Textos "Mal Aplicados Pelos Aniquilacionistas"?

 
 
 
 
 
 
 
Apêndice C: Jesus 'Resgatou Cativos do Hades'? (Efésios 4:8, 9)

NOTAS PRÉVIAS:

Antes de iniciarmos esta discussão, é importante frisar os seguintes pontos:

1 – Embora o que a Bíblia tem a dizer sobre a questão da natureza humana seja de grande importância, os colaboradores do site Mentes Bereanas não se dedicam a pesquisas em busca de apologias ao conceito da “imortalidade da alma” (ou doutrinas correlatas), com a finalidade de questioná-las biblicamente. Tampouco participam de debates online ou enviam correspondência não solicitada, contendo discussões sobre estes assuntos. Tais atividades exigiriam um grande dispêndio de tempo que não está à disposição, tendo em vista os objetivos do site.

2 – Além de os questionamentos apresentados a seguir serem poucos em comparação com outras fontes condicionalistas, todos eles referem-se unicamente ao conteúdo de artigos, mensagens e publicações que foram encaminhadas ou trazidas especificamente à nossa atenção ao longo dos anos. Em todos os casos, isto foi feito sem qualquer solicitação nossa, juntamente com insistentes apelos para que examinássemos tais matérias.

3 – Os trechos analisados (extraídos desses artigos, mensagens e publicações) estão contidos nos quadros em fundo verde. Fez-se criterioso esforço para respeitar o contexto de cada citação.

 

INTRODUÇÃO

 

TEXTOS AMIÚDE MAL APLICADOS PELOS ANIQUILACIONISTAS

Existem alguns versículos das Escrituras que são frequentemente citados por aniquilacionistas para tentar provar que o homem desaparece por completo depois da morte. Eles dogmatizam tais passagens e ignoram aquilo que o restante da Bíblia realmente diz sobre o assunto, em conexão com a formação tricotômica do homem, composta por corpo físico, alma e espírito.

Embora o título fale em “textos amiúde mal aplicados”, a primeira sentença esclarece que as pessoas que contestam as teorias da “imortalidade da alma” e do “tormento consciente” na verdade não fazem “aplicações” dos versículos das Escrituras mencionados. Tais versículos são apenas “frequentemente citados” pelos que rejeitam essas doutrinas. A razão de essas pessoas pouco fazerem além de ‘citá-los’ é que a característica principal deles é a linguagem positiva, que dispensa comentários adicionais.1 É isso que explica o motivo de todas as iniciativas de discutir longamente “aplicações” desses textos serem geralmente dos defensores das duas doutrinas, não de seus oponentes.

Note-se que são duas as afirmações feitas sobre esses que citam os versículos:

(1) eles “dogmatizam” tais trechos;
(2) eles “ignoram o que o restante da Bíblia realmente diz sobre o assunto”.

Este é, portanto, o escopo deste artigo. Tendo em mente estas acusações, e uma vez definido quem são realmente os que demonstram a preocupação de se debruçar em busca de "aplicações", a questão é:

O que revela o exame das aplicações que os proponentes da “imortalidade da alma” e do “tormento consciente” dão aos textos em questão?

Em vários pontos ao longo dos comentários será inserido um quadro (em fundo amarelo), contendo um sumário dos questionamentos.

 

O EXAME DAS APLICAÇÕES

 

Essa natureza [isto é, a “tricotômica”] está subentendida na seguinte declaração do apóstolo Paulo:

“O próprio Deus de paz vos santifique completamente. Que em todo respeito sejam preservados sãos o espírito, e a alma, e o corpo de vós, dum modo inculpe, na presença de nosso Senhor Jesus Cristo”. – 1 Tessalonicenses 5:23.

 

Se existe algum ‘subentendimento’ aqui, ele é decorrente de o leitor ficar “no ar” quanto ao que está sendo realmente dito.

O termo tricotomia significa “divisão em três partes” (grego: tri [três] e tomo [divisão]). No contexto acima, as três partes do homem são o “corpo físico”, a “alma” e o “espírito”. Embora nem a expressão “formação tricotômica do homem” nem a palavra “tricotomia” existam na Bíblia, elas são regularmente usadas por promotores do conceito da imortalidade inerente da alma.

Não há questionamento quanto ao corpo, a alma e o espírito serem associados à natureza humana. A Bíblia faz isso (e não só de maneira ‘subentendida’) do princípio ao fim. Qualquer sugestão, por mínima que seja, de que isso é ‘ignorado’ pelos leitores da Bíblia não corresponde à verdade. A questão não é a existência destes elementos, e sim se eles constituem realmente uma "tricotomia" e – principalmente – se dois deles (a “alma” e o “espírito”) se mantêm ativos e conscientes de maneira independente depois da “divisão” (que se alega ocorrer por ocasião da morte do indivíduo). Quando dão ênfase a essa chamada “formação tricotômica do homem”, é isso realmente o que estão querendo dizer os propagadores desses conceitos.

Naturalmente, nenhum leitor conseguiria extrair as conclusões acima dessas palavras de Paulo.2 (Para os leitores que desejarem ver uma consideração adicional sobre 1 Tessalonicenses 5:23, sugerimos este comentário.)

 

1 Tessalonicenses 5:23 faz referência ao “corpo”, à ‘alma” e ao “espírito”, mas não sugere (ou 'deixa subentendido') que estes são elementos de alguma “tricotomia”. Este versículo também não diz coisa alguma sobre a situação da “alma” e do “espírito” após a morte do homem. Ele trata da situação de indivíduos vivos (‘na presença de Cristo’), não de pessoas falecidas.

 

Além disso, segundo a Bíblia, depois da morte o corpo vai para a sepultura, porém sua alma vai para o Seol (ou Hades), que é o domínio dos mortos. Para mais informações, consulte o Apêndice B (“Sobre o Seol, ou Hades, e Conceitos Relacionados”).

 

Será que o exame da Bíblia leva necessariamente a essa conclusão? Seguem-se algumas citações de trechos (apenas versões em português):

Sobre o CORPO:

...se também me tirardes a este, e lhe acontecer algum desastre, fareis descer as minhas cãs [= cabelos brancos] com tristeza ao Seol. (Gênesis 44:29, AIB; Xeol, BJ, BMD)

Assim eles e tudo o que era seu desceram vivos ao Seol; e a terra os cobriu, e pereceram do meio da congregação. (Números 16:33, ALA; Xeol, BJ, BMD)

Tu, porém, não o deixarás impune; sensato como és, saberás como tratá-lo para fazer descer ao Xeol com sangue seus cabelos brancos." (1 Reis 2:9; BJ).

Caia sobre eles a Morte! Desçam vivos ao Xeol, pois o mal se hospeda junto deles! (Salmo 55:16, BJ; Sheol, APF, TEB)

Se subir ao céu, tu aí estás; se fizer no Seol a minha cama, eis que tu ali estás também. (Salmo 139:8, ALA; Xeol, BJ; Sheol, APF)

Vem conosco, vamos armar emboscada para espalhar sangue, sem motivo, insidiar o inocente! Vamos engoli-los vivos, como faz o Sheol, inteiros como os que descem ao fosso. (Prov. 1:11,12, Seol, ALA, TEB; Xeol, BJ, BMD)

Não repousam na companhia dos heróis tombados na antigüidade, os quais desceram ao Xeol com as suas armas, cujas espadas foram colocadas sob a sua cabeça e cujo pavês repousa sobre seus ossos, porque o terror dos heróis reinava na terra dos viventes. (Eze. 32:27, BJ; Sheol, TEB; Cheol, SBB; Seol, ALA)

Jonas permaneceu nas entranhas do peixe três dias e três noites. Então orou Jonas a Iahweh, seu Deus, das entranhas do peixe. Ele disse: De minha angústia clamei a Iahweh, e ele me respondeu; do seio do Xeol pedi ajuda, e tu ouviste a minha voz. (Jon. 2:1-3, BJ; Seol, ALA; Cheol, SBB)

 

Sobre a ALMA:

Para impedir sua alma de cair na sepultura... sua alma aproxima-se da sepultura e sua vida do jazigo dos mortos... salvou minha alma da sepultura... para tirar sua alma da sepultura... (Jó 33:18-30, BJ; cova, ACR, ARA, NVI, THO, SBB; fosso, CBC)

SENHOR, da cova fizeste subir a minha alma; preservaste-me a vida para que não descesse à sepultura. (Salmo 30:3, ARA; sepultura/ abismo, NVI, THO)

Porque sem causa encobriram de mim a rede na cova, a qual sem razão cavaram para a minha alma. (Sal. 35:7, ARA, THO, SBB)

Deus remirá a minha alma do poder da sepultura, pois me receberá. (Salmo 49:15, ACR; abismo, BMD)

Que homem há, que viva e não veja a morte? Ou que livre a sua alma das garras do sepulcro? (Salmo 89:48, ARA; sepultura, ACR, THO)

Tu, porém, amando a minha alma, a livraste da cova da corrupção, porque lançaste para trás das minhas costas todos os meus pecados. (Isaías 38:17, SBB, ARA, ALA).

Porventura pagar-se-á mal por bem? Pois cavaram uma cova para a minha alma. Lembra-te de que eu compareci à tua presença, para falar a favor deles, e para desviar deles a tua indignação. (Jer 18:20, ACR, SBB, THO)

 

Note-se que os textos tanto associam o corpo (ou partes dele) e até coisas inanimadas com o Seol (Sheol, Xeol, etc.), como a alma com a sepultura (cova, sepulcro, etc.).

Em se tratando especificamente dos textos sobre a alma (os do segundo quadro), há quem chame atenção para o fato de que nenhum deles está tratando de pessoas que morreram efetivamente, e sim de pessoas que tiveram sua vida ameaçada ou que foram livradas da morte por intervenção divina. Isto é, naturalmente, verdade. Porém, não altera o fato de que todos os textos especificam a sepultura como o destino da alma. Em Jó 33:18-30, Eliú estava dizendo que Deus livra a alma de descer para a cova, quer por meio de conselhos, quer por meio dum resgate. No Salmo 35:7, Davi estava pedindo ajuda a Deus para que ele não caísse na cova que os inimigos cavaram para a alma dele. Em Isaías 38:17, o rei Ezequias estava agradecendo a Deus por ele ter curado sua doença, livrando a alma dele da “cova da corrupção”, permitindo-lhe viver por mais algum tempo. Em Jeremias 18:20, o profeta também estava pedindo a ajuda de Deus contra oponentes que estavam armando intrigas para levá-lo à morte, ‘cavando uma cova para a alma dele’. Caso Deus não fizesse aquelas coisas que Eliú disse (em Jó 33:18-30), nem prestasse a ajuda que Davi pediu (no Salmo 35:7), nem tivesse curado o rei Ezequias (conforme Isaías 38:17) e nem tomasse atitude alguma para ajudar o profeta Jeremias (Jeremias 18:20), era para a sepultura (cova) que as almas de todas essas pessoas iriam.

Recusar-se a aceitar o que esses trechos dizem sobre o destino da alma com base no fato de que eram pessoas vivas que estavam dizendo essas coisas é, desta forma, uma tentativa de se esquivar da evidência. Se este procedimento fosse válido, qualquer afirmação que os personagens bíblicos fizeram sobre o que ocorre depois da morte poderia ser questionada na mesma base! É lógico que ninguém encontrará na Bíblia algum pronunciamento duma alma falecida, informando onde é que se encontra.  A razão disso é óbvia: Não há como uma alma (pessoa) falecida fornecer esta informação. Só pessoas vivas estão a par do fato de que suas almas estarão um dia em algum lugar, e só essas pessoas podem se pronunciar sobre isso. Portanto, o fato de esses trechos que tratam especificamente da alma só apresentarem pronunciamentos de pessoas que estavam vivas não nega que o destino da alma seja a sepultura, como desejam certos promotores do ensino da “imortalidade da alma”. Como se pode ver, todos os que se pronunciaram nestes trechos sabiam (e disseram claramente) que era para a cova que suas almas teriam ido, não fosse a intervenção divina.

Outra coisa que é importante salientar aqui é o seguinte:

As duas séries de textos apresentadas acima não têm qualquer intenção de sugerir que a situação é o contrário do que foi expresso na frase ‘a Bíblia diz que o corpo vai para a sepultura e a alma vai para o Seol’. Não, em absoluto. O que se verifica em qualquer comparação das versões bíblicas é a alternância nos modos de traduzir. Existem tanto versões bíblicas que associam o corpo com o Seol, como versões que o associam com a sepultura, nos mesmos trechos. No caso da alma, a situação é idêntica: Enquanto algumas versões fazem associação desta com a sepultura, outras o fazem com o Seol. O ponto em questão é que, se fosse realmente necessário estabelecer alguma distinção bíblica desses destinos, uma simples comparação das versões não permitiria qualquer declaração taxativa.

Mas, por que as versões bíblicas apresentam toda essa variação no modo de traduzir estas palavras? Por uma razão bem simples: os tradutores encararam todas estas palavras como sinônimas do termo hebraico Seol (que corresponde ao termo grego Hades).3 É fácil perceber que nenhum deles jamais viu qualquer necessidade de adequar seu trabalho a essa declaração “axiomática” da aplicação que está sendo analisada. Se todo tradutor bíblico (ou equipe de tradução) do mundo tivesse se sentido obrigado a encarar o assunto da maneira absolutista como está expresso na frase, ‘o corpo vai para a sepultura e a alma vai para o Seol’, dificilmente teriam procedido dessa maneira.

Na realidade, se existe alguma “tendenciosidade” nessa questão das versões, ela se verifica, não no caso dos tradutores, e sim no caso dos defensores da imortalidade da alma. Geralmente, quando estes se deparam com alguma versão bíblica que faz a associação corpo/Seol (ou alma/sepultura) tendem a desconsiderar imediatamente essa versão, em favor de outra que faz o contrário disso (ainda que em outras situações menosprezem alguma versão específica que invocam como sua “autoridade”).4 Quando não podem apelar para alguma versão bíblica que esteja de acordo com seu “axioma”, eles apressam-se em apresentar suas explicações e definições particulares para o que está dito no texto bíblico (naturalmente, sem conseguir negar a associação).

A questão é: Por que os defensores da imortalidade da alma procedem dessa maneira descrita no parágrafo anterior? Novamente, é por uma razão bem simples: Assim como no caso do termo “tricotomia” (analisado acima), existe uma “agenda oculta” por trás da frase ‘o corpo vai para a sepultura e a alma vai para o Seol’. O que eles estão querendo dizer com isso, na realidade, é: ‘o corpo morre e a alma permanece viva’. Há claramente essa segunda intenção, e aqui também se aplica perfeitamente o termo “subentendimento”. É isso, na verdade, o que eles pretendem deixar “subentendido” com sua insistência nessa declaração. É isso que os faz se apressar em tentar anular toda e qualquer associação que a Bíblia faça do corpo com o Seol ou da alma com a sepultura. E é isso também que os faz inventar suas mais variadas e obscuras definições para o termo Seol, apresentando-o ora como algum ‘lugar nas profundezas da Terra’, de localização indefinida, ora como algum “mundo espiritual” para onde iriam almas que permanecem vivas. De forma que, assim como ocorre no caso do termo “tricotomia”, não é a frase ‘o corpo vai para a sepultura e a alma vai para o Seol’ que é a questão, e sim o que os proponentes da imortalidade inerente da alma pretendem deixar subentendido com ela. A esse “subentendimento” aplica-se o mesmo que foi dito no caso do “subentendimento” que está por trás do termo “tricotomia”: os proponentes da imortalidade da alma não têm apoio algum das Escrituras para suas afirmações, já que, como se verá no prosseguimento desta análise, estas não dizem uma palavra sequer sobre continuidade da vida da alma após a morte.

 

A Bíblia, em si, não faz discriminação de destinos no caso do corpo e da alma. Não há como tirar esta conclusão com base no exame imparcial das versões bíblicas. Antes, com relação aos indivíduos falecidos as referências em geral situam ambos no Seol.  Em outras palavras, o Seol é realmente o “domínio dos mortos” (e não simplesmente o ‘domínio das almas’.). (Para uma consideração do significado do termo "Seol" à luz da informação apresentada nas Escrituras, veja o artigo Seol - O Consenso do Antigo Testamento).

 

ALMAS FALECIDAS

A expressão “alma falecida” significa apenas “pessoa falecida”, como pode ser visto numa ordem similar dada mais adiante em Números:

“Quem tocar no cadáver de qualquer alma humana também terá de ser impuro por sete dias”. – Números 19:11.

Dizer “cadáver de qualquer alma humana” é o mesmo que dizer “o corpo de qualquer pessoa”.

 

Certamente. A expressão “alma falecida” significa “apenas” isso, nada mais do que isso, nem diferente disso. Uma vez que a alma é o próprio homem (Gênesis 2:7), o significado é “pessoa falecida” (ou “homem morto”). Consequentemente, a expressão “cadáver de qualquer alma humana” é equivalente a “corpo de qualquer pessoa” morta (ou “cadáver de algum homem” morto). Outras versões de Números 19:11 confirmam isso:

Os que tocarem no corpo de uma pessoa morta serão impuros por sete dias. (NCV)

Qualquer um que tocar no corpo de uma pessoa morta será impuro por sete dias. (NIRV)

Aquele que tocar numa pessoa morta, algum corpo morto de um homem, será impuro por sete dias. (Dby)

Naturalmente, qualquer um é livre para crer no que quiser (por exemplo, na ideia de que ‘não importa o que morra, a alma continua viva de qualquer maneira’). Afirmar que “a Bíblia ensina isso” é outra história, e é descabido citar textos tais como Números 19:11 para apoiar tal ideia! Nenhum leitor que tomar como base as palavras do texto veria motivo para fazer essa afirmação porque ela resulta num erro lógico primário.5 Se, admitidamente, “alma” equivale a “pessoa” e a pessoa está morta, segue-se que a alma está morta, não o contrário! É inútil qualquer tentativa de reler a expressão “alma falecida” para obrigá-la a ter um sentido oposto ao que tem.

 

A expressão “alma falecida” significa "apenas" isso: que a alma em questão está morta. Nada diferente disso.

 

QUANDO O HOMEM MORRE SEUS PENSAMENTOS PERECEM

“Não confieis nos nobres, nem no filho do homem terreno, a quem não pertence a salvação. Sai-lhe o espírito, ele volta ao seu solo. Neste dia perecem deveras os seus pensamentos”. – Salmo 146:3, 4.

Ao contrário do que um leitor desavisado poderia concluir, o texto acima se refere aos planos e consecuções do ser humano. Qualquer coisa que o homem pense e planeje perde o sentido quando ele morre, pois depois da morte não há nada mais a fazer “debaixo do sol”, em conexão com a vida que se possuía. – Eclesiastes 9:5, 6.

Em primeiro lugar, o que vem a ser um “leitor desavisado” das Escrituras? É a pessoa que se atém ao que lê, ou será que é aquela que baseia suas conclusões em releituras de terceiros, sem verificar se os textos citados afirmam realmente o que se apregoa que eles dizem?

As seguintes são as informações do Salmo 146:3, 4:

1 – Em relação ao que ocorre depois da morte com os “planos e consecuções humanos” ou “qualquer coisa que o homem pense e planeje”, o verbo usado invariavelmente é “perecem” (ou um verbo sinônimo). Nenhum leitor encontrará no texto alguma ideia parecida com “perde o sentido”. As expressões “perecer” e “perder o sentido” obviamente não são equivalentes.

2 – O foco da ocorrência descrita é o momento (“neste dia”), não o local (“debaixo do sol”). Leitor algum encontrará esta última expressão neste Salmo; ela não faz parte dele.

E embora Eclesiastes 9:6 diga realmente que os mortos “nunca mais participarão de tudo o que se faz debaixo do sol” (BJ), esse texto não estabelece “conexão com a vida que se possuía”, e muito menos sugere que os mortos “participarão de tudo” em outro lugar. O versículo 10 exclui essa possibilidade:

... no Seol, para onde tu vais, não há obra, nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma. (ARA)

... no mundo dos mortos não se faz nada, e ali não existe pensamento, nem conhecimento, nem sabedoria. E é para lá que você vai. (NTLH)

De forma que a expressão “debaixo do sol” foi descontextualizada. O texto de onde ela foi tirada, na íntegra, informa que os mortos não pensam nem fazem nada, e não só “debaixo do sol”, como também “no Seol”. Em uma só frase: Não o fazem em lugar algum.

A expressão “debaixo do sol” não pode ser retirada de outro texto e depois associada ao Salmo 146:3, 4, com o objetivo de mudar o foco temporal e local deste Salmo. Caso isto seja feito, o leitor deveria ser informado acerca do que o texto original de onde esta expressão foi retirada prossegue dizendo depois da ocorrência dela.

 

Essa realidade é descrita no livro de Jó:

“Mas o varão vigoroso morre e jaz prostrado e o homem terreno expira, e onde está ele?.... Meus próprios dias passaram adiante, romperam-se os meus próprios planos, os desejos do meu coração”. – Jó 14:10; 17:11.

Que o sentido de Salmos 146:4 é esse mesmo pode ser percebido em outras traduções da Bíblia. Note como elas traduzem a conclusão do versículo:

“Naquele mesmo dia acabam-se os seus planos”. – NVI.

“No mesmo dia seus planos se acabam”. – Vozes.

“Naquele dia vão-se seus desígnios”. – Santos Saraiva.

Uma nota da Bíblia Apologética informa que a palavra hebraica traduzida em algumas Bíblias por “pensamentos” é estonath, e que ela significa também “planos”, “propósitos” ou “desígnios”, conforme demonstram as traduções acima. Portanto, o texto não significa que ao morrer os pensamentos da pessoa desaparecem completamente, mas sim que os planos dela, qual ser humano, se acabam ou perecem. – Compare com Lucas 12:13-21 e 16:22-31.

Enfatizando o que já foi dito em parte acima:

1 - O verbo usado no Salmo 146:4 é “perecem” (ou um verbo equivalente). É neste verbo que está o núcleo do texto.

2 – O leitor não encontrará neste Salmo alguma referência a “planos [da pessoa] qual ser humano”. Nenhum tradutor bíblico agregou ao texto esta expressão qualificativa sublinhada. Este acréscimo arbitrário não resulta da leitura simples do Salmo, e sim de uma interpretação dele.

O que significa a frase ‘seus pensamentos perecem’? Que entendimento qualquer leitor teria ao ver esta expressão no Salmo 146:3, 4? Será que alguém chegaria à conclusão de que os pensamentos ‘não desaparecem completamente’?

Se toda pessoa normal entende muito bem o sentido do verbo “perecer”, como foi possível o texto ser contradito desse jeito? A “estratégia” usada foi desviar o foco do verbo “perecer” (ou “acabar”) para uma especulação em torno do que, exatamente, perece. De fato, qualquer um que fizer uma consulta geral às versões notará que, enquanto o verbo “perecer” (ou um sinônimo dele) tem presença constante, a palavra usada para descrever o objeto, ou seja, “o que perece” na morte, varia de tradutor para tradutor. Entre as palavras usadas em algumas versões em língua inglesa, por exemplo, temos “planos” (NIV, CEB, CJB, ESV, GW, GNT, CSB, LEB, NCV, NIRV, NKJV, NLT, NRS, RSV, TNIV), “pensamentos” (ASV, RHE, HNV, KJV, NAS, WBT, TMB, WEB, WYC, YLT), “propósitos” (BBE, DBY) e “projetos” (MSG).6

Mas a questão é: Será que isso muda alguma coisa? Devemos crer que a alteração do objeto reduz de alguma maneira a efetividade do verbo “perecer”, de maneira que este verbo só se aplica plenamente quando se refere a “planos [da pessoa qual ser humano]” e não a “pensamentos”? Será que os muitos tradutores que optaram por esta última palavra não transmitiram o sentido “exato” do texto?7

Onde se originam os “planos”, “desígnios”, “projetos”, “propósitos”, ou qualquer outra coisa desse gênero? Não é na mente? É o processo mental envolvido no ‘planejamento’ diferente dos demais? Em palavras mais simples, será que existe maneira de alguém planejar, projetar, conceber ou arquitetar alguma coisa sem ter pensado nela? E quem é que tem esses pensamentos? É simplesmente um corpo, ou uma pessoa?

Inversamente, se é verdade que os “planos”, “projetos”, “desígnios” ou “propósitos”, da pessoa “qual ser humano” perecem na morte, mas ‘os pensamentos não desaparecem completamente’, de que natureza seriam esses “pensamentos” restantes? Ou devemos entender que depois da morte os pensamentos “humanos” perecem de fato, mas daí surgem “novos pensamentos” de “natureza espiritual”, completamente diferentes dos que a pessoa tinha “qual ser humano”? O que é mais provável: Que os “planos” / “desígnios” / “projetos” / “propósitos” duma pessoa se acabam na morte, mas certos “pensamentos” indefiníveis permanecem (ou talvez surjam novos!), ou será que os “planos” / “desígnios” / “projetos” / “propósitos” / “pensamentos” se acabaram precisamente porque a pessoa morreu? Qual destas duas alternativas é o entendimento natural que qualquer leitor teria, baseando-se unicamente nas palavras do Salmo – em qualquer versão bíblica e independentemente da palavra usada – sem dar atenção a elucubrações de terceiros?

Note-se também a frase citada (da nota da Bíblia Apologética): “a palavra hebraica traduzida em algumas Bíblias por ‘pensamentos’... significa também...”. Se o objetivo é sugerir que a palavra “pensamentos” não transmite o “verdadeiro sentido” do texto e as demais palavras citadas o fazem melhor, esta citação tem efeito nulo, já que o termo “pensamentos” não foi excluído do cenário, sendo uma tradução perfeitamente válida. Na realidade, esse termo pode até ser apontado como o mais abrangente de todos.

Uma última questão pertinente: Se essa aplicação do texto está correta, como é possível harmonizar a afirmação de que “ao morrer os planos [da pessoa], qual ser humano, se acabam ou perecem” com as muitas alegações sobre “espíritos desencarnados” opinando justamente sobre essas coisas? Como é que um “espírito desencarnado” poderia se interessar ou mesmo saber de algum “plano” / “propósito” / “desígnio” / “projeto” que ele tinha enquanto era parte de alguém que vivia “qual ser humano”, se tais coisas ‘se acabaram ou pereceram’ por ocasião da morte?8

Qualquer que seja a palavra usada nas línguas modernas para traduzir o objeto direto do Salmo 146:4 (“o que perece”) ela não muda o sentido do verbo (“perecer”). O significado deste verbo se mantém inalterado. O que este Salmo está dizendo, efetivamente, é: pessoas (almas) mortas não pensam.

 

TODOS VOLTAM PARA O PÓ

“Todos vão para um só lugar. Todos eles vieram a ser do pó e todos eles retornam ao pó”. – Eclesiastes 3:20.

Esse texto se refere ao corpo biológico quando morre. É ele que vai para o pó do solo, de onde Deus tirou a matéria-prima usada para criá-lo, a fim de que o homem vivesse na Terra, conforme o texto de Gênesis 2:7 descreve.

“Javé Deus plasmou o homem, do pó da terra, insulflou em suas narinas um sopro de vida, e o homem se tornou um ser vivo”. – Mensagem de Deus.

“O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou no seu rosto um sopro de vida, e o homem tornou-se alma (pessoa) vivente”. – Matos Soares.

Dizer que a pessoa desaparece completamente ao morrer, com base nesse versículo, é dogmatizar o assunto e desconsiderar aquilo que o restante das Escrituras diz sobre o que acontece depois da morte do corpo físico.

