O Que Dizer da Comunicação Com os "Espíritos dos Mortos"?

Conforme já visto em outros artigos, os cristãos que examinaram o que a Bíblia tem a dizer sobre a condição dos mortos chegaram à conclusão de que ela não ensina coisa alguma sobre consciência e/ou atividade da “alma” (ou do “espírito”) após a morte. Com base nisso, tais cristãos não veem motivo para tentar fazer contato com “espíritos” de pessoas falecidas a quem conheceram em vida. Embora muitos tenham aprendido de seus líderes religiosos que alguma “parte” do homem permanece ativa e consciente após a morte, e creiam nisso com sinceridade, ainda assim rejeitam resolutamente a prática de tentar “falar com os mortos”. Outros, embora não costumem fazer isso, encaram tal prática como inofensiva, algo que nada tem de objetável, e talvez até possa ser praticada como “diversão”. E existem, por fim, aqueles que vão mais longe: militam ativamente em favor do conceito da “sobrevivência da alma após a morte”, envolvem-se com práticas relacionadas com este conceito e, mais ainda: promovem tais práticas.

Considerando-se que alguns dos que se empenham em fazer apologia dessas coisas estão bem cientes do que a Bíblia tem a dizer sobre elas, as questões que surgem naturalmente são: Como é que esses apologistas procedem ao lidar com tais declarações? Que tipo de argumentação eles usam quando abordam os pronunciamentos bíblicos?

O conteúdo do quadro abaixo faz parte de um texto que foi incluído numa série de matérias classificadas (numa mensagem) como “pesquisa bíblica cabal”, e que foi recomendado para leitura e “séria reflexão” dos colaboradores do Mentes Bereanas. Este artigo analisa as afirmações que foram feitas neste texto específico, em confronto com declarações similares que constam em obras escritas por um destacado promotor destas mesmas práticas, que viveu no século 19. Acreditamos que esta análise é uma “séria reflexão”, e por isso a disponibilizamos para o benefício de nossos leitores.

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O contexto da lei mosaica sobre não se evocar os mortos e o que foi dito aos cristãos

Se conversar com os "mortos" é manter contato com demônios, por que isto nunca foi dito clara e diretamente na Bíblia? Sendo a mediunidade algo que existe desde os tempos antigos, seria de se esperar uma palavra a respeito, para não deixar o entendimento dessa questão à mercê das conclusões pessoais dos leitores da Bíblia. Mas já que nada disso foi dito é sinal de que o motivo da proibição de não se tentar falar com os mortos era outro.

A lei de Israel dizia assim:

“Quando entrares no país que Javé, teu Deus, te der, não aprenderás a cometer as abominações daquelas nações. Não se achará, entre ti, quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha, quem se entregue à adivinhação, à astrologia, às feitiçarias e à magia, quem recorra a encantamentos, interrogue os espectros e os espíritos e quem invoque os mortos.” – Deuteronômio 18:9-11, Bíblia Mensagem de Deus.

Percebe-se que o texto se refere a práticas religiosas das pessoas que moravam nas terras que os israelitas estavam prestes a se apossar. O autor dessas palavras, Moisés, sabia muito bem do que estava falando, porque tinha sido um príncipe do Egito, lugar então repleto de superstições, magia e presságios. E antes de liderar a libertação dos hebreus, Moisés também deve ter visto pessoalmente o que os futuros vizinhos de Israel faziam. Os hebreus não deviam aprender tais coisas das nações circunvizinhas depois que chegassem à terra prometida, porém muitos desobedeceram posteriormente.

Logo, contextualmente falando, a restrição imposta aos israelitas de não se evocar os mortos tinha como referência um conjunto de práticas das nações estrangeiras, que incluía principalmente a magia e a feitiçaria. Apenas estas últimas foi dito aos cristãos que eles deveriam evitar. A parte de não se falar com os mortos foi deixada de fora. (Gálatas 5:20) Somente o leitor da Tradução do Novo Mundo verá no Novo Testamento algo que lembra o mandamento mosaico, pois nessa Bíblia é dito: “Mas, quanto aos…. que praticam o espiritismo, e aos idólatras, e a todos os mentirosos, terão o seu quinhão no lago que queima com fogo e enxofre.” (Apocalipse 21:8) A frase “praticam o espiritismo”, porém, é um anacronismo* que não aparece no texto grego original. No lugar dela há “feiticeiros”. É isto o que diz a maioria das traduções. Os editores da versão Novo Mundo sabem disso, conforme revela uma enciclopédia que eles publicaram. – Estudo Perspicaz das Escrituras, vol. 2, p. 28.

* A palavra "espiritismo" é um neologismo criado pelos kardecistas no século 19, e não existia quando o Novo Testamento foi escrito.1

Talvez o motivo dos israelitas terem sido proibidos de consultar os mortos seja porque eles já tinham os meios aprovados por Deus para serem esclarecidos: sonhos, profetas, urim e tumim. (Há os que pensam que os profetas eram, na verdade, médiuns aprovados). Certos costumes adotados pelas outras nações eram repugnantes sob vários aspectos, e os hebreus deviam evitá-los. Buscar as formas de “orientação” de tais povos era compactuar com tais práticas e desconsiderar o arranjo existente em Israel. Os israelitas não tinham necessidade disso, pois já eram guiados por Deus, através das maneiras de esclarecimento mencionadas.

(Nota: Os grifos não são nossos; eles fazem parte da mensagem original.).

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Visto que a citação direta da Lei Mosaica é o trecho do Deuteronômio 18:9-11, começaremos a análise neste ponto do texto. Após a citação, declara-se o seguinte:

Percebe-se que o texto se refere a práticas religiosas das pessoas que moravam nas terras que os israelitas estavam prestes a se apossar.

“Percebe-se”? Quem teria ‘percebido’ isso? Onde? Em que parte o trecho faz referência a “práticas religiosas”? Tudo o que o leitor da Bíblia verá são termos tais como “abominações” (BMD; “coisas repugnantes”, NVI; “costumes horríveis”, BV; “sortilégios”, TEB; “maldades”, FIG; “coisas nojentas”, NTLH, etc.).2 Ninguém encontrará descrições que difiram destas. O apelo ao “sujeito indeterminado” e essa “suavização” eufemística que foi feita aqui introduzem toda a argumentação acompanhante.3

O autor dessas palavras, Moisés, sabia muito bem do que estava falando, porque tinha sido um príncipe do Egito, lugar então repleto de superstições, magia e presságios. E antes de liderar a libertação dos hebreus, Moisés também deve ter visto pessoalmente o que os futuros vizinhos de Israel faziam.

Que o “autor dessas palavras” foi Moisés qualquer leitor da Bíblia sabe. Que ele “sabia muito bem do que estava falando”, e que o Egito era um “lugar então repleto de superstições, magia e presságios” dificilmente uma pessoa informada duvidaria. A propósito disso, o grande historiador grego Heródoto nos fornece a seguinte informação pertinente:

Estas histórias egípcias são para o uso de quem acredita em tais narrativas: para mim, é minha diretriz ao longo de toda essa história que eu registro o que me foi dito, exatamente como ouvi.

Acredita-se no Egito que os governantes do mundo inferior são Deméter e Dionísio.* Além disso, os egípcios foram os primeiros a ensinar que a alma humana é imortal e, por ocasião da morte do corpo, ela entra em algum outro ser vivo, vindo então a nascer; e depois de passar por todas as criaturas da terra, mar e ar (cujo ciclo ela completa em três mil anos), entra mais uma vez em um corpo humano no nascimento. Alguns gregos, cedo ou tarde, usaram essa doutrina como se fosse deles; eu sei os nomes deles, mas não os registro aqui.

* Ísis e Osíris.

Herodotus [Heródoto] – Traduzido para o inglês por A. D. Godley, Loeb Classical Library, Harvard University Press, Cambridge, MA, EUA e William Heinemann, Londres, Inglaterra, Vol. I (Livros I e II), 1920 – Livro II, 123-124. Grifos e sublinhado acrescentados.

Mas, a questão é: Será que Moisés apresentou ao povo alguma credencial pessoal para justificar tal decreto (ou qualquer outro que fazia parte da lei que ele transmitiu ao povo)? Aqui estão as palavras dele:

Eu [Moisés] lhes ensinei decretos e leis, como me ordenou o Senhor, o meu Deus, para que sejam cumpridos na terra na qual vocês estão entrando para dela tomar posse... Ele lhes anunciou a sua aliança, os Dez Mandamentos. E escreveu-os sobre duas tábuas de pedra e ordenou que os cumprissem. Naquela ocasião, o Senhor mandou-me ensinar-lhes decretos e leis para que vocês os cumprissem na terra da qual vão tomar posse... (Deuteronômio 4:5, 13, 14)

Diante deste fato, se Moisés “sabia muito bem do que estava falando” ou não, e o que ele “deve ter visto pessoalmente” ou deixou de ver em algum lugar, nada disso vem ao caso. Não há justificativa em omitir a informação acima, procurando desviar a atenção dos leitores para as “credenciais” de algum homem. Pelo menos não é isso o que se esperaria numa “pesquisa bíblica cabal”.

