Os "Tempos dos Gentios" de Lucas 21:24

E cairão ao fio da espada, e para todas as nações serão levados cativos; e Jerusalém será pisada pelos gentios, até que os tempos dos gentios se completem. – Lucas 21:24, NVI.

 

A. O CONTEXTO IMEDIATO DE LUCAS 21:24

 

NA TENTATIVA de compreender a frase “tempos dos gentios”, ou “tempos designados das nações” (TNM) que se encontra em Lucas 21:24, é importante considerar o contexto desta profecia. Será que o contexto realmente indica que “Jerusalém” neste texto não é só uma referência à cidade de Jerusalém, mas simboliza o “reino da dinastia de regentes davídicos” (ou “reino da dinastia do Rei Davi”), de modo que o “pisoteio” de Jerusalém refere-se primariamente, não à cidade literal de Jerusalém, mas ao “reino de Deus, conforme exercido pela casa de Davi”? [1]

O contexto imediato de Lucas 21:24 não dá apoio a este conceito. Os termos usados no contexto, tais como “Jerusalém” e “gentios” (ou “nações”), têm significado claramente literal. Por exemplo, quando se prediz no versículo 20 que “Jerusalém será cercada por exércitos acampados”, estariam esses exércitos de alguma maneira cercando, não apenas a cidade literal de Jerusalém, e sim o “reino da dinastia de regentes davídicos”? Uma vez que Jesus Cristo foi o último e eterno governante da dinastia do Rei Davi, tendo começado (conforme foi mostrado no capítulo anterior) seu reinado universal da “Jerusalém celestial” após sua ressurreição e exaltação, como poderia o cerco da cidade terrestre de Jerusalém constituir qualquer ameaça contra o “reino da dinastia do Rei Davi”?

Além disso, se o cerco de “Jerusalém” serviria de advertência para os discípulos de que a desolação dela se aproximava, indicando-lhes que deveriam se ‘retirar’ de Jerusalém e ‘não entrar nela’ (v. 21), será que este cerco na realidade significaria que a desolação do “reino da dinastia do Rei Davi” estava próximo, dizendo aos discípulos para se retirar do “reino de Deus, conforme exercido pela casa de Davi”? Obviamente, uma aplicação consistente do entendimento que a Sociedade Torre de Vigia tem desse trecho leva a conseqüências absurdas.

A “Jerusalém” de Lucas 21:20, 21 significa evidentemente a cidade literal de Jerusalém. Conforme predito, esta cidade foi “cercada por exércitos acampados”, ou seja, pelos exércitos romanos sob o general representante de Roma na Síria, Céstio Galo, em 66 E.C. E quando o versículo 24 continua predizendo que Jerusalém seria “pisada pelas nações”, esta dificilmente poderia ser outra além da Jerusalém que seria cercada pelos exércitos acampados, ou seja, a cidade literal de Jerusalém. Não poderia ter sido o “reino da dinastia de regentes davídicos” que foi sitiada e finalmente destruída pelos exércitos romanos sob Tito em 70 D.C.

A Sociedade Torre de Vigia concorda que “o termo ‘nações’ ou ‘gentios’ traduz a palavra grega é·thne, que significa “nações” e foi usada pelos escritores bíblicos para referir-se especificamente às nações não judaicas”. [2] Portanto, quando se afirma em Lucas 21:24 que os judeus “cairão ao fio da espada, e para todas as nações (é·thne, TNM) serão levados cativos”, e que Jerusalém seria “pisada pelas nações (é·thne, TNM)”, estas “nações” não poderiam ser outras além das nações não judaicas literais.

De modo que o contexto de Lucas 21:24 exige claramente uma Jerusalém literal cercada por exércitos literais (versículo 20) numa Judéia literal (versículo 21), pisada e desolada por nações não judaicas literais (versículo 24). A alegação de que Jerusalém neste trecho significa o “reino de Deus, conforme exercido pela casa de Davi” não encontra apoio algum no contexto imediato.

B. AS CARACTERÍSTICAS DA EXPLANAÇÃO DE LUCAS 21:20-24

A frase “tempos dos gentios” ocorre na longa profecia de Jesus, conhecida como o Sermão do Monte das Oliveiras. Este sermão é registrado por todos os três evangelhos sinóticos (Mateus 24, Marcos 13 e Lucas 21). Todavia, alguns enunciados utilizados por Lucas na profecia da desolação de Jerusalém no capítulo 21:20-24, são peculiares à versão dele do discurso. Uma delas é a declaração no versículo 20 de que “Jerusalém” seria “cercada por exércitos acampados.” Outra é a frase “tempos dos gentios”, no versículo 24.

O cenário histórico do discurso foi o ensino público de Jesus dentro ou perto do recinto do templo durante os últimos dias de seu ministério terrestre. Em um desses dias, certas pessoas estavam “falando sobre o templo [hierón], que este estava adornado com pedras excelentes e com coisas dedicadas.” (Lucas 21:5, TNM) Ouvindo isso, Jesus disse:

Quanto a estas coisas que estais observando, virão os dias em que não ficará aqui pedra sobre pedra sem ser derrubada. – Lucas 21:6, TNM.

De acordo com esta declaração a impressionante estrutura do templo, com seu santuário central deveria ser completamente arruinada. Reagindo a esta predição chocante, quando se retiraram mais tarde para o Monte das Oliveiras (compare com Marcos 13:3), alguns dos discípulos de Jesus aproximaram-se dele em particular, perguntando:

Instrutor, quando serão realmente estas coisas e qual será o sinal quando estas coisas estão destinadas a ocorrer? – Lucas 21:7, TNM.

Na versão de Lucas do sermão, as duas perguntas dos discípulos tinham que ver com a desolação do templo. Eles queriam saber (1) quando esta destruição ocorreria, e (2) que tipo de sinal eles deveriam esperar para saber que este evento estava próximo.

Primeiro Jesus predisse, em Lucas 21:8-19, uma série de eventos que antecederiam a destruição final, as coisas que “têm de ocorrer primeiro” (versículo 9) e que poderiam ser confundidas com os sinais da proximidade da destruição predita.

Daí, no versículo 20, Jesus apontou diretamente para o sinal que indicaria aos discípulos que a catástrofe estava próxima. Segundo a versão de Lucas do sermão, Jesus, agora ampliava a área da destruição que viria para incluir, não só o templo, mas a inteira cidade de Jerusalém:

Quando virem Jerusalém rodeada de exércitos, vocês saberão que a sua devastação está próxima. Então os que estiverem na Judéia fujam para os montes, os que estiverem na cidade saiam, e os que estiverem no campo não entrem na cidade. – Lucas 21:20, 21, NVI.

Contudo, em vez de “Jerusalém rodeada de exércitos”, as narrativas paralelas de Mateus e Marcos, falam ambas de uma ‘abominação da desolação (bdélygma tês érêmôseôs) que estaria onde não deveria estar’ ou “no lugar santo”:

Ora, quando vós virdes a abominação da desolação estar onde não deve estar (quem lê, entenda), então os que estiverem na Judéia fujam para os montes. – Marcos 13:14, Almeida Atualizada.

Quando, pois, virdes estar no lugar santo a abominação de desolação, predita pelo profeta Daniel (quem lê, entenda), então os que estiverem na Judéia fujam para os montes – Mateus 24:15, 16, Almeida Atualizada.

Conforme declarado por Jesus em Mateus 24:15, esta “abominação da desolação” havia sido “predita pelo profeta Daniel”. Obviamente por causa da natureza obscura desta frase Jesus acrescentou “quem lê [a profecia de Daniel] entenda”. Lucas, porém, que escreveu principalmente para um público não judaico, dá uma explicação da frase. Esta é evidentemente a razão pela qual ele deixa de fora as palavras, “quem lê entenda”. A explicação dele foi clara o suficiente. Mas, de onde ele tirou isso?

Muitos eruditos modernos em Novo Testamento afirmam que Lucas escreveu seu evangelho vários anos depois da destruição de Jerusalém pelos romanos em 70 DC, e que a reformulação que ele fez da predição de Jesus reflete as tentativas dele de se ajustar à realidade histórica. [3]

No entanto, uma série de estudiosos de renome, que examinaram exaustivamente o vocabulário especial usado por Lucas, acham esta teoria problemática. Uma explicação muito mais simples é que Lucas, em adição à matéria encontrada em Mateus 24 e Marcos 13, também utilizou outras fontes disponíveis para ele. [4] Deve-se recordar que Lucas apresenta o seu evangelho, explicando que ele havia ‘pesquisado todas as coisas com exatidão, desde o início, para escrevê-las em ordem lógica.’ (Lucas 1:3, TNM) Como nenhum dos evangelistas sinóticos esteve presente durante o discurso de Jesus, todos eles, direta ou indiretamente, dependeram dos relatos fornecidos pelos discípulos que estiveram presentes como ouvintes (Marcos 13:3). De modo que a linguagem explanatória de Lucas pode muito bem ser remontada ao próprio Jesus por meio de um ou mais dos discípulos presentes e, desse modo, refletir as próprias palavras de Jesus, embora preservadas só por Lucas. [5]

Outra circunstância que em grande parte explica o vocabulário usado por Lucas é a relação entre o discurso do Monte das Oliveiras e o Antigo Testamento, e especialmente as profecias de Daniel. Em sua profecia, Jesus não só citou diretamente de Daniel, quando falou da “abominação da desolação” (Dan 9:27; 11:31, 12:11), da “grande tribulação” (Dan. 12:1), e do “Filho do Homem” vindo “com as nuvens do céu” (Daniel 7:13, 14), como também seu discurso contém uma série de alusões a outros trechos de Daniel. [6]

Além disso, como os Evangelhos foram escritos em grego, as citações e alusões ao livro de Daniel e a outras partes do Antigo Testamento são muitas vezes baseadas na versão grega Septuaginta (LXX) do Antigo Testamento. Isto é também verdade no caso de algumas frases e termos peculiares a Lucas em Lucas 21:20-24.

