Quando a Jerusalém Antiga Foi Destruída? - Parte 2

(Análise da matéria de A Sentinela de 1° de novembro de 2011, páginas 22-28)

Carl Olof Jonsson 

Introdução
As Crônicas Babilônicas
  A Sentinela: “O Que São?”
  A Sentinela: “O que os eruditos dizem?”
  O que os eruditos realmente disseram?
As Tabuinhas Econômicas
Conclusão

A Parte Dois do artigo “Quando a Antiga Jerusalém Foi Destruída?”, publicada em A Sentinela de 1º de novembro de 2011, páginas 22-28, começa repetindo alguns pontos que os autores alegam terem sido ‘deixados claros’ na Parte Um, incluindo os seguintes pontos: 

Os historiadores seculares baseiam suas conclusões nos escritos de historiadores clássicos e no Cânon de Ptolomeu.” (Pág. 22. Sublinhado acrescentado.)

Conforme foi demonstrado em minha crítica da Parte Um, esta afirmação é completamente falsa. Os autores do artigo evidentemente estão cientes disso, porque na Parte Dois eles contradizem sua afirmação anterior. Primeiro eles dizem que “a maioria dos eruditos diz que a destruição de Jerusalém ocorreu em 587 AEC.”, o que “só deixaria um período de 50 anos de exílio”, e depois perguntam: “Por que chegaram a essa conclusão?” Eles explicam: 

Eles baseiam seus cálculos em antigos documentos cuneiformes que contêm detalhes sobre Nabucodonosor II e seus sucessores.” (Ênfase acrescentada.)

Assim, admite-se que os eruditos baseiam sua cronologia para o período neobabilônico “em antigos documentos cuneiformes”, e não apenas “nos escritos de historiadores clássicos e no Cânon de Ptolomeu”, como tinha sido alegado na Parte Um do artigo deles.

Que “antigos documentos cuneiformes” são estes? Os autores do artigo mencionam “três tipos de documentos a que os eruditos muitas vezes recorrem: (1) As crônicas babilônicas, (2) as tabuinhas econômicas e (3) as tabuinhas astronômicas.” (Pág. 22)

Estes três tipos de documentos cuneiformes antigos são considerados na Parte Dois do artigo de A Sentinela. 

As Crônicas Babilônicas

A Sentinela: “O que são?”

Conforme os autores apontam corretamente, “as crônicas fornecem um registro incompleto de eventos importantes.” Todos os que estudaram o período neobabilônico sabem disso. Há seis crônicas restantes que abrangem várias partes deste período. Nas páginas 116-123 de TGR4 eu falei sobre estas crônicas e mostrei quais anos elas abrangem numa tabela na página 118, salientando que “a maior parte dessas crônicas está incompleta” e que “menos de metade” do longo período neobabilônico de 87 anos (625-539 AEC) é abrangido pelas partes preservadas das crônicas. Entretanto, algumas informações nas crônicas são valiosas. Uma delas, a BM 21946, afirma explicitamente que Nabopolassar, o primeiro rei do período neobabilônico, governou Babilônia durante 21 anos e foi sucedido por seu filho Nabucodonosor. A última, a Crônica de Nabonido (BM 35382), fornece informações sobre a queda de Babilônia, no último ano do reinado de Nabonido.

Imagens de todas estas seis crônicas são também mostradas na página 23 do artigo de A Sentinela, juntamente com uma ilustração que mostra os anos do período sobre os quais elas dão algumas informações.

A Sentinela: “O que os eruditos dizem?”

Claramente, as crônicas não são suficientes para estabelecer a duração total do período. Mas há muitas outras tabuinhas cuneiformes que ajudam a preencher as lacunas nas crônicas. Por isso, a próxima declaração e citação dos escritores da revista A Sentinela é surpreendente. Os autores fazem referência a R. H. Sack, chamado de “destacada autoridade em documentos cuneiformes”, que afirmou corretamente que “as crônicas fornecem um registro incompleto de eventos importantes.” Porém, daí eles imediatamente prosseguem dizendo: 

Ele escreveu que os historiadores precisam recorrer a “fontes secundárias... na esperança de determinar o que realmente aconteceu”.” (Pág. 23)

A impressão transmitida aqui é que, como as crônicas são incompletas, os eruditos são obrigados a investigar fontes secundárias para poder determinar a história e a cronologia do período. Era realmente isso o que Sack estava dizendo? Pode-se notar que algumas partes da citação são deixadas de fora.

O que os eruditos realmente disseram?

Embora os escritores da Sentinela, geralmente apresentem as referências das obras citadas ou usadas, incluindo os dois livros escritos por R. H. Sack sobre Amel-Marduque e Neriglissar (referências 6, 7 e 9 na página 24 e suas respectivas notas da página 28), não se faz aqui qualquer referência à fonte da declaração de Sack. E há uma boa razão para os autores de A Sentinela fazerem isso.

Antes de o livro de Sack sobre Neriglissar ser publicado em 1994 (Neriglissar – Rei de Babilônia, Alter Orient und Altes Testament, Band 236), ele havia escrito um artigo de 21 páginas sobre esse rei, que foi publicado 16 anos antes, em Zeitschrift für Assyriologie und Vorderasiatische Archäologie, Band 68, 1978, páginas 129-149. A citação não referenciada pelos escritores da Sentinela é da página 129 desse artigo. O contexto mostra que Sack não estava tratando da cronologia, e sim sobre “importantes eventos que podem ter ocorrido no sul da Mesopotâmia entre os anos 594-557 A.C.”, ou seja, entre o décimo primeiro ano de Nabucodonosor e o terceiro ano de Neriglissar. Como as crônicas existentes não abrangem os acontecimentos durante este período estabelecido cronologicamente, Sack disse o seguinte (as partes sublinhadas são as que foram deixadas de fora pelos escritores da Sentinela): 

Como resultado, o historiador, por bem ou por mal, é obrigado a examinar as fontes secundárias hebraicas, gregas e latinas (bem como as tabuinhas comerciais cuneiformes datadas) na esperança de determinar o que realmente aconteceu durante este período. (Sublinhados acrescentados) 

Os autores do artigo de A Sentinela omitiram a referência de Sack ao período específico discutido (594-557 AEC), e também a referência dele entre parêntesis a um grupo de fontes primárias, ou seja, as tabuinhas comerciais cuneiformes datadas, já que estas fornecem evidências importantes para a cronologia dos reinados dos reis neobabilônicos, incluindo Amel-Marduque e Neriglissar. Até o ano 2000 mais de 150 tabuinhas datadas no reinado de 2 anos de Amel-Marduque, e mais de 200 tabuinhas datadas no reinado de 4 anos de Neriglissar tinham sido publicadas, segundo as extensivas listas da internet, elaboradas pelo assiriologista húngaro Janos Everling (elas não estão mais disponíveis na internet). Além disso, muitas outras tabuinhas comerciais ainda continuam sendo publicadas. Nenhuma das tabuinhas comerciais datadas acrescenta qualquer ano extra para estes reis. Elas só confirmam o número tradicional de anos que eles governaram.

Além da crônica datada no 3º ano do reinado de Neriglissar e das mais de 200 tabuinhas comerciais datadas em todos os quatro anos dele, Sack faz referência a um terceiro grupo de fontes cuneiformes contemporâneas, a saber, “várias inscrições em cilindros”, isto é, inscrições reais. Embora estas não forneçam todas as datas, elas dão informações detalhadas sobre a “atividade de construção em Babilônia e em outros lugares durante o governo do rei.” – R. H. Sack, Neriglissar – Rei de Babilônia, pág. 1. 

Reverso da Crônica Babilônica BM 21946. 

Esta crônica abrange o período do 21º ano de Nabopolassar (605/604 AEC) até o 10º ano de Nabucodonosor (595/594 AEC). 

As Tabuinhas Econômicas

Nesta seção, os autores do artigo de A Sentinela primeiro explicam a maneira como os escribas babilônicos contavam os anos de reinado quando um rei morria. O ano em que ele morria era atribuído ao reinado dele, enquanto que os meses restantes do ano eram considerados como o ano de ascensão de seu sucessor. A conclusão deles é que as datas nas tabuinhas do ano de ascensão do novo rei deveriam logicamente se referir a meses posteriores ao último mês do rei anterior. (Pág. 23)

A Sentinela: “O que os eruditos dizem?”

Com base na conclusão acima, os autores de A Sentinela em seguida citam Sack como dizendo que duas novas tabuinhas econômicas que ele examinou “‘derrubam totalmente’ as conclusões anteriores sobre a transição do reinado de Nabucodonosor II para seu filho Amel-Marduque.”

O que os eruditos realmente disseram?

O problema para Sack foi que o último documento do reinado de Nabucodonosor é datado VI/26/43 (dia 26, mês 6, ano 43), enquanto que as duas “novas” tabuinhas que ele examinou, BM 80920 e BM 58872 (números 56 e 79 em seu trabalho sobre Amel-Marduque), pareciam ser datadas antes disso. Sack diz: 

Os textos (nº.s 56 e 79 no corpo), bem surpreendentemente, são datadas muito claramente nos meses de du'uzu e abu (ou seja, o quarto e o quinto do ano calendar babilônico) do ano de ascensão de Amel-Marduque e, desse modo, coincidem claramente com o último, ou quadragésimo terceiro ano de Nabucodonosor, seu pai. – Ronald H. Sack, Amel-Marduque 562-560 A.C. AOAT 4. Neukirchen-Vluyn: Neukirchener Verlag, 1972, pág. 3. Compare com o artigo de A Sentinela, pág. 28, nota 7. 

A BM 80920, porém, não é “muito claramente” datada no quarto mês. A pedido meu, C. B. F. Walker do Museu Britânico verificou a tabuinha em 1990. Ele descobriu que a tabuinha foi datada no sétimo mês (em harmonia com a data indicada no Vol. VIII dos catálogos CBT do Museu Britânico: Erle Leichty, Catálogo das Tabuinhas Babilônicas no Museu Britânico [CBT], 1988, pág. 245), e não no quarto mês: 

“A BM 80920 tem Am 20/7/asc; CBT VIII pág. 245 está correta; [a datação de Sack] AOAT nº. 56 deve ser corrigida. O Dr. Finkel também verificou a tabuinha aqui e está de acordo.” - Carta de Walker a Jonsson, com data de 13 de novembro de 1990.

Esta informação foi incluída na lista de Walker, de “Correções e acréscimos em CBT 6-8” que circulou entre os eruditos há anos (minha cópia mais recente é de 18 de março de 1996). A mesma informação é também apresentada em TGR4, pág. 379, nota 28, e em minha análise crítica do Vol. 2 do livro de Furuli, cuja tradução em português está publicada em http://www.mentesbereanas.org/criticafuruli_parte3.htm. Acho notável, portanto, que a correção de Walker tenha sido completamente ignorada pelos autores do artigo de A Sentinela, que preferiram publicar a data errada.