Como consequência desse raciocínio sobre “corpo biológico quando morre”, o trecho de Eclesiastes 3:19, 20 (NVI) ficaria com a seguinte redação:

Original
Releitura

“Porque o que sucede aos filhos dos homens sucede aos animais; o mesmo lhes sucede: como morre um, assim morre o outro, todos têm o mesmo fôlego de vida, e nenhuma vantagem tem o homem sobre os animais; porque tudo é vaidade. Todos vão para o mesmo lugar; todos procedem do pó e ao pó tornarão.”

‘Porque o que sucede ao corpo biológico dos filhos dos homens sucede ao corpo biológico dos animais; o mesmo lhes sucede: como morre o corpo biológico de um, assim morre o corpo biológico do outro, todos têm o mesmo fôlego de vida, e nenhuma vantagem tem o corpo biológico do homem sobre o corpo biológico dos animais; porque tudo é vaidade. Todos os corpos biológicos vão para o mesmo lugar; todos procedem do pó e ao pó tornarão. O homem e os animais não tornarão ao pó.

Em apoio da ideia de que o Eclesiastes 3:20 “se refere ao corpo biológico quando morre” foi citado Gênesis 2:7 (na Matos Soares), alegando-se que este texto ‘descreve’ a situação. O texto diz:

Original
Releitura

“O Senhor Deus formou, pois, o homem do barro da terra, e inspirou no seu rosto um sopro de vida, e o homem tornou-se alma (pessoa) vivente.”

‘O Senhor Deus formou, pois, o corpo biológico do barro da terra, e inspirou no seu rosto um sopro de vida, e o corpo biológico tornou-se alma (pessoa) vivente.’

Mencionou-se ainda “aquilo que o restante das Escrituras diz sobre o que acontece depois da morte do corpo físico”. Já que o relato sobre o primeiro homem está em discussão, nada mais apropriado do que recordar o que foi dito sobre a morte dele. Deus antecipou o que ocorreria se o homem desobedecesse (Gênesis 2:16, 17, NVI):

Original
Releitura

“E o Senhor Deus ordenou ao homem: Coma livremente de qualquer árvore do jardim, mas não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, certamente você morrerá.

‘E o Senhor Deus ordenou ao homem: Coma livremente de qualquer árvore do jardim, mas não coma da árvore do conhecimento do bem e do mal, porque no dia em que dela comer, certamente teu corpo físico morrerá. Você permanecerá vivo.

Quando o homem desobedeceu, a sentença pronunciada por Deus, coerentemente, foi (Gênesis 3:19, NVI):

Original
Releitura

“Com o suor do seu rosto você comerá o seu pão, até que volte à terra, visto que dela foi tirado; porque você é pó, e ao pó voltará.”

‘Com o suor do seu rosto teu corpo físico comerá o seu pão, até que volte à terra, visto que dela foi tirado; porque teu corpo físico é pó, e ao pó voltará. Você não voltará ao pó.

 

O que está mais próximo do “dogmatismo”9: Aceitar o que os textos dizem, ou defender releituras que os contradizem?

 

Leia a seguir alguns exemplos:

“E aconteceu que o mendigo morreu, e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão”. – Lucas 16:22.

Os defensores da “imortalidade da alma” se veem obrigados a entender a parábola do “rico e Lázaro” (da qual esse trecho faz parte), de maneira literal (desconsiderando todos os absurdos que isso gera). Alguns deles afirmam também que o “seio de Abraão” é uma “região” que antes da ressurreição de Cristo se localizava no Hades e depois da ressurreição dele foi transferida para o céu (apesar de o próprio relato de Cristo e todo o resto da Bíblia não fazer a mínima referência a essas coisas).10 Sendo verdade tudo isso, e tomando-se como base apenas esta frase citada da parábola, surgem as perguntas: Devemos entender, então, que quando uma boa pessoa morre, os anjos do céu são os encarregados de transportá-la para essa “região”? Por que deveriam eles fazer isso? Por que uma “alma espiritual” não poderia fazê-lo por si mesma? Qual seria o impedimento? Porventura os que sabem todas essas coisas sobre a “região do Seio de Abraão” não teriam alguma resposta para estas questões?

Para uma consideração mais abrangente sobre a parábola do “homem rico e Lázaro”, sugerimos este artigo.

“Além disso, irmão entregará irmão à morte, e o pai ao seu filho, e os filhos se levantarão contra os pais e os farão matar. E vós sereis pessoas odiadas por todos, por causa do meu nome.... O que eu vos digo na escuridão, dizei na luz; e o que ouvis sussurrando, pregai dos altos das casas. E não fiqueis temerosos dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma”. – Mateus 10:27, 28.

Os que lerem o texto na versão citada perceberão imediatamente que a citação acima está truncada. O ponto final está fora de lugar. As palavras acompanhantes de Jesus são: “... antes, temei aquele que pode destruir na Geena tanto a alma como o corpo.” Permitem essas palavras a conclusão de que a alma é imortal? [Aos leitores interessados em mais informações sobre Mateus 10:28, sugerimos o artigo É a Alma Imortal? (Mateus 10:28 e o Dualismo)].

“E quando abriu o quinto selo, vi por baixo do altar as almas dos que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus e por causa da obra de testemunho que costumavam ter. E [as almas desses que morreram] gritaram com voz alta, dizendo:…”. – Apocalipse 6:9-10, colchetes acrescentados.

Recordando as palavras ditas no início: “segundo a Bíblia, depois da morte o corpo vai para a sepultura, porém sua alma vai para o Seol (ou Hades), que é o domínio dos mortos.” Se é assim, como explicar que as “almas desses que morreram” estejam agora nas proximidades do trono celestial de Deus, gritando debaixo dum altar para que Ele ouça? Estaria a Bíblia se contradizendo? Ou devemos entender que as “almas desses que morreram” podem, sim, ir para o céu, mas chegando lá ficam gritando debaixo dum altar? Uma vez que se trata de cristãos que foram fiéis até a morte, não deveriam suas almas estar pelo menos na “região chamada seio de Abraão”, que ‘foi transferida para o céu após a ressurreição de Cristo’, em paz e tranquilidade? Por que razão eles estão gritando debaixo dum altar?

Para uma análise de Apocalipse 6:9, 10, veja este comentário.

“Então o pó retorna à terra, assim como veio a ser, e o próprio espírito retorna ao verdadeiro Deus que o deu”. – Eclesiastes 12:7.

“[Quando certa menina morreu, Jesus] a tomou pela mão e chamou, dizendo: 'Menina, levanta-te!' E voltou-lhe o espírito e ela se levantou instantaneamente, e ele ordenou que se lhe desse algo para comer”. – Lucas 8:49-55, colchetes acrescentados.

“E Jesus exclamou com voz alta e disse: ‘Pai, às tuas mãos confio o meu espírito.’ Dizendo isso, expirou”. – Lucas 23:46.

Qual destes textos afirma que o espírito de alguém continuou ativo e consciente à parte do corpo? As palavras de Eclesiastes 12:7, ‘o espírito retorna a Deus’ admitem essa conclusão? As últimas palavras de Jesus antes de falecer contradizem ou confirmam Eclesiastes 12:7? Os textos dão alguma base para a conclusão de que o espírito de Jesus e o dessa menina ressuscitada não retornaram a Deus? E será que qualquer outra referência bíblica sugere que acontece algo diferente com o espírito depois da morte, além de ‘retornar a Deus’?

“No entanto, o próprio Deus remirá a minha alma da mão do Seol, pois ele me receberá”. – Salmo 49:15.

O que é essa “mão do Seol” e quem é ‘remido’ de lá?

Porém Deus me livrará do poder da morte, pois ele me receberá. (NTLH)

Mas Deus remirá a minha alma do poder da morte, pois ele me tomará para si. (ARA)

Mas Deus redimirá a minha vida da sepultura e me levará para si. (NVI)

É possível deduzir deste texto a ideia de que a alma continua viva? A “mão do Seol”, à qual a alma fica sujeita, é o poder da vida ou o da morte?11

Portanto, são os corpos dos que morrem que vão para o pó do solo, e não suas almas ou espíritos. E o lugar onde Deus pode receber quem morre é o mundo espiritual, não o mundo terreno, pois “carne e sangue não podem herdar o reino de Deus, nem pode a corrupção herdar a incorrupção”. – 1 Coríntios 15:50.

Novamente: Se, como foi afirmado no início, “segundo a Bíblia, depois da morte ... a  alma vai para o Seol (ou Hades)”, seria esse, então, o “mundo espiritual” onde Deus “pode receber quem morre”? Está Deus no Seol para receber “quem morre” lá? Se não é o Seol, e sim o domínio celestial, devemos acreditar que Ele ‘recebe quem morre’ lá? Não acontece nada entre o momento da morte e o momento em que a pessoa é ‘recebida no mundo espiritual’?

Estes questionamentos são decorrência direta dessa releitura do Salmo 49:15. Este texto não disse uma só palavra sobre Deus ‘receber quem morre’ em algum lugar’. A primeira coisa que Ele faz, segundo o Salmo, é “remir” (“redimir” / “resgatar”, conforme outras versões) a alma do poder da morte. É só depois disso que Deus “recebe” (“toma a si” / “leva para si”, segundo outras versões) essa pessoa. O entendimento do texto é um de dois: Ou Deus livra uma pessoa viva do “poder da morte”, ou Deus liberta uma pessoa morta do “poder da morte”. No primeiro caso, Deus livrou uma pessoa viva de ficar sob o “poder do Seol” (ou seja, de morrer). No segundo caso, a pessoa estava morta (no “poder do Seol”) e foi redimida, tendo sido ressuscitada.

E é precisamente a ressurreição o assunto tratado por Paulo no capítulo 15 de 1 Coríntios (como qualquer leitor pode constatar lendo o capítulo inteiro). Simplesmente não há como extrair a ideia de continuidade automática da vida da alma após a morte de qualquer palavra de Paulo neste capítulo.

A declaração feita no quadro acima, envolvendo o Salmo 49:15 e 1 Coríntios 15:50 é, portanto, mais um caso de omissão de informação. Uma declaração aparentemente inocente tal como “o lugar onde Deus pode receber quem morre é o mundo espiritual” esconde mais do que revela. Não se deu atenção ao termo “remir” (“livrar” / “redimir” / “resgatar”) no Salmo 49:15 e o ensino da ressurreição dos mortos – que é o assunto considerado em 1 Coríntios 15, sendo que a ressurreição é o que altera a situação de “quem morre” antes de essa pessoa ser ‘recebida’ por Deus – foi completamente obscurecido.

Deus não recebe pessoas mortas no mundo espiritual. Ele tanto pode livrar pessoas da morte como ressuscitar pessoas mortas. “Quem morre” é ressuscitado e só depois disso pode ser acolhido por Ele.

 

OS MORTOS NÃO SABEM NADA E NÃO HÁ ATIVIDADES NO SEOL

“Com efeito, os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem mais nada; para eles não há mais recompensa, porque sua lembrança está esquecida. Amor, ódio, tudo já pereceu; não terão mais parte alguma, para o futuro, no que se faz debaixo do sol”. – Eclesiastes 9:5, 6, Centro Bíblico Católico.

“Tudo o que a tua mão possa fazer, faze-o com todas as tuas faculdades, porque na região dos mortos para onde vais, não há nem trabalho, nem ciência, nem inteligência, nem sabedoria”. – Eclesiastes 9:10, Missionários Capuchinhos.

“Se o primeiro texto acima tivesse que ser entendido de maneira absolutamente literal, significaria que o ser humano não tem nenhuma esperança, pois é dito que para os que morrem “não há mais recompensa”.

Mas não é isso o que outras partes da Bíblia dizem:

A discussão aqui não tem qualquer relação com “maneira absolutamente literal” de se entender alguma coisa.12 O problema foi – mais uma vez – gerado por uma releitura. Para começar, o texto diz que para os mortos “não há mais recompensa”, e não que eles “não têm nenhuma esperança”.

O que é a “recompensa” neste texto? Será que é a mencionada nos textos que seguem?

“[Deus] dará a cada um segundo as suas obras: vida eterna aos que estão buscando glória, e honra e incorruptibilidade, pela perseverança na obra que é boa [enquanto se está vivo neste mundo]; no entanto, para os que são briguentos e que desobedecem à verdade, mas que obedecem à injustiça, haverá furor e ira”. – Romanos 2:6-8, colchetes acrescentados.

“Vem a hora em que todos os que estão nos túmulos memoriais ouvirão a sua voz e sairão, os que fizeram boas coisas, para uma ressurreição de vida, os que praticaram coisas ruins, para uma ressurreição de julgamento”. – João 5: 28, 29.

“E muitos dos adormecidos no solo de pó acordarão, estes para a vida de duração indefinida e aqueles para vitupérios e para abominação de duração indefinida”. – Daniel 12:2.

Disse o primeiro texto que a “vida eterna” (ou “furor e ira”) sobrevêm após a morte do indivíduo? Não. As palavras são: ‘Deus dará a cada um segundo as suas obras.’ Quando é que Deus faz isso? É imediatamente após a morte de cada indivíduo? Não. O verbo está no futuro (“dará”).

Disse Jesus que a ação descrita no segundo texto já estava ocorrendo? Não. Ele disse essas palavras cerca de mil anos depois da escrita do Eclesiastes. Ainda assim ele disse “vem a hora” e os demais verbos também estão no futuro (“ouvirão” e “sairão”).

Tratou o terceiro texto duma ocorrência presente, já em curso? Não. Esses destinos só serão determinados quando os "adormecidos no solo de pó" acordarem, não antes disso. Esta informação dada ao profeta Daniel também situou o evento no futuro. Inclusive, com relação ao próprio Daniel, o registro do capítulo 12, versículo 13 diz:

“Quanto a você, siga o seu caminho até o fim. Você descansará e, então, no final dos dias, você se levantará para receber a herança que lhe cabe”. (NVI; no fim ressuscitará para receber a sua recompensa, NTLH)

Outra coisa: Qualquer insistência na ideia de que é simplesmente o “corpo biológico” de Daniel (decomposto há milênios) que se ‘levantará’ (na ressurreição) “no final dos dias” é ilógica. A ressurreição “para receber a recompensa” é a da pessoa de Daniel. Não se dá recompensa a um “corpo biológico” e sim a uma pessoa (alma).

Os textos são unânimes em dizer que na futura ressurreição, quando os mortos – as pessoas deles, não simplesmente seus “corpos biológicos” – ‘acordarem’ e ‘saírem’, é que a recompensa de Deus, ou o julgamento dele, serão aplicados. Em momento algum antes disso. De modo que, mesmo que essa “recompensa” referida no Eclesiastes fosse a que Deus dará aos fiéis, isso ainda não provaria a continuidade automática da vida da alma após a morte, porque há, inescapavelmente, um intervalo envolvido antes de a recompensa ser dada.

Conforme se vê, há sim recompensa para os que morrem, de acordo com suas ações enquanto estavam vivos quais seres humanos.

De modo que aquilo que está nessa porção do livro de Eclesiastes tem que ser compreendido de outra maneira, para não haver contradição com outras partes das Escrituras. Dogmatizá-la e desconsiderar o resto da Bíblia para tentar apoiar uma ideia pré-concebida não é o caminho recomendado. – Filipenses 4:5.

O termo “recompensa” só foi “compreendido de outra maneira” aqui porque não foi considerado o contexto onde esse termo está inserido. Isso, bem como o persistente esforço de dar às “outras partes das Escrituras” uma aplicação igualmente descontextualizada constitui um ótimo exemplo de porque “desconsiderar o resto da Bíblia para tentar apoiar uma ideia pré-concebida não é o caminho recomendado.” (Outro exemplo de como o descaso para com o contexto gera facilmente essas “contradições” é comentado em Jesus 'Resgatou Cativos do Hades'? [Examinando Uma Aplicação de Efésios 4:8, 9])

Pois bem, se Eclesiastes 9:5 não se refere a alguma “recompensa para os que morrem, de acordo com suas ações enquanto estavam vivos quais seres humanos”, então o que o texto quer dizer com “recompensa”? Qualquer leitor pode ver isso nos versículos seguintes (Eclesiastes 9:7-9):

Portanto, vá, coma com prazer a sua comida, e beba o seu vinho de coração alegre, pois Deus já se agradou do que você faz. Esteja sempre vestido com roupas de festa, e unja sempre a sua cabeça com óleo. Desfrute a vida com a mulher a quem você ama, todos os dias desta vida sem sentido que Deus dá a você debaixo do sol; todos os seus dias sem sentido! Pois essa é a sua recompensa na vida pelo seu árduo trabalho debaixo do sol. (NVI)

O trecho não falou em “recompensa para os que morrem” e sim em “recompensa na vida”. Todas as atividades descritas neste trecho (comer, beber, vestir-se, amor conjugal, etc.) só podem ser realizadas por pessoas (almas) vivas. Naturalmente, todas elas exigem trabalho, e o resultado deste esforço é que é a “recompensa” (“prêmio”, CBC) que as pessoas vivas recebem por seu trabalho. O próprio livro do Eclesiastes confirma isso:

Descobri que não há nada melhor para o homem do que ser feliz e praticar o bem enquanto vive. Descobri também que poder comer, beber e ser recompensado pelo seu trabalho é um presente de Deus.  (Eclesiastes 3:12, 13, NVI)

É interessante que logo depois da aplicação flagrantemente errada do termo “recompensa”, confundindo-o com a “esperança” para os mortos (a ser cumprida no futuro), as declarações que seguem expressaram uma ideia parecida:

“O próprio trecho em apreço dá a dica sobre como entendê-lo. Tudo o que ele descreve se refere às atividades que são feitas “debaixo do sol”, ou seja, na Terra. Quando determinada pessoa morre, ela deixa para trás tudo aquilo que prezava e fazia. Tudo da sua outrora rotina, qual ser humano, não lhe pertence mais e nunca mais vai pertencer. Não terá qualquer participação nas atividades às quais se dedicava. Não voltará para os seus negócios, não se preocupará com o dinheiro que tinha, não sairá para se divertir nos lugares que gostava etc. Tudo o que fazia debaixo do sol desapareceu para sempre.”

Estas são, sem sombra de dúvida, declarações em termos nada incertos! Ocorre que toda essa ênfase devasta a argumentação baseada em algum suposto conflito entre o entendimento natural do “trecho em apreço” e “outras partes da Bíblia”. Ora, se é a essas coisas que o trecho está se referindo, então a “contradição com outras partes das Escrituras” não existiu em momento algum. Era um falso argumento, nada mais que uma manobra diversionista para se esquivar da verdade expressa diretamente no texto!13

E o assunto não termina nisso. De novo, a sequência de frases categóricas acima elimina qualquer margem para a ideia de os chamados “espíritos desencarnados” poderem transmitir mensagens a pessoas vivas, descrevendo coisas que faziam, preocupações que tinham, alguma coisa ou pessoa de quem gostavam ou não, ou qualquer outro assunto que era do interesse deles “enquanto estavam vivos quais seres humanos, debaixo do sol”. De acordo com o que está dito acima (e, o que é mais importante: confirmado por todos os textos bíblicos relacionados com o assunto), uma alma ou espírito “desencarnado” não opina sobre essas coisas, porque “não terá qualquer participação nas atividades às quais se dedicava” e “tudo da sua outrora rotina, qual ser humano, não lhe pertence mais”.

Portanto, é sob o ponto de vista dos que ficam na Terra que Eclesiastes 9:5, 6 deve ser compreendido, conforme sugerido nos colchetes abaixo:

“Com efeito, os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem mais nada [no que diz respeito à vida e expectativas do ser humano]; para eles não há mais recompensa [neste mundo, algo que os humanos sempre buscam por seus esforços], porque sua lembrança está esquecida [pois forçosamente chega o dia quando quem morreu não é mais lembrado por ninguém aqui na Terra]. Amor, ódio, ciúme [relacionados à vida humana que tiveram], tudo já pereceu; não terão mais parte alguma, para o futuro, no que se faz debaixo do sol [ou seja, no planeta Terra].” – Tradução do Centro Bíblico Católico (CBC).

O artifício usado para apoiar a conclusão de que o texto deve ser compreendido “sob o ponto de vista dos que ficam na Terra”14 foi a inserção de várias declarações dentro de colchetes no texto. Segue-se uma verificação delas, uma por uma, com grifos acrescentados:

“Com efeito, os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem mais nada [no que diz respeito à vida e expectativas do ser humano]”

A palavra usada no texto é “nada”, que significa “nenhuma coisa”.15 As demais versões bíblicas estão de acordo com esta definição e não admitem exceções:

“... os mortos não sabem coisa nenhuma” (ARA, Alf, THO e outras);

“... os mortos não sabem coisa alguma” (SBB, TEB e outras).

 

“para eles não há mais recompensa [neste mundo, algo que os humanos sempre buscam por seus esforços]”

Nenhuma “recompensa” está circunscrita a locais; ela se refere a pessoas – não importa onde essas pessoas estejam. Em outras palavras, a questão não é “onde” uma recompensa é recebida, e sim, quem a recebe. Os mortos não estão “neste mundo” e sim no Seol. A recompensa não existe “para eles”, que estão no Seol. O trecho do Eclesiastes em questão trata dos mortos, não de alguém que se encontra “neste mundo”. Não há maneira de obrigar este trecho a sugerir que existe alguma “recompensa” para mortos no Seol.

“porque sua lembrança está esquecida [pois forçosamente chega o dia quando quem morreu não é mais lembrado por ninguém aqui na Terra].”

O sujeito da frase está errado. A “lembrança” (ou “memória”) que se apaga é a dos mortos, não a de ‘alguém aqui na Terra’. As demais frases do texto também têm os mortos como sujeito. São eles os que “não sabem mais nada” e que ‘não têm mais recompensa’; nada disso se aplica a ‘alguém aqui na Terra’.

O tempo verbal também está errado. Nada se diz sobre ‘algum dia’ no futuro indefinido em que “forçosamente... quem morreu não é mais lembrado por ninguém”. O texto diz, simplesmente, que ‘a lembrança está [não “forçosamente estará algum dia”] esquecida’ (“a memória ficou [não “forçosamente ficará algum dia”] entregue ao esquecimento”, ACR). Não se especifica intervalo algum após a morte para este esquecimento ocorrer. Antes, a ideia transmitida é de imediatismo. Isso está em perfeita harmonia com o já analisado Salmo 146:4, “Sai-lhe o espírito, e ele volta para a terra; naquele mesmo dia perecem os seus pensamentos.” (ARA).

“Amor, ódio, ciúme [relacionados à vida humana que tiveram], tudo já pereceu”

O verbo ‘perecer’ aplica-se aos sentimentos em si, nada se fala sobre o momento em que eles existiram. E se falasse, a declaração acima ainda estaria errada, porque o texto trata da situação depois da morte; não estabelece relação com a “vida humana que tiveram” antes da morte. A declaração é sentenciosa e direta: “tudo já pereceu”. Outras versões apresentam essa frase de maneira ainda mais clara: “o seu amor, o seu ódio, e a sua inveja pereceram” (ACR). “Os seus amores, os seus ódios, as suas paixões, tudo isso morreu com eles.” (NTLH). Estes sentimentos – amor, ódio e ciúme – caracterizam unicamente relacionamentos entre pessoas vivas. Não há como obrigar o texto a dar qualquer sugestão da existência desses sentimentos entre pessoas (almas) mortas.

não terão mais parte alguma, para o futuro, no que se faz debaixo do sol [ou seja, no planeta Terra]

Como nos casos já considerados, sendo isso verdade, está eliminada de novo qualquer margem para “almas” ou “espíritos desencarnados” opinarem ou terem a mínima influência que seja naquilo que acontece “no planeta Terra”, “com relação à vida humana que tiveram”.

Da mesmíssima maneira pode ser entendida a passagem mais adiante de Eclesiastes:

“Tudo o que a tua mão possa fazer, faze-o com todas as tuas faculdades, porque na região dos mortos para onde vais, não há nem trabalho [humano], nem ciência [humana], nem inteligência [humana], nem sabedoria [humana].” – Eclesiastes 9:10, Missionários Capuchinhos, colchetes acrescentados.

Como se chegou a esse ‘mesmíssimo’ entendimento’ de Eclesiastes 9:10? Isto só foi possível porque o artifício é também o ‘mesmíssimo’ que foi usado no caso do Eclesiastes 9:5, 6: “colchetes acrescentados” ao texto.

Não se questiona aqui o procedimento em si. Todo expositor de assuntos bíblicos faz isso quando deseja esclarecer alguma ideia para os leitores. Mas, este é o ponto: O acréscimo de palavras (ou frases) a um texto bíblico entre colchetes é uma medida adequada para esclarecer; jamais deveria ser usada para distorcer. Se o expositor desrespeitar todos os critérios de exegese, o resultado será uma grave deturpação na ideia que está sendo transmitida pela referência bíblica – ou até coisa pior. Para deixar isso claro seguem-se três exemplos (com grifos acrescentados), o primeiro dos quais foi visto acima:

“E quando abriu o quinto selo, vi por baixo do altar as almas dos que tinham sido mortos por causa da palavra de Deus e por causa da obra de testemunho que costumavam ter. E [as almas desses que morreram] gritaram com voz alta, dizendo:…”. – Apocalipse 6:9-10, colchetes acrescentados.

Embora a frase “as almas desses que morreram” não se encontre no original, não há o que questionar, já que o texto não foi alterado. O objetivo foi apenas manter bem claro qual é o sujeito da frase; quem estava ‘gritando em voz alta’. O próprio texto já tinha feito referência a essas almas pouco antes. Geralmente as inserções feitas por muitos expositores de assuntos bíblicos limitam-se a isso.

A segunda citação foi tirada de uma publicação da Torre de Vigia:

“As palavras inspiradas, em Isaías 65:13, 14, alertam-nos sobre esta diferença: “Eis que os meus próprios servos comerão,... beberão,... se alegrarão,... gritarão de júbilo por causa da boa condição do coração, mas vós [apóstatas] fareis clamores por causa da dor de coração e uivareis por causa do puro quebrantamento do espírito.” – Anuário das Testemunhas de Jeová de 1999, pág. 5 (Carta Anual do Corpo Governante)

A inserção da palavra “apóstatas” (ausente no original) sugere que quando “as palavras inspiradas de Isaías” deram esse ‘alerta’, mais de 2.700 anos atrás, o profeta tinha em mente os “apóstatas” (a alcunha que os líderes da Torre de Vigia aplicam indiscriminadamente a qualquer pessoa que questiona ensinos deles e/ou decide descontinuar o apoio à organização deles no presente momento). Esta inserção é inapropriada, porque não há maneira de comprovar que Isaías quis dizer isso. Os redatores desta publicação introduziram sutilmente no texto um conceito particular de sua própria autoria, com o fim de induzir os leitores ao entendimento de que qualquer pessoa que pare de apoiar a Torre de Vigia hoje (tornando-se “apóstata”, segundo a definição deles) ‘chorará e uivará com dor de coração e espírito abatido’. As palavras de Isaías foram usadas em proveito duma organização religiosa, para atemorizar qualquer pessoa que cogite deixá-la. Isso é advogar em causa própria, servindo-se das palavras do profeta, um procedimento escuso para intimidar as pessoas.16 No entanto, por mais tendenciosa que tenha sido a inserção dessa palavra, não se pode afirmar que ela contradisse o texto. O texto não foi anulado e sim, no máximo, particularizado.

O terceiro exemplo é o próprio texto modificado acima:

“Tudo o que a tua mão possa fazer, faze-o com todas as tuas faculdades, porque na região dos mortos para onde vais, não há nem trabalho [humano], nem ciência [humana], nem inteligência [humana], nem sabedoria [humana].” – Eclesiastes 9:10, colchetes acrescentados.