A dependência que Lucas teve da Septuaginta nesta seção do livro dele foi analisada em 1947 pelo Professor Charles H. Dodd. Em um estudo cuidadoso dos dois trechos de Lucas que tratam da destruição de Jerusalém (Lucas 19:42-44 e 21:20-24), ele afirma:

O fato é que todo o vocabulário significativo de ambas as passagens de Lucas pertence à Septuaginta e é, na maior parte, característica dos livros proféticos...

Parece, então, que não são só os dois oráculos de Lucas são compostos inteiramente com base na linguagem do Antigo Testamento, como também a concepção do desastre vindouro que o autor tem em mente é um quadro generalizado da queda de Jerusalém conforme apresentado imaginativamente pelos profetas. Mais do que qualquer acontecimento histórico, o que deu vida ao quadro não foi a captura de Jerusalém por Tito em 70 D.C., e sim a captura da cidade por Nabucodonosor, em 586 A.C. Não há um único traço da previsão que não possa ser documentado diretamente do Antigo Testamento. [7]

Embora alguns dos paralelos da LXX alistados por Dodd possam muito bem ter sido traduzidos diretamente do texto hebraico, permanece o fato de que o vocabulário de Lucas 21:20-24 baseia-se principalmente no Antigo Testamento, e em particular no livro de Daniel. Assim, a partir do momento em que “abominação da desolação... estar no lugar santo” é substituída pela expressão “Jerusalém cercada por exércitos”, pode-se demonstrar que Lucas não a reformulou livremente em sua própria mente. Como será mostrado logo a seguir, a explicação dele, quer remonte ao próprio Jesus quer não, parece ser claramente baseada no mesmo trecho que foi citado por Jesus, a saber, Daniel 9:26, 27.

C. A DESTRUIÇÃO DE JERUSALÉM DE DANIEL 9:26, 27

Conforme vimos, ao falar da “abominação da desolação”, Jesus mencionou aos seus ouvintes a profecia de Daniel, e acrescentou: “Quem lê entenda.” Portanto, quando os discípulos ponderaram mais tarde sobre a predição de Jesus, uma coisa natural a fazer seria verificar atentamente o trecho pertinente em Daniel para saber o que o contexto indicava quanto ao significado da frase.

Há três passagens na versão LXX grega do livro de Daniel que contêm a frase bdélygma tês érêmôseôs (“abominação da desolação”), a saber, Daniel 9:27, 11:31 e 12:11. Às vezes se faz também referência a Daniel 8:13, mas em vez de “abominação da desolação” o texto fala do “pecado (em grego, hamartia, no texto hebraico aparece pesha’ – “transgressão”) da desolação”. No entanto, esse texto parece estar em claro paralelo com Daniel 11:31 e 12:11, sendo que ambos usam a frase bdélygma tês érêmôseôs. A maioria dos expositores atuais (exceto a maior parte dos eruditos adventistas) concordam que Daniel 8:13, 11:31, 12:11 referem-se todos à profanação do templo judaico pelo rei sírio Antíoco IV Epifânio, que no outono de 167 A.E.C. acabou com os rituais do templo judaico e depois, em 6 de dezembro daquele ano, construiu um altar ilícito sobre o altar das ofertas queimadas (chamado de – “abominação da desolação” no livro de 1 Macabeus). [8]

Uma vez que algumas expressões semelhantes às encontradas em Daniel 8:13 e 11:31 também ocorrem em Daniel 9:26, 27, muitos eruditos modernos acreditam que este trecho também trata da época e das ações de Antíoco IV. Mas esta aplicação gera problemas. Por exemplo, o versículo 26 de Daniel 9 prevê que “o povo do príncipe que há de vir destruirá a cidade e o santuário.” Isso não ocorreu no tempo de Antíoco IV. [9] Mas corresponde fortemente à predição que Jesus fez da destruição do templo. Seus discípulos, portanto, reconheceram sem dúvida que este era o trecho que Jesus tinha em mente em primeiro lugar. De fato, após a destruição de Jerusalém e seu templo pelos romanos em 70 D.C., tanto os judeus como os cristãos viram nesse evento o cumprimento da destruição predita em Daniel 9:26, 27. [10]

Assim, quando Jesus fez referência à “abominação da desolação predita pelo profeta Daniel”, ele estava se referindo claramente à predição de Daniel 9:26, 27. [11] Albert Barnes, em seu exame cuidadoso de Daniel 9:27, conclui:

Não pode haver dúvida razoável de que o Salvador se refere a este trecho de Daniel (veja as Notas sobre Mat. xxiv. 15) ou aos eventos ocorridos no ataque contra Jerusalém e o templo que correspondem inteiramente à linguagem utilizada aqui. [12]

Parece razoável concluir que a interpretação da “abominação da desolação” como os exércitos que cercariam e desolariam Jerusalém baseia-se em Daniel 9:26, 27. Conforme mencionado acima, este texto não só fala da “abominação da desolação” (LXX), como também prevê que “o povo (“exército”, Nova Tradução na Linguagem de Hoje) de um príncipe que há de vir” destruirá “a cidade e o templo”. Naturalmente, esta destruição de Jerusalém por exércitos estrangeiros teria de ser precedida pelo aparecimento deles fora dos muros da cidade. Portanto, a versão de Lucas da profecia de Jesus à luz de Daniel 9:26, 27 é bem lógica:

Quando virem Jerusalém  rodeada de exércitos, vocês saberão que a sua devastação está próxima. – Lucas 21:20, NVI.

D. O "PISOTEIO" DE JERUSALÉM

A declaração de que “Jerusalém será pisada [“calcada”, Tradução Ecumênica] pelas nações” (Lucas 21:24, TNM) é outra frase que só aparece em Lucas. Assim como suas outras formulações distintas desta seção, esta também é retirada do Antigo Testamento. A imagem de Jerusalém ou o santuário sendo pisado por estrangeiros é encontrada em Isaías 63:18, Lamentações 1:15, Daniel 8:13, Zacarias 12:3 (LXX). O que este “pisoteio” de Jerusalém e/ou do santuário significa?

D-1: O verbo grego patéô, “pisar”

A palavra “pisar” é a tradução do verbo grego patéô. Conforme explicado pelo Dr. Günther Ebel no Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, de Colin Brown, este verbo denota “um movimento de pisar com os pés.” Segundo ele, quando usado na forma intransitiva, o verbo pode significar simplesmente “ir” ou “andar”. Mas, quando usado na forma transitiva (como é o caso em Lucas 21:24), significa “pisar ou pisar em alguma coisa, pisar sobre ou em, calcar sob os pés, pisotear; com frequência também, de modo figurativo, tratar com desprezo, maltratar, saquear.” [13]

A palavra patéô é encontrada cinco vezes no Novo Testamento. Em Apocalipse 14:20 e 19:15 ela é usada figurativamente, quando se fala em pisar “o lagar da ira de Deus”. As outras três ocorrências estão em Lucas 10:19, 21:24, e Apocalipse 11:2 “em cada caso com conotações de julgamento e poder, no caso de exércitos invasores, os gentios pisoteando Jerusalém ou o templo, ou os setenta pisoteando sobre serpentes e escorpiões.” [14]

Em Lucas 21:24 o pisoteio de Jerusalém pelos gentios é frequentemente entendido como uma referência ao período de dominação ou controle da cidade pelos gentios, contado a partir de sua captura e desolação pelos romanos em 70 D.C. Embora esta compreensão do texto seja possível, alguns expositores que tomam patéô nesse sentido defendem a ideia de que o período de “pisoteio” estava em curso já no momento em que Jesus proferiu esta profecia, argumentando que o controle gentio de Jerusalém começou na época da conquista de Judá por Nabucodonosor. Depois do período neobabilônico, Jerusalém continuou a ser “pisada” pelos persas, gregos e romanos. A regência independente dos Macabeus (142-63 A.C.) é ignorada neste raciocínio.

Deve-se notar, porém, que Lucas 21:24 usa o verbo no tempo futuro: “Jerusalém será (éstai) pisada pelas nações.” Isso parece indicar claramente que o “pisoteio” predito era algo que iria ocorrer no futuro. Ele ainda não tinha começado. [15] Além disso, se este “pisoteio” era algo que aconteceria no futuro, dificilmente ele poderia ser entendido como se referindo apenas ao controle de Jerusalém pelos gentios, já que esse controle (pelo Império Romano) também existia no momento em que a profecia foi proferida.

Numa evidente tentativa de contornar essa dificuldade, a Torre de Vigia, ao citar Lucas 21:24 na edição de 1º de novembro de 1986 de A Sentinela, inseriu entre colchetes a expressão “continuará a ser” no texto: “Jerusalém [continuará a ser] pisada pelas nações até se cumprirem os tempos designados das nações.” (página 6) Este acréscimo parentético adiciona sutilmente um significado à frase que não pode ser derivado da estrutura gramatical dela.

Naturalmente, o significado do verbo patéô na forma transitiva depende também do contexto em que é usado. Na versão LXX do Antigo Testamento, ele pode às vezes ser usado simplesmente no sentido de pisar num “caminho” (ou “senda”) (Jó 28:7, 8), num “pátio” (Isaías 1:12), ou na “terra” (Isaías 42:5). Mais frequentemente, porém, ele é usado em sentido negativo. Ele pode ser usado com o sentido figurado de maus tratos, ou tratamento com desprezo. Em Amos 2:7, 4:1 e 5:12, por exemplo, ele é usado com o sentido de “esmagar” ou oprimir os pobres e justos em Israel. Vez por outra encontramos patéô (e katapatéô, “pisotear”) usado na forma transitiva com o sentido de pisotear e destruir inimigos, suas terras e cidades, como expressão dos julgamentos de Deus. (Isaías 5:5; 10:5, 6; 25:10; 26:6; Miquéias 7:10) Repetidamente, essas destruições são comparadas com “pisar” (patéô) um lagar, no qual os inimigos são esmagados como uvas. – Isaías 63:3, 6; Lamentações 1:15; Joel 3:13.