Assim, não foi encontrada qualquer tabuinha datada tão cedo quanto no quarto mês do ano de ascensão de Amel-Marduque. Porém, a próxima tabuinha mencionada pelos autores do artigo de A Sentinela, BM 58872 (nº 79 no livro de Sack sobre Amel-Marduque), é datada claramente no quinto mês do seu ano de ascensão. (TGR4, pág. 379, nota 28) Como a última tabuinha do reinado do predecessor, Nabucodonosor, é datada no sexto mês, temos uma sobreposição de um mês inteiro entre os dois.

Isso é bem ilustrado por Doug Mason em sua crítica da Parte Dois do artigo de A Sentinela. O diagrama que segue foi modificado e usado com permissão dele. (Veja as referências ao artigo crítico de Mason no final desta análise.)

Será que isso prova que o 43º de Nabucodonosor não foi o último ano dele e que houve anos adicionais, talvez até mesmo outros governantes entre os dois reis?

Há evidências que mostram que isto é impossível. Deve ter havido algum outro motivo para a sobreposição. Conforme sugerido pelo assiriologista Stefan Zawadzki, Nabucodonosor pode ter morrido algumas semanas antes, mas por causa da má reputação de Amel-Marduque, alguns escribas podem ter continuado a datar suas tabuinhas no reinado do pai dele por algum tempo, até que ele foi reconhecido em geral como o novo regente. (TGR4, pág. 379).

O que diz a Bíblia?

Na verdade, a própria Bíblia refuta a idéia de que Nabucodonosor governou por mais de 43 anos, ou que houve outro rei entre ele e Amel-Marduque. Uma comparação de 2 Reis 24:12 e 2 Crônicas 36:10 com Jeremias 52:28 mostra que o exílio de Joaquim começou no fim do sétimo ano do reinado de Nabucodonosor (conforme é também declarado diretamente na crônica babilônica BM 21946; TGR4, págs. 402, 403). Isto significa que com a morte de Nabucodonosor, em seu quadragésimo terceiro ano, Joaquim tinha passado quase 36 anos no exílio (43 – 7 = 36), e que o trigésimo sétimo ano do exílio dele começou mais tarde no mesmo ano, o ano de ascensão de Amel-Marduque (o Evil-Merodaque bíblico). E isto é exatamente o que foi dito em Jeremias 52:31: 

“No trigésimo sétimo ano do cativeiro de Joaquin, rei de Judá, no vigésimo quinto dia do décimo segundo mês, Evilmerodac, rei de Babilônia, no ano de sua elevação ao trono, perdoou Joaquin, rei de Judá, e mandou libertá-lo da prisão.” – Centro Bíblico Católico. (Compare com 2 Reis 25:27).

Claramente, a Bíblia não admite qualquer ano adicional ou qualquer outro possível governante entre o quadragésimo terceiro ano de Nabucodonosor e o ano de ascensão de Amel-Marduque.

A Sentinela: “O que os documentos mostram?”

Porém, os autores de A Sentinela tentam mostrar que outras tabuinhas também dão evidências de coincidências que podem indicar que anos extras têm de ser acrescentados entre alguns regentes. Na página 24 eles alegam que “um documento mostra que Nabucodonosor II ainda governava no décimo mês — seis meses depois de seu sucessor supostamente ter começado a reinar.”. Na nota 8 da página 28 eles explicam que a tabuinha no Museu Britânico (BM 55806) é datada do décimo mês, 43.° ano.”

O que os documentos realmente mostram?

De novo, os autores não se preocuparam em conferir a data. Em 1987 perguntei ao Professor D. J. Wiseman sobre a data nesta tabuinha. O nome do mês acabou sendo danificado, e Wiseman concluiu que, “A leitura parece ser ab, isto é, o quinto mês, não o décimo.” – Carta de Wiseman a Jonsson, de 7 de outubro de 1987. A mesma tabuinha foi depois conferida também por C. B. F. Walker, que, confirmando a leitura de Wiseman, declarou em sua lista de correção:

“55806 Nbk 10+/5?/43? o mês parece estar escrito ITU.AD [= 5º mês]; o número do ano é altamente incerto, e está parcialmente apagado. Pinches, em CT 55, 138, copiou ITU.AB = 10º mês. Se o ano é realmente 43, o mês deve ser entendido como AD = Abu [ou seja, o 5º mês].”

Pinches copiou 2.727 tabuinhas lá em 1892-1894, mas elas só foram publicadas em 1982 pelo Museu Britânico, nos volumes 55, 56 e 57 das Tabuinhas Cuneiformes (CT). Evidentemente, o dia, o mês e até o ano na BM 55806 estão tão danificados que nenhuma conclusão cronológica pode ser baseada nesta tabuinha.

Sobreposição Amel-Marduque/Neriglissar?

Por fim, os escritores de A Sentinela alegam que “existe uma discrepância similar na transição de Amel-Marduque para seu sucessor, Neriglissar.” Na nota 9 eles explicam: 

“As tabuinhas BM 75106 e BM 61325 são datadas do sétimo e décimo mês do que é considerado o último (segundo) ano do reinado de Evil-Merodaque. Contudo, a tabuinha BM 75489 é datada do segundo mês do ano de ascensão de Neriglissar, seu sucessor. — Catalogue of the Babylonian Tablets in the British Museum, Volume VIII, (Tablets From Sippar 3) de Erle Leichty, J. J. Finkelstein e C.B.F. Walker, publicado em 1988, páginas 25, 35.”

Mas a BM 75106 não é datada no sétimo mês do último ano de Amel-Marduque (o segundo ano), como afirmam os autores da Sentinela. A lista de correção de Walker mostra que ela é datada no quarto mês.

A BM 61325 foi conferida por C. B. F. Walker, pelo Dr. van Driel e pelo Sr. Bongenaar em 9 de novembro de 1990. Walker diz que, “O mês está ligeiramente danificado, mas parece ser claramente ITI.AB (o décimo mês) em vez de ITI.NE (mês V). E não é dia 17 como foi dito antes. Conferido juntamente com o Dr. G. van Driel e o Sr. Bongenaar em 9/11/90.” O número do dia é 19. A data desta tabuinha, então, é 19/X/02. Isso não significa necessariamente que ela esteja correta.

A BM 75489 foi publicada como nº 91 no trabalho de Sack sobre Neriglissar. A tabuinha é datada claramente no dia 4 do mês II, do ano de ascensão de Neriglissar. Isto foi confirmado por C. B. F. Walker, que conferiu a tabuinha várias vezes, uma das vezes junto com os dois assiriólogos mencionados acima, o Dr. G. van Driel e o Sr. Bongenaar, em 9 de novembro de 1990. (Walker, “Correções”, 1996, pág. 7, veja também TGR4, pág. 381, nota 33.)

Embora nenhuma dessas datas acrescente quaisquer anos extras aos reinados de Amel-Marduque e Neriglissar, elas geram uma coincidência de alguns meses entre os reis que requer uma explicação.

Mais uma vez, esta coincidência é bem ilustrada por Doug Mason em sua crítica da Parte Dois do artigo de A Sentinela. Este diagrama foi simplificado e é usado aqui com permissão dele:

Das seis, “tabuinhas anômalas” mencionadas pelos escritores de A Sentinela, só três (BM 58872, BM 61325 e BM 75489) revelam ter datas anômalas. A primeira, BM 58872, cria uma coincidência de um mês inteiro entre Nabucodonosor e seu filho Amel-Marduque. Como se viu, no entanto, não há espaço cronológico para a inserção de anos adicionais entre estes dois reis. Conforme declarado, uma explicação razoável apresentada pelo assiriologista Stefan Zawadzki é que Nabucodonosor morreu algumas semanas antes, mas devido ao notório caráter perverso de Amel-Marduque, o governo dele pode ter sido contestado por algumas facções proeminentes (incluindo Neriglissar e seus partidários), fazendo com que alguns escribas continuassem datando suas tabuinhas no reinado de Nabucodonosor, até que ficasse claro qual seria o sucessor. (Ver TGR4, págs. 379, 380, incluindo a nota 30.)

A segunda, terceira e quarta tabuinhas parecem criar uma coincidência de oito meses e meio entre os reinados de Amel-Marduque e Neriglissar. (TGR4, pág. 381). Deve-se notar, no entanto, que as datas nestas tabuinhas ficam isoladas das outras datas na transição entre os dois reis. A tabuinha datada no mês II do ano de ascensão de Neriglissar não é seguida por tabuinhas datadas no reinado dele nos dois meses seguintes, o III e o IV, ao passo que temos várias tabuinhas datadas em cada mês do ano de ascensão dele, do mês V em diante. Da mesma forma, temos várias tabuinhas publicadas e não publicadas, datadas em cada mês do reinado de Amel-Marduque, até o mês V de seu 2º ano, enquanto que a tabuinha do mês X de seu 2º ano é uma data que aparece isolada cinco meses depois. Normalmente, deveríamos ter várias tabuinhas de cada um dos quatro meses, entre o V e o X, datadas no reinado dele, mas não temos nenhuma.

Esta ilustração mostra claramente essas lacunas estranhas na evidência documental:

O que isso indica?

O Dr. G. van Driel, em sua consideração sobre a tabuinha datada no dia 4, do mês II do ano de ascensão de Neriglissar (BM 75489 = Neriglissar nº 91, de Sack), diz: 

“O texto Sipar de R. H. Sack, Neriglissar nº 91, datado no dia 4 de II do ano de ascensão, sugeriria uma considerável sobreposição com o rei anterior Awil-Marduque, para quem os textos posteriores de Sipar (listados por Sack na página 26, nota 19) são datados. Um erro na data do AOAT 236, nº. 91 é a solução mais fácil. Deve-se notar que a lista de reis de Uruque (J. J. A. van Dijk, UVB 18 [1962] págs. 53-60 obv. 9) dá a N[eriglissar] 3 anos e 8 meses, o que poderia excepcionalmente se referir ao reinado propriamente dito e não a um reinado contado a partir do início do primeiro ano completo” – G. van Driel em Reallexikon der Assyriologie und Vorderasiatischen Archäologie, Band 9 (Berlim, Nova Iorque: Walter de Gruyter, 1998-2001), pág. 228. Grifo acrescentado. Cf. TGR4, pág. 381.

