Uma Consideração Adicional Sobre a Ceia do Senhor

Inglês

Em 1 Coríntios 11:23-26, referindo-se à última refeição que Jesus partilhou com os discípulos, Paulo escreveu:

Porque eu recebi do Senhor este ensinamento que passei para vocês: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, pegou o pão e deu graças a Deus. Depois partiu o pão e disse: “Isto é o meu corpo, que é entregue em favor de vocês. Façam isto em memória de mim.” Assim também, depois do jantar, ele pegou o cálice e disse: “Este cálice é a nova aliança feita por Deus com o seu povo, aliança que é garantida pelo meu sangue. Cada vez que vocês beberem deste cálice, façam isso em memória de mim.” De maneira que, cada vez que vocês comem deste pão e bebem deste cálice, estão anunciando a morte do Senhor, até que ele venha.”

Estava Jesus simplesmente instituindo um ritual, como é comumente praticado em muitas igrejas hoje? Ou haveria um significado maior neste evento?

Com referência aos rituais judaicos Paulo escreveu:  

“Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa [o que inclui a Páscoa], ou lua nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo.”

Embora ele tenha se baseado em incidentes históricos no passado de Israel, Paulo mostra que as cerimônias judaicas prenunciaram a realidade que temos em Cristo. Sendo o antítipo do cordeiro, Jesus foi o cumprimento da Páscoa judaica. Poderia ser o caso de a Ceia do Senhor, apesar de sua base histórica, também ter um significado maior? – Colossenses 2:16, 17, 1 Coríntios 5:7; considere também Hebreus 8:5.

João 6:35, 40, 51, 53-56 registra as seguintes palavras de Jesus: 

Jesus respondeu: — Eu sou o pão da vida. Quem vem a mim nunca mais terá fome, e quem crê em mim nunca mais terá sede... Pois a vontade do meu Pai é que todos os que vêem o Filho e crêem nele tenham a vida eterna; e no último dia eu os ressuscitarei... Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Se alguém comer desse pão, viverá para sempre. E o pão que eu darei para que o mundo tenha vida é a minha carne... Então Jesus disse: — Eu afirmo a vocês que isto é verdade: se vocês não comerem a carne do Filho do Homem e não beberem o seu sangue, vocês não terão vida. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é a comida verdadeira, e o meu sangue é a bebida verdadeira. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue vive em mim, e eu vivo nele.

Não parece estranho que, apesar desse discurso detalhado sobre comer a carne de Jesus e beber o seu sangue, João não tenha feito referência alguma à instituição da cerimônia do pão e do cálice? Afinal, ele mesmo mencionou a lavagem dos pés dos discípulos de Jesus na última ceia, algo omitido pelos outros evangelistas. [E algumas igrejas ritualizaram esse evento também; embora a maioria delas veja isso como nada mais que uma lição de humildade.] – João 13:12-16

Como é que comemos a carne de Jesus e bebemos o seu sangue? No versículo 40, citado acima, Jesus mostra que a crença nele é necessária para ganhar a vida eterna. Mas, como podemos acreditar, se não sabemos nada sobre ele? E a que fonte devemos recorrer para descobrir os fatos sobre Jesus? Devemos recorrer à Bíblia, a Palavra escrita de Deus, que nos diz que "o Verbo se fez carne" em Jesus Cristo. Então, quando nos alimentamos da Bíblia, estamos ‘comendo sua carne’. Mas não devemos limitar o nosso conhecimento a isso. Paulo escreveu em 1 Coríntios 10:16, 17: 

"Pensem no cálice pelo qual damos graças a Deus na Ceia do Senhor. Será que, quando bebemos desse cálice, não estamos tomando parte no sangue de Cristo? E, quando partimos e comemos o pão, não estamos tomando parte no corpo de Cristo? Mesmo sendo muitos, todos comemos do mesmo pão, que é um só; e por isso somos um só corpo."

O que é este “corpo de Cristo” no qual tomamos parte? 

