O Batismo - Dedicação a Deus ou a Uma Organização Religiosa?

O objetivo deste artigo é demonstrar que, na questão da relação entre uma Testemunha de Jeová individual e a congregação, a organização Torre de Vigia elaborou e impôs uma série de regras legalistas. Estas regras nunca são claramente definidas para as pessoas que se tornam Testemunhas de Jeová. Em vez disso, apresenta-se a toda Testemunha iniciante uma imagem ideal. É por isso que, mais tarde, caso venham a surgir divergências entre a pessoa e a congregação, é bem comum que estas regras provoquem uma surpresa muito desagradável.

Incluído no exame deste assunto, está a análise dos votos para o batismo que as Testemunhas de Jeová têm feito ao longo dos anos, quando aderem à religião. Até o ano de 1985, esses votos eram sempre vistos como uma dedicação do indivíduo a Deus. A partir daquele ano, a liderança da organização alterou os votos, transformando-os num compromisso de seguir as regras e regulamentos da Torre de Vigia.

Segundo as declarações publicadas anteriormente, os cristãos não se dedicam a uma organização. Dizia a revista A Sentinela de 1º de junho de 1967, página 340:

Jeová é o dador da vida. “Pois contigo está a fonte da vida.” (Sal. 36:9) Não podemos manter em vista a vida eterna sem nos apegarmos a Jeová, a fonte da vida... É isto o que queremos dizer quando dedicamos nossas vidas a Jeová. Não nos dedicamos a uma religião, nem a um homem, nem a uma organização. Não, dedicamo-nos ao Soberano Supremo do Universo, ao nosso Criador, o próprio Jeová Deus. Isto torna a dedicação uma relação muito pessoal entre nós e Jeová.” (Grifo acrescentado)

Confirmando inequivocamente esta idéia, A Sentinela de 15 de julho de 1970, página 421 em diante, respondia à pergunta “O Que Vem Primeiro — Sua Igreja ou Deus? Dirigindo-se principalmente aos católicos e protestantes, o artigo dizia:

Para alguns, Deus vem em primeiro lugar e sua igreja é apenas um meio usado para adorá-lo. Para outros, sua igreja se torna um fim em si mesmo, tendo precedência a Deus e à sua Palavra, a Bíblia. Qual é a sua atitude? O que vem primeiro no seu próprio coração e mente — sua igreja ou Deus?

Em seguida o artigo descrevia o que um semanário noticioso da França, Le Nouvel Observateur, disse sobre três categorias de crentes:

O primeiro homem é aquele que se sente à vontade dentro das estruturas tradicionais da Igreja; o segundo gostaria de ver algumas mudanças feitas nestas estruturas; quanto ao ‘terceiro homem’, abandonou a Igreja, mas quietamente, sem espalhafato. Ainda crê nos valores do Evangelho, mas não espera mais ajuda da Igreja. Desistiu, e os problemas da Igreja deixaram de interessá-lo, de uma vez por todas.

Debaixo do subtítulo PERGUNTAS PARA O “PRIMEIRO HOMEM” o artigo prosseguia dizendo:

O “primeiro homem” representa os crentes que permanecem fiéis à sua igreja por lealdade à religião em que foram criados. Sua atitude é: Certa ou errada, é a minha religião! É este o seu modo de pensar? Neste caso, é certamente uma pessoa leal. Mas a quem deve maior lealdade, à sua igreja ou a Deus? Visto que há tanta descrença em toda a terra, é elogiável que mantenha a sua fé, mas em que deve ter fé: numa organização religiosa ou em Deus? Por que vai à igreja? Não é, basicamente porque crê em Deus? Vão os ateus à igreja? Não é a adoração de Deus e obter a Sua aprovação o próprio objetivo de se freqüentar a igreja? Portanto, quando se torna claro que a sua igreja não cumpre este propósito básico, qual é o seu primeiro dever?

Talvez responda: “Mas como se pode saber se a igreja cumpre o seu propósito?” Bem, atrai a sua igreja cada vez mais pessoas a Deus e as ajuda a servir a Ele? Ou se sentem os seus membros melhores e mais sinceros desapontados, desiludidos e desanimados?...

