De Casa em Casa

Provavelmente nenhum outro aspecto da atividade das Testemunhas de Jeová distingue-as tanto como suas visitas de porta em porta. Pessoas em todo o mundo estão habituadas a vê-las bater às suas portas com literatura bíblica e revistas, em algumas áreas com intervalo de poucas semanas. Embora seja verdade que existam outras religiões que são ativas na evangelização e que manifestam espírito missionário, não existe nenhuma na qual ir de porta em porta seja visto, não simplesmente como um meio de divulgar uma mensagem, e sim como a própria evidência do genuíno cristianismo da pessoa.

Caso se pergunte à sede da organização da Sociedade Torre de Vigia se todo membro (sendo fisicamente capaz) tem de dar testemunho de casa em casa para ser uma verdadeira Testemunha, e, de fato, um verdadeiro cristão, a resposta provável seria que este requisito não é absoluto. (Na realidade, seria extremamente difícil obter uma resposta clara e direta a tal pergunta; a sede da organização é muito reticente quando se manifesta por escrito acerca de assuntos delicados e, mesmo quando dadas, as respostas são muitas vezes redigidas em termos ambíguos, ou com raciocínios evasivos e vagos).

Já vimos, contudo, que homens de responsabilidade na organização reconhecem que existe sério motivo para questionar se, de fato, toda a comunidade das Testemunhas se empenha nesta atividade em resultado do desejo sincero de fazê-lo, como algo livremente motivado e sem nenhum sentimento de compulsão.

Então por que é feita? A evidência é que isso se tornou, para todos os efeitos, uma virtual regra de lei, de tal forma que deixar de cumpri-la provoca sentimentos de culpa, muito semelhantes aos que teria o católico praticante que deixa de assistir regularmente à missa. Uma veterana Testemunha da sede mundial, A. H. MacMillan, declarou que o trabalho de porta em porta passou a ser visto como “um arranjo mantido por um pacto”, “um dever para com Deus”. (A. H. MacMillan, Faith on the March [A Fé em Marcha], Prentice Hall, Inc., N.J., EUA, 1957, pág. 152) Embora afirme crer no ensino apostólico de que somos salvos pela fé e não por obras, encontramos freqüentemente declarações indicando o contrário nas publicações da Torre de Vigia. Como exemplo disso, num artigo (escrito por Lloyd Barry, um membro do Corpo Governante) em A Sentinela de 1° de março de 1980, página 14, foi declarado:

É pela nossa perseverança na proclamação destas “boas novas do reino” que podemos obter a salvação.

Para as Testemunhas, “proclamar ‘estas boas novas’” significa uma coisa apenas: serviço de campo, ir de porta em porta com a literatura da organização.

Não há duvida de que a maioria das Testemunhas de Jeová aceitou o ensino de que este método específico de testemunho de porta em porta é ordenado por Deus, que foi o método usado por Cristo e seus apóstolos e discípulos, e que é o modo melhor e mais eficaz de cumprir a pregação mundial das boas novas no nosso tempo.

Todos os cristãos devem entender que têm uma “comissão dada por Deus” para declarar a sua fé a outros. Devem estar dispostos a sofrer a perda da liberdade e até da própria vida, em vez de se mostrarem infiéis a essa comissão. A questão certamente não é esta. A verdadeira questão é: Implica a comissão dada por Deus aos cristãos de divulgar as boas novas no dever de fazer isto por um determinado método, a saber, ir de porta em porta? É esse método ensinado nas Escrituras como sendo o modo proeminente de proclamar as boas novas, um sinal identificador do verdadeiro seguidor de Jesus Cristo? Em um artigo sobre o batismo, a revista A Sentinela (em inglês) de 1° de julho de 1955, página 409, apresenta a pregação de porta em porta como um dos “requisitos” exigidos da pessoa que se batiza como Testemunha de Jeová:

Espera-se da pessoa dedicada que apóie a causa do Pai, a causa da adoração verdadeira, que pregue em honra da Palavra e do nome de Jeová Deus, que assuma plenamente suas responsabilidades como ministro, pregador no serviço de campo de casa em casa, e que de outras formas participe plenamente nas atividades da sociedade do Novo Mundo, para promover a proclamação do Reino e apoiar a verdadeira adoração de Jeová. A pessoa dedicada tem de ser uma Testemunha de casa em casa como foram Cristo Jesus e os apóstolos tanto quanto lhe permita a sua capacidade, e tem de ser de outras formas testemunha e anunciador do reino teocrático da justiça.

Isto nos traz de volta à verdadeira questão: É verdadeira esta crença? Se for, então todo o sofrimento pelo qual as Testemunhas passaram em países totalitários, por terem desafiado a proibição das autoridades de divulgarem sua fé de porta em porta, pode ser visto corretamente como parte do “sofrimento por Cristo”, um sacrifício necessário e de pouca conseqüência em comparação com ser leal a Deus e fiel à sua Palavra. Nesse caso, toda a responsabilidade pelo sofrimento suportado recai totalmente sobre as autoridades governamentais que tomaram tais medidas severas e repressivas.

Se, por outro lado, o conceito expresso na revista A Sentinela citada acima não for clara e inequivocamente ensinado na Bíblia, se for, em vez disso, resultado de uma norma organizacional baseada em raciocínios humanos, levantam-se então sérias questões quanto ao grau de responsabilidade que cabe à fonte desse ensino. 

Milhares de Testemunhas foram detidas e encarceradas simplesmente porque se sentiram na obrigação de apoiar esse método de divulgar sua mensagem em face de restrições legais contrárias.

Mesmo nos países onde prevalece a liberdade em grande escala e onde a probabilidade de ser preso é remota, todos os que são ou foram Testemunhas de Jeová, devem sinceramente admitir que aprenderam que a atividade de porta em porta é parte especialmente vital da sua adoração, virtual evidência básica de serem discípulos de Cristo. Sabem também, no íntimo, que se não participarem nessa atividade com certa regularidade, serão vistos como “espiritualmente fracos” pelos seus associados, criando em muitos um sentimento de culpa.

Para ilustrar esses pontos, eis uma carta de um superintendente de circuito à Sociedade Torre de Vigia, na qual ele abre o coração sobre o que viu na sua área de atividade. Ele declara:

Escrevo esta carta após meses de séria consideração e muitas conversas francas com publicadores e anciãos. Considerei o problema em oração e espero poder expressar claramente suas dimensões à Sociedade. Dos cerca de 25 anciãos com quem falei em conversas longas e francas, apenas 2 não expressaram sentimentos de culpa por não serem capazes de corresponder aos objetivos que a Sociedade estabelece para eles.

Junto com o esquema de reuniões e estudo estabelecido para eles, e os apelos constantes para “assumir mais liderança no serviço de campo”, ele diz que muitos “sentem estar sob constante tensão para avançar, avançar, avançar, sem nunca ter tempo bastante para fazer algo bem feito”. Ele prossegue dizendo:

Muitos me disseram que visitas anteriores de superintendentes de circuito foram longe de ser encorajadoras. Dizem que o superintendente de circuito vem sempre com a mensagem de fazer mais, mais e mais. Como isto afeta pessoas que já estão cheias de sentimentos de fracasso pessoal e culpa? Um irmão observou:

Os superintendentes de circuito têm passado pela congregação como um barco a motor fazendo ondas. Depois que vão embora a vida de todos fica um pouco mais instável.

Outro disse: “Os discursos deles têm muitas vezes o efeito de chicotear um cavalo fiel e cansado que já se sente sobrecarregado de trabalho.” (De uma carta do superintendente de circuito Wayne Cloutier do Circuito Connecticut 2, datada de 11 de dezembro de 1977.)

Esclarecendo que estas não são simplesmente queixas de pessoas desgostosas ou egocêntricas, auto-indulgentes, o superintendente de circuito acrescenta: “Alguns dos que se expressam assim estão entre os anciãos e publicadores mais qualificados do circuito.”

Por todo o mundo, cada ancião e “servo ministerial” (“diácono”) das Testemunhas de Jeová sabe que além de assistir a reuniões três vezes por semana (num total de cinco reuniões diferentes), tem de participar em visitas de porta em porta com certo grau de regularidade ou arrisca-se a perder sua designação por “não ser exemplar”. Como seu tempo é limitado, os anciãos vêem-se forçados a sacrificar ou pôr de lado outras coisas que no íntimo talvez achem mais importantes, incluindo assuntos de família, gastar tempo com os filhos, visitar os doentes, e atividades similares. Isto pode significar tornarem-se semelhantes a marionetes espirituais, reagindo quando os cordões são puxados por uma fonte externa. É inegável também que muitas mulheres Testemunhas têm se sentido obrigadas a participar nas visitas de porta em porta apesar das objeções veementes de maridos não-Testemunhas, sabendo que continuar a fazer isto pode causar problemas no casamento e, em alguns casos, o divórcio.