A intenção aqui não é outra a não ser induzir o leitor ao entendimento de que no Seol pode haver algum ‘trabalho, ciência, inteligência e sabedoria’ de outra natureza, que não a “humana”. Do ponto de vista bíblico, a única “inteligência” ou “sabedoria” diferente da humana é a dos seres espirituais (tanto os do bem, incluindo o próprio Deus, como os maléficos, que se rebelaram contra Ele). Devemos presumir, então, que tais coisas de natureza ‘espiritual’ (trabalho, ciência, etc.) serão encontradas no Seol? Que base – bíblica ou de qualquer espécie – poderia ser apresentada como prova disso?

O problema gerado pelas inserções vai além da falta de provas. O texto está sendo desmentido. O autor do Eclesiastes disse que não há ação nem pensamento no Seol. Acrescentam-se palavras ao texto, com o fim de obrigá-lo a dizer que há sim, algum tipo de ação ou pensamento lá. É o raciocínio humano tentando delimitar a Palavra de Deus. É o registro inspirado da Bíblia algo para se manipular à vontade dessa maneira? E, caso tomemos uma iniciativa desse tipo, teremos alguma base moral para criticar líderes religiosos que também costumam particularizar textos bíblicos, para induzir os leitores a alguma ideia que vai ‘além do que está escrito’?

E o questionamento tampouco termina nisso. O texto não foi só desmentido; ele foi anulado. Se essa ‘mesmíssima maneira de entender’ fosse válida, o incentivo dado seria completamente sem sentido. Como assim? Ora, se o “trabalho”, “ciência”, “inteligência” e “sabedoria”, mencionados no texto, restringem-se aos de natureza “humana”, de maneira que no Seol é possível encontrar essas mesmas coisas de alguma outra natureza que não a “humana”, ninguém teria realmente motivo para se esforçar em fazer ‘tudo o que sua mão encontra para fazer’ enquanto está vivo. Pois, afinal de contas, depois da morte as atividades e os pensamentos da “alma espiritual” continuariam de qualquer maneira (e até com qualidade superior, pois seriam de natureza “espiritual”). A morte ocasionaria uma mudança para uma situação melhor. Se o autor do Eclesiastes pensava assim, por que ele achou necessário dar esse incentivo? Não seriam suas palavras letra morta, um aviso completamente sem sentido? Será que um entendimento de um texto bíblico que tenha esse efeito (ou pior: que torne o texto sem efeito) pode estar correto? Poderia alguém afirmar, de direito, que esta é uma ‘boa aplicação’ do Eclesiastes 9:10, enquanto que os leitores que se atêm ao que o texto diz – sem acrescentar nem tirar nada dele – estão fazendo uma ‘má aplicação’ e ‘dogmatizando’?

Como em todas as outras situações, o procedimento sábio – e humilde – é, em vez de usar toda sorte de artifícios para obrigar a Bíblia a dizer o que nós queremos, deixar que ela própria defina seus contornos. Foi dessa maneira que procederam competentes tradutores. As versões abaixo expressam a ideia do Eclesiastes 9:10 de maneira inteligível para qualquer leitor. Nada mais apropriado do que apresentá-las aqui, juntamente com o resumo dos questionamentos:

“Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças; porque no Seol, para onde tu vais, não há obra, nem projeto, nem conhecimento, nem sabedoria alguma.” (ARA)

“Tudo o que você tiver de fazer faça o melhor que puder, pois no mundo dos mortos não se faz nada, e ali não existe pensamento, nem conhecimento, nem sabedoria. E é para lá que você vai.” (NTLH)

Qualquer que seja a obra que você fizer [lit.: que tuas mãos acharem para fazer], faça o seu melhor [lit.: com todo o teu poder], porque você vai para a sepultura [lit.: Sheol], onde não há trabalho [ou ação], nem planejamento [ou pensamento], nem conhecimento e nem sabedoria. (EXB)

O que quer que te venha à mão para fazer — faça-o com todo o seu poder; pois no Sheol — para onde você vai — ninguém trabalha, planeja, sabe, ou pensa sobre coisa alguma. (LEB)

“Trabalhe arduamente no que quer que você faça. Logo você irá para o mundo dos mortos, onde ninguém trabalha ou pensa ou raciocina ou sabe coisa alguma.” (CEV)

“Não importa o que você faça, trabalhe nisso com todo o seu poder. Lembre-se, você vai para o seu túmulo. E lá não há qualquer trabalho ou planejamento ou conhecimento ou sabedoria.” (NIRV)

1 – Eclesiastes 9:10 não admite a conclusão de que quem vai para o Seol é apenas uma das “partes” da “pessoa tricotômica”, ou seja, a “alma espiritual”. Em qualquer caso – esteja a pessoa viva ou morta no Seol – os pronomes são os mesmos: “tu” ou “você”, referindo-se à pessoa integral.

2 – Eclesiastes 9:10 também não admite que no Seol ocorra algum tipo de atividade ou pensamento diferente das atividades ou pensamentos “humanos”. Advérbios e expressões tais como “ninguém”, “qualquer”, "coisa alguma" e “nada” – são absolutos.

 

Não terão mais parte alguma, para o futuro, no que se faz debaixo do sol…

Curiosamente, os dois casos mencionados na Bíblia de pessoas que voltaram do mundo dos mortos aconteceram sob o véu da noite, e não durante o dia, que foi a aparição de Samuel para Saul e a conversa que Jesus teve com Moisés e Elias, na transfiguração. Talvez isto seja apenas coincidência, mas, de qualquer modo, seguiu exatamente o que Eclesiastes disse, de que ‘os mortos não fazem mais nada debaixo do sol’. – 1 Samuel 28:7, 8; Marcos 9:2-7.

Um “leitor desavisado” só poderia enxergar alguma ‘coincidência curiosa’ aqui

(1) se não conferir as referências em questão,

(2) se partir da premissa – errônea – de que a expressão “debaixo do sol”, usada no Eclesiastes, significa 'à luz do dia' e, principalmente,

(3) se aceitar a conclusão – igualmente errônea – de que as duas ocorrências (o relato de Saul e a médium e o relato da transfiguração de Cristo) são "casos mencionados na Bíblia de pessoas que voltaram do mundo dos mortos” sem serem ressuscitadas por Deus.

O fato de essa alegada “aparição de Samuel para Saul” ter ocorrido durante a noite não foi porque os mortos ‘só voltam do mundo deles à noite’, ou porque aquela médium só exercia o ofício dela à noite. Ela faria suas “invocações” em qualquer horário (como provavelmente era o caso de todos os médiuns da época e é também o caso de todos os congêneres daquela mulher hoje). O rei Saul foi procurá-la disfarçado à noite porque, como ele sabia muito bem que estava desacatando a ordem expressa da Lei Mosaica (Deuteronômio 18:10-12), a qual ele próprio havia cumprido escrupulosamente antes de se tornar infiel, quis se manter incógnito, o que seria mais fácil à noite. (1 Samuel 28:8, 9) Sua maneira furtiva de agir, porém, não lhe foi de qualquer serventia, porque o registro expressa mais adiante qual foi o resultado:

Saul morreu por ter sido infiel a Javé: não seguiu a ordem de Javé e foi consultar uma mulher que invocava os mortos em vez de consultar a Javé. Então Javé o entregou à morte e passou o reinado para Davi, filho de Jessé. (1 Crônicas 10:13, 14, EP; “e também porque buscou a adivinhadora para a consultar”, ARA; “e chegou a consultar uma médium em busca de orientação”, NVI)17

Devemos pensar que Deus inspiraria alguém a transmitir sua mensagem profética por um método que Ele próprio havia proibido por lei? Teria algum cabimento acharmos que Deus puniu o rei com a morte só porque ele trocou algumas ideias com o próprio profeta Samuel? Haveria qualquer sentido em imaginar que Samuel – que nunca mais quis manter contato com esse rei desobediente pelo resto de sua vida (1 Samuel 10:35) – aceitaria agora falar com ele, e justamente com a “intermediação” duma adivinhadora (“médium”), algo que o profeta sempre soube muito bem que era proibido pela lei de Deus? E, se porventura Samuel havia “esquecido” desse “pequeno detalhe” da proibição (por sua “memória humana” da ‘vida anterior debaixo do sol’ ter se apagado, talvez?), como foi que ele conseguiu se “lembrar” do rei Saul e de suas funções como profeta na ‘vida anterior que tivera no planeta Terra’?

Quanto ao relato da transfiguração de Cristo, ninguém verá nele alguma palavra sobre o horário em que isso aconteceu. Diferente do infiel Saul, Jesus não achou necessário se disfarçar, nem fazer nada escondido “sob o véu da noite”. Independentemente do horário em que a visão tenha ocorrido, aquilo não era, como apregoam alguns, uma “conversa com mortos”, e Jesus não estava atuando no papel de “médium”, fazendo “consulta aos mortos”, porque ele conhecia a lei de Deus e a cumpriu melhor do que qualquer um. Sem falar que dificilmente o maior profeta de todos acharia necessário "invocar espíritos de profetas desencarnados" para saber de alguma coisa.

Aqui cabe um parêntesis: Quando dizemos "ninguém verá nele [no relato da transfiguração de Cristo] alguma palavra sobre o horário em que isso aconteceu", não se deve 'ir além do que está escrito', entendendo algo além do que essa frase está dizendo. Nenhum dos evangelistas especificou a hora (ou vigília da noite) em que a visão ocorreu. Retratar esta declaração como se ela lançasse alguma dúvida de que a transfiguração de Cristo ocorreu em algum momento da noite ou da madrugada do dia seguinte é um “espantalho”, já que isso nunca foi questionado. O que se questiona aqui é o uso (na verdade, abuso) do fato de a transfiguração de Cristo (bem como a consulta de Saul aos mortos por meio da médium) ter ocorrido após o escurecer como base para sugerir alguma coisa sobre os “espíritos dos mortos” ‘só se manifestarem à noite ou num ambiente escuro’.

A expressão “debaixo do sol” (hebraico: הַשָּׁמֶשׁ תַּחַת  / takh'-ath hash sheh'-mesh) foi usada 29 vezes pelo autor do Eclesiastes. Em todas estas ocorrências, ela significa “nesta Terra” ou “neste mundo” (como qualquer bom dicionário exegético atesta). Que seu significado não tem nada que ver com “luz do dia” ou algo do gênero pode ser depreendido facilmente da leitura de qualquer versículo onde ela aparece. Em Eclesiastes 8:15, por exemplo, a expressão aparece duas vezes. O texto diz:

Por isso recomendo que se desfrute a vida, porque debaixo do sol não há nada melhor para o homem do que comer, beber e alegrar-se. Sejam esses os seus companheiros no seu duro trabalho durante todos os dias da vida que Deus lhe der debaixo do sol!” (NVI)

Qualquer criança sabe que os homens não ‘comem’, ‘bebem’ e ‘se alegram’ apenas à luz do dia (ou num ambiente iluminado), assim como ninguém usaria a frase final do versículo como base para afirmar que ‘Deus só dá a vida à luz do dia’. Isto seria um absurdo completo.

A propósito desta discussão, consideremos o que diz a seguinte declaração oficial, duma fonte espírita:

“18. Como é que aparições geralmente ocorrem durante a noite? – Deve-se isso ao efeito do silêncio e da escuridão sobre a imaginação?

“É pela mesma razão que você vê estrelas durante a noite, e não as vê durante o dia. Uma luz forte anula uma aparição de pouca intensidade, mas é um erro supor que a noite tem algo que ver com o assunto. Indague dos que viram aparições, e você descobrirá que o maior número delas ocorreu durante o dia.”

(The Mediuns' Book [O Livro dos Médiuns], Allan Kardec, pág. 111, capítulo 6, “Manifestações Visuais”. Publicado originalmente em francês em 1861. Traduzido para o inglês por Anna Blackwell. Grifos e sublinhados acrescentados.)

Isso mostra que nem mesmo promotores destacados da ideia de comunicação com os “espíritos dos mortos” defendem alguma "tese" sobre ‘aparições só no período da noite’. Pelo contrário, eles negam isso! E dificilmente tais pessoas pensariam em usar a referência de Eclesiastes 9:6 como “prova” de alguma coisa nesse sentido (até porque, como é óbvio, a informação bíblica não é – e nunca foi – a maior preocupação delas!). Só se dispõem a fazer esse esforço inútil os que desejam impor de qualquer maneira à Bíblia o conceito de “sobrevivência da alma após a morte” (e ainda acusam os questionadores de ‘aplicar mal’ versículos dela). O detalhe (irônico, diga-se de passagem) é que, nessa obstinação em associar de qualquer maneira a frase “debaixo do sol” com ‘luz do dia’, ‘claridade’ ou qualquer ideia semelhante (com o fim de deturpar Eclesiastes 9:6), eles inadvertidamente colocam em dúvida o “maior número” dessas supostas ‘aparições de espíritos dos mortos’ sobre as quais tanto teorizam!

Estas considerações deveriam ser suficientes para demonstrar a tolice de insistir na ideia de que, com a expressão “debaixo do sol” em Eclesiastes 9:6, a Bíblia estaria insinuando de alguma maneira que os “espíritos dos mortos” não costumam se manifestar à luz do dia, mas apenas à noite ou num ambiente escuro ou penumbroso. Isto é que é, de fato, agarrar-se infantilmente a uma “leitura de face” do versículo bíblico, tentando convertê-lo de qualquer maneira numa “prova bíblica” de que os “espíritos dos mortos” podem se manifestar em algum período do dia e assim esquivar-se da evidência que este trecho do Eclesiastes fornece da condição inativa dos mortos no Seol, bem como do fato de eles ‘não terem mais parte em nada’ do que acontece nessa terra.

Qualquer leitor da Bíblia que conheça as referências citadas pode avaliar por si mesmo quão descabido é incluir Moisés, Samuel e Elias nesses apregoados “casos mencionados na Bíblia de pessoas que voltaram do mundo dos mortos” para ‘profetizar’, indo ao ponto de alegar que isso “seguiu exatamente o que Eclesiastes disse” (pelo fato de ambas as ocorrências terem sido após o por-do-sol). Ainda que não existisse qualquer referência, as declarações categóricas que estão repetidas a seguir são suficientes para testificar quão desastrosa é essa “aplicação” de Eclesiastes 9:5-10; quão grosseira é a manipulação da evidência. As declarações sintetizam tudo o que foi dito acima (e aqui os ‘colchetes acrescentados’ são apropriados, pois não alteram de nenhuma maneira o sentido dos advérbios grifados):

“Quando determinada pessoa morre, ela deixa para trás tudo aquilo que prezava e fazia [incluindo profetizar]”. Os mortos “não terão qualquer participação nas atividades às quais se dedicavam [tais como profetizar], tudo da outrora rotina deles [inclusive as funções normais dum profeta] não lhes pertence mais... Tudo o que faziam debaixo do sol [incluindo profetizar] desapareceu para sempre.”

 

OS MORTOS NÃO LOUVAM O SENHOR

“Os mortos não louvam ao SENHOR, nem os que descem ao silêncio. Mas nós bendiremos ao SENHOR”. – Salmos 115:17, 18, Almeida Fiel.

“É preciso considerar o contexto específico do versículo acima. O texto completo (115:1-17) está repleto de palavras que denotam coletividade: “nós”, “vós” “Israel”, “casa de Arão”, “deles” (se referindo às pessoas que adoram deuses falsos) etc. Era justamente em coletividade que Davi e os demais judeus louvavam a Deus:

“Vou declarar o teu nome aos meus irmãos; No meio da congregação te louvarei”. – Salmos 22:22.

“Vou elogiar-te na grande congregação; Louvar-te-ei entre um povo numeroso”. – Salmos 35:18.

Depois que Davi morresse ele não poderia mais louvar a Deus publicamente, conforme está descrito em outra parte dos Salmos:

“Louvarei ao SENHOR durante a minha vida; cantarei louvores ao meu Deus enquanto eu viver”. – Salmos 146:2, NVI.

Era somente enquanto estivesse vivo na Terra que as pessoas poderiam ver Davi cantando louvores a Deus, diante da congregação de louvadores. Então, dizer que os mortos não louvam a Deus significa que aqueles que morreram não podem mais ser vistos louvando a Deus publicamente.

Isso nada mais é que o argumento do “ponto de vista dos que ficam na Terra” (o mesmo que foi usado na releitura do Eclesiastes 9:5, 6, analisada acima) com um pouco mais de elaboração. Considerando-se rigorosamente o que foi dito acima, assim ficaria a redação do Salmo 115:17 (ACR):

Original
Releitura

“Os mortos não louvam ao SENHOR, nem os que descem ao silêncio.”

“Os mortos não podem mais ser vistos [pelos vivos] louvando ao SENHOR publicamente, nem os que descem ao silêncio.”

O caso aqui está bem longe de uma simples mudança da ordem da frase. Esta releitura envolveu o seguinte:

1 - o sujeito da frase foi mudado (de “mortos” para “vivos”);

2 - o verbo foi mudado (de ‘louvar’ para ‘ver outros louvando’);

3 - o cenário da ação foi mudado (do domínio dos mortos para o dos vivos)

4 - acrescentou-se o advérbio “publicamente” (ausente no texto);

5 - o fechamento “nem os que descem ao silêncio” foi desprezado.

Apenas este resumo eliminaria a necessidade de outros questionamentos, já que qualquer leitor pode constatar que o Salmo foi alterado drasticamente. Por qualquer ângulo que se analise, a releitura está dizendo uma coisa bem diferente do texto original. Sem qualquer exagero ou injustiça, este é mais um malabarismo para se esquivar da evidência fornecida pela leitura natural do texto.

Os comentários adicionais que seguem têm o objetivo de demonstrar que as bases apresentadas para esta releitura também apresentam sérios problemas:

1 – Louvor “em coletividade”? É verdade que a Bíblia se refere muitas vezes a um grupo louvando a Deus. O louvor desse tipo normalmente é o prestado por meio de canções (e os Salmos nada mais são que isso: hinos, daí a razão de as “palavras que denotam coletividade” aparecerem tantas vezes lá). Os hinos de louvor sempre fizeram parte da adoração a Deus, tanto entre os judeus da antiguidade como entre os cristãos primitivos e modernos. Mas as expressões de louvor a Deus eram e são rendidas de outras maneiras – e principalmente de modo individual. Para citar alguns exemplos:  

“Então o mistério  foi revelado a Daniel  de noite, numa visão. Daniel louvou o Deus  dos céus e disse: Louvado seja o nome  de Deus para todo o sempre; a sabedoria  e o poder a ele pertencem... Eu te agradeço e te louvo, ó Deus dos meus antepassados; tu me deste sabedoria e poder, e me revelaste o que te pedimos...” (Daniel 2:19, 20, 23, NVI; "eu te rendo graças e te louvo", ALA, NTLH, BJ)

“Daniel,... entrou em sua casa  e, em cima, no  seu quarto, onde havia janelas abertas do lado de Jerusalém, três vezes por dia, se punha de joelhos, e orava, e dava graças, diante do seu Deus, como costumava fazer." (Daniel 6:10, 11, NVI; “adorava o seu Deus”, BMD; "Continuou a orar e a louvar a Deus", CBC; "ele se lançava de joelhos, orando e louvando a seu Deus, como estava habituado a fazê-lo", VOZ)

"Disse então Nabucodonosor: Louvado seja o Deus de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, que enviou o seu anjo e livrou os seus servos! Eles confiaram nele, desafiaram a ordem do rei, preferindo abrir mão de sua vida a prestar culto e adorar a outro deus que não fosse o seu próprio Deus." (Daniel 3:28, NVI; “O rei  gritou: - Que o Deus de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego  seja louvado!”, NTLH)

"Em resposta, o rei Hirão mandou a Salomão a seguinte carta: "O SENHOR Deus ama o seu povo e por isso fez com que você fosse o rei deles. Louvado seja o SENHOR, o Deus de Israel, o Criador do céu e da terra! Louvado seja Deus, que deu ao rei Davi um filho tão cheio de sabedoria, tão inteligente e prudente, que vai construir um templo para Deus e um palácio  para si mesmo!" (2 Crônicas 2:11, 12, NTLH)

Nenhuma das pessoas mencionadas nestes versículos estava louvando a Deus “em coletividade” diante duma “congregação de louvadores”. Logo, restringir o louvor a Deus a canções, e afirmar que “era justamente em coletividade que Davi e os demais judeus louvavam a Deus” é uma generalização precipitada, porque, não só os judeus, como pessoas de outras nações fizeram isso inúmeras vezes de maneira individualverbalmente ou por escrito. Isso não tinha nada que ver com outros estarem presenciando ou não. Não há o mínimo cabimento em insistir que nos milhões de ocasiões em que os judeus individuais oraram a Deus (sendo que tais orações envolveriam necessariamente graças e louvor, como visto num dos exemplos acima) isso foi feito “em coletividade”.18

2 – “Cantarei... enquanto eu viver” – No Salmo 115 aparecem realmente alguns coletivos, mas é significativo que a única vez no Salmo inteiro em que se menciona o ‘louvor a Deus’ é no versículo 17 – justamente aquele que informa que ‘os mortos não fazem isso’. Ainda que a generalização acima fosse verdadeira, ou seja, ainda que o “contexto específico” desse Salmo – e o restante da Bíblia – confirmassem que o louvor a Deus só é rendido por meio de canções “em coletividade”, esta declaração direta não se alteraria um milímetro sequer. A implicação dela é irremovível. O mesmo vale para os outros dois Salmos citados (22:22 e 35:18). Embora ambos falem de Davi se propondo a louvar a Deus em meio a um grupo, não há como extrair deles a ideia de que Davi poderia fazer isso depois da morte. (em “coletividade” ou não). O Salmo 146:2 não faz sequer referência a algum louvor ‘público’. Tudo o que Davi disse foi “[Eu] louvarei ao SENHOR durante a minha vida [não depois da morte]; [eu] cantarei louvores ao meu Deus enquanto eu viver [não depois de morto]”. Ele falou em primeira pessoa (não como uma “coletividade”) e o que está em foco aqui é o momento, não a maneira. De modo que, mesmo no caso da música, a ideia de ‘louvor público’ não entra obrigatoriamente no cenário.19

3 – “Os que descem ao silêncio” – Esta frase concludente do Salmo 115:17 (que, como já mencionado, foi desconsiderada na argumentação acima) é um testemunho adicional de que o cenário do que se descreve é o reino dos mortos. Os mortos ‘que descem’ ao Seol, descem ao silêncio. Não há expressões de louvor a Deus lá, quer “em coletividade”, quer não.

Uma nota da Bíblia Apologética20 informa que a palavra traduzida por “louvar” é yadah, em hebraico e ela aparece 103 vezes no Antigo Testamento, sendo que em todos os casos denota adoração em coletividade, aquela que era típica da nação de Israel.

Sobre essa particularidade, o tradutor Santos Saraiva menciona que a estrutura do capítulo 115 dos Salmos sugere que eram cantados “durante o oferecimento do sacrifício; de sorte que suas diversas partes eram alternadamente entoadas por diferentes pessoas. Assim, as estrofes desde 1 até 8, eram cantadas pela congregação ou povo reunido; desde 9 até 11 alternavam-se os levitas e o coro; de 12 até a 15 competiam ao sacerdote” e a estrofe “de 16 até 18 eram ainda da competência da congregação”. – Harpa de Israel (1898), p. 449, 450.

Yadah não é a única palavra hebraica traduzida como “louvar”. Outras palavras, tais como towdah, shabach, barak, zamar e tehillah e, a que mais interessa para esta discussão: halal – sendo que esta é a usada no Salmo em questão (não a palavra yadah)são também traduzidas como “louvar” ou “louvor”. Sem necessidade de entrar em cansativos detalhes técnicos, basta dizer que nem todas estas palavras denotam necessariamente “adoração em coletividade”, o que é fácil de concluir por meio da simples consideração dos casos acima.

O Salmo 115 é parte da série dos chamados “Salmos Halel” (“louvor”, que abrange os Salmos 113 a 118), e eles eram realmente cantados em grupo – mas só pessoas vivas poderiam fazer isso. As informações dadas especificamente sobre o Salmo 115 acima (e muito mais poderia ser dito), embora interessantes, não favorecem em nada a argumentação de que as palavras do Salmo 115:17 são uma questão de “ponto de vista”. Ainda que a ideia de “coletividade” fosse o elemento essencial para se entender o Salmo, isso não mudaria o fato de que o versículo 17 fala a respeito dos mortos, não dos vivos. A frase completa (sujeito, verbo e objeto) refere-se inteiramente a eles, não aos vivos. Se o aspecto da “coletividade” fosse realmente indispensável para se entender este Salmo, o máximo que se poderia afirmar – sem modificar o cenário descrito nele – é que ‘os mortos não louvam a Deus em coletividade no Seol’, o que, francamente, não ajudaria em nada para comprovar a ideia da sobrevivência da alma após a morte. A implicação do Salmo 115:17 permaneceria irremovível de qualquer maneira.

Portanto, a perspectiva correta de textos como esse de Salmos 115:17 é o ponto de vista dos que ficam na Terra, que não veem mais aqueles que morreram louvando a Deus em coletividade, diante dos homens. Esses textos não anulam o que outras partes das Escrituras dizem sobre a alma e o espírito, que continuam a existir depois da morte. – Eclesiastes 12:7; Mateus 10:28; Lucas 16:22-31; 1 Pedro 3:19, 20.

 

FALSO. A perspectiva correta não é essa. Os “textos como esse de Salmos 115:17” usam o discurso direto, tratando de uma realidade referente aos mortos (não o discurso indireto, falando sob uma “perspectiva” ou “ponto de vista” das pessoas vivas). De fato, eles “não anulam o que outras partes das Escrituras dizem sobre a alma e o espírito”, visto que confirmam a ideia de inatividade e inconsciência dos que estão no Seol – que está presente em todas essas outras partes das Escrituras.

 

“Depois de morto... não poderei mostrar aos homens como Tu és fiel”. – Salmos 88:11, A Bíblia Viva.

Que a situação em que se encontram as pessoas que vivem na Terra e as que morreram é mera questão de ponto de vista, pode ser percebido nas passagens abaixo:

Temos aqui uma verdadeira “cirurgia” no enunciado do versículo para fazê-lo “apoiar” a ideia da “questão de ponto de vista”. Se o leitor verificá-lo na versão citada, encontrará as seguintes palavras:

Depois de morto não poderei falar a outros da tua bondade; na sepultura não poderei mostrar aos homens como Tu és fiel. (BV)21

Outras versões:

Teu amor e tua lealdade são anunciados no mundo dos mortos? (CEV)

Declarará alguém no sepulcro a tua misericórdia: e tua verdade na destruição? (RHE, WYC)

Será a história de tua misericórdia contada na casa dos mortos? As notícias de tua fidelidade chegarão ao lugar de destruição? (BBE)

Contará alguém sobre tua misericórdia no Seol ou sobre tua fidelidade no Abadom? (GW, NOG)

Isso está de pleno acordo com o Salmo 115:17. Não se trata de “mera questão de ponto de vista”. As pessoas "que morreram" não fazem essas coisas no Seol (sepultura, sepulcro, casa dos mortos, etc. conforme outras versões) – independentemente de “as pessoas que vivem na Terra” verem isso ou não.

“Mas, que os mortos são levantados, até mesmo Moisés expôs, no relato sobre o espinheiro, quando ele chama Jeová ‘o Deus de Abraão, e o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó’. Ele é Deus, não de mortos, mas de viventes, pois, para ele, todos estes vivem”. – Lucas 20:37, 38.

