O Processo de Institucionalização do Cristianismo

Na época do Concílio de Nicéia, em 325 D.C., as coisas tinham chegado a um ponto em que um concílio de bispos, convocado e presidido pelo imperador de Roma, Constantino, elaborou um credo ao qual se esperava que todos os cristãos, em toda parte, aderissem. Mas, que fatores transitórios tornaram possível essa alteração na natureza da primitiva comunidade cristã, transformando-a, em poucos séculos, de uma fraternidade simples num sistema eclesiástico autoritário? O próprio Cristo fundara a congregação cristã sobre si mesmo e sobre seus apóstolos e profetas. (Efésios 2:20-22.) Por que, então, ela se desviara — tanto e tão rapidamente — do ensino e do espírito transmitidos por ele e pelos apóstolos cristãos inspirados e profetas?

Lendo as obras de autores cristãos do segundo e terceiro séculos, impressionei-me com a grande ênfase que certos homens começaram a dar à autoridade humana dentro da primitiva congregação. A história do período revelava, nos ensinos publicados, a gradual elevação de homens ao controle e poder cada vez maiores sobre os assuntos congregacionais, e um movimento lento, mas constante, em direção à centralização da autoridade.

A afirmação é que depois que a congregação cristã ultrapassou os limites de Jerusalém e da Judéia, um corpo governante atuou organizado como centro de autoridade, exercendo sua direção a partir de Jerusalém sobre todas as congregações do primeiro século.

Não encontrei na história bíblica nem na religiosa evidência alguma que apoiasse essa afirmação. Com base nas declarações diretas e vigorosas de Paulo em sua carta aos Gálatas, ficou claro que ele não considerava Jerusalém como o centro administrativo divinamente designado sobre toda a atividade congregacional da terra. Se um “corpo governante” designado por Cristo tivesse existido, Paulo teria certamente entrado em contato com ele de imediato após sua conversão, submissamente buscando sua orientação e direção, especialmente tendo em vista a pesada responsabilidade que Cristo lhe conferira de ser “apóstolo para os gentios”. (Atos 9:15; Romanos 11:13) Se um “corpo governante” tivesse existido, Paulo certamente se teria preocupado em coordenar sua obra com a de seus membros. Deixar de harmonizar sua obra com o “corpo governante” designado por Cristo e submeter-se à direção dele teria sido uma séria “falta de respeito pela ordem Teocrática”.

Cristo, porém, absolutamente nada disse a Paulo (Saulo) sobre ir a Jerusalém. Em vez de mandá-lo de volta a Jerusalém, de onde Paulo acabara de vir, Cristo o enviou a Damasco. Ele deu as instruções que tinha para Paulo por meio de um morador de Damasco chamado Ananias, que obviamente não era membro de um “corpo governante” sediado em Jerusalém. (Atos 9:1-17; 22:5-16.) Logo no início de sua carta aos Gálatas, o próprio Paulo esforçou-se em deixar claro que seu apostolado e sua orientação espiritual não vinham de homens ou por meio deles, incluindo especificamente os apóstolos em Jerusalém. (Gálatas 1:1, 10, 11) Ressaltou o fato de que, após sua conversão, não recorreu a nenhuma fonte de autoridade humana, dizendo:

Não entrei imediatamente em conferência com carne e sangue. Tampouco subi a Jerusalém, aos que eram apóstolos antes de mim, mas parti para a Arábia e voltei novamente a Damasco [na Síria]. (Gálatas 1:16, 17).

Foi só três anos depois que Paulo fez uma viagem a Jerusalém. E ele afirma especificamente que nessa época viu apenas Pedro e o discípulo Tiago, mas não viu nenhum outro apóstolo durante os quinze dias que ali passou. Ele não estava, portanto, num “curso de anciãos na sede mundial”, recebendo instruções em algum tipo de sessões diárias dirigidas por um “corpo governante”. Temos uma ideia da seriedade com que ele encarava este assunto quando disse: “eis que não estou mentindo à vista de Deus.” (Gálatas 1:18-20).

Depois, Paulo estabeleceu base em Antioquia, não em Jerusalém. Realizou viagens missionárias e quem o enviou foi a congregação de Antioquia, não a de Jerusalém. Embora estivesse relativamente próximo de Jerusalém (Antioquia fica na região costeira da Síria), passou-se longo período de tempo antes que Paulo tivesse motivo ou ocasião para voltar àquela cidade. Como ele diz: “Daí, quatorze anos depois, subi novamente a Jerusalém, com Barnabé, tomando também comigo a Tito. Mas, subi em resultado de uma revelação.” (Gálatas 2:1, 2) Pela descrição dada, isto pode ter sido na época do concílio sobre a circuncisão e a observância da lei, registrado em Atos, capítulo 15. Paulo afirma ter ido então a Jerusalém apenas “em resultado de uma revelação.” Isto mostra que os cristãos não costumavam encarar ou considerar Jerusalém como a sede da autoridade centralizada para todas as congregações cristãs, o lugar onde se resolviam as questões de toda e qualquer espécie. Foi preciso uma revelação divina para que Paulo fizesse esta viagem especial até lá.

O relato de Atos, capítulo 15, mostra por que Jerusalém era o lugar lógico onde tratar deste assunto específico. Em parte alguma o relato indica que Jerusalém era sede de algo como um corpo administrativo internacional. Em vez disso, foi primariamente por ter a própria Jerusalém sido a fonte do desconcertante problema que Paulo e Barnabé tinham encontrado em Antioquia, onde serviam. Tudo estava relativamente calmo em Antioquia até que “homens de Jerusalém” desceram e causaram problemas, insistindo que os cristãos gentios deviam ser circuncidados e guardar a Lei. (Atos 15;1, 2, 5, 24) A congregação cristã tivera início em Jerusalém. A Judéia, com sua capital Jerusalém, era onde a firme adesão à guarda da lei prevalecia mais intensamente entre as pessoas que professavam o cristianismo. Essa atitude ainda perdurou por anos após a realização deste concílio especial. (Veja Gálatas 2:11-14; Atos 21:15, 18-21). Os causadores do problema em Antioquia eram homens estabelecidos em Jerusalém. Estes fatores, não só a presença dos apóstolos, fizeram de Jerusalém o local natural para o debate e a solução desse problema específico. A presença dos apóstolos divinamente escolhidos era obviamente um fator de peso. Todavia, essa circunstância desapareceria à medida que os apóstolos morressem sem deixar sucessores — ninguém com dons e autoridade apostólicos. De modo que a situação em meados do primeiro século envolvia fatores que não eram de natureza permanente ou contínua, e assim eles simplesmente não são aplicáveis à nossa época.

Além disso, resta o fato de que mesmo quando os apóstolos estavam vivos, e em Jerusalém, o apóstolo Paulo claramente não via esse corpo apostólico em Jerusalém como um “corpo governante” no sentido de um centro administrativo internacional, a “sede de uma organização”.

Analisando a posição daquela época, é claro que se tivesse existido um “corpo governante” como corpo administrativo central da congregação primitiva, devia então haver alguma evidência disso além daquela única reunião em Jerusalém. Em parte alguma das Escrituras vemos isto. Em nenhum dos escritos de Paulo, Pedro, João, Lucas, Judas ou Tiago vê-se algum indício de que homens em Jerusalém, ou qualquer corpo centralizado de homens, exercessem supervisão e controle sobre o que se passava nos muitos outros lugares onde havia cristãos. Nada que indique que as atividades de Paulo, Barnabé, Pedro ou quaisquer outros fossem exercidas sob controle e supervisão de um “corpo governante”. Quando os judeus se rebelaram contra o domínio imperial romano e Jerusalém foi destruída em 70 D.C., onde, daí em diante, passou a funcionar o suposto “corpo governante” cristão? Mais uma vez, seria razoável que houvesse pelo menos algum indício disto, se este era mesmo um arranjo de Deus, se este corpo administrativo centralizado era o instrumento divino de Cristo Jesus para dirigir sua congregação em toda a terra.