Isto é análogo à argumentação apresentada num dos livros de “Allan Kardec”.4 Num capítulo intitulado “A Proibição de Evocar os Mortos”, aparecem os seguintes trechos:

“Havia uma razão para cada disposição da lei civil de Moisés, mesmo em seus mínimos detalhes.”

“Com certeza, se Moisés voltasse à Terra hoje e tivesse de elaborar um código para uma das nações civilizadas da Europa, ele não daria as mesmas leis que deu aos hebreus.”

“As leis civis dos dias atuais punem todos os abusos que Moisés tinha o objetivo de reprimir.”

Moisés proibiu a evocação dos espíritos dos mortos ...”

“É verdade que Moisés inclui a consulta aos mortos na proibição dele...”

“Com certeza, se os hebreus só tivessem usado o poder de se comunicar com os espíritos para tais propósitos [a saber ‘receber conselhos sábios deles e ajudar os que estão sofrendo entre eles a conseguir alívio’], Moisés, longe de proibir evocações, teria encorajado a tais porque elas teriam tornado seu povo mais maleável.”[!]5

Em toda a sua exposição, Rivail sempre responsabiliza Moisés pelas proibições. Ele jamais admite a origem divina delas.

O texto analisado aqui prossegue:

A lei de Israel dizia assim:

“Quando entrares no país que Javé, teu Deus, te der, não aprenderás a cometer as abominações daquelas nações. Não se achará, entre ti, quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha, quem se entregue à adivinhação, à astrologia, às feitiçarias e à magia, quem recorra a encantamentos, interrogue os espectros e os espíritos e quem invoque os mortos.” – Deuteronômio 18:9-11, Bíblia Mensagem de Deus.

Não era só isso o que a "lei de Israel" dizia. Faltou citar as palavras que vêm logo em seguida (segundo esta mesma versão bíblica). São elas:

PORQUE todo homem que pratica estas coisas é abominável para Javé, e é por causa dessas abominações que Javé teu Deus vai expulsar essas nações da tua presença... Porque as nações que vais expulsar escutam astrólogos e adivinhos; mas Javé teu Deus não te permite isso. (Deuteronômio 18:12, 14)6

Rivail, por sua vez, não truncou a citação do Deuteronômio. Neste caso, pelo menos, ele citou o trecho completo, sem qualquer “pudor”. Mas, será que ele aceitou as implicações? De maneira alguma. Ele tratou de arranjar logo uma “explicação”:

“Ademais, os israelitas não deveriam fazer qualquer aliança com as nações ao seu redor; e, desta forma, como eles teriam encontrado esses costumes entre as nações em cujos territórios estavam prestes a entrar e contra quem estavam prestes a lutar, Moisés achou necessário, para executar seus planos, inculcar nas mentes de seu povo uma profunda aversão por todos os costumes que, se fossem adotados por eles, teriam constituído muitos pontos de contato entre eles e seus vizinhos. Para fornecer uma base plausível para essa aversão, era necessário representar esses costumes como sendo condenados pelo próprio Deus; daí a afirmação: “O Senhor abomina todas estas coisas, e Ele destruirá, à vossa chegada, as nações que cometem esses crimes.”

Como sempre, toda a responsabilidade foi lançada sobre Moisés. Em outro trecho do mesmo capítulo, ele disse:

A este conceito sobre a questão há pessoas que se apressam em apresentar como objeção que todas as leis de Moisés foram proclamadas em nome de Deus7; tanto as que se referem aos assuntos comuns do cotidiano, como a lei dada no Monte Sinai... Nossos opositores esquecem que, para tornarem suas leis mais autoritativas todos os legisladores antigos diziam que as tinham recebido duma divindade. Mais do que qualquer outro líder, Moisés precisava desse tipo de sanção para seu código, por causa do caráter peculiarmente obstinado dos judeus; se, apesar dessa sanção, ele achou tão difícil conseguir a obediência deles, ainda mais difícil teria achado se tivesse promulgado suas leis em seu próprio nome.

Visto que Rivail incluiu certas declarações verdadeiras neste argumento, ele parece ser “plausível”, a princípio. Que aqueles judeus do tempo de Moisés eram um povo obstinado todo leitor da Bíblia sabe, pois até o próprio Deus disse isso (Exo. 32:8; 34:9). E, de fato, não foram poucos os líderes políticos ou religiosos ao longo da história que agiram de má fé, atribuindo falsamente suas próprias ideias a alguma “divindade” com o fim de conseguir a obediência de seus subordinados à base de intimidação (aliás, há quem faça isso ainda hoje!). O detalhe é que Rivail “esqueceu” uma importante diferença entre o “legislador” Moisés e “todos os legisladores antigos”. Esta diferença está delineada neste trecho:

Quando vocês ouviram a voz que vinha do meio da escuridão, estando o monte em chamas, aproximaram-se de mim todos os chefes das tribos de vocês, com as suas autoridades. E vocês disseram: "O Senhor, o nosso Deus, mostrou-nos sua glória e sua majestade, e nós ouvimos a sua voz vinda de dentro do fogo. Hoje vimos que Deus fala com o homem e que este ainda continua vivo! Mas, agora, por que deveríamos morrer? Este grande fogo por certo nos consumirá. Se continuarmos a ouvir a voz do Senhor, o nosso Deus, morreremos... Aproxime-se você, Moisés, e ouça tudo o que o Senhor, o nosso Deus, disser; você nos relatará tudo o que o Senhor, o nosso Deus, lhe disser. Nós ouviremos e obedeceremos”. O Senhor ouviu quando vocês me falaram e me disse: "Ouvi o que este povo lhe disse, e eles têm razão em tudo o que disseram... Vá, diga-lhes que voltem às suas tendas. Você ficará aqui comigo, e lhe anunciarei toda a lei, isto é, os decretos e as ordenanças que você lhes ensinará, e que eles deverão cumprir na terra que eu dou a eles como propriedade. Por isso, tenham o cuidado de fazer tudo como o Senhor, o seu Deus, lhes ordenou; não se desviem, nem para a direita, nem para a esquerda. Andem sempre pelo caminho que o Senhor, o seu Deus, lhes ordenou, para que tenham vida, tudo lhes vá bem e os seus dias se prolonguem na terra da qual tomarão posse. (Deuteronômio 5:23-25, 27, 28, 30-33)

É possível insistir, com base no trecho acima, que tudo não passou de ‘invenção de Moisés’? Que nação da antiguidade presenciou – visível e audivelmente – tais impressionantes manifestações de poder divino? Qual foi o povo que, depois de ouvir a voz do próprio Deus, pediu encarecidamente ao seu representante humano para que este mesmo interagisse com Deus, em vez de Deus continuar falando com toda a nação diretamente? Poderia Moisés ter “encenado” essas coisas diante duma nação inteira? Novamente, é cabível a pergunta: Já que Rivail se mostrou tão disposto a fazer referências à Bíblia em seus escritos, por que ele não mencionou o trecho acima? Acaso “não sabia” disso?

Embora a maneira tosca com que Rivail abordou o assunto, omitindo informações importantes, classificando Moisés na mesma categoria de “todos os legisladores antigos”, e acusando-o descaradamente de fraude, difira do que foi feito na matéria em análise aqui, o resultado de ambos os procedimentos é o mesmo: Tanto a omissão da autoria, como essas “explicações” de Rivail no livro dele objetivam manter bem longe da mente dos leitores o fato de que não foram as opiniões dum homem que motivaram as proibições. Tais proibições eram parte integrante da Lei que foi dada a Israel, e o povo viu, ouviu e sabia muito bem de quem procediam tais diretrizes. Não foi dita uma só palavra sobre o que Moisés ‘sabia’ ou ‘não sabia’, o que ele ‘viu’ ou ‘deixou de ver’ no Egito ou em outro lugar. Tais coisas simplesmente não entraram na consideração. Omitir deliberadamente a autoria das proibições, concentrando o foco em Moisés é um procedimento tão repreensível quanto citá-la, só para logo em seguida alegar que tudo não passou duma “manobra teológica” de Moisés, “para dar autoridade” às leis originadas ‘na cabeça dele’.

O texto analisado continua:

Logo, contextualmente falando, a restrição imposta aos israelitas de não se evocar os mortos tinha como referência um conjunto de práticas das nações estrangeiras, que incluía principalmente a magia e a feitiçaria.”

