O Que é "Imortalidade Condicional"?

Algumas discussões online têm girado em torno do que se entende pela expressão “imortalidade condicional”, ou seu sinônimo “condicionalismo”. Estes são essencialmente termos antropológicos. Eles descrevem a natureza da humanidade conforme a Bíblia a representa. Eles afirmam que os seres humanos têm o potencial para se tornarem imortais, mas que a imortalidade não é inata: ela não é algo com que nascemos.

O Condicionalismo no Gênesis

Os primeiros capítulos do Gênesis revelam-se muito úteis como um guia para se entender a natureza humana. Eles mostram que os seres humanos são criaturas, assim como os animais, mas a intenção era que os seres humanos fossem mais do que isso. Eles foram criados à imagem e semelhança de Deus, o que significa uma autoridade especial da parte de Deus e uma responsabilidade perante Ele. Deus testou essa responsabilidade no Jardim do Éden com o plantio de duas árvores especiais lá: a árvore da vida (cujo fruto, se comido, teria concedido a imortalidade imediatamente a Adão e Eva), e a árvore da ciência do bem e do mal.

Destas duas árvores, só a última foi proibida. Os primeiros seres humanos foram autorizados a comer de todas as demais, incluindo a árvore da vida. Se os nossos ancestrais tivessem simplesmente tomado a decisão correta, teriam permanecido vivos para sempre, junto com todos os seus descendentes.

Em vez disso, eles foram enganados para acreditar que a outra árvore era a que realmente cumpriria a promessa. Satanás lhes disse: “Porque Deus sabe que no dia em que dele comerdes se abrirão os vossos olhos, e sereis como Deus, sabendo o bem e o mal.” (Gênesis 3:5, ACR). Esta declaração era verdadeira, mas resultava numa mentira: que a árvore ofereceria imunidade da morte. Em vez disso, ‘ser como Deus’ significava apenas ter experiência tanto com o bem como com o mal. Deus tinha o conhecimento tanto do bem de sua criação original como do mal da rebelião de Satanás. Comer da árvore da ciência do bem e do mal faria com que os seres humanos experimentassem pessoalmente o mal – destruindo desta forma a pureza do Éden, e a intimidade humana com seu Criador.

A reação de Deus a esse pecado levou a outra consequência: a mortalidade humana. As pessoas do Deus Trino falaram entre si e disseram...

“Eis que o homem se tem tornado como um de nós, conhecendo o bem e o mal. Agora para que ele não estenda a mão, e tome também da árvore da vida, e coma, e viva eternamente, Deus Jeová o enviou para fora do jardim do Éden, a fim de cultivar a terra de que havia sido tomado. Assim expulsou ao homem; e ao oriente do jardim do Éden pôs os querubins e o chamejar de uma espada que se volvia por todos os lados, para guardar o caminho da árvore da vida.” (Gênesis 3:22-24, SBB)*

Antes da queda, os seres humanos tinham o potencial para se tornarem imortais. Eles tinham o potencial para se tornar algo mais do que eram. Como consequência da rebelião no Éden, esta oportunidade foi tirada deles.

Deus queria que os seres humanos fossem imortais. Ele ainda deseja isso. Ele quer estabelecer uma relação conosco que trará glória e alegria para ambas as partes para sempre. Entretanto, Deus não pode suportar a injustiça para sempre. Até que se possa encontrar uma solução que irá desfazer a rebelião no Éden, Deus não pode conceder a imortalidade aos seres humanos. Assim, Ele foi forçado por sua própria natureza a nos banir do paraíso.

Assim, embora destinados à imortalidade, os seres humanos estão agora reduzidos à mesma natureza que os animais sobre os quais Deus nos colocou. O sábio rei Salomão reconheceu isso:

“Também pensei: Deus prova os homens para que vejam que são como os animais. O destino do homem é o mesmo do animal; o mesmo destino os aguarda. Assim como morre um, também morre o outro. Todos têm o mesmo fôlego de vida; o homem não tem vantagem alguma sobre o animal. Nada faz sentido! Todos vão para o mesmo lugar; vieram todos do pó, e ao pó todos retornarão.” (Eclesiastes 3:18-20, NVI).

