se toda essa ordem não é produto de forças sem propósito e cegas, então ela resultou de algum tipo de propósito. Esse propósito só pode ser um desígnio inteligente. Portanto, a segunda premissa se mantém.

Obviamente é a terceira premissa que é crucial. Em última instância, os incrédulos nos dizem que é realmente pelo acaso, e não por projeto que o universo de nossa experiência existe da maneira que ele é. Ele simplesmente passou a ter essa ordem, e são os crentes que devem provar como isso não poderia ter acontecido só por mero acaso.

Porém, isso parece bem invertido. Cabe certamente aos incrédulos produzir uma alternativa mais crível do que a ideia do projeto. E “acaso” é simplesmente inacreditável. Pois, só podemos compreender o acaso analisando-o num contexto de ordem. Dizer que alguma coisa aconteceu “por acaso” é o mesmo que dizer que aconteceu algo que não esperávamos ou que aconteceu alguma coisa diferente do que esperávamos. Porém, a expectativa não pode existir sem a ordem. Se eliminarmos toda a ordem e falarmos do acaso sozinho, como um tipo de fonte absoluta, teremos eliminado o único contexto que nos permite falar de maneira significativa sobre acaso. Em vez de pensarmos no acaso dentro dum contexto de ordem, somos convidados a pensar sobre a ordem — esmagadoramente complexa e onipresente — dentro do contexto sem propósito e aleatório do acaso. Francamente, isso é inacreditável. Portanto, é perfeitamente razoável validar a terceira premissa, nada é por acaso, e reafirmar a conclusão é que o universo é produto de um desígnio inteligente.

Questão 1: A Teoria da Evolução, de Darwin, não demonstrou ser possível que toda a ordem do universo tenha surgido por acaso?

Resposta: De maneira alguma. Se a teoria de Darwin demonstrou alguma coisa, ela demonstrou, de modo geral, como as espécies podem ter descendido de outras por meio de mutações aleatórias; e como a sobrevivência dessas espécies pode ser atribuída à seleção natural — pela aptidão de algumas espécies para sobreviver em seu ambiente. De modo algum essa teoria dá — ou poderia dar — uma resposta sobre a ordem e inteligência presentes na natureza. Em vez disso, a teoria pressupõe a ordem. Para citar uma famosa frase: “A sobrevivência dos mais aptos pressupõe a chegada do apto.” Se os darwinistas desejam ir além de sua teoria puramente biológica, insistindo que toda a vasta ordem ao nosso redor é resultado de mudanças aleatórias, eles estarão afirmando algo que nenhuma evidência empírica confirmou, que nenhuma ciência empírica demonstrou; algo que, em vista disso, está simplesmente além de qualquer possibilidade de crença.

Questão 2: Talvez só em nossa região do universo a ordem pode ser encontrada. Talvez haja outras partes desconhecidas por nós totalmente caóticas — ou, talvez o universo se torne caótico um dia no futuro. O que acontece com o argumento, então?

Resposta: Crentes e não crentes experimentam o mesmo universo. É este universo que foi formado por desígnio inteligente, ou não. E este nosso mundo de experiência comum é um mundo de ordem e inteligência abrangentes. Não há como negar esse fato. Antes de especularmos sobre o que acontecerá no futuro ou sobre o que pode existir agora mesmo em algum lugar, precisamos lidar honestamente com o que existe. Precisamos reconhecer de maneira resoluta a extensão — a sobrepujante extensão — da ordem e da inteligência no universo. Então, podemos nos perguntar: E razoável supor que habitamos uma pequena ilha de ordem cercada por um vasto oceano de caos — um mar que ameaça engolir-nos um dia? Consideremos apenas como nas últimas décadas expandimos de maneira fantástica os limites de nosso conhecimento; lancemos nossa visão para muito além deste planeta, e para bem dentro dos elementos microscópicos que o compõem. O que essa expansão de nossos horizontes revelou? Sempre a mesma coisa: mais — e não menos — inteligibilidade; mais — e não menos — ordem complexa e intricada. Não só inexiste razão para crermos num caos que nos rodeie, como também há todas as razões para não crermos nisso. Esse fato é marcante na experiência que todos nós — crentes e não crentes — compartilhamos.

Pode-se afirmar algo similar sobre o futuro. Sabemos a maneira como as coisas no universo se comportaram e se comportam agora. Portanto, até que encontremos razões concretas para pensar de outra maneira, há todos os motivos para crermos que ele continuará em seu processo ordenado de decadência. Nenhuma especulação pode anular o que sabemos.

De qualquer modo, exatamente que tipo de caos esta questão quer que imaginemos? Um no qual o efeito precederia a causa? Um no qual a lei da contradição não se mantenha? Que não é necessário existir algo que traga todas as coisas à existência? Essas sugestões são completamente tolas; se pensarmos nelas, será apenas para rejeitá-las como impossíveis. Por quê? Poderíamos imaginar a existência de menos ordem? Sim. De algum novo arranjo da ordem além do que conhecemos? Sim. Mas imaginar a total desordem e o caos? Isso nunca poderia ser considerado como possibilidade real. Especular sobre isso, como se fosse possível é realmente uma perda de tempo.

Questão 3: Mas, e se a ordem que experimentamos for apenas um produto de nossa mente? Mesmo que não possamos imaginar o caos total e a desordem, talvez a realidade seja realmente assim.

Resposta: Se concordamos que algo não pode existir em pensamento, não podemos ir em frente e afirmar que esse algo pode existir na realidade, pois estaríamos pensando em algo sobre o qual afirmamos ser impensável.

Suponhamos que alguém diga que a ordem do universo é produto de nossa mente. Isso coloca essa pessoa numa posição bem constrangedora. Ela estará dizendo que devemos pensar sobre a realidade em termos de ordem e de inteligibilidade, mas na verdade as coisas podem não existir dessa forma. Ora, propor algo para consideração é o mesmo que pensar sobre isso. A pessoa estará dizendo: (a) temos de pensar sobre a realidade de determinada maneira, mas (b) como pensamos que as coisas podem na verdade não existir dessa maneira, então (c) não precisamos pensar sobre a realidade da maneira como deveríamos pensar sobre ela! Será que estamos dispostos a pagar um preço tão alto para negar que a existência do universo demonstra um desígnio inteligente? Diante das evidências, isso não parece valer a pena.

6. O ARGUMENTO KALAM

A palavra árabe kalam significa literalmente “discurso”, mas veio a denotar certo tipo de teologia filosófica — o tipo que contém argumentos de que o mundo pode não ser infinitamente antigo e, portanto, tem de ter sido criado por Deus. Esse tipo de argumento tem tido um amplo e duradouro apelo, tanto entre cristãos como entre muçulmanos. Sua forma é simples e direta.

1. O que quer que venha a existir, precisa de uma causa para vir à existência.

2. O universo começou a existir.

3. Portanto, o universo teve uma causa para ter vindo à existência.

Vejamos a primeira premissa. (A maioria das pessoas — fora de asilos e escolas de graduação consideraria isso não só como verdadeiro, mas como certa e obviamente verdadeiro.)

Será que a segunda premissa é verdadeira? O universo — a coleção de todas as coisas restritas pelo espaço e tempo — teve início em algum momento? Essa premissa recentemente recebeu um apoio poderoso da ciência natural — a partir da chamada Cosmologia do Big-Bang [Grande Explosão]. Mas há também argumentos filosóficos a favor dela.

Será que uma tarefa infinita pode ser realizada ou completada? Se, para alcançar determinado fim, etapas infinitas tivessem de precedê-lo, poderia o fim ser atingido algum dia? É claro que não — nem mesmo num período infinito. Isso porque o tempo infinito não teria fim, assim como as etapas. Em outras palavras, nunca chegaríamos ao final da sequência. A tarefa não seria — nem jamais poderia ser — completada.

Mas, o que dizer do passo imediatamente anterior ao fim? Ele poderia ser alcançado? Bem, se a tarefa é realmente infinita, então uma infinidade de etapas também tem de preceder esse penúltimo passo. Desta forma, a etapa que antecede a última também nunca poderia ser alcançada. E o mesmo ocorreria com a etapa anterior a ela. De fato, nenhuma das etapas na sequência poderia ser alcançada, porque um número infinito de etapas deveria sempre preceder cada uma; seria sempre necessário passar por uma de cada vez antes de chegarmos à etapa desejada. O problema surge a partir da suposição de que uma sequência infinita pode alcançar, por uma sucessão temporal, qualquer ponto.

Ora, se o universo nunca teve início, ele sempre existiu. Sendo assim, ele seria infinitamente antigo. Mas, se este é o caso, então uma quantidade infinita de tempo teria de ter passado antes do dia de hoje, por exemplo. E um número infinito de dias devem ter sido completados — um dia sucedendo o anterior, um milésimo de tempo sendo acrescentado ao que veio antes dele — para que se chegasse ao dia atual. Porém, isso criaria um paralelo idêntico ao problema da tarefa infinita. Se o dia de hoje foi alcançado, então a infinita sequência histórica atingiu este ponto no presente; na verdade ela se completou até este ponto – pois em qualquer ponto presente o passado inteiro já deve ter acontecido. Contudo, uma sequência infinita de etapas nunca poderia ter alcançado este momento presente — ou qualquer outro antes dele.

Logo, ou o dia atual ainda não chegou, ou o processo que levou à chegada dele não foi infinito. Mas, obviamente o dia de hoje chegou. Então, o processo que levou à chegada dele não foi infinito. Em outras palavras, o universo teve início. Desta forma, ele tem uma causa que o levou à existência, um Criador.

Questão 1: Os cristãos acreditam que vão viver para sempre com Deus. Logo, eles creem num futuro infinito. Por que, então, o passado também não poderia ser infinito?

Resposta: Esta pergunta responde a si própria. Os cristãos acreditam que sua vida com Deus nunca terminará. Isso significa que ela jamais formará uma série infinita completa. Em termos mais técnicos: um futuro infindável é potencialmente — mas nunca realmente — infinito. Isso significa que, embora o futuro nunca deixe de expandir-se e aumentar, ainda assim sua extensão real sempre será finita. Todavia, isso só pode ser verdade se toda a realidade criada teve um princípio.