Em seguida o artigo mostrava como certas práticas merecem a desaprovação de Deus e continuava:

Além disso, para que a igreja agrade a Deus, não deve ela ensinar a verdade? Não foi isto salientado por Jesus Cristo a uma mulher samaritana junto a uma fonte em Iscar? Ele lhe disse: “... Deus é espírito, e os seus adoradores devem adorá-lo em espírito e verdade.” — João 4:21-24, CBC.

Note que a adoração em “verdade” é um dever! Portanto, é impossível adorar a Deus de modo aceitável sem um profundo amor à verdade. A verdadeira religião cristã precisa fundar-se na verdade, não em tradições, credos, dogmas e artigos da fé, que muitas vezes são difíceis de entender por serem contrários a toda a razão com que Deus nos criou. Ora, qual é a norma cristã para se medir a verdade? Não é a Bíblia? Portanto, caso se evidencie que há contradição entre as doutrinas duma igreja que afirma ser cristã e a declaração clara de verdade encontrada nas Escrituras Sagradas, o que viria em primeiro lugar na sua adoração — sua igreja ou a Palavra de Deus, a Bíblia? Qual será a sua resposta, se desejar ser sinceramente ‘desses adoradores que o Pai quer’?

O próximo subtítulo era RACIOCINAR SOBRE AS COISAS COM O “SEGUNDO HOMEM”, e dizia:

O “segundo homem” mencionado no Nouvel Observateur representa os católicos e os protestantes que permanecem na sua igreja porque não sabem aonde ir. Ensinou-se-lhes que a sua igreja representa a Deus, e não querem desviar-se dele. Não aprovam muitas das práticas ou doutrinas da igreja, mas esperam reformar a sua igreja de dentro.

Típicos destes são os 744 católicos franceses que, em novembro de 1968, enviaram uma longa carta aberta ao papa. Nela declararam: “Hoje em dia, o cristão precisa viver numa Igreja ‘verdadeira’... Portanto, tudo o que é falso, contrário ao Evangelho e escandaloso dentro da Igreja, atualmente, fere o cristão.” Daí se seguiu uma longa lista de queixas contra a Igreja Católica e seus atuais ensinos e práticas. Todavia, perto do fim, estes católicos expressaram sua aderência incondicional à sua igreja por se referirem a João 6:68 e declararem: “Para quem poderíamos ir? Na [Igreja Católica Romana] encontramos Aquele que tem palavras de vida eterna.”

Mas pode Cristo morar numa igreja onde há tanta coisa que admitidamente é ‘falsa, contrária ao Evangelho e escandalosa’? Não escreveu o apóstolo Paulo: “Que união pode haver entre a justiça e a iniqüidade? Ou que há de comum entre a luz e as trevas? Que acordo há entre Cristo e Belial?”...

Deste modo, católicos e protestantes sinceros começam a reconhecer a necessidade de se fazer uma escolha entre a igreja e Cristo, a igreja e o Evangelho. Que dizer de todos os ‘segundos homens’, que esperam reformar a igreja de dentro? O que vem primeiro, sua igreja ou Deus? De fato, o que é a igreja de Deus? Depois das palavras já citadas, Paulo escreveu a sinceros cristãos ungidos: “Porque vós sois o templo de Deus vivo, como Deus diz: Eu pois habitarei neles, e andarei entre eles, e serei o seu Deus, e eles serão o meu povo...”

Que exemplo deu o próprio Paulo?... Permaneceu Paulo na igreja tradicional, na religião judaica, e procurou reformá-la de dentro? Não! Achou que a única maneira de doravante adorar a Deus e servi-lo era ‘sair do meio’ dos fariseus e tornar-se parte da verdadeira igreja de Deus, a qual, naquele tempo, era uma pequena seita desprezada...”

Por conseguinte, se a sua igreja ensinar e fizer coisas que são contrárias à Bíblia e que desagradam a Deus, seu dever como cristão é claro: Imitar a Paulo e ‘servir seu Pai e Deus’ dentro da verdadeira religião que, conforme não é de se surpreender, as igrejas amiúde chamam de “heresia”.