Qual é, então, a base para esta crença, que faz as Testemunhas encararem a participação no trabalho de porta em porta de modo comparável a como o católico encara o comparecimento à Missa?

De casa em casa e de porta em porta ― a mesma coisa?

O ensino da liderança das Testemunhas de Jeová sobre o testemunho de casa em casa baseia-se amplamente em textos como Atos 5:42 e 20:20. Na Tradução do Novo Mundo,da Torre de Vigia, estes dizem:

E cada dia, no templo e de casa em casa, continuavam sem cessar a ensinar e a declarar as boas novas a respeito do Cristo, Jesus.

Ao passo que (eu, Paulo) não me refreei de vos falar coisa alguma que fosse proveitosa, nem de vos ensinar publicamente e de casa em casa.

Deduz-se que “de casa em casa” indica atividade de porta em porta, indo consecutivamente de uma porta para a seguinte, uma porta após a outra, visitando pessoas sem convite prévio e geralmente sem conhecê-las de antemão. Está essa dedução necessariamente correta?

Quando a Tradução do Novo Mundo foi lançada, a Sociedade Torre de Vigia concentrou a atenção na expressão grega original (kat’oikon) da qual vem a tradução “de casa em casa”. Enfatizou-se que a preposição kata (que significa literalmente “segundo”) é usada aqui em sentido distributivo. Portanto, afirmou-se que a expressão “de casa em casa” tem o mesmo sentido de “de porta em porta”, isto é, ir de uma porta para a porta seguinte ao longo de uma rua.

A afirmação não se apóia quando examinada e considerada. Em primeiro lugar, distributivo não é o mesmo que consecutivo. Alguém pode ir de “casa em casa” indo de uma casa numa área para uma casa noutra área, assim como o médico que faz “visitas domiciliares” pode ir de lar em lar. De modo algum requer a idéia de visitas consecutivas de porta em porta.

A alegação de que o uso da preposição kata no sentido distributivo exige a tradução “de casa em casa” para estar correta e exata, é, de fato, desautorizada pela própria Tradução do Novo Mundo.

Poucas Testemunhas percebem que a mesma expressão (kat’oikon), traduzida “de casa em casa” na Tradução do Novo Mundo em Atos, capítulo 5, versículo 42, também ocorre no capítulo 2, versículo 46. Pode-se ver abaixo como estes versículos aparecem na Tradução Interlinear do Reino (em inglês) da Sociedade Torre de Vigia, que contém a Tradução do Novo Mundo na coluna da direita:

Atos 2:46

46 E dia após dia assistiam constantemente no templo, de comum acordo, tomando as suas refeições em lares particulares e participando do alimento com grande júbilo e sinceridade de coração,

Atos 5:42

42 E cada dia, no templo e de casa em casa, continuavam sem cessar a ensinar e a declarar as boas novas a respeito do Cristo, Jesus.

Como mostra o lado esquerdo da Interlinear, a mesma expressão aparece nos dois textos com o mesmo sentido distributivo de kata. No entanto, em Atos 2:46, a tradução não é “de casa em casa” mas “em lares particulares.” Por quê?

Como não é lógico pensar que os discípulos tomavam refeições indo duma casa para a outra rua abaixo, e como a Sociedade Torre de Vigia pretende atribuir esse sentido específico à expressão “de casa em casa” (para apoiar sua atividade de porta em porta), ela quer evitar as perguntas que poderiam surgir se usasse a tradução “casa em casa” aqui. Como já dissemos, a maioria das Testemunhas não percebe esta troca de traduções e a Sociedade Torre de Vigia prefere não chamar a atenção para o assunto, nem se referir a ele abertamente. (N.T.: Na Tradução do Novo Mundo revisada [2013], o versículo de Atos 2:46 aparece com a seguinte redação: "Estavam constantemente no templo, dia após dia, unidos no mesmo propósito; tomavam as refeições nas casas uns dos outros e compartilhavam seu alimento com grande alegria e sinceridade de coração,").

Em Atos 20:20, a expressão aparece novamente, embora a palavra para ”casa” ou “lares” esteja aqui no plural (kat’oikous):

Atos 20:20

20 ao passo que não me refreei de vos falar coisa alguma que fosse proveitosa nem de vos ensinar publicamente e de casa em casa.

Mais uma vez, cabe simplesmente ao tradutor decidir como esta expressão grega será vertida. Que o principal tradutor da Tradução do Novo Mundo, Fred Franz, reconheceu isto, vê-se na nota de rodapé deste versículo que aparece numa edição mais recente, de letra grande, a Tradução do Novo Mundo com Referências. A nota de rodapé diz:
 
* Ou, “e em casas particulares”.

Não é que seja errado traduzir kat’oikon (ou kat’oikous) como “de casa em casa”. É uma tradução perfeitamente correta e se encontra em muitas outras versões da Bíblia, mesmo em Atos 2:46. Depende só do tradutor qual das opções, “de casa em casa” ou “em lares particulares”, será usada nos dois textos. O errado é tentar fazer a expressão transmitir um sentido que de fato não existe.

Está claro que os apóstolos e outros cristãos primitivos visitavam pessoas em seus lares particulares. Não está nada claro que participavam na atividade de porta em porta conforme fazem atualmente as Testemunhas de Jeová. Podem afirmar isto, mas é uma afirmação absolutamente sem provas.

Não são estes textos os únicos que a Torre de Vigia usa no esforço de apresentar o testemunho de porta em porta como o modo realmente cristão, igual ao de Cristo, de divulgar o conhecimento da Palavra de Deus. Outra passagem bíblica que usam muito em seus argumentos é Mateus 10:11-14, na qual Jesus deu estas instruções quando enviou seus apóstolos a pregar: 

Em qualquer cidade ou aldeia em que entrardes, procurai nela quem é merecedor, e ficai ali até partirdes. Ao entrardes na casa, cumprimentai a família; e, se a casa for merecedora, venha sobre ela a paz que lhe desejais; mas, se ela não for merecedora, volte a vós a vossa paz. Onde quer que alguém não vos acolher ou não escutar as vossas palavras, ao sairdes daquela casa ou daquela cidade, sacudi o pó dos vossos pés.

Nas publicações da Torre de Vigia, dá-se constante ênfase à declaração: “Procurai nela [cidade ou aldeia] quem é merecedor.” Então explicam que isto significa ir de porta em porta para encontrar pessoas receptivas às boas novas. Não se dá atenção às palavras do contexto, que dizem (versículo 11): “Ficai ali até partirdes.” Estas palavras quase nunca são explicadas nas publicações da Torre de Vigia, pois deixam claro que Jesus estava falando aqui não de testemunho de porta em porta, mas sobre obter hospedagem.

Muitas destas questões foram discutidas pelo Corpo Governante em mais de uma ocasião. Os antecedentes disto foram os seguintes:

Em 1972, quando se elaborava um novo manual da organização intitulado Organização Para Pregar o Reino e Fazer Discípulos, fui designado para preparar um terço dele, inclusive o capítulo intitulado “Seu Serviço a Deus”. Em toda a minha vida como Testemunha de Jeová fui ativo nas visitas de porta em porta e continuei assim quando estava no Corpo Governante e após minha renúncia em 1980. Esforcei-me em participar nessa atividade cada mês de meus quarenta e três anos de associação ativa, visitando literalmente, nesse período, dezenas de milhares de lares. Foi raro o mês em que não participei nesse trabalho. (Conforme mencionei no capítulo 6, nota de rodapé 17, não era este o caso de todos os membros do Corpo Governante. No caso de alguns era uma rara exceção quando participavam no trabalho de porta em porta.)

Mas em 1972, embora continuasse ativo nessa obra, já não estava convicto de que a Bíblia apoiava o conceito que eu por tanto tempo aceitara, a saber, que ir de porta em porta era o modo distintamente cristão de declarar as boas novas. Que os cristãos tinham a responsabilidade de partilhar as boas novas com outros era claramente evidente e inegável. Escrevendo o capítulo designado do manual, apresentei claramente essa responsabilidade, como qualquer um pode ler no capítulo. Mas não encontrei nada nas Escrituras que ordenasse um método específico de fazer isso.

Que Cristo Jesus, os apóstolos e discípulos tinham visitado pessoas em seus lares também era claramente evidente e inegável. Mas de modo algum as Escrituras indicam que tenham ido de porta em porta fazendo isso. Não pude conscienciosamente usar os textos de Atos 5:42 e Atos 20:20 para provar que fizeram isso. Assim, apresentei no manual as visitas de porta em porta como um meio eficaz de atingir as pessoas, mas não tentei apresentar isto como algo indicado na Bíblia.