Questão 2: Como podemos saber que a Causa geradora do universo ainda existe? Talvez ela tenha dado início ao universo e depois deixou de existir.

Resposta: Devemos lembrar que estamos procurando uma causa para a existência espaço-temporal. Essa Causa criou todo o universo de espaço e tempo, e estes, em si mesmos, têm de ser parte dessa criação. Portanto, a causa não pode ser um outro ser espaço-temporal. (Se fosse assim, todos os problemas a respeito da duração infinita surgiriam novamente.) A causa tem de estar, de algum modo, fora dos limites e das restrições do espaço e do tempo.

E difícil entender como um ser assim poderia “deixar” de existir. Sabemos como um ser pertencente ao universo deixa de existir: ele chega a um momento em que é fatalmente afetado por algum agente externo. Porém, esta realidade é apropriada para nós e para todos os seres que estão limitados pelo tempo e pelo espaço. Um Ser que não esteja limitado não pode “vir” a existir ou “deixar” de existir. Se ele existe de qualquer maneira, deve existir eternamente.

Questão 3: Mas, será que essa Causa é Deus — um Ser, e não simplesmente uma coisa?

Resposta: Suponhamos que a causa do universo existiu eternamente. Suponhamos, além disso, que essa causa não é pessoal; que ela teria dado origem ao universo não por escolha própria, mas simplesmente pelo fato de existir. Nesse caso, seria difícil imaginar um universo que não fosse infinitamente antigo, já que todas as condições necessárias para a existência dele existiriam por toda a eternidade. Todavia, o argumento kalam mostrou que o universo não pode ser infinitamente antigo. Portanto, a hipótese de uma causa eterna impessoal parece levar a uma contradição.

Há alguma saída para o problema? Sim, se o universo for o resultado duma escolha pessoal totalmente livre. Pelo menos temos como conceber que uma Causa eterna poderia ter dado início a um efeito temporalmente limitado. É claro que o Argumento Kalam não prova tudo o que os cristãos acreditam sobre Deus. Menos do que tudo, porém, é muito melhor do que nada. O Argumento Kalam prova uma ideia central da crença cristã em Deus: a de que o universo não é eterno e que teve princípio; que existe um Criador do céu e da terra. E, neste processo, o argumento refuta a teoria que a maioria dos ateístas deseja defender sobre o universo: a de que ele consiste em matéria autossustentada em perpétua mudança, ao longo dum período infinito.

7. O ARGUMENTO DA CONTINGÊNCIA

A fórmula básica desse argumento é simples:

1. Se algo existe, deve existir também o que foi necessário para que esse algo viesse a existir.

2 . O universo — o grupo de seres no espaço e no tempo — existe.

3. Portanto, deve existir o que foi necessário para que o universo viesse à existência.

4. O que fez o universo existir não pode estar dentro do universo, nem limitado pelo espaço e pelo tempo.

5. Portanto, o que fez o universo vir à existência tem de transcender tanto o espaço como o tempo.

Suponhamos que alguém negasse a primeira premissa. Então, se X existe, não precisou existir nada que fizesse X existir. Porém, ‘o que fez X existir’ equivale à condição ou às condições imediatas para a existência de X. Isso significa que X existe apenas se Y existir; sem Y, não pode haver X algum. Negar a primeira premissa é o mesmo que dizer que: X existe. X só pode existir se Y existir, mas Y não existe. Isso é um absurdo. É indispensável que exista o que foi necessário para trazer o universo à existência. Mas, o que foi necessário para isso acontecer?

Dissemos que o universo é o “grupo de seres no espaço e no tempo”. Consideremos um ser desse tipo: nós mesmos. Nós existimos e somos, pelo menos em parte, materiais. Isso significa que somos finitos, limitados e passíveis de mudança, porque a matéria está sujeita à mudança e à limitação, sabemos que, neste exato momento em que lemos este artigo somos dependentes de seres [e fatores] externos a nós para termos nossa existência. Não nos referimos aos nossos pais ou avós. Eles podem não estar mais vivos, mas nós existimos agora mesmo. Neste instante, dependemos de muitas coisas para que possamos existir — por exemplo, do ar que respiramos. Ser dependente desse modo é ser contingente. Existimos só se algo mais existir agora mesmo.

Porém, nem tudo pode ser assim. Caso contrário, tudo precisaria receber existência, mas não haveria nada capaz de fornecê-la. Não haveria o que é necessário para qualquer coisa existir. Portanto, tem de haver algo que não exista condicionalmente; algo que não exista só se algo mais também existir; algo que exista por si mesmo. O que é necessário para esse algo existir tem de estar neste próprio ser. Diferente de uma realidade material mutável, não há distância, por assim dizer, entre o que esse Ser é e o fato de sua existência. Obviamente, o grupo de seres mutáveis no espaço e no tempo não poderia ser esse tipo de ser. Portanto, o que é necessário para que o universo exista não pode ser idêntico ao próprio universo ou a alguma parte dele.

Questão 1: Mas, por que deveríamos chamar essa causa de “Deus”? Talvez exista algo desconhecido que dê base para o universo mutável no qual vivemos.

Resposta: Isto é verdade. E esse “algo desconhecido” é Deus. O que nós humanos conhecemos diretamente é este mundo mutável que pode ser conhecido pelos sentidos. Sabemos também que é necessário existir algo para que o universo exista. Portanto, sabemos que esse universo mutável, seja por inteiro, ou qualquer parte dele, não pode ter em si mesmo o que é necessário para promover sua existência. Porém, não temos no momento um conhecimento direto sobre a causa das coisas mutáveis. Sabemos apenas que é necessário existir uma causa e que essa causa não pode ser finita ou material — que ela tem de transcender essas limitações. Mas, o que essa causa final é em si mesma permanece, até agora, um mistério.

Há mais a ser dito por meio da razão; mas há muito mais que Deus tornou conhecido a respeito de si por meio da revelação. Mas, as evidências nos forneceram algum conhecimento real também: o de que o universo foi criado, de que ele é mantido em existência por uma causa que não está limitada pela matéria e pelo tempo, que transcende o tipo de existência que nós humanos conhecemos diretamente. E esse é certamente um conhecimento que vale a pena ter. Podemos descobrir que a morte de alguém foi por assassinato, e não por acidente, sem saber exatamente quem matou e por que. Isso pode deixar-nos frustrados e insatisfeitos, mas pelo menos sabemos que linha de investigação seguir; sabemos que alguém praticou o ato.

O mesmo acontece com as evidências. Elas nos permitem saber que a cada momento a existência do universo é o ato criativo de um Doador — um Doador que transcende todos os limites materiais e espirituais. Essas evidências não nos dizem muito a respeito de quem é esse Doador — mas elas apontam numa direção bem definida. Sabemos que esta Realidade Final — o Dador da vida — não pode ser material. Sabemos que o presente dado inclui características pessoais: inteligência, vontade e espírito. Sabemos que a causa transcendente dessas coisas não pode ser menor do que elas; pelo contrário, tem de ser infinitamente maior. O quanto e de que maneira permanecem desconhecidos à razão humana. E não deveríamos esperar que fosse diferente. Contudo, a razão pelo menos nos permite concluir que “alguém fez tudo isso”. E que este conhecimento é de grande valor.

8. O ARGUMENTO DO MUNDO COMO UM TODO INTERATIVO

Norris Clarke, que lecionou Metafísica e Filosofia da Religião por muitos anos na Universidade Fordham, fez circular de maneira particular uma versão intrigante do Argumento do Projeto. Nós a apresentamos aqui de maneira um tanto resumida e revisada, para sua reflexão.

Ponto de partida. Esse mundo nos foi dado como um sistema dinâmico e ordenado com muitos componentes ativos. A natureza desses componentes (propriedades naturais) é ordenada para interagir com os outros em relacionamentos estáveis e recíprocos, aos quais chamamos de leis da Física. Por exemplo, cada átomo de hidrogênio em nosso universo está ordenado para combinar com todo átomo de oxigênio na proporção de 2:1 (o que significa que todo átomo de oxigênio está reciprocamente ordenado para combinar com átomos de hidrogênio na proporção de 1:2). O mesmo ocorre com as valências químicas de todos os elementos básicos. Da mesma forma, todas as partículas que possuem massa são ordenadas para mover-se em direção das outras de acordo com as proporções fixas da lei da gravidade.

Em um sistema dinâmico, interconectado e interligado como esse, a natureza ativa de cada elemento é definida por sua relação com os outros, o que pressupõe a existência dos outros com sua própria inteligibilidade e capacidade de agir. A ciência contemporânea nos revela que nosso sistema mundial não é simplesmente um conjunto de muitas leis distintas, separadas e sem relação entre si, e sim um todo rigorosamente interligado, onde o relacionamento com o todo estrutura e determina as partes. Estas não podem mais ser compreendidas isoladas do todo; a influência do todo afeta todas elas.

Argumento. Em um sistema como o mencionado acima (tal como o nosso mundo) nenhum componente ou elemento ativo pode ser autossuficiente ou autoexplicativo. Isso porque qualquer parte pressupõe todas as outras — todo o sistema já existe — para combinar-se com suas próprias propriedades relacionais. Nenhum componente pode agir a menos que os outros estejam presentes para interagir reciprocamente com ele. Qualquer componente só poderia ser autossuficiente se ele fosse a causa do resto do sistema — o que é impossível, já que nenhuma parte pode atuar exceto em colaboração com as demais.

Tampouco o sistema como um todo explica sua própria existência, pois ele é feito de partes componentes e não é um algo separado, existente em si mesmo, independente do resto. Assim, nem as partes nem o todo são autossuficientes; nem podem explicar a existência atual desse sistema dinamicamente interativo.

Três conclusões

1. Uma vez que as partes só tem sentido dentro do todo, e nem o todo nem as partes podem explicar sua própria existência, então um sistema como nosso mundo exige uma Causa eficiente unificadora para colocá-lo em existência como um todo unificado.