Os personagens mencionados (Abraão, Isaque e Jacó) estão vivos para Deus, mas para os homens eles estão mortos. Mas se eles fossem trazidos de volta para este mundo, na linguagem bíblica eles estariam “ressuscitados” ou “levantados dentre os mortos”.22

Disse Jesus alguma coisa sobre ‘ponto de vista dos homens’ neste texto? Não. Ele só fez referência ao ponto de vista de Deus. Por isso, a frase “os personagens mencionados (Abraão, Isaque e Jacó) estão vivos para Deus, mas para os homens eles estão mortos” é incorreta. O “ponto de vista” dos homens não entrou nessa consideração. Estes patriarcas estão mortos. Esse texto não dá qualquer margem para a sugestão de que alguma parte deles continua viva.

Será verdade que a ressurreição deles (ou de qualquer outra pessoa) é uma “mera questão de ponto de vista”? De jeito nenhum! A ressurreição é um retorno efetivo à vida de pessoas que estão mortas, e não uma simples transferência de almas vivas de um lugar para outro, algo como uma “mudança de endereço”. Nem os evangelistas que registraram as palavras de Jesus, nem Paulo, nem qualquer escritor cristão jamais sugeriu isso. Ademais, a ressurreição não obriga a que alguém seja “trazido de volta para este mundo”, de maneira que se possa constatar visualmente que a pessoa foi ressuscitada. “Semeia-se corpo físico, é levantado corpo espiritual”, disse Paulo. Este ato de Deus não está na dependência de ser visto por olhos carnais para ser confirmado. Dar essa sugestão é depreciar a esperança da ressurreição e o poder de Deus.23

Pelas razões acima, a frase “se eles fossem trazidos de volta para este mundo, na linguagem bíblica eles estariam ‘ressuscitados’ ou ‘levantados dentre os mortos’” é uma grave distorção do que Jesus disse nesse trecho de Lucas. Ressurreição não significa isso “na linguagem bíblica” de maneira alguma!

“Estas pessoas prestarão contas àquele que está pronto para julgar os viventes e os mortos. Com este objetivo se declararam as boas novas também aos mortos, para que fossem julgados quanto à carne, do ponto de vista dos homens, mas vivessem quanto ao espírito, do ponto de vista de Deus”. – 1 Pedro 4:5, 6; compare com 1 Pedro 3:19.

O objetivo de citar esse texto de 1 Pedro 4:5, 6 logo depois do de Lucas 20:37, 38 é induzir o leitor à conclusão de que eles tratam do mesmo assunto. Para começar, Pedro não dissemortos do ponto de vista dos homens, mas vivos do ponto de vista de Deus’. As palavras dele (segundo a versão citada) foram ‘julgados quanto à carne, do ponto de vista dos homens, mas vivos quanto ao espírito, do ponto de vista de Deus.’ Pedro não estabeleceu qualquer contraste entre o “ponto de vista dos homens” e o “ponto de vista de Deus” no tocante à morte e à vida em si.

A comparação sugerida de 1 Pedro 4:5, 6 com o que diz 1 Pedro 3:19 também visa a induzir o leitor a pensar que Pedro estava falando do mesmo assunto. Mas é também uma comparação descabida, pelos mesmos motivos: 1 Pedro 4:5, 6 fala sobre pregação aos “mortos” humanos, sendo que essa pregação foi feita por pessoas vivas, na carne, com o objetivo de salvar. 1 Pedro 3:19 fala sobre pregação aos “espíritos em prisão” (anjos rebeldes), feita pelo próprio Jesus, estando ele igualmente no espírito, e objetivando condenar. O único ponto em comum entre os dois textos é o verbo “pregar”. Contudo, nem o pregador, nem o público-alvo da pregação, nem a mensagem pregada são os mesmos nos dois casos.

Além disso, como já vimos, o ‘julgamento dos viventes e dos mortos’ humanos, a ser feito pelo Juiz designado por Deus (Jesus Cristo) ocorre depois da ressurreição; em momento algum antes disso. (João 5:28, 29).

Ressalte-se que o continuar a existir da alma e do espírito não é ainda a vida eterna prometida aos justos, em contraste com a punição que os ímpios receberão quando chegar o julgamento de Deus. Em tal época haverá outro tipo de morte:

"Eu darei de graça da fonte de água viva. O vencedor receberá esta herança: eu serei o Deus dele, e ele será o meu filho. Quanto aos covardes, infiéis, corruptos, assassinos, imorais, feiticeiros, idólatras, e todos os mentirosos, o lugar deles é o lago ardente de fogo e enxofre, que é a segunda morte". – Apocalipse 21:6-8, Edição Pastoral.

O único “contraste” estabelecido neste texto é entre a vida eterna (chamada de “fonte de água viva” na versão citada) e a morte eterna (chamada de “segunda morte” ou “lago ardente de fogo e enxofre”).

Por que a Bíblia menciona uma “segunda morte”? É porque existe uma “primeira morte”. O que é ela? Não é outra senão a decorrente do pecado de nossos pais:

Pois, assim como todos morrem em Adão, em Cristo todos receberão a vida. (1 Cor. 15:22, BJ)

Pois o salário do pecado é a morte, mas o presente gratuito de Deus é a vida eterna, que temos em união com Cristo Jesus, o nosso Senhor. (Rom. 6:23, NTLH)

Estes textos estabelecem igualmente um contraste entre a vida e a morte. Todos os descendentes de Adão estão sujeitos inescapavelmente a esta experiência, e é precisamente sobre a condição dos que já passaram por essa “primeira morte” que a Bíblia trata em muitos trechos (incluindo os que estão sendo considerados nesta análise). Em todos esses casos, é dessa “primeira morte” que a Bíblia está tratando, não da segunda

Será verdade que a “segunda morte” é “outro tipo de morte”? Em outras palavras, existe algum “contraste” entre a “primeira morte” e a “segunda morte” em si? Não. A condição dos que passam por estas experiências é a mesma. A única diferença entre as duas é que uma delas é reversível e a outra não – e isso ainda depende da decisão do Dador da vida, diga-se de passagem. Enquanto os que passaram pela “primeira morte” serão ressuscitados por Ele, os punidos com a “segunda morte” jamais o serão. Logo, o que faz toda a diferença é um fator externo: a ressurreição por Deus. No que se refere à condição das pessoas mortas, em qualquer um dos dois casos, a Bíblia não estabelece “contraste” nem “diferença” alguma. Ou a pessoa está viva (consciente e ativa) ou está morta (inconsciente e inativa). E a mudança de condição de um dos estados para o outro, em qualquer sentido, jamais é automática; é necessariamente resultante duma ação divina. É isso – e nada mais do que isso, nem diferente disso – que o Apocalipse 21:6-8 e muitos outros textos têm a dizer.

Assim, não há lógica em afirmar que “o continuar a existir da alma e do espírito não é ainda a vida eterna prometida aos justos” e depois citar o Apocalipse 21:6-8 para “confirmar” isso. Os apologistas da “imortalidade da alma” só acham necessário ‘ressaltar’ isso (outro malabarismo, falando-se francamente), inventando “tipos diferentes” de “vidas” – ou de “mortes” – porque estão bem apercebidos de que toda a série de declarações bíblicas diretas sobre a condição dos que passam pela experiência da “primeira morte” (a adâmica) criam sérias dificuldades para as teorias deles. O contraste bíblico é sempre entre a vida (numa condição imperfeita, como é o caso hoje) e a morte (decorrente do pecado de nossos primeiros pais), ou entre a vida eterna e a morte eterna (ambas decorrentes de ação divina).  Nestes casos, existe realmente um contraste absoluto; são condições diametralmente opostas.

Apocalipse 21:6-8 não faz comparação entre a “vida eterna” e algum “continuar a existir da alma e do espírito”, nem dá qualquer sugestão de que as “mortes” (a “primeira” e a “segunda”) são, em si mesmas, de ‘tipos diferentes’. Não há como deduzir qualquer uma dessas ideias de uma simples leitura desse texto.

 

O SEOL E A SEPULTURA NÃO PODEM ELOGIAR A DEUS

“Porque na morte não há menção de ti; no Seol, quem te elogiará?” – Salmos 6:5.

“Que lucro há no meu sangue quando desço à cova? Acaso te elogiará o pó? Acaso contará ele a tua veracidade?” – Salmos 30:10.

“Acaso farás uma maravilha para os que estão mortos? Ou levantar-se-ão os que estão impotentes na morte, elogiar-te-ão eles?” – Salmo 88:10, 11.

“Pois não é o Seol que te pode elogiar; a própria morte não te pode louvar. Os que descem ao poço não podem olhar esperançosamente para a tua veracidade. O vivente, o vivente, é ele quem te pode elogiar. Assim como eu posso neste dia”. – Isaías 38:18, 19.

 

Estes quatro textos são citados novamente abaixo, segundo versões que usam o verbo “louvar”:

Pois na morte não há lembrança de ti; no Seol quem te louvará? (Salmos 6:5, ALA)

Se eu morrer, se eu descer à cova, que vantagem haverá? Acaso o pó te louvará? Proclamará a tua fidelidade? (Salmos 30:9, NVI)

Mostrarás, tu, maravilhas aos mortos, ou os mortos se levantarão e te louvarão? Será anunciada a tua benignidade na sepultura, ou a tua fidelidade na perdição? (Salmos 88:10, 11, ACR)

No mundo dos mortos, ninguém te agradece, ninguém louva o teu nome; os que estão ali não confiam na tua fidelidade. São os vivos que te louvam, como eu te louvo agora. E os pais dizem aos filhos que todos podem confiar em ti. (Isaías 38:18, 19, NTLH)

Os 4 textos concordam totalmente com o Salmo 115:17. Eles usam a mesma linguagem direta, tratando da situação dos que estão no Seol, sem dar qualquer margem para “ponto de vista dos que ficam na Terra”.

Conforme Provérbios 15:11, Deus é Aquele que pode ver o que transcorre no Seol:

“O Sheol e o Abismo estão diante do SENHOR”. – Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB).

“O Senhor sabe o que acontece até mesmo no mundo dos mortos”. – Nova Bíblia na Linguagem de Hoje.

Mas para o homem isto não é possível. Quem desce ao Seol é silenciado, do ponto de vista dos que ficam:

“Ó Jeová, não seja eu envergonhado, pois te invoquei. Fiquem envergonhados os iníquos. Fiquem eles quietos no Seol”. – Salmo 31:17.

A frase “Deus é Aquele que pode ver o que transcorre no Seol” é mais uma releitura. Além de Provérbios 15:11 ter sido citado parcialmente, apelou-se ao verbo “transcorrer” para induzir o leitor à ideia de que existe “atividade” no Seol – o que contradiz Eclesiastes 9:5-10. A citação do provérbio – na íntegra e em várias versões – mostra que o sentido dele não é que algo “transcorre no Seol” e sim que nada está escondido para Deus. Ei-lo, em outras versões:

A Sepultura e a Destruição estão abertas diante do Senhor; quanto mais os corações dos homens! (NVI)

Xeol e Perdição estão diante de Iahweh: quanto mais o coração humano! (BJ)

O além e o abismo  estão descobertos perante o SENHOR; quanto mais o coração  dos filhos dos homens! (ALA)

Os tradutores não usaram verbos que dão ideia de “atividade” e sim de “transparência”.24 O objetivo da releitura não é outro senão tentar apoiar o mesmo argumento do “ponto de vista dos que ficam na Terra”. A ideia seria, ‘Deus pode ver a atividade que transcorre no Seol, mas o homem não pode ver, já que não consegue ver nem ouvir os mortos’. É isso o que quer dizer a frase acompanhante “Mas para o homem isto não é possível. Quem desce ao Seol é silenciado, do ponto de vista dos que ficam”.

Esta releitura também é contradita diretamente pelos quatro textos introdutórios acima (Salmos 6:5; 30:9; 88:10, 11 e Isaías 38:18, 19). É contradita adicionalmente pela segunda frase do já analisado Salmo 115:17 (a que foi ignorada na “aplicação” dele): Quem desce ao Seol, ‘desce ao silêncio’ (e não, “é silenciado do ponto de vista dos que ficam”). E o Salmo 94:17 acrescenta testemunho adicional:

Não fosse a ajuda do Senhor, eu já estaria habitando no silêncio. (NVI)

Se Iahweh não viesse em meu socorro, em breve eu habitaria no silêncio. (BJ)

Se não fora o auxílio do SENHOR, já a minha alma estaria na região do silêncio. (ARA)

Se o SENHOR não tivesse me ajudado, eu já teria ido para a terra do silêncio. (NTLH)

O salmista estava bem ciente de que o silêncio (nada de louvor a Deus, nem som algum) aplica-se à alma (equivalente a “eu”) e esta é a situação reinante entre os que estão no Seol. O lugar (“terra”, “região”, etc.) do silêncio é lá, não entre os vivos. Ele não disse nada sobre ser “silenciado do ponto de vista dos que ficam” se tivesse ido para lá.

Já os que ficam na Terra podem ser vistos mencionando e elogiando o nome de Deus. Quando o ser humano morre, ele não é mais visto fazendo isso. Mas as almas dos mortos permanecem no mundo delas, aquele que está desnudo diante de Deus. Para que elas louvassem a Deus conforme os seres humanos podem fazer, debaixo do sol, seria necessário que elas voltassem para este mundo. O que não é possível, a menos que Deus os ressuscitasse em novos corpos carnais. Este aspecto é mencionado no texto a seguir:

“Acaso farás uma maravilha para os que estão mortos? Ou levantar-se-ão os que estão impotentes na morte, elogiar-te-ão eles?” – Salmo 88:10, 11.

Na verdade, o salmista não enfatizou a ressurreição propriamente dita, mas sim que as almas que estão no Seol não podem voltar para este mundo por si próprias.

O salmista não enfatizou nem uma coisa nem outra. Ele não falou sobre “ressurreição”, e muito menos ainda sobre almas no Seol 'não poderem voltar para este mundo por si próprias'.

Embora seja verdade que em muitas referências bíblicas que tratam dos mortos o verbo “levantar” (ou "ser levantado") refira-se à ressurreição, este definitivamente não é o caso aqui. Conforme já visto, este Salmo (e os demais) estão tratando da situação no Seol. Sendo assim, o verbo não pode ser obrigado a significar outra coisa neste versículo (tal como ‘voltar para este mundo’).

Os dois comentários citados a seguir estão de acordo com este questionamento:

“(10) Acaso os mortos se levantam?... – Estas palavras não devem ser tomadas no sentido de uma ressurreição final, tal como a entendemos. A esperança disso ainda mal tinha despontado em Israel. O mundo subterrâneo é concebido como um vasto sepulcro no qual os mortos, jaziam, cada um em seu lugar, silenciosos e imóveis, e o poeta pergunta como eles podem se levantar para proferir o louvor de Deus que os esqueceu (Salmo 88:5). Que este é o significado, e não vir novamente a uma terra de interesses de vivos, é mostrado nos próximos dois versículos. (Veja as Notas.).”

(An Old Testament Commentary for English Readers [Comentário ao Antigo Testamento para Leitores de Língua Inglesa], Charles John Ellicott, Vol. 4, 1884, pág. 218. Grifos e sublinhados acrescentados).

 

“Acaso os mortos se levantam e te louvam? – A palavra original, aqui traduzida como “os mortos”, é Refaim – רפאים rephâ’iym. Acerca de seu significado, veja as notas sobre Isaías xiv.9. Ela significa, apropriadamente, relaxado, lânguido, débil, fraco; e é dessa forma aplicada aos mortos – as sombras – os Manes – habitando no mundo subterrâneo, no Seol, ou Hades, os quais se supõe serem tons ou sombras, fracas e débeis. A questão aqui não é se eles levantariam para viver novamente, ou aparecer neste mundo, e sim se no Seol eles se levantariam de seus lugares de descanso, e louvariam a Deus como homens no vigor e na saúde podem fazer sobre a terra. A questão não tem qualquer referência à ressurreição futura. Ela tem relação com a presumida condição sombria, abatida, lúgubre, inativa dos mortos.”

(Notes, critical, explanatory, and practical, on the book of Psalms [Notas Críticas, Explanatórias e Práticas, Sobre o Livro dos Salmos], Albert Barnes, Vol. II, 1871, pág. 366. Grifos e sublinhados acrescentados.).

Além disso, a citação parcial do Salmo, da maneira que foi feita acima, é mais um exemplo de citação truncada, já que se omite a informação principal, relacionada com o assunto que está sendo discutido. Uma apresentação justa da evidência exigiria a citação do versículo 11, porque este versículo informa em que local estes “rephaim” não se levantam.25 Segue-se a citação completa do trecho, com base em mais 3 versões:

Acaso mostras as tuas maravilhas aos mortos? Acaso os mortos se levantam e te louvam? Será que o teu amor é anunciado no túmulo, e a tua fidelidade, no Abismo  da Morte? (NVI)

Será que fazes milagres em favor  dos mortos? Será que eles se levantam e te louvam? Será que no mundo dos mortos se fala do teu amor? Será que naquele lugar de destruição se fala da tua fidelidade? (NTLH)

Realizas maravilhas pelos mortos? As sombras se levantam para te louvar? Falam do teu amor nas sepulturas, da tua fidelidade no lugar da perdição? (BJ)

Enfatizando: O salmista não disse que “as almas que estão no Seol não podem voltar para este mundo por si próprias” e sim que os mortos não se levantam para louvar a Deus , no domínio onde se encontram.

O texto hebraico desse versículo diz literalmente: “As sombras dos mortos se levantarão e te louvarão?” (Santos Saraiva) A palavra “sombras” (rephaim, em hebraico), trocada por “impotentes” na TNM, se refere às almas que habitam o mundo dos mortos, conforme explica o tradutor Santos Saraiva, ao comentar esse versículo em sua tradução dos Salmos:

“É de notar, que a palavra rephaim, sendo propriamente aplicada à antiga raça canaanítica de gigantes, é aqui tomada poeticamente pelas gigantescas sombras ou espectros dos mortos: é equivalente ao latim manes, quando significa almas dos mortos”. – Harpa de Israel (1898), p. 412.

Veja outras traduções em edições da Bíblia que seguiram o hebraico mais de perto nesse versículo:

“Tu fazes maravilhas aos mortos? Levantam-se as sombras para te louvar?” – The New American Bible.

“Farás maravilhas pelos mortos? As sombras se levantarão para te louvar?” – Edição Pastoral.

“Farás milagres em favor dos mortos? As sombras se erguerão para louvar-te?” – Mensagem de Deus.

“Por acaso, tu mostrarás maravilhas aos mortos, ou irão as sombras levantar-se e te darem graças?” – The Bible in Living English, de Steven T. Byíngton, publicado pela Torre de Vigia.

Etc.

Seguem-se as citações completas, nessas mesmas quatro versões que alegadamente “seguiram o hebraico mais de perto”:

Farás maravilhas pelos mortos? As sombras se levantarão para te louvar? Falarão do teu amor nas sepulturas, e da tua fidelidade no reino da morte? – Edição Pastoral

Farás milagres em favor dos mortos? as sombras se erguerão para louvar-te? Comenta-se entre os mortos teu amor, tua fidelidade no sepulcro? – BMD

Farás maravilhas pelos mortos, ou irão as sombras levantar-se e te darem graças? Será tua afabilidade contada na sepultura, tua fidelidade na terra dos que se foram para sempre?  – The Bible in Living English

Tu fazes maravilhas pelos mortos? Levantam-se as sombras e te louvam? É teu amor proclamado na sepultura, tua fidelidade no túmulo? – The New American Bible

Estas versões também tornam claro que o local de que se fala é o reino dos mortos. É que essas “sombras” não se levantam, nem fazem nada relacionado com louvor a Deus. Por mais que se tente mudar o foco do verbo para o sujeito, direcionando a discussão para o significado da palavra “sombras”, este fato permanece inalterável. Qualquer que seja o sentido deste termo, não há como obrigá-lo a significar algo que está “ativo”. O texto completo, em qualquer versão bíblica, indica o contrário disso.

Porém, mesmo com relação a este significado, há muito o que dizer. Primeiramente, consideremos o que a fonte a seguir diz sobre isso:

REPHAIM (Heb. רְפָאִים). Os Refains são conhecidos à base de fontes bíblicas, ugaríticas e fenícias. Na Bíblia dois usos do termo são discerníveis. O primeiro é como um gentílico (por exemplo, Gen. 14:5; 15:20; Deut. 2:11) referindo-se a um povo que se distinguia por sua enorme estatura. Especialmente apontados são Ogue, rei de Basã (Deut. 03:11) e os poderosos adversários dos heróis de Davi (II Sam. 21:16, 18, 20). Os autores bíblicos traçam sua designação para um epônimo aparentemente humano Rapha(h) (por exemplo, II Sam 21:16, 18, 20; I Crônicas 20:8). A ênfase da Bíblia no tamanho e na força dos Refains é responsável pelas traduções gigantes e titanes da Septuaginta, bem como gabbārē da Peshitta e gibbarāyyā dos Targuns. O Genesis Apocryphon [Gênesis Apócrifo] (21:28), por outro lado, prefere a tradução não comprometida rephāʾayyā.

Em seu segundo uso, Refaim designa “sombras” ou “espíritos” e serve como um sinônimo poético de metim (מֵתִים; Isa 26:14; Sal. 88:11). Refere-se, portanto, aos habitantes do mundo subterrâneo (Prov. 9:18). Este segundo significado é também encontrado em fontes fenícias.”

(Encyclopaedia Judaica [Enciclopédia Judaica], 2ª Edição, Fred Skolnik (Ed.), 2007, Vol. 17, pág. 224. Grifos e sublinhados acrescentados.).

Com esta informação em mente, consideremos agora o que disse Santos Saraiva (o erudito mencionado), na íntegra:

‘Estr. 10 (b). O paralelismo desta estrofe é sinonímico, sendo que a segunda frase exprime, com palavras diferentes, as mesmas ideias da primeira. O hebraico da segunda frase é ―אִם-רְפָאִים, יָקוּמוּ יוֹדוּךָָ (literalmente: ou as sombras [dos mortos] se levantarão [e] te louvarão?). Donde se vê que a Vulgata Latina (Sal. 87, vers. 11), alterando o valor dos termos, altera o sentido e destrói a beleza poética do paralelismo, vertendo ― aut medici suscitabunt... (ou os Médicos os ressuscitarão... ― P. F.). Deve-se notar, que a palavra רְפָאִים [rephaim], sendo propriamente aplicada à antiga raça canaanita de gigantes, é aqui tomada poeticamente pelas gigantescas sombras ou espectros dos mortos: é equivalente ao latim manes, quando significa almas dos mortos.’

[A grafia e a redação foram atualizadas aqui.]

Deve-se dizer, antes de qualquer outra coisa, que Saraiva não negou que esses “rephaim” estão imóveis no Seol, não afirmou que o Salmo estava tratando de alguma "ressurreição", nem fez qualquer referência a algum ‘retorno das “sombras” para este mundo’. Os comentários dele (inclusive sobre a maneira de traduzir da Vulgata) se limitaram a questões poéticas. Se Saraiva tivesse feito alguma dessas coisas, estaria contradizendo o texto, pois, como já vimos, independentemente do sentido que essa palavra tenha, o fato da condição inativa dos “rephaim” permanece inegável.

Daí, tendo em mente que a palavra “rephaim” se aplicava à raça de gigantes cananeus, Saraiva ‘agigantou’ também as “sombras ou espectros dos mortos”. O comentário que segue deixa claro que Saraiva não foi o único erudito que conjecturou sobre isso:

“[A palavra] רְפָאִים [Rephaim] é apresentada pelas versões gregas de maneira bem variada (Ραφαείμ, γίγαντες, γηγενεῖς, θεόμαχοι, Τιτᾶνες, e ἰατροί, Vulg. medici; LXX. Sal. 87:10; Isa. 26:14, onde é confundida com רֹפְאַים; compare com Gên. 1:2, e às vezes νεκροί, τεθνηκότες, especialmente nas versões posteriores). Na A.V. [Versão Autorizada, ou Rei Jaime] as palavras usadas são “Rephaim”, “gigantes” e “os mortos”. Que este último é o significado em muitos trechos é certo. (Sal. 88:10; Pro. 2:18; 9:18; 21:16; Isa. 26:19, 14). [MORTOS, OS, Ed. Amer.]. A questão que surge é: Como estes significados podem ser conciliados? Gesenius não dá qualquer derivação para o nome nacional [gentílico], e deriva ר=mortui, de רָפָא, sanavit, e o nome próprio Rapha de uma raiz arábica que significa “alto”, parecendo dessa forma cortar toda a conexão entre os significados da palavra, o que é certamente muito improvável. Masius, Simonis, etc., supõem que o segundo significado vem do fato de que tanto os espectros como os gigantes inspiram terror (aceitando a derivação de רָפָה, remisit, “desalentado de temor”, R. Bechai sobre Deut. 2); Vitringa e Hiller [supõem que vem] da noção de comprimento envolvida no alongamento dum cadáver ou do imaginário de que os espíritos parecem maiores do que o tamanho humano. (Hiller, Syntagm. Hermen. pág. 205; Virg. AEn. ii. 772, etc.). J. D. Michaelis (ad Lowth s. Poes. pág. 466) esforçou-se para provar que os Rephaim, etc., eram trogloditas, e que, dessa forma eles vieram a ser identificados com os mortos. Passando por alto outras conjecturas, Boettcher vê em רָפָא e רָפָה uma raiz dupla, e acredita que os gigantes eram chamados de רְפָאַים (languefacti) por eufemismo; e que os mortos eram chamados assim por um título que seria dessa forma um paralelo exato com o grego καμόντες, κεκμηκότες (comp. Buttmann, Lexil. ii. 237 em diante). Os argumentos dele são muito rebuscados para citar, mas veja Boettcher, págs. 94-100. Uma consideração atenta parece deixar pouca margem para dúvida de que os mortos eram chamados Rephaim (conforme Gesenius também indica) com base em algum conceito de o Seol ser a residência dos espíritos caídos ou gigantes enterrados.

(Dr. William Smith’s Dictionary of the Bible [Dicionário da Bíblia do Dr. William Smith], Houghton Mifflin and Cia., Boston, EUA, 1883, Vol. 2, pág. 912. Grifos e sublinhados acrescentados.)

Note-se que, apesar de toda a especulação feita por alguns autores em torno da ideia de ‘tamanho’, o erudito citado acima não tomou partido por qualquer uma delas, e também não deu qualquer sugestão sobre “atividade” dos “Rephaim”, à possibilidade de eles estarem ‘impedidos de voltar para este mundo’, etc. E os dois trechos (grifados) deixam claro que ele favoreceu a tradução “mortos”.

