Um Só Corpo em Cristo

A palavra “igreja”, que aparece nas edições da Bíblia em línguas modernas, é a tradução de uma palavra grega, eclésia, que significa “os chamados” e refere-se ao corpo de Cristo. Como líder deste corpo, Cristo dirige e comanda o que é composto de muitos membros com diversos dons. Cada membro está conectado diretamente à cabeça, Cristo Jesus, e desse modo todos os membros desfrutam da comunhão uns com os outros, por meio de seu relacionamento com Cristo Jesus.

Na função, o corpo de Cristo não difere do corpo humano. De fato, Paulo usou o exemplo do corpo humano para explicar a natureza essencial do corpo de Cristo. Embora a eclésia não seja física, ela é real e prática, assim como nosso corpo humano.

A eclésia, ou corpo de Cristo, é um organismo espiritual com existência real, e é um corpo. Por esta razão, ela nunca deve ser dividida. Assim como o corpo humano não pode viver se for dividido em partes, o corpo de Cristo também não pode viver da maneira que Cristo pretendia, se for fragmentado. Por esta razão, uma igreja dividida não é uma igreja no sentido bíblico. Entretanto, essa é a condição das igrejas cristãs de hoje.

Mesmo nos dias de Paulo, os cristãos na cidade de Corinto começaram a se fragmentar. Alguns diziam que eram de Apolo, outros de Cefas, outros de Paulo, e alguns afirmavam pertencer a Cristo. Paulo expressou grande preocupação com esse sectarismo, e disse a eles que seu comportamento era carnal, não espiritual. Ele os aconselhou a falar com uma só voz, e não sucumbirem à divisão. O conselho de Paulo foi: “Rogo-vos, porém, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que digais todos uma mesma coisa, e que não haja entre vós dissensões; antes sejais unidos em um mesmo pensamento e em um mesmo parecer.” (1 Coríntios 1:10)

Lançando o seu repulsivo tentáculo nos dias de Paulo, a divisão se tornou mais e mais prevalecente depois da morte dos apóstolos. Sob a influência de Roma, o cristianismo tornou-se muito institucional. Ele também captou tendências filosóficas dos gregos e, sob essas influências, o Cristianismo se espalhou por toda parte. Infelizmente, porém, essa expansão foi acompanhada pelo institucionalismo, e este, por sua vez, alimentou o sectarismo, que tem proliferado até os nossos dias.

Felizmente este problema tem uma solução simples. O conselho de Paulo aos Coríntios foi que eles se concentrassem em Cristo. Era realmente simples assim. Paulo lembrou-lhes que era Cristo quem tinha morrido por eles. Era em seu nome que eles estavam sendo batizados. Por que, então, deveriam eles ser induzidos a seguir alguma outra pessoa? Além do mais, eles sabiam e acreditavam que as promessas de Deus seriam cumpridas por meio de Cristo, o Rei do futuro Reino de Deus. Eles haviam sido também atraídos pessoalmente a Cristo, porque ele era amoroso e misericordioso. Por que, então, eles estavam perdendo isso de vista?

Na primitiva eclésia, eles praticavam o batismo. Eles compartilhavam na Ceia do Senhor, pregavam as boas notícias do reino de Deus, e se encontravam para reuniões cristãs. Pode-se dizer, então, que esses atos de comunhão eram o centro da sua fé? De modo algum! O centro real era a comunhão com Deus por meio de Cristo, e os coríntios tinham perdido isso de vista.

É muito importante notar que a autoridade, conforme exercida pela eclésia do Novo Testamento nunca foi do tipo legal ou institucional, como vemos nas igrejas de hoje. Assim como Cristo antes deles, quem assumia a liderança entre os primeiros cristãos possuía apenas autoridade celestial ou espiritual. E essa autoridade era reconhecida apenas porque era evidente que eles falavam a verdade no poder do Espírito Santo. Mesmo a autoridade dos apóstolos não era legal ou institucional. O que eles falaram foi no poder do Espírito Santo de Deus e foi cumprido apenas por meio da convicção desse mesmo Espírito no coração dos homens.