2. Qualquer Causa desse tipo tem de ser uma Causa inteligente, uma que traga o sistema à existência de acordo com uma ideia unificadora. Pois a unidade do todo — e de cada uma das leis físicas cósmicas e abrangentes que fazem os elementos interagirem entre si — é o que determina e correlaciona as partes. Portanto, esta unidade deve estar de alguma maneira realmente presente como um fator efetivo e organizador. Porém, a unidade, a integridade do todo, transcende qualquer uma das partes; logo, ela não pode estar contida em nenhuma destas. Para estar realmente presente de uma vez só como um todo, essa unidade só pode ser a unidade de uma ideia unificadora e organizadora. Isso porque só uma ideia pode manter juntos muitos elementos diferentes a um só tempo, sem destruir ou misturar as características distintas de cada um deles. Isso é quase a definição de uma ideia. Uma vez que as partes estão espalhadas pelo espaço e pelo tempo, a única maneira pela qual elas podem estar juntas a um só tempo, como uma unidade inteligível é dentro de uma ideia. Portanto, o sistema do mundo como um todo deve existir primeiro dentro da unidade de uma ideia. Ora, uma ideia real não pode existir e ser efetivamente operativa a não ser numa mente, que tenha o poder criativo de fazer esse sistema vir à existência. Portanto, para que exista o nosso sistema universal ordenado, precisa existir uma Mente coordenadora e criativa. A ordem cósmica exige um Ordenador cósmico, que só pode ser uma Mente.

3. Essa Mente ordenadora precisa ser independente do próprio sistema, ou seja, transcendente; não pode depender do sistema para existir e operar. Porque, se ela fosse dependente do sistema — ou fosse parte dele — teríamos de pressupor este sistema como preexistente para poder operar; ele teria tanto de preceder a si mesmo como vir depois de si mesmo. Isso é absurdo. De modo que a mente ordenadora deve existir e ser capaz de agir antes do sistema e de maneira independente dele.

Assim, nosso universo material exige necessariamente, como razão suficiente para a sua existência como um todo operante, uma Mente Criativa Transcendente.

9. O ARGUMENTO DOS MILAGRES

1. Um milagre é um evento cuja única explicação adequada é a intervenção direta e extraordinária de Deus.

2. Existem inúmeros milagres bem comprovados.

3. Portanto, existem inúmeros eventos cuja única explicação adequada é a intervenção direta e extraordinária de Deus.

4. Portanto, Deus existe.

Obviamente, se acreditarmos que algum evento extraordinário é um milagre, então acreditamos na ação divina e acreditamos que essa ação estava em operação para que o evento ocorresse. Mas, a questão é: Esse evento foi realmente um milagre? Se os milagres existem, então Deus tem de existir. Mas será que milagres realmente existem?

Que eventos devemos escolher para caracterizar como milagres? Em primeiro lugar, o evento deve ser extraordinário. Porém, existem muitos acontecimentos extraordinários (como as chuvas de meteoros) que não se qualificam como milagres. Por que não? Primeiro, porque eles podem ser causados por algum fenômeno natural, e segundo, porque o contexto em que ocorreram não era religioso. Eles se qualificam como singulares, “estranhos”, o tipo de coisa que se pode esperar ver em programas como o Acredite se Quiser, mas jamais se falaria disso num púlpito de igreja. Portanto, o significado do evento deve ser também religioso para que ele se qualifique como milagre.

Suponhamos que um homem santo fosse para o centro da cidade e pregasse: “Meus caros irmãos e irmãs, vocês têm levado uma vida pecaminosa! Olhem para vocês — beberrões, dissolutos! Deus quer que vocês se arrependam! E como um sinal de seu desagrado, Ele vai fazer chover pedras sobre vocês!” Daí, momentos depois — tum, tum, tum! — as pedras começam a cair. A palavra “milagre” poderia facilmente vir à nossa mente.

Não é que todos teriam obrigatoriamente de acreditar em Deus para testemunhar um evento como esse. Mas, se aquele homem parecesse um profeta genuíno e as acusações dele atingissem o alvo, fazendo-nos pensar que ele está certo, seria muito difícil considerarmos o que aconteceu como um embuste ou mesmo uma coincidência extraordinária.

Isto quer dizer que as circunstâncias de um suposto milagre são extremamente importantes. Não só as circunstâncias físicas e o momento em que acontecem, mas as circunstâncias pessoais também são fundamentais — o caráter e a mensagem da pessoa com quem o evento está diretamente ligado. Tomemos, por exemplo, quatro ou cinco milagres registrados no Novo Testamento. Se os tirássemos completamente de seu contexto, afastando-os do ensino e do caráter de Cristo, seria errado achar que o significado religioso ficaria grandemente diminuído? De modo algum, porque, afinal de contas, chamar determinado acontecimento de milagre é interpretá-lo religiosamente. Mas, para que o interpretemos desse modo, é necessário um contexto ou um cenário que estimule essa interpretação. E parte desse cenário geralmente envolve uma pessoa cujo caráter moral reconhecemos previamente, e cuja autoridade, que o milagre parece confirmar, é também reconhecida.

As discussões abstratas sobre probabilidades geralmente ignoram esse fator. Mas o cenário realmente tem um papel decisivo. Muitos anos atrás, numa convenção que normalmente seria monótona, um distinto filósofo explicou por que ele tinha se tornado cristão. Ele disse: “Peguei um exemplar do Novo Testamento com a intenção de analisá-lo, para pesar seus prós e contras. Porém, quando comecei a ler, dei-me conta de que era eu quem estava sendo julgado”. Ele certamente veio a acreditar nos relatos dos milagres. Mas o caráter e o ensino de Cristo é que foram os fatores que o levaram a aceitar o que está descrito na Bíblia como atos genuínos de Deus.

Assim, não existe realmente uma prova baseada nos milagres. Se você encarar algum evento como um milagre, então estará vendo a ação de Deus neste evento. Existe um caminho mental desde o evento até sua interpretação apropriada como miraculoso. E o que estimula esse raciocínio não é só o evento em si, mas os muitos fatores que o cercam e que estimulam – ou parecem exigir – essa interpretação.

Mas, eventos miraculosos acontecem. E realmente há vários testemunhos substanciais e confiáveis sobre eles em muitas épocas, lugares e culturas.

Então, a Causa deles também existe.

E a única Causa admissível para eles é Deus.

Portanto, Deus existe.

10. O ARGUMENTO DA PERCEPÇÃO

Quando nos damos conta da tremenda ordem e inteligibilidade presente no universo, estamos tendo contato com algo que nossa inteligência pode apreender. A inteligência é parte do que encontramos no mundo. Porém, este universo não é, por si mesmo, intelectualmente consciente. Por maiores que sejam as forças da natureza, elas não conhecem a si mesmas. Mas nós as conhecemos, e também conhecemos a nós mesmos. Estes fatos notáveis — a presença da inteligência em meio a processos materiais não conscientes de si mesmos, e a conformidade desses processos a uma estrutura de inteligência consciente — deu origem a uma variação do Argumento do Projeto:

1. Nós percebemos que o universo é inteligível. Essa inteligibilidade significa que o universo pode ser assimilado pela inteligência.

2. Ou este universo inteligível e a nossa mente finita tão bem adequada para assimilá-lo são produtos de inteligência, ou tanto a inteligibilidade dele como a nossa inteligência são produtos do acaso cego.

3. Não existe acaso cego.

4. Portanto, o universo inteligível e as mentes finitas tão bem adequadas para assimilá-lo são produtos de uma inteligência.

Existem aqui similaridades óbvias com o Argumento do Projeto, e muitas coisas que dissemos aqui para defender aquele podem também servir para este. Por ora, concentraremos nossa atenção no ponto 3, acima.

Os leitores que conhecem a obra Milagres, de C. S. Lewis, deverão se lembrar do argumento poderoso que ele apresenta no capítulo três contra o que ele chamou de “naturalismo”: o conceito de que tudo — incluindo nosso pensamento e nosso julgamento — pertence a um sistema vasto e interligado de causas e efeitos físicos. Lewis argumentou que se o naturalismo for verdadeiro, ele não nos deixa razão alguma para crermos que ele seja verdadeiro, porque todos os julgamentos seriam igualmente e em última instância o resultado de forças não racionais.

Essa linha de raciocínio baseia-se no ponto 3, acima. O que chamamos de “acaso cego” é o modo como a natureza física operaria em última instância se o “naturalismo” for verdadeiro — isenta de qualquer plano racional e propósito. Assim, se o argumento de Lewis é coerente, o terceiro ponto se sustenta: o acaso cego não pode ser a fonte de nossa inteligência.

Quando começamos a preparar esta seção do livro, ficamos tentados a citar todo o terceiro capítulo do Milagres, de C. S. Lewis. Esse tipo de argumento não se originou com Lewis, mas nunca ouvimos uma declaração melhor do que a dele e incentivamos o leitor a consultá-la. Porém, encontramos uma versão estimulante e admiravelmente sucinta (escrita quase vinte anos antes de Milagres) na obra Some Problems in Ethics [Algumas Questões Sobre Ética], de H. W. B. Joseph (Oxford University Press, 1931). Joseph era um catedrático de Oxford, anterior a Lewis, mas Lewis certamente estava familiarizado com os escritos dele. Sem dúvida, a declaração de Joseph desse argumento influenciou a de Lewis, que é mais elaborada.

Se o pensamento fosse um movimento da laringe, como alguém poderia pensar de maneira mais verdadeira do que um sopro de vento? Todos os movimentos dos corpos são igualmente necessários, mas não podem ser discriminados como verdadeiros ou falsos. Parece não ter sentido chamar um movimento como “sabor púrpura” ou “som avarento” de verdadeiro. Porém, o conceito óbvio que parece surgir quando afirmamos que o pensamento é um movimento corpóreo, parece igualmente demonstrar que ele é o efeito desse movimento. O pensamento chamado de conhecimento e o pensamento chamado de erro são ambos necessariamente o resultado de estados cerebrais. Tais estados são necessariamente o resultado de outros estados corpóreos. Todos os estados corpóreos são igualmente reais, e assim também os diferentes pensamentos; mas que direito tenho eu de afirmar que meu pensamento é o conhecimento do que é real nos corpos? Essa afirmação é só mais um pensamento, um efeito do movimento real corpóreo como os demais... Porém, esses meus argumentos, se os princípios do naturalismo científico... podem permanecer sem serem desafiados, são, em si mesmos, meros acontecimentos em uma mente, resultado de movimentos corporais; você ou eu acharmos que eles são corretos ou incorretos é só mais outro desses acontecimentos; algo que pensamos deles não mais do que sobre qualquer outro acontecimento desse tipo. E isso pode ser dito de qualquer base que nós tentemos estabelecer como verdadeira: Labitur et labetur in omne volubilis aevum [Isso anda e continuará andando eternamente em círculos] (Horácio, Epístolas, I, 2, 43, em: Some Problems in Ethics [Algumas Questões Sobre Ética], págs. 14, 15).