Lucas 21:20-24 trata da execução do julgamento de Deus sobre Jerusalém e a nação judaica. Conforme se menciona no versículo 22, “estes são dias para se executar a justiça, para que se cumpram todas as coisas escritas.” (TNM). [16] O versículo 23 prossegue falando da “grande aflição na terra e ira contra este povo.” (Bíblia de Jerusalém). [17] Daí, as formas em que esta “ira” divina cairiam sobre o povo são especificadas no versículo 24: (1) Eles cairiam ao fio da espada, (2) eles seriam levados cativos para todas as nações e (3) Jerusalém seria pisada pelas nações, até que os tempos dos gentios se cumprissem. [18]

O “pisoteio” em nosso texto, portanto, está intimamente associado com a execução do julgamento divino sobre Jerusalém e a nação judaica nos anos 67-70 E.C. Evidentemente por esta razão, o Léxico de Thayer afirma que patéô em Lucas 21:24 (e Apocalipse 11:2) significa “profanar a cidade santa pela devastação e ultraje.” [19]

D-2: O “pisoteio” de Jerusalém em ocasiões anteriores

É muito interessante que a palavra patéô é também usada no Antigo Testamento (LXX) em conexão com a profanação e/ou destruição de Jerusalém e de seu templo em ocasiões anteriores, ou seja, por Nabucodonosor em 587 A.E.C. e pelo rei sírio Antíoco IV Epifânio, em 167-164 A.E.C.

Alguns anos depois da conquista babilônica de Judá, em 587 A.E.C., Jeremias lamentou a destruição de Jerusalém e a desolação do país, no livro das Lamentações. Em Lamentações 1:15 (LXX), ele comparou a destruição com pisar um lagar de vinho:

Rejeitou o Senhor todos os bravos que viviam em meus muros. Enviou contra mim um exército a fim de abater minha jovem elite. O Senhor esmagou [epátêse, o verbo patéô no tempo passado] no lagar a virgem, filha de Judá [=Jerusalém].

Deve-se notar que patéô aqui é usado em sentido figurativo do esmagamento de Jerusalém e seus defensores como num “lagar”. Embora Jerusalém ainda estivesse desolada no momento em que isso foi escrito, o texto não diz que o “pisoteio” ainda estava ocorrendo. Isso tinha sido um evento passado, limitado ao período do sítio, captura e destruição da cidade no período de 589-587 A.E.C. O “pisoteio” terminou, mas seus resultados trágicos permaneciam. Claramente, o “pisoteio” de Jerusalém e de seus defensores pelo Senhor como num lagar, por meio dos exércitos babilônicos, refere-se à destruição da cidade e ao assassinato de seus defensores, não ao controle babilônico posterior da área.

Da mesma forma, em Daniel 8:13 o “pisoteio” (na LXX a palavra é katapatéô, – “pisotear”) do “lugar santo” no tempo de Antíoco IV Epifânio limitou-se a um breve período de tempo, “2300 noitinhas e manhãs”, segundo o versículo 14. Esta estranha forma de indicar o período de tempo explica-se por sua relação com a “oferenda diária” mencionada nos versículos anteriores (11-13). Como este ritual era realizado duas vezes ao dia, à noite e pela manhã (Números 28:3-8), a afirmação de que ele foi interrompido por 2.300 “noitinhas e manhãs” evidentemente tinha em vista estas ocasiões de oferenda em vista. Os comentaristas, portanto, frequentemente interpretam a afirmação como uma referência a 2.300 ocasiões de oferenda, abrangendo 1.150 dias.

Isso corresponderiam mais ou menos ao período a partir de 167 A.E.C., quando – provavelmente no final do outono – as forças de Antíoco profanaram o templo em Jerusalém e removeram a oferenda diária (compare com Daniel 11:31), até que os judeus, depois de terem conseguido o controle de Jerusalém, purificaram o templo e reiniciaram as cerimônias de oferenda lá no final de 164 A.E.C. Embora Jerusalém e Judá estivessem sob o controle da Síria desde o ano 200 A.E.C., Daniel 8:13 limita o “pisoteio do lugar santo” a esse breve período de profanação (167–164). O livro de 1 Macabeus também faz referência a este período como o tempo de pisoteio do santuário pelos gentios:

Seu santuário estava profanado, soldados estrangeiros ocupavam a cidadela, gentios faziam ali sua habitação... Vosso santuário está profanado e manchado, vossos sacerdotes estão em luto e na humilhação. – 1 Macabeus 3:45, 51.

Este pisoteio do templo por gentios envolveu muito saque, destruição e morte (1 Mac. 1:29-64.), exigindo reparos dos edifícios danificados do templo e a construção de um novo altar de sacrifícios (1 Mac. 4:36-60). Depois da purificação do templo, os judeus “cercaram a montanha de Sião com uma alta muralha com fortes torres, para que não fosse mais possível às nações [ta éthnê, “os gentios”] pisá-la aos pés [katapatêsôsin], como outrora. – 1 Mac. 4:60.

Em nenhuma das duas ocasiões consideradas acima o pisoteio se estendeu por um longo período de tempo. Em ambas as ocasiões, ele se restringiu a um breve período de profanação, saque e destruição. Este uso da palavra patéô em situações semelhantes à de Lucas 21:24, certamente deve ter alguma influência sobre o significado da palavra nesse texto também. [20]

D-3: O “pisoteio” da “cidade santa” em Revelação 11:2

Deve-se dizer algo também sobre o pisoteio da cidade santa em Revelação 11:2b, já que existem afinidades óbvias em linguagem e pensamento entre esse trecho e o que se diz em Lucas 21:24b. Nos dois primeiros versículos de Revelação 11 lemos:

(1) Deram-me um caniço semelhante a uma vara de medir, e me foi dito: "Vá e meça o templo de Deus e o altar, e conte os adoradores que lá estiverem. (2) Exclua, porém, o pátio exterior; não o meça, pois ele foi dado aos gentios. Eles pisarão a cidade santa durante quarenta e dois meses. – Apocalipse 11:1, 2, NVI.

Assim como Lucas 21:24, o texto prediz que os gentios ... “pisarão a cidade santa [Jerusalém]”, a única diferença sendo que o período de pisoteio é aqui especificado como “42 meses”, isto é, três anos e meio, enquanto que em Lucas 21:24 o período de pisoteio é mencionado de maneira vaga como os “tempos dos gentios”.

Então, será que os dois textos falam do mesmo evento? Muitos comentaristas conhecidos do livro do Apocalipse tiraram essa conclusão. O Dr. R. H. Charles, por exemplo, afirma que o período de 42 meses “é referido como o kairoí éthnôn em Lucas xxi.24.” [21] Alguns comentaristas são ainda mais específicos. O Dr. John M. Court diz:

Em 11.2 diz-se que o pisoteio da cidade santa dura 42 meses; conforme S. Giet apontou, este é aproximadamente o período da Guerra Flaviana, da primavera de 67 A.D. a 29 de agosto de 70, período em que Jerusalém foi ‘profanada’, mas no santuário os sacrifícios continuaram ininterruptamente, até que ao final o santuário foi destruído pelo fogo. [22]

Da mesma forma, o professor Moses Stuart, o “pai da ciência bíblica na América”, depois de um exame cuidadoso dos “42 meses”, conclui:

Depois de toda a investigação que pude fazer, sinto-me obrigado a crer que o escritor refere-se a um período literal e definido, embora não tão exato que um único dia, ou mesmo alguns dias de variação iriam interferir com o objetivo que ele tem em vista. É certo que a invasão dos romanos só durou por volta do período em questão, até que Jerusalém foi tomada. E, embora a cidade não tenha sido sitiada por tanto tempo, ainda assim a metrópole neste caso, como em inúmeros outros em ambos os Testamentos, parece representar o país da Judéia. [23]

Esta associação das duas passagens, porém, pressupõe que a “cidade santa’ do Apocalipse 11:2 é a cidade real de Jerusalém, e que a profecia foi dada antes da destruição da cidade em 70 E.C. Isso levanta uma série de questões sobre as quais existem grandes divergências entre os eruditos, tais como a data do Apocalipse, a abordagem do livro, o significado da “medição” no versículo um, a identidade das “duas testemunhas” nos versículos 3 a 6, e o significado das experiências delas nos versículos 7 a 13. [24] O exame de todas essas questões aqui nos levaria muito longe. Alguns comentários sobre os “42 meses” do pisoteio da cidade terá de ser suficiente.

Devem  estes “42 meses” ser entendidos mais ou menos literalmente, como sugerido pelos eruditos citados acima, ou eles simbolizam um longo período de tempo, como é defendido por outros intérpretes?

Os expositores da chamada “escola historicista” aplicam o “princípio dia-ano” aos “42 meses”, convertendo-os em um período de 1260 (ou 1290) anos. Conforme já se mostrou anteriormente no capítulo um deste trabalho, essa abordagem deu origem a uma impressionante série de datas de término dos “tempos dos gentios” ao longo dos séculos. Como a validade do “princípio dia-ano” já foi discutida antes, esta abordagem não requer maiores comentários aqui.

Diversos comentaristas espiritualizam inteiramente o número, argumentando que os “42 meses” simbolizam toda a era cristã. [25]

No entanto, há razões para crer que os “42 meses” se referem a um curto período de tempo. Períodos dessa mesma duração são mencionados várias vezes no Apocalipse, ou seja, em 11:3 (o período de 1260 dias em que as “duas testemunhas” profetizam), em 12:6, 14 (a “mulher no céu” encontrando um refúgio no deserto por “1.260 dias”, ou por “um tempo, tempos e metade de um tempo”), e em 13:5 (a “besta do mar” recebendo autoridade por “42 meses”). Embora esses períodos não precisem se referir exatamente a um único e mesmo período em todo o Apocalipse, todos eles são da mesma duração, ou seja, três anos e meio. O período geralmente remonta ao livro de Daniel. O período de “um tempo, tempos, e metade de um tempo” é mencionado em Daniel 7:25 e 12:7. Além disso, a “septuagésima semana” em Daniel 9:27 é dividida ao “meio” em duas partes iguais, o que também resulta em períodos de três anos e meio.