Apresentei o que escrevi a Karl Adams (que era na ocasião o supervisor do departamento de redação). Karl leu e aprovou a matéria e passou-a para o presidente. O manual inteiro foi depois submetido ao Corpo Governante para discussão. A questão de aplicar os dois textos relacionando-os a bater consecutivamente de porta em porta foi longamente discutida, com os ‘prós’ e os ‘contras’. O capítulo foi   finalmente  aprovado   ―   unanimemente  ―  por  todo  o  Corpo Governante, que se constituía então de onze membros. (Deve-se dizer que naquele período todas as decisões tinham de ser tomadas por unanimidade. Mais tarde, em 1975, entrou em vigor a regra da maioria de dois terços. A única parte do manual Organização em que Atos 5:42 e Atos 20:20 foram considerados foi sob o tópico “Pastores do Rebanho de Deus”, na parte referente a visitas de anciãos às casas dos irmãos.)

O assunto ficou assim por vários anos, dos quais os três primeiros registraram alguns dos maiores aumentos no número de Testemunhas de Jeová. A partir de 1976 houve séria queda tanto no crescimento numérico como na atividade global. Havia clara evidência de que este decréscimo se relacionava ao fato de que as grandes expectativas criadas para o ano de 1975 pelas publicações da Torre de Vigia não se tinham realizado. No entanto, alguns membros da equipe de redação começaram então a insistir que voltássemos a usar os textos de Atos em apoio ao conceito de que a atividade de porta em porta era “vital” para a pregação das boas novas, fundamental para o cristianismo. (Na realidade, poucas Testemunhas perceberam que estes textos já não eram usados do modo costumeiro. Até o irmão de Karl Adams, Don Adams, embora ele próprio fosse secretário do Corpo Governante, disse que desconhecia qualquer mudança neste respeito. A evidência proveniente do campo era de que o decréscimo estava indiscutivelmente ligado a 1975 e nada mais. O fato de que, depois de o manual ter sido publicado, tinham ocorrido grandes aumentos exatamente até aquele ano e depois ter havido uma queda brusca comprova isto.)

Sam Buck, do Departamento de Redação, propôs um artigo em apoio a esse conceito, intitulado: “Como é Que Jesus e os Seus Seguidores Pregavam?” A Comissão de Redação do Corpo Governante, da qual eu era membro, discutiu o artigo numa de nossas reuniões semanais. Karl Adams, embora não fosse membro do Corpo Governante, estava presente como secretário da Comissão de Redação. Entre os comentários feitos, Karl declarou que o artigo “parecia estar tentando torcer as Escrituras para ajustá-las a uma idéia preconcebida”.

Antes disso, eu tinha pedido a outro membro antigo da equipe de redação que comentasse a matéria que fora proposta. (Ele ainda é membro do pessoal da redação. Não tenho dúvida de que ficaria preocupado se seu nome fosse mencionado aqui. Também não tenho dúvida de que ele tem a mesma opinião que expressou naquela ocasião.) Ele escreveu: 

Do tom do artigo, fiquei com a impressão que estamos tentando fazer as Escrituras dizer algo que queremos que elas digam; trabalhamos os textos para fazê-los dizer o que queremos que eles digam...

Penso que estamos esquecendo um aspecto importante em tudo isto. Todos devem louvar a Deus, pregar. Fazê-lo é que é vital, e não como fazê-lo. Se os primitivos cristãos não iam de casa em casa, isso não significa que nós não devamos fazê-lo. Se o faziam, não significa que também tenhamos de fazê-lo. Eles iam às sinagogas, nós não vamos às igrejas. Nós fazemos congressos internacionais, não há indicação de que eles faziam isso... Por que forçar o requisito de uma única maneira [de pregar]? Por que fazer da obra de “casa em casa” uma pedra-de-toque? A questão é alcançar as pessoas. O como não é importante, desde que seja amoroso e ajude as pessoas a quem se dá testemunho.

Na discussão da Comissão de Redação não houve unanimidade entre os cinco membros, e o assunto foi então levado a todo o Corpo Governante. Esperando que a discussão se concentrasse nas próprias Escrituras e fosse orientada principalmente por elas, esforcei-me em pesquisar, nos quatro relatos do Evangelho e no livro de Atos, todos os exemplos relacionados com qualquer atividade que tivesse, mesmo que remota, alguma semelhança com pregar ou “testemunhar”, e depois resumi o que encontrei numa tabela de doze páginas de extensão. Fiz também uma tabela comparativa de 27 traduções e dos modos que verteram Atos 2:46; 5:42; e 20:20. Forneci a cada membro do Corpo Governante uma cópia de cada uma destas tabelas. O quadro com as 27 traduções é apresentado a seguir:

  Atos 2:46 Atos 5:42 Atos 20:20
AV de casa em casa em cada casa de casa em casa
ASV no lar no lar de casa em casa
Douay de casa em casa de casa em casa de casa em casa
RSV em seus lares no lar de casa em casa
NEB em casas particulares em casas particulares em vossos lares
Rotherham no lar no lar em vossos lares
Byington no lar no lar de casa em casa
Basic Eng em suas casas particularmente particularmente
Eng Revised no lar no lar particularmente
Knox nesta ou naquela casa de casa em casa de casa em casa
New Am St de casa em casa
[ou nos vários lares particulares]
de casa em casa
[ou nos vários lares particulares]
de casa em casa
Moffatt em seus próprios lares no lar de casa em casa
Moulton no lar no lar de casa em casa
New Am Bi em suas casas no lar em particular
Diaglott no lar no lar em vossas casas
Goodspeed em seus lares em casas particulares em vossas casas
Today’s Eng Vers em seus lares nos lares das pessoas em vossos lares
New International em seus lares de casa em casa de casa em casa
Philips em seus lares nas casas das pessoas em vossos próprios lares
Jerusalem em suas casas em casas particulares em vossos lares
Young em cada casa em cada casa em cada casa
New Berkeley no lar no lar em lares
Syriac no lar no lar em casas
New Int. Test. de casa em casa
[Interlinear: em [suas] casas]
em cada casa
[Int: nas casas]
de casa em casa
Barclay nas casas uns dos outros de casa em casa em vossos próprios lares
Translators’ N T no lar nos lares das pessoas em vossos lares
Weymouth no lar nos lares em vossos lares

O espaço não permite mostrar todas as doze páginas da segunda tabela, mas aqui está a primeira como amostra do seu conteúdo:

TEXTO
ATIVIDADE DE TESTEMUNHO
LOCAL OU MÉTODO
Mat 3:1-6 Atividade de João
No ermo, as pessoas iam a ele
(Marcos 1:4-8; Lucas 3:3-18; João 1:19-35)
4:17 Jesus inicia
Não especificado (Marcos 1:14,15)
4:18-22 Chama primeiros discípulos
Ao longo do Mar da Galiléia (Marcos 1:16-20)
4:23-25 Viagem pela Galiléia
Nenhum método descrito; "seguiam-no grandes multidões."
5:1-7:29 Sermão no monte
Falou a multidões na região montanhosa (Lucas 6:12-49)
8:1-4 Ao leproso
O relato diz multidões "seguiam-no" e o leproso veio a ele (Lucas 5:12-16)
8:5-10 Ao oficial do exército
O oficial veio a ele, "os que o seguiam [Jesus]" também ouviram
8:14-17 Re curas
Na casa de Pedro; "trouxeram-lhe" os que necessitavam de cura (Marcos 1:29-34; Lucas 4:38-41)
8:18-22 Ao escriba
"multidão em volta de si". Jesus pronto a entrar no barco, escriba aproxima-se dele
8:28-34 Re homem endemoninhado
Fora da cidade, pessoas saem para encontrar Jesus (Marcos 5:1-20; Lucas 8:26-39)
9:2-8 Re homem paralítico
Cafarnaum, pessoas trazem-lhe o paralítico (Lucas 5:17-26)
9:9 Chama Mateus
No assento de Mateus na coletoria (Marcos 2:14; Lucas 5:27-32)
9:10-13 Re cobradores de impostos e pecadores
Reclinado à mesa em casa de Mateus, as pessoas foram lá (Marcos 2:15-17)
9:14-17 Re jejuar
Os discípulos de João "vieram até ele” (Marcos 2:18; Lucas 5:33-35)
9:18-26 Filha doente dum governante e uma mulher doente
O governante "aproximou-se," uma mulher veio até ele, ele entrou na casa do governante (Marcos 5:21-43; Lucas 8:40-56)
9:27-31 Dois cegos
Seguiram-no para dentro da casa [onde Jesus evidentemente hospedou-se em Cafarnaum (compare com Marcos 2:1,2)].
9:32-34 Re homem mudo
Pessoas trouxeram-lhe o homem na mesma casa
9:35-38 Viagem
Sinagogas; relato fala de multidões; outros métodos não indicados (Marcos 6:6,12,13)
10:1-42 Envia os doze
Não se prescrevem métodos específicos; deu instruções de como cuidar das necessidades quanto a comida, vestimenta, dinheiro e hospedagem, mostrando como encontrar hospedagem apropriada a partir da qual empreender atividade; fala de pregar do 'alto das casas' mas evidentemente em sentido figurativo (Marcos 3:13-15;6:1-12,30;Lucas 9:1-6; compare com Lucas 9;51-56;10:5,6;Atos 16:15;17:6,7;21:4,7,8,16; 28:7,14)

Na lista completa de “Atividade de Testemunho”, há cerca de 150 ocorrências distintas de “testemunho” (quando a mesma ocorrência é relatada por mais de um escritor do Evangelho as citações de textos de todos os relatos foram em geral agrupadas sob uma só ocorrência).