A explicação mais fácil e natural é que as duas datas estranhas – mês X do 2º ano de Amel-Marduque (BM 61325) e mês II do ano de ascensão de Neriglissar (BM 75489) – são erros de escrita. Conforme Rolf Furuli admite em seu primeiro volume sobre cronologia, “um ou dois achados contraditórios não necessariamente destroem uma cronologia que foi apoiada por centenas de descobertas independentes.” (Rolf Furuli, A Cronologia Persa e a Duração do Exílio Babilônico dos Judeus, Oslo, 2003, pág. 22). Isto é certamente verdadeiro no caso das duas tabuinhas anômalas consideradas acima.

Outra possível explicação baseia-se na situação política durante aquele período. Conforme já explicado, Beroso diz que em razão de Amel-Marduque “conduzir os assuntos de uma maneira ilegal e ultrajante, houve uma conspiração e ele foi morto por Neriglissaros [Neriglissar], marido de sua irmã.” – S. M. Burstein, A Babyloniaca de Beroso (Malibu: Undena Publicações, 1978), pág. 28.

Existe alguma evidência de que Neriglissar, antes de tomar o poder, mantinha o mais alto cargo (qipu) no templo de Ebabara em Sipar, e que a rebelião dele começou naquela cidade. Isso explicaria o porquê de os textos mais antigos datados no reinado dele serem de Sipar, indicando que ele foi reconhecido pela primeira vez naquela área, enquanto Amel-Marduque ainda estava sendo reconhecido em Babilônia e em outros lugares por vários meses. Isso também poderia explicar a coincidência. – S. Zawadzki, “A Situação Política em Babilônia Durante o Reinado de Amel-Marduque”, em: J. Zablocka – S. Zawadzki (eds.), Šulmu IV: A Vida Cotidiana no Oriente Próximo da Antiguidade [Poznań 1993], págs. 309-317; cf. também J. MacGinnis no Revista da Sociedade Oriental Americana, vol. 120: I (2000), pág. 64.

Bel-Sum-Ichcun – foi ele um “rei de Babilônia”?

No final de sua consideração sobre as tabuinhas econômicas, os escritores de A Sentinela concluem na página 24: 

“Como já mencionado, as lacunas na historia registrada pelas crônicas babilônicas indicam que talvez não tenhamos um registro cronológico contínuo.10 Poderiam outros ter governado entre o reinado desses reis? Nesse caso, seria necessário acrescentar anos ao período neobabilônico.”

Para apoiar esta especulação, os autores prosseguem dizendo na nota de rodapé 10 da página 28: 

Considere o exemplo de Neriglissar. Uma inscrição real sobre ele declara que ele era “o filho de Bel-Sum-Ichcun”, o “rei de Babilônia”... poderia esse “rei de Babilônia”, Bel-Sum-Ichcun, ter governado por um tempo entre os dois? O professor universitário R. P. Dougherty reconheceu que “a evidência de que Neriglissar era de linhagem nobre não pode ser desconsiderada” – Os autores fazem referência à página 61 do livro de R. P. Dougherty, Nabonido e Belsazar, publicado em inglês em 1929. 

Deve-se frisar que R. P. Dougherty não sugere em parte alguma do livro dele que Bel-Sum-Ichcun tenha reinado durante o período neobabilônico. Desde que seu livro Nabonido e Belsazar foi publicado em 1929, a posição “nobre” de Bel-Sum-Ichcun foi esclarecida por outras descobertas. Ele nunca foi “rei de Babilônia”. Isto é refutado pelos textos que ligam diretamente o 2º ano de Amel-Marduque com o ano de ascensão de Neriglissar, como o “livro-razão” NBC 4897 (TGR4, págs. 153-156). Parece agora ter havido claramente uma má interpretação da inscrição real. A frase “rei de Babilônia”, que ocorre em uma das inscrições reais de Neriglissar, evidentemente se refere ao próprio Neriglissar, não ao pai dele.

As inscrições reais neobabilônicas disponibilizadas há mais de um século foram transliteradas e traduzidas para o inglês pelo assiriologista britânico Stephen Langdon (1876-1937). O primeiro volume, contendo as inscrições reais de Nabopolassar e Nabucodonosor, foi publicado em 1905. O segundo volume, que incluiu as inscrições a partir do reinado de Neriglissar, nunca foi publicado em inglês. Em vez disso, o manuscrito de Langdon foi traduzido para o alemão por Rudolf Zehnphund e publicado como Die neubabylonischen Königinschriften (Vorderasiatische Bibliothek [VAB], Band IV, Leipzig 1912). A inscrição que supostamente atribui a Bel-Sum-Ichcun o título de “rei de Babilônia” é alistada como “Neriglissar Nr. 1” nesse volume. O texto original em acadiano conforme transliterado por Langdon diz na Coluna I, linha 14 (págs. 210, 211):

“mâr I ilu bêl-šum-iškun šar bâbiliki a-na-ku”

Isto foi traduzido para o alemão como,

“der Sohn des Belšumiškun, des Königs von Babylon, bin Ich”

Uma versão mais consistente com os casos lingüísticos daria a seguinte tradução:

“der Sohn des Belšumiškun, der König von Babylon, bin Ich”

A tradução literal disso em português seria “o filho de Bel-Sum-Ichcun, o rei de Babilônia, sou eu”, e não “Eu sou o filho de Bel-Sum-Ichcun, rei de Babilônia.” Deve-se notar que a-na-ku (“sou eu”) está no final da frase e remete aos atributos anteriores que Neriglissar dá a si mesmo.

Isto parece ser o que foi escrito no manuscrito em inglês de Langdon. No livro de W. H. Lane, Problemas Babilônicos (Londres, 1923), que tem uma introdução feita pelo Professor S. Langdon, várias traduções para o inglês das inscrições neobabilônicas estão publicadas no Apêndice 2 (páginas 177-195). Afirma-se que elas foram tiradas da obra “Inscrições em Construções do Império Neobabilônico, de Stephen Langdon, traduzido por E. M. Lamond.” Uma dessas inscrições reais (a última do livro) é “Neriglissar I” (páginas 194, 195). A linha 14 do texto diz (pág. 194):

“O filho de Bel-Sum-Ichcun, rei de Babilônia, sou eu.”

É óbvio que esta frase pode ser entendida de duas maneiras. Ou a frase “rei de Babilônia” refere-se a Bel-Sum-Ichcun como rei ou se refere ao próprio Neriglissar. Como não foi encontrada qualquer tabuinha comercial que seja datada para Bel-Sum-Ichcun como rei de Babilônia, a frase é muito provavelmente uma referência a Neriglissar. Será que sabemos alguma coisa sobre Bel-Sum-Ichcun, além de ele ter sido o pai de Neriglissar?

Sabe-se que Neriglissar, antes de se tornar rei, foi um empresário bem conhecido. Várias tabuinhas comerciais fazem referência a ele como “Neriglissar, o filho de Bel-Sum-Ichcun.” Nenhuma dessas tabuinhas diz que Bel-Sum-Ichcun era, ou tinha sido rei de Babilônia (šar bâbiliki).  

É importante notar que Neriglissar menciona seu pai em outra inscrição de construção, “Neriglissar Nr. 2”, não como rei (SAR), mas como “príncipe sábio” (rubû e-im-ga). O mesmo título é também atribuído a ele num cilindro de argila danificado, mantido na Biblioteca de São Luís (EUA). – Langdon, VAB IV (1912), págs. 214, 215; J. A. Brinkman, Alter Orient und Altes Testament, Vol. 25 (1976), págs. 41-50.

Se Bel-Sum-Ichcun realmente foi, ou tivesse sido um rei (SAR), por que foi dado a ele o título “rubû”, até pelo seu próprio filho? A um rei de Babilônia sempre foi dado o título “SAR”. É verdade que “rubû” significa “governante, príncipe, nobre” e este título também pode se referir a um rei (Simo Parpola et al, Dicionário Assírio-Inglês-Assírio, Helsinque: Universidade de Helsinque, 2007, pág. 95), conforme os escritores de A Sentinela enfatizam na nota 10 da página 28. Mas o título comum para “rei de Babilônia” era “šar bâbiliki”.

Na realidade, a posição real de Bel-Sum-Ichcun é conhecida agora. A chamada “Lista da Corte”, um prisma encontrado na extremidade ocidental do novo palácio de Nabucodonosor, menciona onze oficiais distritais de Babilônia. Um deles é Bel-Sum-Ichcun, que é descrito lá como “príncipe” ou governador sobre “Puqudu”, um distrito na parte nordeste de Babilônia. Os funcionários na “Lista da Corte” mantiveram suas posições durante o reinado de Nabucodonosor. – Eckhard Unger, Babilônia (1931), pág. 291; D. J. Wiseman, Nabucodonosor e Babilônia (Oxford: Editora da Universidade de Oxford, 1985), págs. 62, 73-75.  

É bem evidente que a frase em acadiano é ambígua. Isso é mostrado, por exemplo, por J. M. Rodwell, que num artigo na obra Registros do Passado, Vol. V (Londres, 1892), traduziu a frase sem o sinal da segunda vírgula (naturalmente a escrita cuneiforme não usa qualquer vírgula), de modo que o título de “rei de Babilônia” é, naturalmente, dado a Neriglissar: “filho de BEL-SUM-ISKUN, rei de Babilônia eu sou”. (Página 139)

Os eruditos modernos em escrita cuneiforme concordam que essa tradução é tão possível quanto a outra. Um dos meus correspondentes enviou uma pergunta a Michael Jursa, um assiriólogo que é perito em escrita cuneiforme e linguagem acadiana. Num e-mail de 23 de outubro de 2006, ele explicou:

“Prezado Sr. -----,

O acadiano é realmente ambíguo. Se alguém quisesse, poderia entender ‘rei de B[abilônia]’ como se referindo ao nome anterior, ou seja, o pai de Neriglissar, em vez de ao próprio Neriglissar. Mas a outra explicação (ou seja, que o rei é Neriglissar) é tão boa quanto, e naturalmente sabemos que ela está correta:

O trecho significa ‘eu sou N[eriglissar], filho de BSHI [Bel-Sum-Ichcun], rei de Babilônia’ – ou em alemão, onde isso é mais claro por causa das terminações de caso - ‘Ich bin N, der Sohn des BSHI, der König von Babylon’. É mais um problema da língua inglesa, cuja tradução literal, que preserva a ordem das palavras do acadiano original, torna BSHI um rei, em vez de seu filho. Em acadiano, não é assim. Surpreende-me que Langdon tenha entendido errado – possivelmente o trabalho de um tradutor mal-informado que entendeu mal o original em inglês.