Os únicos escritos bíblicos subsequentes à queda de Jerusalém são evidentemente os do apóstolo João. Ele aparentemente escreveu todos por volta do final do século, décadas, portanto, após a destruição de Jerusalém. Nenhuma de suas cartas dá o menor indício de um corpo administrativo central funcionando entre os cristãos de seus dias. No livro de Revelação, suas visões mostram Cristo Jesus enviando mensagens a sete congregações da Ásia Menor. (Revelação capítulos 1 a 3). Em nenhuma destas mensagens há indício de que estas congregações estavam sob algum controle exterior senão o do próprio Cristo. Não há sinal de que Ele as dirigisse por meio de um “corpo governante” terrestre visível.

Os escritos dos primitivos autores cristãos do segundo e terceiro séculos estão disponíveis para consulta, mas estes também nada revelam que indique a existência de uma administração central que supervisionasse as numerosas congregações cristãs. A história desse período revela algo bem diferente. Mostra que a base desta autoridade centralizada foi fruto de um desenvolvimento pós-apostólico e pós-bíblico. Por um processo gradual que levou séculos, isto veio a resultar num tipo de controle centralizado mediante uma liderança organizacional visível.

O Desenvolvimento do Controle Centralizado

Embora as fontes históricas não sejam numerosas, a evidência indica que o primeiro passo da centralização veio com uma mudança de opinião, na verdade uma distorção, quanto ao papel dos corpos de anciãos ou “presbíteros” (o termo grego para “ancião” é presbyteros). Em vez de serem vistos simplesmente como irmãos mais velhos que servem entre irmãos, como numa família, passou-se a afirmar que estes anciãos tinham uma relação especial com Deus e Cristo, distinta e superior em relação à de seus concristãos. Ao descrever a situação original das coisas na congregação cristã, a obra History of the Christian Church [História da Igreja Cristã], de Schaff, página 124, admite:

O Novo Testamento não conhece nenhuma aristocracia ou nobreza espiritual, mas chama todos os crentes de ‘santos’, embora muitos não correspondam à sua vocação. Tampouco reconhece um sacerdócio especial distinto do povo, fazendo mediação entre Deus e a classe leiga. Ele conhece apenas um sumo sacerdote, Jesus Cristo, e ensina claramente não só o sacerdócio universal, como também a realeza universal, dos crentes.

Cada cristão tinha uma relação pessoal com Deus através de Cristo como Sumo Sacerdote, sem que qualquer outra intervenção humana fosse necessária para servir de mediador. Assim, cada cristão era, ele próprio, parte de um “sacerdócio real”. (1 Pedro 2:5, 9; 5:3; Revelação 1:6; 5:10; 20:6).

É verdade que os anciãos cristãos tinham autoridade bíblica. Mas era autoridade para servir, não para subordinar outros; para apoiar, aconselhar, até para repreender, mas nunca para dominar ou ditar ordens. Quando surgia o erro, este era combatido por meio da refutação, da argumentação veraz, da persuasão, nunca mediante coação ou intimidação, a tirania da autoridade. (Mateus 20:25-28; 23:10, 11; 2 Coríntios 1:24; Tito 1:9-13; 1 Pedro 5:1-5.) “Um só é o Mestre de vocês, e todos vocês são irmãos.” (Mateus 23:8). Esse princípio declarado pelo próprio Mestre deve ser tido sempre em mente quando lemos qualquer declaração encontrada nas Escrituras Cristãs. Em Hebreus, capítulo 13, versículo 17, por exemplo, exorta-se:

Sede obedientes aos que tomam a dianteira entre vós e sede submissos, pois vigiam sobre as vossas almas como quem há de prestar contas; para que façam isso com alegria e não com suspiros, porque isso vos seria prejudicial.

Implica isto numa virtual submissão automática à direção das pessoas que tomam a dianteira? Não, pois a injunção de Cristo não era simplesmente contra alguns serem chamadosde “líderes”, mas contra alguém pretender exercer a posição ou cargo de líder, pretender exercer esse tipo de controle arbitrário.25 Sobre a palavra grega (peithomai) da qual vem a tradução “sede obedientes”, o Dicionário Teológico do Novo Testamento (em inglês, Edição Condensada) diz:

Esta palavra significa coisas tais como ‘confiar’, ‘ser convencidos’, ‘acreditar’, ‘seguir’, e até ‘obedecer’. (Página 818).

Note que a tradução “obedecer” é apenas uma de várias traduções possíveis e é a última alistada. O inspirado escritor de Hebreus já tinha, de fato, ressalvado claramente que os “que tomam a dianteira” deviam estar falando não suas próprias opiniões, interpretações ou injunções, mas “a Palavra de Deus”. (Hebreus 13:7) Como ressalta o conhecido erudito bíblico Albert Barnes, a expressão “os que tomam a dianteira” (ou, em outras versões, “líderes”) traz efetivamente o sentido de “orientadores” ou “instrutores”, que servem como orientadores e pastores. (Barnes’ Notes (Hebrew to Jude) [Notas de Barnes (Hebreus a Judas, págs. 317-322].) Enquanto a orientação dada se harmonizasse com o ensino de Cristo e enquanto o pastoreio manifestasse seu espírito, a reação positiva seria a atitude boa e correta, pois significaria submissão ao ensino de Cristo. Mesmo em assuntos não tratados especificamente nas Escrituras, o cristão cooperaria livremente até o ponto em que sua sujeição não contrariasse sua consciência. Não há, porém, nada que indique submissão automática, subserviente e até indiscutível, a uma autoridade superior com direito de exigir obediência e que ameaça de expulsão todos os que não se sujeitam.

Como vimos, o sentido básico do termo grego usado (peithomai) implica, em si, que a sujeição do cristão viria em resultado de ele primeiro ter ‘confiado’, ter sido ‘convencido’ e ter ‘acreditado’ naquilo que procedia de tais irmãos cristãos, e, com base nisso, é que reagiria de modo positivo. Como irmãos cristãos, eles se haviam reunido numa associação voluntária de crentes, e o que se requer nesse caso é a reação livre e voluntária, com base na consideração bondosa — pois é esta que dará mais prazer ao esforço de pastorear tais homens, e porque agir de outro modo não traria nenhuma vantagem aos que eram servidos. Não é algo prestado como uma obrigação que uma “autoridade” da organização tenha o direito de exigir deles.

Ênfase Crescente à Autoridade Humana

Como o apóstolo predissera, alguns anciãos perderam gradualmente de vista o princípio declarado pelo Amo, que governa todos os relacionamentos cristãos. (Atos 20:28-30.) Em vez de dar plena ênfase à autoridade de Deus e Cristo, há evidência de que começaram a enfatizar cada vez mais sua própria autoridade (lembrando constantemente às congregações, é claro, que esta autoridade derivava-se de Deus e de Cristo).