"Logo", não! Muito menos “contextualmente falando”. A referência não é esta. Só foi possível apresentar isso como “referência” porque – de novo – o foco foi direcionado para um eufemismo forjado (“conjunto de práticas [religiosas?] das nações estrangeiras”), e a autoria da proibição (chamada aqui de “restrição imposta aos israelitas”) foi omitida. Declarado de modo simples e sem “pudor”: o contexto não foi levado em consideração, e sim completamente desrespeitado. As palavras acompanhantes do trecho (capítulo 18, versículos 12 e 14) foram – deliberadamente – ignoradas porque elas definem precisamente qual foi a “referência” da proibição. Mais uma vez, não é esse tipo de procedimento desleixado que se esperaria numa “pesquisa bíblica cabal”.

UMA PEQUENA "AULA" DE EISEGESE BÍBLICA

De tudo o que foi declarado no texto transcrito no início deste artigo, o último parágrafo é notório pela grande quantidade de deturpações num trecho tão curto. As declarações serão analisadas aqui, uma por uma:

TRECHO 1:

“Talvez o motivo dos israelitas terem sido proibidos de consultar os mortos seja porque eles já tinham os meios aprovados por Deus para serem esclarecidos: sonhos, profetas, urim e tumim.”

“Talvez”? Em se tratando das práticas consideradas aqui, não há espaço para raciocínio sobre hipóteses. O que possibilitou o uso desse expediente foi – de novo – a ocultação dos fatos, por meio duma citação arbitrariamente truncada. (O detalhe irônico aqui é que nem mesmo a conjectura acima conseguiu evitar uma admissão tácita: se os “meios aprovados por Deus” para os israelitas “serem esclarecidos” eram esses mencionados, quer dizer que a consulta aos mortos não era um “meio aprovado por Deus”).

TRECHO 2:

“(Há os que pensam que os profetas eram, na verdade, médiuns aprovados.)”

É claro que os anônimos mencionados nesse parêntesis têm todo o direito de “pensar” assim, se quiserem. E não só isso: eles teriam também o direito de expressar tais “pensamentos”, por qualquer meio lícito que seja. Quanto a tais coisas, não há questão. Porém, caso algum deles afirmasse isso, qualquer cristão estaria igualmente no seu direito de questionar tal pessoa. Por exemplo, se alguém se dirigisse a um de nós com essa conversa de que os profetas hebraicos eram “médiuns aprovados”8, poderíamos, para começar, indagar dessa pessoa quem ela imagina que teria concedido essa ‘aprovação’ em Israel. A menos que o nosso raciocínio, enquanto estudantes da Bíblia, seja “míope” e estejamos entendendo os trechos em questão de maneira muito “dogmática”, é imediata a conclusão de que não poderia ter sido Moisés. Muito menos Iavé! Poderíamos perguntar também à pessoa se ela conhece a definição das palavras “médium” e “profeta”; se tem noção da diferença entre esses conceitos. E, caso tenha, se ela não consegue ver nada estranho no fato de Deus (ou “Moisés”, como diria Rivail) ter proibido médiuns em Israel, declarando as práticas deles como “detestáveis” e decretando a própria morte para quem fizesse isso, e daí Ele próprio transmitir mensagens ao povo justamente por meio de médiuns!9 Seria mesmo concebível esse modus operandi? E assim por diante.

Ou seja, se essa falsa analogia (chamada aqui de ‘pensamento de alguns’), fosse expressa audivelmente, uma barragem de questionamentos poderia ser erguida imediatamente.10

TRECHO 3:

“Certos costumes adotados pelas outras nações eram repugnantes sob vários aspectos, e os hebreus deviam evitá-los.”

“Certos costumes”? Que "aspectos"? E "repugnantes" para quem? Temos aqui mais expressões “inocentes” usadas para “amortecer” o texto bíblico. Alguma possível ‘repugnância’ de alguém não teve nada que ver com a razão da proibição. Tampouco o trecho falou em “certos costumes” de outras nações, ou foi sugerido que essa ‘repugnância’ era para “os hebreus”. Todos os itens citados (adivinhação, feitiçaria, astrologia, consulta aos mortos, etc.) foram classificados – indiscriminadamente – como “abomináveis” – para Javé. “Os hebreus deviam evitá-los”, não por eles próprios talvez se sentirem ‘enojados’ com ‘certos costumes’. Eles estavam obrigados a evitar todas as práticas alistadas, porque Javé disse (por meio de Moisés) que todas elas eram, não apenas “repugnantes sob vários aspectos”, mas abomináveis no conceito dele. O que Moisés e o povo pensavam, ou deixavam de pensar de cada uma das práticas, se alguém achava alguma delas ‘asquerosa’ ou não, jamais entrou na consideração.

TRECHO 4:

“Buscar as formas de “orientação” de tais povos era compactuar com tais práticas e desconsiderar o arranjo existente em Israel. Os israelitas não tinham necessidade disso, pois já eram guiados por Deus, através das maneiras de esclarecimento mencionadas.”

As expressões “formas de orientação”, “arranjo existente em Israel”, “não tinham necessidade” e “maneiras de esclarecimento” foram as usadas desta vez para “suavizar” a declaração bíblica; constitui outro mal disfarçado desvio da questão. Isto foi ocasionado – de novo! – pela omissão da autoria das proibições. O trecho que foi omitido será repetido aqui, em outras versões além das já citadas, com destaque para as expressões que interessam:

Porque Javé detesta todo aquele que faz tais coisas, e é por causa dessas abominações que Javé, teu Deus, expulsa de tua frente essas nações. (APA)

Todo homem que assim proceder é uma abominação para o SENHOR, e é por causa de tais abominações que o SENHOR, teu Deus, desapossa as nações diante de ti. (TEB)

Porque abominável é a Jeová todo aquele que faz estas coisas, e, por causa destas abominações Jeová, teu Deus, os está desapossando diante de ti. (TB)

Refere-se o trecho apenas aos “israelitas”? Ou será que expressões tais como “todo aquele” ou “todo homem” já se tornaram “relativas” também?11

Nada se falou sobre “necessidade” ou falta dela, ou sobre existência de “arranjo” em algum lugar. Os “tais povos” que já viviam naquelas terras havia séculos nada sabiam de “arranjo existente em Israel”; esta nação nem sequer existia! Assim mesmo, Deus considerava as práticas daqueles povos “detestáveis” e Ele especificou precisamente isso como a razão da expulsão sumária deles daquelas terras. Os israelitas tinham de acatar todas as proibições, não porque as coisas proibidas eram “desnecessárias” na situação particular deles, e sim porque Deus as considerava detestáveis, e isso antes de existir qualquer “arranjo em Israel”, e antes de a nação israelita sequer surgir no cenário. Eles estavam obrigados a se pautar pelo conceito de Deus acerca das práticas. (A propósito, temos outra admissão tácita aqui: Se entre as tais "formas de orientação" ou “maneiras de esclarecimento mencionadas” não estava incluída a “consulta aos mortos” e isso não fazia parte do “arranjo existente em Israel”, está anulada de novo qualquer estória sobre “médiuns aprovados” dentro de Israel.).

Resumidamente: O objetivo de todas as declarações do parágrafo foi ‘caiar’ ao máximo possível a prática da comunicação com os “espíritos dos mortos”. Nenhuma das declarações foi aceita pelo que o escritor bíblico disse (exegese). Em vez disso, todas elas foram ‘relidas’ para serem adaptadas ao conceito defendido pelo autor das releituras (eisegese). Toda a representação flagrantemente falsa das Escrituras contida neste parágrafo tem como ponto de origem o mesmo erro: a omissão da autoria das proibições, devido à recusa terminante em admiti-la.

"CLASSIFICANDO" ORDENS DIVINAS

Consideremos mais uma vez as práticas proibidas (para efeito de clareza, além da já citada BMD, será citada outra versão bíblica em linguagem contemporânea):

Bíblia Mensagem de Deus

Nova Versão Internacional

‘Não se achará, entre ti:

(1) quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha,

(2) quem se entregue à adivinhação,

(3) à astrologia,

(4) às feitiçarias

(5) à magia,

(6) quem recorra a encantamentos,

(7) interrogue os espectros e os espíritos

(8) e quem invoque os mortos.

Não permitam que se ache alguém entre vocês

(1) que queime em sacrifício o seu filho ou a sua filha;

(2) que pratique adivinhação,

(3) ou dedique-se à magia,

(4) ou faça presságios,

(5) ou pratique feitiçaria

(6) ou faça encantamentos;

(7) que seja médium ou espírita

(8) ou que consulte os mortos.

Repitamos agora um dos trechos de outro parágrafo, que já foi questionado, desta vez dando destaque a uma palavra dele:

“... a restrição imposta aos israelitas de não se evocar os mortos tinha como referência um conjunto de práticas das nações estrangeiras, que incluía principalmente a magia e a feitiçaria.”