Com os melhores cumprimentos,

Michael Jursa”

Assim, Bel-Sum-Ichcun nunca foi um rei neobabilônico. Nenhum documento de qualquer tipo foi encontrado que seja datado no reinado dele. Nas tabuinhas econômicas, politicamente neutras, ele nunca é chamado de “rei” (šar), e o próprio Neriglissar o chama de “príncipe” (rubû), que era evidentemente o título correto de Bel-Sum-Ichcun. A alegação de que Neriglissar, em uma de suas inscrições de construção imponentes, chama-o uma vez de “rei de Babilônia,” é claramente uma má interpretação.

A explicação sugerida em forma de pergunta pelos autores na página 24 do artigo de A Sentinela, (“Poderiam outros ter governado entre o reinado desses reis [Amel-Marduque e Neriglissar]?), não só é absurda, como também é uma idéia totalmente contradita por diversas tabuinhas astronômicas que registram inúmeras observações datadas durante os reinados dos dois primeiros reis neobabilônicos, Nabopolassar e Nabucodonosor. A cronologia absoluta de seus reinados é estabelecida por estas observações.

Algumas tabuinhas cuneiformes conectam um rei com o próximo de uma maneira que impede a inserção de reis ou anos de reinado adicionais entre eles. Este é o caso do Livro-Razão NBC 4897, mostrado aqui, que tabula o crescimento anual de um rebanho de ovelhas e cabras pertencentes ao templo de Eana em Uruque durante dez anos consecutivos, do 37º ano de Nabucodonosor até o primeiro ano de Neriglissar (568-559 AEC). Só esta tabuinha já mostra que não há espaço para um rei adicional, tal como o pai Neriglissar, Bel-Sum-Ichcun, entre Nabucodonosor e seu filho Amel-Marduque e entre Amel-Marduque e Neriglissar. (TGR4, páginas 153-156). A tentativa que Rolf Furuli fez de descartar este livro-razão é examinada num artigo crítico publicado na internet, cuja tradução encontra-se em: http://www.mentesbereanas.org/criticafuruli_parte4.htm

As Tabuinhas Astronômicas

A Sentinela: “O que são?”

Em sua consideração sobre as tabuinhas astronômicas, os escritores de A Sentinela começam argumentando que as tabuinhas que registram eclipses podem não conter relatos de observação, e sim cálculos retroativos de um período muito posterior (páginas 24 e 25). Eles fazem referência a uma tabuinha, BM 32238 (Nº. 2 em Hermann Hunger [ed.], Diários Astronômicos de Babilônia e Textos Relacionados [ADRT], Vol. V, 2001, páginas 2-7), que contém relatos de eclipses lunares e eclipses possíveis em intervalos de 18 anos, datados desde o 1º ano de Mukin-zeri (731 AEC) até o 7º ano de Filipe Arrideu (317 AEC). O nome deste último só está preservado parcialmente e é traduzido como “Fil[i ....]”.

A tabuinha está danificada e parcialmente quebrada. A parte que originalmente abrangia o período de 659-389 AEC está totalmente apagada. Além disso, o único nome de rei preservado na tabuinha, além dos dois mencionados acima é “Antígonos” no final da tabuinha, precedido por seu “2º ano” (316 AEC).

De modo que a tabuinha não tem qualquer relação direta com a cronologia do período neobabilônico (625-539 AEC). Pode-se questionar por que os autores de A Sentinela optaram por começar fazendo referência a esta tabuinha, até mesmo mostrando uma foto dela na parte inferior da página 24, quando existem várias outras tabuinhas que descrevem eclipses lunares datados diretamente em reinados durante o período neobabilônico. (Veja TGR4, páginas 201-219).

A Tabuinha BM 38462 (LBAT 1420)

Em uma consideração sobre a data da destruição de Jerusalém no 18º ano de Nabucodonosor, uma tabuinha mais adequada e pertinente para considerar e mostrar uma foto teria sido a BM 38462, classificada como nº 1420 em A. J. Sachs, Astronomia Babilônica da Antiguidade e Textos Relacionados (LBAT), Providence, Rhode Island: Editora da Universidade Brown, 1955. Uma transliteração e tradução desta tabuinha, feita por Hermann Hunger, está publicada em ADRT V, nº 6, páginas 26-30. A tabuinha contém registros anuais de eclipses lunares datados nos primeiros 29 anos de Nabucodonosor (604-576 AEC). Conforme observa o professor John Steele, a tabuinha “foi provavelmente compilada pouco tempo depois de -575”, ou seja, pouco depois de 576 AEC. (ADRT V, página 391) Só esta tabuinha já é suficiente para fixar o 18º ano de Nabucodonosor em 587 AEC e para refutar a data 607 AEC da Torre de Vigia para a destruição de Jerusalém!

É verdade que partes da tabuinha estão danificadas, mas ainda existem muitos registros de eclipses lunares preservados. Vários desses eclipses são previsões, mas os detalhes de cerca de uma dúzia de eclipses lunares observados estão também preservados, sendo possível testar suas datas com a ajuda de um cânon de eclipses atualizado ou um software de astronomia moderno. Seria cansativo apresentar ao leitor um exame detalhado de todos esses relatórios. Em uma consideração anterior sobre esta tabuinha, o exame de dois registros foi apresentado, ou seja, os registros para o 11º e 25º anos de Nabucodonosor. (TGR4, páginas 212-214).

Um terceiro registro, o referente ao 17º ano dele é examinado a seguir. A tabuinha registra dois eclipses nesse ano:

“[Ano] 17, mês IV, [omitido].

[Mês] X, dia 13, vigília da manhã, 1 bēru 5º [antes do nascer do sol?]

toda ela foi coberta. [Foi eclips]ada.”

Na cronologia tradicional, o 17º ano de Nabucodonosor começou em 1º de nisã de 588 AEC (3/4 de abril). O mês quatro (IV) começou em 1/2 de julho. Como ocorre com freqüência em textos referentes a eclipses, o número referente ao dia do eclipse é deixado de fora. A razão é, naturalmente, que no calendário lunar babilônico os meses sempre começavam na lua nova. Como os eclipses sempre ocorrem na lua cheia, o dia do eclipse sempre caía no meio do mês, ou próximo disso, neste caso na manhã do dia 15. De acordo com o programa que eu uso (SkyMap Pro 11), o eclipse começou às 07:18h. Porém, como a lua já tinha se posto às 04:50h e estava abaixo do horizonte no começo do eclipse, este eclipse foi “omitido”, isto é, não foi visível em Babilônia.

O segundo eclipse ocorreu seis meses depois, no mês dez (X), o qual começou em 26/27 de dezembro de 588 AEC (Parker & Dubberstein). O dia 13 daquele mês, desta forma, caiu em 7/8 de janeiro de 587 AEC. Como o texto diz que o eclipse ocorreu na “vigília da manhã”, deve-se procurá-lo na manhã de 8 de janeiro. O texto diz ainda que ele começou a “1 bēru  [antes do nascer do sol]”. Como um bēru equivalia a duas horas e 1º (em acadiano) equivalia a 4 minutos, o texto dá a informação de que o eclipse começou 2 horas e 20 minutos (5 ) antes do nascer do sol.

Isto é plenamente confirmado pelo software de astronomia. Ele mostra que o eclipse começou às 4:51 da manhã do dia 8 de janeiro de 587 AEC, e que o nascer do sol ocorreu às 07:12, isto é, 2 horas e 21 minutos depois. A diferença de um minuto entre a tabuinha e a informação do software pode ser ignorada, já que a menor unidade de tempo usada neste texto é o (4 minutos).

Por fim, o texto diz que “toda ela foi coberta. [Foi eclips]ada.” Isso significa que o eclipse foi total, e que a lua ainda estava eclipsada quando se pôs. Isso é também confirmado pelo programa. Ele mostra que foi um eclipse total e que a fase de totalidade começou às 05h53min e durou até 07h38min. Como a lua se pôs às 07h17min da manhã, a lua ainda estava totalmente eclipsada quando se pôs.

De modo que este registro confirma plenamente que o 17º ano de Nabucodonosor começou em 1º de nisã de 588 AEC, o que significa que o seu 18º ano, quando ele desolou Jerusalém, começou em 1º de nisã de 587 AEC.

Na cronologia da Torre de Vigia, porém, o 17º ano de Nabucodonosor começou 20 anos antes, em 1º de nisã de 608 AEC. É verdade que houve dois eclipses naquele ano também. O primeiro ocorreu em 24 de agosto de 608 AEC, e o segundo em 19 de janeiro de 607 AEC. O primeiro, no entanto, não foi “omitido”. Foi um eclipse parcial, que começou às 03h06min e pôde ser visto em Babilônia por quase duas horas e meia, até o momento em que a lua se pôs, às 05h29min.

O segundo eclipse, por outro lado não foi “total”. Foi um eclipse penumbral que foi “omitido”, isto é, que foi invisível em Babilônia. Nenhum desses eclipses se encaixa com qualquer um dos detalhes registrados na BM 38462 (LBAT 1420).

A Sentinela: “O que os eruditos dizem?”

E quanto à alegação na revista A Sentinela de que os astrônomos babilônicos dos séculos posteriores eram capazes de fazer “cálculos para trás no tempo a fim de saber quando os eclipses ocorreram”? (página 24) Será que eles eram capazes de calcular retroativamente, não só o momento dos eclipses no passado distante, como também outros detalhes registrados nas tabuinhas de eclipses lunares, tais como o intervalo de tempo entre o início de um eclipse e o nascer do sol, como encontramos na BM 38462, considerada acima?

Nas páginas 24 e 25 os escritores de A Sentinela citam dois eruditos que parecem apoiar essa idéia. O primeiro é o professor John M. Steele, que é citado como tendo dito que: “É possível que algumas das primeiras predições tenham sido feitas por meio de cálculos para trás na época em que o texto foi compilado.” A fonte mencionada na nota 13 da página 28 é o ADRT V, de Hermann Hunger (ed.), página 391.

O segundo erudito é o Dr. David Brown (chamado erroneamente de “Professor” pelos escritores de A Sentinela), o qual afirma que é concebível que alguns dos eventos astronômicos preditos eram “cálculos retroativos realizados por escribas no quarto século a.C ou em séculos posteriores”. A fonte referenciada na nota 14 da página 28 é da obra Astronomia-Astrologia Planetária da Mesopotâmia (2000), de David Brown, páginas 164, 201-202.