Por que tiveram êxito em fazê-lo? Pela simples razão de que muitas pessoas, talvez a maioria, preferem deixar que outros assumam a responsabilidade que por direito é delas. Sentem até certo orgulho de ser submissos a homens de poder. Isto acontece hoje e acontecia na época. Assim, dirigindo-se a pessoas em Corinto que se jactavam de homens que se apresentavam como “super-apóstolos”, Paulo escreveu:

Se um homem vos tiraniza, explora-vos, despoja-vos, trata-vos com arrogância, bate-vos no rosto, vós suportais. E nós, vós dizeis, fomos fracos! Eu aceito a censura. (2  Coríntios 11:20, 21).

Com respeito a estas palavras, diz um comentarista bíblico:

A ideia, sem dúvida, é que os falsos instrutores lançaram um domínio sobre as consciências deles, destruíram sua liberdade de opinião e tornaram-nos subservientes à vontade deles. Realmente tomaram-lhes a liberdade cristã a ponto de os tornarem como que escravos... os falsos instrutores realmente os tratavam com tão pouco respeito que era como se lhes batessem no rosto. De que modo isto era feito, não se sabe; mas era provavelmente por meio de seus modos dominadores e do pouco respeito que mostravam pelas opiniões e sentimentos dos cristãos coríntios. (Notas de Barnes, em inglês [1 Coríntios a Gálatas], páginas 232, 233).

O apóstolo João dá um exemplo de como esta atitude de auto-importância já transparecia durante sua existência. Ele escreve sobre certo Diótrefes, descrevendo-o como alguém “que gosta de ocupar o primeiro lugar” e que expulsava da congregação os que não se sujeitavam à posição dele. (3 João 9, 10). De modo geral, contudo, o processo parece ter começado com a elevação sutil da autoridade humana. Nos escritos de Inácio de Antioquia (que viveu por volta de 30 a 107 D.C. e morreu como mártir), começamos a encontrar exortações como estas:

E estejai sujeitos aos presbíteros [anciãos], como aos apóstolos de Jesus Cristo. Vossos presbíteros [presidem] no lugar da assembleia dos apóstolos. [Sede] sujeitos ao presbitério [corpo de anciãos] como à lei de Jesus Cristo. (“Epístola aos Tralianos”, de Inácio, capítulo II; “Epístola aos Magnésios”, capítulo VI; a mesma epístola, capítulo II.).

Isto, na prática, revestia os anciãos duma autoridade equivalente à dos apóstolos e igualava a sujeição a eles com a sujeição à lei de Cristo. Mas o fato é que não eram apóstolos, não tinham sido escolhidos como tais pelo Filho de Deus, de modo que não tinham autoridade apostólica e seria errado vê-los nessa condição. Tais advertências eram, na verdade, extensões sutis de certas exortações vistas nas Escrituras, pareciam plausíveis, mas traziam sérias implicações. Vendo as coisas da perspectiva que estabeleceu, Inácio argumentou que aquele que faz algo sem aprovação do superintendente e do corpo de anciãos e diáconos “não é puro de consciência”. (“Epístola aos Tralianos”, de Inácio, capítulo VII.).

Ensinos como estes assinalam o início da distinção entre clero e leigos. Assinalam ainda a intromissão também sutil da autoridade religiosa humana na área da consciência pessoal. Os homens que exigiam uma submissão cada vez maior não se empenharam, como outros haviam feito antes, em estabelecer um controle legalista mediante a imposição da circuncisão e da lei Mosaica. Mas embora seus métodos diferissem, o resultado final foi a não menos perigosa erosão da liberdade cristã das pessoas com indivíduos.1

Um Arranjo Monárquico

Um passo adicional neste processo de desenvolvimento de uma autoridade centralizada visível foi a promoção de um dos membros do corpo de anciãos a uma posição superior, um nível de autoridade maior que a de seus co-anciãos.

A evidência é que originalmente os termos “superintendente” (episkopos) e “ancião” (presbyteros) eram intercambiáveis, um descrevendo a função, o outro a qualidade madura da pessoa. Pode ter sido, naturalmente, uma prática costumeira que um dos anciãos atuasse como presidente em suas reuniões e debates. Com o tempo, todavia, decidiu-se que apenas um dos anciãos manteria com destaque a posição de superintendente, de modo que o termo passou a aplicar-se unicamente a esse indivíduo, e não a todos os anciãos. Por que isto foi feito?

A concentração de maior autoridade numa única pessoa foi vista, evidentemente, como uma medida “prática”, que pôde ser justificada pelas circunstâncias como um meio para se chegar a um fim correto. Jerônimo, que fez a primeira tradução da Bíblia para o latim por volta de 404 A.D., confirma isto. Reconhecendo primeiro que, no início, anciãos e superintendentes eram a mesma coisa, ele diz em seguida:

... gradualmente toda a responsabilidade foi entregue a uma só pessoa, para que as moitas de heresias fossem desarraigadas. (Jerônimo, conforme citado no comentário de Lightfoot sobre a Epístola aos Filipenses, páginas 229, 230.).

A introdução de ensinos falsos, como talvez também as ondas de perseguições sofridas, fizeram os anciãos acharem que seria prático concentrar mais autoridade nas mãos duma só pessoa, que passou a ser O superintendente, o único superintendente entre os anciãos. Como o termo “bispo” provém da palavra grega para “superintendente” (episkopos), isto deu origem ao cargo de bispo. Sem dúvida, havia diferentes opiniões e ensinos errados vindo à tona nas congregações cristãs. Se os que serviam no pastoreio cristão tivessem confiado na verdade das Escrituras, incluindo os ensinos de Cristo e seus apóstolos, como arma espiritual para combatê-los, teriam demonstrado fé no poder da verdade para ‘demolir raciocínios e toda coisa altiva levantada contra o conhecimento de Deus’, conforme declara o apóstolo Paulo. Em vez disso, os homens voltaram-se então para uma arma carnal, recorrendo à elevação da autoridade humana como meio de manter a unidade cristã e, supostamente, a pureza doutrinal. (2 Coríntios 10:4, 5) Neste respeito, Inácio exortara os superintendentes: “Preocupai-vos em preservar a unidade, pois não há nada melhor.” (“Epístola a Policarpo”, de Inácio, Capítulo I) Infelizmente, o apelo desviou a atenção do amor e da verdade como meio de manter a unidade, voltando-a, em vez disso, para a submissão aos líderes religiosos. Assim, vemos nos escritos de Inácio a opinião de que a unidade com Deus dependia da ‘cooperação harmoniosa com o Superintendente’. (“Epístola aos Efésios” de Inácio, capítulo VI; “Epístola aos Tralianos”, capítulo II. Em sua “Epístola aos Filadélfios”, capítulo III, ele escreve: “Pois todos os que são de Deus e de Cristo estão também com o bispo [superintendente].”) Como disse certo erudito, o cargo de bispo (superintendente) passou a constituir-se em “um centro visível da unidade da congregação.” (Lightfoot’s Commentary on the Epistle to the Philippians [Comentário de Lightfoot sobre a Epístola aos Filipenses], páginas 234, 235.).

Tudo isso faz lembrar o raciocínio humano que levou Israel, diante de problemas internos e ataques externos, a buscar um rei como chefe visível em torno do qual se reunir e em quem procurar orientação. Deus, embora lhes concedendo Saul como rei, caracterizou a atitude deles como rejeição de seu próprio governo invisível, uma ação que não era fruto da fé, mas da falta de fé. Ele os avisou da carga que isto representaria para eles, das restrições que isto traria à liberdade deles. Eles, porém, persistiram no desejo de ter um governo visível sobre si. (1 Samuel 8:4-20). A mesma falta de fé continua a motivar as pessoas, até hoje, a desejar e procurar um “centro visível de unidade”, ao invés de, pela fé, olhar para a chefia invisível de Cristo Jesus.