Esta é a má notícia a Bíblia nos dá, que serve de pano de fundo para as boas novas da vida eterna, disponíveis por meio de Cristo.

A Imortalidade Condicional

Os condicionalistas anunciam Cristo e sua segunda vinda como o momento em que Deus concederá a imortalidade aos salvos e desfará a maldição do Éden. Mas nós também temos defendido a verdade desta má notícia: a de que toda a humanidade é mortal e sujeita à morte real. Achamos que é desonrar a palavra de Deus afirmar que os seres humanos são mortais e imortais, ao mesmo tempo.1 Cremos também que é evangelismo inconsistente afirmar que Jesus oferece vida eterna e, em seguida, ensinar às pessoas que elas já têm a vida eterna.

Assim, em vez de ensinar às pessoas que a imortalidade é inata (ou seja, que todos os seres humanos já nascem com ela), nós ensinamos que ela é condicional. Deus oferece a vida eterna aos que depositam sua fé em Cristo: essas são as condições. Um dos primeiros escritores pós-apostólicos a expressar o condicionalismo foi Teófilo de Antioquia:

“Deus não criou a humanidade tanto mortal como imortal, e sim,... com a capacidade para ambos. Se a humanidade se inclinasse para as coisas que se relacionam com a imortalidade, mantendo os mandamentos de Deus, então ela receberia a imortalidade como uma recompensa de Deus... Por outro lado, se a humanidade se inclinasse para as coisas que se relacionam à morte por desobedecer a Deus, então a humanidade seria a causa da sua própria morte.”2

Quando certo homem se dirigiu a Jesus, perguntando “que farei de bom para ter a vida eterna?”3 – Jesus não contestou a inferência teológica dele de que a vida eterna é algo que deve ser obtido. Se a imortalidade fosse inata, Jesus teria interrompido o homem e apontado isso. Em vez disso, Jesus concordou com o homem que ele necessitava de vida eterna, e, em seguida, conclamou o homem a segui-lo – para que pudesse obter o que ele estava buscando.4

Todo o Evangelho aborda como Deus nos oferece o que não temos à base da sua graça, por meio da morte expiatória de Cristo. A morte de Cristo satisfez as condições. Seguir a Cristo é a solução para a maldição do Éden. Um condicionalista é alguém que não confia em sua própria capacidade inata de viver para sempre, mas confia na obra concluída de Cristo na cruz, e aguarda com expectativa o dia em que Cristo vai torna-lo imortal.

A Imortalidade Concedida

Os condicionalistas também levam a morte a sério, e isso nos leva à nossa apreciação especial do dom da imortalidade. Compreendemos as terríveis consequências decorrentes de o pecado ter entrado na criação de Deus, e isso nos faz apreciar Cristo acima de tudo. Quando lemos Romanos 6:23, esse texto faz todo o sentido, pois diz: “Pois o salário do pecado é a morte, mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor.” Mas se alguém crê que a imortalidade não é conferida como um dom, e sim que é uma possessão inata, essa pessoa tem de fornecer alguma interpretação para Romanos 6:23 para se ajustar ao seu conceito. A pessoa lê o texto desse modo: ‘Pois o salário do pecado é a morte [mas só a morte do corpo, porque a pessoa real é a alma e ela não pode morrer], mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor [exceto que a vida eterna é realmente um direito que temos por nascimento, então Cristo não o dá].’ #

William Newton Clarke reclamou que os condicionalistas “argumentam com base no silêncio das Escrituras sobre a imortalidade natural do homem, e na associação uniforme de ‘vida eterna’ com Cristo.”5 Ele estava completamente certo – embora dificilmente isso seja motivo para queixa. As Escrituras são omissas quanto à imortalidade natural do ser humano porque rejeitam o conceito. Ou a vida eterna é concedida aos fiéis ou ela é inata em razão da criação. Não existe lógica em admitir ambas, nem qualquer texto que comprove ambas.