Os cristãos na era apostólica nunca sonharam em fazer uma instituição ou organização no centro da igreja. Nem substituíram a atividade e a autoridade do Espírito Santo em seu meio pelo serviço humano ou autoridade terrestre. Por que, então, os cristãos perderam isso de vista? Por que eles se afastaram para tão longe da eclésia que o próprio Jesus tinha estabelecido? Na verdade, este desenvolvimento pecaminoso tinha sido predito. Está registrado no livro de Lucas, capítulo 22:35, 36 e estas foram as palavras de Jesus:

“Quando eu os enviei sem bolsa, saco de viagem ou sandálias, faltou-lhes alguma coisa?” ‘Nada’, responderam eles. Ele lhes disse: ‘Mas agora, se vocês têm bolsa, levem-na, e também o saco de viagem; e se não têm espada, vendam a sua capa e comprem uma.’”

Note que este conselho está em contraste direto com o que Jesus disse antes. Quando Pedro usou uma espada para defendê-lo por ocasião de sua prisão, Jesus repreendeu Pedro, e disse: “Guarde a espada! Pois todos os que empunham a espada, pela espada morrerão.”

Qual é a razão para esta aparente contradição no conselho que Jesus deu nessas duas ocasiões? Aparentemente, esta é uma declaração profética sobre o que seus seguidores fariam. Jesus parece estar dizendo que seus seguidores iriam trocar suas roupas exteriores (capas) por uma espada. Como assim? Bem, conforme as Escrituras mostram, o vestuário exterior representa a identificação de um cristão. No Apocalipse 3:18, Jesus exortou sua congregação a adquirir roupas exteriores brancas. E em Apocalipse 19:8, Jesus explica o que isso significa. Ele diz: “Foi-lhe dado para vestir-se [isto é, à eclésia, ou igreja] linho fino, brilhante e puro. O linho fino são os atos justos dos santos.”

Obviamente, então, Jesus estava predizendo que a sua eclésia trocaria seus atos de justiça por uma espada. Em primeiro lugar, isso significou que eles perderiam sua identificação como verdadeiros cristãos. Eles deixariam de ser os verdadeiros seguidores das pisadas de Jesus Cristo. Como? Por trocarem suas vestes de identificação, seus atos justos, por uma espada, ou seja, a espada do Estado. Historicamente, isso foi exatamente o que ocorreu. Em seu livro, O Corpo Único em Cristo, Kokichi Kurosaki faz comentários sobre este período, e ele tem a dizer o seguinte:

“Quando o imperador Constantino fez do cristianismo uma religião nacional, usando-o como um instrumento de autoridade espiritual sobre todo o império, as perseguições sangrentas do Império Romano finalmente cessaram. Depois disso, o cristianismo se espalhou rapidamente em todo o território do Império Romano. Ao se expandir, o Cristianismo desenvolveu a organização que o tornou a Igreja. E este sistema institucionalizado tornou-se cada vez mais centralizado, até que finalmente o bispo de Roma se tornou o pai de toda a Igreja Romana. Desse modo, a autoridade imperial, conseguindo agora o seu poder tanto por meio da união política como da união eclesiástica, poderia declarar todos os cidadãos do estado como cristãos, membros dessa Igreja. Em resultado disso, a verdadeira natureza da eclésia, como o corpo vivo de Cristo, perdeu-se dentro dessa igreja, e ela se tornou apenas uma entidade jurídica, regulamentada pela lei da Igreja, em vez de pelo Espírito Santo de Deus. Da mesma maneira que as leis do Estado, a fé foi reduzida a um credo, formulado para os membros comuns da Igreja e a ser seguido por eles. Aqueles que não aceitassem esse credo eram punidos, assim como ocorria com aqueles que não obedecessem à lei.”

Ele prossegue dizendo: 

“Quando o cristianismo foi transformado numa instituição legal desse tipo, não se poderia mais esperar que a comunhão, ou associação com Deus e Cristo fosse o centro da eclésia. O centro da fé foi transferido. Ela foi tirada de Deus e de Cristo, uma união espiritual com Cristo como cabeça da eclésia, e dada ao governo legal do papa. A eclésia espiritual foi substituída pela igreja institucional terrestre, cujo centro era o papa. Nesta igreja, a irmandade dos cristãos não estava mais no corpo de Cristo que dá vida a todos os que estão em união com ele, e Cristo já não era a cabeça do corpo, sua Igreja. Com o estabelecimento da Igreja institucionalizada, a adoração a Deus em espírito e verdade morreu e foi substituída por rituais e adoração formal. As palavras em 1 João 2:27 não podiam mais ser aplicadas aos cristãos, pois João disse: “Quanto a vocês, a unção que receberam dele permanece em vocês, e não precisam que alguém os ensine; mas, como a unção dele recebida, que é verdadeira e não falsa, os ensina acerca de todas as coisas, permaneçam nele como ele os ensinou.”