Os laços que inicialmente uniam os cristãos tinham sido a fé e a esperança comuns, o amor mútuo como membros da família cristã. Tinham se congregado em suas cidades e aldeias como pessoas livres, fora do domínio ou controle de uma estrutura de autoridade de amplo alcance. Meio século após a morte dos apóstolos, ocorria uma mudança radical. A direção tomada pela igreja do segundo século D.C. e as forças que a impulsionavam são definidas no relato histórico de Schaff:

... todo o espírito da igreja da época pendia para a centralização; por toda parte sentia-se a demanda por uma unidade compacta, sólida; e esta inclinação interna, em meio aos circundantes perigos da perseguição e da heresia, levou irresistivelmente a igreja em direção ao episcopado [governo congregacional de um só superintendente]. Numa época tão crítica e tempestuosa, prevalecia acima de tudo o princípio de que união é força e divisão é fraqueza... Tal unidade era provida pelo bispo [superintendente], que mantinha uma relação monárquica, ou mais propriamente patriarcal, com a congregação. No bispo contemplava-se o representante visível de Cristo, o grande chefe de toda a igreja... No bispo é que toda a postura religiosa das pessoas para com Deus e Cristo encontrava seu apoio e orientação públicos. (Philip Schaff, History of the Christian Church [História da Igreja Cristã], páginas 56 e 57.).

Apelos por lealdade e submissão a esta autoridade visível foram feitos por vários escritores cristãos. Nas Homilias Clementinas, foi dito o seguinte a um superintendente:

E teu trabalho é ordenar as coisas que forem apropriadas, e o dos irmãos é submeter-se, não desobedecer. Portanto, submetendo-se eles serão salvos, mas desobedecendo serão punidos pelo Senhor, porque ao presidente [o superintendente presidente] foi confiado o lugar de Cristo. Sendo assim, sem dúvida, a honra ou o desrespeito demonstrados para com o presidente são extensivos a Cristo, e de Cristo a Deus. E isto tenho dito, que estes irmãos não estejam ignorantes do perigo que correm por desobedecerem a ti, pois quem desobedecer a tuas ordens desobedece a Cristo, e quem desobedece a Cristo ofende a Deus.2

Este raciocínio simplista, de que o superintendente presidente representava a Cristo, e desta forma qualquer instrução dele tinha de ser recebida como se viesse de Cristo, exercia coação sobre os membros da congregação, amarrando-os. É incrível que não faça a ressalva de que as instruções do superintendente tinham de se harmonizar com as de Cristo, ou que não podiam ser contrárias às de Cristo. Nesse último caso, mereciam ser desobedecidas. E mesmo sem ser diretamente contrárias, podiam ser questionadas como instruções que iam, de algum modo, além do que mandavam as Escrituras, ficando assim sujeitas ao que a consciência e o critério pessoais determinassem. Esta injunção autoritária foi uma evidente tentativa de revestir humanos imperfeitos de uma honra que cabe apenas ao Amo perfeito. Se aceita na forma absoluta como foi declarada, com a consequente supressão do critério pessoal, converteria as pessoas em discípulos e seguidores de homens, tal como advertira o apóstolo Paulo. (Atos 20:30) Apesar de plausível ou atraente, o argumento era pernicioso, fruto do pensamento distorcido. Contudo, até hoje se recorre praticamente a idêntico argumento, do mesmo modo e com o mesmo efeito.

Observa-se apelo similar de obediência irrestrita e respeito reverente da congregação à autoridade humana nos escritos de Inácio, do início do segundo século, conforme utilizado neste argumento:

Pois devemos receber a cada um a quem o Amo da casa enviou para administrar sua família, como receberíamos Aquele que o enviou. É manifesto, portanto, que devemos mostrar ao bispo [o único superintendente] a mesma consideração que mostraríamos ao próprio Senhor. (“Epístola aos Efésios” de Inácio, capítulo VI.)

Compare esta exortação de submissão ao bispo, do segundo século, com estas palavras (sublinhado acrescentado):

Abandonar ou repudiar o instrumento escolhido do Senhor significa abandonar ou repudiar o próprio Senhor, com base no princípio de que aquele que rejeita o servo enviado pelo Amo rejeita, por este meio, o Amo.

A última citação é do século vinte, da edição de 1º de maio de 1922 de A Sentinela (em inglês), que procurava dessa forma incutir lealdade aos ensinos do primeiro presidente da Torre de Vigia, Charles T. Russell. A matéria prosseguia, dizendo:

Assim, repudiar a ele e à sua obra equivale a repudiar ao Senhor, com base no princípio anunciado anteriormente. (sublinhado acrescentado).

Dezoito séculos separam os escritos de Inácio do da Torre de Vigia. No entanto, o argumento é idêntico; o mesmo raciocínio plausível, o mesmo efeito pernicioso de transformar pessoas em seguidores de homens. O mesmo argumento continua a ser usado hoje. A única diferença é que a lealdade a Russell é agora transferida para “a organização”, apresentada como “o instrumento escolhido do Senhor”, ao qual só se pode desobedecer ao preço de tornar-se culpado de repudiar a Cristo. Pensa-se, de algum modo, que pelo fato de tanta autoridade e honra serem conferidas a um grupo em vez de a um só indivíduo, isso a torna apropriada. Este é um raciocínio ilusório que, tal como no segundo século, consegue influenciar a muitos que parecem incapazes de perceber sua falácia.

Inácio, ao comparar a obediência ao bispo [superintendente], presbíteros [anciãos] e diáconos com a obediência a Cristo, “que os designou”, dizia correspondentemente que desobedecer a eles significava também ‘desobedecer a Cristo Jesus’. Ele não concede nenhum motivo justo para não se sujeitar, dizendo:

Pois aquele que não presta obediência a seus superiores é autoconfiante, briguento e orgulhoso. (“Epístola aos Efésios” de Inácio, capítulo V.)

Este rótulo negativo aos que não acatam os ditames da autoridade religiosa também tem seus equivalentes no século vinte, empregando virtualmente a mesma linguagem. Falando dos que discordam das afirmações da Sociedade Torre de Vigia relacionadas à “presença” de Cristo desde 1914, A Sentinela de 1º de fevereiro de 1981 (página 19) os descreve como “adotando uma atitude desafiadora da lei para com o ‘escravo fiel e discreto’, o Corpo Governante da congregação cristã e os anciãos designados”, e então diz o seguinte a respeito de quem discorda dessa autoridade “teocraticamente designada”:

Acha que sabe mais do que seus concristãos, também mais do que o “escravo fiel e discreto”, por meio de quem aprendeu a melhor parte, senão tudo o que ele sabe sobre Jeová Deus e seus propósitos. Desenvolve o espírito de independência e torna-se “soberbo de coração... algo detestável para Jeová”. (Pro. 16:5)

Estas são, mais uma vez, palavras notavelmente similares às de Inácio, no esforço de exaltar a importância da autoridade episcopal.

No escrito de Inácio, o fardo da submissão foi posto de modo desigual sobre os membros da congregação. O raciocínio usado mais uma vez ignorou a responsabilidade maior que recaía sobre quem afirmava ser representante de Cristo de demonstrar, ele mesmo, plena submissão a Cristo por apresentar a própria mensagem do Amo, não adulterada por acréscimos e alterações humanos. Cabia a este a responsabilidade de fornecer provas de que a instrução que dava à congregação era realmente de Deus e Cristo e firmemente baseada nas Escrituras inspiradas. Tais representantes não poderiam ser “exemplos para o rebanho” a menos que eles próprios mostrassem modéstia e humildade mental, em vez de simplesmente as exigir dos outros.