A Imortalidade Futura

Os condicionalistas jamais argumentaram contra o conceito da imortalidade humana. Nós simplesmente insistimos que o grande dom será concedido aos humanos no momento apropriado. Ele não é uma posse de todos os seres humanos desde o nascimento. Em vez disso, será dado a alguns seres humanos quando do retorno de Cristo. Ao falar desse retorno, Paulo diz que isso vai acontecer “num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta. A trombeta soará, os mortos serão ressuscitados incorruptíveis, e nós seremos mudados. Pois é necessário que este corpo corruptível se revista da incorruptibilidade, e que este corpo mortal se revista da imortalidade.” (1 Coríntios 15:52, 53, NVI).

Esse glorioso dia será o início do “tempo em que Deus restaurará todas as coisas, como falou há muito tempo, por meio dos seus santos profetas.”6 O fato de a ressurreição dos mortos ser a primeira coisa da lista de Cristo quando ele retornar deve ser um encorajamento para nós. Isso nos habilita a enfrentar a morte de nossos entes queridos (ou até mesmo nossa própria morte) com coragem, sabendo que, embora a morte seja real, ela é apenas temporária.

A Vida Somente em Cristo

A doutrina da mortalidade humana é cristocêntrica, não antropocêntrica.7 Ela revela Cristo como o dador da vida, não apenas como o único que pode “levar você para o céu.” João declara as opções sem rodeios: “Quem tem o Filho tem a vida; quem não tem o Filho de Deus não tem a vida.”8 A Bíblia é sobre Jesus Cristo. O Antigo Testamento apontava para ele, o Novo Testamento aponta de volta para ele. A mortalidade humana é a necessidade que só Cristo pode satisfazer. Paulo diz que Deus “nos salvou e nos chamou com uma santa vocação, não em virtude das nossas obras, mas por causa da sua própria determinação e graça. Esta graça nos foi dada em Cristo Jesus desde os tempos eternos, sendo agora revelada pela manifestação de nosso Salvador, Cristo Jesus. Ele tornou inoperante a morte e trouxe à luz a vida e a imortalidade por meio do evangelho.”9

Em oposição a este claro ensino da Bíblia sobre a mortalidade humana está o persistente conceito equivocado de que os seres humanos nascem com almas ou espíritos imortais que sobrevivem conscientemente à morte de seus corpos. Este conceito encara as referências bíblicas à morte como geralmente se referindo a esta morte física, e, portanto, irrelevantes ao assunto da sobrevivência da alma. Assim, o conceito confirma tanto a mortalidade como a imortalidade, ao mesmo tempo. Qualquer evidência bíblica em favor da mortalidade humana pode ser imediatamente descartada como não sendo pertinente, uma vez que (no conceito dos que defendem a imortalidade inata) ela sempre se refere ao aspecto material da existência humana, e não ao espiritual.

Textos Bíblicos Que Conflitam com a Tradição da Imortalidade Inata

A tradição da imortalidade inata reflete o dualismo grego. É um conceito que é lido mundialmente nas Escrituras, em vez de ser parte delas. Foi incorporado no Cristianismo da mesma maneira que muitas outras tradições não bíblicas. Um olhar mais atento às doutrinas ensinadas nas Escrituras, permite que os conflitos entre essas doutrinas e a tradição da imortalidade inata fiquem mais evidentes.

1 Timóteo 6:16

No capítulo 15 [do livro], observamos que as Escrituras ensinam que Deus é “o único que é imortal” (1 Timóteo 6:16). O conceito da imortalidade inata contradiz isto, embora seus proponentes façam uma grande quantidade de ginástica verbal para tentar afirmá-lo.10 A questão, portanto, não é simplesmente a doutrina da natureza humana, mas a doutrina da natureza de Deus também. Alegar imortalidade para a humanidade pecadora é negá-la como um atributo exclusivo de Deus. Todavia, quando os primeiros seres humanos pecaram, Deus disse que “não se deve,... permitir que ele também tome do fruto da árvore da vida e o coma, e viva para sempre”11 O pecado não só tinha afetado seu relacionamento com Deus (resultando no banimento de sua presença no Éden), mas os mudou. Eles eram passíveis de imortalidade (capazes de se tornarem imortais por comerem da árvore da vida). Agora eles eram simplesmente mortais.