É amplamente conhecido que na Bíblia, bem como em outras antigas literaturas do Oriente Próximo o número “sete” é comumente usado como um símbolo de “plenitude, totalidade”. Um “período de sete” era considerado como um período “completo”, fosse ele de sete dias, sete anos, ou outros períodos de sete ou múltiplos desse número. [26] Como o período de “três anos e meio” é um “sete” dividido, ele parece se referir a um período reduzido ou abreviado, em vez de uma longa era. Muitos eruditos bíblicos equiparam o período com os dias “abreviados” da “grande tribulação”, em Mateus 24:22 e Marcos 13:20. [27]

Ao examinar os contextos bíblicos em que este período de três anos e meio ocorre, verifica-se que eles sempre se referem a um período de grave crise, ou um período de opressão, perseguição e sofrimento, ou um período de julgamento e desastres. Isso também contradiz a ideia de que o período se estende ao longo de centenas ou milhares de anos. Pelo contrário, ele parece referir-se a um período de tempo crítico relativamente curto.

O Apocalipse 11:1 em diante apresenta claramente uma cena do julgamento iminente, acentuado pelo período em que as “duas testemunhas” profetizam “trajadas de saco”, um símbolo da mensagem sombria delas. O pisoteio da “cidade santa” pelos gentios por “42 meses” é uma expressão tangível deste julgamento. Se a “medição” é um símbolo da destruição do templo literal ou da preservação do “templo espiritual” é irrelevante neste respeito, porque o cenário ainda é de julgamento e destruição. Em vista disso, a ideia de que os “42 meses” do pisoteio da cidade se referem a uma longa era de domínio gentio parece difícil de defender. Como em outros trechos que tratam do pisoteio de Jerusalém e do templo, aqui também o pisoteio parece ser mais bem entendido como um breve período de profanação, devastação, morte e destruição.

E. OS “GENTIOS” PISOTEADORES

Partindo-se do pressuposto de que o “pisoteio” de Jerusalém pelos gentios se refere ao longo período de dominação ou controle da cidade pelos gentios, muitos comentaristas entendem o plural “gentios” ou “nações” como se referindo à série sucessiva de nações que ocupariam e controlariam Jerusalém depois de sua destruição em 70 E.C.

É certamente verdade que Jerusalém, depois da destruição da cidade no ano 70 E.C., foi controlada por diversas nações não judaicas: Roma (até 614 E.C.), a Pérsia (até 628 E.C.), o Império Bizantino (até 638 E.C.), o Império Sarraceno (até 1073 E.C.), os Seljúcidas (até 1099 E.C.), o Reino Cruzado Cristão (até 1291 E.C., interrompido por breves períodos de controle egípcio), o Egito (até 1517 E.C.), a Turquia (até 1917 E.C.), a Grã-Bretanha (até 1948 E.C.), e a Jordânia (até 1967 E.C., quando Israel conseguiu o controle da antiga cidade murada de Jerusalém). [28]

Poderia este longo período de dominação gentia ser considerado como “os tempos dos gentios”? Muitos expositores fazem isso, ou pelo menos consideram isso como uma parte destes “tempos dos gentios”. [29]

Mesmo na hipótese de ser correta esta aplicação, isso não quer dizer necessariamente que os “tempos dos gentios” terminaram em 1967. Embora os judeus tenham assumido o controle de Jerusalém desde aquele ano, a parte mais central da cidade, o local do templo, ainda está nas mãos dos árabes. O local do antigo templo ainda é ocupado pelo “Zimbório da Rocha” muçulmano. Portanto, se o “pisoteio” de Jerusalém deve ser entendido no sentido mencionado acima, a parte central e mais importante da cidade ainda está sendo “pisada pelos gentios”.

E-1: Os “gentios” nos exércitos romanos

Todavia, o plural “gentios” usado em Lucas 21:24 não precisa ser entendido como se referindo a uma série sucessiva de nações. A palavra “gentios” (ou “nações”, TNM) pode ser realmente uma referência às forças militares compostas de Vespasiano e Tito. O vasto Império Romano consistia de diversos grupos étnicos dos povos cujos países de origem tinha sido conquistados por Roma e incorporados ao império. A maior parte deles tinha sido transformada em províncias romanas.

É muito interessante que no momento do início da rebelião judaica em 66 E.C. ainda havia diversos reinos no Império Oriental, que não tinham sido transformados em províncias com governadores romanos. Eles tinham sido autorizados a permanecer como reinos governados por reis locais, embora como vassalos para Roma. O número total desses reinos vassalos variou pouco durante as décadas que antecederam à guerra romana contra os judeus, mas, no início da guerra, havia cerca de dez deles. A Palestina era, de fato, cercada por vários desses reinos – o Reino Nabateu, Chalkis, Arqa (Líbano) e Homs. A maior parte dos demais estava na parte oriental da Ásia Menor. [30]

Os exércitos liderados por Tito em sua marcha final contra Jerusalém não consistia apenas de legiões romanas, mas também de “contingentes de reis aliados e um corpo considerável de auxiliares da Síria.” (A Guerra V, de Josefo, 39-46) Na verdade, a maioria dos reinos vassalos no leste participou ao lado de Roma na guerra contra os judeus. As forças de Tito compunham-se de quatro legiões romanas de 6.000 homens cada, ou 24 mil ao todo, mas os contingentes fornecidos pelos reinos vassalos vizinhos e os auxiliares da Síria mais do que dobraram esse número para muito acima de 60.000. [31]

Assim, quando Lucas 21:24 fala de “gentios” no plural, esta é uma designação bem apropriada de coalizão composta dos exércitos sob o comando de Vespasiano que invadiram a Palestina na primavera de 67 E.C. para esmagar a rebelião judaica, e também dos exércitos sob Tito que, por fim, cercaram, capturaram e destruíram totalmente Jerusalém e seu templo em 70 E.C. De modo que a descrição profética desta destruição como um “pisoteio” da cidade pelos “gentios” ou “nações”, provou-se uma descrição muito precisa do que realmente ocorreu. Esse entendimento do plural “gentios” é, de fato, confirmado pela própria Bíblia.

E-2: Os “gentios” em Daniel 9:26-27

Conforme já argumentado, Jesus, em sua predição da desolação da cidade de Jerusalém e do templo, tinha em mente sobretudo Daniel 9:26-27. Este trecho, como vimos, não só fala da “abominação da desolação” mencionada por Jesus, como também prediz que “o povo do príncipe que há de vir destruirá a cidade e o santuário” (versículo 26).

Como Lucas, em sua versão da predição de Jesus fraseou em termos e expressões encontradas no Antigo Testamento e, ao fazer dependia muitas vezes da versão grega LXX, é do maior interesse observar que a versão LXX de Daniel 9:26 diz que “um reino de gentios (ou de nações, ethnôn), destruirá a cidade e o santuário.” [32]

Assim, tanto a versão LXX de Daniel 9:26 como Lucas 21:24 usam o plural “gentios” ao mencionar os exércitos que destruiriam Jerusalém e seu templo. Parece claro que a escolha de Lucas do substantivo plural “gentios” é derivada diretamente da versão de Daniel 9:26 na LXX. Segundo a redação desta versão, Jerusalém seria destruída por um “reino” composto de muitos “gentios” ou “nações”. Os “gentios” do texto referem-se naturalmente aos exércitos que destruiriam Jerusalém e seu templo. Isto, portanto, parece ser o que os “gentios” de Lucas 21:24 significam também. Falando sobre o mesmo evento, a vindoura destruição de Jerusalém, os dois textos parecem estar claramente dizendo a mesma coisa:

Um reino de gentios destruirá a cidade. – Daniel 9:26 (LXX).

Jerusalém será pisada pelos gentios. – Lucas 21:24.

Se esta conclusão for correta, a declaração em Lucas 21:24 não pode significar que Jerusalém e seu templo seriam “pisados” por uma série sucessiva de nações. Se os “gentios” ou “nações” forem entendidos como os exércitos romanos sob o comando de Tito, eles estavam todos presentes na desolação de Jerusalém. Todos eles participaram do “pisoteio” de Jerusalém e seu templo simultaneamente, naquele local e naquele momento. [33]

F. OS “TEMPOS” DOS GENTIOS

Dentre os três Evangelhos Sinóticos, só o de Lucas usa a expressão kairoí ethnôn, “os tempos dos gentios”. A maior parte das traduções verte a frase na forma definida, “os tempos dos gentios”, como se estivessem fazendo referência a um período específico e bem conhecido. No texto original de Lucas 21:24, porém, a frase ocorre na forma indefinida “até que os tempos dos gentios se completem”.* A frase, portanto, é vaga e imprecisa e não parece ser uma referência a um período que os leitores (ou ouvintes) já deveriam saber. [34] Esta indefinição tem permitido uma série de diferentes interpretações da frase. Todas estas interpretações podem ser enquadradas em cada um dos três grupos que seguem:

(a) Os “tempos dos gentios”, como a “plenitude dos gentios” de Romanos 11:25

Alguns expositores fazem referência à declaração de Paulo em Romanos 11:25 de “um endurecimento em parte, até que chegue a plenitude dos gentios.” (NVI), argumentando que os “tempos dos gentios” têm relação com esta “plenitude dos gentios” e se refere ao período da pregação do Evangelho aos gentios.