Recapitulando todo o processo de ênfase crescente à autoridade humana, o erudito bíblico Lightfoot observou:

Não é preciso ressaltar quão subversivo do verdadeiro espírito do cristianismo, na negação da liberdade individual e na consequente supressão da responsabilidade direta perante Deus e Cristo, é o despotismo esmagador com o qual esta linguagem, se tomada literalmente, investiria o cargo episcopal. (Comentário de Lightfoot sobre a Epístola aos Filipenses, página 237.)

A evidência é de que tais palavras têm sido tomadas literalmente, tanto no passado como nos tempos modernos, resultando na negação da liberdade individual e na supressão do senso de responsabilidade direta e pessoal perante Deus e Cristo, por parte do indivíduo.

A tendência era considerar que os homens “designados” levavam muito dessa responsabilidade. Com crescente vigor, os cristãos do período pós-apostólico eram exortados a crer que, para manter o favor de Deus, teriam simplesmente de ser submissos ao superintendente ou bispo e aos líderes da congregação e concordar com eles. Estes homens, que professavam representar a Deus e a Cristo, deviam ser acreditados e seguidos do mesmo modo como se acreditaria e seguiria os apóstolos de Cristo, sim, como se acreditaria e seguiria o próprio Cristo. Quando falassem, seria como se o próprio Deus tivesse falado. A necessidade de pôr à prova todo ensino, de chegar à convicção individual da verdade, de exercer a consciência cristã individual e a necessidade de um agudo senso de responsabilidade individual diante de Deus pelas próprias crenças, atos e proceder — estes foram minimizados em favor da ênfase à submissão à autoridade humana constituída, o “centro visível da unidade”.

Quanta necessidade, então, tinham os cristãos daquele tempo de apegar-se firmemente à exortação do apóstolo! O incentivo dele foi:

Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais de novo a jugo de escravidão. (Gálatas 5:1, ARA.)

Da Autoridade Centralizada Congregacional para a Autoridade Centralizada Internacional

O processo centralizador pós-apostólico começou como assunto interno da congregação, com a formação de um episcopado monárquico, mas não parou aí. Passou a ser intercongregacional. Este passo foi dado quando os superintendentes presidentes (bispos) de diferentes cidades começarem a reunir-se em conferência ou concílio. A história geralmente chama isso de “sínodo” (termo que um dicionário define como se referindo especialmente a um “corpo governante religioso”. - Merriam-Webster Dictionary [1975, Edição de Bolso], sob “sínodo”.) A ideia de tais concílios ou sínodos baseava-se no relato de Atos capítulo 15 e no concílio de Jerusalém ali descrito.

Esse relato, contudo, não dá fundamento para a realização de tais sínodos em base regular, nem para a instituição de um concílio permanente que tome decisões sobre assuntos doutrinais e congregacionais, como se fosse um tribunal religioso. Em seu comentário, o erudito Barnes, do século 19, destacava isto dizendo:

Este concílio geralmente tem sido invocado como justificativa para os concílios que a igreja instituiu como arranjo permanente, e especialmente como justificativa para a existência de tribunais de apelação e controle. Ele, porém, não estabeleceu nenhum dos dois, e tampouco devia ser usado como justificativa para nenhum deles. Porque: (1) Ele não foi um tribunal de apelação em qualquer sentido inteligível. Foi uma assembleia convocada com um propósito especial, destinado a sanar uma questão que foi suscitada num determinado setor da igreja, e que exigia a sabedoria conjunta dos apóstolos e anciãos. (2) Não teve nenhum dos elementos de um tribunal... tribunais judiciários pressupõem um grau de autoridade que o Novo Testamento não comprova ter sido concedido a qualquer corpo eclesiástico de homens. (3) Não há o menor indício de que este caráter permanente fosse atribuído a este concílio, ou que viesse a ser periódica ou regularmente repetido. Ele prova, sem dúvida, que quando ocorrem dificuldades — quando os cristãos estão perplexos e confusos, ou quando surgem contendas — é apropriado recorrer a homens cristãos para conselho e orientação... mas o exemplo do concílio convocado numa emergência especial em Jerusalém não deve ser citado como autorização divina para estas assembleias periódicas... (4) Deve-se acrescentar que, a decisão dos apóstolos e anciãos foi logicamente recebida, naquele tempo, com um grau de autoridade (cf. cap. XVI, 4) que nenhum corpo de ministros e leigos pode agora reivindicar. Ademais, jamais se deve esquecer — o que, aliás, parece ter sido deleite e interesse dos eclesiásticos — que nem os apóstolos nem os anciãos alegaram ter qualquer jurisdição sobre as igrejas de Antioquia, Síria e Cilícia; que não reivindicaram o direito de tratar destes casos; que não tentaram “tornar-sesenhores”da fé ou da consciência deles. Tratava-se de uma questão singular, específica e definida trazida a eles, e como tal eles a decidiram... não determinaram que futuros casos desse tipo fossem trazidos a eles ou a seus sucessores, ou a algum tribunal eclesiástico. É evidente que consideravam uma bênção que as igrejas usufruíssem a mais ampla liberdade, e não cogitaram nenhum arranjo de caráter permanente conferindo-lhes o direito de legislar sobre artigos de fé, ou de elaborar leis para a orientação dos homens livres do Senhor.3

A evidência apoia os pontos declarados acima, todos os quais demonstram a fragilidade da posição da Torre de Vigia relativa a um “corpo governante” permanente e contínuo funcionando através dos anos. Se tivesse havido algum tipo de “corpo governante” centralizado atuando desde o início do cristianismo em diante, tais concílios não seriam algo novo, não seriam uma inovação. Se o concílio envolvendo Jerusalém e Antioquia descrito no capítulo 15 de Atos tinha de ser modelo e norma a serem seguidos, então, mesmo após a queda de Jerusalém em 70 D.C. tais concílios teriam continuado. Ao contrário, History of the Christian Church[História da Igreja Cristã], de Schaff afirma na página 176:

...não temos qualquer indício distinto de concílios até meados do segundo século... quando surgiram pela primeira vez.

Portanto, é no mínimo cem anos depois dos eventos do capítulo 15 de Atos que temos a primeira evidência da realização de outro concílio desse tipo.

A história mostra, além disso, que estes concílios eram abertos originalmente a todos os membros das congregações, podendo as pessoas da comunidade onde o concílio se realizava, assisti-lo, e em alguns casos, até influenciá-los. Com o tempo, porém, assistir aos sínodos e participar neles tornou-se algo restrito. Schaff diz:

Mas com o avanço do espírito hierárquico, este espírito republicano [isto é, a permissão ao comparecimento, não só de bispos ou superintendentes, mas também de anciãos e membros comuns da congregação] gradualmente desapareceu. Depois do Concílio de Nicéia (325) só os bispos tinham assento e voz... Os bispos, além do mais, não atuavam como representantes de suas igrejas, nem em nome do corpo dos crentes, como antes, mas em nome de seus próprios direitos como sucessores dos apóstolos. (Philip Schaff, History of the Christian Church[A História da Igreja Cristã], página 178.)

Esporádicos no início, os concílios gradualmente se tornaram mais frequentes e sua autoridade, na forma das decisões tomadas, recebia enaltecida ênfase.