Alguns argumentam que o termo “imortalidade”, quando se refere a Deus, tem um significado diferente do que quando se refere a todos os outros seres. Eles argumentam que “o significado de “imortalidade” na Bíblia depende em grande parte de seu contexto.”12 Eles encaram isso como justificativa adequada para ignorar a contradição encontrada na doutrina tradicional da alma imortal, e afirmar tanto a imortalidade exclusiva de Deus como a imortalidade universal da humanidade como dependente dele. Os condicionalistas encaram isso como conversa dupla. Embora seja verdade que o significado de todas as palavras dependa de seu contexto, não há lugar algum no contexto de 1 Timóteo 6:16 que redefina o termo ou presuma uma distinção entre a forma como ele é usado por Paulo lá, se comparado à maneira como outros escritores bíblicos o usam em outros lugares.

Gênesis 2:17

Isto é precisamente o que Deus (com lágrimas nos olhos) advertiu a Adão e Eva que aconteceria se eles desobedecerem à proibição edênica. Ele disse: “Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás.”13 Essa frase “certamente morrerás” é uma combinação de duas formas do mesmo verbo. A palavra mot (tAm)é o infinitivo absoluto do verbo “morrer” e refere-se ao estado de mortalidade que foi o destino da humanidade depois da rebelião no Éden. A partir do momento que eles comeram da árvore, a humanidade se tornou uma raça em extinção. A segunda palavra é o pretérito imperfeito do mesmo verbo. A palavra tamut (tWmT’) refere-se à morte final e inevitável que viria para cada membro da raça como resultado da queda. Juntas, essas duas formas de um verbo refletem uma expressão hebraica que acentua a certeza de uma ação. Assim, as traduções vertem a frase “certamente morrerás.” A doutrina da imortalidade inata transforma isso numa ameaça vã, já que afirma que a verdadeira essência de uma pessoa humana não morre.

Romanos 5:12

Paulo nos diz que “Quando Adão pecou, o pecado transmitiu-se a toda a raça humana, e trouxe como consequência a morte a todos; e todos foram contados como pecadores.”14 O pecado e a morte têm sido um grupo combinado na experiência humana, desde aquele pecado inicial no Éden. Não é apenas o corpo que peca, mas a pessoa inteira. É por isso que precisamos de um Salvador, não apenas alguém que possa nos levantar da morte. Cristo é ambos. Ele tanto pode restaurar nossas pessoas no íntimo, como levantar nossos corpos. Ambos foram afetados pelo pecado; o salário do pecado é a morte para ambos, e o dom de Deus é a vida eterna para ambos.15

João 3:16

A Bíblia fala de um vindouro dia de julgamento, quando todos aqueles que não forem redimidos pelo sangue de Cristo perecerão totalmente nas chamas da Geena.16 Quando a Bíblia fala de crentes sendo salvos, ela geralmente se refere a este evento. Em outras palavras, perecer não é simplesmente morrer. Perecer é morrer completamente. Refere-se à morte final, permanente, na Geena, não à morte temporária no fim desta vida. Assim, quando Jesus disse a Nicodemos que “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” ele estava falando dos dois destinos finais da humanidade. Perecer é ser destruído irrevogavelmente. Ter a vida eterna é escapar dessa destruição. Muitos textos apontam para a mesma distinção.17 A doutrina da imortalidade inata obscurece essa distinção porque insiste que nenhum ser humano morre afinal de contas. Assim, todos os seres humanos, em última instância teriam a vida eterna.

A imortalidade inata distorce uma doutrina crucial e essencial da fé cristã: o propósito da morte de Cristo na cruz. Segundo a Bíblia, a morte de Cristo foi para nos proteger da destruição final, não para conduzir nossas almas para o céu quando nossos corpos morrem.

