O Sono dos Mortos ('Você Disse "Sono"?')

“Foi para o plano espiritual”, “foi desta para a melhor”, “abotoou o paletó”, “deixou o plano material”, “foi comer capim pela raiz”, “fez a última viagem”, “foi para a terra dos pés juntos”, “esticou as canelas”, “foi estudar botânica por baixo”, e outras expressões semelhantes (algumas mais vulgares, inclusive), são eufemismos populares usados para se referir à morte. Nenhum destes eufemismos encontra-se na Bíblia.

A Bíblia Chama a Morte de “Sono”

Em vez disso, a Bíblia consistentemente usa uma metáfora para a morte que não é encarada nem como social nem como teologicamente apropriada entre os evangélicos. Ela chama a morte de “sono”. Mas, se um crente inadvertidamente se referir aos mortos como dormindo, a julgar pela reação entre os tradicionalistas, você logo pensaria que ele “desrespeitou Deus”.

Uma tradição de longa data dentro do cristianismo evangélico afirma que a morte é uma mudança para um novo nível de consciência, que os que esperam o retorno de Cristo para a recompensa ou punição fazem estas coisas num estado que parece bastante como se eles já estivessem sendo recompensados ou punidos. Em consequência, quem se atreve a sugerir que o estado intermediário é de sono inconsciente corre o risco de ser classificado como “herege” ou “seguidor dum culto”.

No entanto, faríamos muito bem em retomar a terminologia bíblica e, talvez, abandonar algumas dessas tradições que nos impedem de usá-la. Os escritores bíblicos sabiam do que estavam falando. O Espírito Santo os inspirou a escrever palavras que expressam a maneira como as coisas realmente são. Não é culpa deles que a igreja convencional optou por encarar e ensinar as coisas de maneira diferente.

Porém, neste ambiente atual em que a palavra bíblica “sono” provoca esta reação por parte dos santos que em outras situações se pautam pela Bíblia, se os condicionalistas quiserem restaurar esse termo como uma metáfora para a morte, é melhor que estejam preparados. Os condicionalistas precisam saber onde exatamente na Bíblia se usa esse termo para a morte, e o que “sono” significa no contexto desses trechos.

O sono de Adão retrata a morte de Cristo

“Então o Senhor Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto este dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne. Com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a levou até ele. Disse então o homem: “Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada”. (Gên. 2:21-23)

O primeiro lugar na Bíblia onde o sono é usado como uma metáfora para a morte evidentemente aparece antes de a morte vir à existência. Enquanto estava no paraíso do Éden, Adão foi anestesiado por Deus e uma cirurgia foi realizada, a qual resultou em Eva. É desta maneira que a Bíblia diz que o homem vem da mulher, e a mulher também vem do homem.1

Uma coisa curiosa sobre este episódio é que ele parece ter um paralelo na mensagem do evangelho. Assim como Eva veio a existir por causa do sono de Adão, assim também a Igreja de Cristo vem a existir por causa da morte dele. Pelo fato de Cristo ter dormido no túmulo, sua noiva veio a existir.

Se existe algo neste pressuposto, observe o que ele está nos dizendo sobre a natureza da própria morte. O sono de Adão foi um estado de inconsciência. Ele foi “posto sob” esse estado para que não sentisse as mudanças que ocorressem em seu corpo. O objetivo desse estado inconsciente não era elevar a consciência dele, e sim suprimi-la. Pode-se concluir, portanto, que o objetivo do estado intermediário é o mesmo.

Jó descreve a morte como deitar-se e dormir, e não ser despertado

“O homem, porém, morre e se desfaz; sim, rende o homem o espírito, e então onde está? Como as águas se retiram de um lago, e um rio se esgota e seca, assim o homem se deita, e não se levanta; até que não haja mais céus não acordará nem será despertado de seu sono. Oxalá me escondesses no Seol, e me ocultasses até que a tua ira tenha passado; que me determinasses um tempo, e te lembrasses de mim! Morrendo o homem, acaso tornará a viver? Todos os dias da minha lida  esperaria eu, até que viesse a minha mudança. (Jó 14:10-14, Almeida Atualizada).

No capítulo 14 da história de Jó, ele lamenta que os seres humanos não sejam como as árvores. Uma árvore pode ser cortada, mas, dadas as condições adequadas, ela pode germinar novamente do tronco aparentemente morto. Todavia, conforme Jó se queixa, os seres humanos não são assim. Quando a vida de um homem chega ao fim, ele se deita e dorme, para não acordar novamente.