Bem, sob o domínio da igreja institucionalizada, estas palavras já não se aplicavam aos seus membros. A igreja de Roma passou a insistir que fora da associação com ela não poderia haver salvação. Não só as pessoas perdiam sua condição de associado por discordarem do dogma da igreja, como também elas não eram sequer consideradas cristãs. Isso foi o que a Igreja ensinou. Os ensinos da Igreja tornaram-se as leis para essas pessoas, e aqueles que se recusassem a obedecê-los eram excomungados. Eles perdiam seus direitos legais como cidadãos, perdendo, por sua vez, a proteção do Estado. Opor-se à Igreja Católica Romana era muito mais sério do que opor-se ao Estado. Os homens foram privados do direito de procurar a verdade livremente. Aqueles que tivessem fome e sede de fé e de vida espiritual tinham de buscar satisfazê-las sob risco de suas vidas.

Esta punição severa impressionava profundamente as massas, pois rejeitar a crença da Igreja era considerado o pior pecado que uma pessoa poderia cometer. E assim os homens foram levados a pensar que era seu dever cristão obedecer a essas leis e perseguir qualquer um que discordasse.

Na reforma, Martinho Lutero e João Calvino estabeleceram novas igrejas em muitas partes da Europa, separadas da Igreja Romana. Desta forma, o papa romano e a instituição romana perderam sua posição como o centro do cristianismo. A fé de Lutero era Sola Scriptura, ou seja, a Bíblia somente e a união com Cristo em espírito e vida. E foi realmente a Bíblia que o levou a esta conclusão.

Outros reformadores também encontraram nas Escrituras a fonte de toda a verdade. Todavia, gradualmente a posição das Escrituras como o testemunho inspirado por Deus da fé pessoal dos apóstolos em Cristo mudou, e se tornou a fonte do dogma protestante, e o critério da fé aceitável. Substituindo o papa romano, a Bíblia se tornou o centro do cristianismo nas igrejas protestantes. Mas, assim como o catolicismo, o protestantismo tentou fazer uma distinção clara entre a fé ortodoxa e a herética, e excluir os “hereges” desta nova igreja “purificada”. Aos seus olhos, só eles tinham a verdadeira fé, e deveriam se opor a todos os demais, que estavam errados.

A verdadeira causa desta confusão e do desastre do sectarismo é realmente devida a um conceito errôneo quanto à verdadeira natureza da eclésia. O centro do cristianismo não é instituição, nem organização, nem a própria Bíblia, como entendiam os reformadores, pois a eclésia já existia antes da formação do cânon do Novo Testamento. Os cristãos já estavam em comunhão com Deus e uns com os outros, centralizando sua fé em Cristo e, assim constituindo a eclésia. É claro que eles tinham as Escrituras Hebraicas, mas certamente não tinham até então estabelecido todos os ensinamentos em forma de cânon, no que estas Escrituras se referiam à obra de Cristo.

Só existe um centro do Cristianismo – um apenas – e este centro é: associação espiritual com Deus por meio de Cristo. É apenas isso! Quando existe essa comunhão, aí está a eclésia. Na ausência dela, não há eclésia. Pode haver pessoas bem clericais, edifícios suntuosos, dogmas eruditos, doutrinas e assim por diante, mas se não existir uma verdadeira associação com Deus por meio de Cristo, não há eclésia. Por outro lado, se existe essa comunhão com Deus por meio de Cristo, os cristãos amarão uns aos outros, e eles serão um em Cristo, apesar de certas diferenças doutrinárias.

A fé é o dom de Deus que produz em nós a comunhão com Ele e com seu Filho. Essa comunhão não pode ser criada por homens, nem pode ser mantida por esforços humanos. Com o Espírito de Deus nos governando diretamente, nós amamos uns aos outros, e fazemos a obra de Deus por obedecê-lo. A fé é simplesmente outra palavra para a comunhão – a comunhão com Deus. Neste relacionamento, o poder de Deus opera por meio de nós. Por essa razão, não há necessidade de sacerdotes, nem de pastores. A única coisa necessária é se arrepender e vir a Cristo para o perdão de pecados e à vida nova que ele dá gratuitamente.