1 Coríntios 15:22-23

A Bíblia é também explícita sobre a questão de quando, exatamente, os crentes ganharão o dom da imortalidade. Isso não ocorreu no nosso nascimento, e não vai ocorrer por ocasião de nossa morte. Os crentes serão vivificados no retorno de Cristo. Paulo diz: “Porque, assim como todos morrem em Adão, assim também todos serão vivificados em Cristo. Mas cada um por sua ordem: Cristo as primícias, depois os que são de Cristo, na sua vinda.” (ACR; “cada um por sua vez: Cristo, o primeiro; depois, quando ele vier, os que lhe pertencem.”, NVI) Paulo compara dois eventos na história. O primeiro evento foi a queda da humanidade no Jardim do Éden. Como um resultado desse acontecimento, a natureza humana tornou-se uma condição fatal. O segundo evento é o retorno de Cristo à Terra.

A analogia que Paulo usa para descrever a ressurreição é uma colheita. Cada ressurreição é uma etapa na colheita. Visto que Cristo é “as primícias”, ele foi ressuscitado primeiro. Isso aconteceu três dias depois de sua morte. A segunda etapa da colheita inclui ‘os que pertencem a Cristo, quando ele vier’. Esta é a ressurreição dos crentes. Paulo não fala de Cristo restaurando almas com seus corpos ressuscitados. Em vez disso, ele fala da pessoa completa sendo “vivificada”. Isto é quando a promessa da vida eterna se cumprirá para nós.

A doutrina da imortalidade inata também subverte esse ensino claro das Escrituras. De acordo com esse conceito, nenhum ser humano jamais morre, então ninguém jamais precisará ser vivificado. O conceito da ressurreição é posto de lado em favor da ideia mais imediatista de sobrevivência consciente após a morte. Isto torna o retorno de Cristo menos crucial, e bem anticlimático [decepcionante].

Resumo

As consequências do pecado original no Jardim do Éden incluem a mortalidade de todos os seres humanos, o que faz com que o homo sapiens não seja diferente dos animais em termos de mortalidade e finalmente a morte. Esta dura realidade é o pano de fundo sobre o qual a brilhante luz da vida eterna oferecida por Cristo emerge nas Escrituras. Em contraste, a tradição da imortalidade inata dilui os ensinamentos das Escrituras. Acreditar que já somos imortais por natureza pode fazer-nos menos capazes de apreciar a natureza de Deus, a influência do pecado, o propósito da morte de Cristo na cruz, e a razão para sua segunda vinda.

A Confusão na Definição do Termo

No discurso teológico, muitas vezes os mesmos termos são usados para diferentes conceitos e, infelizmente, este é também o caso da imortalidade condicional. John Stott, por exemplo, defendeu o conceito descrito acima, mas não o chama de imortalidade condicional. Ele definiu imortalidade condicional como o conceito de que “ninguém sobrevive à morte, exceto aqueles a quem Deus dá a vida.”18 Embora isso seja tecnicamente correto, não representa o ensinamento de condicionalismo. Na imortalidade condicional, conforme descrita acima, todos serão ressuscitados e enfrentarão o julgamento. Ninguém sobreviverá à morte à parte dessa ressurreição.

Wayne Grudem afirma que “algumas versões da imortalidade condicional negam a punição consciente por completo, mesmo que por um breve período.”19 A doutrina da imortalidade condicional, conforme descrita neste artigo pressupõe tanto a punição consciente dos perdidos, como sua destruição final.

A inteira questão do destino final dos condenados não é abrangida sob o termo condicionalismo. O problema do condicionalismo é saber se há algo imortal na natureza humana que sofra a punição por toda a eternidade. Os condicionalistas respondem que não. Cremos que a morte é real. A primeira morte é real; nela a vida cessa até a ressurreição. A segunda morte é real; nela a vida cessa, e já não há qualquer esperança de ressurreição.