Na época de Cipriano (200-258 D.C.), estes sínodos ou concílios, e as conclusões, diretrizes e posições tomadas neles, foram destacadas como vitais. Cipriano sustentou que a unidade da Igreja consistia na unanimidade dos superintendentes ou bispos. (“The Treatises of Cyprian,” Treatise I [Os Tratados de Cipriano”, Tratado I], parágrafo 5.) O superintendente presidente ou bispo veio a tornar-se o único representante de sua congregação no concílio, e, daí por diante, transmitia as decisões do concílio aos membros da congregação. Como diz Lightfoot, o bispo ou superintendente se tornara o “canal indispensável da graça divina”. (Comentário de Lightfoot sobre a Epístola aos Filipenses, página 243.)

Os que não aceitassem o que vinha por meio deste “canal” eram denunciados por Cipriano, que dizia serem eles culpados do “pecado de Corá, Datã e Abirão”, que se rebelaram contra Moisés e Arão. Compare este enfoque com o que segue:

Temos de demonstrar nosso entendimento nestes assuntos, apreciando nossa relação à organização teocrática visível e lembrando-nos da sorte dos semelhantes a Corá e Acã, Saul e Uzias e os demais que se esqueceram da ordem teocrática.

Estas palavras da edição de novembro de 1952 da Sentinela, página 164, refletem a linguagem de Cipriano. (Veja também A Sentinela de 1º de março de 1983, página 13.) Lightfoot observa que Cipriano usou analogias do Antigo Testamento (como a de Corá) vez após vez em seus argumentos, e destaca que tais alegações “são exortadas ainda mais... como absolutas, imediatas e inquestionáveis.” Isto significa que Cipriano não precisava provar que sua analogia estava correta, que essas pessoas estavam de fato fazendo o mesmo que os rebeldes da época de Moisés ― ele só precisava afirmar que era assim e esperar que todos concordassem.

Isto também tem um paralelo exato na moderna organização das Testemunhas de Jeová. Analogias idênticas são aplicadas aos que não acatam os pronunciamentos do “canal” organizacional e, em palavras iguais às de Inácio, os que não se sujeitam são descritos como “autoconfiantes, briguentos e orgulhosos”. Basta que a organização diga que certa analogia com pessoas do passado se aplica para esperar que todos acreditem nisso.

Salvação Apenas na Organização Religiosa e Por Meio Dela

A congregação ou igreja passava a ser vista, não como simples fraternidade, unida pela fé comum e pelo amor mútuo, mas como instituição religiosa com limites definidos, limites institucionais que ninguém podia ultrapassar sem consequências desastrosas. Assim, Cipriano escreveu:

Já não pode ter a Deus como Pai aquele que não tem a Igreja como mãe. Se alguém pudesse escapar estando fora da arca de Noé, então se poderia também escapar estando fora da igreja.4

Deste modo, o ensino bíblico de que a salvação resulta da fé no sacrifício resgatador de Jesus Cristo recebia um acréscimo, era ampliado e estendido além do que dizem as Escrituras. Ninguém poderia ser salvo, dizia-se, se não estivesse dentro da igreja organizada, sujeito ao superintendente ou bispo. O papel exclusivo do Filho de Deus como meio de salvação já não era exclusivo. Os homens passavam a entrar neste papel; os superintendentes e a instituição ou organização eclesiástica partilhavam o papel vivificador de Cristo, como se fossem também essenciais para a salvação.

As palavras passaram a ter significado diferente. O termo grego ekklesia, geralmente traduzido como “igreja” ou “congregação”, significa simplesmente “assembleia ou ajuntamento”. No uso comum das Escrituras Cristãs referia-se simplesmente ao ajuntamento de pessoas que se reuniam como concrentes. Constituíam um “ajuntamento” porque se ajuntavam ou reuniam-se. Exceto no período inicial, quando ainda eram bem-vindos nas sinagogas, os ajuntamentos (reuniões) realizavam-se principalmente, e de fato, quase exclusivamente, em casas particulares. (Romanos 16:5; Colossenses 4:15; Filêmon 2). Era o ato de reunir-se ou congregar-se que fazia deles uma congregação, e não o alistamento formal como membro de algum grupo constituído ou “organizado”. O termo ekklesia aplicava-se a eles como povo reunido, uma assembleia de pessoas, quer em sentido local quer por ser visto como uma coletividade, a assembleia dos primogênitos. (Atos 13:1; 1 Coríntios 1:2; 16:1, 19; Efésios 5:23; Colossenses 1:18; Hebreus 12:23.) Eles eram uma “comunidade”, isto é, um povo reunido por interesses comuns.

Embora o termo não deixasse de ser usado nestes sentidos, um significado diferente veio à luz nos séculos seguintes. Como mostram as citações feitas do período, o termo “igreja” (ekklesia) passou a referir-se de fato à autoridade religiosa manifestada nos homens que exerciam controle cada vez maior sobre os que se congregavam. A lealdade à “igreja” significava agora, não simples lealdade à comunidade cristã, mas mais particularmente à liderança e à sua direção. De modo similar, quando a “igreja” falava, não era a comunidade que falava, mas sim a autoridade religiosa.

Tudo isto representou uma sutil, mas substancial mudança de foco quanto ao dever da lealdade e adesão cristãs. Mudou o foco da cabeça, Cristo, para o corpo ou, na realidade, para os professos membros mais expressivos do corpo, que afirmavam falar com autoridade em nome do corpo. Não é que os cristãos não devam ter profundo interesse nos co-membros do corpo, pois todos devem ter o “mesmo cuidado uns para com os outros. E, se um membro sofre, todos os outros membros sofrem com ele; ou, se um membro é glorificado, todos os outros membros se alegram com ele.” (1 Coríntios 12:25, 26.) Mas o que mais garante este espírito unido são a lealdade e o apoio — não ao grupo dos professos membros que ganham posições de controle — mas ao genuíno Cabeça, Cristo. Onde forem firmes esta lealdade e este apoio, os cristãos jamais deixarão de mostrar que se importam com os co-membros do corpo.

O efeito da mudança forjada no início da era pós-apostólica é hoje claramente evidente. Embora todas tiradas diretamente do grego ekklesia, palavras como “eclesiástico” e os termos para “igreja” em francês, espanhol e italiano (église, iglesia, chiesa), por exemplo, raramente transmitem a ideia de uma assembleia de pessoas, e sim de uma organização eclesiástica (ou ainda de um edifício religioso).

Uma Sede de Organização Internacional

Apesar dos concílios periódicos realizados, não existia ainda nenhuma direção central sobre as congregações cristãs, nenhum “corpo governante” internacional exercendo autoridade controladora sobre os cristãos de todos os lugares. Finalmente, porém, isso aconteceu.

A mesma motivação que anteriormente levara ao arranjo monárquico na congregação, onde um só membro do corpo de anciãos tornou-se o único superintendente (ou bispo), alguém em torno de quem a congregação podia unir-se como “centro visível de unidade”, e que levou mais tarde à realização de sínodos ou concílios para uma determinada região, agora “pressionava para que se criasse um centro visível para toda a igreja”, em âmbito internacional. (Philip Schaff, História da Igreja Cristã (em inglês), página 155.)