Confirmando que não há consenso entre os eruditos em hebraico acerca do significado desta palavra, a citação que segue apresenta mais informações sobre o segundo entendimento do termo רפאים:

Os mortos – hebraico, רפאים repā'ı̂ym A Septuaginta verte isto, Ὁι γίγαντες hoi gigantes ‘gigantes.’ O mesmo fazem a Vulgata e o Caldeu. O significado desta palavra tem sido um assunto de grande diferença de opinião entre os lexicógrafos. Ele é encontrado às vezes como um substantivo gentílico para designar os filhos de Rafá, chamados de “Refains”, 2 Samuel 21:16, 2 Samuel 21:18, uma raça canaanita de gigantes que vivia além do Jordão Gênesis 14:5; Gênesis 15:20, de quem Ogue, filho de Basã era descendente, Deuteronômio 3:11. Às vezes é usado para designar todas as tribos de gigantes de Canaã, Deuteronômio 2:11, Deuteronômio 2:20; e é particularmente aplicado a pessoas de força extraordinária entre os filisteus, 2 Samuel 21:16, 2 Samuel 21:18. Vitringa supõe que o termo foi dado aos espíritos dos mortos por conta do fato de que eles pareciam ser “maiores” do que em vida; que eles em sua forma e estatura se assemelhavam a gigantes. Mas uma opinião mais provável, é que ele é aplicado às sombras dos mortos como sendo fracas, débeis, ou sem poder ou sensação, a partir da palavra רפא râpâ' fraco, débil, impotente. Esta interpretação é fortemente confirmada por ser colocada diante de nós, Isaías 14:10, ‘Tu também estás fraco como nós’. A palavra é traduzida por ‘gigantes’ nos seguintes lugares: Deuteronômio 2:11, Deuteronômio 2:20; Deuteronômio 3:13; Josué 21:4; Josué 15:8; Josué 17:15; Josué 18:16; 2 Samuel 21:16, 2 Samuel 21:18, 2 Samuel 21:20, 2 Samuel 21:22; 1 Crônicas 20:5-6, 1 Crônicas 20:8. Ela é traduzida como ‘Refains’ em Gênesis 14:5; Gênesis 15:20; 2 Samuel 5:18, 2 Samuel 5:22; 2 Samuel 23:13. Ela é traduzida como ‘os mortos’ em Jó 26:5; Salmo 88:10; Provérbios 2:18; Provérbios 9:18; Provérbios 21:16; Isaías 26:14. Ela aqui significa os espíritos dos mortos – os habitantes daquela região escura e sombria, concebida pelos hebreus como situando-se abaixo da terra, onde moram os espíritos dos mortos antes de seu destino final ser estabelecido – chamada de “seol” ou “hades”. Não é a residência dos ímpios apenas – o lugar de punição – e sim o lugar onde se supõe que todos os mortos estão congregados antes de seu destino final ser pronunciado.”

(Notes, critical, explanatory, and practical on the Book of the prophet Isaiah [Notas Criticas, Explanatórias e Práticas sobre o Livro do profeta Isaías], Volume 1, Albert Barnes, 1858,  págs. 288, 289.Grifos e sublinhados acrescentados.)

Assim, Santos Saraiva sugeriu que “sombras” é a ‘tradução literal’ porque ele (assim como outros eruditos), apegou-se a um dos sentidos da palavra “Rephaim”, ou seja, ‘gigantes’ e procurou adaptar a ideia de ‘tamanho’ às “sombras”, sendo esta palavra a tradução à qual ele deu preferência. O trecho do Salmo em si, porém, nada sugere sobre “tamanho” dos que se encontram no Seol; a ênfase do Salmo é no fato de eles estarem impotentes. De modo que é a tradução “mortos” (ou uma palavra equivalente), e não a tradução “sombras”, que está mais próxima do sentido expresso no Salmo.

Numa linha de raciocínio similar, o comentário que segue, além de questionar qualquer ideia de ‘levantamento’ no mundo dos mortos (ou de ‘ressurreição’), questiona também a aplicação da ideia de ‘tamanho’ ao que diz este versículo:

Ver. 11. A designação dos mortos como רְפָאִים, não é o nome dos Refains, uma raça de gigantes canaanitas, transferidos para os mortos, como aparecendo à imaginação em formas gigantescas, 1 Sam. 28:13 (Hengst.). Ele vem de uma raiz que expressa o que é fraco e lânguido, e ao mesmo tempo esticado e alongado, e que pode, portanto, ser utilizado para descrever as formas sombrias do mundo subterrâneo, bem como os gigantes e heróis dos tempos antigos. Não há qualquer referência aqui, como há em Isa. 26:14 a uma subida do túmulo, ou simplesmente (Hengst., Hupfeld) a um levantamento da posição deitada que resulta da prostração. Pois a expressão inclui a ideia de um retorno à vida, e, portanto, a de um reaparecimento, em qualquer caso, no mundo subterrâneo, que é aqui caracterizado (Salmo 88:12) como destruição, (Abadon) assim como em Jó 26:6; 28:22; Prov. 15:11; 27:20, como escuridão, Salmo 88:13, (comp. Salmo 88:7.), e como a terra do esquecimento. Estas últimas palavras devem ser tomadas em duplo sentido: que Deus deixa de pensar nos mortos (Salmo 88:6), pois eles são esquecidos (Sal. 31:13) e que nos mortos a memória se extingue (Salmo 6:6; 30:10, et al, Eclesiastes 9:5, 6, 10), pois eles esquecem.”

(A Commentary on the Holy Scriptures, Critical, Doctrinal and Homilectical [Um Comentário às Escrituras Sagradas, Crítico, Doutrinário e Homilético], John Peter Lange et al, Vol. 9 (Salmos), 1872, pág. 477 [Traduzido do alemão por Philip Schaff]. Grifos e sublinhados acrescentados.).

A citação que segue também endossa o segundo sentido do termo, conforme é usado no Salmo 88:10:

REPHAIM, ref’-a-im, re-fa’-im (רְפָאִים, repha’-im, from רפא, rapha’, “um terrível”, portanto, “gigante”, em 1 Cro 20:4, הָרְפָאִ֖ מִילִדֵ֥י yelidhe ha-rapha’, “filhos do gigantes”, Versão Rei Jaime, Rephaims): Uma raça de habitantes aborígenes ou primitivos habitantes do leste da Jordânia em Ashterothkarnaim (Gên 14:5) e no vale de Refaim ao sudoeste de Jerusalém (Jos 15:8). Eles se associaram com outras raças gigantes, como o emins e anaquins (Deu. 2:10,11) e os zamzumins (Deu. 2:20). É provável que eles eram todos do mesmo grupo, sendo dados nomes diferentes pelas diferentes tribos que entraram em contato com eles. A mesma palavra hebraica é traduzida como “os mortos”, ou “as sombras” em diversos trechos (Jó 26:5 margem; Sal. 88:10 margem; Pro 2:18 margem; Pro. 9:18 margem; Pro 21:16 margem; Isa. 14:9 margem; Isa 26:14, 19 margem). Nestes casos, a palavra é derivada de רָפֶה rapheh, “fraco”, “impotente”, “uma sombra” ou “sombra [tridimensional]”.

(The International Standard Bible Enciclopaedia [Enciclopédia Bíblica Padrão Internacional], James Orr (Editor Geral) Vol. 4, 1915, págs. 2559, 2560. Grifos e sublinhado acrescentados.).

 

O termo רפאים / rephaim, usado no Salmo 88:10, refere-se à condição de inatividade e impotência dos mortos e não propriamente ao ‘tamanho’ das “sombras”. E o ‘levantamento das sombras’ de que este Salmo trata não se refere de maneira alguma a elas 'voltarem para o mundo dos vivos'.

A ênfase em ideias tais como o ‘tamanho’ das “sombras” (para obscurecer o fato de que tais “sombras” encontram-se impotentes no Seol), bem como na ideia de as “sombras” ‘não poderem voltar para este mundo para louvar a Deus aqui' (para se esquivar da afirmação clara do Salmo de que tais “sombras” não se levantam para louvar a Deus lá no Seol), constitui exegese mal aplicada, pois é nada mais que especulação feita em torno de assuntos não discutidos no texto. Isso não conta com o apoio nem da evidência interna do texto, nem dos eruditos credenciados que o analisaram.

 

Finalmente, com relação à tradução do termo רְפָאִים / rephaim, não é que seja errado traduzi-lo como “sombras”. É uma tradução válida. Mas, embora os tradutores em geral tenham optado por diversas palavras nas Bíblias modernas, o detalhe digno de nota é que a maioria não optou pelo termo “sombras” e sim pelo termo “mortos. Também digno de nota é que o termo “almas” não foi usado no texto principal deste versículo por um só tradutor.

Entre as versões em inglês a palavra “mortos” (ou uma palavra equivalente) é usada em KJV, ASV, BRG, CEV, ESV, GNV, GNT, JUB, MEV, NLV, NLT, VOI, APE, OJB, HNV, TMB. O termo “espíritos” é usado em AMP, GW, CSB, ISV, LEB, NOG, NASB, NET, NIRV, NIV, WEB, ICB, NCV e EXP. “Sombras” é usado em DBY, NABRE, NRSV, RSV, JPS e BBE. Outros termos usados são: “fantasmas”: CEB, CJB, ERV, MSG; “médicos”: RHE e WYC e “rephaim”: YLT. Entre as versões em português, o termo “mortos” (ou uma palavra equivalente, tal como “defuntos” ou “finados”) é usado em NVI, BLH, CBC, THO, NBV, ALF, ACR, ALA, ARA, TEB, FIG, MS. O termo “sombras” é usado em BJ, BMD, EP e SBB.

Assim, pode-se até questionar que o termo “sombras” seja o que ‘segue o hebraico mais de perto’. Aliás, este termo nem é a 'tradução literal' do termo hebraico (como afirmou Santos Saraiva). A tradução literal é “rephaim” (que aparece na YLT). A palavra “sombras” é apenas uma das traduções possíveis no idioma moderno, e como já visto, ela não é a predominante nas versões bíblicas modernas, em qualquer idioma. A tradução predominante é "mortos", e este é o termo que transmite o sentido mais claro da palavra רְפָאִים / rephaim, pois passa a ideia de inatividade e impotência.

O uso de expressões tais como “espíritos” ou “espíritos dos mortos” na tradução também pode ser contestado facilmente, não só por estar em desacordo com o hebraico, como também com base no fato de que o “espírito” retorna a Deus (Ecle. 12:7); o espírito dos falecidos não vai para o Seol. Em vista disso, a afirmação de alguns eruditos (como Albert Barnes, citado acima), de que a palavra רפאים / rephaim “significa os espíritos dos mortos” também pode ser questionada. (Para mais informações sobre o termo “espíritos”, conforme usado nas Escrituras, veja Espíritos "Desencarnados" Mencionados na Bíblia?).

Contudo, ainda que o termo רפאים / rephaim tivesse mesmo esses sentidos, e fosse apropriado traduzi-lo por “almas dos mortos” ou “espíritos dos mortos”, a evidência de que tais רפאים / rephaim estão impotentes e inativos no Seol permaneceria irremovível de qualquer maneira.

 

Portanto, as ações de Deus que Davi mencionou se referem aos adoradores humanos. São eles que louvam a Deus no modelo de adoração que fora estabelecido em Israel, e não as almas dos mortos (“sombras”). Mas elas continuam a existir no Seol, ainda que presas e sem permissão para estarem entre os humanos louvando a Deus.

 

FALSO. As ações de Deus mencionadas no Salmo 88:11 se referem aos mortos. O texto diz que Ele não faz ‘milagres’ ou ‘maravilhas’ em favor dos mortos, não dos vivos. E esses mortos (“sombras”) ‘não se levantam’ para louvá-lo, nem dizem nada sobre Ele. Eles não fazem essas coisas no domínio onde se encontram. Portanto, o Salmo 88:11 não contradiz o Salmo 115:17 de modo algum.

Ideias tais como “modelo de adoração que fora estabelecido em Israel”, “almas presas” ou “sem permissão para estarem entre os humanos louvando a Deus” caracterizam-se como “espantalhos”. Estas declarações não passam de argumentos espúrios, que erram completamente o alvo e não servem a qualquer outro fim a não ser obscurecer a declaração positiva deste salmo. Os mortos não se levantam para louvar a Deus no Seol, não pelo fato de estarem “presos”, “sem permissão” ou ‘impedidos’ de alguma maneira, e sim por estarem impotentes e inativos. Esta é a condição deles.

(Para uma consideração mais pormenorizada sobre os métodos costumeiramente usados para enfraquecer declarações bíblicas, sugerimos o artigo Algo Mais Sobre as Tentativas de Obscurecer Conceitos).

 

“Sentido semelhante contém Isaías 38:18, que menciona a presença de alguém em contraste com sua ausência devido à morte. Como mostra o contexto, é um agradecimento do rei Ezequias, que estava doente e triste por saber que estava morrendo. Por isso ele suplicou a Deus que prolongasse sua existência na Terra, e foi atendido. Ganhou mais quinze anos de vida. Tomado de agradecimento, ele fez um retrospecto do que lhe aconteceu e concluiu:

“Não é o Seol que te pode elogiar; a própria morte não te pode louvar... O vivente, o vivente, é ele quem te pode elogiar. Assim como eu posso neste dia”. – Isaías 38:18, 19.

Em outras palavras, foi como se ele dissesse: “Se eu tivesse morrido eu não poderia te louvar, como estou louvando hoje (diante dos meus irmãos)”.

Em primeiro lugar, Isaías 38:18, 19 não estabelece “contraste” entre “presença de alguém” versus sua “ausência devido à morte”. Não é o 'ponto de vista dos vivos na Terra' que está em questão. Esta é uma ideia indefensável, porque na citação completa do texto (que, novamente, não foi feita acima) os locais onde cada grupo se encontra são muito bem especificados, e o "contraste" está verdadeiramente na ação do sujeito (o louvor a Deus, que é dado por pessoas vivas e não é dado por pessoas mortas, que se encontram no Seol [sepultura, cova, mundo dos mortos, etc.]). O versículo completo (com a parte omitida grifada) diz:

No mundo  dos mortos, ninguém te agradece, ninguém louva o teu nome; os que estão ali não confiam na tua fidelidade. São os vivos que te louvam, como eu te louvo agora. (NTLH)

Com efeito, não é a morada dos mortos que vos louvará, nem a morte que vos celebrará. O que desce à sepultura não espera mais em vossa bondade. Quem está vivo, somente quem está vivo pode louvar-vos, como eu o faço hoje. (CBC)

Pois o Cheol não te pode louvar, A morte não te pode celebrar: Os que descem à cova, não podem esperar a tua verdade. O que vive, o que vive, esse te louvará como eu o faço hoje. (SBB)

Em segundo lugar, a concessão de Deus ao Rei Ezequias foi o prolongamento de sua vida, nada se falou sobre prolongamento de “existência na Terra”:

“Então a palavra do Senhor veio a Isaías: Vá dizer a Ezequias: Assim diz o Senhor, o Deus de seu antepassado Davi: Ouvi sua oração e vi suas lágrimas; acrescentarei quinze anos à sua vida.” (Isaías 38:5, NVI;  “Vou deixar que você viva mais quinze anos.”, NTLH;  “acrescentarei aos teus dias quinze anos.”, ACR)

Em terceiro lugar, Ezequias nunca poderia ter dito “Se eu tivesse morrido eu não poderia te louvar, como estou louvando hoje (diante dos meus irmãos)”, porque ele não estava diante de ninguém naquele momento:

“Depois de recuperar-se dessa doença, Ezequias, rei de Judá, escreveu o seguinte:” (NVI; “Depois que o rei Ezequias sarou, ele escreveu o seguinte hino de louvor:”, NTLH; “O escrito de Ezequias, rei de Judá, de quando adoeceu e sarou de sua enfermidade:” – Isaías 38:9, ACR)

As palavras de Isaías 38:18, 19 fazem parte dum hino que o rei escreveu. Ideias de “coletividade”, “louvar publicamente”, “modelo de adoração estabelecido em Israel” ou outras desse gênero, além de não terem comprovação em si mesmas (por não passarem de releituras dos textos, como já visto várias vezes), também não têm aplicação neste caso, já que quando o rei Ezequias disse “como eu te louvo agora” (“como hoje estou fazendo”, NVI), ele não estava cantando algum cântico de louvor “em coletividade”, “diante dos irmãos”. O louvor que ele estava rendendo a Deus naquele momento era por escrito. Isso estava sendo feito de maneira particular.

Assim, nenhuma das afirmações relacionadas com esta “aplicação” que foi proposta de Isaías 38:18, 19 é “conforme mostra o contexto” destes versículos. Pelo contrário, como nos demais casos o “sentido semelhante” que foi proposto é uma invenção, baseada no total desrespeito ao contexto e numa citação truncada.

“Um exame mais minucioso do Salmo 6:5 também revela um obstáculo adicional para que as almas no Seol façam aquilo que o salmista mencionou.

Uma nota da Bíblia TEB informa que no hebraico o trecho “porque na morte não há menção de ti” está literalmente assim: “Não há comemoração de ti entre os mortos”. O Seol (ou Hades) não se apresenta como local adequado para isso, se os textos a seguir forem levados em consideração:

“Cercaram-me as cordas da morte e acharam-me as próprias circunstâncias aflitivas do Seol”. – Salmo 116:3.

A seca, bem como o calor, arrebatam as águas da neve. Assim faz também o Seol com os que pecaram!” – Jó 24:19 (Logicamente, os que não pecaram têm um destino diferente).

“Também o rico morreu e foi enterrado. E no Hades, ele ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu Abraão de longe…”. – Lucas 16:22, 23.

À exceção do “seio de Abraão”, mencionado em Lucas 16:22, o mundo dos mortos não parece ser o lugar apropriado para comemorações, mesmo estando vivas as almas que moram lá.”

A abordagem do Salmo 6:5 é a mesma que foi usada no caso do Salmo 146:4: Mudança de foco, do verbo (“não há”) para especulações sobre o objeto (“comemoração”), com o fim de se esquivar da evidência fornecida pelo texto. E, o que é pior: Enquanto no caso do Salmo 146:4 pelo menos levou-se em consideração o texto completo, o Salmo 6:5 foi tratado de maneira parcial. A primeira condição para algum “exame mais minucioso do Salmo 6:5” seria levar em consideração o texto integral, não apenas uma parte dele. A frase completa, conforme a TEB é:

Pois entre os mortos teu nome não é pronunciado. E no Sheol, quem te rende graças?

Duas coisas que não são feitas por quem está no Sheol são especificadas: Eles não pronunciam o nome de Deus, nem o louvam (‘rendem graças’). Por mais que se tente criar um caso com a palavra que aparece na primeira frase, por maior que seja a quantidade de considerações sobre sentidos alternativos (tais como “comemoração de Deus”), não há como alterar a segunda frase. O peso da evidência desta declaração permanece irremovível.

Ademais, mencionar-se algum “obstáculo adicional para que as almas no Seol façam aquilo que o salmista mencionou”, a saber, que “o Seol (ou Hades) não se apresenta como local adequado (ou apropriado) para comemorações” é outra tentativa de se esquivar da evidência, com o objetivo de sustentar a ideia de que ‘as almas que moram lá estão vivas, mas, por algum motivo, estão impedidas de fazer tais coisas’ (algo que não é afirmado no Salmo 6:5, nem em texto algum). No que se refere, às duas coisas – a “comemoração de Deus” e o louvor – o texto não discute os “porquês” de elas não serem feitas no Seol. Toda a informação que se dá é simplesmente que essas coisas não são feitas lá. A tentativa de levantar uma questão sobre os possíveis motivos (e ainda sem dar uma só sugestão de quais poderiam ser) não muda isso.26

Por mais extensas e elaboradas que sejam as elucubrações, por mais que se busque apoio em outros textos para tentar “explicar” o Salmo 115:17, nada disso consegue contradizer a verdade simples expressa nele. Pelo contrário, a tendência é esta verdade ser mais e mais confirmada. Esta verdade é declarada de forma ainda mais contundente nesse Salmo 6:5: Não há menção (ou “comemoração”), lembrança, ou qualquer tipo de louvor a Deus (em “coletividade” ou não) entre os mortos que estão no Seol. E não se abre “exceção” para quem quer que esteja em alguma teórica ‘região do Seol’. A divisão do Seol em “regiões” não tem base nas Escrituras; é pura especulação teológica, com o objetivo de defender o mito da "imortalidade da alma".

Se ocorresse louvor ou algum tipo de “comemoração de Deus” em algum “subconjunto” do domínio dos mortos, isso contradiria todas as referências bíblicas já consideradas que afirmam em linguagem direta que essas coisas não são feitas no reino inteiro do Seol. A alma de Cristo esteve lá e não fez isso.27 As demais pessoas (almas) falecidas que estão nesse inteiro domínio também não o fazem. Nem há qualquer prova da existência de algum “obstáculo adicional” que supostamente impediria ‘almas vivas’ de fazê-lo. As almas que estão no Seol não se lembram, não mencionam, não ‘comemoram’ e nem ‘se levantam’ para louvar a Deus no lugar onde se encontram precisamente por estarem mortas – inativas e inconscientes.

Para apoiar a tese de que “o mundo dos mortos não parece ser o lugar apropriado para comemorações, mesmo estando vivas as almas que moram lá” foram citados mais três textos. Seguem-se comentários sobre eles:

Salmo 116:3: “Cercaram-me as cordas da morte e acharam-me as próprias circunstâncias aflitivas do Seol”.

O Salmo foi citado de maneira isolada. Não se dá ao leitor informação alguma sobre o contexto da expressão “circunstâncias aflitivas”. O trecho completo, segundo a versão citada, diz:

Deveras amo, porque Jeová ouve a minha voz, os meus rogos. Pois ele me inclinou seu ouvido, e eu chamarei durante os meus dias. Cercaram-me as cordas da morte e acharam-me as próprias circunstâncias aflitivas do Seol. Continuei a encontrar aflição e pesar. Mas, passei a invocar o nome de Jeová: “Ai! Jeová, põe deveras a minha alma a salvo!” Jeová é clemente e justo; e nosso Deus é quem mostra ter misericórdia. Jeová está guardando os inexperientes. Eu estava empobrecido, e ele passou a salvar até mesmo a mim. Retorna ao teu lugar de descanso, ó minha alma, pois o próprio Jeová agiu apropriadamente para contigo. Pois socorreste minha alma da morte, meu olho das lágrimas, meu pé do tropeço. (Salmos 116:1-8, TNM [1961], grifo e sublinhado acrescentado.)

Encontrava-se o salmista no próprio Seol, encarando as “circunstâncias aflitivas” de lá quando disse essas coisas? Não. O Salmo é um pedido de socorro, feito por uma pessoa viva, seguido por uma expressão de gratidão a Deus, por Ele ter ‘socorrido sua alma da morte’. Os únicos que se apercebem das “circunstâncias aflitivas do Seol” são, precisamente, os que não estão: os vivos. Isso está em plena harmonia com o que diz o já analisado Eclesiastes 9:5: “Pois os vivos sabem que vão morrer, mas os mortos não sabem nada.” (NTLH)

Jó 24:19: “A seca, bem como o calor, arrebatam as águas da neve. Assim faz também o Seol com os que pecaram!” (Logicamente, os que não pecaram têm um destino diferente).”

Outras versões:

Seca – calor também – consomem águas da neve, o Sheol [aqueles que] pecaram. (YLT)

Seca e calor arrebatam as águas da neve; assim faz o Sheol aos que pecaram. (NRS)

A sequidão e o calor desfazem as águas de neve; assim faz o Sheol aos que pecaram. (TB)

A sepultura consome os pecadores exatamente como a seca e o calor consomem a neve. (NLT)

Tão certo como a neve derrete sob o sol quente do verão, os pecadores desaparecem na sepultura. (MSG)

A neve derretida desaparece quando o ar está quente e seco. E os pecadores desaparecem quando eles vão para baixo aos seus túmulos. (NIRV)

Quando a neve – composta inteiramente de água – é consumida pela secura e pelo calor, ela não ‘vai para outro lugar e continua existindo lá’; ela simplesmente desaparece. O texto afirma que o Seol tem esse mesmo efeito nos pecadores: Eles desaparecem; deixam de existir. É claro que essa conclusão advinda da analogia não interessa a quem gostaria de estabelecer alguma “base bíblica” para a ideia de ‘sobrevivência da alma após a morte’. Já que não há como ignorar a analogia, nem como mudar o sentido de verbos tais como “desaparecer”, “consumir” e “desfazer” (ou afirmar que eles são apenas “uma questão de ponto de vista”), o único expediente que resta é procurar abrir “exceções” nessa declaração do livro de Jó. Como?  Alegando-se que alguns “não pecaram”, de modo que o destino deles seria “diferente” disso. O problema é que essa interpretação ignora o que dizem declarações como as seguintes:

Pois não há homem justo sobre a terra, que faça o bem, e nunca peque. (Eclesiastes 7:20, ALA)

Todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus. (Rom. 3:23, NVI)

Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, visto que todos pecaram. (Rom. 5:12, SBB)

Mas, e o perdão de Deus por meio do sacrifício de Cristo? Não alteraria ele o quadro apresentado em Jó 24:19 de alguma maneira? De jeito nenhum. Pelo contrário, o fato de Cristo ter precisado fazer o que fez para remir a humanidade é justamente porque nenhum humano poderia fazer o mesmo. Em referência a todos os filhos dos homens, outro salmo diz:

Nenhum deles [“habitantes do mundo”] pode de maneira alguma remir a seu irmão, nem por ele dar um resgate a Deus... para que continuasse a viver perpetuamente e para que não visse a cova. (Salmo 49:7-9, TB)

Caso existissem esses "que não pecaram”, o texto acima estaria declarando uma falsidade. Qualquer uma dessas pessoas poderia fornecer o preço de resgate pelos demais, e não teria havido necessidade do sacrifício de Cristo! Assim, se o ensino bíblico sobre o perdão de Deus por meio de Cristo for incluído nesta análise, isso só acentuará o fato de que todos os humanos são pecadores. Perdão só se concede a quem pecou. Todos os humanos precisam de perdão e redenção, precisamente porque todos pecaram. E os horríveis efeitos degenerativos do pecado de nossos pais atingem a todos – indiscriminadamente. Tanto as pessoas fiéis a Cristo e a Deus como aquelas que rejeitam deliberadamente os caminhos deles estão atualmente sujeitas à degeneração física que por fim leva à morte. E, conforme todos os escritores bíblicos que trataram deste assunto atestaram – sem qualquer margem para dúvida – as “angústias do Seol” (Sal. 116:3, ALA; "angústias do Sheol", NVI; "angústias do inferno", ACR; "horrores da sepultura", NTLH) aplicam-se a todos. É por isso que nenhum escritor bíblico falou alguma coisa sobre “vida melhor depois da morte” ou pensou em apresentar o Seol como algum ‘destino desejável’.

Um detalhe que vale a pena lembrar é que esta referência de Jó 24:19 nada diz sobre o Seol ‘derreter os pecadores com calor’. Dentro da analogia, isto é dito sobre a neve (como visto, por exemplo, na MSG, citada acima), não sobre os pecadores. Porém, visto que alguns proponentes da “imortalidade da alma” defendem um conceito totalmente errôneo sobre o Seol (Hades), insistindo em “dividi-lo” em “regiões”, incluindo o tal “lago de chamas” onde os pecadores supostamente estariam, é claro que isto só faz dificultar que eles (e as pessoas a quem eles conseguem influenciar) entendam a analogia expressa neste texto. Ninguém na Bíblia jamais falou alguma coisa sobre “lago de chamas” literal; isso é pura especulação teológica, que gera mais questões do que respostas. Quando Jesus e outros falaram em “Geena” e “lago de fogo” eles mesmos explicaram muito bem estas simbologias. Infelizmente, alguns fingem ignorar as explicações com o único propósito de manter de qualquer maneira seu entendimento literal das expressões para “salvar” suas teorias (e alguns ainda chegam ao ponto de afirmar que os cristãos em todas as eras sempre entenderam o assunto dessa mesma maneira!).

Tudo considerado, a frase “logicamente os que não pecaram têm um destino diferente” absolutamente nada tem de ‘lógica’ – pois parte de uma premissa inexistente (e, portanto, falsa)e nem de bíblica. Todos os humanos são pecadores e o destino de todos após a morte é o Seol. A condição de todos os que estão lá é essa mesma que Jó 24:19 descreve – e nenhuma outra. Não há “destino diferente” para ninguém.