Enquanto a segunda morte será precedida por um período de tormentos, a morte que se segue é permanente. Não é o processo de punição que é perpétuo (como se a palavra aionios fosse um advérbio), mas o evento da punição é que é permanente (já que aionios é um adjetivo). A Bíblia descreve o destino dos condenados como punição eterna não como perpétua punição.20

Millard Erickson usa o termo “imortalidade condicional” para descrever o estado de Adão (e Eva) antes da queda. Adão “não era inerentemente capaz de viver para sempre; mas ele não precisava ter morrido.”21 Assim, ele acrescenta outro uso do termo que não se enquadra em nossa definição. Erickson define a morte como “a cessação da existência humana no estado corporal ou materializado.”22 Ele é livre, então, para falar da morte de Adão como se tornando certa na queda, o seu “potencial de mortalidade” tornando-se real.23 No entanto, ele ainda mantém a porta aberta para o dualismo platônico por estabelecer uma distinção nítida entre a morte física e a morte espiritual. A segunda morte é a morte espiritual tornada permanente. Ele não explica por que deve haver uma ressurreição física para que isso aconteça.

Devemos Abandonar o Termo?

Visto que há confusão sobre a forma como o termo é usado, será que é o caso de se deixar de lado o termo “imortalidade condicional” em favor de algum mais preciso? Provavelmente não. Na maioria dos casos, os que discordam de nós pelo menos nos dão a chance de explicar exatamente o que queremos dizer, para dirimir qualquer confusão. É no ato de esclarecer e definir o significado que nos confrontamos com o texto das Escrituras, e é precisamente isso o que o debate teológico pretendia realizar. Se, no final, meu oponente no diálogo religioso examina os textos das Escrituras e ainda assim não concorda com minha interpretação deles, ainda podemos andar de braços dados como irmãos.

Se, a bem da argumentação, considerarmos a ideia de que o termo “imortalidade condicional” não é mais útil como um instrumento teológico, o que poderia tomar o lugar dele? Alguns preferem o termo aniquilacionismo. A tradição da igreja da qual procedeu este autor não optou por adotar esse termo. Embora achemos que ele descreva com precisão o destino dos condenados, não nos sentimos confortáveis em enfatizá-lo. A imortalidade condicional reflete o lado “boas novas” da mensagem bíblica. Ela fala do dom da vida eterna, que está disponível a todos os que cumprirem as condições de fé em Cristo e arrependimento do pecado.

Ele também aponta para o fato de que Cristo reuniu as condições que tornam possível a vida eterna para sua igreja. Ele é o “nosso Salvador, Cristo Jesus. Ele tornou inoperante a morte e trouxe à luz a vida e a imortalidade por meio do evangelho.”24 Assim, o termo é cristocêntrico. A questão derradeira a respeito de um destino eterno não é se alguém tem uma “alma”, e sim se essa pessoa tem um Salvador. Não é a pessoa ter tornado seu espírito eterno, e sim se ela obedeceu ao Espírito Santo. Como João disse, “Quem tem o Filho, tem a vida; quem não tem o Filho de Deus, não tem a vida.”25 Finalmente, a vida eterna não vai depender de haver uma parte da pessoa que sobrevive à morte. A vida eterna dependerá de seu relacionamento com Deus por meio de Jesus Cristo, seu Filho. Existem os que têm vida eterna e os que não têm a vida eterna. É, sobretudo, essa diferença que define o condicionalismo.

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Jefferson Vann

[Artigo original em inglês: Defining Conditionalism / Conditional Immortality]

NOTAS:

* N.T.: Os cristãos que discordam do conceito da “Trindade” entendem de modo diferente esta referência. Naquela ocasião, não seriam as ‘pessoas do Deus Trino’ que dialogavam entre si. O próprio texto não faz referência, nem dá qualquer sugestão disso. Deus poderia muito bem estar falando com outros espíritos criados por Ele (antes da criação do universo físico), e que também ‘conheciam o bem e o mal’, assim como Ele próprio. Já que o objetivo deste artigo é pontificar sobre o conceito de “imortalidade condicional” (e, nesse processo, questionar o da “imortalidade inerente”), o fato de o autor ser trinitarista não detrai qualquer argumento dele. A publicação desta tradução aqui não deve ser encarada como algum endosso do conceito trinitarista.