Isto também é similar à argumentação de Rivail. Este, porém, apresentou seu conceito de uma maneira, digamos, “um pouco mais elaborada”. Disse ele:

“É verdade que Moisés inclui a consulta aos mortos em sua proibição, porém só como secundária e como acessória da prática da feitiçaria.”

É cabível perguntar: Disse Moisés alguma coisa parecida com isso? Será que a leitura simples da lista de proibições acima – em qualquer versão bíblica que tenhamos à mão – dá alguma margem, por mínima que seja, para fazermos essas “ressalvas”? Existe maneira de se fazer distinção entre as práticas (por exemplo, ‘principal’ ou ‘secundária’)? É possível identificar alguma delas como proibida ‘com mais força’ do que as demais? É admissível a conclusão de que uma determinada prática da lista só seria "detestável para Deus" se estivesse associada a uma outra, funcionando como “acessória” desta? A resposta a todas essas questões é óbvia.

Mas, por que razão isso foi feito? Qual é o objetivo da inclusão arbitrária dessas palavras “principalmente” e “secundário”? A resposta também é óbvia: Embora a fraseologia usada não seja idêntica nas duas citações acima, o objetivo claro de ambas é o mesmo: procurar “enfraquecer” uma das proibições da lista: a da consulta aos mortos. A inclusão da palavra “principalmente” visa a induzir à ideia de que, se as duas práticas mencionadas eram as ‘principais’, o restante delas deveria ser ‘secundário’ ou ‘menos importante’. As duas frases que vem logo em seguida, confirmam isso:

“Apenas estas últimas [“a magia e a feitiçaria”] foi dito aos cristãos que eles deveriam evitar. A parte de não se falar com os mortos foi deixada de fora.”

O erro grave que está por trás dessa interpretação será analisado no tópico que segue.

É DIFERENTE A NORMA CRISTÃ?

No início da argumentação analisada aqui apareceu a seguinte declaração:

“Sendo a mediunidade algo que existe desde os tempos antigos, seria de se esperar uma palavra a respeito, para não deixar o entendimento dessa questão à mercê das conclusões pessoais dos leitores da Bíblia. Mas já que nada disso foi dito é sinal de que o motivo da proibição de não se tentar falar com os mortos era outro.”

(Aqui os sublinhados foram acrescentados.)

Existem dois provérbios bíblicos que são pertinentes a essa discussão:

O orgulho leva a pessoa à destruição, e a vaidade faz cair na desgraça. (Prov. 16:18, NTLH)

Há mais esperança para um tolo do que para uma pessoa que fala sem pensar. (Provérbios 29:20, NTLH)

Quem foi que disse que quando o Soberano do Universo proíbe alguma coisa Ele está obrigado a especificar razões para satisfazer humanos? Será que temos mesmo esse direito de “esperar uma palavra a respeito”, querendo ‘explicações’ para nos ‘convencer’ e nos ‘motivar’ a acatar proibições dele? Podemos nós, mortais, ‘esperar’ isso, e, caso não encontremos uma razão ou razões que nos satisfaçam pessoalmente, já podemos ir tirando nossas “conclusões pessoais”, tomando em nossas mãos a tarefa de definir nós mesmos essas razões, arrogando-nos o direito de especular sobre “o motivo da proibição”?

Consideremos, de maneira breve, dois exemplos de proibições divinas, extraídos aleatoriamente do texto bíblico:

1 – “E o Senhor Deus ordenou ao homem: Coma livremente de qualquer árvore do jardim, mas não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, certamente você morrerá.” (Gênesis 2:16, 17)

2 – “Fujam da imoralidade sexual. Todos os outros pecados que alguém comete, fora do corpo os comete; mas quem peca sexualmente, peca contra o seu próprio corpo.” (1 Coríntios 6:18)

Note-se que, em ambos os casos, a proibição foi expressa em termos bem lacônicos. Quando o Senhor Deus proibiu nossos pais de se alimentarem daquela árvore, Ele não se esmerou em dar explicações sobre tudo o que estava envolvido nisso. Hoje, com a vantagem da perspectiva atual; toda pessoa que tem a mínima noção da história humana sabe perfeitamente qual foi o resultado da desobediência deles. Mas, ao primeiro casal humano, Deus não disse – e nem estava obrigado a dizer – ‘palavra adicional’ alguma! A ordem (e o termo usado em todas as versões bíblicas é este mesmo: “ordem”) foi: ‘não comam nem toquem nesse fruto, porque no dia em que o fizerem vocês morrerão.’ Isso que Ele falou não deveria ser feito e ponto final. A partir do momento em que Ele deu essa ordem, a obrigação dos que a ouviram era obedecer; não ficar ‘esperando alguma palavra a respeito’ por parte dele, para daí decidir se acatariam a proibição ou não. Foi precisamente (e infelizmente para eles – e para nós) o fato de o homem e a mulher posteriormente se arrogarem esse direito de “especular” e decidir as coisas eles mesmos, com base em suas teorias, que os levou a ‘trocar a verdade de Deus pela mentira’ e desacatar a ordem. Em palavras diretas e francas: Foi a vaidade deles, seu desejo que quererem ser “como Deus” que trouxe a desgraça e a morte, para eles e seus descendentes.

De maneira similar, no caso da carta de Paulo (bem como em qualquer outro lugar onde a Bíblia especifica essa mesma proibição da promiscuidade sexual), jamais vamos encontrar elaboradas explicações acerca dos resultados que o desacatamento a isso trazem para o homem e para a mulher, bem como para a felicidade pessoal deles e de seus filhos (caso tenham), o impacto que a desconsideração destas normas morais tem na sociedade humana, incluindo até mesmo a destruição literal de um sem-número de vidas. Conforme qualquer leitor pode ver, quando Paulo tratou disso em sua carta, ele se limitou ao aspecto espiritual do assunto (e nem mesmo sobre isso ele falou muito). Já no que se refere ao aspecto físico, a única coisa que ele disse foi o citado acima: “quem peca sexualmente, peca contra o seu próprio corpo.” Ponto final. Uma frase lacônica. Isso é ainda menos do que o que foi dito no caso da proibição lá no Éden! Será que os cristãos lá do primeiro século que receberam essa carta deveriam agora se achar no direito de encarar a frase ‘pecar contra o próprio corpo’ como “insuficiente”, e esperar ‘uma palavra a respeito’; alguma explicação mais “técnica”, com pormenores suficientes para satisfazer o intelecto deles, e daí, só depois de ouvirem essas explicações e se satisfazerem, decidir se acatariam isso ou não? Se todos eles sabiam muito bem que aquela instrução vinha de Deus e não do apóstolo Paulo, não seria isso uma soberba das mais grosseiras?

Outra coisa: Sendo verdade que, no que se refere à questão da consulta aos mortos, não há no relato bíblico “uma palavra a respeito’, que “nada disso foi dito” (em conexão com seres do mundo espiritual), e se por acaso isso autoriza alguém a especular “que o motivo da proibição de tentar falar com os mortos era outro”, o que é que nos garante que as “conclusões pessoais” de algum homem é que são as corretas, e que algum “talvez por isso” ou “talvez por aquilo” apresentado por esses especuladores voluntariosos – por conta e risco deles – é que é mais digno de crédito? Será que alguém na terra tem essa “autoridade”, pensando que pode definir proibições divinas, de maneira que outros devam dar algum crédito às “conclusões pessoais” dele?

Pior ainda: Será que estes homens podem usar essas suas “conclusões pessoais” – admitidamente fruto de sua ‘especulação’ – para justificar sua própria desobediência à proibição, e – mais ainda – tentar induzir outros ao mesmo procedimento? O que seria mais sábio e nos melhores interesses dos cristãos crentes na Bíblia: obedecer à proibição de Deus, especificada claramente nela, ou dar atenção às elucubrações de homens (que pensam que podem ‘interpretar’ e ‘classificar’ ordens dele) e daí desconsiderar a proibição também?

O seguinte foi o que Samuel respondeu a uma pessoa que seguiu essa mesma linha de raciocínio, querendo definir por si mesmo, segundo seus próprios critérios, que parte das instruções de Deus ele obedeceria e que parte desacataria:

Por que não obedeceste à voz de Jeová, mas te lançaste ao despojo, e fizeste o mal à vista de Jeová? Respondeu Saul a Samuel: Pelo contrário obedeci à voz de Jeová, e fui no caminho pelo qual Jeová me enviou, trouxe a Agague, rei de Amaleque, e destruí totalmente aos amalequitas. Mas o povo tomou do despojo, ovelhas e bois, que são as primícias do anátema, para as sacrificar a Jeová teu Deus em Gilgal. Disse Samuel: Tem, porventura, Jeová tanto prazer em holocaustos e sacrifícios, quanto tem em que se obedeça à sua voz? Eis que o obedecer é melhor do que o sacrifício, e o atender do que a gordura de carneiros. Porque a rebelião é como o pecado da adivinhação, e a obstinação é como a idolatria e os terafins. Porquanto rejeitaste a palavra de Jeová, ele te rejeitou também a ti, para que não sejas rei. (1 Samuel 15:19-23, SBB. Grifos e sublinhados acrescentados.)