Jó não está argumentando contra o conceito da ressurreição. Mesmo neste capítulo, ele implora a Deus para que o esconda no Seol (a morte) até que a ira dele tenha passado, e, em seguida, lembre-se dele, fazendo-o viver novamente (13, 14). Não se pode pedir uma declaração mais clara da esperança da ressurreição. Mais tarde, Jó afirma que ele tem um Redentor que vive, e que ele (Jó) verá Deus num corpo ressuscitado, muito tempo depois que seu corpo atual for consumido.2

Assim, uma vez que Jó não está argumentando contra o conceito duma ressurreição, por que ele insiste que a morte é um sono do qual não se desperta? Ele está contrastando o destino dos seres humanos com o das árvores. As árvores têm algo dentro de sua natureza, que lhes permite se recuperar da morte aparente. Deus não colocou essa natureza dentro de nós. Se quisermos viver de novo, vamos precisar de um Deus que nos ressuscite. O sono é uma metáfora apropriada para a morte porque se você vir pessoas dormindo, você espera que elas acordarão. Pense nisso na próxima vez que caminhar por um cemitério. Estes “dormitórios” são monumentos ao fato de que todos nós dependemos de Deus para nossa vida futura.3

Davi chama a morte de sono

“Até quando, Senhor? Para sempre te esquecerás de mim? Até quando esconderás de mim o teu rosto? Até quando terei inquietações e tristeza no coração dia após dia? Até quando o meu inimigo triunfará sobre mim? Olha para mim e responde, Senhor, meu Deus. Ilumina os meus olhos, ou do contrário dormirei o sono da morte; os meus inimigos dirão: “Eu o venci”, e os meus adversários festejarão o meu fracasso. Eu, porém, confio em teu amor; o meu coração exulta em tua salvação. Quero cantar ao Senhor pelo bem que me tem feito.” (Salmo 13: 1-6).

O lamento de Davi no Salmo 13 é a queixa dum soldado que continua a perder batalhas, e se pergunta quanto tempo ele pode continuar a aguentar. A vergonha das derrotas é acompanhada pelo embaraço dos insultos que ele ouve de seus inimigos. Eles são exaltados sobre ele. Eles se alegram porque ele está abalado. No entanto, Davi é forçado a confiar na misericórdia de Deus, e esperar na salvação dele. Ele não tem mais ninguém.

A pergunta de Davi ao seu Senhor no Salmo 13 é “você vai me esquecer para sempre?” Se o Senhor esquecer-se de seu servo, este ‘dormirá o sono da morte’ e seus inimigos terão prevalecido sobre ele. A morte seria o fracasso final. Isto significaria que Deus perdera um soldado, e que os inimigos tinham conseguido uma vitória decisiva, e uma razão para se orgulharem.

Como Davi poderia ter dito uma coisa dessas se ele acreditasse que a morte era “ir para sua recompensa” ou “ir para casa para estar com o Senhor” ou “ser levado para o céu”? O Espírito Santo fala da morte aqui, não como uma vitória, e sim como uma derrota. Admite-se que é só uma derrota temporária. No Salmo 16, Davi previu que o Messias morreria, mas que ele não seria abandonado na sepultura. Ele triunfaria sobre a morte. Ao pregar no dia do Pentecostes (Atos 2), Pedro lembrou aos seus ouvintes desse triunfo. A morte é real, mas Cristo a venceu. O próprio Davi, porém, não a venceu. Ele dorme, e aguarda a ressurreição. Nas palavras de Pedro: “Irmãos, posso dizer-lhes com franqueza que o patriarca Davi morreu e foi sepultado, e o seu túmulo está entre nós até o dia de hoje.”4 Este rei guerreiro da antiguidade dormiu realmente o sono da morte, mas não antes de o Senhor ouvir o seu clamor e o livrar de seus inimigos.

Jeremias fala sobre o sono perpétuo de Babilônia

“A Babilônia se tornará um amontoado de ruínas, uma habitação de chacais, objeto de pavor e de zombaria, um lugar onde ninguém vive. O seu povo todo ruge como leõezinhos, rosnam como filhotes de leão. Mas, enquanto estiverem excitados, prepararei um banquete para eles e os deixarei bêbados, para que fiquem bem alegres e, então, durmam e jamais acordem, declara o Senhor.” (Jeremias 51:37-39).