O subtítulo final, NOTÍCIAS ANIMADORAS PARA O “TERCEIRO HOMEM” dizia:

Isto nos leva ao “terceiro homem”, representando os desiludidos que deixaram de praticar completamente a sua religião, mas que ainda mantêm a sua crença em Deus. Embora este artigo não seja escrito primariamente para tais, visto que já decidiram abandonar os sistemas eclesiásticos da cristandade, não obstante, temos boas notícias para eles.

Daí, o artigo concluía com um convite ao ‘terceiro homem’ para se tornar Testemunha de Jeová.

Ao mesmo tempo em que a Torre de Vigia disse que os cristãos não se dedicam a uma organização, disse também que a salvação para a vida eterna não vem a não ser por meio da organização Torre de Vigia! A revista A Sentinela de 1º de setembro de 1979  afirmou (pág. 18):

Mas as Testemunhas devotadas mantêm firmemente sua fé na organização de Jeová. Sabem qual dentre todas as organizações, na terra, o Deus Todo-poderoso tem usado para dar o maior testemunho para o Seu nome e reino, em toda a história cristã... Então, qual deve ser hoje a nossa atitude? Há qualquer motivo para perdermos a fé na organização visível de Jeová, por causa das crescentes dificuldades neste mundo? Os que crêem que Jeová nunca abandonará suas testemunhas fiéis respondem: “Absolutamente nenhum!” Numa demonstração de tal fé, continuaremos a apegar-nos a ela e a cooperar com ela, sem afrouxar as mãos. Nossa inabalável fé será recompensada com vitória e com a coroa da vida! (Grifos acrescentados).

Os Votos Batismais das Testemunhas de Jeová ao Longo dos Anos

Em harmonia com os sentimentos acima, em 1985 a organização mudou a formulação dos votos do batismo, de maneira tal que as novas Testemunhas de Jeová passaram a se dedicar, não só a Deus, como tinha sido feito por todo um século antes, e sim à organização Torre de Vigia. Uma verificação abrangente dos votos que eram usados antes daquele ano permite visualizar isso facilmente.

Em 1942, as duas perguntas feitas aos batizandos eram as seguintes:

(1) Crê você em Jeová Deus, o Pai, que “a salvação pertence a Jeová”, e que Cristo Jesus é seu Filho, em cujo sangue seus pecados são lavados, e por meio de quem lhe vem a salvação de Deus?

(2) Confessou, portanto, seus pecados a Deus, e pediu para ser purificado por Cristo Jesus, e, portanto, afastou-se do pecado e do mundo, e consagrou-se sem reservas a Deus, para fazer a vontade dele? [1]

Embora em meados da década de 1950 as perguntas tenham sido modificadas, o sentido delas permaneceu o mesmo:

(1) Reconheceu-se, perante Jeová, como pecador que necessita de salvação, e reconheceu perante Ele que esta salvação procede Dele, o Pai, por intermédio do seu Filho, Cristo Jesus?

(2) À base desta fé em Deus e na sua provisão de salvação, dedicou-se a Deus, sem reserva, para fazer doravante a sua vontade conforme lhe é revelada por ele, mediante Cristo Jesus e por intermédio da Bíblia, sob a iluminação do espírito santo? [2]

Na década seguinte, as perguntas ainda eram praticamente as mesmas:

(1) Reconhece-se diante de Jeová Deus como pecador que necessita de salvação, e reconhece diante dele que esta salvação procede dele, o Pai, mediante seu Filho, Jesus Cristo?

(2) À base desta fé em Deus e em sua provisão para a salvação, tem-se dedicado sem reservas a Deus para fazer doravante a sua vontade conforme ele a revele por meio de Jesus Cristo, e por intermédio da Bíblia, sob o poder esclarecedor do espírito santo? [3]

E também durante a década de 1970, conforme mostram as duas citações seguintes:

Do ano de 1970:

(1) Reconhece que é pecador e que necessita de salvação da parte de Jeová Deus? E reconhece que esta salvação procede dele, mediante seu resgatador, Cristo Jesus?