Naturalmente, aqui também alguns pretensos “eruditos bíblicos” poderiam vir com o mesmo discurso que aplicam a Moisés: que Samuel era um ‘reacionário’, que o que está dito acima não passa de “conclusões pessoais” da 'cabeça dele', que ele usou a expressão “palavra de Jeová” só “para dar autoridade às suas leis”, que isso tudo era “aplicável só àquela época”, que vivemos em tempos “mais esclarecidos”, e ainda que as pessoas que dão atenção a essas palavras hoje têm “mente estreita”, “visão míope”, são “dogmáticas”, “preconceituosas”, “aplicam mal as Escrituras”, etc. Note-se, porém, que Samuel não sugeriu em momento algum que certas coisas são ‘mais graves’ ou ‘menos graves’, de maneira que possamos decidir nós mesmos quais instruções obedecer e quais podemos desconsiderar. De jeito nenhum. Ele colocou tudo em pé de igualdade, e quando falou em “rebelião”, ele não a comparou ‘principalmente com magia e feitiçaria’ e sim com a “adivinhação”, que é outra das práticas proibidas da lista que foi apresentada acima. A “obstinação” foi igualada à “idolatria”, que é ainda outra entre as práticas condenadas. Isso mostra que é muito duvidoso que Samuel seguiria a linha de raciocínio de certos especuladores modernos, de que alguma daquelas práticas (tal como a da consulta aos mortos) poderia ser classificada como ‘secundária’, ‘acessória’, talvez ‘não tão detestável para Deus’, podendo ser desconsiderada no momento em que nós quisermos.

A atenção a pronunciamentos como esse de Samuel deveria nos lembrar quão tolo é brincar com normas divinas e ter o atrevimento de se por a fazer “classificação” das palavras dele, decidindo por nossa conta o que vamos acatar ou não, com base em nossas “conclusões pessoais”. A tentativa de fazer isso equivale mesmo é a rebelião e obstinação (rebeldia e arrogância, conforme dizem outras versões). Foram estes os erros de nossos primeiros pais, do Rei Saul, de outras pessoas que desacataram ordens divinas no registro bíblico, e são também os erros de alguns na atualidade. E a raiz disso é a mesma que sempre foi, desde que o homem está na terra: a soberba e a vaidade humana. Mais sério ainda é quando um indivíduo, além de fazer isso presunçosamente, não mantém o assunto restrito à sua própria vida, mas persiste em promover suas ideias da maneira mais recalcitrante possível, buscando induzir outros à mesma atitude, e chegando até a criticar e chamar de nomes depreciativos a cristãos que estão resolutamente determinados a não segui-lo nesse procedimento rebelde. Isto só faz aumentar a gravidade desse erro perante Deus.

É neste contexto que se enquadra a declaração já citada acima, que vamos repetir aqui:

“Apenas estas últimas [“a magia e a feitiçaria”] foi dito aos cristãos que eles deveriam evitar. A parte de não se falar com os mortos foi deixada de fora.”

O objetivo desta afirmação é transmitir a ideia de que não haveria qualquer problema em um cristão fazer essa coisa (“falar com os mortos”), e que se alguém fizer isso hoje, mesmo estando ciente de tudo o que as Escrituras tem a dizer, essa pessoa ainda pode se considerar um cristão fiel, “que ama a Palavra de Deus” e a respeita. Pois bem, se tivermos em mente a primeiríssima coisa que foi afirmada neste trecho analisado, a seguinte pergunta é cabível:

Se a consulta aos mortos era uma das proibições ‘secundárias’ (“acessórias”), e a partir de certo momento Deus “mudou de ideia” e não a considerou mais “detestável” em grau algum, e a “purificou”, de modo que não há qualquer problema em os cristãos fazerem isso hoje, “por que isto nunca foi dito clara e diretamente na Bíblia?”

Seria essa pergunta fruto de “dogmatismo” ou “visão míope”? Ninguém pode levantá-la? Ou recorrer a esse tipo de argumentação é um privilégio exclusivo daqueles que costumam “classificar” ordens divinas?

Rivail argumentou que grande parte da Lei Mosaica não poderia ser aplicada nos “tempos mais esclarecidos” de hoje, e, sendo assim, ‘não há cabimento em citar proibições dessa lei como motivo para se abster de falar com os mortos’. Reconhecemos prontamente que existe uma longa série de disposições da Lei Mosaica que não tem caráter obrigatório para os cristãos, quer por tais disposições terem cumprido o seu objetivo (o caso, por exemplo, dos sacrifícios das vidas de animais como expiação pelo pecado humano, que se cumpriram todos no sacrifício superior do “Cordeiro de Deus” que fez isso “de uma vez para sempre”) quer por se aplicarem exclusivamente à situação particular da nação israelita (por exemplo, a provisão de “cidades de refúgio”, as normas referentes à guerra, etc.). Mas, é imperativo reconhecermos também que, quando alguma norma cuja desobediência era passível de morte na Lei Mosaica foi ‘suspensa’ para os cristãos, sempre houve alguma manifestação clara das Escrituras nesse sentido.

Tomemos, como exemplo, a lei da guarda do sábado como dia de repouso, bem como toda a série de restrições dietéticas. Como toda pessoa que estudou a Lei Mosaica sabe, a desobediência a estas normas era punível com a morte. (Veja Levítico 7:23-25 e Números 15:32-36). Embora algumas pessoas e grupos religiosos entendam isso como obrigatório ainda hoje, a leitura de trechos tais como Romanos 14:1-6 admite a conclusão de que isso foi colocado como opcional para os cristãos. Mas, este é o ponto: Independentemente da interpretação que se dê, houve uma manifestação por parte de algum escritor cristão do primeiro século e o que este escritor transmitiu teve aprovação divina. Outro detalhe importante é que jamais Deus afirmou que considerava “detestável” alguém trabalhar no sábado, por exemplo. Em momento algum Ele se manifestou em termos tão fortes. A norma da Lei tinha outros objetivos.

Por isso, vamos insistir aqui na pergunta feita acima, por meio desta série de questões:

Podemos encontrar alguma referência bíblica, por mínima que seja, “revogando” a proibição de alguma das práticas alistadas nesta referência do Deuteronômio?

Será que alguma daquelas práticas, tais como a da consulta aos mortos, foi em algum momento declarada como ‘liberada’ para os cristãos?

Temos alguma indicação, por mínima que seja, de que Deus não considera mais tais práticas “detestáveis”?

Foi dito alguma coisa ‘clara e direta’ nas Escrituras que nos dê base para pensar assim?

E, caso a resposta a estas perguntas seja “não, em momento algum”, estamos autorizados a ‘liberá-las’ nós mesmos?

 

NOSSOS VERDADEIROS AMIGOS ESPIRITUAIS

“Estou muito admirado com vocês, pois estão abandonando tão depressa aquele que os chamou por meio da graça de Cristo e estão aceitando outro evangelho. Na verdade não existe outro evangelho, porém eu falo assim porque há algumas pessoas que estão perturbando vocês, querendo mudar o evangelho de Cristo. Mas, se alguém, mesmo que sejamos nós ou um anjo do céu, anunciar a vocês um evangelho diferente daquele que temos anunciado, que seja amaldiçoado! Pois já dissemos antes e repetimos: se alguém anunciar um evangelho diferente daquele que vocês aceitaram, que essa pessoa seja amaldiçoada!” (Aos Gálatas 1:6-9, NTLH)

O que Paulo disse acima pode parecer uma declaração muito forte a princípio (talvez alguns até o chamariam de "dogmático"!), mas tais palavras são plenamente justificáveis. Conforme foi demonstrado muitas vezes neste artigo e em outros, os que pretendem ‘santificar’ a prática da “consulta aos mortos” para os cristãos (além de defender insistentemente crenças antibíblicas correlatas a isso, tais como a da “sobrevivência consciente da alma após a morte”, querendo impor isso de qualquer maneira às Escrituras) são muito desleixados no tratamento que dão às referências bíblicas pertinentes a esses assuntos. Ao citarem as Escrituras, quando não omitem informações relevantes à questão discutida, procuram "ler" dentro delas suas teorias particulares, errando completamente o alvo do que está sendo discutido. Esse tratamento que dão às Escrituras, longe de evidenciar aderência a elas, passa, ao contrário, uma forte impressão de desrespeito e descaso para com os pronunciamentos dela.