Pois bem, vocês são o corpo de Cristo, e cada um é uma parte desse corpo. (1 Coríntios 12:27)

Assim, o pão / carne da ilustração de Jesus simboliza, além da Palavra de Deus, a comunhão dos cristãos. – João 1:14

O que o copo / sangue simboliza? Levítico 17:11 nos diz que “a vida da carne está no sangue” Assim, Paulo nos diz em 2 Coríntios 3:6 que “o espírito vivifica” [isto é, dá vida], e em 1 Coríntios 12:13 lemos: 

Assim, também, todos nós, judeus e não-judeus, escravos e livres, fomos batizados pelo mesmo Espírito para formar um só corpo. E a todos nós foi dado de beber do mesmo Espírito.

Portanto, o copo / sangue ilustra o Espírito de Deus que dá vida e nossa comunhão com Ele.

Conseqüentemente, as ações de Jesus na última ceia devem ser entendidas também como uma ilustração das realidades espirituais, e não apenas como a instituição de um ritual sacramental. Será que o que Paulo disse em 1 Coríntios 11:20-22 argumenta contra esse conceito? Ele escreveu: 

Quando vocês se reúnem, não é a Ceia do Senhor que vocês comem. Pois, na hora de comer, cada um trata de tomar a sua própria refeição. E assim, enquanto uns ficam com fome, outros chegam até a ficar bêbados. Por acaso vocês não têm as suas próprias casas onde podem comer e beber? Ou será que preferem desprezar a Igreja de Deus e envergonhar os que são pobres? O que é que vocês esperam que eu lhes diga? Querem que os elogie? É claro que não vou elogiá-los!

No primeiro século, era um costume social dar alimento e bebida aos convidados e esse costume foi aplicado nas reuniões cristãs. Muitos eram bem pobres e isso fazia com que houvesse um compartilhamento de recursos. Além disso, a maioria das pessoas eram escravos ou trabalhadores comuns, que tinham de trabalhar longas horas, por isso este costume lhes permitia economizar tempo. Em Corinto surgiu um problema: alguns estavam pensando mais nos benefícios carnais, entregando-se de maneira egoísta à comida e bebida, e estavam pouco preocupados com os benefícios espirituais. Isso deve ter sido muito embaraçoso para eles. Depois de ter identificado o problema, Paulo apontou para o significado espiritual das reuniões deles, referindo-se à última ceia de Jesus com seus discípulos e o que foi ilustrado lá.

Paulo continuou dizendo: 

"Por isso aquele que comer do pão do Senhor ou beber do seu cálice de modo que ofenda a honra do Senhor estará pecando contra o corpo e o sangue do Senhor. Portanto, que cada um examine a sua consciência e então coma do pão e beba do cálice. Pois, a pessoa que comer do pão ou beber do cálice sem reconhecer que se trata do corpo do Senhor, estará sendo julgada ao comer e beber para o seu próprio castigo. É por isso que muitos de vocês estão doentes e fracos, e alguns já morreram. Se examinássemos primeiro a nossa consciência, nós não seríamos julgados pelo Senhor.” – 1 Coríntios 11:27-31

Não faz mais sentido entendermos que ele estava se referindo à comunhão espiritual, e não simplesmente a um ritual de comer pão e beber vinho? – Compare com o que diz Judas 12.

O que dizer do mandamento de Jesus: "Façam isso em memória de mim"? Poderíamos dar maior testemunho do sacrifício de Jesus do que por exercermos em nossa própria vida as realidades espirituais do amor altruísta, comunhão encorajadora, e servidão humilde, conforme demonstradas pela vida e morte dele, e por meio das quais nos tornamos mais semelhantes a ele? – Considere Hebreus 10:19-25

De modo algum estamos dizendo que seja errado ter uma cerimônia de comunhão cristã com o uso do pão e do vinho. Mas estaremos raciocinando de maneira simplista, se nos concentrarmos apenas na cerimônia em si, e deixarmos de compreender o pleno significado da ilustração de Jesus e sua aplicação à nossa vida cristã. 

Jay Dicken

 

(Traduzido por um associado do Mentes Bereanas, com permissão do autor. As citações bíblicas são da Nova Tradução na Linguagem de Hoje.)