De início, os concílios de superintendentes exerciam influência apenas sobre determinada área, província ou região. Todavia, com a realização do concílio de Nicéia (325 D.C.), o caráter universal e abrangente começou a surgir. A ênfase à autoridade humana que se iniciara de modo intracongregacional e depois intercongregacional, tornou-se, por fim, internacional. O Concílio Niceno foi convocado pelo imperador romano Constantino (não-batizado), principalmente para estabelecer entre os bispos (superintendentes) cristãos uma posição unificada acerca da relação entre Cristo e Deus, assunto que causava profundas divisões. A questão não era quanto à divindade de Cristo, um fato aceito, mas quanto a se ele devia ser identificado com o Deus supremo, Soberano do céu e da terra. Sobre essa ocasião, Sócrates (380-450 D.C.), historiador leigo, escreveu:

A situação foi exatamente como uma batalha travada durante a noite, pois ambos os lados pareciam estar no escuro no que diz respeito às bases sobre as quais lançavam insultos uns contra os outros. (Ecclesiastical History [História Eclesiástica], I. 23, de Sócrates, citada em The Rise of Christianity[A Ascensão do Cristianismo], de W.H.C. Frend, página 498.)

O historiador eclesiástico Eusébio de Cesaréia (cerca de 260-339), afirma que, por intervenção pessoal direta de Constantino nas deliberações do concílio, adotou-se uma fórmula declarando que Jesus foi “gerado e não criado, sendo um só [em grego, homoousios] com o Pai.” Mostrando o poder que a decisão deste corpo internacional teve na época, Jaroslav Pelikan, historiador da Universidade de Yale, em seu livro Jesus Through the Centuries [Jesus Através dos Séculos], página 53, escreve:

Uma vez que o Concílio de Nicéia aceitou estas fórmulas, estas se tornaram lei não só para a igreja, mas para o império.

De acordo com a Ecclesiastical History [História Eclesiástica], 1.9, de Sócrates, Constantino escreveu à igreja de Alexandria (Egito) que “a temível enormidade das blasfêmias que alguns estavam vergonhosamente proferindo em relação ao poderoso Salvador, nossa vida e esperança”, tinha sido agora suprimida, “pois aquilo que se recomendou pelo julgamento de trezentos bispos não pode ser outra coisa senão a doutrina de Deus.”

Isso diz algo sobre a mentalidade que se desenvolvera entre os professos cristãos que eles tenham aceitado e acreditado que, simplesmente porque um grande número de líderes religiosos votou, qual corpo governante, a favor de certa posição, isto garantia que ela estivesse correta, tornando-a, de fato, “doutrina de Deus”. Todavia, a mesma mentalidade prevalece hoje, embora com um número menor de pessoas.

O processo de centralização levou, com o tempo, à formação da Igreja Católica (que significa “universal”) e à formação de um governo central da igreja. O processo foi reforçado pelo poder político do Império Romano.5

Levou alguns séculos, mas a constante insistência na unidade das crenças e na harmonia das ações exigiu o aumento gradual e progressivo da autoridade humana, o que eventualmente gerou o resultado final: a direção e o controle internacional das congregações por uma autoridade centralizada. Resultou também em número cada vez maior de cargos de destaque, à medida que cada passo sucessivo do processo criava áreas e níveis de autoridade adicionais, e por fim, uma hierarquia.

O proclamado alvo da uniformidade de crença podia então estar realizado, mas o preço fora a perda da liberdade cristã individual. As questões quanto à base bíblica de certos ensinos, normas e arranjos, podiam agora ser resolvidas, não pelo poder convincente da verdade, mas pela aplicação esmagadora da autoridade.

O erudito do século 18 citado no início deste capítulo, depois de mostrar que a autoridade fora o meio de que se utilizaram os judeus e os gentios para combater as boas novas no primeiro século, passou então, ironicamente, a dizer:

...quando os cristãos aumentaram em número e se tornaram maioria, e vieram a concluir que o mesmo método que fora empregado pelos inimigos e destruidores de sua causa era o único apropriado a se utilizar em favor desta causa, foi a autoridade dos cristãos que então, passo a passo, não só manchou a honra do cristianismo como quase a extinguiu dentre os homens. (Enciclopédia de McClintock e Strong (em inglês), Volume I, página 553, sob “Autoridade”.).

A autoridade para servir e edificar foi pervertida, transformada em autoridade para subordinar, controlar e dominar, num processo destrutivo não só da liberdade cristã, mas do próprio espírito do cristianismo e da fraternidade cristã.

Tendo como base o fundo histórico já apresentado, ao considerar a posição do homem que serve numa congregação em qualquer capacidade, o erudito Lightfoot observa que, ao longo das Escrituras:

... seu cargo é representativo e não vicário. Ele não se interpõe entre Deus e o homem de modo tal que a comunhão direta com Deus seja anulada, por um lado, ou que sua própria mediação se torne indispensável, por outro. (Comentário de Lightfoot sobre a Epístola aos Filipenses, página 267.).

Significa que os homens nunca podem, com razão, alegar que: ‘Já que somos subpastores de Cristo, vocês devem nos tratar como ao próprio Pastor; não devem questionar nossas instruções assim como não questionariam as dele. É através de nós que vocês se relacionam com Deus e Cristo, e devem, portanto, ser submissos à nossa direção em tudo, se querem a aprovação e a bênção de Deus. Sejam gratos a nós pelo que provemos e se calem.’ Dizer isto é ir diretamente contra o conselho do apóstolo Pedro aos co-anciãos, dizendo:

Não exerçais um poder autoritário sobre aqueles que vos couberam por partilha; mas tornai-vos modelos do rebanho. E quando aparecer o pastor supremo, recebereis a coroa imperecível de glória... E todos, no vosso trato mútuo, revesti-vos de humildade, porque Deus resiste aos soberbos, ao passo que aos humildes dá a sua graça. (1 Pedro 5:3-5, TEB.).

Cada cristão individual tem obrigação de avaliar a autenticidade de qualquer mensagem que lhe apresentem. Tem de tomar uma decisão pessoal quanto à sua validade, fazendo-o não importa que alegações acompanhem a mensagem, não importa com que adereços de autoridade ela venha. Isto se evidencia nas próprias palavras de Jesus Cristo quando, ao falar de suas verdadeiras ovelhas, disse:

...elas o seguem [o verdadeiro Pastor] porque lhe reconhecem a voz; mas de modo nenhum seguirão o estranho, antes fugirão dele porque não conhecem a voz dos estranhos. (João 10:4, 5, ARA.)

De modo claro, as próprias “ovelhas” têm de julgar se é Cristo Jesus quem realmente lhes fala na mensagem que ouvem. A exaltação aos homens, com seu discurso autoritário, o dogmatismo e a abordagem legalista que suprimem a tolerância e a compaixão, naturalmente emitirão um som estranho para as “ovelhas”, quando apresentadas por pessoas que afirmam representar o Pastor delas. Em vez de seguir a opinião hoje tão escutada, “mesmo errado, vá em frente”, Jesus disse que suas ovelhas se manteriam o mais longe possível daqueles que, por sua abordagem dominadora, claramente se mostrassem estranhos ao espírito do cristianismo. Há sólidas razões para evitá-los, já que as lições da história não deixam dúvida quanto à tendência inata dos homens de tentar impor aos outros sua vontade e seus modos, suplantando assim, em grau maior ou menor, a vontade de Deus e de seu bom Pastor.

Resumindo o que a história revela, Lightfoot escreve:

O ideal apostólico foi estabelecido, e no espaço de poucas gerações foi esquecido. A visão durou só algum tempo e então desapareceu... Da condição de representantes e embaixadores de Deus [os homens], passaram a ser vistos como Seus vigários [isto é, Seus substitutos, ocupando seu lugar]. (Comentário de Lightfoot sobre a Epístola aos Filipenses, página 268.).