11. O ARGUMENTO DA VERDADE

Este argumento tem forte relação com o Argumento da Percepção. Ele foi defendido principalmente por Agostinho.

1. Nossas mentes limitadas podem descobrir verdades eternas sobre a existência.

2. A verdade reside propriamente em uma mente.

3. Todavia, a mente humana não é eterna.

4. Portanto, deve existir uma mente eterna onde essas verdades residem.

Esta prova pode agradar a alguns que compartilham de uma visão platônica do conhecimento — que, acreditam, por exemplo, na existência de Formas Inteligíveis Eternas que estão presentes na mente em cada ato de conhecimento. A partir disso, é fácil conceber essas Formas Eternas como existentes dentro de uma Mente eterna. E muito pode ser dito em favor dessa ideia. Porém, este é o problema. Existem muitos aspectos sobre a teoria do conhecimento que precisam ser considerados antes de esta argumentação poder se tornar uma demonstração convincente.

12. O ARGUMENTO DA ORIGEM DA IDEIA SOBRE DEUS

Esse argumento, que se tornou famoso com René Descartes, tem certa semelhança com o Argumento Ontológico. Ele começa com a ideia sobre Deus. Porém, ele não diz que o ser é parte do conteúdo dessa ideia, como faz o Argumento Ontológico. Em vez disso, procura demonstrar que só o próprio Deus poderia ter feito essa ideia surgir em nossa mente.

Seria impossível reproduzirmos todo o contexto que Descartes apresenta a favor dessa evidência (veja a Terceira Meditação dele); e seria inútil adotar seu vocabulário erudito. Apresentamos a seguir um breve resumo e uma consideração sobre isso.

1. Temos ideias sobre muitas coisas.

2. Essas ideias necessariamente têm de surgir de nós mesmos ou a partir de coisas externas a nós.

3. Uma das ideias que temos é a ideia de Deus — um Ser infinito e totalmente perfeito.

4. Essa ideia não pode ter sido produzida por nós mesmos, pois sabemos que somos limitados e imperfeitos, e nenhum efeito pode ser maior do que sua causa.

5. Portanto, essa ideia tem de ter sido produzida por algo externo a nós, que possua as mesmas qualidades contidas na ideia de Deus.

6. Mas só o próprio Deus tem essas qualidades.

7. Portanto, o próprio Deus tem de ser a Causa da ideia que temos a respeito dele.

8. Então, Deus existe.

Consideremos a seguinte objeção comum. A ideia sobre Deus poderia surgir facilmente assim: nós notamos os graus de perfeição entre seres finitos — alguns são mais perfeitos (ou menos imperfeitos) do que outros. E, para atingirmos a ideia sobre Deus, poderíamos simplesmente projetar essa escala de perfeição ao infinito. Sendo assim, não haveria necessidade de que Deus realmente existisse para provarmos a existência dessa ideia. Tudo o que necessitaríamos seria uma experiência com seres e fenômenos em vários graus de complexidade e uma mente capaz de avaliar as limitações perceptíveis de cada um.

Mas, será que isso bastaria? Como poderíamos avaliar limitações e imperfeições a menos que primeiro as reconhecêssemos como tais? E como seria possível reconhecê-las como tais, a menos que já tivéssemos alguma noção de perfeição infinita? Para reconhecermos algo como sendo imperfeito e finito, precisaríamos possuir um padrão de pensamento que tornasse esse reconhecimento possível.

Parece isso improvável? Isso não quer dizer que crianças de colo já pensam sobre Deus. Mas, significa que, a qualquer momento da vida em que aplicássemos esse padrão, independentemente de quanto tempo levasse para que isso se tornasse explícito em nossa consciência, ainda assim o padrão precisaria existir para que pudéssemos aperceber-nos dele.

Mas, de onde teria vindo esse padrão? Certamente não de nossa experiência com nós mesmos ou com o mundo que nos cerca, porque a ideia de uma perfeição infinita já está presente em nosso pensamento a respeito de todas as coisas quando as consideramos imperfeitas. Logo, nenhuma delas poderia ser a origem da ideia sobre Deus; só o próprio Deus poderia originar isso.

13. O ARGUMENTO ONTOLÓGICO

O Argumento Ontológico foi elaborado por Anselmo de Cantuária (1033-1109), que queria produzir uma demonstração singular e simples com o objetivo de mostrar que Deus existe e o que Ele é. Essa demonstração pode até ser singular, mas está longe de ser simples. Ele é, talvez, o mais controversial argumento a favor da existência de Deus. A maioria das pessoas que ouve esse argumento pela primeira vez fica tentada a desconsiderá-lo imediatamente por ele parecer só uma charada interessante. Porém, pensadores renomados de todas as épocas, incluindo a nossa, já se levantaram para defendê-lo. Exatamente por esta razão, ele é a prova mais intensamente filosófica da existência de Deus; seu lugar de honra não está no campo da religiosidade popular, e sim em manuais e revistas profissionais. Nós o incluímos aqui, com um mínimo de discussão a respeito, não porque o achamos conclusivo ou irrefutável, e sim para sermos completos em nossa abordagem.

A Versão de Anselmo

1. Uma coisa que exista na mente e também na realidade é maior do que algo que existe só na mente.

2. Deus significa “Aquele do qual não se pode imaginar nada maior”.

3. Suponhamos que Deus exista na mente, mas não na realidade.

4. Então uma coisa maior do que Deus poderia ser concebida (ou seja, um ser que tenha todas as qualidades que imaginamos sobre Deus e também a existência real).

5. Porém, isto é impossível, porque Deus é “Aquele do qual não se pode imaginar nada maior”.

6. Então, Deus existe tanto na mente como na realidade.

Questão 1: E se alguém negar que Deus existe na mente?

Resposta: Nesse caso, o argumento não concluiria dizendo que Deus existe na mente e na realidade. Note, porém, que: a negação nos obriga a pensar que não existe qualquer conceito sobre Deus. Pouquíssimas pessoas desejariam ir além disso nessa discussão.

Questão 2: Será que alguma coisa que existe na mente e na realidade é mesmo maior do que aquilo que só existe na mente?

Resposta: A primeira premissa deste argumento é frequentemente mal entendida. As pessoas às vezes dizem: “Não é melhor uma doença imaginária do que uma doença verdadeira?” É certamente melhor — e, portanto, uma coisa maior – para mim que a doença não seja real! Mas isso só fortalece o argumento de Anselmo, de que qualquer coisa que exista na mente e também na realidade é maior do que algo que existe só na mente. Bactérias verdadeiras são “maiores” do que as imaginárias, simplesmente porque aquelas têm algo que estas últimas não possuem: a existência real. Elas têm independência, e, portanto, uma capacidade de prejudicar que qualquer bactéria imaginária – dependente de nosso pensamento para existir – não possui. Essa independência delas as torna “maiores” como seres. E essa linha de raciocínio não é ilusória ou inconcebível.

Questão 3: A existência verdadeira não seria só outro “pensamento” ou “concepção”? Não seria ela só mais um conceito ou uma característica (como a onisciência ou a onipotência) que se atribui a Deus?

Resposta: A verdadeira existência faz uma grande diferença. Mas a questão é: Será que ela gera uma diferença conceitual? Os críticos do argumento ontológico afirmam que não. Eles dizem que, só porque a verdadeira existência faz toda a diferença, ela não pode ser mais uma qualidade entre outras. Em vez disso, ela seria a condição para haver algo que possa ter todas as qualidades. Quando o argumento afirma que Deus é a maior coisa que pode ser “concebida”, está dizendo que existem várias perfeições ou qualidades que Deus possui num grau que nenhuma criatura poderia ter; qualidades que são supremamente admiráveis. E isso não é só mais uma qualidade admirável entre várias outras.

Então, um ser que existe na realidade e também na mente é mesmo maior? É claro que sim; incomparavelmente maior. Mas a diferença não é conceitual. Ainda assim, o argumento dos críticos parece tratá-la como se fosse — como se o crente e o descrente não pudessem compartilhar o mesmo conceito sobre Deus. Claramente eles podem. A discordância entre os dois grupos não é sobre o conceito de Deus, e sim se este Ser descrito no conceito realmente existe. Isso parece estar além do poder de resposta de uma mera análise conceitual, conforme usada neste argumento. Portanto, essa Questão 3, em nossa opinião, não invalida realmente esta versão do Argumento Ontológico.

A Versão Modal

Charles Hartshorne e Norman Malcolm desenvolveram esta versão para o Argumento Ontológico. Eles consideram que a versão está implícita no terceiro capítulo da obra Proslógio, de Anselmo.

1. A expressão “o ser do qual não se pode imaginar nada maior” (sigla SNM, para simplificar) expressa um conceito consistente.

2. Não podemos pensar no SNM como: a) necessariamente não existente; ou como b) contingencialmente existente, e sim apenas como c) necessariamente existente.

3. Portanto, não podemos pensar no SNM como o tipo de ser que pode não existir, e sim como o ser que tem de existir.

4. E algo ou alguém que tem de existir realmente existe

5. Logo, o SNM (isto é, Deus) existe.

Questão: Só porque se deve pensar no SNM como existente, significa que o SNM realmente existe?

Resposta: Quando alguém pensa em algo como existente, essa pessoa não supõe que esse algo não exista. Então ela não pode negar que o SNM exista; senão estaria pensando em alguma coisa que ela afirmou ser impensável – ou seja, que o SNM não existe.

A Versão de Mundos Possíveis

Esta variante da Versão Modal foi desenvolvida com muitos detalhes por Alvin Plantinga. Nós nos esforçamos ao máximo para simplificá-la.