Lucas 16:22, 23: “Também o rico morreu e foi enterrado. E no Hades, ele ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu Abraão de longe…”.

Como já visto, os proponentes da “imortalidade da alma” e do “tormento consciente” entendem a parábola do “homem rico e Lázaro” (da qual esse trecho faz parte) de maneira “absolutamente literal”. Conforme já indicado ao leitor, um entendimento desta parábola é proposto neste artigo.

Nem o Salmo 6:5, nem texto bíblico algum afirma que as almas no Seol estão “vivas”, nem discute razões que ‘impedem’ os mortos de louvar a Deus. O que ele, assim como todas as referências pertinentes dizem, simplesmente, é que a alma morre e que os mortos não louvam a Deus.

 

A ALMA QUE PECAR MORRERÁ

“Eis que todas as almas - a mim me pertencem. Como a alma do pai, assim também a alma do filho - a mim me pertencem. A alma que pecar - ela é que morrerá”. – Ezequiel 18:4.

Por Gênesis 2:7 dizer que o homem é uma “alma vivente” pode-se chegar à conclusão que a alma morre, pois todo ser humano morre. É por isso que os que pensam assim acham que o texto acima de Ezequiel contraria o conceito da imortalidade da alma, pois diz que a alma que pecar vai morrer.

Ainda que Gênesis 2:7 só desse a informação de que “o homem é uma ‘alma vivente’” isso já deporia contra o conceito da imortalidade da alma. O fato de o texto agregar o qualificativo “vivente” à palavra “alma” (e não só em Gênesis 2:7, diga-se de passagem) como também usar o verbo “ser” (em vez de “ter”) anula qualquer lógica na afirmação de que o homem é mortal enquanto que a alma é imortal. Se o homem é uma alma e o homem é mortal, segue-se que a alma é mortal. Se alguns desejam usar a Bíblia para apoiar a ideia contrária a esta, a obrigação dessas pessoas seria apresentar uma só referência textual que afirme inequivocamente que o homem 'têm uma alma' que se separa do corpo e continua ativa após a morte deste ou que contradiga que a alma humana é equivalente à própria pessoa ou à vida. Os defensores do conceito da “imortalidade da alma” sabem que esta apresentação seria impossível, já que uma referência textual desse tipo não existe. Ela só pode ser encontrada em escritos apócrifos.

Acontece que Gênesis 2:7 não se limita a essa informação. Além de esse texto afirmar que o homem é uma “alma vivente”, ele também define com precisão o que é isso. A informação acompanhante é que o homem “tornou-se alma vivente” depois que Deus o formou do “pó da terra” e ‘soprou’ nas narinas dele o “fôlego de vida”. Antes disso não havia “alma vivente”. Inversamente, depois que foi aplicada ao primeiro homem a sentença de morte devido ao pecado, o ‘pó voltou à terra assim como veio a ser e o próprio espírito voltou a Deus que o deu’ (Eclesiastes 12:7). E o homem deixou de ser uma “alma vivente”, tornando-se uma “alma falecida”. O mesmo ocorre com todos os seus descendentes, sem exceção. Quando eles morrem, não há mais “alma vivente” alguma, já que, da mesma maneira, ‘o pó voltou à terra e o espírito retornou a Deus’.

Por isso, a frase “pode-se chegar à conclusão... É por isso que os que pensam assim acham que...” está equivocada do princípio ao fim. Esta frase se aplicaria, talvez, a um “leitor desavisado”! Não “é por isso” de maneira alguma, e aqueles que se atêm ao que leem na Bíblia não ‘chegam à conclusão’, nem “pensam” nem “acham” nada com base nessa informação limitada que foi apresentada sobre Gênesis 2:7. O pensamento e as conclusões dessas pessoas baseiam-se no conteúdo completo do texto. Como em todas as outras situações analisadas neste capítulo, quem persiste em procurar meios de “reler” esses dois textos – e todos os demais – fazendo acréscimos ou cortes, sempre com o objetivo de tentar anular a evidência provida pelo enunciado integral deles, são os proponentes da imortalidade da alma. No caso em discussão, o desenvolvimento da “aplicação” proposta já começou com um sério problema, pois a maior parte da informação contida nesta referência de Gênesis foi escondida do “leitor desavisado”.28

Mas note o seguinte uso da palavra “alma” no livro de Levítico:

“Pois a alma de todo tipo de carne é seu sangue”. – Levítico 17:14.

Percebe-se que a palavra “alma” está sendo utilizada num sentido restrito, e não se refere à alma descrita nos textos abaixo (o primeiro menciona a morte de Raquel e o segundo a ressurreição de uma criança pelo profeta Elias).

Está mesmo evidente esse "sentido restrito"? Será que um só leitor o 'perceberia'? Ou isso nada mais é que uma tentativa de impor uma releitura?

É verdade que, devido à importância do sangue para a manutenção da vida dos seres carnais, os escritores bíblicos às vezes intercambiaram livremente os termos que são traduzidos como “sangue” e “alma”. Mas texto bíblico algum iguala a alma ao sangue e Levítico 17:11, 14 certamente não está fazendo isso. O que Levítico 17:14 está dizendo é que “a alma (vida) de todo tipo de carne” (humana ou animal) está no sangue, porque o sangue é o elemento essencial na manutenção ou sustentação da alma (vida) de um ser carnal. Outros tradutores entenderam isso muito bem e não ‘perceberam’ “sentido restrito” algum. A seguinte é a maneira como este texto é vertido em muitas traduções:

“Porque a vida da carne está no sangue...” (ARA, NVI, SBB, CBC e outras.)

Portanto, a palavra “alma” nesse texto tem o mesmo significado que tem a palavra “alma” nos próximos dois textos citados:

“E o resultado foi que, enquanto a sua alma partia (porque estava morrendo), ela chamou-o pelo nome de Ben-Oni; mas o seu pai chamou-o de Benjamim”. – Gênesis 35:18. (Partia para onde? Para o Seol, a morada das almas).

“E [Elias] passou a estender-se três vezes sobre o menino e a clamar a Jeová, e a dizer: ‘Ó Jeová, meu Deus, por favor, faze a alma deste menino voltar para dentro dele.’ Jeová escutou finalmente a voz de Elias, de modo que a alma do menino voltou para dentro dele e este reviveu”. – 1 Reis 17:21, 22, colchetes acrescentados.

Obviamente, não foi o sangue do menino que voltou para dentro dele.

É claro que não! Nem o texto está afirmando isso. O jovem havia acabado de falecer e o sangue dele ainda se encontrava em seu sistema (o relato em questão não diz que a morte foi causada por perda maciça de sangue). Mas esse sangue não mais circulava no corpo. O texto é claro: o que voltou para dentro do menino foi a alma (vida), não o sangue. A partir do momento em que o espírito retornou a ele (da parte de Deus) e o menino voltou a ser uma “alma vivente”, sua vida voltou a ser sustentada naquele corpo por diversos processos, incluindo o da circulação sanguínea (restaurada), como era o caso antes de ele morrer. Em vez de contradizer, isso enfatiza o sentido expresso em Levítico 17:14: “A alma da carne está no sangue.” Tanto em Gênesis 35:18, como em 1 Reis 17:21, 22, a alma está sendo igualada à vida ativa na criatura. Nenhuma das 3 referências apresenta um “sentido restrito” de “alma”. E as três contradizem a ideia de que a alma continua ativa independentemente após a morte do corpo, já que o sangue entra inescapavelmente na consideração. Um corpo físico morto, sem circulação sanguínea não tem condições de sustentar a vida (alma).

A linguagem de ambos os textos também não indica que essa "alma" fosse simplesmente a vida, pois o escritor dá uma ideia de deslocamento da alma, que vai de um lugar para outro.

Será que o fato de os dois textos usarem os verbos “partiu” e “voltou” em conexão com a alma torna proibitivo que esse termo seja entendido como vida? Se o termo “alma” fosse substituído por “vida” estes verbos não poderiam mais ser usados? Quando se diz que a vida de alguém “se foi”, devemos concluir que, porque o verbo “ir” está sendo usado, a vida dessa pessoa ‘se deslocou para algum lugar’ literalmente e continuou ativa lá? Ou significa simplesmente que a vida dessa pessoa terminou? Aqui também, outros tradutores entenderam corretamente o sentido dos termos originais e associaram livremente estes mesmos verbos ao termo “vida”:

Gênesis 35:18

1 Reis 17:21

“Conforme sua vida se desvanecia, pouco antes de morrer, chamou-lhe Ben-oni, mas seu pai chamou-lhe Benjamim.” (Common English Bible)
“Mas sua vida ia desaparecendo em suas dores, ela viu que ela estava à beira da morte, chamou seu filho de Benoni, o filho de minha angústia. O nome de seu pai para ele foi Benjamim, o filho de sua mão direita.” (Knox Bible)

“E aconteceu que, quando sua vida estava partindo (por que ela estava morrendo), ela chamou o seu nome Ben-Oni. Mas seu pai chamou-lhe Benjamim.” (Lexham English Bible)

“Mas conforme a vida dela desaparecia, pouco antes de morrer, Raquel chamou seu filho Ben-oni, mas seu pai decidiu chamá-lo em vez disso de Benjamim.” (The Voice).

“Então ele se deitou sobre o menino três vezes e clamou ao Senhor: "Ó Senhor, meu Deus, faze voltar a vida a este menino!” (NVI)29

E, estendendo-se sobre o menino três vezes, ele fez sua oração ao Senhor, dizendo: Ó Senhor meu Deus, por favor permita que a vida desta criança volte a ela novamente. (Bible in Basic English)

Então ele se estendeu sobre o menino três vezes, e clamou ao Senhor: “SENHOR, meu Deus, por favor dê a vida deste menino de volta para ele.” (Common English Bible)

Então ele se estendeu sobre o menino três vezes, e clamou ao SENHOR e disse: “Ó SENHOR meu Deus, eu te peço, permita que a vida desta criança volte a ela.”

 

Assim, o sentido de “alma” em Levítico 17:11 não é contradito pela “linguagem de ambos os textos” acima, Gênesis 35:18 e 1 Reis 17:21, 22. Nos três casos, a palavra tem esse mesmo sentido: vida.

E isto está de acordo com aquilo que demonstram diversos versículos bíblicos, i.e., que depois da morte a alma do ser humano vai para o Seol (ou Hades), mas se for da vontade de Deus ela pode ser trazida de volta por Ele, conforme aludiu o salmista em sua linguagem poética:

“Ó Jeová, fizeste subir a minha alma do próprio Seol. Mantiveste-me vivo, para que eu não descesse ao poço”. – Salmos 30:3.

“No entanto, o próprio Deus remirá a minha alma da mão do Seol, pois ele me receberá”. – Salmos 49:15.

Que os mortos (não apenas “a alma do ser humano”) encontram-se no Seol (Hades) e Deus pode ‘remi-los’ de lá, não há questão. Mas, será que a palavra “alma” nestes textos tem um sentido diferente dos outros textos já citados? Ocorre mesmo algum “deslocamento” literal da “alma do ser humano” para o Seol após a morte? A leitura destes mesmos textos em outras versões é esclarecedora:

Salmos 30:3

Salmos 49:15

Javé, tiraste do túmulo a minha vida, fizeste-me reviver dentre os que baixam à cova. (EP)

Senhor, tiraste-me da sepultura; prestes a descer à cova, devolveste-me à vida (NVI)

Iahweh, tiraste minha vida do Xeol, tu me reavivaste dentre os que baixam à cova. (BJ)

Tu me salvaste da morte. Eu estava entre aqueles que iam para o mundo dos mortos, mas tu me fizeste viver novamente. (NTLH)

Senhor, fizeste-me subir novamente do Sheol, fizeste-me reviver quando eu caía no fosso. (TEB)

Mas Deus resgatará a minha vida das garras do Xeol, e me tomará. (BJ)

Mas Deus redimirá a minha vida da sepultura e me levará para si. (NVI)

Quanto a mim, Deus resgata a minha vida, tira-me das garras da morte, e me toma consigo. (EP)

Porém Deus me livrará do poder da morte, pois ele me receberá. (NTLH)

Mas Deus resgatará a minha vida do poder do Sheol; sim, Ele me tomará. (TEB)

 

O que indica a “linguagem poética” do salmista nessas versões? A menos que os tradutores estejam todos equivocados30, elas demonstram que:

1 – Não há “sentido restrito” da palavra “alma” nestes textos. O significado do termo neles é o mesmo que o de todas as demais referências: pessoa ou vida como pessoa;

2 – Com relação ao destino, não se faz distinção entre o “ser humano” (a pessoa) e a “alma do ser humano”. Nem se faz distinção entre vida e alma.

3 – Não ocorre “deslocamento” literal da alma “de um lugar para o outro”. Os tradutores utilizaram livremente os termos “vida” ou ‘pessoa’ (por meio do uso de pronomes pessoais), associando-os a estes mesmos verbos, tais como “subir”, “tirar”, “resgatar”, “redimir” e outros.

4 – As almas (pessoas) que se encontram no Seol estão mortas. Neste domínio, a alma está “nas garras da morte”, “no poder da morte”, no “mundo dos mortos”, etc. E quando a alma (pessoa) é “remida” deste domínio, aplicam-se a ela os termos “reviver”, “reavivar”, “viver novamente”, etc.

 

Portanto, a "alma" de Ezequiel 18:4 é também uma aplicação restrita do termo. De modo que, dizer que a ‘alma que pecar é a que morrerá’ significa apenas que a pessoa que pecar é a que morrerá, conforme indica a continuação do texto:

“E no que se refere ao homem.... Se tem andado nos meus estatutos e tem guardado as minhas decisões judiciais para praticar a verdade, ele é justo. Ele positivamente continuará a viver’, é a pronunciação do Soberano Senhor Jeová”. – Ezequiel 18:4-9.

A “alma” de Ezequiel 18:4 não se refere à alma que continua a existir depois da morte, e que pode ser trazida de volta se for da vontade de Deus.

Sim, em Ezequiel 18:4 o termo “alma” tem “apenas” o mesmo sentido que esse termo tem nos demais textos já considerados, e nada mais do que isso, nem diferente disso: pessoa. É por isso mesmo que o texto afirma que a alma morre. Como a “alma” equivale à pessoa, (e não a algo diferente dela “que continua a existir depois da morte”, segundo os teóricos da imortalidade da alma), não há lugar para a ideia de a pessoa morrer e a alma continuar viva.

Em apoio a isto, note as seguintes afirmações categóricas que são encontradas na Bíblia:

“Além disso, irmão entregará irmão à morte, e o pai ao seu filho, e os filhos se levantarão contra os pais e os farão matar. E vós sereis pessoas odiadas por todos, por causa do meu nome.... O que eu vos digo na escuridão, dizei na luz; e o que ouvis sussurrando, pregai dos altos das casas. E não fiqueis temerosos dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma”. – Mateus 10:27, 28.

“E eu vi tronos, e havia os que se assentavam neles, e foi-lhes dado poder para julgar. Sim, vi as almas dos executados com o machado, pelo testemunho que deram de Jesus e por terem falado a respeito de Deus”. – Apocalipse 20:4.

Infelizmente, omite-se do “leitor desavisado” que estas duas “afirmações categóricas que são encontradas na Bíblia” foram citadas parcialmente. Na tabela que segue, os textos são apresentados na íntegra, em outras versões (com os trechos que foram omitidos sendo destacados):

Mateus 10:27, 28

Apocalipse 20:4

O que vos falo na escuridão da noite, dizei-o em plena luz; e o que ouvis em segredo, proclamai-o sobre os terraços. Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma. Antes, temei aquele que pode fazer a alma e o corpo morrerem na geena. (BMD)

O que eu vos digo na escuridão, dizei-o à luz do dia; o que ouvis ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados. Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a alma; temei muito mais aquele que pode fazer perecer a alma e o corpo na geena. (TEB; destruir a alma e o corpo na geena, BJ)

 

Vi, também, tronos. Aos que neles se sentaram foi concedido que exercessem o julgamento. Vi ainda as almas dos que tinham sido decapitados por causa do testemunho de Jesus e da palavra de Deus, e os que não tinham adorado a besta nem sua imagem e não tinham recebido a marca na fronte nem sobre a mão. Eles tornaram à vida e reinaram com Cristo durante mil anos. (TEB; SBB)

Em seguida vi alguns tronos, e os que estavam sentados neles receberam o poder de julgar. Vi também as almas das pessoas que tinham sido degoladas porque haviam anunciado a mensagem de Deus e a verdade que Jesus revelou. Elas não tinham adorado o monstro nem a sua imagem, nem tinham recebido o seu sinal na testa ou na mão. Essas pessoas tornaram a viver e reinaram com Cristo durante os mil anos. (NTLH; “Eles ressuscitaram e reinaram com Cristo...”, NVI)

 

Que Jesus não afirmou que ‘a alma é imortal’ em Mateus 10:27, 28 é óbvio, só pela visualização das expressões grifadas. Mas, por que razão ele disse que o corpo pode ser morto e a alma não? Foi porque ele usou a palavra “alma” no mesmo sentido que esta palavra tem em qualquer texto: pessoa (ou vida). Repetem-se abaixo duas das citações acima, com a substituição da palavra “alma” pela palavra “pessoa”:

‘Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a pessoa. Antes, temei aquele que pode fazer a pessoa e o corpo morrerem na geena.’

‘Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a pessoa. Temei antes aquele que pode destruir a pessoa e o corpo na geena.’

Estaria errado fazer essas substituições? São elas impróprias? Por quê? Se os promotores do conceito da imortalidade da alma se acham no direito de aplicar, com toda a naturalidade, o que chamam de “sentido restrito” da palavra alma aos textos nos quais acham conveniente fazer isso, ou afirmam sem hesitação que alma significa “apenas” pessoa em qualquer texto que desejam, que base teriam para levantar objeções a estas mesmas coisas serem feitas no caso de Mateus 10:28? Quem é que tem competência para determinar em quais textos onde aparece a palavra “alma” a substituição acima é válida e em quais ela não pode ser feita? Quem tem autoridade para determinar que, em certos casos, alma significa “apenas” pessoa e em outros casos não significa “apenas” pessoa nem vida, e sim a parte da “pessoa tricotômica”, “que continua a existir depois da morte”? E o que exige mais “dogmatismo”: entender consistentemente a mesma palavra hebraica nephesh (alma) com o mesmo sentido em todas as referências bíblicas ou tentar restringir arbitrariamente o sentido dessa palavra toda vez que ela contraria alguma ideia predileta? (Para uma consideração adicional, veja Um Comentário Adicional Sobre as Palavras de Jesus em Mateus 10:28.)

A verdade é simplesmente esta: As palavras de Mateus 10:28, se forem lidas na íntegra, não admitem que a alma continua viva independentemente após a morte do homem. E existe base para afirmar que a palavra “alma” nesta “afirmação categórica que é encontrada na Bíblia” tem o mesmo sentido que tem em todo o resto da Bíblia.31

A desinformação imposta ao leitor no caso de Apocalipse 20:4 é ainda mais gritante. O que foi que o apóstolo João disse que viu nesse texto? Almas ‘vivas no Seol’, que ‘continuaram existindo depois da morte’, estando ‘separadas de seus corpos, porém ativas e conscientes’? De maneira alguma! Ele não viu ninguém no Seol (Hades). Ele viu almas ressuscitadas; pessoas que tinham estado anteriormente no Seol por causa do testemunho de Cristo, mas retornaram à vida. As almas (pessoas) que ele viu estavam ativas porque estavam vivas. E, o que é mais importante para a discussão aqui: Qualquer um que ler o texto na íntegra perceberá facilmente que, como no caso da referência anterior, nada nesta “afirmação categórica que é encontrada na Bíblia” contradiz o sentido de “alma” apresentado consistentemente em todos os textos.

Nem Mateus 10:27, 28, nem Apocalipse 20:4, nem qualquer outra “afirmação categórica que é encontrada na Bíblia” apóia a ideia de que a alma “continua a existir [ativa e consciente] depois da morte”.

Outro exemplo que a palavra “alma” pode ser usada com sentido restrito é o que aconteceu certa vez com Jesus num dia de sábado, quando ele encontrou um homem com a mão ressequida e se compadeceu dele (Mateus 6:6-11; Marcos 3:1-3). Os fariseus ficaram perto quando aquele homem estava prestes a ser curado, a fim de acharem um pretexto para entregar Jesus à morte, por ele estar curando num dia de sábado. Mas antes de fazer o milagre, sabiamente Jesus perguntou aos fariseus:

“É lícito, no sábado,…. salvar ou destruir uma alma?”

Por “salvar” ele se referiu a curar o doente, e por “destruir” à intenção assassina dos fariseus (ou “matar”, conforme a versão do evangelista Marcos).

Não, Jesus não quis dizer isso com a expressão “destruir uma alma”, e é duvidoso que aqueles homens já tinham uma “intenção assassina” contra ele naquele momento. Segue-se o trecho, na íntegra, na mesma versão citada (do evangelho de Lucas, não do de Mateus.):

Lucas 6:6-11:

No decorrer de outro sábado, entrou na sinagoga e começou a ensinar. E havia ali um homem cuja mão direita estava ressequida. Os escribas e fariseus observavam-no então de perto para ver se havia de curar no sábado, a fim de acharem um modo de acusá-lo. Ele sabia, porém, dos seus raciocínios; contudo, disse ao homem com a mão ressequida: “Levanta-te e fica em pé no centro.” E ele se levantou e ficou em pé. Jesus disse-lhes então: “Eu vos pergunto: É lícito, no sábado, fazer o bem ou causar dano, salvar ou destruir uma alma?” E, depois de olhar em volta para todos eles, disse ao homem: “Estende a tua mão.” E ele fez isso, e a sua mão foi restabelecida. Mas eles se encheram de insensatez e começaram a falar entre si sobre o que poderiam fazer a Jesus.

A visualização da frase grifada em seu devido contexto, mostra que:

- Jesus não perguntou coisa alguma sobre a ação de destruir deliberadamente uma vida. O que ele quis saber foi se aqueles homens achariam certo deixar alguém ficar sem ajuda, (podendo a pessoa necessitada vir até a morrer em resultado dessa omissão), pelo fato de a ajuda ter de ser prestada num dia de sábado. Aliás, no caso do homem em questão, o relato nem mesmo diz que a doença dele era mortal; não há evidência de que o homem morreria naquele mesmo sábado se Jesus não o tivesse curado. De modo que a ação de Jesus de curá-lo se enquadraria rigorosamente em “fazer o bem”, não em “salvar”. Jesus não estava falando apenas daquele homem doente, e muito menos de si próprio (como se por acaso o Filho perfeito de Deus fosse precisar da ajuda de algum homem!). Ele se referia a qualquer alma (pessoa) que precisasse de ajuda (salvadora ou não) num dia de sábado.

- os escribas e fariseus não estavam planejando “entregar Jesus à morte” no momento dessa discussão. Lucas esclarece que o objetivo deles era “achar um modo de acusá-lo”. A intenção primária deles era desmoralizá-lo; apanhá-lo em suas palavras ou ações, para fundamentarem acusações de violação da Lei contra ele, e assim fazê-lo cair no descrédito perante o povo. E os relatos paralelos dos outros evangelistas confirmam isso. O trecho de Mateus 12:9-14 informa que os fariseus lhe fizeram a pergunta capciosa na sinagoga “para que pudessem conseguir uma acusação contra ele” e foi só depois da reprimenda de Jesus que eles “saíram e realizaram uma consulta contra ele, para que o pudessem destruir”. O trecho de Marcos 3:1-6 também informa que a pergunta foi feita “a fim de que pudessem acusá-lo”. Depois da reprimenda de Jesus “os fariseus saíram então e começaram imediatamente a entrar em conselho contra ele com os partidários de Herodes, a fim de o destruírem.” A palavra “imediatamente”, usada aqui por Marcos, está associada ao verbo “começaram”. Eles só ‘começaram a entrar em conselho com o fim de destruir Jesus, logo depois desse incidente. Tal conspiração não havia 'começado' antes disso.

Deveria ser óbvio que os inimigos religiosos de Jesus não tiveram “intenção assassina” contra ele desde o princípio;  a oposição deles a Jesus passou por uma “evolução”, ficando cada vez mais acirrada com o passar do tempo, até o ponto em que a decisão de assassiná-lo tornou-se imperiosa entre eles:

“O sábado não proíbe fazer o bem. E Jesus faz o bem publicamente, provocando. Deus “descansou” depois de fazê-lo inteiramente bom, mas não cessou de fazer o bem. Fazer o bem não se opõe ao descanso; não é descanso deixar de fazer o bem. Seus rivais ficam sem resposta, mas decidem fazer o mal àquele que consideram já um perigo público. No relato de Mateus, é este o momento (cf. 27,1), em que se decide o desfecho.”.

(Nota da PER sobre o trecho de Mateus 12:9-15a. – O comentarista expressa aqui o entendimento de que essa ‘decisão de fazer o mal’ contra Jesus foi tomada depois que ele fez a cura e calou-lhes a boca. O "desfecho" – a morte de Jesus (conforme o registro de Mateus 27:1) – só foi 'decidido' depois desse incidente.).

“Jesus mostra que a lei do sábado deve ser interpretada como libertação e vida para o homem. Por isso, os que preferem ficar com o velho sistema se reúnem para planejar a morte de Jesus: ele está destruindo as ideias de religião e sociedade que eles tinham.”

(Nota da EP sobre Lucas 6:6-11. O versículo 11 deste capítulo, nesta mesma versão deixa claro que esta reunião ocorreu depois da cura e da resposta de Jesus: “Eles ficaram com muita raiva e começaram a conversar sobre o que poderiam fazer contra Jesus.”).

“É notável que Luc[as] não atribui intenções assassinas aos oponentes de Jesus nesta fase, nem a combinação com os políticos para efeito de propósitos truculentos. (Vide Mar. iii.6).”

(Nicoll, W. Robertson, The Expositor's Greek Testament [Testamento Grego do Expositor], Hodder and Stoughton, Londres, Nova Iorque e Toronto,  Volume 1, 1897, pág. 502) – Sobre Lucas 6:11

Pois bem, em que momento, então, a decisão de matar Jesus foi finalmente tomada? Depois da ressurreição de Lázaro (João 11:46-54. O versículo 53 deixa isso claro: "E daquele dia em diante, resolveram tirar-lhe a vida." [NVI]. Este evento, a ressurreição de Lázaro, ocorreu depois do episódio considerado aqui.)

Embora o exame rigoroso das palavras deste trecho de Lucas (bem como dos trechos correspondentes dos outros relatos evangélicos) não dê base para a conclusão de que essa “intenção assassina” existia naquele momento, alguns comentaristas afirmam que este já era o caso. Ainda que tivéssemos de esquecer a informação registrada em João 11:53, aceitando a ideia desses comentaristas, isto ainda não comprova que o próprio Jesus estava pensando nisso quando os repreendeu. Seguem-se alguns pronunciamentos de eruditos sobre o trecho em questão:

"Ele assim os aquieta [os fariseus] com esta alternativa surpreendente: ‘Não fazer o bem, quando está no poder de nossa mão fazê-lo, é fazer o mal; não salvar a vida, quando podemos, é matar’ – e será que a lei do descanso sabático deve ser mantida a esse custo? Essa estocada inesperada calou as bocas deles."

(Jamieson-Fausset-Brown, A Commentary Critical Practical and Explanatory on the Old and New Testaments – New Testament – Vol. I [Comentário Crítico, Prático e Explanatório Sobre o Antigo e Novo Testamentos – Novo Testamento – Volume 1], 1871, pág. 91) – Sobre Mateus 12:11, 12.