Creio pessoalmente que este processo, com sua exaltação à autoridade humana e a concentração desta autoridade, está relacionado com as declarações de Paulo acerca do “homem que é contra a lei”, conforme registrado em 2 Tessalonicenses, capítulo 2, versículos 3 a 12. A respeito desse homem, ele escreve:

Este se opõe e se exalta acima de tudo o que se chama Deus ou é objeto de adoração, chegando até a assentar-se no santuário de Deus, proclamando que ele mesmo é Deus. (NVI)

Não vejo razão para crer que a vinda deste “homem” prediga o surgimento dum indivíduo específico, excepcionalmente contra a lei, assim como a “mulher” chamada “Babilônia” também não se refere a uma mulher específica. Tampouco creio que o cumprimento do “homem que é contra a lei” se dê em algum sistema religioso. O termo “homem” parece referir-se aqui a um tipo ou arquétipo, descritivo de todos que manifestam as características desse tipo. A declaração de Paulo sobre a vinda de tal “homem” parece muito com a afirmação de João, “ouvistes que vem o anticristo”, e de que aquele que nega que Jesus é o Cristo “é o anticristo”. (1 João 2:18, 22, NVI.) O contexto mostra que João não limita o termo a uma só pessoa, mas o aplica a todos que se encaixam na descrição. Assim seria também com o “homem que é contra a lei”.

Não poderia haver maior atitude “contra a lei” que tentar violar, e até usurpar, a posição e a autoridade do Soberano Deus. E isto se mostra na evidência do que os homens religiosos têm feito, não só na história passada mas também no presente. Visto que o Pai investiu “toda a autoridade” em Jesus Cristo, e ordenou que “todos honrem o Filho assim como honram o Pai”, qualquer tentativa de ocupar a posição de Cristo e de exercer a chefia que corretamente pertence apenas a ele, será classificada como atitude “contra a lei” de natureza igualmente grave. (Mateus 28:18; João 5:23.) De que maneira, então, pode-se dizer que alguém que age assim ‘assenta-se no templo exibindo-se como Deus’?

O templo de Jerusalém era a residência simbólica de Deus, o lugar onde habitava entre o seu povo, presidindo sobre ele, dando-lhe suas leis e respostas. A congregação cristã tornou-se depois o templo de Deus, seu povo, no meio do qual Ele habita. (Efésios 2:19-22; 1 Pedro 2:4, 5). O fato de o “homem que é contra a lei” assentar-se no templo indicaria aparentemente sua pretensão ao direito de exercer na congregação cristã uma autoridade divina como a que Deus exercia no seu templo em Jerusalém, atuando como se fosse a fonte da qual procede a autoridade.

Quanto a ele ‘exaltar-se acima de tudo o que se chama Deus’, e até “proclamar ser Deus”, escreve o erudito bíblico Barnes:

Qualquer pretensão de domínio sobre a consciência, ou qualquer arranjo que ponha de lado as leis divinas e as declare derrogadas [sem efeito ou inoperantes], corresponderia ao que está envolvido nesta descrição. Não se pode supor que alguém abertamente alegue ser superior a Deus, mas o significado deve ser que os decretos e ordenanças do “homem do pecado” pertenceriam ao domínio no qual só Deus pode legislar, e que as ordenanças proferidas por ele seriam de modo tal que derrogariam as leis divinas, decretando outras em seu lugar... Isto não significa necessariamente que ele, efetivamente e com muitas palavras, alegue ser Deus, mas que usurpa o lugar de Deus e reivindica as prerrogativas de Deus.6

A questão-chave é claramente a da autoridade e da usurpação da autoridade que, por direito, pertence só a Deus e a seu Filho. Sempre que os homens exortam outros, aberta ou implicitamente, a aceitar suas próprias palavras e regras religiosas, ensinos e regras não claramente declarados nas Escrituras, como se viessem de Deus, estão assim, com certeza, manifestando características do “homem que é contra a lei”.

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Raymond V. Franz Em Busca da Liberdade Cristã – Capítulo 3 (Adaptado)

NOTAS:

1 Augustus Neander, respeitado historiador eclesiástico do século 19, em sua obra General History of the Christian Religion and Church [História Geral da Religião e da Igreja Cristã], páginas 194 a 201, aponta a maneira em que a igreja cristã, em vários aspectos, reverteu às posições do Antigo Testamento. Em vez do sacerdócio universal de todos os crentes, surgiu gradualmente um sacerdócio separado, distinto do corpo principal dos cristãos e atuando como que mediadores na relação deles com Deus. Tertuliano (cerca de 145-220 A.D.) chegou a referir-se ao superintendente congregacional ou “bispo” como o “principal sacerdote”, assim como também se referiu aos que não eram superintendentes, anciãos ou diáconos, como “leigos”. (“Sobre o Batismo”, Capítulo XVII.) Sobre os efeitos disto, Neander comenta: “Este título pressupõe que os homens já haviam começado a comparar os presbíteros [anciãos] com os sacerdotes; os diáconos, ou a classe espiritual de modo geral, com os levitas... Quando a ideia do sacerdócio cristão universal saiu de cena, a ideia da consagração sacerdotal que os cristãos deviam fazer para toda a vida foi-se junto com ela... Cristo havia elevado a inteira vida terrena à dignidade duma vida espiritual... as novas noções com respeito à dignidade do clerus [que significa escolhidos ou designados], levaram os homens a crer que aquilo que até então se considerava como dádiva gratuita do Espírito a todos os cristãos individualmente, devia ser confinado a um cargo particular no serviço da igreja... Agora a livre operação do Espírito tinha de ser confinada a um processo formal, mecânico.”

2 “As Homilias Clementinas”, Homilia II, capítulos 66, 70. Embora atribuídas a Clemente de Roma, as Homilias Clementinas são de autoria e data incertas, embora haja evidências de que não são posteriores ao terceiro século D.C.

3 Notas de Barnes,em inglês (Atos, Romanos), página 235. Sendo Barnes membro da Igreja Presbiteriana, é notável sua honestidade com respeito a esse aspecto. Apesar de essa denominação ter um sínodo permanente chamado “Assembleia Geral” ele não hesitou em demonstrar que esse arranjo é uma questão de pura opção da igreja, e não algo divinamente autorizado.

4 “Os Tratados de Cipriano”, Tratado I, parágrafo 6; Schaff (História da Igreja Cristã, página 174) comenta: “O princípio das Escrituras: ‘Fora de Cristo não há salvação’, foi contraído e restringido ao princípio cipriânico: ‘Fora da igreja (visível) não há salvação.’” As publicações da Torre de Vigia usam virtualmente o mesmo argumento de Cipriano com sua referência a estar na “arca”, ao considerar que a salvação da pessoa depende de estar dentro da “organização visível” e seu “paraíso espiritual”. Compare com Poderá Viver Para Sempre no Paraíso na Terra, páginas 192, 193; A Sentinela, 15 de junho de 1975, páginas 379, 380.

5 Esta centralização foi mais tarde afetada por uma luta pelo domínio e supremacia da autoridade entre o segmento ocidental da igreja, representado por Roma, e sua parte oriental, representada por Constantinopla. Esta divisão é vista hoje entre a Igreja Católica Romana e a Ortodoxa.

6 Notas de Barnes, em inglês (Efésios a Filêmon), páginas 82 a 84. Embora Barnes aplicasse esta identificação primariamente ao Papado Católico, há certamente razão para considerar o assunto como tendo uma aplicação bem mais ampla.