“Um destruidor virá contra a Babilônia; seus guerreiros serão capturados, e seus arcos serão quebrados. Pois o Senhor é um Deus de retribuição; ele retribuirá plenamente. Embebedarei os seus líderes e os seus sábios; os seus governadores, os seus oficiais e os seus guerreiros. Eles dormirão para sempre e jamais acordarão, declara o Rei, cujo nome é Senhor dos Exércitos.” (Jeremias 51: 56-57).

Nos dias do profeta Jeremias, os inimigos do povo de Deus eram os babilônios opressores. Jeremias previu que o grande império de Nabucodonosor iria ficar bêbado e cair no sono, para nunca mais acordar. Ele estava profetizando a destruição do império5, na qual ele cairia6, chegaria ao fim7, perecendo8, e tornando-se um montão de ruínas sem habitantes9, ‘uma terra seca e deserta, uma terra onde ninguém moraria, pela qual nenhum homem  passaria’.10

Jeremias descreveu a morte de um povo. Faz sentido que ele tenha usado essa metáfora que seus antepassados tinham usado para descrever essa queda para um estado de nada: o sono. Não faria sentido se Jeremias realmente acreditasse que a morte era a passagem de um estado de consciência para outro. Ele poderia ter ameaçado os inimigos de Deus a um estado ainda mais violento de tormento consciente no inferno, mas ele não fez isso.

Babilônia não mais se levantaria, mas algum dia cada babilônio individual estará diante de Deus para ser julgado por seus pecados pessoais. Esse dia não era o que Jeremias estava predizendo. O fim do julgamento de Babilônia é a morte: um estado de sono perpétuo. O dia do julgamento para os babilônios individuais virá mais tarde.

No livro do Novo Testamento intitulado Revelação, João usa estas mesmas imagens para descrever outra Babilônia condenada à destruição. Ele avisa o povo de Deus para que saia dela...

“... para que vocês não participem dos seus pecados, para que as pragas que vão cair sobre ela  não os atinjam! Pois os pecados da Babilônia  acumularam-se até o céu, e Deus  se lembrou dos seus crimes. (Revelação 18:4, 5).

“... num só dia as suas pragas a alcançarão: morte, tristeza e fome; e o fogo a consumirá, pois poderoso é o Senhor Deus que a julga.” (Revelação 18:8).

João descreve o dia do julgamento final, que só o sono perpétuo de Babilônia serve para predizer. Ele está descrevendo uma punição final, destruição final. Jeremias tinha falado da primeira morte, João avisa sobre a segunda.

Daniel descreve a ressurreição dos que dormem no pó

“Multidões que dormem no pó da terra acordarão: uns para a vida eterna, outros para a vergonha, para o desprezo eterno. Aqueles que são sábios reluzirão como o fulgor do céu, e aqueles que conduzem muitos à justiça serão como as estrelas, para todo o sempre.” (Daniel 12: 2-3).

Não está claro o que Daniel está predizendo no capítulo 12, mas está claro que ele usa a linguagem da ressurreição para descrever isso. Ele fala dos que estão dormindo no pó despertando para a vida eterna. Outros que despertam não verão a vida, mas sofrerão a vergonha e o desprezo eterno. Jesus usou a mesma linguagem para descrever a ressurreição. Ele disse que “está chegando a hora em que todos os que estiverem nos túmulos ouvirão a sua voz e sairão; os que fizeram o bem ressuscitarão para a vida, e os que fizeram o mal ressuscitarão para serem condenados.”11

Assim, tanto para Daniel como para Jesus, a antropologia e a cosmologia são as mesmas: a morte é um sono. A ressurreição desperta todos desse sono. O julgamento e o destino eterno ocorrem na ressurreição, no despertar. O julgamento não ocorre durante o estado intermediário, e sim depois.

Há quem afirme que toda essa conversa sobre a morte como um sono é simplesmente uma linguagem de aparência do Antigo Testamento, e que o Novo Testamento corrige esse mal-entendido, mostrando que o estado intermediário é consciente. Todavia, o Novo Testamento fala ainda mais claramente do que o Antigo ao descrever a morte como um sono.

Jesus descreve uma menina morta como simplesmente dormindo

“Quando Jesus chegou à casa de Jairo, deixou que Pedro, João e Tiago entrassem com ele, além do pai e da mãe da menina, e mais ninguém. Todos os que estavam ali choravam e se lamentavam por causa da menina. Então Jesus disse: – Não chorem, a menina não morreu; ela está dormindo. Aí começaram a caçoar dele porque sabiam que ela estava morta. Mas Jesus foi, pegou-a pela mão e disse bem alto: – Menina, levante-se! Ela tornou a viver e se levantou imediatamente. Aí Jesus mandou que dessem comida a ela.” (Lucas 8:51-55, Nova Tradução na Linguagem de Hoje).