Quando nosso Senhor andou pela terra, ele elogiou a fé de uma pessoa e condenou a pouca fé de outra. Ele reconheceu a fé de uma mulher pecadora, de um leproso, de uma mulher com um fluxo de sangue e de um homem cego, e então disse a eles: “A tua fé te salvou.”

Sabia que em todos esses casos não havia qualquer base doutrinária específica, nem instituição, nem estava envolvida alguma cerimônia? Aqueles que confiaram inteiramente em Jesus Cristo, exercendo fé nele, tiveram seus pecados perdoados. Foi simples assim. A única condição era a fé em Cristo Jesus. Se essa fé existia, e eles se juntaram a outros crentes, isso foi o início da eclésia, porque através desta associação, eles se tornaram um com Cristo e ele se tornou seu Senhor.

Note-se que, por assim dizer, estou só definindo o contorno. É claro que algo mais estava envolvido, mas estou falando apenas sobre as coisas principais. Em uma palavra, então, o cristianismo tem seu centro em nossa comunhão com Deus por meio de Cristo.

Quando este aspecto central da associação de Deus com os homens por meio de Cristo se torna claro para nós, percebemos imediatamente que todos os outros elementos, tais como uma igreja institucional, interpretações da Bíblia, doutrinas, e assim por diante, não podem ser o centro do cristianismo. Além disso, quando este fato fica claro para nós, chegamos a perceber que não podemos julgar os outros por qualquer padrão desse tipo. Aliás, não devemos nem ficar julgando os outros, para começo de conversa. Isso não é nossa prerrogativa. Tanto nosso Senhor Jesus como seu servo Paulo trouxeram esse detalhe à nossa atenção.

Em vez de julgar outros crentes, devemos mostrar amor por eles. Essa exigência, estabelecida pelo próprio Jesus, está registrada em João 13:35, onde se lê: “Um novo mandamento lhes dou: Amem-se uns aos outros. Como eu os amei, vocês devem amar-se uns aos outros. Com isso todos saberão que vocês são meus discípulos, se vocês se amarem uns aos outros.” É só isso. Nada de julgamento de outros, só o amor aos outros. É esse amor que identifica o verdadeiro discípulo de Jesus Cristo.

Quão importante é a nossa comunhão com Deus! É a própria essência da nova vida que temos em Cristo. Em João 5:39, Jesus disse aos judeus: “Vocês estudam cuidadosamente as Escrituras, porque pensam que nelas vocês têm a vida eterna. E são as Escrituras que testemunham a meu respeito.” Sim! É o nosso relacionamento com Cristo que nos conduz a Deus.

A redenção por meio do sangue de Cristo é, naturalmente, a verdade mais fundamental das Escrituras. É a própria base sobre a qual temos autorização para nos aproximarmos de Deus e ter associação com Ele. No entanto, embora possamos conhecer a doutrina da redenção, isso não significa necessariamente que estamos vivendo a experiência da comunhão que ela torna possível. E, no entanto, isso é realmente o que Deus deseja para nós, pois este era o Seu propósito por ocasião de nossa criação.

Em vista disso, nunca devemos fazer das doutrinas o centro de nossa adoração, muito embora as coisas em que nós são extremamente importantes. É a vida de Cristo e nossa associação com Deus por meio dele que deve ter sempre o papel central em nossas vidas. Por exemplo, crer na ressurreição é uma coisa, mas ter comunhão com o Cristo ressuscitado é outra coisa, completamente diferente. Existem muitos cristãos que, por um motivo ou outro não podem apoiar alguma afirmação doutrinária, mas estão firmemente achegados a Deus, mantendo obediência leal a Ele de coração.

Acredito que quando discernimos que o verdadeiro centro do cristianismo é a associação com Deus por intermédio de Cristo, poderemos ver com mais clareza a verdadeira causa da divisão. Mas, ainda mais importante, entenderemos como eliminar essa divisão. Com muita freqüência, as igrejas institucionais, em vez de ajudar os crentes a desenvolver a vida em Cristo, na verdade a sufocam, ou pior, afastam essa vida dos crentes, e isso gradualmente produz instituições sem vida, em lugar da eclésia viva. Conseqüentemente, os cristãos que verdadeiramente têm a vida em Cristo não podem existir dentro desse cadáver, e, geralmente, eles por vim se vêem saindo da instituição. Mas é triste dizer que em muitos casos tenho observado aqueles que deixam instituições mortas simplesmente se pondo a construir uma instituição melhor, ou abraçando um novo conjunto de doutrinas, repetindo assim o mesmo erro. Em vez de se voltar para Deus por meio de Cristo como o centro de sua vida e de sua adoração, eles procuram mais uma vez a comunhão e a segurança espiritual sobre a mesma base que já tinha se mostrado falha. Em vista disso, podemos perguntar: Como podemos saber quem está tendo verdadeira associação com Deus por meio de Cristo?