Das cerca de 150 ocorrências registradas nestes cinco relatos bíblicos, só cerca de 34 faziam alguma referência a “casa” ou “lar”. Entre estas estão as quatro ocorrências mais usadas nas publicações da Torre de Vigia como base para seu ensino sobre a atividade de porta em porta. São os relatos em que Jesus dá instruções a seus doze apóstolos e aos setenta discípulos antes de enviá-los para a atividade evangelizadora, e as duas passagens no livro de Atos onde ocorre a expressão “de casa em casa” (na Tradução do Novo Mundo). Visto que a questão toda era saber o que é que estes quatro relatos realmente descrevem ― isto é, saber se devem ser entendidos como se referindo a ir de uma porta para a seguinte ou não ― certamente as outras trinta passagens onde ocorre a palavra “casa” ou “lar” deviam ser de sério interesse, pois seria razoável que lançassem luz sobre o modo como Jesus e seus apóstolos e discípulos realizavam sua atividade. O que revelaram esses relatos restantes? Conforme indiquei aos membros do Corpo Governante, o quadro mostrava que:

21 referem-se ou a casas onde Jesus, Pedro ou Paulo se hospedaram ou a casas às quais foram convidados, muitas vezes para uma refeição, incluindo as casas de Marta, Maria e Lázaro, Zaqueu, Simão, o Curtidor, Cornélio, Lídia, um carcereiro em Filipos, Áquila e Priscila, Tício Justo e Públio.

7 relatos referem-se a casas não identificadas, mas o contexto indica ou um local de hospedagem ou um local de reunião, estando às vezes presentes todos os doze apóstolos ou até uma grande multidão.

2 referem-se a Jesus enviando uma pessoa curada para casa.

Em todos os relatos, não há um só caso que mostre Jesus ou algum de seus apóstolos ou discípulos batendo de porta em porta ou mesmo indo de uma casa para a outra.

Talvez seja esta a razão pela qual o gráfico, apesar de tão completo, não foi sequer discutido pelo Corpo Governante, exceto por uma ou duas referências indiretas.

Em vez disso, a discussão concentrou-se mais no uso da expressão “casa em casa” que se acha nos dois conhecidos textos do livro de Atos, na Tradução do Novo Mundo. Lloyd Barry insistiu na volta ao uso destes textos para apoiar o trabalho de porta em porta, destacando que ‘é desta maneira que a organização tem realizado o trabalho ao longo dos anos’. (Trata-se de, claramente, nada mais que apelar para a tradição.) Leo Greenlees ressaltou que ‘precisamos ter um modo organizado de cobrir os territórios’ (cada congregação divide sua área designada em “territórios” de algumas centenas de casas cada). Albert Schroeder leu algumas citações sobre o uso da preposição grega kata e também citou exemplos de testemunho público realizado pelos lolardos, seguidores de Wycliffe. George Gangas disse que ‘a vasta maioria  das  pessoas  que  vieram para a organização foram contatadas por meio do serviço de porta em porta’. [Na verdade, há forte evidência de que apenas uma minoria de pessoas se tornaram Testemunhas em resultado de uma visita às suas portas. Perguntei a grupos de pessoas de que maneira se haviam tornado Testemunhas, e de umas doze, apenas uma ou duas tinham sido inicialmente contatadas por esse meio. A maioria começou a interessar-se através de membros da família, colegas de trabalho, conhecidos e contatos similares. Relatórios de superintendentes de circuito apresentaram evidências similares. Um dos anciãos citados no capítulo 6, em sua resposta à Sociedade declarou: “Em cada vez mais territórios é possível ir de porta em porta durante literalmente horas e não falar com ninguém... Fica cada vez mais claro que a maior parte do aumento resulta dos esforços de testemunho informal em vez do testemunho de porta em porta.” (Carta de Worth Thornton.)]. Carey Barber falou da atitude dos anciãos que questionavam a base bíblica do trabalho de porta em porta, dizendo que ‘eles evidentemente não acham necessário ser zeloso neste trabalho’. Referiu-se a Atos 20:21, dizendo que Paulo tinha falado às pessoas sobre “arrependimento”, argumentando que isto indicava que seu trabalho de casa em casa (mencionado no versículo 20) era feito entre estranhos, e não entre os discípulos. Citou a declaração de uma mulher, Testemunha, que disse a respeito do trabalho de porta em porta: “O que estou fazendo aqui fora se não tenho de pregar?” Lyman Swingle disse que ‘evidentemente aquele que escreveu o artigo proposto queria ter uma “ordem” para ir de porta em porta, algo que ele (Swingle) achava que as Escrituras não justificavam.’ Karl Klein declarou que nós estamos ‘sob obrigação de usar os melhores meios possíveis para pregar’, e citou o exemplo do “homem com o tinteiro de escrevente” na visão do profeta Ezequiel e de ele pôr um sinal na testa das pessoas. [Veja Ezequiel 9:3-11. A organização afirma que a única maneira em que este homem simbólico podia ter realizado a tarefa era indo de porta em porta. (Veja A Sentinela de 15 de novembro de 1981, página 11.) Com efeito, ela tem a pretensão de saber exatamente como as coisas devem ter sido feitas há cerca de 25 séculos. As próprias Escrituras não mencionam qualquer método.] Ele disse que ‘os irmãos que disciplinam a si mesmos e têm amor, vão de casa em casa’. Milton Henschel advertiu que ‘alguns anciãos estavam dizendo que “não há apoio nas Escrituras para o trabalho de casa em casa”’, e, com grande firmeza, acrescentou que ‘ele próprio não estava em Éfeso, mas Lucas estava e Lucas afirma que Paulo ia de “casa em casa”’. Também disse que ‘nossa tarefa é fazer discípulos e os irmãos devem ser encorajados a ir de porta em porta’. Sugeriu que fossem citadas algumas das decisões da Suprema Corte dos EUA que dizem que a prática de ir sem convite aos lares das pessoas é um antigo método de pregar. O secretário-tesoureiro Grant Suiter disse que ‘se foi publicado algo depreciando o trabalho de casa em casa deve-se então designar uma comissão especial para tratar disso’. Disse que havia relatórios indicando que algumas Testemunhas não estavam levando literatura quando iam de porta em porta. Disse que ‘há muitos que gostariam de ser Testemunhas de Jeová mas não gostam de testemunhar’ e que os anciãos não deviam ser desse tipo. [Em contraste com estas fortes declarações, de todos os membros do Corpo Governante, Grant Suiter era provavelmente o que mais raramente participava na atividade de porta em porta. Um membro do Departamento de Redação que pertencia à mesma congregação que Suiter e estava designado ao mesmo “grupo de estudo de livro”, disse que em anos de assistência às reuniões para o serviço de campo nunca o tinha visto presente. A esposa de Suiter, em conversa pessoal com minha esposa, expressou como achava difícil ser uma “publicadora regular” (o que exige apenas uma hora por mês), dizendo que eles iam a tantos arranjos de discursos nos fins de semana que, enquanto Grant podia relatar o tempo gasto fazendo discursos para as congregações, ela não podia relatar nem mesmo isso.]. Lloyd Barry falou novamente, citando o comentário de um padre católico sobre o bom exemplo das Testemunhas de Jeová ao irem de casa em casa. Citou um membro da Comissão de Filial do Panamá que disse que o trabalho de casa em casa é “a verdadeira espinha dorsal da nossa adoração”. Leo Greenlees também falou novamente, dizendo que a maioria dos irmãos são “pessoalmente desorganizados” e não fariam o trabalho se a organização não fizesse arranjos para eles.

Isto resume a maior parte do debate e ilustra a tendência seguida, as atitudes e pensamentos manifestados. Fiz constante esforço para chamar a atenção para as próprias Escrituras ao longo da reunião, mas o debate raramente se fixava em algum ponto o tempo suficiente para permitir uma análise profunda. Toda a discussão bíblica focalizava-se quase totalmente na exatidão da tradução “de casa em casa”, conforme aparece em Atos 5:42 e 20:20, na Tradução do Novo Mundo, sendo esta particularmente defendida pelo presidente Fred Franz.