Esta história, que aparece em todos os três Evangelhos Sinópticos, mostra a atitude de Jesus para com os mortos. Ele sabia a dor que a morte causa, e teve a oportunidade de demonstrar sua própria tristeza pela morte de seu amigo Lázaro.12 Porém, ele também sabia que a morte é apenas um fenômeno temporário. Sendo assim, não é realmente uma morte, e sim um mero sono. Mas, não devemos cair no erro. Esta menina estava realmente morta, e as Escrituras deixam claro que ela estava. No entanto, Jesus estava lá. Ele é a ressurreição e a vida. Ele sabia que esse dia não terminaria em luto, mas com um milagre. Ele afastou todos os enlutados e despertou a menina de seu sono.

Ora, se essa menina estava com os anjos no céu, ou mesmo no seio de Abraão, e Jesus sabia disso, não teria sido uma coisa tão boa ele devolvê-la a este mundo de dor. Mas a linguagem que Lucas usa (assim como Mateus e Marcos) coincide com o que os escritores do Antigo Testamento haviam dito sobre a morte. Lucas descreve o estado desta menina como sendo de sono, não de vigília. Lucas a apresenta como alguém que precisava ser despertado.

A parábola do homem rico e Lázaro (Lucas 16:19-31) contradiz o conceito que o Antigo Testamento apresenta sobre a morte, e o que o próprio Jesus lhe atribui. Nesta parábola, Jesus fala dos mortos estando conscientes no estado da morte, e cientes do que está ocorrendo na terra dos viventes. Os defensores de um estado intermediário consciente simplesmente optaram por aceitar este conceito da morte, em vez do conceito proposto em Lucas 8.

A parábola do Rico e Lázaro não é um ensinamento definido sobre o estado intermediário

Os condicionalistas se recusam a aceitar a parábola do Rico e Lázaro como um ensino definido sobre o estado intermediário por diversas razões, algumas das quais podem ser vistas no contraste que há entre os dois textos:

1. Lucas 8 trata dum evento literal na vida de Jesus e um ser humano real, uma menina. Lucas 16 trata duma história que Jesus contou, e que provavelmente não se originou com ele. Ele usou uma das histórias dos fariseus, e terminou com um resultado contrário ao que eles esperavam.

2. O foco de Lucas 8 foi uma morte real e uma ressurreição verdadeira. O foco de Lucas 16 era o egoísmo dos fariseus e sua recusa em seguir a lei de ter compaixão dos necessitados. Em que trecho seria mais natural Jesus transmitir ensino didático sobre o estado intermediário?

3. As testemunhas da ocorrência descrita em Lucas 8 foram o próprio Jesus, a jovem e seus pais, e alguns de seus discípulos. Os ouvintes da história em Lucas 16 foram os fariseus, que “eram amantes do dinheiro” e o “ridicularizaram”, porque ele ensinava que “não se pode servir a Deus e ao dinheiro”.13 Em que contexto teria sido mais apropriado Jesus compartilhar informações sobre o mistério do estado intermediário?

4. É também importante considerar o contexto literário de cada trecho. Lucas 8 aparece em conjunto com um grupo de trechos que enfatizam quem é Jesus. Sua autoridade e poder são expressos nos capítulos imediatamente anteriores e posteriores à história no capítulo 8. Nesse contexto, faz sentido retratar Jesus como tendo poder de ressuscitar os mortos. Lucas 16 está dentro de um grupo de capítulos que enfatizam a oposição e o antagonismo daqueles (como os fariseus) que queriam se livrar de Jesus. Nesse contexto, o que Lucas quer mostrar é a razão pela qual essas pessoas odiavam Jesus, e por que sua viagem a Jerusalém o levaria à cruz. Uma descrição literal do estado intermediário no capítulo 16 não acrescentaria coisa alguma ao propósito de Lucas.

5. Em última análise, deve-se admitir que estes dois textos não representam dois conceitos alternativos do estado intermediário. No primeiro, as pessoas estão dormindo, e deve ser despertadas por meio da ressurreição. No outro, as pessoas estão despertas, e experimentam algum tipo de vida após a morte. Em Lucas 8, não há referência alguma ao julgamento. Em Lucas 16, todos os que morreram já estão sendo julgados.

