Sobre a Frequência da Ceia do Senhor

O que segue é o trecho duma mensagem enviada a uma pessoa que indagou sobre a questão da frequência da celebração da morte de Cristo (a Ceia do Senhor). Cremos que os pontos poderão ser de ajuda para outros que estejam se questionando sobre isso.

 

Prezado xxxxxx,

Apreciei a sua última carta. Conforme você percebeu, o Memorial, conforme é celebrado pelas Testemunhas de Jeová, converte uma expressão de fé (no sacrifício resgatador de Cristo por parte de todos os cristãos) primariamente numa maneira de promover o ensino de uma organização religiosa e restringe as palavras de Jesus, “Façam isso [ou seja, tomar o vinho e o pão ázimo] em memória de mim” a um relativamente pequeno grupo de pessoas.

Se alguém ler João 6:32-59 parece bem claro que o pão e o vinho são usados ​​para simbolizar biblicamente coisas que todos os que têm esperança de ganhar a vida devem compartilhar, que ambos os emblemas referem-se ao sacrifício redentor, a provisão de Deus por meio de Cristo para alcançar a vida eterna disponibilizada para todas as pessoas. Por sua posterior utilização desses emblemas na ceia final, o Filho de Deus estabeleceu uma maneira de expressar através de símbolos figurativos a fé que cada um de nós tem no sacrifício de resgate que ele forneceu, bem como fazer o reconhecimento da comunhão de irmandade que temos com todos os outros que têm essa fé.

Assim, em nossas considerações nós damos ênfase ao fato de que Cristo instituiu a ocasião como um meio para se lembrar dele e para expressar a fé em seu sacrifício. Ele não disse nada sobre duas classes, com uma classe participando e a outra não. (1 Coríntios 11:23-26, compare com João 6:47-58) As palavras de Paulo sobre participar “indignamente” tinham relação com as maneiras e atitudes que alguns em Corinto estavam mostrando na ocasião e não indicam de modo algum que a participação estava restrita a uma “classe” específica de cristãos. (1 Coríntios 11:17-22, 27-34) Reconhecendo que comer o pão e beber o vinho representa simplesmente a expressão de fé no sacrifício de Cristo, do qual todos os cristãos se beneficiam, quase todos os presentes em nossos encontros costumam participar. Essas reuniões são muito mais significativas do que a cerimônia bem vazia, típica das celebrações no Salão do Reino das Testemunhas de Jeová.

Em nossa celebração, nós nos reunimos à noite para uma refeição normal e ela é seguida pela Ceia do Senhor, o que geralmente fazemos enquanto ainda estamos sentados ao redor da mesa de jantar. Ela é informal, mas agradável e significativa. Eu penso no fato de que até mesmo a Páscoa não era celebrada no templo (embora o cordeiro de cada família fosse sacrificado lá), e sim realizada nas casas, algo que era verdade no caso da comemoração da Ceia do Senhor entre os primeiros cristãos. A simplicidade, acessibilidade, e a natureza cotidiana dos emblemas de Cristo que são usados também parecem notáveis. Eles não tinham nada de incomum, exótico ou “especial”, já que eram itens comuns na mesa diariamente, e não algum tipo de comida especial de “fim de semana”. Da mesma forma o sacrifício de resgate de Cristo está aberto a todos, e nossa partilha do seu “corpo” e “sangue” não é algo feito só aos domingos, e sim um assunto do cotidiano diário, realizado para mostrar fé em nossos assuntos diários comuns da vida.

Quanto ao momento para a celebração da refeição noturna do Senhor, temos celebrado habitualmente a refeição na data da Páscoa judaica, mas não encarando isso como uma data obrigatória. Parece que o importante é a celebração da refeição, não o dia exato. Realmente não temos alguma maneira de saber que dia Jesus consideraria hoje como a data “correta” correspondente à Páscoa.