(2) À base desta fé em Deus e em sua provisão de redenção, dedicou-se sem reservas a Jeová Deus, para fazer doravante a vontade dele, conforme esta vontade lhe é revelada por meio de Cristo Jesus e a Palavra de Deus, segundo é esclarecida pelo Seu espírito santo? [4]

Do ano de 1973:

(1) Arrependeu-se de seus pecados e deu meia-volta, reconhecendo-se perante Jeová como pecador condenado que precisa de salvação, e reconheceu perante ele que esta salvação procede dele, o Pai, por intermédio de seu Filho Jesus Cristo?

(2) À base desta fé em Deus e na sua provisão de salvação, dedicou-se sem reserva a Deus, para fazer doravante a Sua vontade, conforme ele lhe revela por meio de Jesus Cristo e mediante a Bíblia, sob o poder esclarecedor do espírito santo? [5]

A Mudança dos Votos Batismais das Testemunhas de Jeová em 1985

Em meados da década de 1980, porém, isso mudou. As novas perguntas para o batismo das Testemunhas de Jeová passaram a ser estas:

(1) À base do sacrifício de Jesus Cristo, arrependeu-se dos seus pecados e dedicou-se a Jeová para fazer a vontade dele?

(2) Compreende que a sua dedicação e o seu batismo o identificam como uma das Testemunhas de Jeová, em associação com a organização de Deus, dirigida pelo espírito dele? [6]

Comparemos estas últimas perguntas com as que eram feitas nas décadas anteriores, apresentadas acima. Comparemo-las também com o que foi dito na revista A Sentinela de 15 de outubro de 1992, pág. 19:

Portanto, para o cristão, o batismo que se segue à dedicação estabelece uma relação íntima com Jeová Deus, com seu Filho Jesus Cristo e com o espírito santo. O converso reconhece a respectiva autoridade destes no seu novo modo de vida...

Por reconhecermos a autoridade de Deus, nós nos aproximamos dele e entramos numa relação com ele. (Hebreus 12:9; Tiago 4:7, 8) Tornamo-nos propriedade de Deus quais escravos seus, comprados com o valor do sacrifício resgatador de Jesus Cristo. (1 Coríntios 3:23; 6:20) O apóstolo Paulo também disse aos cristãos do primeiro século que eles pertenciam a Jesus Cristo, não a quaisquer homens que tivessem levado a verdade a eles. (1 Coríntios 1:12, 13; 7:23; compare com Mateus 16:24.) O batismo em o nome do Filho implica reconhecer este fato, ou seja, aceitar Jesus como ‘o caminho, a verdade e a vida’. — João 14:6. (Grifos acrescentados).

... Por ocasião da dedicação e do batismo, portanto, temos de refletir com oração sobre o que está envolvido em nossa nova relação. Exige submissão à vontade de Deus, demonstrada no exemplo e na provisão de resgate de Jesus Cristo, a ser cumprida através do espírito santo, à medida que este dirige todos os servos de Deus no amor e na união em todo o mundo.

Esta última declaração é bem incomum nas publicações da Torre de Vigia, pois não se diz em momento algum que o “escravo fiel e discreto” é quem dirige o trabalho na organização. De qualquer maneira, a Torre de Vigia conseguiu criar uma situação na qual os novos membros juntam-se na verdade a um clube mundial, no qual a adesão pode ser rescincida, ou encerrada a qualquer momento pela liderança da organização (por meio da desassociação), enquanto, ao mesmo tempo, convence esses recém-chegados que eles só se dedicaram ao Criador. Poderia algum procedimento ser mais tortuoso do que este?

A Sentinela de 15 de abril de 1987 (página 12) deu esta explicação do motivo desta mudança, dizendo (num asterisco):

“Recentemente, as duas perguntas feitas aos batizandos foram simplificadas, para que esses batizandos possam responder com plena compreensão do que está envolvido em entrar numa relação íntima com Deus e sua organização terrestre.”

Embora as frases dos novos votos sejam realmente menores, esta suposta "simplificação" só fez uma coisa: exigir de cada pessoa que se apresenta para o batismo uma declaração de submissão e obrigação para com uma organização terrestre. Quando lemos as Escrituras Cristãs vemos que o fator crucial para validar o batismo era que, em todos os casos, os que davam esse passo "cressem no Senhor Jesus" como o Messias de Deus, seu Redentor capaz de salvá-los. [7] Eles eram "batizados em Cristo Jesus". [8] Isto era “simples” o suficiente para que as pessoas pudessem compreendê-lo, e de fato compreendiam isso num só dia, em poucas horas. Não existe nada de apostólico nesta nova formulação dos votos, pois os apóstolos jamais apresentaram a idéia de uma “organização terrestre”, a qual refere-se a nada mais que uma estrutura de autoridade humana.