Não se pode combinar esses dois conceitos sobre o estado intermediário sem distorcer um deles ao nível da insignificância. Os condicionalistas aceitam o ensinamento de Lucas 8 como normativo, e optam por encarar a descrição em Lucas 16 como representando o que os fariseus acreditavam – não o que Jesus acreditava – sobre o estado intermediário.

Mateus falou sobre santos que foram despertados do sono

“E eis que o véu do santuário se rasgou em dois, de alto a baixo; a terra tremeu, as pedras se fenderam, os sepulcros se abriram, e muitos corpos de santos que tinham dormido foram ressuscitados; e, saindo dos sepulcros, depois da ressurreição dele, entraram na cidade santa, e apareceram a muitos.” (Mateus 27:51-53, Almeida Atualizada).

Para aumentar o turbilhão de acontecimentos na noite em que morreu nosso Salvador, vários santos de Deus que haviam morrido antes dele foram ressuscitados no momento em que ele morreu. Estes se apresentaram, para o espanto de quem os tinha visto morrerem e serem enterrados, e lamentaram sua morte. Estas ressurreições foram manifestações tanto do poder de Deus de ressuscitar os mortos, como do significado da morte de Cristo.

Todavia, não existem descrições de experiências pelas quais esses santos tenham passado enquanto estavam mortos. Eles não foram notados por terem experimentado qualquer vida após a morte, e sim por terem sido ressuscitados. Na verdade, Mateus descreve-os como “santos que tinham dormido”. Não eram simplesmente seus corpos que tinham dormido, e sim os próprios santos. Isto se percebe na construção da frase em grego, onde a palavra “corpos” está no nominativo plural neutro, e as palavras “os santos” e o particípio traduzido por “que tinham dormido” estão no genitivo plural masculino.

A antropologia/cosmologia de Mateus concorda com a de Lucas 8. Estas pessoas estavam mortas, e são descritas como tendo adormecido. No momento da morte de Cristo na cruz estes santos falecidos retornaram à vida milagrosamente.

Jesus diz que Lázaro está dormindo, e os discípulos não compreendem a descrição que Jesus sobre a morte do amigo dele como sono

“Depois de dizer isso, prosseguiu dizendo-lhes: “Nosso amigo Lázaro  adormeceu, mas  vou até lá para acordá-lo”. Seus discípulos responderam: “Senhor, se ele dorme, vai melhorar”. Jesus tinha falado de sua morte, mas os seus discípulos pensaram que ele estava falando simplesmente do sono. Então lhes disse claramente: Lázaro morreu,  (João 11:11-14).

Jesus ficou face a face com a realidade da morte quando seu amigo Lázaro morreu, conforme registrado em João 11. É neste contexto que lemos o versículo mais curto no Novo Testamento – “Jesus chorou.”14 A morte é real, e é uma tragédia real. No entanto, Jesus descreveu a morte de Lázaro usando a mesma metáfora que aparece ao longo do texto das Escrituras. Ele disse que Lázaro tinha adormecido. Seus discípulos não entenderam. Eles pensaram que ele estava descrevendo o início da recuperação de Lázaro. Eles assumiram que se ele estava dormindo (literalmente), então o pior de sua doença já tinha passado, e ele logo ficaria melhor. Então, Jesus teve de soletrar para eles e explicar que seu amigo já estava morto.

Agora que podemos ler tudo de João capítulo 11, compreendemos o que Jesus estava fazendo. Ele estava explicando aos seus discípulos que a morte não é o fim, porque ele (a Ressurreição e a Vida) não permitirá que ela seja. Mas não devemos nos enganar sobre isso – se não fosse por Jesus, a morte seria o fim. Só podemos chamar a morte de sono porque existe Jesus, uma pessoa que tem a intenção de ressuscitar os mortos. Chamar a morte de sono é uma declaração de fé em Cristo.

Recusar-se a chamar a morte de sono também é uma declaração de fé. Isso reflete uma fé na própria morte. É juntar-se a Platão e outros filósofos pagãos em afirmar que Deus criou a alma humana indestrutível, e, portanto, deve permanecer viva após a morte do corpo. Desse modo, a verdadeira pessoa nunca dorme, mas permanece consciente durante o estado intermediário, e de fato por toda a eternidade. Os condicionalistas exortam nossos irmãos e irmãs a depositar sua fé em Cristo, a Ressurreição e a Vida.