Na verdade, nem eu nem ninguém tinha rejeitado ou mesmo criticado essa tradução. A verdadeira questão era: O que significava “casa em casa” ali? Era sinônimo de “porta em porta” conforme empregado pelas Testemunhas? Ou tinha simplesmente o mesmo significado de “em lares particulares”, que era como a Tradução do Novo Mundo apresentava a expressão grega idêntica em Atos 2:46? Chamei a atenção para isto em vários momentos do debate. Como Fred Franz era, de fato, o tradutor da Tradução do Novo Mundo, eu tinha certeza de que ele percebia que esta mesma expressão grega (kat’oikon) foi também usada quatro vezes para se referir ao local de reunião dos crentes cristãos nos lares de certos discípulos. (Veja The Kingdom Interlinear Translation em Romanos 16:5, 1 Coríntios 16:19, Colossenses 4:15 e Filêmon versículo 2.) Nestes versículos, ele traduzira o termo grego por expressões como “na casa deles”, “na casa dela” e “na tua casa”. Embora esteja claro que a preposição kata não é usada em sentido “distributivo” nestes textos, eles ilustram, todavia, que a expressão foi usada referindo-se aos lares particulares de discípulos.

Assim, no esforço de estabelecer que ― independentemente da forma como a expressão era traduzida ― a questão decisiva era saber se ela transmitia claramente o significado que lhe era atribuído, senti-me por fim impelido a fazer uma pergunta direta ao meu tio, dizendo: “O irmão Fred Franz acredita realmente que a expressão ‘de casa em casa’ tal como aparece nestes versículos [Atos 5:42; 20:20] significa mesmo ir ‘de porta em porta’, de uma porta para a porta seguinte? Eu apreciaria que se pronunciasse a respeito.”

O presidente, Karl Klein, voltou-se para ele e disse: “E então, irmão Franz?” Sua resposta começou com: “Sim, creio que pode incluir isso.” (Note o uso da palavra “pode”, em vez de “inclui”.) Então prosseguiu: “Por exemplo, ao ir a uma casa Paulo pode ter entrado pela porta da frente e, após conversar, pode ter saído pela porta dos fundos, e assim ele estaria indo de porta em porta.” Vários dos membros explodiram em risos. Mas o fato é que a declaração não pretendia provocar risos, pois foi feita com toda a seriedade. Digo isto não só porque conhecia meu tio havia mais de meio século, e também seu modo de falar quando estava sendo deliberadamente engraçado, sarcástico ou até brincalhão. Não foi um comentário improvisado feito numa conversa casual. O presidente da Sociedade sabia que a pergunta tocava no tema central que iniciara a longa discussão. Falou deliberadamente e num tom que apelava à razão, e não deu o menor indício de pretender ou esperar que seu comentário fosse entendido de outro modo que não fosse uma explicação razoável. Fiquei perplexo, pois parecia incrível que tal resposta fosse dada para esclarecer de algum modo o tema central da discussão, que já durava horas. Em conversa, Karl Klein observou certa vez: “Freddie consegue racionalizar qualquer coisa.” Todavia, ainda fico perplexo ao pensar como um homem obviamente inteligente pôde fazer uma racionalização tão evasiva e tão descabida a ponto de causar risos em seus companheiros do Corpo. Esta, porém, foi a única resposta que a minha pergunta recebeu.

Eu tinha pedido aos membros do Corpo que examinassem as doze páginas de evidência bíblica e que apontassem qualquer coisa que indicasse que Jesus, alguma vez, estabeleceu um exemplo de ir de porta em porta. Isto também ficou sem resposta.

Pouco depois da minha pergunta a Fred Franz, o Corpo Governante votou em que Lloyd Barry supervisionasse a elaboração da matéria que reintroduziria o uso dos textos já mencionados como apoio específico à atividade de porta em porta realizada pelas Testemunhas de Jeová. O resultado da votação foi treze a favor, quatro contra.

Achei a discussão desanimadora. Não que o resultado fosse de algum modo inesperado. O aspecto desanimador foi o modo e o espírito em que ocorreu a própria discussão, embora a tendência errante e casualística que se seguiu fosse algo que a experiência passada já me fazia esperar. Depois disso tirei algum tempo para fazer comentários escritos para distribuir a todos os membros, mas, depois de escrevê-los perguntei-me de que adiantaria continuar tentando. Parecia um exercício inútil. Acabei dando apenas umas quatro cópias aos membros que eu achava que poderiam ao menos dar consideração à matéria e arquivei as restantes.

Adaptando as Escrituras a um ensino da organização

Quando Lloyd Barry, membro do Corpo Governante, foi designado para supervisionar a preparação da matéria sobre o assunto para A Sentinela, ele declarou voluntariamente ao Corpo que se certificaria de que se desse a devida atenção à informação apresentada nos dois gráficos (da evidência bíblica a respeito do testemunho nos quatro Evangelhos e em Atos, e do modo como se traduzia kat’oikon em várias versões da Bíblia) que eu fornecera aos membros do Corpo. Preferiu escrever ele mesmo a matéria, que veio na Sentinela de 1° de março de 1980. Não trouxe nenhuma explicação da evidência bíblica apresentada, nem deu, de fato, qualquer explicação das questões básicas envolvidas, como tinham sido discutidas na reunião do Corpo Governante.

Logo no início, os artigos traziam uma gravura grande com casas, com figuras menores inseridas nela, mostrando Testemunhas batendo às portas e embaixo as palavras: “Assim como fizeram os apóstolos de Jesus, os atuais cristãos estão procurando ‘de casa em casa’ os que merecem receber as ‘boas novas’”. Assim, desde o início, “casa em casa” e “porta em porta” foram equiparados. O artigo de modo algum apresentava prova de que isso ocorre nas Escrituras; esse lado da questão nem sequer foi considerado.

Os artigos que se seguiram ilustram claramente o modo como, com desoladora freqüência, a organização mostra aos adeptos uma imagem distorcida dos assuntos, suprimindo toda a evidência desfavorável e privando-os, assim, da oportunidade de avaliar honestamente as questões e de chegar a uma conclusão pessoal quanto à validade das posições tomadas.

Já que não se pôde apresentar nenhuma evidência de que Jesus deixou alguma vez um exemplo de ir de casa em casa, no sentido de visitar consecutivamente casas de porta em porta, o primeiro artigo focalizou, em vez disso, a atenção nas instruções dele aos doze apóstolos e aos setenta discípulos (páginas 9 e 10 do primeiro artigo). Seguiu-se a prática costumeira de apresentar apenas as partes do texto que falam de ‘procurar quem é merecedor’, e omitir as declarações que acompanham estas palavras, tais como “ficai ali até partirdes”, “ficai nessa casa, comendo e bebendo as coisas que vos derem... Não vos estejais transferindo de casa em casa” (parágrafos 8-10). Depois de citar apenas parte das palavras de Jesus, o artigo diz (página 10):

Isto exigia irem aos lares das pessoas, onde os ‘merecedores’ acatariam as “boas novas”. Desta maneira, esses discípulos iriam também encontrar hospedagem para pernoitar.

Observe, “iriam também encontrar hospedagem”. Isto visa a dar a idéia de que esta parte das instruções de Jesus tratava primariamente do testemunho de porta em porta e que a hospedagem era algo secundário, quase sem importância. Todavia, a simples leitura do relato (neste e nos outros evangelhos) mostra que Jesus, após falar aos discípulos sobre coisas de que precisariam, ou achavam que precisariam, quando fossem em viagem de pregação, a saber, dinheiro, comida e vestuário, falou então sobre outra coisa de que precisariam na viagem, a saber, hospedagem, e este era o principal assunto tratado nas suas palavras citadas. A declaração que Jesus fez imediatamente depois, “e ficai ali até partirdes”, demonstra isto. Ao citar apenas parte do versículo e  separar  os  assuntos,  o artigo manipula  mais facilmente a mente do leitor para aceitar as idéias apresentadas. [O artigo também lança uma “pista falsa” sobre a questão ao dizer (página 10): “O registro não diz se iam às sinagogas ou às feiras. Mas receberam instruções de ir às casas das pessoas.” Isto serve para desviar a atenção da verdadeira questão, que é saber se Jesus estava dando instruções sobre “métodos de testemunho” ou sobre obter hospedagem. Os discípulos já sabiam como Jesus “testemunhava” pois eles tinham estado com ele e tinham observado seu exemplo. Seus próprios relatos (como os de Mateus e João) não dizem nada sobre ele ter ido de casa em casa, mas relatam que ele falou em sinagogas, feiras e outros locais públicos e que aceitou convites para lares particulares e para falar a pessoas ali presentes.].