Cristo disse aos seus discípulos que batizassem pessoas “em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo”. A segunda pergunta do batismo da Torre de Vigia na verdade substitui o Espírito Santo de Deus pela “organização dirigida pelo espírito”. Enquanto o Espírito recebe menção simbólica, encontramos mais uma vez a situação em que a organização se apropria de uma função divinamente designada. Ela passa claramente a idéia de que o Espírito Santo de Deus não opera na pessoa que se batiza a não ser em conexão com a organização Torre de Vigia. Não destaca o fato de que a pessoa que é batizada será daí em diante dirigida pelo Espírito de Deus, mas ressalta, em vez disso, a “organização dirigida pelo espírito”. Parece incrível que a revista A Sentinela chame isso de “simplificação” das perguntas anteriores. Fala de “uma relação íntima com Deus”, mas torna isso sem sentido quando envolve a organização terrestre no assunto, criando, não uma relação com Deus, mas uma relação íntima “com Deus e sua organização terrestre”. Enquanto Jesus falou apenas sobre “o Pai, o Filho e o Espírito Santo”, a organização se inclui neste cenário, como parte indispensável dele. Isto equivale a um servo dizer às pessoas que elas podem manter contato e relacionamento com o amo desde que o servo sempre esteja presente também, atuando como intermediário, porta-voz, gerente, intérprete das decisões.

Por 19 séculos as pessoas foram batizadas sem que o batismo delas fosse antecedido por essas declarações. [9] Como se pode ver nas citações acima, das publicações anteriores a 1985, por mais de cem anos os próprios associados com a Torre de Vigia foram batizados sem essas palavras prévias. Será que eles não entendiam corretamente o que representava o batismo deles? Por que, depois de mais de 100 anos, tornava-se agora necessária esta “simplificação” para que as pessoas tivessem “plena compreensão” do significado do batismo delas?

O Fator Legal Por Trás da Mudança

Que esta mudança nos votos do batismo foi feita para proteger legalmente a Torre de Vigia é demonstrado por algumas cartas que a organização já enviou a certas pessoas que a ameaçaram com uma ação judicial por tentar impor o que elas pensavam que era apenas uma dedicação a Deus. Uma dessas respostas da Torre de Vigia disse:

“A partir da data de seu batismo e de sua adesão à organização das Testemunhas de Jeová, você professou a fé cristã, concordou em aderir à doutrina das Testemunhas de Jeová e concordou em se submeter às regras e procedimentos do governo eclesiástico das Testemunhas de Jeová.” (O grifo é nosso.)

Um bom número de pessoas simplesmente deixou de se associar com a organização das Testemunhas de Jeová sem fazer qualquer comunicado formal de desligamento. Embora continuem a viver em boa moral, se posteriormente disserem ou fizerem algo que evidencie não estarem de pleno acordo com algum ensino ou norma da organização, serão abordadas pelos anciãos, interrogadas, e muitas vezes intimadas a comparecer a uma “audiência judicativa”. Alguns enfatizaram que não viam razão para comparecer a essa audiência, pois não se consideravam sujeitos à autoridade eclesiástica da organização. Algumas pessoas até providenciaram que um advogado enviasse uma carta ao corpo de anciãos declarando sua posição e solicitando que não fossem submetidas a mais investigações, interrogatórios ou intimações. Praticamente em todos estes casos, o departamento jurídico da Torre de Vigia despachou para a pessoa (ou para o advogado) um volumoso pacote na forma de súmula legal, apresentando ampla evidência do êxito obtido pela organização nos tribunais em casos relacionados, e citando numerosos processos em apoio ao seu direito de atuar como governo “religioso” e “tribunal eclesiástico” com respeito aos batizados pelas Testemunhas. Essencialmente, a matéria afirma que a pessoa ou pessoas envolvidas têm apenas duas alternativas: comparecer perante os anciãos na “audiência judicativa” ou se dissociar formalmente. Como exemplo, a matéria cita uma decisão do Supremo Tribunal dos EUA, a qual, entre outras coisas, disse:

“O direito de organizar associações religiosas voluntárias, em apoio à expressão e disseminação de qualquer doutrina religiosa, e de criar tribunais para atuar em decisões quanto a questões controvertidas de fé, dentro da associação, e para exercer o governo eclesiástico de todos os membros individualmente, congregações e funcionários dentro da associação geral, é incontestável. Todos os que aderem a esse corpo o fazem com a aceitação implícita deste governo, e são obrigados a submeter-se a ele.” (Grifos acrescentados).

Muitos jamais teriam se batizado como Testemunhas de Jeová, se as consequências tivessem sido especificadas de modo tão claro assim a eles logo no início!

Eis aqui alguns trechos de uma longa carta escrita no início da década de 1990 por um advogado da Torre de Vigia, Philip Brumley, a uma pessoa que questionou o direito legal da organização de desassociá-la:

Represento a Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados de Nova Iorque, Inc., a organização matriz das congregações das Testemunhas de Jeová nos Estados Unidos. Por meio de suas numerosas cartas e telefonemas para este escritório, fui informado de que sua associação com as organizações das Testemunhas de Jeová foi encerrada quando você foi desassociado da Congregação de língua inglesa das Testemunhas de Jeová de [xxxxxxxx], Massachusetts...

A relação entre uma congregação e seu membro é consensual para ambas as partes. A congregação das Testemunhas de Jeová é uma associação voluntária. Tanto o membro como a congregação têm o direito de determinar se vão permanecer unidos. O membro tem o direito de dissociar-se da congregação. A congregação também tem o direito de separar-se de um membro, se isto for determinado por um tribunal eclesiástico, que as Testemunhas de Jeová chamam de comissão judicativa, se um membro não estiver conduzindo sua vida de acordo com os princípios da religião.

A. Se um membro não deseja ser mais uma das Testemunhas de Jeová, então o membro pode dissociar-se da congregação. O termo “dissociação” aplica-se à ação tomada por uma pessoa que, apesar de ser membro batizado da congregação, repudia a sua posição cristã como tal, rejeitando a congregação e afirmando que ele ou ela não quer mais ser reconhecido ou conhecido como uma das Testemunhas de Jeová. Um breve anúncio será feito para informar a congregação de que a pessoa se dissociou voluntariamente da congregação.

B. Se um membro é acusado de conduta errada e deseja continuar a ser uma das Testemunhas de Jeová, ele deve, em seguida, submeter-se às audiências da comissão judicativa. Se as acusações de conduta errada forem levadas ao conhecimento do corpo de anciãos de uma congregação, eles investigam as acusações. Se for constatado que pode haver base para as acusações e forem apresentadas evidências mostrando que um pecado grave pode ter sido cometido, o corpo de anciãos da congregação designará uma comissão judicativa, composta geralmente de três anciãos, para tratar do assunto...

II. A LEI SECULAR APLICÁVEL

C. Relação entre a congregação e seus membros. É axiomático que a essência do relacionamento de uma sociedade religiosa com seus membros é considerado pelos tribunais como sendo o acordo entre as partes e, de modo geral, uma profissão de fé, a aderência à doutrina da sociedade religiosa e a submissão a seu governo. 76 C.J.S. 755, seção 11 (1952). Tendo uma das partes voluntariamente consentido em tornar-se membro de uma congregação, sujeita-se desta forma às normas e procedimentos existentes na referida congregação e não pode negar sua existência. Todos os que se filiam voluntariamente a tal organização religiosa, fazem isso com o reconhecimento implícito desse governo e estão obrigados a submeter-se a este. Ex rel. do Estado, Morrow v. Hill, 364 N.E. 2° 1156 (Ohio 1977), Watson v. Jones, 80 E.U. 679, 729 (1872), 13 Wallace 679.