Definições:

Máxima excelência: Ter onipotência, onisciência e perfeição moral em algum mundo.

Máxima grandeza: Ter máxima excelência em todos os mundos possíveis.

1. Existe um mundo possível (M), no qual existe um Ser (X) com máxima grandeza.

2. Mas X só tem máxima grandeza se tiver máxima excelência em todos os mundos possíveis.

3. Então, X só tem máxima grandeza se tiver onipotência, onisciência e perfeição moral em todos os mundos possíveis.

4. Em M, a proposição: “Não existir um ser moralmente perfeito, onipotente e onisciente” seria impossível — ou seja, necessariamente falsa.

5. Porém, o que é impossível não varia de um mundo para outro.

6. Assim, a proposição: “Não existe ser moralmente perfeito, onipotente e onisciente” é necessariamente falsa neste mundo também.

7. Logo, existe realmente neste mundo, e tem de existir em todos os mundos possíveis, um ser moralmente perfeito, onipotente e onisciente.

14. O ARGUMENTO MORAL

1. A obrigação moral é um fato. Nós somos verdadeira, real e objetivamente obrigados a fazer o bem e a evitar o mal.

2. Ou o conceito ateísta da realidade está correto, ou é o conceito “religioso” que está.

3. Todavia, o conceito ateísta é incompatível com a ideia de haver uma obrigação moral.

4. Portanto, o conceito “religioso” da realidade é que é o correto.

Precisamos ser claros sobre o que se alega na primeira premissa. Ela não diz simplesmente que podemos encontrar pessoas ao nosso redor que afirmam ter certos deveres. Tampouco ela diz que já houve muitas pessoas que se consideravam obrigadas a fazer certas coisas (como cobrir a nudez) e a não fazer outras (como cometer adultério). A primeira premissa está alegando mais do que isso, a saber, que nós, humanos, realmente somos obrigados; que nossos deveres surgem do modo como as coisas realmente são, e não simplesmente de nossos desejos ou posturas subjetivas. A premissa afirma, em outras palavras, que os valores morais ou as obrigações em si — e não apenas a crença em valores morais — são fatos objetivos.

Ora, com base no fato da obrigação moral, surge naturalmente uma questão: Será que a imagem do mundo apresentada pelo ateísmo está de acordo com esse fato? A resposta é não. Os ateístas não se cansam de dizer que somos produtos casuais de movimentos da matéria; um movimento sem propósito e alheio a qualquer esforço humano. Então, deveríamos tomar essa declaração dos ateus e perguntar: Com base nesse quadro, onde exatamente está arraigado o bem moral? A obrigação moral dificilmente poderia estar enraizada em algum movimento material sem qualquer propósito.

Suponhamos que alguém afirme que esse movimento está arraigado em nada mais que o desejo e a vontade humana. Nesse caso, não teríamos qualquer padrão moral com base no qual os desejos humanos possam ser julgados. Pois todo desejo surgiria da mesma fonte derradeira — a matéria crua e sem propósito. E o que seria da obrigação moral, então? Segundo essa visão, se alguém dissesse que temos a obrigação de alimentar os famintos, essa pessoa estaria declarando um fato sobre seu desejo e sua vontade; e nada mais. Ela estaria dizendo que deseja que os famintos recebam alimento e que optou por agir com base nesse desejo. Porém, isso implicaria afirmar que ninguém mais é obrigado a alimentar os famintos — que, na verdade, ninguém tem uma obrigação de qualquer maneira. Desta forma, o conceito ateísta da realidade não é compatível com a existência de uma obrigação moral genuína.

Então, qual conceito é compatível? Aquele que vê a verdadeira obrigação moral baseada em seu Criador; que vê a obrigação moral arraigada no fato de que fomos criados com um propósito e para um fim. Podemos chamar esse conceito, de modo deliberadamente genérico, de “conceito religioso”. Porém, não importa o quanto ele seja genérico, a reflexão sobre o fato da obrigação moral parece realmente confirmá-lo.

Questão 1: Esse argumento não demonstrou que o subjetivismo ético é falso. E se não existir valor objetivo algum?

Resposta: É verdade. O argumento presume que existem valores objetivos; ele ajuda a demonstrar que a crença neles é incompatível com determinada visão do mundo, e bem compatível com a outra visão. Essas duas visões são a ateísta-materialista e a religiosa (falando-se em termos gerais). Se partirmos do pressuposto de que o subjetivismo ético é verdadeiro, então o argumento não se sustenta. Todavia, quase ninguém é um subjetivista consistente. (Muitos pensam que são, e afirmam ser — até o momento em que sofram alguma violência ou injustiça. Nesse caso, invariavelmente eles se colocam como o restante de nós e reconhecem que determinadas coisas jamais deveriam ser feitas.) E para os muitos que não são — e nunca serão — subjetivistas, esse argumento pode ser bastante útil. Ele pode demonstrar que o fato de uma pessoa crer em valores objetivos é inconsistente com o que essa pessoa pode estar acreditando sobre a origem e o destino do universo. Se essa pessoa optar por corrigir essa inconsistência, ela estará se movendo em direção ao conceito religioso e se afastando do ateísta.

Questão 2: Esse argumento não conclui que Deus existe; ele só prova a existência de algum conceito “religioso” vago. Não seria esse conceito “religioso” compatível com muitas outras coisas que não o teísmo tradicional?

Resposta: Sim, de fato. Esse conceito é compatível, por exemplo, com o idealismo platônico e com muitas outras crenças que os cristãos ortodoxos consideram como terrivelmente deficientes. Porém, esse conceito religioso geral é definitivamente incompatível com o materialismo e com qualquer outra doutrina que exclua o valor da natureza objetiva final das coisas. Esse é o ponto importante. Parece mais razoável que a consciência moral seja a voz de Deus na alma humana, porque o valor moral só existe no nível da mente e da vontade das pessoas. E é difícil, senão impossível, conceber princípios morais objetivos que estejam de alguma maneira flutuando a esmo, alheios a qualquer pessoa.

De qualquer modo, nós concordamos que há uma grande distância a percorrer dos valores morais objetivos até o Criador do universo, o Deus de amor. Existe uma vasta distância intelectual entre estes. Mas, os valores morais objetivos são bem mais compatíveis com a existência de um Deus moral, do que o materialismo é com a crença em valores objetivos. Para sermos capazes de chegar a um Criador pessoal, precisamos de outros argumentos (tais como os de 1 a 6); e para chegarmos ao Deus de amor, precisamos da revelação divina. Em si, o argumento moral deixa muitas opções em aberto, eliminando só algumas. Todavia, fazemos muito bem em descartar essas opções que o argumento elimina.

15. O ARGUMENTO DA CONSCIÊNCIA

Como o subjetivismo moral goza de grande popularidade atualmente, a versão que segue do argumento moral, ou que gira em torno dele, deveria ser eficiente, já que ela não pressupõe o objetivismo moral. As pessoas da era moderna com frequência afirmam crer que não existe qualquer obrigação moral universal; que devemos, portanto, seguir nossa própria consciência. Contudo, essa simples admissão é suficiente como premissa para provar a existência de Deus.

Não é notável que ninguém, nem mesmo o subjetivista mais coerente, acredite ser bom que uma pessoa desobedeça deliberadamente à sua própria consciência? Mesmo que a consciência de pessoas diferentes lhes diga para fazer ou evitar coisas totalmente diferentes, ainda permanece uma máxima moral para todos: “Nunca desobedeça à sua própria consciência”.

Ora, mas de que fonte a consciência de cada pessoa adquiriu essa autoridade absoluta — autoridade admitida até mesmo pelos subjetivistas e relativistas morais? Só existem quatro possibilidades:

1. De algo inferior a mim (a natureza).

2. De mim (o indivíduo).

3. De outros iguais a mim (a sociedade).

4. De alguém acima de mim (Deus).

Consideremos, então, cada uma dessas possibilidades:

1. Como poderia alguém se sentir obrigado por algo inferior a si mesmo — por exemplo, um instinto animal ou de uma necessidade prática de sobrevivência material?

2. Com poderia alguém obrigar a si mesmo de maneira absoluta? Será que somos absolutos? Temos o direito de exigir obediência absoluta de alguém, ainda que seja de nós mesmos? Se nos obrigarmos a algo absoluto, poderíamos também libertar-nos, destruindo assim o caráter absoluto da obrigação que nos impusemos.

3. Como a sociedade pode obrigar alguém a fazer algo? Que direito têm nossos semelhantes de impor seus valores a nós? Será que a quantidade gera qualidade? Por acaso, um milhão de seres humanos poderia transformar algo relativo em absoluto? A “sociedade” seria Deus?

4. A única fonte de obrigação moral absoluta que sobra é algo superior ao indivíduo. Isso ata moralmente nossa vontade às legítimas exigências de obediência completa.

Assim, Deus, ou algo semelhante a Deus é a única fonte adequada e sólida para a obrigação moral absoluta à qual todos sentimos que nossa consciência deve obedecer. Então a consciência pode ser explicada como sendo a voz de Deus na alma. Os Dez Mandamentos podem ser entendidos como “as dez pegadas divinas em nossa areia psíquica”.

Adendo Sobre Religião e Moralidade

Ao esboçar esta conexão entre moralidade e religião, não queremos criar confusão ou mal-entendido. Não afirmamos que as pessoas nunca poderão descobrir bens morais humanos a menos que reconheçam que Deus exista. E óbvio que elas podem fazer isso. Crentes e não crentes podem saber que o conhecimento e a amizade, por exemplo, são coisas pelas quais vale a pena se empenhar; e que a crueldade e o engano são objetivamente errados. A questão que levantamos é: que descrição sobre a maneira como as coisas realmente são faz mais sentido em relação às regras morais que todos reconhecemos — a do crente ou a do descrente?

Se somos os produtos de um Criador bondoso e amoroso, isso explica por que temos uma natureza que descobre valores positivos que realmente existem. Entretanto, como os ateus explicam isso? Pois, se os ateístas estiverem certos, não poderia existir valor moral objetivo algum. Dostoievski disse: “Se Deus não existe, tudo é permissível”. Os ateus sabem que algumas coisas não são permissíveis, mas eles não sabem dizer por quê.