O escritor usou método idêntico quando citou as palavras de Jesus aos setenta discípulos enviados, conforme registradas em Lucas 10:1-16. No artigo, foram citadas estas palavras: 

Onde quer que entrardes num casa, dizei primeiro: “Haja paz nesta casa.” E, se ali houver um amigo da paz, descansará sobre ele a vossa paz. Mas, se não houver, ela voltará para vós.

As palavras de Jesus que vêm logo em seguida não foram citadas. Por que não? Elas dizem:

Assim, ficai naquela casa, comendo e bebendo as coisas que vos derem, porque o trabalhador é digno do seu salário. Não vos estejais transferindo de casa em casa.

Estas palavras mostram claramente que Jesus estava dizendo aos discípulos como obter hospedagem com pessoas adequadas, e como se comportar quando a conseguissem. Como estas palavras dão um aspecto totalmente diferente ao quadro, não convinham ao argumento do escritor. Portanto, elas simplesmente não foram consideradas. (N.T.: Na Tradução do Novo Mundo revisada [2013], a expressão "de casa em casa" foi eliminada deste trecho [Lucas 10:7]. O versículo foi traduzido da seguinte maneira: "Assim, fiquem naquela casa, comendo e bebendo as coisas que lhes oferecerem, porque o trabalhador é digno do seu salário. Não fiquem mudando de uma casa para outra.").

Quando tratou da questão da tradução, o artigo reconheceu brevemente que há “outras traduções” para kat’oikon além de “casa em casa”, mas depois apresentou apenas as traduções que usam aquela maneira de traduzir! O artigo nunca tratou da questão de saber se “distributivo” significa ou requer a idéia de “consecutivo”.

Numa nota de rodapé o artigo alistava dez traduções que trazem a expressão “de casa em casa” em Atos 20:20. Não disse ao leitor que há um grande número de traduções (principalmente em inglês) que a vertem de outras maneiras, tais como “particularmente”, “em lares particulares”, “em casa”, e outras expressões similares. Não disse ao leitor que algumas das mesmas traduções alistadas como usando “casa em casa” em Atos 20:20 (na Sentinela em inglês), vertem kat’oikon como “em casa” em Atos 5:42. (American Standard Version; Revised Standard Version; English Revised Version; tradução de Moffatt.) O artigo (da edição em inglês de A Sentinela) incluiu a New American Standard Version na sua nota de rodapé, na lista de versões que usam “de casa em casa” em Atos 20:20, mas não mostra que na margem dessa versão lê-se “ou nos vários lares particulares”. Aquilo que não contribuía para a idéia que os artigos visavam a promover, foi simplesmente ignorado. Todavia, seu autor, Lloyd Barry, sabia que isto tinha sido um tópico sério e vital do debate na reunião do Corpo Governante.

Mais difícil de entender é a razão pela qual os artigos em parte alguma admitiram o fato de que a própria Tradução do Novo Mundo, da organização, traduz kat’oikon pela expressão “em lares particulares” em Atos 2:46. Este versículo nem sequer é mencionado em toda a exposição. Por quê? A razão parece ser evidente.

O primeiro artigo foi o alicerce e os dois seguintes fizeram uso dele, citando historiadores (E. Arnold e H. G. Wells, que escreveram sobre o espírito evangelizador do cristianismo primitivo), o próprio uso tradicional do testemunho de porta em porta pela organização, decisões judiciais e outras matérias em apoio ao ponto de vista exposto.

Assim, os artigos apresentam um exemplo notável de supressão de evidência contrária, de “raciocínio circular”, com base em premissas não provadas apresentadas como se fossem fatos. Escrito em linguagem enérgica e vívida, com declarações feitas de modo positivo e confiante, os artigos não dão ao leitor indicação alguma de que poderia haver um entendimento alternativo dos relatos bíblicos citados em apoio à posição tradicional. Em vista da discussão ocorrida no Corpo Governante e da evidência ali apresentada, é difícil não encarar isto como desonestidade intelectual.

O registro do testemunho do apóstolo Paulo

Poderiam ser dados mais exemplos em que a evidência também foi ignorada e suprimida. Como apenas um dentre muitos, A Sentinela de 1° de julho de 1983 trazia uma consideração do serviço do apóstolo Paulo, citando suas palavras em Atos 20:20, 21. Considere a afirmação que se seguia (página 13): 

Mais tarde, ele podia dizer apropriadamente aos “anciãos” da congregação de Éfeso: “Não me refreei de vos falar coisa alguma que fosse proveitosa, nem de vos ensinar publicamente e de casa em casa. Mas, eu dei cabalmente testemunho, tanto a judeus como a gregos, do arrependimento para com Deus e da fé em nosso Senhor Jesus.” (Atos 20:17, 20, 21, 31; 19:1-41) De modo que o apóstolo Paulo, antes que estes homens que agora eram anciãos se haviam tornado cristãos, lhes havia ensinado as verdades básicas do cristianismo na pregação “de casa em casa.”

O próprio Paulo diz que ensinou estes homens primeiro “publicamente” e depois de “casa em casa”. O autor do artigo, de fato, inverte a ordem, afirmando taxativamente que o modo inicial pelo qual os anciãos efésios se tinham tornado cristãos foi a atividade de ‘casa em casa’. Ele simplesmente omite totalmente o papel do ensino “público” de Paulo em instruir estes homens nas “verdades básicas do cristianismo”, embora o próprio Paulo tenha alistado isto em primeiro. Com que base fez isto o autor do artigo? Onde as palavras de Paulo especificam o local em que estes homens se arrependeram e tiveram fé em Jesus Cristo, tornando-se assim cristãos? Na realidade, no capítulo anterior ao que foi citado (isto é, Atos capítulo 19) a própria Bíblia nos fala sobre a atividade de Paulo em Éfeso. Visto que, como disse Milton Henschel, ‘nós não estávamos em Éfeso mas Lucas estava’, o que mostra o próprio relato de Lucas (escritor do livro de Atos) quanto a como e onde Paulo deu “cabalmente testemunho, tanto a judeus como a gregos” acerca do arrependimento e da fé em Cristo?

O capítulo 19 de Atos mostra que, ao chegar a Éfeso, Paulo “achou alguns discípulos”, cerca de doze, que nada sabiam acerca de receber o dom do Espírito ou de serem batizados no nome de Cristo, tendo sido batizados no batismo de João. Paulo os batizou no nome de Jesus. Mas deve-se notar que estes homens já eram “crentes”, “discípulos”, quando ele os encontrou. Ele não os ensinou como se fossem estranhos desinformados, mas como homens que já eram discípulos.

O caso deles pode se comparar ao de Apolo, descrito no capítulo anterior como “familiarizado apenas com o batismo de João” quando Áquila e Priscila o conheceram. (Atos 18:24-26) No entanto, mesmo antes que lhe expusessem “mais corretamente o caminho de Deus”, Apolo já “falava e ensinava com precisão as coisas a respeito de Jesus” na sinagoga. Embora incompleto no seu entendimento, ele já era cristão quando Áquila e Priscila o conheceram. Além disso, eles não o encontraram indo de porta em porta, mas enquanto eles próprios freqüentavam a sinagoga. Não há razão alguma para encarar os doze homens em Éfeso de modo diferente.

Após descrever o batismo destes homens por Paulo, o relato em Atos capítulo 19 diz: 

Entrando na sinagoga, falou com denodo, por três meses, proferindo discursos e usando de persuasão a respeito do reino de Deus. Mas, quando alguns prosseguiam em endurecer-se e em não crer, falando injuriosamente sobre O Caminho perante a multidão, retirou-se deles e separou deles os discípulos, proferindo diariamente discursos no auditório da escola de Tirano.