A impressão que se transmite ao leitor desinformado é que os astrônomos babilônicos no 4º século AEC e depois disso, eram capazes de utilizar cálculos matemáticos para determinar em que momento os eclipses em séculos anteriores tinham ocorrido, inclusive os relatados como sendo observações. Não se informa ao leitor que (1) os astrônomos babilônicos no 4º século e depois eram incapazes de projetar corretamente eclipses para trás ou para frente em centenas de anos, e (2) eles também eram incapazes de calcular vários detalhes sobre os eclipses lunares relatados na tabuinha que só poderiam ter sido observados diretamente. (Veja TGR4, páginas 217-219, 426-434).

O que os eruditos realmente disseram?

Ao verificarmos as fontes referidas, torna-se evidente que os eruditos citados não estão discutindo “diários” astronômicos (tais como o VAT 4956, considerado abaixo) ou textos contendo observações de eclipses consecutivos ou relatórios de observações de eclipses específicos, e sim um grupo específico de tabuinhas nas quais os eclipses estão “dispostos em colunas de maneira tal que cada registro de uma coluna é separado do registro na coluna anterior por um Saros [ciclo] de 18 anos.” Seis tabuinhas no volume ADRT V pertencem a este grupo (categoria ii na classificação de John Steele dos textos de eclipses, ADRT V, página 390), ou seja, n° 2, 3, 4, 9, 10 e 11. As de N°s 2, 3, 4, 9 e 10 registram eclipses lunares, enquanto a de N° 11 registra eclipses solares. Na verdade, a N° 2, é a mesma tabuinha mostrada pelos escritores de A Sentinela na página 24, a BM 32238. As de Nºs 2, 3 e 4 “parecem todas ser parte da mesma série contendo eclipses lunares e provavelmente foram registradas pelo mesmo escriba”, diz Steele. Quando completo, o texto conteria 24 colunas de ciclos de Saros, abrangendo um período de 432 anos, de 747 a 315 AEC. (John Steele em ADRT V, página 391).

John Steele, que examinou estas tabuinhas de eclipses lunares bem cuidadosamente, conclui que todas elas contêm registros tanto de observações como de previsões. (John Steele, em ADRT V, páginas 395, 397; cf. também J. M. Steele, Observações e Previsões de Períodos de Eclipses Por Astrônomos, 2000, e seu artigo, “Previsão de Eclipse na Mesopotâmia”, Arquivo de História das Ciências Exatas, Vol. 54, 2000, páginas 421-454.) Conforme dito acima, as observações nas tabuinhas muitas vezes relatam detalhes que não poderiam ter sido previstos nem calculados retroativamente. A questão levantada tanto por John Steele como por David Brown é se algumas das previsões registradas poderiam ter sido cálculos retroativos.

É neste contexto que Steele sugere que “é possível que algumas das primeiras predições tenham sido feitas por meio de cálculos para trás na época em que o texto foi compilado.”

Isso não significa que os eruditos de Babilônia no quarto século AEC eram capazes de projetar os períodos deles centenas de anos para trás no tempo e calcular corretamente os detalhes sobre eclipses lunares ocorridos no passado distante. Esta é a impressão transmitida pelos escritores de A Sentinela. A maior precisão dos períodos e dos parâmetros utilizados no quarto século AEC e posteriormente, ainda era grosseira em comparação com os dados mais exatos à disposição dos eruditos de hoje, e projetá-los para trás logo produziria resultados cada vez mais errôneos que seriam facilmente detectados hoje. As declarações dos dois eruditos, Steele e Brown, foram deturpadas na revista A Sentinela. Veja a carta de Steele no Apêndice ao final deste artigo.

Porém, um erudito babilônico poderia ter começado com uma observação registrada de, por exemplo, 685 AEC e calcular o período aproximado de um eclipse ocorrido pouco antes daquele ano, talvez até mesmo um período de Saros (18 anos e aproximadamente 8 horas) antes, em 703 AEC. Isso daria resultados semelhantes como se ele tivesse sido previsto pouco antes de 703 AEC, talvez com antecedência de cinco ou seis meses, ou um ciclo de Saros inteiro. Os erros nos momentos da ocorrência desses eclipses lunares calculados geralmente eram de cerca uma hora e meia, enquanto que os erros no caso dos eclipses observados eram de aproximadamente meia hora ou menos, segundo as descobertas de John Steele. (TGR4, página 207, nota 45) Estender os ciclos de Saros para frente ou para trás em períodos mais longos, no entanto, logo teria causado erros grosseiros.

Assim, usando o relatório de uma antiga observação genuína datada no dia, mês e ano de um rei reinante possibilitaria um erudito babilônico vivendo no século 4 AEC ou depois disso projetar para trás a partir dessa observação, para descobrir a data de um eclipse que tinha ocorrido cerca de 5 ou 6 meses antes ou, usando o ciclo de Saros, até mesmo 18 anos antes. Estes tipos de cálculos retroativos pressupunham, é claro, que as tabuinhas usadas registravam observações genuínas de eclipses.

Essa “projeção do esquema para trás” é “possível”, conforme diz Steele. E David Brown concorda, embora ele considere “muito mais provável” que os eclipses lunares que as tabuinhas dizem terem sido “omitidos” ou “que passaram” eram previsões. Na declaração parcialmente citada pelos autores do artigo de A Sentinela Brown conclui (a parte citada em A Sentinela está sublinhada): 

“Assim, embora seja possível que as previsões de eclipses datando de 731, 686, 684, 677, 668 e 649 AC eram, na verdade, cálculos retroativos realizados por escribas no quarto século a.C ou em séculos posteriores, é muito mais provável que eles eram previsões feitas e registradas pouco antes de cada um desses anos, e que só posteriormente foram incorporadas ao Cânon Saros.” – D. Brown, op. cit., páginas 201, 202.

É evidente que Brown designa o grupo específico de tabuinhas que abrangem 18 anos, considerado acima, como o Cânon Saros. (Op. cit., página 182 nota 425, 190, 201-202 e 261 § 39.) Estritamente falando, porém, o Cânon Saros é outra tabuinha pertencente a um grupo diferente de textos, a categoria V na classificação de Steele dos textos de eclipses. As cinco tabuinhas listadas neste grupo são todas textos teóricos. Eles não registram quaisquer observações ou previsões, mas simplesmente alistam possibilidades de eclipses em intervalos de 18 anos. (Veja TGR4, páginas 203, 204, notas 41 e 42 e página 218, nota 62).

Esta tabuinha de Cânon Saros, BM 34597, fornece possibilidades de eclipses lunares em anos e meses de reinado, do 4º ano de Artaxerxes II (401 AEC) ao 40º da Era Selêucida (272 AEC). O esquema, no entanto, é o mesmo que o do grupo de textos considerado acima: os eclipses lunares são agrupados em colunas de 18 anos de intervalo. Uma discussão e tradução do Cânon Saros está publicada em A. Aaboe et al, “Datas de Ciclos Saros e Textos Astronômicos Babilônicos Relacionados”, Realizações da Sociedade Filosófica Americana, Vol. 81:6 (1991), páginas 12-22.

A astrologia como uma razão para a astronomia babilônica

Com o objetivo de enfraquecer ainda mais o valor histórico e cronológico das tabuinhas astronômicas, os autores de A Sentinela explicam que o interesse babilônico nos fenômenos celestes era motivado pela astrologia. O erudito R. J. van der Spek é citado como dizendo: “Os compiladores eram astrólogos, não historiadores”. Por esta razão as observações históricas “mais ou menos casuais” nas tabuinhas devem “ser usadas com cautela”. A fonte citada na nota 15 da página 28 do artigo de A Sentinela é o artigo de van der Spek em Bibliotheca Orientalis, L nº 1/2, 1993, páginas 94, 102. (A referência à página 102 está errada, pois essa página está em branco. O artigo termina na página 101.)

Contudo, nem todas as tabuinhas que registravam observações astronômicas foram escritas por motivos astrológicos. Os diários astronômicos, por exemplo, não dão qualquer indicação de terem sido elaborados para este fim, embora alguns eruditos tenham alegado isso. Porém, outros eruditos eminentes discordam. Na obra Ciências Astrais na Mesopotâmia (Leiden-Boston-Köln: Brill, 1999), o professor Hermann Hunger e o professor David Pingree apresentam seis razões pelas quais os diários não estão associados com presságios, mas foram compilados para fins astronômicos (páginas 139-141 em inglês). Muitas observações relatadas não eram consideradas ominosas pelos babilônios. Estas incluem o tempo atmosférico, que era relatado porque às vezes impedia observações. Isso prova também que, quando as condições atmosféricas não impediam estudos celestes, os diários normalmente registravam observações, não cálculos retroativos.

Porém, mesmo o motivo astrológico não torna a informação astronômica e cronológica nas tabuinhas menos confiável. Pelo contrário, conforme enfatiza o Dr. A. Pannekoek, “a motivação astrológica, por exigir maior atenção na observação da lua, contribuiu para dar mais base à cronologia.” Como exemplo, ele cita a instrução para os antigos eruditos dada no Enuma Anu Enlil, uma coleção de presságios antigos datando, em sua forma final, no período neo-assírio: 

Quando a Lua for eclipsada observarás com exatidão o mês, o dia, a vigília noturna, o vento, o curso e a posição das estrelas em cujo reino o eclipse ocorre. Indicarás os presságios relativos ao mês, ao dia, à vigília noturna, ao vento, ao curso e às estrelas deste eclipse.” – Uma História da Astronomia, A. Pannekoek (em inglês – Londres: George Allen & Unwin Ltd, 1961), págs. 43, 44. Veja TGR4, páginas 390, 391. 

O Dr. David Brown enfatiza o resultado do estudo cuidadoso dos fenômenos supostamente ominosos no céu, feito pelos eruditos da Assíria e de Babilônia, na obra citada pelos autores de A Sentinela: 

“Tanto o assunto principal como a escolha de quais detalhes específicos deveriam ser registrados com precisão foram determinados pelo Paradigma EAE [Enuma Anu Enlil]. Observei que foi mantido um registro contínuo ao longo de muitas décadas, até mesmo séculos, e que as datas e horas foram registradas com especial precisão.”... 

“A intenção, ou pelo menos o resultado, era produzir uma grande base de dados de material que permitiria que alguns eruditos, talvez só os de gerações posteriores, deduzissem períodos e parâmetros relevantes para cada planeta que resultariam em se conseguir prever o comportamento ominoso desse planeta.”...  

“No entanto, a hipótese central foi imutável ao longo dos séculos – o registro exato dos fenômenos ominosos forneceu os dados a partir dos quais puderam ser deduzidos períodos e parâmetros peculiares que tornaram tais fenômenos previsíveis.” – David Brown, Astronomia-Astrologia Planetária Mesopotâmica (Groningen, 2000), páginas 188, 189. Ênfase acrescentada. 