É verdade que ambos os textos tem as duas palavras, “até” e “gentios” em comum. Mas, fora isso, há muito pouca semelhança entre as duas declarações. Os contextos são diferentes, e os assuntos tratados são diferentes. Conforme observa o Dr. Milton Terry: Presume-se que os “tempos dos gentios” (kairoí ethnôn) são os tempos e oportunidades da graça concedida aos gentios sob o Evangelho. Mas, entender as palavras neste sentido seria, como observa Van Oosterzee, interpolar um pensamento inteiramente estranho ao contexto... Estes kairoí são manifestamente tempos de julgamento sobre Jerusalém, não tempos de salvação para os gentios. [35]

Na declaração “Jerusalém será pisada pelos gentios, até que os tempos dos gentios se cumpram”, não há qualquer indicação de que os “gentios” na segunda frase sejam outros, diferentes dos “gentios” que tinham acabado de ser mencionados na primeira frase. Além disso, o “pisoteio” deles continuaria “até que os tempos dos gentios se cumpram”, o que significa que o “pisoteio” dos gentios e os “tempos” dos gentios terminariam ao mesmo tempo. Os “tempos dos gentios”, portanto, referem-se logicamente aos tempos designados a esses gentios para “pisarem” Jerusalém.

(b) Os “tempos dos gentios”, como o período de controle gentio de Jerusalém

Provavelmente, o conceito mais comum é que os “tempos dos gentios” se referem ao longo período de dominação gentia de Jerusalém, datado a partir de 70 E.C., ou a partir de um ponto anterior na corrente do tempo. As várias tentativas de expositores proféticos de calcular a duração deste período com o auxílio do chamado “princípio ano-dia” já foram discutidas anteriormente nesta obra e não precisam ser abordadas novamente aqui.

Como foi dito acima, o “pisoteio de Jerusalém pelos gentios” parece melhor ser entendido como se referindo ao período do sítio, captura, profanação, pilhagem e destruição da cidade e de seu templo pelos exércitos romanos. Se assim for, os “tempos dos gentios” não podem se referir ao longo período de controle gentio da cidade. Eles devem ter terminado quando os “gentios” – os exércitos romanos – tinham completado seu “pisoteio” – sua destruição – da cidade. Para tornar isso claro, podemos substituir a palavra “gentios” nas duas frases por “exércitos romanos”:

Jerusalém será pisada pelos exércitos romanos, até que os tempos dos exércitos romanos se cumpram.

Obviamente, os ‘tempos dos exércitos romanos’ não podem se referir a um período que abrange milhares de anos. Dentro do contexto de Lucas 21:20-24, esses “tempos” podem ser entendidos como o período que levou para os exércitos romanos conquistarem e destruírem Jerusalém, um período de aproximadamente meio ano. Ou, se esses ‘tempos dos exércitos romanos’ forem vistos como uma referência ao período total necessário para esmagar a rebelião judaica e reconquistar Jerusalém, desde o início da guerra até a destruição final de Jerusalém, isto é, desde a chegada dos exércitos de Vespasiano na Galiléia, na primavera de 67 até o outono de 70 E.C., os “tempos dos gentios” duraram cerca de três anos e meio.

Como este conceito não é tão comum quanto os outros dois e pode soar estranho para alguns leitores, uma apresentação um pouco mais completa pode ser apropriada aqui.

(c) Os “tempos dos gentios”, como o período da captura e destruição de Jerusalém

Como já foi declarado, este conceito significa que os “tempos dos gentios” são um período relativamente curto, que terminou com a completa desolação de Jerusalém, no outono de 70 E.C.

À primeira vista, o substantivo plural “tempos”, kairoí, pode parecer depor contra esse conceito. Como pode um breve período de tempo ser chamado de vários “tempos”?

Alguns comentaristas apontaram que o uso do plural “tempos” pode simplesmente ser resultante do plural “gentios” ou “nações”. Esta explicação é plenamente possível. Mas só na suposição de que o termo “gentios” se refere à série sucessiva de nações que controlaram Jerusalém é que se pode argumentar que os tempos dos gentios ou nações devem se referir aos sucessivos períodos ou tempos em que Jerusalém esteve sob o domínio dessas nações.

Conforme já foi discutido, porém, o plural “gentios” parece ser claramente uma referência ao exército dos gentios (composto de forças de vários povos e nações), que iria capturar e destruir Jerusalém. Os tempos destes gentios, portanto, seria simplesmente o período em que eles pisoteariam a cidade.

Deve-se observar também que o plural “tempos” é usado ​​em outros lugares na Bíblia, com referência a um breve período de tempo. Um exemplo disso é os “sete tempos” de Nabucodonosor em Daniel, capítulo 4, que, como vimos, pode se referir a um período de apenas sete meses. [36] Outro exemplo é o “tempo e tempos e metade de um tempo”, ou seja, três tempos e meio, em Apocalipse 12:14, os quais, segundo o versículo 6 correspondem a 1260 dias (3 1/2 anos). Argumenta-se normalmente que a frase é tirada de Daniel 7:25 e 12:7, onde a expressão muito provavelmente se refere a um breve período de sofrimento e angústia. Estes exemplos demonstram claramente que a forma plural “tempos”, em Lucas 21:24, não dá qualquer indicação de um longo período de tempo.

A palavra grega para “tempos” em Lucas 21:24, kairoí, é traduzida como “tempos designados” na Tradução do Novo Mundo da Torre de Vigia. [37] Esta maneira de traduzir não é de modo algum forçada ou improvável. Dicionários gregos enfatizam que no Novo Testamento grego, a palavra kairós denota com frequência o tempo como qualidade, em contraste com a palavra chrónos, que normalmente indica o tempo como quantidade. Assim, enquanto a palavra chrónos é usada para o tempo em sentido cronológico, a corrente do tempo, um período de tempo, etc., independentemente dos eventos que ocorreram, a palavra kairós é declaradamente usada para o tempo, conforme caracterizado por seu conteúdo. Assim, kairós é declaradamente aplicado a um ponto fatídico ou decisivo do tempo, “o tempo oportuno”, “o tempo apropriado”, o “tempo favorável” ou o “tempo marcado”, “designado” ou “prometido”. [38]

Todavia, há motivo para ter certa cautela na aplicação deste sentido de kairós aos “tempos dos gentios”, uma vez que a diferença estabelecida entre kairós e chrónos foi muito exagerada por alguns eruditos no passado. Num estudo completo publicado em 1962, um eminente semitista, o professor James Barr, demonstra que, embora kairós fosse usado inicialmente no grego clássico com o sentido de tempo “exato, certo, crítico ou oportuno”, depois a palavra começou a ser usada em grego com o sentido de “tempo” ou “período” em sentido geral, cronológico. Assim, embora o contraste original entre os dois termos pode muitas vezes ser demonstrado na LXX e no Novo Testamento, pode-se demonstrar também que os termos se sobrepõem e são frequentemente utilizados como sinônimos para designar um período ou períodos de tempo. [39]

Os “tempos dos gentios” em Lucas 21:24 é claramente uma referência a um período de tempo. Isto indica que kairós pode ser usado aqui no mesmo sentido que cronos. Por isso, não se deveria atribuir sentido demais à palavra. James Barr afirma que, quando usado “naqueles casos teologicamente importantes que falam do ‘tempo’ ou ‘vezes’ que Deus designou ou prometeu, as duas palavras [cronos e kairós] têm provavelmente o mesmo significado.” Entre os muitos exemplos disso, ele também alista Lucas 21:24. [40]

Na verdade, a opção de Lucas pelo plural  kairoí pode ter uma explicação muito simples. Conforme já foi mostrado, o substantivo plural “gentios” nesse texto é, conforme todas as indicações, tirado da versão de Daniel 9:26-27 na LXX, o texto que, mais do que qualquer outro, fornece o fundo bíblico da profecia da destruição de Jerusalém e de seu templo. Não é nenhuma surpresa, portanto, descobrir que o plural kairoí também se encontra no mesmo trecho. A forma como o termo kairós é usado nesta passagem pode, de fato, explicar a sua utilização em Lucas 21:24 também.

Em sua consideração sobre o pano de fundo da Septuaginta (LXX) para a linguagem usada em Lucas 21:20-24, o Professor Charles H. Dodd observa que, embora a frase exata kairoí ethnôn, “tempos dos gentios”, não ocorra na LXX, a ideia está presente.” [41] Daí, ele cita a versão de Daniel 9:26-27 na LXX para mostrar que ambas as palavras ocorrem lá em uma profecia da destruição de Jerusalém, exatamente como em Lucas 21:24.

O uso da palavra éthnê, “gentios” ou “nações”, em Daniel 9:26-27 (LXX) já foi considerado. A palavra kairós, “tempo”, ocorre mais de uma vez no mesmo texto, tanto no singular como no plural. Estas ocorrências estão incluídas nas seguintes citações do trecho:

(26) Um reino de gentios [ou “nações”, ethnôn] destruirá a cidade e o (lugar) sagrado... e até que se complete o tempo [kairou] a guerra será travada...

(27) e após a conclusão dos tempos [ou, “dos períodos de tempo”, kairôn]... e até que se complete o tempo [kairou] da guerra ... e sobre o templo estará uma abominação de desolações até que se complete o tempo [kairou] e se dará a conclusão da desolação.

Com base nestas declarações, fica claro que tanto o plural como as formas singulares de kairós são usadas aqui em conexão com a destruição de Jerusalém e do santuário. A profecia trata de eventos durante e após o término das “setenta semanas” mencionadas nos versículos anteriores. Os versículos 26 e 27 falam da “conclusão” de um período específico de “tempo” ou “tempos”, evidentemente um determinado período de tempo, e de uma “guerra” que seria travada até que se completasse este período.

Deve-se observar que a palavra “guerra” no versículo 26 está no singular. O texto não diz “até que se complete o tempo guerras serão travadas”, como se um longo período caracterizado por guerras estivesse à frente. A “guerra” sobre a qual se fala seria travada pelo “reino dos gentios” para “destruir a cidade e o santuário.” Essa guerra seria travada “até que se completasse o tempo”, isto é, até que o tempo determinado para a destruição se completasse. O “tempo” ou “tempos” mencionados, portanto, não poderiam se referir a um longo período que se estenderia por séculos.