Este é o testemunho ocular de Lucas sobre o ministério de Paulo em Éfeso. Mostra que alguns dos que ouviam os discursos de Paulo na sinagoga durante aqueles três meses ou já eram ou tornaram-se discípulos depois. Não diz que estes, ou quaisquer outros, abraçaram o cristianismo em resultado da atividade de pregação de “casa em casa”. O contexto muito claro da evidência bíblica indica que isto foi mais provavelmente em resultado de terem escutado os discursos públicos de Paulo na sinagoga. Considere essa evidência conforme é apresentada no relato de Lucas:

Em todo o livro de Atos há exemplos e mais exemplos de pessoas que se tornaram crentes em resultado de discursos dados em lugares públicos ou de maneira pública. Os 3.000 em Pentecostes reuniram-se publicamente para ouvir Pedro e os outros discípulos falarem, e naquele mesmo dia arrependeram-se e tornaram-se crentes. Não estavam atendendo alguém às portas de suas casas. (Atos 2:1-41) Embora seja verdade que Cornélio e seus companheiros ouviram a mensagem de arrependimento e fé em Cristo na casa dele, a visita de Pedro ali não estava relacionada a nenhuma “atividade de pregação de “casa em casa”, mas era uma visita específica àquela casa. (Atos 10:24-48) Em Antioquia da Pisídia, em resultado de Paulo falar na sinagoga, alguns judeus e prosélitos “seguiram a Paulo e Barnabé” para ouvirem mais. (Atos 13:14-16, 38-43) Se alguma casa estava envolvida, era mais provavelmente aquela em que Paulo e Barnabé se hospedavam, onde estas pessoas interessadas os visitavam, o que é o oposto de serem visitadas em suas casas por Paulo e Barnabé. (Confira uma situação similar no ministério de Jesus em João 1:35-39.) No sábado seguinte, “todos os corretamente dispostos para com a vida eterna tornaram-se crentes”, na sinagoga, segundo todas as indicações. (Atos 13:44-48) Em Icônio, o relato diz que Paulo e Barnabé falaram de novo na sinagoga e “uma grande multidão, tanto de judeus como de gregos, se tornaram crentes”. Eles ‘se arrependeram e tiveram fé em Cristo’ em resultado do ensino público na sinagoga, sem menção a qualquer “atividade de “casa em casa”. (Atos 14:1) Em Filipos, Lídia ‘abriu-lhe o coração e prestou atenção à mensagem de Paulo’, mas isto foi junto de um rio e foi só depois que Paulo entrou na casa dela, já como hóspede. [Esta situação ilustra de modo notável como deve ter ocorrido anteriormente com os discípulos de Jesus nas suas viagens de pregação, ao aplicarem a sua instrução sobre permanecer nos lares de ‘pessoas merecedoras’.]. O carcereiro filipense que mais tarde se converteu, conheceu Paulo quando este estava detido na prisão dele, e a entrada de Paulo na casa dele resultou de o carcereiro ter pedido para saber mais, não de uma visita não solicitada à sua casa. (Atos 16:12-15, 25-34) Em Tessalônica, o resultado de Paulo ter raciocinado com as pessoas na sinagoga por três sábados foi que “alguns deles tornaram-se crentes e associaram-se com Paulo e Silas, e assim fizeram também uma grande multidão dos gregos que adoravam a Deus” ― novamente, ensino público numa sinagoga sem menção a qualquer atividade de pregação de “casa em casa”. (Atos 17:1-4) Em Beréia, quando chegaram, “entraram na sinagoga dos judeus” e “muitos deles tornaram-se crentes, e assim também não poucas das mulheres gregas bem conceituadas e dos homens”.  (Atos 17:10-12) Em Atenas, após Paulo ter falado publicamente na sinagoga, na feira e no Areópago, todos lugares públicos, alguns “juntaram-se a ele e tornaram-se crentes”. (Atos 17:16-34) Em Corinto, Paulo, enquanto hospedado na casa de Áquila e Priscila, “cada sábado, dava um discurso na sinagoga e persuadia judeus e gregos”. Quando a oposição o forçou a sair da sinagoga, ele foi para a casa vizinha de Tício Justo, e usou esta casa como lugar de ensino, e o relato diz: “Mas Crispo, o presidente da sinagoga, tornou-se crente no Senhor, e assim também todos os de sua família. E muitos dos coríntios, que tinham ouvido, começaram a crer e a ser batizados.” (Atos 18:1-8) Crispo e sua família tinham ouvido de início as boas novas na sinagoga e só mais tarde em sua casa, quando esta foi usada como local de reunião, sem a ocorrência de visitas de porta em porta.

Todos estes relatos antecedem o relato da atividade de Paulo em Éfeso. Devemos achar que estes não lançam luz sobre a declaração de Paulo em Atos 20:20 citada na Sentinela, de que ele deu “cabalmente testemunho, tanto a judeus como a gregos, do arrependimento para com Deus e da fé em nosso Senhor Jesus”? Onde Paulo fizera exatamente isso, em todos estes relatos? Foi em algum tipo de atividade de porta em porta? Ou foi, em vez disso, em lugares públicos, principalmente sinagogas? Quando se falou em casas, tinha ido ali o apóstolo em atividade de porta em porta, ou tinha sido, em cada caso, convidado àquela casa específica? Tinham as pessoas, “judeus e gregos”, se arrependido e se tornado cristãs através de ensino público nas sinagogas? Tinham, claramente. Diante de toda esta evidência das próprias Escrituras, do testemunho ocular de Lucas, como pôde o redator da Sentinela não fazer a menor referência à evidente probabilidade de que o que ocorreu nos outros lugares pode também ter ocorrido em Éfeso? Não pesquisou o assunto? Não estava a par de toda esta evidência? Tal superficialidade seria indigna de alguém que escreve para milhões de leitores. Ou será que ele preferiu passar por cima da abundante evidência com o fim de fazer as Escrituras se ajustarem aos ensinos da Torre de Vigia? Isto seria ainda menos desculpável.

Paulo diz que ensinou pessoas em Éfeso “publicamente e de casa em casa”. Se o primeiro método é público, o segundo, naturalmente, é particular. Visto no contexto extenso e detalhado de todo o livro de Atos, é claro que o caso de Éfeso pode ter sido este: Paulo encontrou crentes em resultado de ter falado na sinagoga, e mais tarde, na escola de Tirano, e depois disso foi aos lares desses crentes, uma casa depois da outra, dando-lhes instrução, não pública, mas particular, instrução personalizada. Uma argumentação honesta teria pelo menos de reconhecer isto como uma possibilidade e, se fossem considerados todos os exemplos bíblicos anteriores, teria de admitir que esta é a explicação mais provável. A Sentinela não fez isto. Por quê?

Creio que pelo menos uma razão é a preocupação com o efeito que tal consideração justa da evidência bíblica possa causar. Os membros do Corpo Governante certamente entendem que a extensão da atividade de porta em porta realizada em todo o mundo pelos membros da organização, deve-se em grande parte à constante pressão nas revistas, nas reuniões semanais e nos discursos dos superintendentes viajantes. Embora sua própria posição privilegiada lhes permita certo grau de imunidade a essa pressão, eles com certeza a conhecem por sua experiência passada antes de chegarem à liderança. Eles a sentiram e sabem que é real. [Este grau de imunidade estende-se até certo ponto a outros nos escalões mais elevados da administração. Numa carta para a Comissão de Serviço, datada de 29 de dezembro de 1976, o secretário dessa comissão, Robert Wallen, cita um caso na congregação de Woodhaven (com a qual se associava) em que o superintendente de circuito se pronunciou contra a designação como ancião de um homem que tinha em média cinco horas por mês de “serviço de campo”. Wallen indica que o homem tinha servido em outra congregação como ancião, foi recomendado por essa congregação, e também tinha dois filhos em idade pré-escolar. Ele disse que o caso o fez pensar seriamente na sua própria situação, visto que sua média de serviço era “aproximadamente a mesma desse irmão”. No entanto, ele acrescentou que por causa da sua designação na sede mundial, sua qualificação como ancião era julgada por um padrão diferente do daquele homem. Embora isto se aplique aos que têm designações mais importantes, esta imunidade não se estende ao trabalhador comum da sede mundial, e ele não usufrui de nenhum alívio da pressão das horas no serviço de campo.]. Suas próprias declarações sobre os relatórios, por exemplo, mostram um verdadeiro medo de que aliviar a pressão resulte na queda dessa atividade. O comentário de Leo Greenlees de que a maioria dos irmãos são “desorganizados” e precisam dos arranjos da Sociedade para fazê-los trabalhar, é típico da atitude paternalista tantas vezes expressa nas reuniões do Corpo Governante. Embora ligada a outro aspecto do programa da organização, uma sugestão para reduzir a duração das reuniões semanais, um comentário bem similar foi feito por Milton Henschel, que perguntou: “E o que farão os irmãos se lhes dermos mais tempo livre? Provavelmente vão usá-lo para ver TV.”

Caso reflitam nisso conscienciosamente, os homens nos postos de liderança sabem também que a organização Torre de Vigia criou um enorme império editorial, que levou décadas para construir. Esse sistema editorial com suas grandes e dispendiosas filiais e gráficas e os alojamentos de muitos andares para os que ali trabalham, são fonte de grande orgulho e freqüentemente citados como evidência de benção divina e prosperidade. Qualquer diminuição da pressão para que as Testemunhas participem na atividade de porta em porta, com as publicações que emanam desse sistema, pode eventualmente fazer o império desmoronar ou exigir que seja em grande parte desmontado. Creio seriamente que, para muitos dos da liderança da organização, esta simples idéia é inconcebível.