Segundo estima o professor Hermann Hunger, só cerca de 5% desta “grande base de dados” foi preservada. Originalmente, ela pode ter contido cerca de 210.000 registros de observações datadas, acumuladas durante um período de 600 anos, do oitavo século AEC até a era Selêucida. (TGR4, páginas 428, 429). Os eruditos babilônicos usaram essa base de dados para examinar e refinar os períodos da lua e dos planetas. A base de dados proveu uma cronologia exata para todo este período, o que era uma condição essencial para que eles pudessem melhorar suas previsões. Adicionar ou subtrair anos nesta cronologia (acrescentando 20 anos aos reinados neobabilônicos, por exemplo) faria os eruditos basearem seus cálculos dos parâmetros e dos períodos numa cronologia errada, tornando os períodos cada vez mais imprecisos e inúteis.

Finalmente, a declaração de R. J. van der Spek de que as observações históricas ocasionais nos “diários” devem ser “usadas com cautela”, não significa que elas são inúteis. Pelo contrário, o próprio van der Spek mostrou em vários artigos que estas observações geralmente são historicamente confiáveis ​​e contribuíram para o esclarecimento de vários problemas históricos, principalmente nos últimos séculos AEC. Veja os artigos em Archiv für Orientforschung, 1997/1998, páginas 167-175, e Bibliotheca Orientalis, nº 1/2, 1993, páginas 91-101, e nº 5/6, 2005, páginas 546-553.

A Sentinela: “O que os documentos mostram?”

VAT 4956 – é o eclipse lunar realmente o de 15 de julho de 588 AEC?

Embora o subtítulo desta seção se proponha a tratar dos “documentos [astronômicos]”, os autores da revista A Sentinela consideram um único documento – o “diário” astronômico VAT 4956. Isso é compreensível, pois só esta tabuinha já derruba completamente a cronologia da Torre de Vigia. Por isso, ela não pode ser ignorada. Os autores começam admitindo que as cerca de 30 posições da lua e dos planetas registradas nesta tabuinha e datadas em dias e meses específicos do 37º ano de Nabucodonosor se ajustam ao ano 568/567 AEC. Admitem também que um eclipse lunar mencionado na tabuinha “que, segundo os cálculos, ocorreu no 15.° dia do terceiro mês babilônico, simanu”, corresponde a “um eclipse lunar nesse mês em 568 AEC — 4 de julho no calendário juliano.” (página 25) Mas, daí eles acrescentam:

“No entanto, também houve um eclipse 20 anos antes, em 15 de julho de 588 AEC.”

Isto é verdade. O primeiro problema com este eclipse, porém, é que ele também está registrado na tabuinha considerada acima, na seção “A Tabuinha BM 38462 (LBAT 1420)”. Esta tabuinha data o eclipse no mês quatro (IV) do 17º ano de Nabucodonosor, e não no mês três (III) do 37º ano dele, como é o caso do eclipse na VAT 4956.

Na cronologia da Torre de Vigia o 17º ano de Nabucodonosor caiu em 608/607 AEC. Conforme se mostrou na consideração acima, nenhum dos dois eclipses registrados na BM 38462 que ocorreram no 17º ano de Nabucodonosor se ajusta ao ano 608/607 AEC!

Um segundo problema com essa transferência do eclipse da VAT 4956 de 568 para 588 AEC é que nunca o terceiro mês babilônico, simanu, começou tão tarde no ano como o mês de julho. Se 15 de simanu correspondeu a 15 de julho, o dia 1º de simanu corresponderia a 30 de junho/1º de julho. Dessa forma, o novo ano que começou dois meses antes, em 1º de nisã, também teria caído muito tarde, em 2/3 de maio de 588 AEC, como os escritores da revista A Sentinela admitem na nota 17 da página 28.

Um terceiro problema é que todas estas datas cairiam muito tarde no calendário babilônico. O ano novo babilônico nunca começou tão tarde como o mês de maio. Conforme demonstrado por Parker & Dubbestein em Cronologia Babilônica, ele sempre começou em março ou abril. Isto foi verdade, não só durante o período neobabilônico e antes, como também durante os períodos persa e selêucida e depois, incluindo o primeiro século da era cristã. Durante 700 anos, o novo ano sempre começou em março ou abril, nunca, em maio.

Se os autores da revista A Sentinela insistem que uma vez durante este longo período, a saber, em 588 AEC o ano novo começou tão tarde quanto 2/3 de maio, isso foi um caso único. Para um erudito imparcial e sério, a conclusão óbvia é que esta idéia é uma invenção dos autores de A Sentinela, numa tentativa desesperada de mudar a data duma tabuinha que, por si só, destrói totalmente a cronologia da Torre de Vigia.

A observação na nota 17 da página 28, de que a linha 6 da VAT 4956 mostra que houve um mês extra, um adaru intercalar, adicionado no final do ano anterior, não apóia a data 588 AEC, como os escritores de A Sentinela parecem acreditar. Na cronologia da Torre de Vigia o ano calendar babilônico que precedeu 588 AEC, ou seja, 589/88 AEC, já caiu tão tarde (14/15 de abril) que não precisou de um mês extra! É este mês extra que move o 1º de nisã de 588 AEC para bem tarde no calendário babilônico. O problema desaparece se a VAT 4956 for datada no ano ao qual ela pertence, 568 AEC, porque o mês extra no ano anterior (569/568) move o 1º de nisã de 568 AEC só até 22/23 de abril daquele ano.

VAT 4956 – será que os 13 eclipses lunares realmente se ajustam a 588 AEC?

Na página 25, os escritores da revista A Sentinela explicam quais são os outros tipos de fenômenos celestes que são relatados na VAT 4956, afirmando que a tabuinha “contêm 13 grupos de observações lunares e 15 observações planetárias. Elas descrevem a posição da Lua ou de planetas em relação a certas estrelas ou constelações. Há também oito intervalos de tempo entre o nascer e o pôr do sol e o nascer e o pôr da lua.” A maioria dessas observações se encaixa no ano 568 AEC de maneira excelente. Mas, até que ponto elas se ajustam ao ano 588 AEC?

Muito mal, na verdade. É por isso que os autores de A Sentinela começam explicando, nas notas 18 e 18a da página 28, por que eles não levam em consideração os dois últimos grupos, as observações planetárias e os oito intervalos de tempo. Sobre as 15 posições planetárias eles afirmam que, 

“alguns dos símbolos para os nomes dos planetas e suas posições não são claros... Por causa disso, as observações planetárias estão abertas a especulação e a várias interpretações.” (Nota 18 da página 28 de A Sentinela)

E sobre os oito intervalos de tempo eles prosseguem dizendo na nota 18a: 

“Estes intervalos de tempo [lunar threes] são a medição de tempo, por exemplo, do pôr do sol ao pôr da lua no primeiro dia do mês e durante dois outros períodos mais tarde no mês... Para antigos observadores, medir esse período exigia um tipo de relógio. Essas medições não eram confiáveis.” (Nota 18a da página 28)

Estes argumentos, apresentados evidentemente para se livrar das observações que não se ajustam ao ano 588 AEC, serão examinados a seguir. Mas, primeiro vamos verificar como os autores da revista A Sentinela abordam as 13 observações lunares registradas na tabuinha.

Conforme explicado em minha crítica da Parte Um do artigo de A Sentinela, a consideração dos autores parece ser claramente baseada nos dois livros de Rolf Furuli sobre cronologia. A primeira edição do Volume 2, Cronologia Assíria, Babilônica e Egípcia, foi publicada no outono [setentrional] de 2007. Um quarto do livro (cerca de 90 páginas) foi dedicada à consideração sobre a VAT 4956. Mais tarde no mesmo ano (2007) a Parte I de minha análise crítica desta primeira edição do livro foi publicado no site Kristen Frihet (Liberdade Cristã). [A tradução desta matéria está em: http://www.mentesbereanas.org/criticafuruli_parte1.htm]. Foi demonstrado que a tentativa de Furuli (no Capítulo 6 e Apêndice C do livro dele) de mudar as datas das 13 observações lunares registradas no diário astronômico VAT 4956 estava errada. Evidentemente devido à minha crítica, Furuli reescreveu partes de sua consideração sobre a VAT 4956 e lançou rapidamente uma segunda edição revisada de seu livro, publicando-a em maio de 2008. Ele chegou a enviar e-mails para pessoas que receberam a primeira edição e pediu de volta as cópias que ele tinha enviado até então, incluindo as cópias enviadas a revistas eruditas, dizendo aos destinatários que ele enviaria uma cópia da nova edição.

Entretanto, um exame das revisões de Furuli na 2ª edição mostra ser nada mais que outra tentativa fracassada de neutralizar a evidência histórica atestada pela VAT 4956. Muito poucas mudanças foram feitas no restante do livro. Em minha consideração das 13 observações lunares, as datas das seis primeiras observações dele foram deixadas inalteradas, enquanto as datas do resto foram recuadas em um dia. Um exame dessas novas datas mostra que as observações ainda não se ajustam a 588 AEC.

Como um exemplo, o texto para 2 de adaru (dia 2 do mês XII) diz:

“Noite do dia 2, a lua estava balanceada 4 côvados [8º] abaixo de η Touro.”

Na primeira edição, Furuli datou o 2 de adaru em 25 de março de 587 AEC. Na noite daquele dia, aproximadamente às 19h00min, a lua estava a cerca de 10,5º a sudeste de η Touro (também conhecida como Alcione, a estrela mais brilhante do aglomerado das Plêiades). Mais tarde naquela noite a distância era ainda maior (12,3º às 23:00h, por exemplo). Este ajuste definitivamente não era “excelente”, como Furuli escreveu.

Na segunda edição, Furuli recuou a data em um dia, para 24 de março de 587 AEC (página 330). Naquela noite, a distância não era “4 côvados” como Furuli diz, e sim 6,2 côvados [12,4º] abaixo de η Touro. Furuli declara que este é um ajuste “excelente”, o que não é. É ainda pior do que na data anterior dele (25 de março)!

Na cronologia convencional o dia 2 de adaru corresponde a 15 de março de 567 AEC. O programa de computador mostra que às 19h00min desse dia a lua estava 4 côvados (8º) abaixo de η Touro. Esta posição concorda exatamente com a fornecida na tabuinha, por isso é uma excelente combinação!

Para dar outro exemplo, o texto para 10 de simanu (dia 10 do mês III) diz:

“Noite do dia 10, primeira parte da noite, a lua estava balanceada 3 ½ côvados acima de α Escorpião.”