Consideremos a seguinte analogia. Muitos cientistas examinam causas secundárias durante toda a vida sem reconhecer a Causa Primária de um evento, ou seja, Deus. Porém, como vimos, essas causas secundárias não podem existir sem a Primária, ainda que os cientistas possam conhecê-las sem conhecer a Primária. O mesmo se aplica aos bens morais objetivos. Portanto, o argumento moral e os vários argumentos metafísicos compartilham certa similaridade em sua estrutura.

A maioria de nós, independentemente de fé religiosa ou da falta dela, é capaz de reconhecer quando um ser humano está agindo da maneira correta. Não é preciso ser um teísta para constatar que a existência de um homem como Jesus foi admirável, mas é preciso ser teísta para entender por que. O teísmo explica que nossa reação à vida do Filho de Deus é, em última análise, nossa resposta ao chamado do Criador para levarmos o tipo de vida que Ele nos criou para ter.

Há quatro relações possíveis entre a religião e a moralidade, entre Deus e a bondade.

1. Religião e moralidade podem ser encaradas como coisas independentes. O forte contraste entre “o ético” e “o religioso”, apresentado por Kierkegaard, principalmente em sua obra Fear and Trembling [Temor e Tremor], pode levar-nos a essa suposição. Todavia, (a) um Deus amoral, indiferente à moralidade, não seria um Deus plenamente bom, pois um dos significados primários de “bom” envolve a moral — justiça, amor, sabedoria, retidão, santidade, bondade. E (b) essa moralidade, não tendo qualquer conexão com Deus, o Ser Absoluto, não teria uma realidade absoluta por trás dela.

2. Deus pode ser encarado como o inventor da moralidade, assim como Ele é o Criador dos pássaros. A lei moral é frequentemente encarada como sendo um simples produto da escolha divina. Esta é a Teoria da Ordenança Divina: “Algo é bom só porque Deus ordena isso; e é mau porque Ele o proíbe”. Se isso fosse tudo, porém, teríamos um problema sério: Deus e sua moralidade seriam arbitrários e baseados em mero poder. Se Deus ordenasse que matássemos pessoas inocentes, isso se tomaria algo bom, uma vez que bom significaria “o que quer que Deus ordene”. A Teoria da Ordenança Divina reduz a moralidade ao uso da força. Sócrates refutou esta teoria de maneira bem conclusiva na obra Eutifro, de Platão. Ele pergunta a Eutifro: “Uma coisa é piedosa porque Deus quer assim; ou Deus quer assim, porque essa coisa é piedosa?” Ele refutou a primeira opção, e chegou à conclusão de que a segunda opção era a única alternativa possível.

3. Entretanto, a ideia de que Deus ordena determinada coisa porque ela é boa também é inaceitável, porque isso equivaleria a Deus estar se conformando com uma lei superior a Ele; uma lei que regeria Deus e a humanidade igualmente. O Deus da Bíblia não está mais separado da bondade moral por estar abaixo dela do que por estar acima dela. Ele não obedece a uma lei superior que o controle nem cria a lei como um artefato que pode ser mudado e que poderia ter sido feito diferente, como um planeta.

4. A única resposta aceitável racionalmente sobre a relação entre Deus e a moralidade é a resposta bíblica: A moralidade baseia-se na natureza eterna de Deus. Isso explica por que a moralidade é essencialmente imutável. “Porque eu sou o Senhor vosso Deus. Santificai-vos e sede santos, porque eu sou santo.” (Lev. 11:44a). Nossa obrigação de sermos justos, bondosos, honestos, amorosos e retos “segue todo o caminho” até a realidade final, até a natureza eterna de Deus, aquilo que Ele é. Este é o motivo de a moralidade ter uma força absoluta e imutável sobre nossa consciência.

As únicas outras fontes possíveis de obrigação moral seriam:

a. Nossos ideais, propósitos, aspirações e desejos; algo criado por nossa mente ou nossa vontade, como as regras de um jogo qualquer. Isso não nos diz nada sobre por que é errado desobedecer às regras ou mudá-las.

b. Nossa vontade moral em si mesma. Alguns interpretam Kant da seguinte maneira: “Eu imponho a moralidade a mim mesmo”. Entretanto, como alguém poderia ser obrigado a algo se é ele mesmo quem impõe essa obrigação? Se um chaveiro se trancar num quarto, ele não estaria realmente preso ali, porque seria capaz de abrir a porta.

c. Outro ser humano poderia ser quem impõe a moralidade sobre nós — por exemplo, nossos pais. Entretanto, essa ideia não tem força para estabelecer o caráter obrigatório da moralidade. Se nosso pai nos obrigar a vender drogas, nossa obrigação moral é desobedecê-lo. Nenhum ser humano pode ter autoridade absoluta sobre os outros.

d. Enquanto “esta ou aquela pessoa específica” como fonte é uma resposta impopular, a “sociedade” é uma resposta popular à questão sobre a origem da moralidade. Contudo, as duas respostas se equivalem. Uma “sociedade” nada mais é que um grupo maior de indivíduos. Que direito eles têm de legislar moralidade sobre nós? Quantidade não gera qualidade; aumentar o número de pessoas não muda o conjunto de regras de acordo com as exigências absolutas e corretas da consciência.

e. O universo, a evolução, a seleção natural e a sobrevivência são explicações ainda mais fracas para a moralidade. Não é possível extrair mais de menos. O princípio da causalidade é violado nesse caso. Como poderia uma “sopa orgânica” primitiva originar o Sermão do Monte?

Os ateus alegam frequentemente que os cristãos cometem um erro de categoria ao usar Deus para explicar a natureza; eles dizem que isso é o mesmo que os gregos faziam ao falar de Zeus para explicar os relâmpagos. Segundo eles, assim como o relâmpago pode ser explicado como fenômeno científico, material e natural; o mesmo se dá com a moralidade. Então, por que atribuí-la a Deus?

Porque a moralidade se parece mais com Zeus do que com um relâmpago. A moralidade só existe no nível das pessoas, espíritos, almas, mentes e vontades — não no nível de meras moléculas. Podemos fazer correlações entre obrigações e indivíduos (por exemplo, as pessoas devem amar outras pessoas), mas não podemos fazer correlação alguma entre moralidade e moléculas. Ninguém jamais tentou explicar a diferença entre bom e mau em termos, por exemplo, da diferença entre átomos pesados e leves.

Portanto, são realmente os ateístas que cometem o erro de categoria como os pagãos da antiguidade, que explicavam o relâmpago como manifestação da vontade de Zeus. Os ateus usam algo meramente material para explicar algo espiritual. Esta é uma versão ainda mais tola do erro de categoria que os gregos cometeram, porque é possível que um ser maior (Zeus, um espírito) produza algo menor (o relâmpago), e possamos explicá-lo assim. Mas não é possível que algo menor (as moléculas) possa causar e explicar algo maior (a moralidade). Uma vontade bondosa pode criar moléculas, mas como estas poderiam criar a vontade? Como a eletricidade poderia obrigar-nos a fazer alguma coisa? Apenas a vontade pode gerar um ato de boa vontade; apenas o amor pode inspirar amor.

16. O ARGUMENTO DO DESEJO

1. Todo desejo inato e natural em nós corresponde a algum objeto real que pode satisfazer esse desejo.

2. Entretanto, existe em nós um desejo que nada ao longo do tempo, nada nesta terra e nenhuma criatura pode satisfazer.

3. Portanto, tem de existir algo mais do que o tempo, a terra e as criaturas, que possa satisfazer este desejo.

4. Isso é algo que as pessoas chamam de “Deus” e de “vida eterna com Deus”.

A primeira premissa implica uma distinção entre dois tipos de desejo: o inato e o condicionado externamente; o natural e o artificial. Desejamos naturalmente coisas como alimento, bebida, sexo, descanso, conhecimento, amizade e beleza; e evitamos naturalmente coisas como a fome, a solidão, a ignorância e a feiura. Desejamos também (embora não naturalmente, nem de maneira inata) coisas como um carro esporte, um cargo público, voar como o Super-homem, ir à terra de Oz e ver nosso time ganhar o campeonato mundial.

Existem diferenças entre esses dois tipos de desejos. Ninguém sente a privação dos desejos artificiais, como sente a dos naturais. Não sentimos falta de estar na terra de Oz, como sentimos falta de descanso. E, o que é mais importante, os desejos naturais vem de dentro, de nossa natureza; enquanto os artificiais vêm de fora, são criados pela sociedade, pelas propagandas ou pela ficção. Esta segunda diferença ocasiona a terceira: os desejos naturais estão presentes em todos nós, enquanto que os artificiais variam de pessoa para pessoa.

A existência de desejos artificiais não significa necessariamente que os objetos desejados existem. Alguns sim; outros não. Existem carros esporte, mas não existe a terra de Oz. Porém, a existência de desejos naturais significa, em qualquer caso que se possa analisar, que os objetos de desejo existem. Ninguém jamais ouviu falar de algum desejo inato por alguma coisa que não existe.

A segunda premissa exige apenas uma introspecção honesta. Se alguém negar esta realidade e dizer: “Sou perfeitamente feliz, brincando com bolinhos de lama ou andando em carros esporte; ou tendo dinheiro, sexo ou poder”, nós só podemos perguntar a essa pessoa: “Você é perfeitamente feliz só com essas coisas mesmo?” Mas, o máximo que podemos fazer é perguntar, jamais poderíamos obrigá-la a pensar diferente. E poderíamos dirigir a atenção dessa pessoa para o testemunho quase universal da história humana, presente na literatura. Ate mesmo o ateísta Jean-Paul Sartre admitiu que ‘chega uma hora em que a pessoa pergunta, até mesmo quanto a Shakespeare ou Beethoven: ‘Será que isso é tudo o que existe?’’

A conclusão do argumento não é que tudo o que a Bíblia nos diz a respeito de Deus e da vida eterna com Deus seja verdadeiro. O argumento só defende que existe um X que é desconhecido, mas um desconhecido cuja direção é, por assim dizer, conhecida. Entretanto, esse X é mais: mais beleza, mais desejo, mais grandiosidade, mais alegria. Esse X está para a grande beleza como a grande beleza está para uma beleza menor, ou para uma mistura de beleza e feiura. E o mesmo é verdade no caso das outras perfeições.