A resposta simples é que não cabe a nenhum de nós fazer esse tipo de julgamento. Na verdade, este é um problema que foi criado, mas que não precisa existir, já que não se pode fazer nenhum julgamento final quanto à fé de uma pessoa neste momento. Se alguém acredita nas Escrituras Sagradas como a inspirada Palavra de Deus e que Ele deu o seu Filho como resgate pela humanidade, isso é tudo o que se requer para a associação simples que podemos ter entre os cristãos, a qual Deus deseja que tenhamos. O estabelecimento de linhas demarcatórias e distinções criadas pelo homem só é importante para as organizações e instituições religiosas. No entanto, a partir do momento em que deixamos de lado esse tipo de coisa, e paramos de achar necessário o julgamento objetivo, nós ainda podemos, na prática real, embora imperfeita, dizer se alguém é um cristão verdadeiro ou não.

A base mais importante para esse reconhecimento é, obviamente, que essa pessoa aceite Jesus Cristo como seu Senhor, com a sinceridade de uma vida que demonstra a liderança dele. Haverá a realidade de amar a Deus e os homens na experiência prática. É um fato lamentável que milhares e milhares de pessoas que pertencem a diversas igrejas têm muito pouco amor para com outros cristãos. Este fato, por si só, põe em dúvida a alegação delas de serem cristãs, porque as palavras de 1 João 4:8 dizem: “Quem não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor.”

Seguindo a linha de raciocínio de João, então, se uma pessoa não conhece a Deus, dificilmente ela poderá estar em comunhão com Ele, certo? Quão importante é que os cristãos tenham amor pelos crentes associados! É esse amor uns pelos outros que nos conduz para o corpo de Cristo, pois todos os verdadeiros cristãos são um só corpo em Cristo. Não podemos criar isso. Nenhuma instituição religiosa pode criar uma verdadeira associação desse tipo. Isso é algo que o próprio Deus realiza por meio de Cristo. Devemos reconhecer que este é o modo como Deus fez isso, e daí devemos por em prática. Devemos colocar nossas diferenças de lado, em um plano secundário. Por quê? Porque a associação com os verdadeiros crentes, a qual Deus tinha em mente para nós, resultará tanto em oportunidades de compartilhar coisas que aprendemos nas Escrituras, como em levar em consideração o ponto de vista de outros crentes.

Ademais, quando há verdadeira associação com Deus, a unidade virá naturalmente, por si só, contanto que não ergamos quaisquer barreiras criadas pelo homem. Devemos acolher uns aos outros com base na associação mútua com Deus. Esta é a essência da verdadeira eclésia, e nesse tipo de associação livre a verdade seguramente triunfará. E, o que é mais importante, este é o único caminho para a unidade dos cristãos, aqueles que são realmente os verdadeiros cristãos. Não poderia ser de outra forma, porque a cabeça e os membros estão realmente conectados espiritualmente, e é por causa dessa ligação que temos esta verdadeira associação com Deus por meio de Cristo.

Essa associação é a fé em seu sentido mais puro, e ter esse tipo de fé significa que estamos confiando em Jesus Cristo de todo o nosso coração. Pois foi a Cristo que Deus deu toda a autoridade. Ter esta fé significa também obedecer ao mandamento dele de amarmos uns aos outros. Por esta razão os cristãos não devem permitir que doutrina, conceitos teológicos e outras coisas desse tipo se interponham entre eles, impedindo assim a comunhão cristã. Este é o aspecto mais crítico, porque a ausência dessa comunhão significa que não há eclésia, ainda que haja o batismo, a Ceia do Senhor, as boas obras, ou qualquer outra coisa. Atividades humanas não podem criar a eclésia, e ela não existe fora da associação dos cristãos com Cristo.