Na primeira edição Furuli tinha datado esta observação em 10 de julho de 588 AEC (página 325). O comentário dele foi: “A lua estava 3 ½ côvados (7º) acima de α Escorpião, de modo que o ajuste é excelente.” No entanto, na “primeira parte da noite” a lua estava mais de 5 côvados (mais de 10º) a nordeste de α Escorpião. Claramente, o ajuste não é “excelente”. É ruim em comparação com o ajuste em 568 AEC, quando em 10 de simanu (29 de junho) o programa de computador mostra que a lua ficou 4 côvados (8º) acima (ao norte) de α Escorpião. Este é um bom ajuste, sendo a diferença entre o texto e o programa de computador de apenas 0,5 côvado (1º).

Na segunda edição do Volume 2, Furuli recuou a data para 9 de julho de 588 AEC (página 325). É notável que o comentário dele ainda foi: “A lua estava 3 ½ côvados (7º 16’) acima de α Escorpião, de modo que o ajuste é excelente.” Mas o programa de computador mostra que a lua na “primeira parte da noite” estava 5 côvados a noroeste de α Escorpião, de modo que o ajuste é tão ruim quanto a data anterior dele (10 de julho).

Nenhuma das outras novas datas na 2ª edição é “excelente” também. Portanto, a conclusão no final de meu artigo no site ainda é válida:  

“Em resumo, pelo menos 10 das 13 posições lunares examinadas se ajustam muito bem à data 568/567 AEC, uma (a de nº. 10) é aceitável, ao passo que duas (nº. 2 e nº. 5) são aceitáveis com a condição de que as datas sejam recuadas em um dia. Das datas de Furuli em 588/587 AEC somente uma (a de nº. 12) se ajusta bem, enquanto 9 delas não correspondem de modo algum. As três restantes (nº. 9, nº.10 e nº.11) estão longe de terem uma boa correspondência, embora sejam aceitáveis. 

A conclusão é que as observações foram feitas em 568/567 AEC. O ano 588/587 AEC está definitivamente fora de questão.” 

Os eruditos que analisaram a alegação de Furuli, incluindo eminentes peritos em tabuinhas astronômicas, concordam que as posições lunares apóiam 568/567 AEC, mas não 588/587 AEC, a data de Rolf Furuli. Veja os comentários do Professor Hermann Hunger sobre as observações lunares em sua análise do livro de Furuli, seção C6, págs. 316-333, que está disponível na internet, em http://kristenfrihet.se/kf4/reviewHunger.htm

Em vista disso, a conclusão dos escritores da revista A Sentinela nas páginas 25 e 27 é impressionante: 

“Por causa da confiabilidade superior das posições lunares, os pesquisadores examinaram cuidadosamente os 13 grupos de posições lunares na VAT 4956. Eles analisaram os dados com a ajuda de um programa de computador capaz de mostrar a localização de corpos celestes em determinada data no passado. O que essa análise revelou? Ao passo que nem todos esses grupos de posições lunares são compatíveis com o ano 568/567 AEC, os 13 grupos são compatíveis com posições calculadas para 20 anos antes, ou seja, para o ano 588/587 AEC.” 

Quem são estes “pesquisadores” que se diz que “examinaram cuidadosamente” os 13 grupos de posições lunares? Os nomes dos eruditos citados nesses artigos de A Sentinela sobre cronologia geralmente são fornecidos nas notas de rodapé. Mas, estranhamente, os “pesquisadores” mencionados aqui não são identificados. No entanto, a afirmação reflete a conclusão de Rolf Furuli, que nas páginas 332 e 333 da segunda edição em inglês de seu Volume 2 afirma que o ajuste de todos os 13 eclipses lunares ao ano 588/587 AEC é “excelente”. Pelo que eu sei, ele é o único pesquisador que fez esta afirmação.

A única conclusão que posso tirar disso é que ou os autores do artigo da revista A Sentinela não têm capacidade de usar um programa de astronomia corretamente para conferir suas alegações, ou estão mentindo. Em vista do fato de que toda a “informação” do artigo baseia-se nos livros do apologista da Torre de Vigia, Rolf Furuli, minha conclusão é que só ele constitui esses “pesquisadores” não identificados.

VAT 4956 – será que os nomes dos planetas e suas posições “não são claros”?

Conforme já dito, os autores de A Sentinela preferiram não considerar as 15 observações planetárias registradas na VAT 4956, alegando que “alguns dos símbolos para os nomes dos planetas e suas posições não são claros... Por causa disso, as observações planetárias estão abertas a especulação e a várias interpretações.” A fonte a que se faz referência é Astronomia-Astrologia Planetária da Mesopotâmia, de David Brown, 2000, páginas 53-57.

É verdade que David Brown está considerando os símbolos para os nomes dos planetas nas páginas mencionadas. É também verdade que nomes diferentes às vezes poderiam ser usados para todos os planetas, e que os mesmos nomes foram também usados às vezes para outros planetas, estrelas ou constelações.

Mas o que os autores da revista A Sentinela não dizem aos leitores é que David Brown mostra, nas páginas 55 e 56, que os planetas também tinham nomes exclusivos, que não eram usados para quaisquer outros planetas, estrelas ou constelações. O diário VAT 4956 consistentemente só usa estes nomes exclusivos dos planetas. São eles: 

Nomes exclusivos para os cinco planetas visíveis usados ​​na VAT 4956

Mercúrio

dgu4-ud (dGU4-UD)

Vênus

ddele-bat

Marte

an (AN)

Júpiter

dsag-me-gar (dSAG-ME-GAR)

Saturno

genna and dsag-uš (dGENNA and dSAG-UŠ)

Como não se exige muita pesquisa para descobrir que estes nomes exclusivos são consistentemente usados ​​na VAT 4956, pode-se indagar por que os autores de A Sentinela não revelam isso. A identificação dos planetas na VAT 4956 é clara e inequívoca e não gera problema algum. Portanto, parece claro que a única razão pela qual os escritores de A Sentinela preferiram ignorar as posições planetárias registradas na VAT 4956, é que elas se ajustam ao ano 568 AEC, não a 588 AEC.

Uma questão adicional a se considerar é o fato de os planetas se moverem ao longo da eclíptica em velocidades diferentes, devido às suas diferentes distâncias do sol. Os eruditos babilônicos conheciam (aproximadamente) a velocidade de cada planeta, e por observarem suas posições ao longo da eclíptica regularmente, dia após dia e mês após mês, eles sabiam para que planeta estavam olhando. 

O movimento dos planetas ao longo da eclíptica

Mercúrio

1º em aproximadamente 6 horas

Vênus

1º em aproximadamente 15 horas

Marte

1º em aproximadamente 2 dias

Júpiter

1º em aproximadamente 12 dias

Saturno

1º em aproximadamente 30 dias

Quando os eruditos modernos descobrem que uma tabuinha usa um nome diferente para certo planeta, ou que um planeta num texto planetário não tem qualquer identificação, eles ainda podem identificá-lo por verificar suas posições registradas na tabuinha dia após dia, mês após mês e ano após ano. Mesmo no caso destas tabuinhas, portanto, os problemas levantados pelos escritores de A Sentinela geralmente não existem.

VAT 4956 – são os intervalos de tempo medidos (os “Lunar Threes”) não confiáveis?

Conforme já foi dito, a VAT 4956 registra oito intervalos de tempo (“lunar threes”), que os autores de A Sentinela explicam que significa “a medição de tempo, por exemplo, do pôr do sol ao pôr da lua no primeiro dia do mês e durante dois outros períodos mais tarde no mês.” Os escritores de A Sentinela dizem que o motivo de terem decidido não levá-los em consideração é que eles não são confiáveis: “Para antigos observadores, medir esse período exigia um tipo de relógio. Essas medições não eram confiáveis.” (Nota 18a da página 28). Está correto isso?

Acredita-se que o relógio geralmente usado para medir esses intervalos de tempo tenha sido alguma espécie de relógio de água. Uma das palavras usadas é maltaktum, que é interpretada como “relógio de água.” Estes relógios já eram usados durante o período babilônico antigo, mas medições de intervalos de tempo curtos (abaixo de aproximadamente o UŠ, 4 minutos) só aparecem a partir do 7° século AEC. David Brown, John Fermor, e Christopher Walker, “O Relógio de Água na Mesopotâmia”, Archiv für Orientforschung, Band 46-47, 1999/2000, páginas 132, 142.

É verdade que a precisão desses relógios era um tanto grosseira. Mas os intervalos de tempo fornecidos para os “lunar threes” e “lunar sixes” eram melhores do que os intervalos dos eclipses lunares. Conforme o professor Peter Huber observa, “os intervalos de tempo pequenos (abaixo de 6º = 24 minutos) são medidos sem erros perceptíveis... intervalos maiores são medidos com erros relativamente aleatórios de 8-10%, às vezes mais”. (P. Huber, “Medidas de Intervalos Curtos em Babilônia: Lunar Sixes”, Centaurus, Vol. 42, página 233.)

Em todo caso, eles eram suficientemente bons para propósitos cronológicos, como será demonstrado abaixo.

Os intervalos de “lunar threes” registrados na VAT 4956 foram examinados e comparados com cálculos modernos de F. R. Stephenson e D. M. Willis num artigo publicado em Sob Um Céu: Astronomia e Matemática no Oriente Próximo da Antiguidade (J. M. Steele e A. Imhausen [eds.], Munique 2002), págs. 423-428. A conclusão deles é que a data tradicional, 568/567 AEC pode ser “afirmada com confiança.” Os resultados são mostrados numa tabela na página 424 do livro deles.

Em sua crítica do segundo volume de Rolf Furuli sobre cronologia, o Professor Hermann Hunger reproduz a tabela deles, a qual ele apresenta com a seguinte explicação:

“Os intervalos de tempo são os seguintes: Do pôr-do-sol ao pôr da lua (PS-PL) na primeira noite do mês; do nascer do sol ao pôr da lua (NS-PL) na primeira manhã na qual a lua quase cheia se põe após o nascer do sol; e do nascer da lua ao nascer do sol (NL-NS) na última manhã em que a lua estava visível antes da conjunção.” 

Ano 568/7 AC, a partir de 22/23 de abril 

Mês

Dia

Data Juliana

Intervalo

Texto

Calculado

Diferença

I

14

5 de maio de 568

NS-PL

4

3,5

0,5

II

26

17 de junho de 568

NL-NS

23

23,2

0,2

III

1

20 de junho de 568

PS-PL

20

22,7

2,7

XI

1

12 de fevereiro de 567

PS-PL

14,5

17,0

2,5

XII

1

14 de março de 567

PS-PL

25

25,7

0,7

XII

12

26 de março de 567

NS-PL

1,5

0,7

0,8

 

“Conforme Stephenson e Willis dizem, cada intervalo aumenta em cerca de 12° por dia, de modo que o dia correto geralmente pode ser identificado pela comparação do texto com o cálculo. Eu repeti os cálculos deles para 568/567 AC, e concordo com os seus resultados. Em seguida, fiz os mesmos cálculos para o ano de 588/587 AC, tanto para as datas fornecidas por Parker & Dubberstein, como para as alegadas por F[uruli], que estão deslocadas em aproximadamente um mês.”