É de pouca utilidade entrar numa análise detalhada da versão de Daniel 9:26-27 na LXX, já que há alguns problemas textuais nela. Como algumas frases são repetidas duas vezes, ela é consideravelmente mais longa que o texto hebraico, e algumas sentenças são organizadas de forma diferente.

O texto hebraico do trecho, assim como a versão LXX, enfatiza o propósito e a natureza desoladora da guerra. O Dr. Albert Barnes ressalta que o texto hebraico do versículo 26b diz literalmente, “até o fim da guerra decretam-se desolações.” [42] Em seu exame cuidadoso do texto, ele faz os seguintes comentários sobre a natureza da guerra:

Portanto, as coisas que poderiam ser antecipadas com base neste trecho são: (a) que haveria guerra. Isso está implícito também na certeza de que o povo de um príncipe estrangeiro viria e tomaria a cidade. (b) que esta guerra seria de uma natureza desoladora, ou que ela se ampliaria de modo notável, espalhando a ruína sobre a terra. Todas as guerras são assim; mas esta evidentemente o seria de maneira notória. (c) Que essas desolações se estenderiam ao longo da guerra, ou até o seu fim. Não haveria intervalo; nenhuma interrupção. É desnecessário dizer que esta foi, de fato, precisamente a natureza da guerra que os romanos travaram contra os judeus depois da morte do Salvador, e que terminou com a destruição da cidade e do templo; a derrocada de todo o poder hebraico; e a remoção de um grande número das pessoas para um cativeiro distante e perpétuo. Nenhuma guerra, talvez, tenha sido o seu progresso mais marcado pela desolação; em nenhuma o objetivo de destruição foi mais persistentemente manifesto até o seu próprio fim. [43]

Como a desolação de Jerusalém e do santuário havia sido “decretada” ou “decidida” (TNM), a destruição não poderia ficar pela metade. Evidentemente com essa profecia em mente, Jesus afirmou que “não ficará aqui pedra sobre pedra sem ser derrubada.” (Lucas 21:6, TNM) O “reino dos gentios” não destruiria apenas partes do cidade e do santuário. Como a profecia de Daniel mostra, um “tempo” específico, ou “tempos” foram designados a eles para completarem a destruição. Este “tempo”, ou estes “tempos”, portanto, parecem ser os “tempos dos gentios” mencionados em Lucas 21:24. Esta é também a conclusão de vários eruditos. Um deles, o Dr. Milton Terry, conclui:

Estes “tempos dos gentios” são, obviamente, o período concedido aos gentios para pisotear Jerusalém, e os tempos se cumpriram tão logo as nações tinham completado o seu trabalho de esmagar a cidade santa. [44]

Resumo e Conclusão

Neste capítulo, foi demonstrado primeiramente que o contexto imediato de Lucas 21:24 exige fortemente que o período chamado de “tempos dos gentios” aplica-se à cidade literal de Jerusalém, e não ao “reino de Deus, conforme exercido pela casa de Davi”.

Depois, mostrou-se que a linguagem explicativa peculiar a Lucas 21:20-24 é composto de termos e frases tiradas do Velho Testamento, e com frequência da versão Septuaginta. É bem possível que essas expressões do Antigo Testamento tenham sido usadas ​​pelo próprio Jesus, embora só tenham sido preservadas por Lucas.

O pano de fundo principal da predição de Jesus, conforme ele mesmo indicou claramente em seu discurso, é a profecia da destruição de Jerusalém e de seu santuário em Daniel 9:26-27. Portanto, não é por acaso que algo do vocabulário usado por Lucas reflita a linguagem deste trecho. Esta relação não se limita apenas a declaração específica de Lucas – não encontrada nos outros Evangelhos Sinóticos – de que Jerusalém seria cercada e devastada por exércitos (o que é dito diretamente em Daniel 9:26), mas o trecho também inclui termos específicos usados por Lucas, tais como “gentios” (éthnê) e “tempos” (kairoí). A expressão “tempos dos gentios” em Lucas parece ser claramente baseada na profecia de Daniel.

A análise posterior da palavra grega para “pisotear”, patéô, revelou que este verbo, quando usado transitivamente e especificamente em conexão com o pisoteio por inimigos, seus países e cidades, refere-se geralmente não só a um período de dominação e controle, e sim a um período de profanação, saque, matança e destruição. Um exame dos trechos que tratam do “pisoteio” de Jerusalém e/ou seu templo em ocasiões anteriores provêem um forte apoio para esta conclusão.

Em seguida, o plural “gentios” ou “nações” (éthnê) usado ​​em Lucas 21:24 foi considerado. Foi demonstrado que a forma plural do verbo não precisa ser entendida como uma referência para a uma série sucessiva de países que dominaram Jerusalém. O plural “gentios” poderia muito bem se referir à composição dos exércitos de Vespasiano e Tito, em 67-70 E.C. Mostrou-se que este uso da palavra no texto é confirmado pela própria Bíblia, já que a profecia de Daniel 9:26 (na LXX) usa a mesma palavra em sua forma plural em referências aos exércitos que destruiriam Jerusalém e seu templo.

Finalmente, as várias interpretações dos “tempos dos gentios” foram examinadas. Mostrou-se que a palavra kairós, “tempo”, mesmo em sua forma plural, pode muito bem se referir a um período de tempo breve. Como essa palavra é usada em Lucas 21:24, não em referência aos “tempos” do gentios ou nações em geral, e sim aos “tempos” dos gentios que destruiriam Jerusalém, o período dificilmente poderia se estender ao longo de séculos ou milênios. Parece mais lógico concluir que estes “tempos” se referem ao período concedido aos exércitos romanos para esmagar a rebelião judaica e desolar Jerusalém.

Este entendimento é também apoiado pela versão de Daniel 9:26-27 na LXX, que usa a mesmíssima palavra, kairós, tanto no singular como no plural, para se referir ao período que terminaria com a finalização da ação de desolar Jerusalém por parte dos gentios.

A conclusão deste exame, portanto, é que os “tempos dos gentios” em Lucas 21:24 referem-se ao período concedido aos exércitos gentios de Vespasiano e Tito para executar o julgamento de Deus sobre Jerusalém e a nação judaica, até que eles tivessem terminado a tarefa de desolar por completo Jerusalém e seu templo.

 

 Carl Olof Jonsson, 1997 (revisado em 2004)



[1] Estudo Perspicaz das Escrituras, Vol. 3 (Brooklyn, Nova Iorque – Estados Unidos da América: Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados de Nova Iorque, 1988 [em português: 1992]), págs. 688, 689.

[2] Ibid., pág. 688. O substantivo plural é·thne significa “gentios, povos, nações, estrangeiros”. A forma singular do substantive, é·thnos, “multidão, nação, estrangeiro” é aplicada também no Novo Testamento aos judeus como um povo ou nação. Veja, por exemplo, Lucas 7:5 e Atos 10:22.

[3] Uma declaração típica é a de Heinz D. Rossol: “Ao passo que Marcos / Mateus só falam simbolicamente sobre o sacrilégio desolador à luz da profecia, Lucas pode fazer referência ao cerco de Jerusalém em termos literais, já que a profecia se cumpriu.” — H. D. Rossol, “O Sacrilégio Desolador e o Problema Sinótico” em Martin C. Albl et al (eds.), Orientações nos Métodos do Novo Testamento (Marquette University Press, 1993), pág. 17.

[4] Veja Lars Hartman, Profecia Interpretada (= Coniectanea Biblica, New Testament Series 1, Lund, Suécia: CWK Gleerup, 1966), págs. 226-235. Para um levantamento das considerações sobre as fontes proto-lucanas, consulte Lloyd Gaston, Nenhuma Pedra Sobre Pedra. Estudos na Significância da Queda de Jerusalém nos Evangelhos Sinóticos (Leiden: E. J. Brill, 1970), págs. 244-256.

[5] Para uma discussão nesse sentido, veja David Wenham, A Redescoberta do Discurso Escatológico de Jesus (Sheffield: JSOT Press, 1984), págs. 185-188. Confira também os comentários e referências de I. Howard Marshall em seu Comentário sobre Lucas (Grand Rapids: William B. Eerdmans Publ. Co., 1978), pág. 771.

[6] Para uma análise detalhada da relação entre o Sermão do Monte das Oliveiras e o livro de Daniel, ver Lars Hartman, op. cit. (Nota 4 deste artigo.), págs. 145-177.

[7] Charles H. Dodd, “A Queda de Jerusalém e a Abominação da Desolação”, Revista de Estudos Romanos, Vol. XXXVII (Londres, 1947), págs. 50, 52. Veja também As Raízes dos Evangelhos Sinóticos, do Professor Bo Reicke (Filadélfia: Editora Fortress, 1986), págs. 137, 175.

[8] Veja o livro de 1 Macabeus (escrito no segundo século A.E.C.), capítulo 1, versículos 29-64. Daniel 8:11, que evidentemente, faz referência a esses eventos, diz que “o lugar do seu santuário foi lançado por terra.” A declaração não se refere necessariamente ao próprio edifício do santuário, que não foi demolido por Antíoco Epifânio. O texto fala do “lugar (hebraico: makon) do santuário.” O Dr. John J. Collins ressalta que makon é usado em referência à base do altar em Esdras 3:3 e sugere que, aqui também a referência pode ser ao altar, que foi profanado por Antíoco. – J. J. Collins, Daniel (Minneapolis: Editora Fortress, 1993), pág. 334.