No caso do trecho do Deuteronômio aqui discutido, porém, a omissão deles não se limita a isso. Ela vai além. Consideremos o que o trecho prossegue dizendo depois que aquelas proibições foram especificadas (e que o Sr. Rivail também nunca citou):

“As nações que vocês vão expulsar dão ouvidos aos que praticam magia e adivinhação. Mas, a vocês, o Senhor, o seu Deus, não permitiu tais práticas. O Senhor, o seu Deus, levantará do meio de seus próprios irmãos um profeta como eu; ouçam-no. Pois foi isso que pediram ao Senhor, ao seu Deus, em Horebe, no dia em que se reuniram, quando disseram: "Não queremos ouvir a voz do Senhor, do nosso Deus, nem ver o seu grande fogo, se não morreremos!" O Senhor me disse: "Eles têm razão! Levantarei do meio dos seus irmãos um profeta como você; porei minhas palavras na sua boca, e ele lhes dirá tudo o que eu lhe ordenar. Se alguém não ouvir as minhas palavras, que o profeta falará em meu nome, eu mesmo lhe pedirei contas.” (Deuteronômio 18:14-19, NVI).

Esta promessa foi cumprida em numerosas ocasiões. Muitos profetas verdadeiros foram designados por Deus para guiar a nação de Israel. E aproximadamente 15 séculos depois que a Lei Mosaica foi transmitida àquele povo por Deus, surgiu um homem, do qual ‘todos os profetas deram testemunho’. Este ‘maior profeta de todos’ é o referido no trecho citado abaixo:

Há muito tempo Deus falou muitas vezes e de várias maneiras [entre as quais jamais se incluiu o uso de indivíduos mortos] aos nossos antepassados por meio dos profetas, mas nestes últimos dias falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e por meio de quem fez o universo. (Hebreus 1:1, 2, NVI).

Esta é a única pessoaviva – a quem as Escrituras apontam como o “Guia Espiritual” por excelência para os cristãos. Ao contrário do que teorizam certos apologistas da prática de ‘falar com os mortos’, se dar ouvidos a “espíritos” de falecidos era proibido nos tempos bíblicos com base na ideia de que os pronunciamentos divinos só eram transmitidos por meio dos profetas verdadeiros, muito mais força essa instrução bíblica tem para os cristãos hoje. É unicamente ao Filho de Deus que somos incentivados a recorrer em busca de orientação espiritual, não a “espíritos” de pessoas mortas.

Aos cristãos que se pautam pela informação contida nas Escrituras que lerem este artigo, aconselhamos a que não se deixem intimidar pela aparente “erudição” de indivíduos que se empenham na pregação de um “evangelho diferente”. Se a Bíblia é o que ela diz ser repetidas vezes, a saber, a “Palavra de Deus”, aqueles que tentam enfraquecer o poder dos pronunciamentos dela colocam-se na posição de inimigos dele. Cair vítima dos muitos artifícios que essas pessoas usam para promover suas ideias lhe resultaria na maior perda possível!

Nossos “amigos espirituais” não são humanos falecidos, que nada veem e nada sabem, e sim o Criador Vivente, e também aquele a quem Ele “constituiu herdeiro de todas as coisas e por meio de quem fez o universo”, o seu Filho ressuscitado, o nosso Líder e Mestre, o ‘responsável pela nossa salvação’ e o que nos fornece a melhor – e única – orientação espiritual de que precisamos.

Contribuído.

IMAGENS:

Bruto e o Fantasma de César”. Gravura em cobre de Edward Scriven à base de uma pintura de Richard Westall, Londres, 1802.

“Sessão espírita” (século 19).

 

NOTAS:

1 O uso de neologismos para se referir a práticas que existem desde tempos imemoriais nada tem de objetável. Na presente discussão, se o termo em questão não pudesse ser aplicado a qualquer prática dos tempos antigos, teríamos um erro de cronologia, que é o significado da palavra “anacronismo”.

Que a palavra “espiritismo” (ou alguma expressão equivalente, como “prática espírita”) é um neologismo que não existia nos tempos bíblicos todos sabem. Aliás, este é o caso de outras palavras, como “homossexual”, “ocultismo”, “médium”, etc.  Elas também não existiam nos idiomas antigos, mas são usadas livremente em muitas versões bíblicas modernas, e isso nada tem de “anacronismo”.

Por exemplo, quem é que negaria que “homens que fazem sexo com homens” (NIV) é equivalente a “homossexuais” (NTLH e outras versões)? Todos sabem que o termo “homossexuais” também é um neologismo; ninguém na antiguidade fazia a menor ideia do significado disso. Mas, será que isso justifica classificar os tradutores bíblicos que o usaram em suas versões como “anacrônicos”? Era a prática homossexual na antiguidade diferente da de hoje? Da mesma forma, certa mulher referida no livro de 1 Samuel 28 é chamada de “médium” em grande número de versões bíblicas.* Será que existe alguma diferença entre a “mediunidade” daquela mulher e a das pessoas “sensitivas” na atualidade?

Essa celeuma inútil não se limita a palavras; vai além disso. Há quem afirme taxativamente que os cristãos crentes na Bíblia se “incomodam” com o trecho mencionado, de 1 Samuel 28, que relata uma conversa – supostamente com o “espírito” do falecido profeta Samuel – realizada a pedido de um rei de Israel. Qual seria a natureza desse ‘incômodo’, é difícil imaginar. Quase ninguém questionará que uma típica “sessão espírita” (outro neologismo, aliás!) ocorreu lá (dizemos “quase ninguém” porque já vimos pelo menos uma tentativa de “caiar” este relato de 1 Samuel 28, como se não fosse exatamente isso que tivesse ocorrido naquele caso!).

Na realidade, os que levam em conta a informação bíblica, e por isso não dão – nem estão minimamente interessados em dar – ouvidos a “espíritos” de mortos são os que nenhum motivo têm para se ‘incomodar’ com tal relato. Tampouco se incomodam com ele os que “conversam com os mortos” e não estão minimamente preocupados com os pronunciamentos bíblicos. Ao que parece, os únicos que têm suas “suscetibilidades” feridas por tal narrativa, e demonstram muita preocupação em “explicá-la” minuciosamente (e ainda tentando descaradamente associar Deus de alguma maneira com o que ocorreu lá) são certas pessoas que fazem apologia à prática em questão ao mesmo tempo em que alegam respeitar a Bíblia e seu Autor. Por que essas pessoas procedem desta forma? A resposta é óbvia: Porque desejam usar tais referências bíblicas como “evidência” em apoio de suas teorias, mas estão bem cientes de que todas as referências bíblicas à prática da “comunicação com os mortos” são claramente condenatórias. Se fosse realmente necessário fazer alguma comparação, a conclusão imediata é que o tom de todas estas referências apoia a postura dos cristãos que rejeitam qualquer envolvimento com isso, e não a postura dos apologistas dessa prática.

Assim, a alegação de os cristãos “se incomodarem” com o relato de 1 Samuel 28 nada mais é que uma projeção do incômodo que é sentido por quem sugeriu tal coisa. O cristão que verdadeiramente respeita a Palavra de Deus e dá atenção aos pronunciamentos dela acerca de determinados procedimentos não verá qualquer motivo para se perturbar com tais relatos, e muito menos para “criar caso” com palavras que aparecem em versões bíblicas modernas (que descrevem adequadamente tais procedimentos) e até inventar “anacronismos” que não existem.

[* Entre as versões bíblicas em língua inglesa do Deuteronômio 18:11, a AMP, CSB, ERV, EXB, ESV, HCSB, ICB, ISV, TLB, NASB, NCV , NIV, NKJV, NLT, RSV e TLV usam a palavra "médium", sendo que as versões AMP, CSB, JUB, LEB, NASB, NIV, NKJV e TLV fazem também referência ao termo "espírita". No caso de 1 Crônicas 10:13 (que relata a punição do Rei Saul), aproximadamente metade das versões mais conhecidas nesse idioma, a saber, AMP, CSB, CEB, ERV, ESV, EXB, GW, HCSB, ICB, ISV, LEB, TLB, NOG, NASB, NCV, NIV, NKJV, NLT, NRSV, RSV, TLV e VOICE referem-se à mulher consultada por Saul como "médium", sendo que a versão JUB a chama de "espírita" neste mesmo texto. Será que deveríamos classificar todas estas versões eruditas e lidas por milhões de pessoas como “anacrônicas”, só porque as palavras "médium" e "espírita" não existiam nos tempos bíblicos, sendo neologismos criados num século mais recente? Qual seria o motivo de todo esse "pudor" linguístico?].