Uma vez que a eclésia é espiritual, e é um relacionamento baseado na comunhão com Deus por meio de Cristo, ela não pode ser vista com olhos humanos. No entanto, a realidade desta associação se revela na vida do crente por sua confissão de fé em Cristo Jesus, por seu amor cristão para com os outros, e por sua obediência a Deus, conforme demonstrada por sua conduta. Além disso, se alguém é realmente cristão, essa pessoa é sensível a essa associação de fé com outros cristãos.

As instituições cristãs, muitas vezes registram o batismo para manter o controle do rol de membros associados. Se pudéssemos saber conclusivamente se alguém é cristão por meio do seu batismo, não seria conveniente? Mas como a maioria de nós pode reconhecer, há muitos não-cristãos batizados. É óbvio, então, que não existe uma maneira humana de distinguir claramente entre crentes e não crentes, especialmente em casos limítrofes. Os métodos de distinção sobre os quais as igrejas e os grupos religiosos muitas vezes se apóiam só podem resultar, como a experiência continuamente prova vez após vez, na inclusão de alguns que realmente não conhecem a Cristo, e na exclusão de outros que têm uma vida em Cristo. Neste sentido, as igrejas existentes não podem ser consideradas como equivalentes à eclésia, o verdadeiro corpo de Cristo. E, por essa razão, temos de fazer uma distinção clara entre ambos, isto é, entre as igrejas dos homens, e a eclésia de Cristo, o corpo no qual ele vive.

Para aqueles que estão habituados à prática religiosa dentro do ambiente das igrejas institucionais, pode parecer confuso e muito difícil pensar numa associação cristã com Deus e com Cristo como algo que ocorre sem uma organização eclesiástica estabelecida. Todavia, essa ansiedade não é necessária. O propósito de Deus em estabelecer uma associação com Ele por meio de Cristo é um fundamento verdadeiro e prático para sua realização. Nosso problema reside no fato de que temos duvidado da associação espiritual – com Ele e uns com os outros – que Deus nos deu por meio de Cristo. Todavia, esse companheirismo provido por Ele é a base suficiente para a comunhão cristã plena e verdadeira. Naturalmente, alguns podem duvidar disso porque a associação livre e simples, tem sido prejudicada e obstaculizada pelo institucionalismo. É principalmente por esta razão que devemos deixar o poder vivificante do Espírito Santo nos libertar deste falso eclesiasticismo. Pois é só dessa maneira que podemos ter a esperança de efetivar a verdadeira comunhão cristã de que Deus providenciou para nós.

A nova vida que nos é concedida em nosso novo nascimento, embora seja espiritual, é uma vida real, e ela se expressará na vida prática. Esta nova vida revelará nossa fé, tanto em palavras como em ações. Além disso, assim como os primitivos cristãos, vamos dar testemunho de nossa fé em Deus e seu Filho sem hesitação, e não teremos dificuldades em localizar outros crentes. Na verdade, os verdadeiros cristãos reconhecem uns aos outros por terem a mesma vida.

As organizações e instituições eclesiásticas precisam conduzir determinadas funções e atividades – é por isso mesmo que elas são organizadas da maneira que são. Mas lembre-se que Jesus disse: “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.” Mesmo quando não há nenhum edifício de igreja ou liderança oficial como tal, Cristo estará no meio de pessoas reunidas em seu nome. Essa é a promessa dele. E esta é a essência da verdadeira eclésia, ainda que não exista uma organização eclesiástica como tal.

Quando esses que confessam Cristo estão levando uma vida de comunhão com o Senhor, eles verão como algo natural, e experimentarão a verdadeira associação da eclésia com outros cristãos, contanto que elementos doutrinários e institucionais sejam mantidos em posição secundária. De modo que a associação deles é inteiramente resultante da comunhão com Cristo. Quando estão unidos nesta simples base do Novo Testamento, os cristãos tolerarão as diferenças de opinião e de prática religiosa em assuntos secundários. Eles vão amar uns aos outros com o amor que Cristo disse que eles deveriam ter entre si. E este amor vai realmente ajudá-los a encontrar a unidade pela qual os cristãos anseiam. Desta forma, a confissão de fé da pessoa, se não for desmentida por sua maneira de viver, é a prova de que ela está vivendo em comunhão com Deus e tornou-se membro do corpo de Cristo. Mas se alguém diz, conforme João expressou em 1 João 4:20, “eu amo a Deus, e odeia a seu irmão, é mentiroso.” Ademais, nós podemos dizer à base da conduta de uma pessoa em sua vida cotidiana se sua confissão é sincera ou não. Conforme Jesus disse, “toda árvore é reconhecida por seus frutos.” (Lucas 6:44; Mateus 7:15-20)