Uma vez que você não se dissociou da organização, então, por lei, deu seu reconhecimento implícito ao governo desta, sujeitando-se às normas e aos procedimentos existentes, estando legalmente obrigado a submeter-se a ela. O governo teocrático da congregação ao qual você se submeteu legalmente inclui especificamente a agência legal das Testemunhas de Jeová, conhecida como Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados de Nova Iorque, Inc., e todos os seus representantes devidamente designados, incluindo os anciãos da congregação com a qual você estava associado. As normas e os procedimentos aos quais você se submeteu incluem o arranjo das comissões judicativas conforme detalhado acima...

A matéria acima enfatiza o aspecto legal. Diz que, a partir do momento em que uma pessoa se juntou às Testemunhas de Jeová, ela tem apenas duas opções se quiser sair: desassociação e dissociação. Em se tratando especificamente dos Estados Unidos da América, estas duas opções são impostas por lei. Porém, embora o advogado da Torre de Vigia tenha expresso corretamente os assuntos, ele não mencionou o caso da criança ou adolescente que foi batizado como Testemunha de Jeová e está sob essa mesma “lei eclesiástica”. Por lei, menores de idade não podem celebrar contratos juridicamente vinculativos. Portanto, de acordo com a lei, as pessoas que foram batizadas como Testemunhas de Jeová quando eram crianças ou estavam nos anos iniciais da adolescência têm uma terceira opção legalmente válida se deixarem a religião: Simplesmente parar de se associar, sem se dissociar e sem se submeter a uma comissão judicativa, ou “tribunal eclesiástico”. Naturalmente, este é mais um detalhe que a liderança da Torre de Vigia dificilmente mencionará às pessoas.

A partir da extensa consideração acima, feita pelo advogado da Torre de Vigia mencionado (a carta completa continha dezenas de páginas), é evidente que as pessoas que se tornam Testemunhas de Jeová não são plenamente informadas sobre as regras e obrigações às quais deverão obedecer. Por exemplo, um membro deve obedecer totalmente a um ancião, já que, como vimos, os anciãos são “representantes devidamente designados” pela Torre de Vigia.

Representantes da Torre de Vigia tem feito declarações à imprensa, dando a entender que se uma pessoa quer deixar as Testemunhas de Jeová, tudo o que ela tem de fazer é simplesmente sair de lá e a vida dela vai continuar inalterada. A carta acima, do advogado da Torre de Vigia, prova que essas manifestações públicas não dizem toda a verdade sobre o assunto.

E isso não é tudo. Ainda mais grave do que este problema mencionado no parágrafo anterior é o uso da cerimônia do batismo – que deveria ser algo entre uma pessoa e Deus – como uma ocasião para impor (e de maneira camuflada) a autoridade de uma organização religiosa sobre a vida das pessoas, gerando uma série de regras legalistas. Este abuso de um requisito bíblico básico para os cristãos não deveria ser tolerado pelas pessoas que prezam a verdade.

 

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Fontes usadas para este artigo: An Aspect of the Legalism of Jehovah's Witnesses – Alan Feuerbacher, In Search of Christian Freedom – Raymond V. Franz (2ª edição em português, 2010, págs. 132-140).

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NOTAS:


[1] A Sentinela de 1° de outubro de 1942, página 302 (em inglês).

[2] A Sentinela de 1º de janeiro de 1957, páginas 12 e 13 (gramática atualizada).

[3] A Sentinela de 1º de fevereiro de 1967, pág. 81 (gramática atualizada).

[4] A Sentinela de 15 de novembro de 1970, pág. 692.

[5] A Sentinela de 1º de novembro de 1973, pág. 664.

[6] A Sentinela de 1º de junho de 1985, pág. 31.

[7] Atos 16:31-33; veja também Atos 2:36; 8:5, 12, 27-38; 9:1-20; 10:34-48; 11:16, 17; 18:8; 19:3-5.

[8] Romanos 6:3; Gálatas 3:27.

[9] No caso dos primitivos cristãos não existe sequer evidência de que se falasse algo ou se respondessem perguntas no momento do batismo. O livro de Atos 2:38 diz simplesmente: “Arrependam-se, e cada um de vocês seja batizado em nome de Jesus Cristo, para perdão dos seus pecados, e receberão o dom do Espírito Santo.” (Nova Versão Internacional). Toda pessoa que se tornava cristã entendia e reconhecia isto, sem qualquer necessidade de tais idéias serem recitadas cerimonialmente por ocasião do batismo.