Na verdade, não existe realmente muita prova bíblica de que os cristãos só a celebravam em base anual. O apóstolo Paulo cita Jesus como dizendo: “Persisti em fazer isso, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim.” (1 Coríntios 11:25) Como Testemunha de Jeová, eu costumava tentar explicar a expressão “todas as vezes” [“often”, na Tradução do Novo Mundo em inglês] por fazer referência a Hebreus 9:25, onde a expressão “muitas vezes” [também “often” na Tradução do Novo Mundo em inglês] aparece novamente na Tradução do Novo Mundo, usada lá em conexão com a entrada do sumo sacerdote no Santíssimo, que ocorria uma vez por ano no dia da expiação judaica. Porém, uma pessoa familiarizada com o grego apontou-me que duas diferentes palavras no grego original são usadas ​​para o “todas as vezes” em 1 Coríntios e o “muitas vezes” em Hebreus 9. A que está em Hebreus 9 significa essencialmente “várias vezes”, mas a de 1 Coríntios é muito mais indefinida (ou mais ampla e flexível), e tem o sentido de “quando quer que”. Ele também apontou que se acredita que o apóstolo Paulo chegou pela primeira vez a Corinto por volta de 50 A.D. e o relato em Atos mostra que ele passou pelo menos dezoito meses lá (Atos 18:11), possivelmente mais tempo (Atos 18:18), daí ele saiu de lá no final de 51 ou no início de 52 A.D. Acredita-se que sua primeira carta aos Coríntios foi escrita por volta da primavera de 55 A.D. É nessa carta que ele repreende os coríntios por sua conduta em relação à Ceia do Senhor (capítulo 11:17-22), mostrando que alguns a estavam encarando como se fosse uma refeição comum e não atribuindo qualquer verdadeiro significado aos emblemas [o pão e o vinho]. Se a celebração da refeição só era feita uma vez por ano, parece incrível que, depois de ter celebrado só quatro ou cinco vezes no máximo (de 50 a 55 A.D.), e talvez só três vezes depois da partida de Paulo, eles já tinham desenvolvido uma atitude desrespeitosa tão rápido assim. Uma celebração uma vez por ano, teria feito o evento ser uma coisa invulgar, incomum. Por outro lado, se eles estavam comemorando não em base anual, mas com mais frequência, eles podem ter feito a celebração dezenas de vezes ou até mais nesses poucos anos. Isso tornaria mais razoável explicar como foi que alguns vieram a desenvolver a atitude que Paulo repreende. Alguns sugerem que quando os cristãos faziam seus ágapes, ou reuniões de confraternização, eles faziam a Ceia do Senhor juntamente com sua refeição regular. Nada dogmático pode ser afirmado.

Eu posso entender porque as pessoas que estão se reunindo em algum outro momento do ano e que não podem estar se vendo por algum tempo (talvez elas venham de locais diferentes, e até mesmo distantes) possam querer celebrar a refeição nessa ocasião. [Aqui ele mencionou que quando visitou a Alemanha, três irmãos estavam lá, procedentes da Suécia, e esses irmãos manifestaram o desejo de participar da refeição noturna do Senhor com ele. Isso foi feito no próprio quarto do hotel onde ele estava hospedado.]

Eu creio que há alguma validade, pelo menos, para o raciocínio de que por algum tempo depois que ocorre um grande evento, a memória do evento em si está viva. Conforme o tempo passa, é o efeito do evento que é mais duradouro. Estou certo de que nos anos seguintes à crucificação e morte de Jesus a celebração da Ceia do Senhor tinha uma pungência especial, com a memória do que havia ocorrido estando ainda fresca nas mentes deles, as atitudes intensas que a execução de seu Senhor produziu ainda os envolvia e eram sentidas de maneira bem aguda. Embora essas atitudes básicas existam hoje e a gravidade do fato histórico nunca tenha diminuído, creio ser verdade que hoje nós pensamos mais nos efeitos do que ele realizou por meio de sua morte. É verdade que a celebração do Memorial de Cristo concentra-se nos efeitos. Mas eu posso entender que as pessoas daquela época poderiam sentir uma motivação maior ou mais intensa para a realização dessa celebração, talvez com algum grau de frequência maior do que pode ser o caso hoje. Estes são só pensamentos, em todo o caso eles têm sua validade.