[9] É verdade que Antíoco IV, em 169 A.E.C., saqueou o santuário em Jerusalém, tirando todos os seus móveis e objetos de valor, e tirou ainda todo o ouro da frente do prédio. (1 Mac. 1:20-24) Além disso, 1 Macabeus prossegue dizendo que dois anos depois, em 167 A.E.C., Antíoco enviou forças a Jerusalém: “Saqueada a cidade, entregou-a às chamas e destruiu-lhe as casas e as muralhas.” (1 Mac. 1:31) Mas esta destruição refere-se evidentemente só aos danos parciais feito nos edifícios e nas paredes, já que nem o santuário, nem a cidade foram realmente destruídos. Veja os comentários sobre esses eventos feitos pelo Professor Jonathan A. Goldstein, I Macabeus. Uma Nova Tradução com Introdução e Comentários (= The Anchor Bible, Vol. 41; Nova Iorque: Doubleday, 1976), págs. 213-20. Um exame crítico detalhado das tentativas de aplicar Dan. 9:26-27 aos tempos e ações de Antíoco IV pode ser encontrado em O Profeta Daniel, do Dr. E. B. Pusey, (Minneapolis: Klock e Klock Christian Publishers, 1978, reimpressão da edição de 1885), págs. 184-229.

[10] Para uma consideração sobre o entendimento farisaico desta profecia depois de 70 E.C., veja “Daniel 9 e a Data da Vinda do Messias na Contagem Essênia, Helenística, Farisaica, Zelote e Cristã Primitiva”, de Robert T. Beckwith, Revue de Qumran, Vol. 10, nº 40, dezembro de 1981, págs. 531-36. Confira também Estudos do Novo Testamento,  de A. Strobel, Vol. X (1963-1964), pág. 442, também Lloyd Gaston, op. cit. (Na nota 4 deste artigo), págs. 458-468.

[11] Confira os comentários no Capítulo 5 de Os Tempos dos Gentios Reconsiderados, nota 22.

[12] Albert Barnes, Notas sobre o Antigo Testamento, Explanatórias e Práticas: Daniel, Vol. II (Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1977, reimpressão da edição de 1853), pág. 188.

[13] Colin Brown (ed.), Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, Vol. 3 (Exeter, Reino Unido: The Paternoster Press, Ltda., 1978), pág. 943. – Um verbo transitivo é um verbo que é acompanhado por um objeto acusativo. Uma frase que tenha um verbo transitivo pode ser mudada para a voz passiva. Por exemplo, a frase “o menino chutou a bola” pode ser mudada para “a bola foi chutada pelo menino”. Em Lucas 21:24 usa-se a voz passiva do verbo patéô. (Compare com a voz ativa usada na declaração similar em Revelação 11:2.) Um verbo intransitivo não é seguido por um objeto acusativo.

[14] Ibid., pag. 944. Confira os comentários do Dr. H. Seeseman em G. Kittel & G. Friedrich (eds.), Dicionário Teológico do Novo Testamento (sigla em inglês: TDNT), Vol. V (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans Publ Co., 1967), págs. 940, 943.

[15] Todas as frases em Lucas 21:24 estão no tempo futuro, indicando que esta profecia se refere a algo que pertencia inteiramente para ao futuro: “Haverá (éstai) grande aflição na terra e ira contra este povo. Cairão (pesoûntai) pela espada e serão levados como prisioneiros (aichmalôtisthêsontai) para todas as nações. Jerusalém será (éstai) pisada pelos gentios, até que os tempos deles se cumpram (plêrôthôsin).” – (NVI) Embora o último verbo, plêróô, seja usado aqui no tempo aoristo passivo do subjuntivo, plêrôthôsin, o modo subjuntivo em grego sempre foi estreitamente relacionado com o tempo futuro. O texto de Westcott e Hort, no qual a Tradução do Novo Mundo se baseia, parece até mesmo enfatizar o tempo futuro, ao adicionar kai ésontai, “e será”, após plêrôthôsin, em concordância com o manuscrito Vaticano 1209. Todavia, o acréscimo de kai ésontai não é apoiado pelo testemunho da maioria dos outros manuscritos mais antigos e é deixado de fora nas modernas edições críticas do texto grego.

[16] “dias para executar a justiça” (hêmérai ekdikêseôs)”: Conforme foi salientado pelo professor C. H. Dodd, a mesma frase é usada em referência à condenação de Israel em Oséias 9:7 (LXX) e em referência à destruição de Judá em Jeremias 46:10 (LXX = 26:10). — C. H. Dodd, op. cit. (Nota 7 acima), pág. 51.

todas as coisas escritas”: A declaração mais provavelmente se refere às coisas escritas no Antigo Testamento sobre o julgamento de Jerusalém e da nação judaica. Daniel 9:26-27 está certamente em destaque, mas também outros textos em Daniel e em outros lugares, tais como Daniel 12:1 e 1 Reis 9:6-9.

[17] A “grande aflição” (anánkê megálê) corresponde à “grande tribulação” (thlípsis megálê) de Mateus 24:21, que cita Daniel 12:1. A frase “ira sobre este povo” tem paralelos no Antigo Testamento: Salmo 78:21 (LXX = 77:21) fala da “ira de Deus ... sobre Israel”, e 2 Crônicas 24:18 fala da “ira de Deus sobre Judá e Jerusalém”.

[18] Quão completamente se cumpriram essas predições foi documentado em detalhes pelo historiador judeu Flávio Josefo, que foi testemunha ocular destes eventos. Ele descreve o esmagamento da rebelião judaica pelos romanos como um banho de sangue nacional de três anos e meio, que culminou com a destruição total de Jerusalém e de seu templo. Desde o início da guerra um grande número de judeus foram mortos nos combates e sítios, ou capturados e vendidos como escravos. Em setembro de 67 E.C., por exemplo, 36.400 judeus foram levados cativos em Tiberíades, no Mar da Galiléia, 6.000 dos quais foram enviados a Corinto para escavar o canal que tinha sido recentemente começado por Nero, enquanto os restantes 30.400 foram vendidos como escravos para outras partes do império. (Josefo, A Guerra Judaica III, 539-542) Segundo Josefo, “o total de prisioneiros durante toda a guerra foi de noventa e sete mil” Os que pereceram durante o sítio e a destruição de Jerusalém ele estima em “um milhão e cem mil” – Josefo, A Guerra Judaica, Livro VI, 420. Citado da tradução de H. St. J. Thackeray no Vol. 210 da Loeb Classical Library (Cambridge e Londres: Editora da Universidade de Harvard, 1928). Eruditos modernos geralmente consideram este último número grosseiramente exagerado.

[19] Joseph H. Thayer, Um Léxico Greco-Inglês do Novo Testamento, 4ª ed. (Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1977), págs. 494:3961. De maneira similar, o Dr. H. Seesemann, comentando sobre o uso de patéô em Lucas 21:24 e Apocalipse 11:2, diz que “tem aqui o sentido de ‘destruição’, ‘pilhagem’, embora se possa ir além e verter como ‘saquear’ e ‘profanar’, já que saquear a cidade santa (incluindo o templo) é necessariamente equivalente à sua profanação.” – H. Seeseman em TDNT, Vol. V, pág. 943 (veja a nota 14 acima).

[20] A tradução do Dr. Luke Timothy Johnson de Lucas 21:24 reflete sua consciência desta conexão: “E Jerusalém será pisada sob o calcanhar dos gentios até que os tempos dos gentios se completem.” Em seus comentários sobre este versículo, ele ressalta que “o verbo patéô é usado em referência a ‘pisar uvas’ em Joel 3:13, ‘pisar a cabeça dos pobres no pó’ em Amós 2:7 e ‘pisar os inimigos na lama das ruas’ em Zac. 10:5. Da mesma forma, Lam 1:15 contém a frase ‘o Senhor pisou como num lagar a virgem filha de Judá’ (isto é, Jerusalém).” – L.T. Johnson, O Evangelho de Lucas (= Volume 3 na Sacra Pagina Series). (Collegeville, Minnesota: The Liturgical Press, 1991), págs. 320, 324.

[21] R. H. Charles, A Revelação de São João, Vol. I (Edimburgo: T. & T. Clark, 1920;  impressão de 1985), pág. 280. De maneira similar, o Dr. Robert H. Mounce afirma que os 42 meses, “tornaram-se um símbolo convencional de um período limitado de tempo durante o qual as rédeas seriam soltas para o mal. Em Lucas 21:24 ele é chamado de “os tempos dos gentios.” – R. H. Mounce, O Livro de Revelação (Grand Rapids, Michigan: William B. Eerdmans Publishing Company, 1977), pág. 221. Veja também I. T. Beckwith, O Apocalipse de João: Estudos em Introdução (Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1979. Reimpressão da edição de 1919), pág. 599.

[22] John M. Court, Mito e História no Livro de Revelação (Londres: SPCK, 1979), pág. 87.

[23] Moisés Stuart em Um Comentário Sobre o Apocalipse, conforme a citação de J. Stuart Russell em A Parousia. Um Levantamento Crítico da Doutrina do Novo Testamento Sobre a Segunda Vinda de Nosso Senhor (Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1983. Reimpressão da edição de 1887), pág. 430. Confira também os comentários de Milton Terry, Hermenêutica Bíblica (Grand Rapids, Michigan: Academie Books, Zondervan, 1974. Reimpressão da edição de 1883), págs. 473, 474.

[24] Com referência à data do Apocalipse, o Dr. Daniel A. deSilva observa: “A data do Apocalipse, e, portanto, da natureza da situação que o ocasionou, é consideravelmente a mais disputada de forma ampla. Os eruditos estão bem divididos entre colocar a obra no “Ano dos Quatro Reis”, 68/69 AD, e perto do fim do reinado de Domiciano, 94 ou 95 AD.” — D. A. deSilva, “A configuração social da Revelação a João: conflitos dentro, temores fora”, The Westminster Theological Journal, Vol. 54 (1992), págs. 273-74. Para defesas recentes da data mais antiga, veja John A. T. Robinson, Redatando o Novo Testamento (Londres: SCM Press Ltda., 1976; 5ª impressão, 1984), págs. 221-253, e o extenso estudo feito por Kenneth L. Gentry Jr., Antes da Queda de Jerusalém. Datando o Livro de Revelação (Tyler, Texas: Institute for Christian Economics, 1989). A imagem da “medição” é usada na Bíblia, quer como um símbolo de edifício (Eze 40:2-3; Zac. 1:6; Rev. 21:15-17.) quer como um símbolo de destruição (Amós 7:7-9; 2 Reis 21:13; Isa 34:11; Lam 2:7-8). A maior parte dos comentaristas, porém, creem que ela é usado aqui em Revelação 11:1 como um símbolo de preservação, porque as coisas que são medidas (o santuário, etc.) parecem ser estabelecidas em contraste com o pisoteamento do resto da cidade pelos gentios. Sob esse ponto de vista, o santuário com seus rituais simboliza um núcleo de crentes fiéis dentro de um sistema apóstata condenado à destruição. Muitos vêem também na “medição” um paralelo com a “selagem” descrita em Revelação 7:1-8. Os eruditos que consideram as visões de Rev. 11:1-13 como inteiramente simbólicas entendem a “cidade” como um símbolo de Roma, do judaísmo, ou da cristandade apóstata. Os eruditos que questionam essas identificações da “cidade” apontam para o versículo 8, onde ela é identificada como a cidade “onde também o seu Senhor foi crucificado.” A pergunta é: Como se poderia dizer que Jesus foi crucificado em Roma ou na cristandade?