Porém, o “mais” é infinitamente mais porque não estamos satisfeitos com o finito e parcial. Então, a comparação o “X está para a grande beleza como a grande beleza está para uma beleza menor”, não é proporcional. Vinte está para dez assim como dez está para cinco. Porém, o infinito não está para vinte, assim como vinte está para dez. O Argumento do Desejo é como uma porta que leva a um corredor infinito em uma direção definida. A conclusão poderia não ser “Deus”, como o concebemos, e sim um X movente e misterioso, que nos atrai para si e que retira todas as nossas imagens e conceitos de si mesmos.

Colocado de outra maneira, o único conceito sobre Deus nesse argumento é o conceito daquilo que transcende conceitos; algo que “olho nenhum viu, ouvido nenhum ouviu, mente nenhuma imaginou...” (1 Cor. 2.9). Em outras palavras, este é o Deus real.

C. S. Lewis, que usou este argumento em vários momentos, apresentou-o de maneira sucinta:

As criaturas só nascem com desejos se a satisfação para esses desejos existir. Um bebê sente fome; existe uma coisa chamada alimento. Um golfinho quer nadar; existe a água. Os homens sentem desejo sexual; existe o sexo. Se eu descobrir em mim um desejo que nenhuma experiência neste mundo pode satisfazer, a explicação mais provável é que eu fui criado para outro mundo. (Mere Christianity [Cristianismo Simples], Livro III, Capítulo 10, “Esperança”).

Questão 1: Como se pode saber com certeza que a premissa principal — que todo desejo natural tem um objeto real — é universalmente verdadeira, sem primeiro saber que esse desejo natural também tem um objeto real? Isso está sendo apresentado como conclusão. A questão está sendo presumida. É necessário saber que a conclusão é verdadeira antes de conhecer a principal premissa.

Resposta: Isto não é uma objeção só ao Argumento do Desejo, mas a qualquer argumento dedutivo ou silogismo que seja. Ela nada mais é que o velho questionamento de John Stuart Mill e dos nominalistas contra o silogismo. Ele pressupunha o empirismo — ou seja, que a única maneira de sabermos alguma coisa é sentindo-a individualmente, e depois generalizando essa coisa por indução. Isso exclui a dedução, porque exclui o conhecimento de qualquer verdade universal (como a premissa principal, apresentada acima). Os nominalistas não acreditavam na existência de ideias universais – exceto uma (que todas as ideias universais são apenas nomes).

Isso é bem fácil de refutar. Nós podemos chegar – e chegamos – ao conhecimento de verdades universais, como, por exemplo, “todos os humanos são mortais”, não só pela experiência sensorial (porque nunca poderíamos sentir todos os seres humanos), mas por meio da abstração da essência universal comum da natureza humana, a partir de alguns espécimes que experimentamos com nossos sentidos. Sabemos que todos os humanos são mortais porque a humanidade, como tal, envolve a mortalidade; é a natureza de um humano ser mortal. A mortalidade segue-se necessariamente do fato de os humanos terem um corpo animal. Podemos entender isso. Temos a capacidade de entendimento ou intuição intelectual, ou perspicácia, acrescidos dos poderes mentais de sensação e cálculo, que são as dois únicos que os nominalistas e os empiristas nos fornecem. (Nós compartilhamos sensações com os animais, e capacidade de cálculo com os computadores; onde estaria, então, a maneira humana distinta de saber das coisas, para os empiristas e nominalistas?)

Quando, numa proposição, não existe qualquer conexão real entre a natureza do sujeito e a natureza do predicado, a única maneira de sabermos a verdade dessa proposição é pela experiência sensorial e pela indução. Podemos saber, por exemplo, que todos os livros em uma estante são vermelhos só se olharmos para cada um e contá-los. Entretanto, quando existe uma conexão real entre a natureza do sujeito e a natureza do predicado, podemos saber a verdade dessa proposição por meio da compreensão e da perspicácia. Por exemplo: “tudo que tem cor deve ter tamanho”, ou que “um Ser Perfeito não poderia ser ignorante”.

Questão 2: E se alguém simplesmente negar a premissa 2 e afirmar que não sente qualquer desejo oculto por Deus ou alegria infinita; nem por algum X misterioso que seja maior do que qualquer coisa que exista nesta terra?

Resposta: Esta negação poderia assumir duas formas. Primeiro, alguém poderia dizer: “Embora eu não esteja perfeitamente feliz agora, creio que eu estaria se tivesse dez milhões de dólares, um jato particular e uma nova amante todo dia”. A resposta óbvia para isso é: “Pois, pode tentar. Você ainda não ficaria realizado.” Muitos tentaram isso, e nunca se satisfizeram. Bilhões de pessoas já fizeram, e estão fazendo agora mesmo trilhões de experiências desse tipo, buscando desesperadamente a sempre fugidia satisfação que querem. E mesmo que elas ganhassem o mundo inteiro, isso ainda não seria suficiente para preencher o anseio do coração humano delas.

Porém, a maioria continua tentando e crendo que: “Se eu só... Da próxima vez...” Esse é o jogo mais estúpido do mundo, porque é o único que consistentemente nunca deu resultado. Isso é o mesmo que predizer o fim do mundo: todos os que deram algum palpite sobre isso na história, sempre se desapontaram. Dificilmente existe motivo para esperar que os que fazem isso agora se sairão melhor. Depois de trilhões de fracassos e de um índice de 100% de erro, este é um experimento que ninguém deveria continuar tentando.

Uma segunda maneira de negar a premissa 2 é a pessoa dizer: “Estou perfeitamente satisfeito neste momento.” Mas isso nos pareceria uma idiotice ou, pior, uma desonestidade. Esta afirmação exige uma coisa mais parecida com exorcismo do que com refutação. É como o Meursault na obra O Estrangeiro, de Camus. Isso é subumano, é vegetar, não passa de psicologia barata. Até o hedonista utilitarista John Stuart Mill, uma das mentes mais superficiais (embora mais inteligentes) na história da filosofia, disse que “é melhor ser um Sócrates insatisfeito do que um porco satisfeito.”

Questão 3: Esse Argumento do Desejo é só uma versão do Argumento Ontológico, de Anselmo (o 13), que é inválido. Vocês estão argumentando a favor de um Deus objetivo com base numa ideia meramente subjetiva; só um desejo de vocês.

Resposta: Não. Nós não estamos argumentando só com base numa ideia, como Anselmo fez. Em vez disso, o argumento está apoiado numa premissa maior do mundo real da natureza: que a natureza não gera qualquer desejo em vão. Verifica-se algo real na natureza humana, a saber, que existe um desejo humano por algo maior do que a natureza, e que esta não pode explicar nem satisfazer. Assim, o argumento baseia-se em fatos observáveis na natureza humana, tanto externos como internos ao indivíduo. Ou seja, existem dados concretos para apoiar o argumento.

17. O ARGUMENTO DA EXPERIÊNCIA ESTÉTICA

A música de Johann Sebastian Bach existe.

Então, deve existir um Deus.

O leitor tanto pode enxergar alguma conexão aqui, como não.

18. O ARGUMENTO DA EXPERIÊNCIA RELIGIOSA

A maioria dos que afirmam ter fé religiosa teve algum tipo de experiência marcante. Muitos de nossos leitores provavelmente tiveram uma experiência assim. Se isto for verdade no seu caso, você já percebeu, de uma maneira que ninguém mais poderia, a importância central disso em sua vida. Essa percepção não é, em si, um argumento a favor da existência de Deus. Na verdade, à luz dela, você provavelmente diria que nem precisa de argumentos. Todavia, existe um argumento a favor da existência de Deus construído a partir dos dados dessas experiências. Não é um argumento que parte de sua própria experiência pessoal para a afirmação de que Deus existe. Como dissemos, provavelmente você nem sente necessidade desse argumento. Em vez disso, o argumento segue outro rumo: ele vai do amplo fato da experiência religiosa, até a afirmação de que só uma realidade divina poderia explicá-la adequadamente.

É difícil declarar esse argumento de maneira dedutiva. Mas, ele pode ser apresentado de modo satisfatório do seguinte modo:

1. Pessoas em diferentes épocas da história e de culturas bem distintas afirmaram ter tido uma experiência com o “divino”.

2. É inconcebível que tantas pessoas possam ter estado totalmente erradas acerca da natureza e do conteúdo de sua própria experiência.

3. Portanto, existe uma realidade divina que muitas pessoas de diferentes épocas e de culturas bem distintas experimentaram.

Será que isso prova que existe um Deus Criador inteligente? Parece improvável, porque esse Deus não parece ser o objeto de todas as experiências chamadas de “religiosas”. Mas, ainda assim, Ele é o objeto de muitas delas. Ou seja, muitas pessoas entendem sua experiência dessa maneira; elas foram “unidas”, ou “colocadas em contato” com um Conhecimento e Amor ilimitados e surpreendentes; um Amor que as preenche com si próprio, mas que está infinitamente além da capacidade delas de recebê-lo. Ou, pelo menos, é o que elas dizem. A pergunta é: “Devemos acreditar nessas pessoas?”

Há um número enorme de alegações semelhantes. Ou elas são verdadeiras, ou são falsas. Ao avaliá-las, devemos levar em consideração:

1. A consistência das afirmações. (Elas são consistentes em si mesmas e consistentes com o que sabemos ser verdadeiro de outras maneiras?);

2. O caráter desses que fazem as afirmações. (Essas pessoas parecem ser honestas, decentes e confiáveis?); e

3. Os efeitos que essas experiências tiveram na vida delas e na vida de outros. (Essas pessoas se tornaram mais amorosas em resultado das experiências? Genuinamente mais edificantes? Ou, em vez disso, elas se tornaram vãs e soberbas?).

Suponhamos que alguém lhe diga: “Todas essas experiências são resultado de lesões no lobo temporal ou geradas por repressão neurótica. De modo algum elas confirmam a verdade sobre alguma realidade divina”. Qual seria sua reação ao ouvir isso? Você poderia pensar na quantidade enorme de relatos documentados e perguntar a si mesmo se essa pessoa que falou isso poderia estar certa. Daí, você poderia concluir: “Não. Levando-se em consideração este vasto numero de declarações e a qualidade da vida das pessoas que as fizeram, parece inacreditável que elas poderiam estar tão erradas a respeito do que vivenciaram, ou que a insanidade ou uma doença mental poderia produzir uma bondade e beleza tão profundas”.