Os membros do Corpo Governante sabem também que, embora se distribua todo ano um volume enorme de milhões de publicações, só uma pequena fração delas chega a ser lida. Mas a quantidade de publicações distribuídas, por si só, ajuda a manter a impressão de um tremendo “testemunho mundial” dado às pessoas. Ao passo que o apóstolo Paulo “ensinou” publicamente e em lares particulares, o trabalho de porta em porta das Testemunhas de Jeová na maioria dos países onde é realizado é uma forma pública de pregação mas não de ensino. Mesmo o alcance da pregação é notavelmente pequeno. Na maioria dos países, as Testemunhas só ocasionalmente se empenham numa conversa substancial, e com freqüência ainda menor conseguem passar do limiar da porta. Em grande parte dos casos, o “testemunho” não envolve mais que a oferta rápida de algumas publicações da Torre de Vigia. Mesmo nos poucos casos em que as pessoas deixam a Testemunha dizer algo mais ou a convidam a entrar, o que se diz na vasta maioria das vezes dificilmente poderia ser descrito como “ensinar” e nem de longe se classifica como ‘dar testemunho cabal sobre arrependimento e fé no Senhor’, porque consiste primária e principalmente numa breve consideração de um ou dois versículos da Bíblia, seguidos pela oferta de literatura da Torre de Vigia. [A carta já citada da Comissão de Filial da África do Sul inclui afirmações que são verazes no caso de muitos países, ao dizer que “poucas pessoas do público lêem realmente as nossas revistas”, “muitos publicadores pagam pelas revistas e distribuem apenas uma parte delas,” e finalmente quando pergunta: “Qual é o interesse de distribuir milhões de revistas se não atingimos o nosso verdadeiro objetivo de fazê-lo?”]. O verdadeiro “ensino” só acontece nos “estudos bíblicos domiciliares”, e todos os que conhecem a situação nas congregações das Testemunhas de Jeová devem saber que só uma pequena minoria delas participa nesta atividade de estudo bíblico.

Um artigo intitulado “O Desafio de Ir de Casa em Casa”, na Sentinela de 15 de novembro de 1981, já mencionada, apresenta uma imagem atraente dos benefícios de participar no trabalho de porta em porta. Afirma que não há “nada como o método de evangelização de casa em casa para ajudar a pessoa a cultivar os frutos do espírito santo de Deus”, que “ajuda a pessoa a cultivar a virtude da humildade”, isto é, “tende a torná-los mais compreensivos, com mais empatia”, e que “serve também de proteção contra o mundo”. Pode ser verdade que qualquer atividade que envolva contatar pessoas, inclusive muitas formas de trabalho social, pode ter efeito positivo sobre as perspectivas e a atitude para com elas. Mas a imagem apresentada é mais fantasiosa do que real, e creio que a maioria das Testemunhas, que regularmente trabalham lado a lado com anciãos e pioneiros, e que têm contatos com superintendentes de circuito e distrito, sabem que o trabalho de porta em porta, em si, contribui muito pouco para tornar alguém melhor e mais compreensivo, que manifeste de modo notável amor, paciência, longanimidade, brandura e os outros frutos do Espírito. A descrição empolgante da Sentinela representa mais a ilusão do que a realidade, como demonstraram as cartas escritas pelos próprios anciãos respeitados da organização. Quanto aos sentimentos de empatia, o próprio fato de as Testemunhas serem treinadas para pensar nas pessoas que visitam como mundanas, para ignorar qualquer afirmação de espiritualidade da parte delas como não sendo genuinamente cristã e para encarar como “semelhantes a ovelhas” apenas os poucos que são receptivos, certamente impede qualquer real sentimento de empatia. Seu interesse nas pessoas é em grande parte direcionado e sua visão é como que através de um túnel. Mesmo que a pessoa contatada esteja sofrendo devido a sérios problemas e necessidades, a Testemunha raramente se interessará em outra coisa que não seja colocar literatura ou fazer um prosélito. Quando nenhuma destas coisas parece provável, muitos seguem o exemplo do levita e do sacerdote da parábola. Poucos reagem como o bom samaritano.

O mesmo ocorre com as afirmações de que a atividade de porta em porta ajuda a cultivar a humildade e os frutos do Espírito. Nos anos em que servi como superintendente de filial no Caribe, vi muita tensão e dificuldades nos vários lares missionários estabelecidos pela organização. Parecia ser um problema constante conseguir um grau satisfatório de compatibilidade entre muitos desses homens e mulheres, obrigados a morar juntos em pequenos grupos na mesma casa. Fazíamos constantemente mudanças, transferindo pessoas de um lar missionário para outro, tentando conseguir um ambiente de paz em vez de dissensão. Numa zona do Caribe onde servi, a filial estabeleceu mais tarde um lar especial para alguns missionários que serviam ali há mais tempo. A razão era simplesmente que eles não pareciam capazes de se dar bem com outros, e alguns (nos lares onde estavam) imploravam por alívio dizendo que suas vidas estavam se tornando insuportáveis devido às atitudes e modos destes missionários. Num país da América do Sul ao qual fui enviado como superintendente de zona, o único lar missionário que restava era no edifício da filial. O lar era ocupado por pessoas que estavam todas, havia décadas, no serviço de tempo integral. Contudo, o clima de queixas e divergências mesquinhas era tal que, após anos fazendo o melhor que podia para acabar com o egocentrismo, o coordenador da filial por fim pediu e recebeu permissão para mudar-se de lá e morar em outro lugar, mesmo continuando no trabalho de coordenador da filial. No entanto, em todos os casos citados, estas eram pessoas que estavam, ou tinham estado, gastando diariamente cinco horas ou mais no testemunho, e grande parte deste era na “evangelização de casa em casa”.

Apesar de toda a evidência, as publicações da organização continuam regularmente a dizer que questionar esta programação de porta em porta é resultado de falta de humildade e falta de fé e amor a Deus e aos outros. Assim, A Sentinela de 1° de dezembro de 1987 (página 20) diz: 

...Para os que deixam de temer a Jeová, as reuniões, o serviço de campo e outras atividades cristãs podem tornar-se uma carga.

Note como esses foram descritos em A Torre de Vigia (atual A Sentinela) de junho de 1937:

Para os infiéis, o privilégio de servir a Deus levando o fruto do reino perante outros, como o Senhor tem ordenado, tornou-se mera cerimônia e formalidade enfadonha, que não lhes oferece a oportunidade de brilhar aos olhos dos homens. O levar a mensagem do reino em forma impressa, de casa em casa, e apresentá-la ao povo, é muito humilhante para esses que se consideram importantes para si mesmos”... Isto é o que pode acontecer se perdermos o temor de Jeová e, junto com isso, o amor por ele.

Isto faz parecer que não é possível alguém questionar a enorme importância atribuída ao método de porta em porta pela organização Torre de Vigia, e fazê-lo por razões sinceras e conscienciosas, baseadas no estudo da Palavra de Deus e na evidência clara que ela apresenta. Isto significa que quem faz isso é infiel a Deus, preocupa-se em ‘brilhar aos olhos dos homens,’ considera-se importante, tendo perdido seu temor de Jeová e seu amor por Ele. 

Vale lembrar que este artigo de 1937 citado (como todos os “artigos de estudo” da época) foi escrito pelo Juiz Rutherford, que não participava na atividade de porta em porta. Seus próprios associados disseram que ele encarava o trabalho que fazia como mais importante. Não só era ele o homem cuja voz se ouvia em todos os discos fonográficos que as Testemunhas da época levavam às portas (esses discos foram o único modo em que Rutherford foi de porta em porta por meio de outros), mas também quem dava todos os discursos principais dos congressos, cujo retrato aparecia em todos os anúncios de tais ocasiões, com seu nome sempre precedido pelo título de “Juiz”, muitas vezes com a referência ao fato de que era presidente da Torre de Vigia e membro da Ordem dos Advogados de Nova York. Foi este, pois, o escritor que se achou no direito de acusar de auto-importância e do desejo de brilhar a qualquer um que não apoiasse firmemente a atividade de porta em porta a que ele exortava, mas da qual se considerava eximido.

(Panfleto de 1937, anunciando uma palestra de Rutherford.)

Montagem, com a tradução:

Creio que uma séria responsabilidade acompanha a argumentação parcial e tendenciosa que se usa para apoiar a alegação da organização de que a atividade de porta em porta é ensinada e defendida na Bíblia, e que era um método distintivo de testemunho do primeiro século. Não se trata de mera discussão acadêmica ou debate sobre aspectos técnicos. Tem impacto na vida das pessoas, e no modo como vêem a si mesmas e aos outros.

O método de porta em porta que a organização promove foi claramente convertido num padrão pelo qual se julga a espiritualidade dos outros e seu amor a Deus. Com certeza, qualquer ensino que traga tais conseqüências merece argumentos mais sólidos que os encontrados nas publicações da organização, uma consideração mais plena e mais justa da evidência e das questões envolvidas.

Raymond V. Franz