Apresenta-se abaixo só a segunda das duas tabelas de Hunger, que se baseia no Ano Novo, que começou em 2/3 de maio no ano 588/7 AEC – a data escolhida por Rolf Furuli e pelos autores de A Sentinela: 

Ano de 588/587 AC, começando em 2/3 de maio 

Mês

Dia

Data juliana

Intervalo

Texto

Calculado

Diferença

I

14

16/17! de maio de 588

NS-PL

4

1

3

II

26

27/28! de junho de 588

NL-NS

23

18,3

4,7

III

1

1/2! de julho de 588

PS-PL

20

17,8

2,2

III

15

15/16! de julho de 588

NS-PL

7,5

15,3

7,8

XI

1

22/23 de fevereiro de 587

PS-PL

14,5

9,8

4,7

XII

1

24/25 de março de 587

PS-PL

25

21,5

3,5

XII

12

6/7! de abril de 587

NS-PL

1,5

4,8

3,3

 

Hunger conclui:

“As datas com um ponto de exclamação estão em desacordo com o calendário, no sentido de que as medições dos intervalos de tempo não poderiam ter sido tiradas na data indicada na tabuinha se a tabuinha estava se referindo ao ano de 588/7. As diferenças entre o texto e o cálculo são, em ambos os casos, muito maiores do que em 568/7 AC. Usando as palavras de Stephenson e Willis, 588/7 AC pode ser descartado com certeza.” (http://kristenfrihet.se/kf4/reviewHunger.htm).

Outros eruditos também compararam os intervalos de tempo “lunar threes” na VAT 4956 para os anos 568/7 AEC e 588/7 AEC e chegaram à mesma conclusão. Duas delas, AnnOMaly e Marjorie Alley, ambas eruditas muito competentes, publicaram seus resultados no dia 21 de setembro de 2011 num fórum internacional. Elas usaram e compararam vários softwares de astronomia para mostrar que as diferenças entre eles são mínimas. Os resultados a que elas chegaram podem ser vistos resumidamente aqui: 

VAT 4956 - Comparação dos Intervalos de Tempo dos "Lunar Three" Para os Anos 568/7 AEC e 588/7 AEC

VAT 4956 – linha 3 do anverso: dia “9” ou dia “8”?

O último argumento dos autores da revista A Sentinela baseia-se numa observação lunar registrada na VAT 4956, anverso, linha três, e que pertence ao primeiro mês, nisanu:

“Noite do dia 9 (erro para: 8), começo da noite, a lua ficou um côvado em frente a β Virgem. No dia 9, o sol no oeste [foi cercado] por um halo [... o dia 11]” – Sachs / Hunger, ADRT I, página 47.

Em 568 AEC o dia 9 de nisanu começou na noite de 30 de abril. No entanto, os primeiros eruditos a traduzir e examinar a tabuinha lá em 1915, P. V. Neugebauer e E. F. Weidner, descobriram que a posição lunar não se encaixava nesta data. Mas ela se encaixava na noite anterior, 29 de abril. Eles concluíram que dia “9” deve ser um erro para dia “8”. – P. V. Neugebauer & E. F. Weidner, “Um Texto de Observação Astronômica do 37º ano de Nabucodonosor II. (–567/66)” [em alemão], Berichte über die Verhandlungen der Königlich Sächsischen Gesellschaft der Wissenschaften zu Leipzig. Philologisch-Historische Klasse, 67. Band, Leipzig 1915, páginas 34, 41, 67.

Os autores da revista A Sentinela tentam criar uma grande questão em cima deste detalhe. Eles usaram a página 26 inteira do artigo de A Sentinela para mostrar a tabuinha e os detalhes da tradução da linha 3. E num parágrafo da página seguinte, eles afirmam que “a posição lunar na linha 3 se encaixa perfeitamente com 9 de nisanu de 588 AEC.”

Este argumento baseia-se no livro de Rolf Furuli, Cronologia Assíria, Babilônica e Egípcia, Volume II, 2ª edição, 2008, onde ele afirma na página 321: “Em 9 de nisã [datado em 10 de maio de 588 AEC na 2ª edição], a lua ficou 1 côvado (2º) na frente de β Virgem, exatamente o que diz a tabuinha.”

Infelizmente, isto não é verdade. Embora os astrônomos babilônicos muitas vezes forneçam a posição e distância de um planeta em relação a uma “estrela normal” sem usar qualquer sistema de coordenadas, o uso de uma especificação, como “na frente de” não era em relação ao horizonte (coordenadas de altitude e azimute), e sim em relação à eclíptica. Para os astrônomos babilônicos, portanto, “na frente de” significava “a oeste de” – a direção aparente do movimento do sol, da lua e dos planetas ao longo ou em paralelo com a eclíptica. Conforme N. M. Swerdlow explica,

“As especificações ‘acima’, ‘abaixo’, ‘na frente’ e ‘atrás’ referem-se, grosso modo, à direção do movimento do planeta. Uma vez que o planeta se move mais ou menos paralelamente à eclíptica, acima ou abaixo são mais ou menos perpendiculares à eclíptica, mas não são um sistema de coordenadas de latitude e são com freqüência bastante enviesadas; na frente e atrás são ao oeste e ao leste, mas não são coordenadas de longitude” – N. M. Swerdlow, A Teoria Babilônica dos Planetas (Princeton: Editora da Universidade de Princeton, Nova Jersey, 1998, página xi.

Isto significa que no começo da noite (às 19h30min) de 10 de maio de 588 AEC, a lua estava 1,5º a nordeste de β Virgem. Daí, a lua gradualmente, se moveu mais ainda no sentido nordeste. Isto definitivamente não é uma correspondência exata. Ainda que a distância possa ser aceitável, a direção da bússola está errada. Portanto, a data dos escritores da revista A Sentinela, 10 de maio de 588 AEC, tem de ser rejeitada.

Como praticamente todas as posições lunares e planetárias e também os oito intervalos de “lunar threes” registrados na tabuinha se ajustam a 568/567 AEC, e não a 588/587 AEC, e como a posição lunar na linha 3 se ajusta a 29 de abril em vez de 30 de abril de 568 AEC, um erro de escrita de um dia é a explicação mais razoável.

 

Conclusão

Nesta análise crítica da Parte Dois do artigo de A Sentinela foi demonstrado que ao longo de sua consideração os escritores da revista deturparam, interpretaram mal e fizeram aplicação incorreta das fontes cuneiformes, citaram mal as autoridades nestes documentos, e até mentiram em seus esforços para encontrar algum apoio para a data da organização Torre de Vigia para a destruição de Jerusalém, 607 AEC. Na última seção, na página 27, intitulada “Por Que Confiar na Bíblia?” eles tentam transmitir a impressão de que a Bíblia apóia essa data, alegando que “os escritores bíblicos Jeremias e Daniel dizem claramente que os judeus ficaram no exílio 70 anos, não 50.”

Conforme foi demonstrado na análise da Parte Um, esta afirmação é falsa. A Bíblia não diz em parte alguma que o exílio dos judeus durou 70 anos. Jeremias afirmou que os 70 anos seriam um período de domínio babilônico (“setenta anos para Babilônia”), quando as nações do Oriente Médio iriam “servir ao rei de Babilônia.” (Jeremias 29:10; 25:11) Este período de servidão terminou em 539 AEC, quando o rei de Babilônia foi punido. Isto ocorreu depois que os 70 anos tinham terminado. (Jeremias 25:12) Enquanto os apologistas da Torre de Vigia persistirem em negar isso, serão obrigados a deturpar, aplicar mal e distorcer a Bíblia. Por causa de sua insistência na data 607 AEC, eles criaram um conflito artificial entre a Bíblia e as fontes seculares que não existe e jamais existiu. Sua alegação de estar confiando na Bíblia, quando na verdade estão confiando apenas num cálculo cronológico que está em conflito tanto com a Bíblia como com as evidências históricas, não é nada além de hipocrisia. 

APÊNDICE À CONSIDERAÇÃO SOBRE CÁLCULOS RETROATIVOS:

Respondendo a uma pergunta sobre as citações que os autores do artigo de A Sentinela fizeram do Professor John Steele e do Dr. David Brown, John Steele enviou a seguinte resposta a Marjorie Alley, no dia 2 de setembro de 2011: 

Prezada Sra. Alley, 

Obrigado por seu e-mail referente à citação do meu trabalho no artigo recente da Sentinela. Conforme você sugere o autor deste trecho está representando de maneira completamente deturpada o que eu escrevi, tanto no que eles dizem sobre as medidas dos lunar threes [as trincas de posições lunares], como no que eu digo sobre a possibilidade de cálculos retroativos de eclipses (meus comentários quanto a estes últimos se restringiram a um grupo específico e pequeno de textos que são diferentes do Diário que eles estão considerando). Com um simples olhar geral no artigo da Sentinela, posso ver que eles deturparam também as opiniões de outros eruditos, por selecionar citações fora do contexto. 

Verifiquei a data da VAT 4956 em várias ocasiões e não vejo qualquer possibilidade de que ela possa ser fixada em qualquer outra data que não a convencional [568 / 567 AC]. 

Atenciosamente, 

John Steele

 

NOTA FINAL: Entre outros eruditos que escreveram críticas ao artigo de duas partes da Torre de Vigia em defesa de sua cronologia, o mais extenso é o de Doug Mason, da Austrália. É muito bem redigido e ricamente ilustrado. Os links para a crítica que ele fez das Partes I e II são os seguintes:

“Parte 1” (A Sentinela de 1º de outubro de 2011):

http://www.jwstudies.com/Critique_of_When_Was_Ancient_Jerusalem_Destroyed.pdf

“Parte 2” (A Sentinela de 1º de novembro de 2011):

http://www.jwstudies.com/Critique_Part_A_of_Jerusalem_Destroyed_part_2.pdf

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[Nota do MB: Infelizmente, devido à pouca disponibilidade de tempo, as críticas mencionadas acima não foram traduzidas para o português. Mas a recomendação é enfatizada aqui para os nossos leitores que conhecem inglês. Doug Mason aborda uma série de detalhes adicionais, não abrangidos pelos artigos de Jonsson e dos colaboradores do Mentes Bereanas sobre o assunto da cronologia da Torre de Vigia, que se encontram atualmente disponíveis no site.]