Estevão adormece (morre) depois de ser apedrejado

“Enquanto apedrejavam Estêvão, este orava: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito”. Então caiu de joelhos e bradou: “Senhor, não os consideres culpados deste pecado”. E, tendo dito isso, adormeceu.” (Atos 7:59-60).

Tempos atrás, nas Filipinas, meu melhor amigo faleceu. Um de seus serviços fúnebres foi pregado por um pastor de uma denominação que ensina um estado intermediário consciente. Este pastor explicou (usando Atos 7:59) que o meu amigo não estava realmente morto porque Deus tinha recebido o seu espírito, o qual foi para o céu no momento em que ele morreu. O pastor explicou que algumas pessoas ensinam o sono da alma, mas que este texto argumenta contra isso.

Sentado na assistência naquele dia, eu segurei minha língua. Funerais não são lugar para debate teológico. Porém, depois eu citei o trecho novamente para os meus alunos na faculdade bíblica. Mostrei-lhes que o pastor não tinha levado em conta o contexto. O versículo seguinte diz: “E, tendo dito isso, adormeceu.” A descrição que Lucas faz da morte de Estevão não argumenta contra a ideia da morte como um sono, mas é uma evidência dela.

Paulo ensina que a maioria vai dormir, e que alguns serão transformados sem passar por isso

“Eis que eu lhes digo um mistério: Nem todos dormiremos, mas  todos seremos transformados, num momento, num  abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta. Pois a trombeta soará, os mortos ressuscitarão incorruptíveis e nós seremos transformados.” (1 Coríntios 15:51-52).

Paulo dá sua contribuição para a doutrina do estado intermediário, afirmando o que os leitores viram em outras partes da Bíblia. A morte é um sono do qual os crentes serão despertados. Este despertar acontecerá “ao som da última trombeta.” Mas ele também ensina que há duas exceções à regra geral de que todos dormirão na morte:

1. Alguns não vão experimentar o sono da morte, porque eles estarão vivos quando Jesus retornar. Eles não vão adormecer na morte, porque serão imediatamente transformados: serão feitos imortais, sem nunca ter experimentado o sono da morte. Oh, que coisa gloriosa seria fazer parte desse grupo. Vem, Senhor Jesus!

2. A outra exceção é o próprio Jesus. Ele dormia na morte, mas já foi ressuscitado dentre os mortos. Paulo o chama de “as primícias dos que dormem.”15 Até o momento em que se escreve isso, ele é o único que foi levantado imortal. A ressurreição dele é a garantia de que também seremos levantados para a vida algum dia. Assim, mesmo que percamos a oportunidade de fazer parte desse grupo especial que será transformado em seres imortais, sem nunca provar a morte, ainda temos motivo para celebrar. A ressurreição de Cristo nos dá esperança.

3. Muito tempo depois da revelação do evangelho, Paulo continuou a falar dos que tinham morrido como tendo adormecido.16 Ele não tinha vergonha de usar essa metáfora para descrever o que ocorre no momento da morte. Não devemos ter vergonha de fazê-lo também. Pois “adormecer” ou “ir dormir”, ou simplesmente “dormir” é uma declaração bíblica precisa que descreve a realidade da morte. Por outro lado, “ir para o céu”, “ir para casa” ou “ir para a recompensa” são declarações que não são nem bíblicas nem exatas.

A esperança cristã não é ir para algum lugar no momento da morte, e sim num Salvador que vem para nos despertar da morte. É por isso que “adormecer” é uma declaração de fé para o cristão crente. Esta expressão diz que temos de colocar nossa confiança num Salvador que cuida de nós, e não deixará nossa derrota pela inimiga morte ser a última palavra.

Jefferson Vann

Notas:

1 1 Coríntios 11:8-12.

2 Jó 19:25-27.

3 A palavra cemitério vem do grego koimeterion, que está relacionada com a palavra koimesis, usada no Novo Testamento tanto para a morte como para o sono natural.

4 Atos 2:29.

5 Jeremias 51:1, 3, 20, 48, 53-54.

6 Jeremias 51:8.

7 Jeremias 51:13.

8 Jeremias 51:18.

9 Jeremias 51:37.

10 Jeremias 51:43 ESV.

11 João 5:28-29.

12 Veja João 11.

13 Lucas 16:13-14.

14 João 11:35.

15 1 Coríntios 15:20, 23.

16 1 Coríntios 15:20; 1 Tessalonicenses 4:13, 14, 15.