2 Entre as versões em inglês, o termo “abominações” é o mais comum. É usado nas versões ASV, DBY, HNV, JUB, KJV, NKJV, OJB, RHE, TMB, TYN, WBT, WEB, WYC e YLT. Outros termos são “coisas detestáveis” (CEB, NAS), “coisas odiosas” (NCV), “costumes detestáveis” (CSB, NLT), “estilos de vida abomináveis” (MSG), “modos detestáveis” (NIV, TNIV), “modos repugnantes” (BBE), “práticas abomináveis” (CJB, ESV, RSV), “práticas detestáveis” (LEB), “práticas repugnantes” (GNT, GW), “práticas repulsivas” (NRS). Dentre as versões que foram consultadas, a única que não associa qualquer qualificativo negativo ao termo “práticas” é a NIRV, mas, se o texto diz logo em seguida que “o SENHOR odeia tais práticas”, dificilmente se poderia agregar o qualificativo “religiosas” a tais. Se a intenção é ajudar o leitor a “perceber” melhor as coisas (como se o Autor da Bíblia ou os leitores dela precisassem disso!), não seria nada mal inserir também o qualificativo “falsas” após a palavra “religiosas”.

3 Nem é preciso dizer que a combinação da omissão com a falácia do eufemismo  é “poderosa”, e pode apanhar desprevenido um leitor que não se inteirar do assunto na própria Bíblia! Aqui é evidente o objetivo do apelo a este recurso: Se os termos francamente negativos do versículo forem “substituídos” por uma expressão “suave” (tal como “práticas religiosas”) é claro que isso facilita a aceitação das ideias que o texto pretende defender. Tal expediente é de grande ajuda em mascarar uma realidade “indesejável”, dessensibilizando a consciência do leitor.

4 “Allan Kardec” é o pseudônimo do escritor francês Hippolyte Léon Denizard Rivail (1804-1869. Alegadamente, esse pseudônimo tinha sido o nome dele numa “encarnação” anterior, sendo que tal informação lhe teria sido transmitida pelos “espíritos superiores”). Neste artigo ele será referido, deste ponto em diante, por seu sobrenome, Rivail. O trecho citado aqui é do livro O Céu e o Inferno – A Justiça Divina Justificada na Pluralidade de Existências.

5 A “explicação” dele para o motivo de a Lei prescrever pena de morte para estas e outras práticas é “impagável”:

“Se Moisés pronunciou a pena de morte aos delinquentes da época dele, foi porque eram necessárias medidas rigorosas para governar as pessoas indisciplinadas com quem ele tinha de lidar, e, conseqüentemente, essa penalidade foi generosamente introduzida em seu código. Deve-se lembrar também que ele não tinha muita escolha nos meios de repressão a serem usados por ele, pois no meio do deserto ele não tinha prisões nem reformatórios, e além disso, seu povo não era passível de ameaça de punição meramente disciplinar: consequentemente, era impossível para ele graduar suas penalidades como se faz atualmente.”

Logo a primeira sentença do trecho que ele citou (Deuteronômio 18:10-12) é suficiente para demolir essas teorias. A declaração está grifada nesta citação adicional (segundo a BMD):

Quando entrares no país que Javé, teu Deus, te der, não aprenderás a cometer as abominações daquelas nações. Não se achará, entre ti, quem faça passar pelo fogo...”

Nenhum fator contingencial entrou na questão; nenhuma elaboração da Lei foi influenciada pelo fato de eles estarem “no meio do deserto”. A Lei deveria vigorar justamente quando a nação já estivesse estabelecida em sua própria terra. Será que quando eles estivessem radicados lá haveria alguma margem para se fazer “emendas”, talvez fazendo provisão para outras penalidades que não a morte para os delitos em questão? De modo algum! O Deuteronômio 4:1, 2 anula esta possibilidade:

“E agora, ó Israel, ouça os decretos e as leis que lhes estou ensinando a cumprir, para que vivam e tomem posse da terra, que o Senhor, o Deus dos seus antepassados, dá a vocês. Nada acrescentem às palavras que eu lhes ordeno e delas nada retirem, mas obedeçam aos mandamentos do Senhor, o Deus de vocês, que eu lhes ordeno.”

A conversão da penalidade capital em alguma pena “meramente disciplinar” (para usar os termos de Rivail) não foi sequer cogitada, em momento algum da história da nação de Israel! Tampouco esta especificação se trata dum ‘caso isolado’. Pelo contrário, tal diretriz está refletida constantemente no Deuteronômio. O capítulo 6, versículo 1 (que Rivail também “esqueceu” de citar) confirma isso, sem margem para ambiguidade:

“Esta é a lei, isto é, os decretos e as ordenanças, que o Senhor, o seu Deus ordenou que eu lhes ensinasse, para que vocês os cumpram na terra para a qual estão indo para dela tomar posse.” (NVI. Veja também Deut. 17:14, 26:1 e outros.).

Apenas como mais um exemplo, já que Rivail falou em “pena de morte aos delinquentes”, a seguinte era a sanção determinada na Lei para um jovem delinquente contumaz:

“Se um homem tiver um filho obstinado e rebelde que não obedece a seu pai nem à sua mãe e não os escuta quando o disciplinam, o pai e a mãe o levarão aos líderes da sua comunidade, à porta da cidade, e dirão aos líderes: “Este nosso filho é obstinado e rebelde. Não nos obedece! É devasso e vive bêbado”. Então todos os homens da cidade o apedrejarão até à morte. Eliminem o mal do meio de vocês. Todo o Israel saberá disso e temerá.” (Deuteronômio 21:18-21, NVI).

As alternativas eram apenas estas: ou o jovem aceitava a disciplina familiar e se corrigia ou morreria a pedradas fora dos portões da cidade. Nada de “reformatórios” ou qualquer coisa desse gênero. Isto deveria vigorar nas cidades de Israel, como nação estabelecida num país. Não foi algo ‘contingencial’, estabelecido por Moisés para ser aplicado “no meio do deserto”, só porque ‘não havia reformatórios para jovens rebeldes lá’. 

Por que Rivail não citou nada disso? Acaso “não prestou atenção” aos trechos acima? Teria ele algum grave “problema de entendimento” da língua francesa, na qual leu a Bíblia dele? Seria um absurdo imaginarmos isso de um professor e escritor obviamente capacitado, e que não era nenhuma criança quando escreveu seus livros. Qual foi o problema, então? Igualmente óbvio: Ele desconsiderou tudo isso deliberadamente. Só procedendo desta maneira foi que ele pôde fazer a racionalização acima (e o mesmo fazem regularmente os simpatizantes das teorias dele hoje.)

A penalidade estabelecida para todos os delitos em questão – desde o princípio e de modo definitivo – não era outra senão a morte, e isso não foi determinado por Moisés, e sim pelo Deus da nação. A diretriz dele era essa mesma. Com o objetivo de defender a prática da “comunicação com os espíritos”, Rivail simplesmente se recusou a aceitar este fato, preferindo lançar, não só o arbítrio das normas como também o das sanções nos ombros de Moisés. O entendimento que ele se viu obrigado a endossar foi que um homem – Moisés – era quem tinha nas mãos o poder da vida e da morte em Israel!

6 Outras versões:

PORQUE todas estas coisas abomina o Senhor, e por semelhantes maldades exterminará Ele estes povos à tua entrada. (FIG)

PORQUE é detestável ao Senhor todo aquele que faz estas coisas, e é por causa destas coisas abomináveis que o Senhor teu Deus os expulsa de diante de ti. (ALF)

PORQUE abominável é a Jeová todo aquele que faz estas coisas, e por causa destas abominações Jeová teu Deus os está desapossando diante de ti. (SBB)

7 Isto é outro espantalho criado por Rivail. Nenhum erudito bíblico afirmou que “todas as leis de Moisés foram proclamadas em nome de Deus”. Embora Iavé tenha proibido as práticas mencionadas no Deuteronômio expressando claramente seu conceito inequivocamente negativo acerca dessas coisas, em considerável número de casos tudo o que Ele fez foi tolerar certos procedimentos de homens imperfeitos, ainda que Ele próprio não gostasse deles. A legislação relacionada com tais costumes constituía, na realidade, um conjunto de providências para evitar maiores prejuízos para os envolvidos. Quando os fariseus quiseram apanhar Jesus em contradições (como sempre tentavam, aliás), argumentando que ‘a Lei Mosaica prescrevia o divórcio’, Jesus replicou: “Moisés lhes permitiu divorciar-se de suas mulheres por causa da dureza de coração de vocês. Mas não foi assim desde o princípio.” (Mateus 19:8). Estas palavras de Jesus tornam claro que neste caso do divórcio, e em outros (tais como o da escravidão humana), Iavé fez provisões para lidar com as situações peculiares da época, criadas pela arbitrariedade dos homens. Mas o próprio Deus não ditou coisa alguma prescrevendo divórcio (até porque Ele odeia isso; veja Malaquias 2:16) ou escravidão humana (algo que jamais foi do propósito dele, como Rivail sabia muito bem). Moisés nunca disse que Deus aprovava tais coisas, e muito menos que Ele era o originador delas. Deus não idealizou tais coisas e Jesus, com sua autoridade divina, restaurou o padrão que existia “desde o princípio”. Já no caso da “consulta aos mortos”, defendida por Rivail e pelos seguidores dele, jamais houve sequer a “tolerância” da parte de Deus (e Rivail também sabia disso perfeitamente). Javé disse claramente que “abomina” esta prática e “detesta” quem faz isso. Esta “objeção” que Rivail alegou que alguns se “apressam” em fazer não foi levantada por ninguém, a não ser por ele próprio, para depois ser facilmente “refutada”.