[25] Uma conveniente apresentação, versículo por versículo, das quatro principais abordagens para o livro de Revelação é encontrada em Revelação: Quatro Interpretações. Um Comentário Paralelo, do Dr. Steve Gregg. (Nashville: Thomas Nelson Publisher, Inc., 1997).

[26] Veja a discussão feita por K. H. Rengstorf da palavra hepta, “sete”, em Kittel / Friedrich, TDNT, Vol. 2 (veja a nota 14 deste artigo), pág. 628.

[27] O Dr. E. J. Young, por exemplo, afirma: “Este período, um tempo, tempos e metade de um tempo, aparentemente representa um período de testes e julgamento que para o bem do povo de Deus, os eleitos, será encurtado (conforme Mat. 24:22)” – E. J. Young, A Profecia de Daniel. Um Comentário (Grand Rapids, Michigan: Wm. B. Eerdmans Publ. Co., 1949), pág. 162. Veja também M. A. Beck, “Zeit, Zeiten, und eine halbe Zeit”, em Studia Biblica et Semitica. Festschrift dedicado a Theodoro Christiano Vriezen (Wageningen: H. Veenman & Zonen N.V., 1966), pág. 24. Como este “encurtado” período de três anos e meio seriam aproximadamente a duração da “grande tribulação” sobre a nação judaica (“sobre a terra”, Lucas 21:23), alguns eruditos concluem que os “42 meses” de Rev. 11:2, expressos como três “tempos” (kairoí) e meio  (Kairoi) em Daniel, correspondem aos “tempos” (kairoí) dos gentios” em Lucas 21:24. Confira Biblical Apocalyptics, de Milton S. Terry (Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, 1988. Reimpressão da edição de 1898), págs. 237-238.

[28] Uma história detalhada do longo período de controle estrangeiro sobre Jerusalém está incluído em Karen Armstrong, Jerusalém. Uma cidade, Três Fés (Nova Iorque: Alfred A. Knopf, Inc., 1996).

[29] Um excelente apanhado crítico das aplicações de Lucas 21:24 e outras profecias bíblicas dadas por vários expositores à conquista de Jerusalém por Israel em 1967 e os eventos subsequentes é encontrado em Dwight Wilson, Armagedom Agora! (Tyler, Texas: Institute for Christian Economics, 1991; reimpressão da edição de 1977), págs. 188-214. Uma atualização para o período a partir de 1977 está incluído no Prefácio da edição de 1991, págs. xxv-xlii.

[30] Eliezer Paltiel, Vassalos e Rebeldes no Império Romano. Políticas Júlio-Claudianas na Judéia e nos Reinos do Oriente (= Collection Latomus, Volume 212) (Bruxelas: Latomus, Revue d'Étude Latines, 1991), págs. 158, 194-200, 321-30.

[31] As forças de Vespasiano, no início da guerra, na primavera de 67 consistiam de três legiões romanas e 23 coortes mais os contingentes auxiliares contribuídos pelos reis vassalos. Somando-se os números, Josefo afirma que “o total das forças, cavalaria e infantaria, incluindo os contingentes dos reis, totalizavam sessenta mil, além dos servos que seguiram em vasto número e podiam ser apropriadamente considerados como combatentes, porque eles contribuíam com seu treinamento militar; eles sempre participavam nas manobras de seus mestres na paz e na guerra e compartilhavam seus perigos, não ficando a dever nada a eles em habilidade e talento.” – Gaalya Cornfeld (Editor Geral), Benjamin Mazar, e Paul L. Maier, Josefo. A Guerra Judaica (Grand Rapids, Michigan: Zondervan Publishing House, 1982), Livro III, 64-69. Ênfase acrescentada. Confira as notas dos tradutores nas páginas 214, 218.

As forças sob o comando de Tito em 70 E.C. contavam com pelo menos tantos homens quanto os comandados por Vespasiano três anos antes. Josefo não dá o número total, mas com base na informação que ele deu em Guerra V, 39-46, Cornfeld et al estimam o número total como aproximadamente 60 mil legionários e auxiliares, além do numeroso comboio de seguidores e escravos libertados, uma força adequada e necessária para a captura de uma grande cidade fortificada como Jerusalém.” – G. Cornfeld et al, op. cit., pág. 321, confira também Guerra VII, de Josefo, 17-19.

[32] De acordo com as edições padrão da Septuaginta (A. Rahlfs 1935, J. Ziegler 1954). Num manuscrito, Papyrus 967, descoberto no Egito em 1931, aparece “um rei (basileús) dos gentios” em vez de “um reino (basileía) dos gentios.” Como este é o mais antigo manuscrito restante da versão LXX de Daniel (datada do 2º, ou início do 3º século E.C.), ele pode muito bem ter preservado a redação original. Ele também está mais próximo do texto hebraico, que fala de um “príncipe”, não de seu reino. — Veja Angelo Geissen (ed.), Der Septuaginta-Text des Buches Daniel (Bonn: Rudolf Habelt Verlag GmbH, 1968), págs. 38, 39, 42, 214-217.

[33] Conforme observado neste artigo (seção D-2), 1 Macabeus 4:60 também usa o plural, éthnê, “gentios” ou “nações”, referindo-se aos exércitos de Antíoco Epifânio. Um uso similar do plural “nações” ou “gentios” encontra-se em Zacarias 12:3 e 14:2, que faz profecias de futuros ataques a Jerusalém por parte de “todas as nações” (LXX: pánta tà éthnê). Em ambos os capítulos o plural “nações” ou “gentios” refere-se evidentemente a um exército de gentios que atacaria Jerusalém. Essas profecias foram interpretadas de modo variado, mas é interessante notar que diversos eruditos encontraram o cumprimento delas nos dois ataques mais devastadores contra Jerusalém após a desolação dela por Babilônia em 587 A.E.C., a saber, o ataque dos exércitos de Antíoco IV Epifânio entre 167-164 A.E.C. e o dos exércitos romanos na guerra de 67-70 E.C. – Veja, por exemplo, a abrangente consideração de Zacarias 12 do Dr. C. H. H. Wright, Zacarias e Suas Profecias, Consideradas em Relação ao Criticismo Moderno (Londres: Hodder e Stroughton, 1879, reimpresso por Klock & Klock em 1980), pág. 355-406.

* Em português esse detalhe não é claro, pois o artigo definido também foi inserido em Lucas 21:24 em muitas versões.

[34] Compare, por exemplo, a forma definida de “abominação da desolação” em Mateus 24:15 e Marcos 13:14, que era um conceito que os ouvintes judeus sem dúvida reconheciam com base no livro de Daniel.

[35] Milton S. Terry, Hermenêutica Bíblica (veja a nota 23 acima), pág. 445. Isso também é enfatizado por C. H. Dodd, op. cit. (Nota 7 acima), pág. 52.

[36] Veja o capítulo 6 de Os Tempos dos Gentios Reconsiderados, seção B-4. Conforme apontado lá, a versão Teodociana de Daniel usa kairoí para “tempos” no capítulo 4.

[37] Similarmente, O Novo Testamento do Tradutor da Sociedade Bíblica Britânica & Estrangeira (1973) verte a frase como “os tempos designados dos gentios”.

[38] Veja, por exemplo, as considerações em TDNT (nota 14 acima), Vol. III (1965), pág. 455; C. Brown, Vol. III (nota 13 acima), 833ff., e em Walter Bauer, Um Léxico Greco-Inglês do Novo Testamento, 2ª ed. (Chicago e Londres: Editora da Universidade de Chicago, 1979), pág. 395. Veja também a consideração sobre kairós no dicionário bíblico da Sociedade Torre de Vigia Estudo Perspicaz das Escrituras, Vol. 3 (1992), pág. 688.

[39] James Barr, Palavras Bíblicas para Tempo (Londres: SCM Press Ltda, 1962), págs. 20-46. Veja também o artigo informativo sobre kairós de C. H. Pinnock em G. W. Bromiley (ed.), Enciclopédia Bíblica Padrão Internacional (sigla em inglês: ISBE), Vol. 4 (Grand Rapids, Michigan: William B. Eerdmans Publishing Company, 1988), págs. 852-853.

[40] Ibid., pág. 42. Se o uso de kairós em Lucas 21:24 significasse algo mais do que apenas um período de tempo, a ênfase seria provavelmente no tempo como uma oportunidade. Os “tempos dos gentios” significam então os tempos do triunfo deles sobre Jerusalém, a oportunidade que foi dada a eles para pisotear e destruir a cidade. A duração deste período pode muito bem ter sido divinamente “determinada” ou “designada” previamente.

[41] C. H. Dodd, op. cit. (Nota 7 acima), pág. 52.

[42] Albert Barnes, op. cit., Vol. II (nota 12 acima), pág. 180.

[43] Ibid., págs. 180, 181.

[44] Milton S. Terry, Biblical Apocalyptics (veja a nota 27 acima), pág. 367.