A eclésia é um corpo, constituído por muitas personalidades independentes, embora interdependentes. Alguns crentes têm profunda perspicácia teológica. Outros têm um ardente pendor evangelístico. Alguns têm certo dom, outros tem um dom diferente. Existem também diferenças raciais, lingüísticas, educacionais, sociais, culturais, e assim por diante. Todavia, nenhuma dessas diferenças deve ser motivo para divisão. Por que deveríamos pensar que a divisão é a única alternativa para se ter a unidade? Não só é desnecessário, como também é de fato prejudicial tentarmos anular nossas diferenças. Em vez de excluirmos aqueles cujo conhecimento e compreensão são diferentes dos nossos, devemos amá-los, agradecendo a Deus pelos dons que Ele concedeu por meio dessas pessoas.

É a soberba que despreza aqueles que são diferentes. Se respeitarmos as pessoas que têm uma compreensão diferente da nossa, vamos amar uns aos outros, e isso vai contribuir para a saúde do corpo de Cristo, em vez de prejudicá-lo. Jamais devemos fazer das nossas diferenças um ponto de discórdia, fazendo com que nosso próprio entendimento do cristianismo substitua Cristo como o centro da verdadeira fé e associação. Todavia, uma vez que os homens têm permitido que essa coisa aconteça, o que Deus pretendia que fosse uma bênção para nós e para o inteiro corpo de Cristo tornou-se uma maldição, dividindo os cristãos e separando uns dos outros. Em toda parte vemos crentes colocando outros crentes para fora de sua associação – rejeitando, condenando e desprezando aqueles em quem Cristo vive. Quão deplorável isso é aos olhos de Deus – que as pessoas se recusem a obedecer à injunção de amar uns aos outros!

Mas isso não significa que um cristão pode acreditar em qualquer coisa que ele deseja, e que qualquer tipo de fé é a fé cristã – em absoluto. Existem fundamentos que não podemos ignorar. Uma fé viva em Cristo é um elemento essencial. Reconhecermos nosso Pai Celestial como Todo-Poderoso, como Jesus fez, é essencial. Aceitar as Escrituras como “uma lâmpada para os nossos passos e uma luz que clareia o nosso caminho” é outro requisito essencial. Igualmente importante é uma comunhão viva com Deus por meio de Cristo. Além disso, nossa conduta deve ser cristã! Isso é fundamental. Na verdade, todas essas coisas são essenciais para a fé cristã.

Há, porém, algumas razões bíblicas para separar-nos dos outros. A primeira é dada pelo próprio Cristo Jesus. Em Mateus 18:17 ele disse que se as pessoas se comportam de uma maneira não-cristã, e não se arrependem, devem ser tratadas como se fossem incrédulos. O apóstolo Paulo disse que não deveríamos nos associar com aqueles que afirmam ser irmãos, mas se envolvem em prática pecaminosa (1 Coríntios 5:13). E o apóstolo João declarou que: ‘Se alguém não confessa que Jesus Cristo veio em carne, não devemos receber essa pessoa em nossa casa, nem saudá-lo.’ (2 João 7-10) Mas estas são as únicas razões para a separação. O entendimento peculiar que uma pessoa tenha da Bíblia não é uma dessas razões.

Para resumir, leiamos o que Paulo escreveu aos Efésios, capítulo 4. “Há um só corpo e um só Espírito, assim como a esperança para a qual vocês foram chamados é uma só; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, um só Deus e Pai de todos, que é sobre todos, por meio de todos e em todos.”

Esta verdade básica é reforçada para nós em Efésios 4:15, 16, e concluo com estas palavras. Paulo diz: “Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo, do qual o corpo inteiro bem ajustado, e ligado pelo auxílio de todas as juntas, segundo a justa operação de cada parte, efetua o seu crescimento para edificação de si mesmo em amor.” Quão maravilhoso isso é! Amém!

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[Palestra proferida por Lewis Hrytzak em outubro de 2002. A transcrição foi traduzida e apresentada no Mentes Bereanas, com permissão do autor.]