8 A "técnica" usada nesse ponto é perfeitamente compreensível. Se a intenção é passar ao público a impressão de 'respeito às Escrituras', é preciso ter muito "cuidado" na seleção dos autores a serem citados! Seria de péssimo alvitre citar como "referência erudita" numa “pesquisa bíblica cabal” o nome dum indivíduo incrédulo na Bíblia que afirmou algo parecido. Quem fez isso? Foi aquele mesmo que acusou Moisés de "enganar o povo" – o próprio Rivail! Em seu Livro dos Médiuns, capítulo 31, item XI (pág. 544), ele escreveu:

“O dom da mediunidade é tão antigo quanto o mundo. Os profetas eram médiuns. Os mistérios de Elêusis se fundavam na mediunidade. Os caldeus, os assírios tinham médiuns. Sócrates era dirigido por um Espírito que lhe inspirava os admiráveis princípios da sua filosofia; ele lhe ouvia a voz. Todos os povos tiveram seus médiuns e as inspirações de Joana d’Arc não eram mais do que vozes de Espíritos benfazejos que a dirigiam.” (Grifo acrescentado).

Pelo menos Rivail não endossou (até onde sabemos!) esse absurdo sobre “médiuns aprovados”. Em vez disso, ele apelou para a teoria da “mediunidade inata” nos humanos, o que lhe permitiu incluir os profetas hebraicos. Que Rivail defendia esse conceito de ‘mediunidade universal’ pode ser depreendido à base do que ele diz no Capítulo 31 (parte X) deste mesmo livro:

Todos os homens são médiuns, todos têm um Espírito que os dirige para o bem, quando sabem escutá-lo. Agora, que uns se comuniquem diretamente com ele, valendo-se de uma mediunidade especial, que outros não o escutem senão com o coração e com a inteligência, pouco importa: não deixa de ser um Espírito familiar quem os aconselha. Chamai-lhe espírito, razão, inteligência, é sempre uma voz que responde à vossa alma, pronunciando boas palavras. Apenas, nem sempre as compreendeis.”

Note-se que embora “todos os homens” sejam médiuns, segundo ele é preciso ‘saber escutar’ o “Espírito”. Quem consegue isso? Só os que possuem uma “mediunidade especial” que os habilitaria a se comunicar “diretamente” com o “Espírito” e ‘compreendê-lo’. Em outras palavras, de qualquer maneira existe uma “hierarquia”; alguns médiuns seriam dotados de uma habilidade “especial”; já outros, nem tanto; estes ‘nem sempre compreendem’ o “Espírito familiar”. Cremos que não é difícil deduzir em qual destas categorias se enquadraria o autor destas “explicações”!

9 Conforme é praticamente um consenso entre os eruditos bíblicos, os judeus da antiguidade, bem como os primitivos cristãos não tinham qualquer conceito dualista do ser humano. Tal conceito foi forjado e é defendido vigorosamente na doutrina imortalista, já que ele é um “pré-requisito” essencial para validar as demais teorias deles. O conceito de “mediunidade” também depende disso. Numa nota de rodapé do livro O Céu e o Inferno (pág. 7), Rivail explicou:

Um dos termos em inglês equivalentes a “mediunidade” é medianimity, derivado “das palavras latinas medium, do meio, intermediário, e anima, alma; a faculdade especial que habilita certas pessoas a servir como um intermediário, ou canal de comunicação entre almas em corpos carnais e almas em corpos fluídicos do mundo espiritual.”

Portanto, segundo ele a “comunicação” não é simplesmente entre uma pessoa viva e uma falecida. Alega-se que a “alma” do médium (quando este fica no estado de “transe”) se “liberta” para 'mediar' a comunicação entre uma “alma desencarnada” (referida aqui pomposamente como “alma em corpo fluídico do mundo espiritual”) e uma "alma encarnada" (a "alma" do cliente que o contratou). É claro que ninguém encontrará esse tipo de informação dentro das Escrituras, já que os judeus e os primitivos cristãos sempre tiveram um conceito “monista” da pessoa humana. Eles nada sabiam de uma “alma” atuando de maneira “independente” – nem no caso dos vivos, nem no dos falecidos.

10 A falsa analogia foi combinada aqui com outra falácia, a do apelo à autoridade anônima (ou apelo ao rumor). Este expediente possibilita ao argumentador apresentar uma ideia que ele claramente deseja que outros aceitem, sem, contudo, assumir qualquer responsabilidade por ela.  Caso a ideia venha a ser demonstrada como falsa, ele está livre de acusação e “com a consciência tranquila”, já que o conceito tinha se originado de ‘outros’ (não identificados) que “pensaram” isso, ou “disseram” aquilo – e não dele próprio. Esta é uma técnica escusa, muito mal disfarçada, valendo-se dum ‘sujeito oculto na terceira pessoa do plural’. Nada impede, porém, que tal afirmação seja respondida com o mesmo nível de “lógica”. No caso presente, a diferença entre “médium” e “profeta” e, o que é mais importante, a clareza dos pronunciamentos bíblicos, possibilita que essa afirmação baseada em ‘alguns pensam isso ou aquilo’ seja replicada do seguinte modo: ‘Há os que pensariam na palavra “ridículo” para caracterizar um ‘pensamento’ desse tipo.’

11 Em nossa experiência com a discussão sobre a natureza humana e a condição dos mortos, vimos muitos exemplos desse velho expediente de tentar “enfraquecer” palavras ou expressões absolutas para se esquivar de evidência “desfavorável”. Um dos casos mais escandalosos que já vimos neste particular envolve a palavra “imortalidade”. O que é “imortalidade” todos sabem; este termo dispensa explicações. Porém, com o fim de obscurecer o conceito e com isso “acomodar” a noção de “imortalidade da alma” às Escrituras, certa matéria que nos foi recomendada fez diversas referências a uma “imortalidade relativa”. Curiosamente, nenhum erudito sabe nada sobre essa “imortalidade relativa”. Mas a fonte em questão conseguiu citar uma “referência erudita” em apoio desse conceito! Qual? Uma publicação duma religião “aniquilacionista materialista”, a revista Despertai!, das Testemunhas de Jeová!

Mas, será que as Testemunhas de Jeová sabem alguma coisa sobre "imortalidade relativa"? Nós verificamos esta citação, e, de fato, a Despertai! (22 de abril de 1990, pág. 4) menciona “imortalidade relativa”. O detalhe, porém, é que não foi o escritor da publicação quem disse isso. Esse termo foi usado por um cientista. Entretanto, o cientista não estava inventando nenhum “novo conceito” de imortalidade; ele se referia simplesmente a prolongamento indefinido da vida humana por métodos científicos (tais como a clonagem [cópia genética] e a criônica [congelamento])nada de imortalidade propriamente dita. E o que o escritor da Despertai! fez, na realidade, foi colocar em dúvida a promessa dos cientistas, já que a crença das Testemunhas de Jeová neste particular não difere da crença dos demais cristãos. Em certo ponto o escritor do artigo diz:

"Ao passo que, naquela época, nem todos os gerontólogos e pesquisadores partilhassem tal entusiasmo, o consenso geral dos peritos parecia ser que, já no início do século 21, o envelhecimento seria controlado e a vida teria uma extensão significativa. Agora que estamos muito mais perto do início do século 21, qual é o quadro? Está a vida mais longa, quanto mais a imortalidade, a nosso alcance?"

Ele claramente diferenciou aqui "vida mais longa" (que era a promessa de alguns cientistas 'otimistas' do século 20) de "imortalidade". As Testemunhas de Jeová não só sabem muito bem o que é "imortalidade" como também defendem corretamente que esta só pode ser concedida por Deus; isto não é possível por métodos humanos. Era isso o que a matéria da Despertai! citada estava defendendo. Apesar disso, a fonte imortalista não só citou essa revista “aniquilacionista” como “evidência documental” da tal “imortalidade relativa”, como ainda generalizou, afirmando que ‘as Testemunhas de Jeová entenderam o conceito de imortalidade relativa’! Com isso, o assunto foi levado tão longe da realidade que chega a ser cômico! Essa deturpação grosseira é mais uma atestação do nível a que chegam certos indivíduos, em seu desespero de encontrar “apoio erudito” para suas teorias.