1 William West explora essa contradição em Resurrection And Immortality [Ressurreição e Imortalidade] (Xulon Press, 2006), pág. 77.

2 Teófilo de Antioquia, ad Autolycum (pouco depois de 180 DC), conforme citado em Alister E. McGrath, ed. The Christian Theology Reader (Malden Mass: Blackwell Publishing, 2007), pág. 646.

3 Mateus 19:16.

4 Mateus 19:21.

# N.T.: O espiritismo, por exemplo, rejeita os ensinos bíblicos de que o sofrimento e a morte são resultantes duma sentença divina, que esta sentença foi anulada por uma provisão do próprio Deus (a vida daquele que ‘provou a morte por todo homem’, a saber, seu Filho), e que é só por meio dessa provisão - o sacrifício de Cristo (e não de qualquer iniciativa humana) - que a humanidade crente pode ser libertada de todo o sofrimento e elevada a uma condição de perfeição. No conceito espírita, o mal, o sofrimento e a morte, que sempre fizeram parte da experiência humana, nada mais são que reflexos de ‘estágios evolutivos’ do espírito. Daí eles advogarem ideias tais como a do ‘progresso’ ou ‘aperfeiçoamento’ do espírito por si mesmo, dependendo de suas ações (quando ele se encontra no estado “encarnado”). Isso explica o motivo de a celebração do sacrifício de Cristo (que é algo, a bem dizer, ‘universal’ nas igrejas cristãs) não ter lugar no sistema doutrinal deles. 

5 William Newton Clarke, An Outline of Christian Theology [Um Esboço de Teologia Cristã] (BiblioBazaar, LLC, 2009), pág. 452.

6 Atos 3:21, NVI.

7 Encarar a mortalidade como uma questão antropocêntrica coloca muita ênfase nos seres humanos como criados, em vez de seres humanos como remidos. Os condicionalistas argumentam que encarar a mortalidade como uma questão antropocêntrica distrai os crentes de enxergar a conexão entre a necessidade humana de ressurreição para a vida e a solução para esse problema, que é oferecida na expiação.

8 1 João 5:12, ACR.

9 2 Timóteo 1: 9-10, NVI.

10 Página 104 [do livro].

11 Gênesis 3:22, NVI.

12 Christopher W. Morgan, Robert A. Peterson, Inferno Under Fire [O Inferno Sob Fogo] (Grand Rapids: Zondervan, 2004), pág. 206. Estes autores questionam o argumento condicionalista, substituindo-o pela ideia da imortalidade exclusiva de Deus, porque estão tentando defender o conceito tradicional do inferno como sendo a tortura perpétua de almas humanas imortais.

13 Gênesis 2:17, ACR.

14 Romanos 5:12, O Livro.

15 Romanos 6:23.

16 Malaquias 4:1; Mateus 5:22, 29, 30; 10:28; 18:9; 23:33; Marcos 9:43, 45, 47; Lucas 12: 5.

17 Veja também João 4:14; 5:21; 10:28; 17:2.

18 David L. Edwards com uma Resposta de John Stott, Evangelical Essentials [Essenciais Evangélicos] (Downers Grove, Illinois: InterVarsity, 1988), pág. 316.

19 Wayne Grudem, Systematic Theology  [Teologia Sistemática] (Grand Rapids, MI: Zondervan, 1994), pág. 1150 (nota de rodapé 12).

20 Mateus 25:46.

21 Millard Erickson, Christian Theology [Teologia Cristã] (Grand Rapids, MI: Baker Book House, 1985), pág. 613.

22 Erickson, pág. 613.

23 Erickson, pág. 614.

24 2 Timóteo 1:10, NVI.

25 1 João 5:12, NVI.