“... Fazer o bem ou fazer o mal, estas são as únicas alternativas: omitir-se de fazer o bem em seu poder é fazer o mal; não salvar a vida quando você pode é destruí-la.

(Nicoll, W. Robertson, The Expositor's Greek Testament [Testamento Grego do Expositor], Hodder and Stoughton, Londres, Nova Iorque e Toronto,  Volume 1, 1897, pág. 357) – Sobre Marcos 3:4.

“Pois uma boa ação não deve ser adiada... seja para um homem ou uma ovelha, ou melhor, para um homem muito mais do que para uma ovelha. Não devemos, no dia do sábado, realizar tarefas diárias por salário, embora possamos fazer as coisas que o tempo e o lugar nos inspirem para o bem do nosso próximo e de todas as outras criaturas vivas, e especialmente para a honra de Deus.”

(John Albert Bengel, Gnomon of the New Testament [Gnomon {Comentário Exegético} do Novo Testamento], T. & T. Clark, Edimburgo, 1873, Vol. I, pág. 266.) – Sobre Mateus 12:12.

Não salvar é destruir. A oposição entre as duas palavras é imediata e direta.”

(ibidem, pág. 507.) – Sobre Marcos 3:4.

“Ou fazer o mal? Salvar a vida ou matar? – Parece ter sido uma máxima entre os judeus que não fazer o bem quando temos uma oportunidade é fazer o mal; não salvar a vida é matar ou ser culpado de assassinato. Se um homem tem a oportunidade de salvar uma vida humana quando ela está em perigo e não o faz, ele é evidentemente culpado de sua morte. Com base neste princípio, nosso Salvador coloca esta questão aos judeus, se era melhor para ele, tendo o poder de curar este homem, fazê-lo, ou permitir que ele continuasse nesta condição de sofrimento.”

(Albert Barnes, Notes, Explanatory and Practical on the Gospels [Notas, Explanatórias e Práticas Sobre os Evangelhos], Nova Iorque, Harper & Brothers Publishers, 1850,  Volume I, pág. 358.) – Sobre Marcos 3:4.

Ele conhecia os pensamentos deles – suas tramóias negras, maliciosas – à base da questão que lhe propuseram, se era lícito curar nos sábados (Mateus). Replicando à questão deles, Jesus lhes perguntou se não salvariam uma ovelha no dia de sábado se ela caísse em um poço, e também perguntou a eles se era melhor fazer o bem do que fazer o mal nesse dia, o que significa que omitir-se de fazer o bem era, na verdade, fazer o mal.

(ibidem, Vol. 2, pág. 50) – Sobre Lucas 6:9

[Todos os grifos foram acrescentados nas citações acima. Muitos outros expositores se expressaram de maneira similar.]

Se os escribas e fariseus já tinham alguma 'intenção assassina' é uma coisa. Se quando Jesus falou em “destruir uma alma” era isso o que ele tinha em mente é outra questão. Que alguns eruditos acreditam que já havia “intenção assassina” por parte dos fariseus naquele momento é fato, mas nenhum erudito afirmou que 'por “destruir” Jesus se referiu à intenção assassina dos fariseus'. Pois todos os eruditos sabem que o que Jesus estava denunciando ali era o legalismo hipócrita e a insensibilidade daqueles homens em justificar a omissão de ajudar alguém em dificuldade em nome do 'respeito ao descanso sabático' (quando, no fundo, a preocupação deles nem era com 'violação da Lei' e sim com a crescente popularidade de Jesus entre o povo, que estava minando a autoridade religiosa deles.). É este o pensamento que os três evangelistas, bem como todos os eruditos atribuem a Jesus em conexão com a expressão “destruir uma alma”, nada de “intenção assassina” dos fariseus contra ele.

Este mesmo trecho do Evangelho de Lucas em outras versões bíblicas deixa todos os pontos salientados acima mais claros. Para efeito de simplificação, apresenta-se abaixo apenas o trecho de Lucas 6:9 nestas versões. Como qualquer leitor poderá constatar, a maioria dos tradutores verteu corretamente o termo grego psyche neste texto como “vida”:

Então disse-lhe Jesus: “Eu vos pergunto: o que é permitido fazer no sábado: o bem ou o mal, salvar a vida ou deixá-la perecer?” (Alf)

Então disse Jesus a eles: Que vos parece? É lícito no sábado fazer o bem ou o mal? salvar a vida ou deixá-la perecer? (ARA)

Então Jesus lhes disse: “Eu vos pergunto: É permitido no sábado praticar o bem ou fazer o mal, salvar uma vida ou perdê-la?” (BMD)

Pergunto-vos se no sábado é permitido fazer o bem ou o mal; salvar a vida, ou deixá-la perecer. (CBC)

Jesus disse-lhes: “Eu vos pergunto: em dia de sábado, o que é permitido, fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou deixar morrer?” (CNBB)

Jesus disse aos outros: “Eu pergunto a vocês: a lei permite no sábado fazer o bem ou fazer o mal, salvar uma vida ou deixar que se perca?” (EP)

E Jesus disse aos presentes: “Eu lhes pergunto: Nos dias de descanso, é permitido fazer o bem ou o mal: Salvar uma vida ou permitir que ela se perca?” (FAC)

Jesus lhes disse: “Vou fazer-vos uma pergunta: É permitido fazer o bem ou o mal no sábado, salvar uma vida ou deixar que se perca?” (VOZ)

Outros eruditos optaram por traduzir o termo psyche por alguma palavra equivalente a “pessoa”, o que também é perfeitamente apropriado:

Então Jesus lhes disse: “Deixe-me perguntar-lhes algo: Que tipo de ação se adéqua melhor ao sábado? Fazer o bem ou fazer o mal? Ajudar as pessoas ou deixá-las sem ajuda?” (MSG)

Então Jesus disse: - Eu pergunto a vocês: o que é que a nossa Lei diz sobre o sábado? O que é permitido fazer nesse dia: o bem ou o mal? Salvar alguém da morte ou deixar morrer? (NTLH)

Jesus lhes disse: ‘Eu lhes pergunto, é certo fazer coisas boas no dia de sábado, ou fazer coisas erradas? É certo curar as pessoas para que elas possam viver ou deixá-las morrer?’ (WE)

Portanto, além de a palavra “alma” neste trecho significar o que significa em todo o resto da Bíblia, a saber, “vida” ou "pessoa" (nada de "sentido restrito", nem de "aplicação especial"), fica claro também que Jesus não estava falando coisa alguma sobre ‘premeditação de assassinar alguém’.32 Conforme o exame dos pronunciamentos dos eruditos, bem como o das versões citadas acima mostra, a questão levantada por ele era sobre se o fato de ser dia de sábado constituiria razão válida para omitir-se de ajudar uma pessoa em dificuldade, possivelmente até salvando-lhe a vida (já que, diferente do caso desse homem com a mão ressecada, a dificuldade poderia ser do tipo que ocasiona a morte em curto prazo). E Jesus não estava fazendo referência a si mesmo.

Mas será que, com base nesse relato, pode-se afirmar que os homens podem tanto matar como destruir a alma de alguém? Claro que não, pois o próprio Jesus disse depois:

“Não fiqueis temerosos dos que matam o corpo, mas não podem matar a alma; antes, temei aquele que pode destruir na Geena tanto a alma como o corpo”. – Mateus 10:28.

Infelizmente, pelo fato de a pergunta de Cristo aos escribas e fariseus ter sido citada fora do contexto, insistindo-se em atribuir-lhe opiniões que ele não tinha em mente (algo sobre “intenção assassina” de outros, ou algum suposto “sentido restrito” da palavra alma), bem como pela falta de atenção a qual era a questão em discussão naquele episódio, mais uma vez criou-se artificialmente um “conflito bíblico” que não existe. O relato de Lucas 6:6-11 (e os correspondentes, Mateus 12:9-14 e Marcos 3:1-6) e a declaração de Mateus 10:28 não se contradizem de maneira alguma. Exatamente porque o sentido da palavra “alma”, em todos estes textos é o mesmo.

É claro que a alma de Jesus não seria destruída se os fariseus tivessem conseguido matá-lo naquele dia, pois ela ficaria bem guardada no Seol e seria trazida de volta na ressurreição, conforme predito nas Escrituras:

“Não deixarás a minha alma no Seol”. – Salmo 16:10.

Os fariseus não tinham intenção de matar Jesus naquele dia. E mesmo que tivessem feito isso, não destruiriam a alma dele, já que homem algum tem essa capacidade (eles apenas a matariam, como realmente fizeram depois). Em sua réplica a eles, Jesus não estava falando de si mesmo. E as versões abaixo desta mesma predição esclarecem o que é a alma que “ficaria bem guardada no Seol e seria trazida de volta na ressurreição”:

1 – A pessoa de Cristo:

Porque tu não me abandonarás no sepulcro, nem permitirás que o teu santo sofra decomposição. (NVI)

Porque tu, ó Deus, me proteges do poder da morte. Eu tenho te servido fielmente, e por isso não deixarás que eu desça ao mundo dos mortos. (NTLH)

Pois não me abandonas no Sheol, não deixas o teu fiel ver o fosso. (TEB)

2 - A vida de Cristo:

Pois não abandonarás minha vida no Xeol, nem deixarás que teu fiel veja a cova. (BJ)33

À alma (pessoa) de Cristo se aplicou, não só o que diz esse texto, como tudo o que as Escrituras Hebraicas dizem sobre os mortos no Seol. Como todas as almas (pessoas) que estão neste domínio, ele ficou inativo e inconsciente. Daí a razão dessa súplica prévia para que Deus não o deixasse lá (feita por alguém vivo). Mas a alma (pessoa) dele realmente não foi para a Geena (ou seja, não foi destruída). Deus se lembrou dele (assim como se lembra de todos os seus servos fiéis que estão no Seol) e o ressuscitou (como também fará no fim com muitos outros).

Somente Deus pode matar ou destruir a alma de alguém. Mas isto não impediu que Jesus dissesse que os fariseus queriam “matar” ou “destruir” a alma dele. Ele quis dizer com isso apenas que aqueles homens queriam matá-lo.

Da mesma maneira, quando Ezequiel diz que a alma que pecar morrerá, significa simplesmente que a pessoa (humana) que pecar é que morrerá. Mas a verdadeira alma vai para o Seol, como dizem diversos textos da Bíblia. – Veja também Atos 3:23, na TNM.

Qualquer homem pode tanto matar outros deliberadamente como abster-se de realizar alguma ação que poderia salvar a vida de outros. Em qualquer caso, tais pessoas (almas) mortas irão para o Seol (Hades) e lá permanecerão inconscientes e inativas. Mas isto é uma morte temporária, visto que, apenas Deus pode, não só matar, como também destruir pessoas (almas), enviando-as para a Geena. Foi isso o que Jesus explicou em Mateus 10:28, e os promotores do conceito da “sobrevivência da alma após a morte” entendem muito bem esta distinção. Embora não se cansem de tentar deturpar esta declaração de Jesus para fazê-la "apoiar" o conceito deles, tais tentativas sempre redundam em nada.34 Visto que o fato de se poder “matar ou destruir a alma de alguém” contradiz este conceito, como Jesus não disse que “os fariseus queriam ‘matar’ ou ‘destruir’ a alma dele”, como a expressão “verdadeira alma” não tem sentido (como se por acaso existisse alguma ‘falsa alma’!), e uma vez que a “alma” que peca e “vai para o Seol, como dizem diversos textos da Bíblia” é a pessoa – e esta morre efetivamente – não há qualquer margem para ‘sentidos restritos’ aqui. É isso o que diz “simplesmente” e “da mesma maneira” o texto de Ezequiel 18:4. O texto de Atos 3:23 (em qualquer versão bíblica) confirma isso. E todas as demais referências bíblicas também.

Outra aplicação especial que se faz da palavra “alma” pode ser vista em textos como o de Salmos 146:1, que diz: “Louvai a Jah! Louve a Jeová, ó minha alma”. A expressão “que minha alma louve” significa “que eu louve intensamente”, pois a alma, neste caso, representa o desejo mais profundo da pessoa35, conforme Jesus Cristo mencionou ao dizer como se deve amar a Deus: “Tens de amar a Jeová, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de toda a tua mente, e de toda a tua força”. – Marcos 12:30.

A palavra “alma” nestes textos também significa “pessoa”. Dizer “que minha alma louve” é o mesmo que dizer “que eu louve”. Louvar a Deus “de toda a alma” é louvá-lo “de todo o ser” (“pessoa”). Se a questão fosse o “desejo mais profundo da pessoa”, seria mais fácil relacionar isso com as palavras “coração” e “mente”, não com a palavra “alma”. E mesmo que se pudesse associar o “desejo mais profundo” com “alma”; incluir advérbios de intensidade no cenário não alteraria a situação em nada, porque tanto o sujeito – “alma” – como os verbos dos dois textos – “louvar” e “amar” – aplicam-se necessariamente a pessoas vivas, não a indivíduos falecidos. Só pessoas (almas) vivas louvam a Deus (“intensamente” ou não) e só pessoas (almas) vivas podem amá-lo (do ‘fundo do coração’ ou não). Pessoas (almas) mortas não fazem essas coisas. Qualquer que seja o advérbio acrescentado, este fato permanece inalterável.36

Não há “sentido restrito” da palavra “alma” em Ezequiel 18:4. Nem no trecho de Lucas 6:6-11 (ou nos trechos correspondentes de Mateus 12:9-14 e Marcos 3:1-6). Nem no Salmo 146:1 e em Marcos 12:30. Nestes versículos e em qualquer outra referência bíblica, o sentido da palavra "alma" é o mesmo.

 

Outra possibilidade de entendimento

É fato que mesmo os que agiram com retidão e foram justos, de acordo com o conselho escrito em Ezequiel 18:4-9, por fim morreram. Mas suas almas continuaram a existir no Seol e um dia receberiam sua plena recompensa (Salmos 16:10; Jó 14:15; 2 João 8). As almas dos injustos, porém, poderiam ter o seguinte destino aludido por Jesus: “Temei aquele que pode destruir na Geena tanto a alma como o corpo”. – Mateus 10:28b.

Sendo assim, a alma espiritual de cada pessoa realmente vive neste mundo, enquanto estiver dentro do corpo biológico. É uma “alma vivente” na Terra. Mas se o corpo físico morre, essa alma se ausenta do corpo e vai para o Seol, e do ponto de vista dos que ficam é uma “alma falecida”, ou seja, alguém que partiu.37 (Levítico 19:28; Gênesis 35:18). Mas a alma continua viva no Seol, e só Deus tem o poder de matá-la ou destruí-la. Portanto, a alma que pecar (enquanto viver na Terra) é a que morrerá (quando chegar o julgamento de Deus).

O próprio trecho de Ezequiel 18:4-9 havia garantido que “se [o homem] tem andado nos meus estatutos e tem guardado as minhas decisões judiciais para praticar a verdade, ele é justo. Ele positivamente continuará a viver.” A aplicação acima desmente isso, declarando que “mesmo os que agiram com retidão e foram justos, de acordo com o conselho escrito em Ezequiel 18:4-9, por fim morreram”. A frase positiva do texto foi contradita frontalmente! Como foi possível isso?

A esta altura já deve ser óbvio o motivo para todos os leitores deste artigo: Como em muitos casos vistos até aqui, o trecho de Ezequiel foi descontextualizado, para ser “acomodado” à teoria da imortalidade da alma. Uma frase aparentemente inocente como “mesmo os que agiram com retidão e foram justos, de acordo com o conselho escrito em Ezequiel 18:4-9, por fim morreram” é outra releitura que lança uma negra “cortina de fumaça” sobre a questão. Uma série de instruções específicas, que se referiam exclusivamente aos judeus foi convertida num “conselho” genérico, destinado a toda a humanidade! Como o texto foi citado de maneira isolada, o “leitor desavisado” é deixado completamente no escuro quanto ao fato de que o ‘pecado’ mencionado nos versículos 4 e 20 refere-se especificamente ao desacato às normas da Lei Mosaica citadas no trecho, e esse chamado “conselho escrito” nada mais é que uma lista de prescrições da Lei Mosaica, cujo desacatamento pelos que estavam sob ela ocasionaria o julgamento por parte dos juízes designados da nação e morte imediata para os infratores condenados (mais especificamente, para suas almas). O que o trecho está dizendo, simplesmente, é que a pena de morte seria aplicada à alma que pecasse (por desacatar as normas da lei), e não a outra alma inocente. Já quem cumprisse todos os regulamentos em questão ‘positivamente continuaria a viver’, pois não estaria sujeito a esse julgamento adverso.

Esse chamado “conselho escrito em Ezequiel 18:4-9”, não tem absolutamente nada que ver com a justiça e retidão que é obrigação dos humanos (judeus ou não), nem com o pecado herdado por todos os filhos de Adão, nem com a morte adâmica que “por fim” chega para toda a humanidade, e muito menos ainda com o julgamento final de Deus, que resultará em almas serem lançadas na Geena.

Infelizmente, esse alargamento arbitrário do trecho de Ezequiel (só para dar base à afirmação errônea de que a alma continua viva após a morte do corpo e só morrerá “quando chegar o julgamento de Deus”) permite que se incluam no cenário textos bíblicos que não têm relação alguma com o assunto (como o de Mateus 10:28), dando a impressão de que o “julgamento de Deus” (que pode resultar em morte eterna para alguns) tem como base os “estatutos” da Lei Mosaica mencionados em Ezequiel 18!38

Só existe uma maneira de um “leitor desavisado” ver algum cabimento na frase “a alma que pecar (enquanto viver na Terra) é a que morrerá (quando chegar o julgamento de Deus)”, e encarar isso como uma “possibilidade de entendimento” do que diz Ezequiel 18:4. Só se pode fazer estas coisas desrespeitando o contexto onde este versículo está inserido.

 

OS QUE DORMEM NA MORTE

“Além disso, irmãos, não queremos que sejais ignorantes no que se refere aos que estão dormindo [na morte], para que não estejais pesarosos como os demais que não têm esperança”. – 1 Tessalonicenses 4:13 e similares.

Alguns argumentam que a morte é um estado de completa inatividade porque a Bíblia, às vezes, a compara ao sono e que isto seria uma "prova" de que não existe uma alma que sobrevive à morte. Como entender isso?

Primeiramente, há pessoas que acham que essas passagens se referem ao sono da alma, e não do corpo. Por este entendimento, as almas continuam existindo depois da morte, porém ficam dormindo. Embora tal conceito seja melhor que o defendido pelos aniquilacionistas, ele não está completamente de acordo com o que a Bíblia menciona sobre a alma.

Leia atentamente o que Paulo falou a respeito da morte:

“Enquanto tivermos o nosso lar no corpo, estamos ausentes do Senhor…. Mas, temos boa coragem e bem nos agradamos antes de ficar ausentes do corpo e de fazer o nosso lar com o Senhor”. – 2 Coríntios 5: 6, 8; leia também Filipenses 1:21-26.

Disse Paulo nesse texto que a alma deixa o “lar no corpo” sem ir para outro “lar”? Demonstra a ‘leitura atenta’ do texto que a alma 'abandona' ou 'se ausenta' do corpo e pode continuar ativa independentemente? Não. Se Paulo tivesse dito isso, contradiria tudo o que ele escreveu sobre a ressurreição dos mortos – que é o tema abordado aqui. Logo no início deste capítulo 5 de 2 Coríntios, ele diz:

Porque sabemos que, se a nossa casa terrestre deste tabernáculo se desfizer, temos de Deus um edifício, uma casa não feita por mãos, eterna, nos céus. (ARA)

De fato, nós sabemos que, quando for destruída esta barraca em que vivemos, que é o nosso corpo aqui na terra, Deus nos dará, para morarmos nela, uma casa no céu. Essa casa não foi feita por mãos humanas; foi Deus quem a fez, e ela durará para sempre. (NTLH)

O assunto que estava sendo tratado por Paulo neste capítulo de 2 Coríntios, bem como ao longo desta segunda carta inteira, e na outra carta aos cristãos em Corinto – e em todas as cartas inspiradas que ele enviou a outros grupos de cristãos do primeiro século – era o recorrente tema da esperança da ressurreição dos mortos. Em todas estas considerações, Paulo não disse uma vez sequer que a alma passa a subsistir independentemente após a morte. Não, a “casa terrestre” é substituída pela “casa eterna” (celestial) – e isso só ocorre na ressurreição. Outros textos como o que segue podem ser citados como exemplos de como o corpo entra inescapavelmente na questão:

Assim será com a ressurreição dos mortos. O corpo que é semeado é perecível e ressuscita imperecível; é semeado em desonra e ressuscita em glória; é semeado em fraqueza e ressuscita em poder; é semeado um corpo natural e ressuscita um corpo espiritual. Se há corpo natural, há também corpo espiritual. (1 Coríntios 15:42-44, NVI)

 

Possuir um corpo físico significa estar vivo na Terra, qual ser humano. Na morte esse “lar” terreno é abandonado, e o que fica aqui é um corpo morto:

“O pó volte à terra, de onde veio, e o espírito volte a Deus, que o deu”. – Eclesiastes 12:7, NVI.

“O corpo sem espírito está morto”. – Tiago 2:26.

Para alguém “estar vivo” – e não só “na Terra” – é necessário um corpo. E, novamente, nenhum dos dois textos diz ou sugere que após esse 'abandono' a alma permanece ativa independentemente.  Aliás, ambos os textos nem falam da alma e sim do espírito. A partir do momento em que o corpo está morto, tendo o espírito 'voltado a Deus que o deu' (Eclesiastes 12:7), o homem já não é mais uma “alma vivente”. (Gênesis 2:7). Para que ele venha a ser novamente uma “alma vivente”, o caminho é inverso: é preciso que haja um novo corpo e Deus proveja o espírito a este corpo. Assim como ocorreu no caso de Adão e ocorre no caso de todas as criaturas – físicas ou espirituais.

Aos olhos dos que ficam o corpo parece estar apenas dormindo. É sob essa perspectiva que Paulo certamente escreveu aos Tessalonicenses, pois foi ele mesmo quem disse que é necessário ficar “ausente do corpo [físico]”, isto é, morrer, para o cristão ir para o seu novo “lar com o Senhor”. A expressão "ausente no corpo" tem uma implicação lógica, que é o fato de que antes desse abandono algo estava "presente no corpo". É justamente aquilo que a Bíblia ora chama de "alma", ora chama de "espírito". Essa parte imaterial do homem é que permanece viva depois da morte do corpo físico. (E dificilmente a descrição de Paulo significa que quem fosse para esse novo lar ficaria dormindo na presença de Cristo).

 

FALSO. Não pode ter sido “sob essa perspectiva que Paulo certamente escreveu aos Tessalonicenses”. Pelas seguintes razões:

a) Ele estava falando dos que estão dormindo [na morte], não “dos que ficam”.

b) Ele não limitou o verbo ‘dormir’ a corpos. Ele estava falando de pessoas (almas) mortas, não simplesmente de ‘corpos mortos’. Esta ideia de o “sono” se aplicar a corpos não pode ser encontrada em parte alguma no trecho em questão, nem em outros escritos de Paulo, nem em lugar algum das Escrituras;

c) Ele falou sobre a “esperança” da futura ressurreição dos mortos, não sobre alguma presente ‘consciência da alma’ dos mortos.

d) Jamais haveria como ele dar a sugestão de que “quem fosse para esse novo lar ficaria dormindo na presença de Cristo”, pois Paulo sabia perfeitamente que a ressurreição altera a condição das pessoas (almas) do estado de inconsciência para o de consciência;

e) Ele não disse que “aquilo” que estava “presente no corpo” antes desse abandono permanece ativo independentemente (fora de algum corpo) depois do abandono. Pois ele sabia que para o cristão “ir para o novo lar” para estar “na presença de Cristo”, precisará necessariamente de um novo corpo;

f) Ele não confundiu os conceitos de “alma” e “espírito”, enquadrando-os a esmo numa definição de “parte imaterial do homem que permanece viva depois da morte do corpo físico”. Pois, conhecedor das Escrituras Hebraicas que era, ele sabia que depois que ‘o pó volta à terra’ e o ‘espírito retorna a Deus’, não há mais “alma vivente” alguma. (Gên. 2:7, Ecle. 12:7)

 

Uma evidência adicional a esse respeito é aquilo que Jesus prometeu na cruz para o malfeitor arrependido:

“Então ele [o malfeitor] disse: ‘Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino.’ Jesus lhe respondeu: ‘Eu lhe garanto: Hoje você estará comigo no paraíso”. – Lucas 23: 42, 43, NVI, colchetes acrescentados.

(A TNM subverte Lucas 23:43 e coloca os dois pontos depois da palavra “hoje”: “Deveras, eu te digo hoje: Estarás comigo no Paraíso”).

Lucas 23:43 não dá “evidência adicional” de continuidade da vida da alma após a morte. O grego bíblico não tinha pontuação, de modo que onde fica a vírgula ou os dois pontos é questão de preferência do tradutor do texto para uma língua moderna. Sendo assim, não há que se falar em “subversão” (perversão) do sentido em alguma tradução unicamente com base em vírgula, dois pontos ou o que quer que seja desse gênero. Se o entendimento dum texto bíblico está sendo pervertido (ou não) é mais bem demonstrado pelo contexto e pelo que diz o restante da Bíblia. Não é o local onde o tradutor posiciona um sinal de pontuação na língua moderna que determina o entendimento dum texto original em grego. Se o entendimento que se pretende defender – com ou sem pontuação – contradisser as demais referências bíblicas, ele está sendo necessariamente pervertido.39

Ademais, a informação que a Bíblia fornece sobre a localização desse “paraíso” e sobre certas particularidades dele anula – e de maneira inapelável – qualquer sugestão de que Jesus e o ladrão teriam ido para esse lugar no dia em que Jesus fez a promessa.

Todos os que já leram o Gênesis estão a par do fato de que a primeira morada do homem foi um “jardim” ou “paraíso” (grego: παράδεισος / paradeisos). Este se localizava ao leste da terra de Israel:

“Ora, o Senhor Deus tinha plantado um jardim no Éden, para os lados do leste40; e ali colocou o homem que formara. O Senhor Deus fez nascer então do solo todo tipo de árvores agradáveis aos olhos e boas para alimento. E no meio do jardim estavam a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal.” (Gên. 2:8, 9, NVI)

Sabe-se também que, devido à desobediência humana, este paraíso foi perdido:

“Então disse o Senhor Deus: "Agora o homem se tornou como um de nós, conhecendo o bem e o mal. Não se deve, pois, permitir que ele também tome do fruto da árvore da vida e o coma, e viva para sempre" Por isso o Senhor Deus o mandou embora do jardim do Éden para cultivar o solo do qual fora tirado. Depois de expulsar o homem, colocou a leste do jardim do Éden querubins e uma espada flamejante que se movia, guardando o caminho para a árvore da vida.” (Gên. 3:22-24, NVI)

Toda a mensagem da Bíblia é no sentido de que, apesar desse triste resultado da desobediência humana, o propósito de Deus não foi frustrado irremediavelmente. O último livro da Bíblia, o Apocalipse, contém a emocionante promessa duma restauração das condições paradisíacas que existiam no começo da história humana:  

“Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer da árvore da vida, que está no meio do paraíso de Deus.” (Apocalipse 2:7, ACF)

Mas, onde fica isso? O Apocalipse complementa:

“Ele me levou no Espírito a um grande e alto monte e mostrou-me a Cidade Santa, Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus... Então o anjo me mostrou o rio da água da vida que, claro como cristal, fluía do trono de Deus e do Cordeiro, no meio da rua principal da cidade. De cada lado do rio estava a árvore da vida, que dá doze colheitas, dando fruto todos os meses. As folhas da árvore servem para a cura das nações. Já não haverá maldição nenhuma. O trono de Deus e do Cordeiro estará na cidade, e os seus servos o servirão. ” (Apocalipse 21:10, 22:1-3, NVI).

