Como Pôde Um Deus Santo Criar o Mal?

“Eu sou Jeová, e não há outro. Eu formo a luz, e crio as trevas; faço a paz, e crio o mal; eu sou Jeová que faço todas estas coisas.” – Isaías 45:6, 7 (Sociedade Bíblica Britânica)

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“Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos”, cantaram os serafins de Deus, conforme registrado em Isaías 6:3. O profeta Habacuque disse sobre Ele: “Teus olhos são tão puros, que não suportam ver o mal; não podes tolerar a maldade.” (Hab 1:13) Como é possível, então – refletem os homens de fé – um Deus Santo ter criado o mal, como o trecho de Isaías citado acima diz que Ele faz?

Uma leitura casual dessa passagem problemática tem levado a conclusões estranhas. Alguns concluíram que Deus criou Satanás, o Diabo e/ou os demônios já como pessoas maléficas. [1] Outros sugeriram que, se Deus pode criar o mal, não existem realmente espíritos maus ou demônios, sendo estes apenas figuras de linguagem bíblica ou personificações do mal.

Perguntamos mais uma vez: como pode um Deus Santo criar o mal?

Em primeiro lugar é preciso perceber que este trecho foi escrito originalmente em hebraico e depois traduzido para outros idiomas, incluindo os modernos. Como cristãos, acreditamos que esse trecho de Isaías foi inspirado por Deus e é totalmente verdadeiro. Mas sabemos também que a leitura dele nos idiomas modernos é uma tradução não inspirada, obra de homens imperfeitos. Poderia a seleção das palavras nas traduções ser menos precisa para o leitor moderno?

Antes de examinarmos essa expressão perturbadora mais de perto, vamos examinar a expressão oposta, fornecida no mesmo trecho, “faço a paz”. O termo hebraico traduzido como paz é shalom. Os comentaristas admitem que esta palavra das línguas modernas é muito mais limitada no significado do que o termo hebraico. De fato, nossa expressão paz e prosperidade chega bem mais perto do sentido exato. Isso nos leva a perguntar: será que o termo hebraico traduzido como mal também tem uma abrangência mais ampla de sentido do que a conotação usual do termo nas línguas modernas?

O termo hebraico traduzido como “mal” é rah. Pode significar mau ou mal, seja natural ou moral. Outras palavras modernas que poderiam ser usadas para expressar este termo são adversidade, aflição ou calamidade. Um desastre natural como um terremoto é rah, mas esse desastre não é mal em sentido moral. Conforme a Bíblia bem atesta, Iavé pode trazer a prosperidade para aqueles a quem Ele escolhe, e o desastre sobre quem Ele quiser. Como atos de julgamento, esses desastres são certamente rah para as pessoas sobre as quais eles sobrevêm, mas por serem atos de justiça de Deus, não podem ser considerados como moralmente iníquos.

Mas, o que dizer do mal em sentido moral? Será que Deus criou isso? Se Deus realmente criou o mal moral, não seria Ele, então, moralmente responsável pela iniqüidade cometida? À primeira vista, alguém poderia dizer que sim. Existe alguma maneira em que se pode afirmar que Deus criou o mal moral, sem fazer dele moralmente responsável? Façamos um exame da questão a partir deste ponto de vista.

Para nos ajudar a compreender, precisamos examinar a linha anterior deste versículo: “Eu formo a luz, e crio as trevas.” A escuridão existe na ausência de luz. A escuridão não têm ou nem precisa de uma fonte. A luz, por outro lado, precisa ter uma fonte. Sem a existência da luz, a escuridão seria universal, porém indefinível. Precisamos de um contraste para realmente compreender o conceito. Sendo este o caso, pode-se fazer a mesma pergunta na situação inversa desse trecho. Se a luz natural e as trevas estão sendo mencionadas aqui, teríamos então o seguinte trecho: eu crio a luz e formo as trevas. No entanto, Deus está falando sobre a luz e as trevas espirituais, de modo que o fraseado acima é que é o correto. O próprio Deus é a fonte de luz espiritual, e uma vez que Ele é incriado, seria errado dizer que Ele criou a luz espiritual; ela sempre existiu com Ele.

Como, então, Ele cria a escuridão espiritual? Por definir a luz espiritual, ou seja, dizendo o que ela é e o que não é. O mesmo acontece no caso de shalom e rah. Ele é a fonte, a própria personificação da paz. Portanto, teria sido incorreto dizer que Ele a criou, já que ela sempre existiu com ele. Mas, por dar a definição de shalom, Ele cria o rah.

Isto é verdade até mesmo quando passamos estes termos para o âmbito moral. Paulo nos ajuda a compreender isso com dois trechos do livro de Romanos:

... onde não há lei, não há transgressão.” (Rom. 4:15) “... Que diremos então? A lei é pecado? De maneira nenhuma! De fato, eu não saberia o que é pecado, a não ser por meio da lei. Pois, na realidade, eu não saberia o que é cobiça, se a lei não dissesse: "Não cobiçarás". Mas o pecado, aproveitando a oportunidade dada pelo mandamento, produziu em mim todo tipo de desejo cobiçoso. Pois, sem a lei, o pecado está morto. De fato a lei é santa, e o mandamento é santo, justo e bom.” (Rom. 7:7, 8, 12)

Deus, por definir o que era santo, justo e bom, criou o mal, mas sem ser moralmente responsável por ele. Considere o seguinte: Se o assassinato não é definido como um crime, então um assassino não é um criminoso. Se a cobiça não é definida como um pecado, então uma pessoa que cobiça não é um pecador. Ao estabelecer um padrão do que é certo, Deus criou o que é errado.

Mas a criação do mal por Deus não para por aqui. Ele concedeu a faculdade do livre-arbítrio à sua criação inteligente. [2] Ao criar uma situação na qual o mal moral pôde vir ao mundo, Ele o criou efetivamente, embora Ele mesmo não tenha criado pessoas iníquas, nem tenha praticado qualquer má ação. O que Ele fez foi criar seres com liberdade moral, dando-lhes um padrão do bem e do mal, e permitindo-lhes decidir livremente que caminho escolher. Dessas maneiras, Iavé Deus criou o mal, e ainda assim Ele próprio permaneceu santo.

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Contribuído por um associado do Mentes Bereanas. A tradução e postagem desta análise foi feita com permissão do autor. 



[1] Ao contrário da crença mais comum, segundo a qual Satanás e os espíritos maléficos são anjos que foram criados bons, mas optaram por um procedimento de rebelião.

[2] Alguns cristãos incluem os anjos nesse grupo, outros não.