É impossível estabelecer previamente como a análise desses registros e dessas pessoas afetará todos os indivíduos. Não podemos dizer de antemão nem mesmo como isso afetará a nós mesmos. Entretanto, são evidências concretas que já persuadiram a muitos, e não se pode ignorá-las. Às vezes — na realidade, cremos que com muita frequência — esses registros não são descartados tão facilmente com a aplicação de rótulos depreciativos a eles.

19. O ARGUMENTO DO SENSO COMUM

Este argumento é de algumas maneiras semelhante ao da Experiência Religiosa e, em outros aspectos, ao do Desejo. Segundo ele:

1. A crença em Deus — esse Ser a quem a reverência e a adoração são corretamente devidas — é comum a praticamente todas as pessoas de todas as épocas.

2. Ou a vasta maioria das pessoas estava errada sobre esse componente mais profundo de suas vidas, ou não estava.

3. É mais plausível acreditar que elas não estavam erradas.

4. Logo, é mais plausível acreditar que Deus existe.

Todos admitem que a crença religiosa esteve amplamente presente ao longo de toda a história da humanidade. Mas será que este fato incontestável serve como evidência a favor da verdade das afirmações religiosas? Até um cético admitiria que o testemunho que temos é bem impressionante: a vasta maioria dos seres humanos acredita num Ser supremo, para quem nossa reação apropriada só pode ser a de reverência e adoração. Ninguém questiona a realidade de nossos sentimentos de reverência, atitudes de adoração e atos de louvor. Mas, se Deus não existe, essas atitudes nunca tiveram — nem uma vez sequer — um objeto real. Seria realmente plausível acreditar nisso?

A capacidade de reverência e adoração parece certamente ser inata a nós. Sendo assim, é difícil acreditar que esse desejo natural de adorar a Deus nunca poderia ser satisfeito, principalmente quando tanta gente testemunha que isso aconteceu. É bem verdade que é concebível que esse lado de nossa natureza possa ser frustrado; é possível pensarmos que milhões e milhões que declararam ter encontrado o Santo digno de reverência e adoração possam ter se iludido. Mas, é isso provável?

Parece muito mais provável que os que se recusam a acreditar nisso são os únicos que sofrem privação e ilusão — como a pessoa surda que negue a existência da música, ou como a dona de casa assustada que fica repetindo a si mesma que não está ouvindo gritos de terror e angústia vindos da rua e, quando seus filhos acordam com o barulho e perguntam: “Por que essa mulher está gritando, mamãe?” ela responde: “Ninguém está gritando: é só o vento, nada mais. Voltem a dormir.”

Questão 1: Mas a maioria não é infalível. A maioria das pessoas estava errada sobre os movimentos do sol e da Terra. Por que isso não poderia acontecer com relação à existência de Deus?

Resposta: Se as pessoas estavam erradas sobre a teoria heliocêntrica, ainda assim elas percebiam o sol, a Terra e um movimento. Elas simplesmente estavam equivocadas em achar que o movimento que percebiam era o do sol. Mas, se Deus não existe, o que é isso que os crentes têm experimentado? O nível de ilusão iria muito além de um erro coletivo; na verdade, seria uma psicose coletiva.

Acreditar em Deus é como ter um relacionamento com uma pessoa. Se Deus nunca existiu, esse relacionamento também jamais existiu. Estaríamos reagindo com reverência e amor a uma fantasia; e não haveria ninguém para receber nosso amor e reagir a nós. É como se acreditássemos estar bem casados e felizes, quando na realidade vivemos sozinhos num apartamento sujo.

É até concebível que exista alguma ilusão coletiva, mas, é isso provável neste caso? Se não houvesse quaisquer outros fatos experimentais, que tomados juntos com nossas percepções sobre o sol e a Terra, tornassem muito pouco provável que a Terra gira em torno do sol, seria tolice interpretar nossa experiência dessa maneira. O mesmo vale para a nossa experiência num relacionamento que envolve reverência, adoração e, por vezes, amor. Considerando essa amplamente difundida crença nele, é muito mais razoável a ideia de que Deus realmente existe — a menos que os ateístas consigam apresentar uma explicação bem persuasiva para a crença religiosa, uma explicação que leve em plena consideração a experiência dos crentes e que demonstre que ela pode ser mais bem explicada como uma ilusão, e não como algo real. Entretanto, os ateístas jamais fizeram isso.

Questão 2: Mas, não existe uma explicação psicológica bem plausível para a crença religiosa? Muitos não crentes sustentam que essa crença em Deus é resultado dos temores da infância; que Deus na verdade é uma projeção de nossos pais humanos, alguém que imaginamos que “está lá” para proteger-nos de forças naturais que consideramos hostis.

Resposta A: Na verdade, isso não é uma explicação naturalística para a crença religiosa. Ela nada mais é que uma afirmação, revestida com um jargão psicológico, de que a crença religiosa é falsa. Parte-se da premissa de que Deus não existe. Daí, chega-se à conclusão de que, já que o símbolo terrestre mais próximo do Criador é o pai, então Deus deve ser uma projeção cósmica de nossos pais humanos. Porém, tirando essa premissa dos ateus, não existe uma evidência convincente de que Deus nada mais é que uma mera projeção mental.

Na verdade, esse argumento é que levanta questões. Nós só procuramos explicações psicológicas para conceitos que já sabemos (ou presumimos) que são falsos, e não para aqueles que consideramos verdadeiros. Nós perguntamos a uma pessoa: Por que você acha que há cães negros lá fora querendo matá-lo? Você foi ameaçado por um quando era pequeno? Mas, nunca perguntaríamos a essa pessoa: Por que você acha que não há cães negros lá fora querendo matá-lo? Você teve um cachorrinho preto bonzinho quando era pequeno?

Resposta B: Embora possa haver algo de Deus que se reflita em nossos pais humanos (caso contrário, nosso simbolismo de Deus como Pai não teria qualquer sentido), os cristãos sabem que esse simbolismo é, em última análise, inadequado. E se o Ser Supremo é misterioso ao ponto de transcender qualquer simbolismo, então como é que Ele poderia ser uma mera projeção daquilo que o símbolo representa? A verdade parece ser – e se Deus existe, a verdade é – o contrário disso: nossos pais terrenos são projeções muito fracas de nosso Pai Celestial. Deve-se observar que vários escritores (como Paul Vitz) analisaram o ateísmo como sendo, em si mesmo, uma patologia psíquica: uma alienação dos pais humanos, que resulta em uma pessoa rejeitar Deus.

20. A APOSTA DE PASCAL

Suponhamos que você, leitor, ainda ache que todos esses argumentos acima são inconclusivos. Resta um último argumento, que é diferente dos demais. Ele veio a ser conhecido como a Aposta de Pascal. Nós o mencionamos aqui, adaptando-o para os nossos propósitos não por ele ser uma prova da existência de Deus, e sim porque ele pode ajudar-nos em nossa busca de Deus, na falta de outras provas.

Conforme foi proposta originalmente por Pascal, a aposta supunha que o raciocínio lógico sozinho não é suficiente para decidirmos a favor ou contra a ideia de que Deus existe. Ora, se a razão não permite uma decisão com certeza, e a questão tem tanta importância que devemos decidir de algum jeito, então, se não podemos provar, devemos “apostar”. Assim, a pergunta que se faz a nós é: Qual será a nossa aposta?

Se apostarmos na existência de Deus, não perdemos nada, mesmo que descobrirmos depois que Deus não existe. Porém, se apostarmos contra a existência de Deus e estivermos errados, porque Deus existe, perdemos tudo: Deus, a eternidade, o céu, a recompensa infinita. Colocado de outro modo: ‘Se vencer, você ganha tudo; se perder, não perde nada.’

Consideremos o seguinte diagrama:

As linhas verticais representam as crenças corretas, as diagonais representam as crenças incorretas. Comparemos as diagonais. Suponhamos que Deus não exista, mas eu acredite nele. Nesse caso, o que me espera após a morte não é a vida eterna, mas, muito provavelmente, a não existência eterna. Agora vejamos a outra diagonal: Deus, meu Criador e a Fonte de todo o bem, realmente existe; mas eu não acredito nele. Ele me oferece seu amor e sua vida, e eu o rejeito. Existem respostas para minhas questões mais profundas, existe satisfação para os meus desejos mais íntimos; mas eu decido desprezar tudo isso. Nesse caso, perco (ou, no mínimo, arrisco-me seriamente a perder) tudo.

Essa Aposta pode parecer ofensivamente carnal e puramente egoísta. Mas, ela pode ser reformulada apelando-se a uma motivação moral mais elevada: Se existe um Deus de bondade infinita, sendo Ele merecedor de minha fé e lealdade, arrisco-me a cometer a maior das injustiças por não reconhecê-lo.

Essa Aposta não pode — nem deve — coagir à crença. Mas, ela pode ser um incentivo para buscarmos a Deus, estudar e reestudar os argumentos que parecem demonstrar que existe Algo — ou Alguém — que é a explicação definitiva para o universo e nossa vida. Ela pode ao menos motivar a “Oração do Cético”: “Deus, não sei se tu existes ou não; mas, se existes, por favor, mostre-me quem és”.

Pascal dizia que há três tipos de pessoas: as que buscaram Deus e o encontraram, as que o estão buscando e ainda não o encontraram, e as que não o buscam, nem o encontram. As do primeiro grupo são razoáveis e felizes; as do segundo são razoáveis e infelizes; as do terceiro grupo são tanto irracionais como infelizes. Se a Aposta ao menos nos motivar a buscar, ela pelo menos estará nos estimulando a ser razoáveis. E, se a promessa de Jesus é verdadeira, todos os que procurarem acharão (Mat. 7:7,8), e assim, serão felizes.

__________________

Extraído de Handbook of Christian Apologetics [Manual de Apologética Cristã], Peter Kreeft e Ronald Tacelli (Intervarsity Press, 1994). Original em inglês