Além de fortalecedora da fé cristã, a informação acima aplica um golpe esmagador na teoria de que esse “paraíso” se localiza (ou teria se localizado em algum momento) em certa “região do Hades”.  Nada mais falso. Isto não passa de mais uma vã tentativa de salvar o mito da “imortalidade da alma” por meio da deturpação das palavras de Jesus. Simplesmente não é possível encontrar uma só referência a isso nas Escrituras! O “paraíso”, onde se encontra esse “rio da água da vida”, essa “árvore da vida”, e esse “trono de Deus e do Cordeiro” localiza-se na “Nova Jerusalém”, e o texto deixa claro que a procedência desta cidade é celestial. Mais uma vez, nada – absolutamente nada – se fala sobre “paraíso” em alguma ‘região subterrânea’.41

Naquela sexta-feira em que Cristo morreu, ele foi para o Hades. Quer o ladrão tenha morrido naquele mesmo dia, quer não, ele também foi para o Hades. Cristo só saiu dessa condição dois dias depois, no domingo, quando Deus o ressurgiu com um corpo espiritual. E ele só compareceu perante o Pai quarenta dias depois da ressurreição, quando retornou ao céu. A ressurreição do homem que lhe fez esse pedido – que envolverá necessariamente o provimento dum novo corpo – ainda é futura no momento em que se escreve isso. Enquanto isso não acontecer, aquele homem permanecerá no Hades. Simplesmente não há lugar para a ideia de que os dois estiveram no “Paraíso” naquele mesmo dia. (Para os leitores que desejarem mais informações sobre Lucas 23:43, sugerimos este artigo.).

A promessa que Jesus fez ao ladrão na cruz não dá qualquer evidência de que a alma permanece viva após a morte do homem.

 

“E abriram-se os túmulos memoriais e muitos corpos dos santos que tinham adormecido foram levantados”. – Mateus 27:54.

O que adormeceu foram os corpos dos santos, e não as almas deles ou seus espíritos.

Errado. Não é “o que adormeceu” (“corpos”) e sim “quem adormeceu” (os “santos”). A frase do texto, segundo esta versão, é:

“E abriram-se os túmulos memoriais e muitos corpos dos santos que tinham adormecido foram levantados”

Quem adormeceu (morreu) foram os santos – as pessoas (almas) deles – não os corpos. A expressão “que tinham adormecido” refere-se à palavra “santos”, não à palavra “corpos”. Esses corpos não ‘se levantaram’ independentemente, e sim porque os santos voltaram a ser almas (pessoas) viventes. Outra coisa: Esta ocorrência só se deu após a ressurreição de Cristo, não no mesmo dia da morte dele. Nenhuma daquelas pessoas (almas) foi para algum “paraíso” no mesmo dia da morte de Cristo. (Um comentário mais detalhado sobre Mateus 27:53, 54 pode ser visto aqui.).

Quando alguém morre apenas seu corpo fica como que "dormindo", mas sua alma e seu espírito vão para outro lugar, conforme demonstrado nos episódios a seguir:

Nem o sono literal (dos vivos), nem o sono em sentido simbólico (dos mortos) é simplesmente o ‘sono do corpo’ e sim o da pessoa. Em ambos os casos é a pessoa quem está inconsciente, não o corpo.42

Numa tentativa desesperada de se esquivar das consequências da comparação bíblica da morte com o sono, a saber, que isso implica necessariamente inconsciência e inatividade e se aplica a uma pessoa (e não apenas a um “corpo biológico”), há quem afirme que o sono não equivale a inatividade completa, já que uma pessoa que está dormindo pode sonhar. Isto é, naturalmente, uma verdade óbvia. Porém, em vez de neutralizar a evidência da metáfora bíblica do sono, este fato só faz fortalecê-la.

Para começar, os sonhos – sejam eles naturais ou de origem divina (como os mencionados na Bíblia) – são algo involuntário, eles não envolvem qualquer tipo de deliberação pessoal. Sendo assim, não há que se falar deles como “atividade”. Nem como “consciência”, já que eles nem se dão no nível da consciência, e sim no subconsciente. Em outras palavras, logo de início, os defensores da “imortalidade da alma” que apelam para isso despercebem que há um problema de categorização nesse “argumento” deles.

É verdade que, segundo os estudiosos dos sonhos, tais ocorrências involuntárias e no nível subconsciente refletem fatos relacionados ao cotidiano do indivíduo (ou são revelações, no caso dos de origem divina). E é precisamente isso que põe por terra o argumento dos imortalistas: Estes fatos relacionados ao cotidiano do indivíduo (bem como as revelações divinas) que se manifestam no nível subconsciente aplicam-se necessariamente a pessoas, não a corpos!

Colocado de maneira mais simples: Quem sonha é uma pessoa, não um “corpo biológico”. Insistir no argumento de que o sono da morte se aplica ao “corpo biológico” e que uma pessoa que dorme ainda está “em atividade” pelo fato de poder sonhar são argumentos que se anulam! Os defensores da “sobrevivência da alma após a morte” precisariam – antes de qualquer outra coisa – comprovar que um sonho é algo exclusivamente associado ao “corpo biológico”. São eles capazes de fazer isso? São os sonhos (algo que ocorre com toda pessoa viva) um fenômeno puramente orgânico, então? Será que os sonhos de origem divina, mencionados na Bíblia, tinham alguma relação com o “corpo biológico” ou eram revelações de Deus a indivíduos? E nestes casos de revelações, quem é que estava ‘em atividade’? Quem estava ‘falando’: A pessoa que dormia, ou era Deus?

Outras questões: Podem os defensores da “sobrevivência da alma” comprovar que pessoas mortas tenham ‘experiências do seu cotidiano’ que se reflitam em sonhos? Podem eles apresentar comprovação de que Deus tenha feito revelação a uma pessoa morta por meio de sonhos? Podem eles provar que pessoas mortas tenham algum tipo de ‘subconsciente’ que lhes permita sonhar? E se é a ‘alma’ que ‘sonha’, o que acontece com o argumento de que ‘é o corpo que está dormindo e não a alma’? Se a alma não está dormindo, e o sonho deve ser classificado como “atividade”, estaria a alma ‘sonhando acordada’? Seria essa a “atividade” da alma, então?

Jó 7:21 diz:

Por que não perdoas as minhas ofensas e não apagas os meus pecados? Pois logo me deitarei no pó; tu me procurarás, mas eu já não existirei". (NVI; "não existirei mais", ACR)

Naturalmente, como afirmam que a alma “continua existindo depois da morte [ativa e consciente]”, os defensores do conceito da “imortalidade da alma” se recusam terminantemente a aceitar que este texto se refere à alma. Por mais que o versículo use o pronome pessoal ("eu", referindo-se claramente à pessoa ou alma), eles insistirão que as menções do versículo a ‘se deitar no pó’ e 'não existir mais' se referem ao “corpo biológico”. Ainda que isso fosse verdade, estaria anulada qualquer argumentação baseada na ideia de um corpo que 'parece estar apenas dormindo aos olhos dos que ficam'. O mesmo texto que fala em ‘se deitar no pó’ fala também em ‘não existir mais’. Após a morte, o corpo se decompõe, de modo que, mesmo do “ponto de vista dos vivos na Terra” não há mais um corpo que fica “como que dormindo” diante deles; o corpo deixa de existir. Aqueles cristãos que haviam morrido, referidos por Paulo em 1 Tessalonicenses 4:13, haviam sido enterrados; eles não estavam ali “como que dormindo”, sendo observados continuamente pelos cristãos vivos que receberam esta carta apostólica. Muito menos os servos fiéis de Deus que haviam morrido séculos antes daquela época.

Assim, embora seja verdade que um indivíduo vivo que está dormindo continua a existir, isto não se aplica a quem morreu. Esta pessoa deixou de existir. Isso não é afirmação dos “aniquilacionistas”! E a comparação bíblica da morte com o sono não tem o ‘intuito de demonstrar que quem morre não existe mais’. Colocar o assunto desta forma – misturando discussões – e ainda atribuir falsamente esse raciocínio aos “aniquilacionistas” nada mais é que é uma grosseira tentativa de obscurecer o assunto. A comparação da morte com o sono conduz diretamente à conclusão de que os mortos estão inconscientes e inativos. E o sono duma pessoa viva é muito menos profundo do que o sono duma pessoa morta, já que ninguém, exceto Deus, pode despertar esta última. Nenhum defensor da “imortalidade da alma” conseguiu até hoje mover o peso desta evidência. Não adianta apelarem para “sonhos”. Isso só piora as coisas para eles, pois, além de não terem como provar que ‘Deus fala’ alguma coisa a pessoas mortas por meio de sonhos, ou mesmo que pessoas mortas podem sonhar, seu “argumento” ainda se torna autocontraditório, levantando outra barragem de questionamentos que eles não são capazes de responder.

“E [Elias] passou a estender-se três vezes sobre o menino e a clamar a Jeová, e a dizer: ‘Ó Jeová, meu Deus, por favor, faze a alma deste menino voltar para dentro dele.’ Jeová escutou finalmente a voz de Elias, de modo que a alma do menino voltou para dentro dele e este reviveu”. – 1 Reis 17:21, 22.

Como já considerado, não ocorre algum ‘deslocamento’ literal da alma e do espírito “para outro lugar”. Como já visto, o significado de “alma” aqui é vida.43 Logo, essa 'volta' ou 'retorno' da vida também não é um “deslocamento” literal, porque não há sentido em dizer que a vida é algo que ‘vai de um lugar para outro’ literalmente. Mesmo o “espírito” que voltou ao corpo do menino não foi de maneira independente e sim por ação divina, já que isso foi uma ressurreição.  A partir do momento em que Deus fez retornar o espírito àquele corpo sem vida, o menino tornou-se (ou veio a ser) de novo uma “alma vivente” (“pessoa vivente”).

“Enquanto ainda falava, chegou certo representante do presidente da sinagoga, dizendo: 'A tua filha morreu; não incomodes mais o instrutor.' Ouvindo isso, Jesus respondeu-lhe: 'Não temas, apenas exerce fé, e ela será salva.' Chegando à casa, não deixou ninguém entrar com ele, exceto Pedro, e João, e Tiago, e o pai e a mãe da menina. E todos choravam e se batiam de pesar por ela. De modo que ele disse: 'Parai de chorar, pois ela não está morta, mas dorme.' Começaram então a rir-se dele desdenhosamente, porque sabiam que ela havia morrido. Mas ele a tomou pela mão e chamou, dizendo: 'Menina, levanta-te!' E voltou-lhe o espírito e ela se levantou instantaneamente, e ele ordenou que se lhe desse algo para comer”. – Lucas 8:49-55; compare com Salmos 78:39.

O espírito (que havia 'retornado a Deus que o deu', conforme Eclesiastes 12:7) voltou à menina –  da parte do mesmo Deus que o havia dado originalmente – e essa menina tornou-se (ou “veio a ser”) de novo uma “alma vivente” (Gênesis 2:7).

O relato de Lucas 8:49-55 está em harmonia com o que Jesus falou em outro momento:

“Mas, que os mortos são levantados, até mesmo Moisés expôs, no relato sobre o espinheiro, quando ele chama Jeová ‘o Deus de Abraão, e o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó’. Ele é Deus, não de mortos, mas de viventes, pois, para ele, todos estes vivem”. (apesar de estarem mortos para os homens). – Lucas 20:37, 38.

Repetindo a última frase do texto:

Ele é Deus, não de mortos, mas de viventes, pois, para ele, todos estes vivem.”

Para que o texto seja corretamente aplicado, deve-se considerar o que Jesus disse e o que ele não disse. O texto não diz 'pois todos estes vivem' e sim 'pois para ele todos estes vivem'. A expressão “para ele [Deus]” não pode ser simplesmente ignorada e esquecida. E o texto não inclui a frase “apesar de estarem mortos para os homens”. Isso é outro acréscimo espúrio, com o objetivo de mudar o sentido. As pessoas desses três patriarcas – suas almas – estão mortas (e não só 'do ponto de vista dos homens'),e o assunto que estava sendo discutido era a ressurreição das pessoas (almas)deles. O texto não diz uma palavra sobre algum 'ponto de vista dos vivos na Terra' e sim – unicamente – sobre o ponto de vista de Deus.

E mesmo que esse texto (ou algum outro) fizesse referência ao “ponto de vista dos que ficam vivos na Terra”, isso ainda não provaria a sobrevivência da alma após a morte de maneira independente. Mesmo entre os humanos vivos, esse tipo de colocação é usada sem problemas, e nenhuma pessoa normal tiraria uma conclusão diferente da pretendida. Quando uma pessoa falece, outra pessoa que a queria muito bem pode dizer: 'Para mim ela está viva' ou 'continua viva'. Todos entendem que isso é do ponto de vista dela, e não que aquela pessoa está viva efetivamente. Inversamente, uma pessoa pode causar um grande mal a outra, ao ponto de a pessoa magoada dizer: 'Para mim esse indivíduo morreu' ou 'está morto'. E, mais uma vez, todos entendem que isso é uma questão de ponto de vista de quem falou isso. Não é que aquela pessoa causadora do mal tenha morrido efetivamente.

O que os humanos podem fazer é se recordar parcialmente das pessoas que conheceram na vida, e a quem queriam bem, e nada mais do que isso. Deus, por outro lado, não só tem a capacidade de se recordar com perfeição dos seus servos fiéis (a quem Ele muito estima) como pode também restaurar-lhes a vida. Jesus não disse que Abraão, Isaque e Jacó estão efetivamente vivos, e sim que do ponto de vista de Deus, eles estão. Ressurreição aplica-se a pessoas (almas) mortas, não a pessoas (almas) que já estão vivas. Deus ressuscitará essas pessoas porque as conheceu perfeitamente e tem o poder de fazer isso. (Para um estudo sobre Hebreus 11:13-16, que trata destes três patriarcas, sugerimos o artigo Estão Abraão, Isaque e Jacó no Céu?). Se qualquer pessoa normal pode entender este raciocínio no caso de meros humanos, por que deveria ser tão difícil entender isso no caso do Deus que 'chama as coisas que não são, como se fossem'? Por que insistir numa conclusão que vai além da permitida pelas palavras do texto, chegando ao ponto de manipular as palavras dele nesse intento?44

Outra coisa: O motivo da discussão de Jesus com esses homens (que eram da seita judaica dos saduceus) não tinha nada que ver com "imortalidade da alma". Conforme o contexto mostra, os saduceus diziam “não haver ressurreição”. (Mat. 22:23) Era este o motivo da discórdia deles com Jesus. O que Jesus falou foi para repreender a falta de entendimento deles das Escrituras e do poder de Deus de ressuscitar seus servos. A resposta de Jesus foi para defender o ensino da ressurreição dos mortos; nada se falou sobre “imortalidade da alma”, a palavra "alma" não foi sequer mencionada, nem a mínima sugestão foi dada no sentido de que os patriarcas estavam vivos.

Portanto, o “adormecer” mencionado algumas vezes no Novo Testamento se refere apenas ao corpo físico e não à alma ou ao espírito.

 

FALSO. O verbo “adormecer” (com o sentido de morrer) refere-se à alma (pessoa). É a alma (pessoa) que fica inconsciente e inativa. É a alma (pessoa) que “desperta” (ao ser ressuscitada). O espírito nem entra nessa discussão, porque jamais se faz alguma referência a ele “adormecer”. Tudo o que se diz é que ele simplesmente “retorna a Deus” quando da morte da pessoa (alma). (Ecle. 12:7) No momento da ressurreição Deus o provê novamente a quem está sendo ressuscitado, e este indivíduo vem a ser outra vez uma "alma vivente" (Gên. 2:7)

 

É dessa mesma maneira que se pode entender aquilo que Jesus disse sobre a ressurreição de Lázaro (que não era o mesmo Lázaro da Parábola): “Nosso amigo foi descansar, mas eu viajo para lá para o despertar do sono”. – João 11:11.

As próprias palavras do texto impossibilitam esse entendimento. Jesus não disse: ‘O corpo do nosso amigo Lázaro foi descansar, mas eu viajo para lá para despertar o corpo dele do sono.’

Não, o que ele disse efetivamente foi:

"Nosso amigo Lázaro adormeceu, mas vou até lá para acordá-lo". Seus discípulos responderam: "Senhor, se ele dorme, vai melhorar". Jesus tinha falado de sua morte, mas os seus discípulos pensaram que ele estava falando simplesmente do sono. Então lhes disse claramente: "Lázaro morreu,...” (João 11:11-14, NVI)

Jesus iria despertar o amigo dele, Lázaro (a pessoa [alma]) do sono, não simplesmente o "corpo" do amigo dele.

Vale mencionar, por fim, que estas comparações que a Bíblia faz da morte com um "sono" ou "descanso" não são casos isolados em um ou outro versículo. Pelo contrário, isso é recorrente ao longo da Bíblia. As palavras de Jesus e dos apóstolos sobre isso estão em absoluta harmonia com o que os profetas e outros escritores bíblicos da antiguidade sempre disseram, no que se refere a apresentar a morte dessa mesma maneira. Entre as referências no Antigo Testamento estão as seguintes:

Salomão reinou quarenta anos em Jerusalém sobre todo o Israel. Então descansou com os seus antepassados e foi sepultado na cidade de Davi, seu pai. (1 Reis 11:42, 43, NVI; "dormiu com seus pais", ALA. Há dezenas de outros versículos que apresentam esta mesma fraseologia, com referência aos reis judaicos.)

“Mas o homem morre, e morto permanece; dá o último suspiro, e deixa de existir. Assim como a água desaparece do mar e o leito do rio perde as águas e seca, assim o homem se deita e não se levanta; até quando os céus já não existirem, os homens não acordarão e não serão despertados do seu sono.” (Jó 14:10-12, NVI)

“Olha para mim e responde, Senhor meu Deus. Ilumina os meus olhos, do contrário dormirei o sono da morte.” (Salmos 13:3, NVI)

 

O estado de “sono” ou "descanso" no qual os mortos se encontram, mencionado dezenas de vezes ao longo da Bíblia (e não só "algumas vezes no Novo Testamento") refere-se ao sono ou descanso da pessoa (alma), evidenciando que é esta que se encontra no estado de inconsciência e inatividade no Seol. A ideia de que isso se refere a 'sono do corpo', apresentada para tentar enfraquecer a evidência, é um absurdo – e não só do ponto de vista bíblico. (Para uma consideração mais detalhada sobre as referências bíblicas ao "sono", sugerimos o artigo O Sono dos Mortos ['Você Disse "Sono"?'])

 

RESUMO E CONCLUSÃO

 

“Seja um bom obreiro, um obreiro que não precisa ficar envergonhado quando Deus examina o seu trabalho e que ensina corretamente a palavra da verdade.”2 Timóteo 2:15, NBV, grifo acrescentado.

 

Conforme foi dito na Introdução, os cristãos que rejeitam os conceitos da “imortalidade da alma” e do “tormento consciente” após a morte citam textos bíblicos em apoio disso. Visto que eles pouco fazem além disso, e não costumam se preocupar com "aplicações" para estes textos, são acusados de 'dogmatizá-los' e “ignorar o que o restante da Bíblia realmente diz sobre o assunto”. Já que, como qualquer um pode constatar, as “aplicações" são elaboradas, na verdade, pelos defensores destas duas ideias, e não por seus oponentes, foi proposta a seguinte questão:

O que revela o exame das aplicações que os proponentes da “imortalidade da alma” e do “tormento consciente” dão aos textos em questão?

Foram analisados atentamente muitos exemplos dessas “aplicações”. Esta análise só serviu para demonstrar que os métodos usados para embasá-las são da mesma categoria das manobras comumente usadas para enfraquecer qualquer evidência textual da Bíblia. Estas manobras envolvem o seguinte:

1. Acréscimos tendenciosos ou cortes no enunciado dos versículos, para esconder deliberadamente informação dos leitores ou induzi-los a algum entendimento preconcebido;

2. Atribuição de conceitos aos versículos que não se encontram neles, nem mesmo de maneira implícita – e nem em todo o resto do cânon bíblico;

3. Descontextualização: Desconsideração do que dizem outros versículos (inclusive os circundantes) que têm relação direta com o assunto e/ou inserção de palavras ou ideias de versículos que não têm relação alguma com o assunto;

4. Uso limitado e seletivo das versões bíblicas; apresentação muito deficiente do conjunto da evidência provida pela comparação de versões;

5. Redefinição de conceitos (bíblicos ou não); recusa terminante de aceitar seu sentido, junto com promoção de ideias que contrariam toda a lógica normal;

6. Uso de falácias: a técnica do “espantalho”, falsos dilemas e argumentação ad hominem.

Portanto, os problemas com essas "aplicações", tais como as analisadas aqui, vão muito mais longe do que apenas 'dogmatizar' e ‘ignorar o que o restante da Bíblia realmente diz sobre o assunto’. A verdade é simplesmente esta: nenhum versículo bíblico citado é aceito imparcialmente pelos promotores dessas teorias, sem haver alguma tentativa de alterar o enunciado dele.

Por que a ênfase do parágrafo anterior é importante? Porque esta é a primeira condição a ser satisfeita em qualquer escrito religioso que pretenda se apresentar como uma "boa aplicação" das Escrituras. Caso isso não seja feito e, em vez disso, um escrito teológico seguir um ou mais dos métodos alistados no quadro acima, ele jamais poderá ser classificado como uma expressão do que "a Bíblia realmente diz sobre o assunto" ou como 'ensino correto da palavra da verdade'.

Espera-se que a consideração deste artigo proveja aos nossos leitores alguns subsídios, tanto para firmar as evidências claras das Escrituras sobre o assunto, como também para lidar com a argumentação dos que tentam ― a todo custo ― neutralizar estas evidências com o fim de favorecer as ideias da “imortalidade da alma” e do “tormento consciente” ― ambas doutrinas sem qualquer respaldo bíblico, que depreciam o valor do sacrificio de Cristo e desonram a Deus.

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APÊNDICE A

 Um Comentário Adicional Sobre as Palavras de Jesus em Mateus 10:28

 

“Vocês podem escutar o quanto quiserem, mas não vão entender nada; podem olhar bem, mas não enxergarão nada.” (Isaías 6:9, NTLH).

“O pior cego é aquele que não quer ver.” (Ditado popular).

 

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Conforme foi visto ao longo do artigo analisado aqui, os defensores da "imortalidade da alma" não hesitam em igualar “alma” a “pessoa”, substituindo mentalmente um termo pelo outro. Em todos estes casos, a “alma” já não é mais uma das ‘partes da pessoa tricotômica’ e sim a própria pessoa. E tais ‘substituições’ são feitas tanto em trechos do AT, como do NT. Recordemos as seguintes declarações:

“A expressão “alma falecida” [em Levítico 19:28, 21:1, 22:4, e outros versículos da 1ª edição da TNM, 1961] significa apenas ‘pessoa falecida’...”

“Dizer “cadáver de qualquer alma humana” [em Números 19:11, TNM] é o mesmo que dizer “o corpo de qualquer pessoa”.

“A ‘alma’ de Ezequiel 18:4 é também uma aplicação restrita do termo. De modo que, dizer que a ‘alma que pecar é a que morrerá’ significa apenas que a pessoa que pecar é a que morrerá.”

“[Em Lucas 6:9, Jesus] quis dizer com isso apenas que aqueles homens [os fariseus] queriam matá-lo. [isto é, a pessoa humana dele]."

“Da mesma maneira, quando Ezequiel [18:4, 20] diz que a alma que pecar morrerá, significa simplesmente que a pessoa (humana) que pecar é que morrerá.”

“A expressão “que minha alma louve” [no Salmo 146:1] significa “que eu louve intensamente”, pois a alma, neste caso, representa o desejo mais profundo da pessoa...”

(Todos os grifos foram acrescentados.)

Curiosamente, quando chegam a Mateus 10:28, porém, eles não aceitam isso! Argumentam que fazer esta mesma 'substituição' é inválido, já que ‘não há como uma pessoa permanecer viva depois da morte’. ‘Isto é um absurdo!’, dizem eles. Mas a incoerência está, não nesta ideia e sim, de novo, no raciocínio deles. Para começar, se ‘não há como a pessoa permanecer viva depois da morte’, por que deveria ser assim no caso da “alma”? Se eles não aceitam isso no caso da “pessoa”, por que desejam impor que seja aceito no caso da “alma”?

Note-se que os imortalistas se veem obrigados a fazer essa 'substituição' em todo e qualquer lugar em que acham conveniente. Se não fizerem isso, não há como – no conceito deles, bem entendido – explicar, por exemplo, o fato de Ezequiel ter dito que ‘a alma morre’ – pelas mãos dos homens – e Jesus ter dito que ‘os homens não podem matar a alma’. O que fazem eles, então? Para sustentar sua tese, mostram-se dispostos a argumentar que quando Ezequiel falou “alma”, ele quis dizer “pessoa”, mas não aceitam de jeito nenhum que o mesmo vale no caso das palavras de Cristo! O uso desse incoerente critério duplo mostra quão flagrante é o desejo deles de proteger a todo custo seu conceito de “alma que permanece viva depois da morte do corpo físico”, apesar de ninguém na Bíblia ter dito isso!

Comparemos as referências, aplicando a “substituição aprovada” pelos defensores da imortalidade da alma, e a que eles dizem ser “absurda”:

PALAVRAS DE EZEQUIEL

PALAVRAS DE JESUS CRISTO

“A pessoa que pecar, essa morrerá.”

“Não temais os que matam o corpo, mas não podem matar a pessoa, temei antes aquele que pode destruir na Geena tanto a pessoa como o corpo.”

1 – Afirmou Jesus que os homens podem destruir a pessoa (alma)? A resposta óbvia é “Não”. Porém, assim como Ezequiel, Jesus colocou sim a possibilidade de os homens matarem uma pessoa (no caso de Ezequiel 18:4, os executores seriam os juízes de Israel; no caso de Mateus 10:28, seriam os perseguidores dos cristãos). Por que? Porque ele disse que os homens matam o corpo. Ora, o que acontece com uma pessoa quando o corpo dela é morto? “O pó volta à terra e o espírito volta a Deus”. (Ecle. 12:7) Esta pessoa (alma) morre. Não há mais uma “alma vivente” (pessoa vivente) e sim uma “alma falecida” (pessoa falecida) que vai para o Hades. Os proponentes da imortalidade da alma recusam-se terminantemente a enxergar estas realidades implícitas nas palavras de Jesus, porque eles

– “esqueceram” o que diz a referência do Eclesiastes 12:7;

insistem que a “alma” mencionada por Ezequiel é diferente da “alma” mencionada por Jesus, recusando-se (propositalmente) a entender que Ezequiel falou de uma morte apenas, ao passo que Jesus falou de duas mortes. A diferença no enunciado dos dois textos não está na natureza da “alma”, e sim na natureza da “morte” sofrida por essa alma;

– “esqueceram” que existe uma diferença entre “matar” e “destruir” e, sendo assim, a morte duma pessoa não equivale necessariamente à destruição dessa pessoa;

– inventaram seus conceitos de “dicotomia” ou “tricotomia” (induzindo à ideia de que o ser humano se “divide” por ocasião da morte, nem todas as “partes” morrem e ainda vão para lugares diferentes), e

– não aceitam o entendimento natural das expressões “alma vivente” e “alma falecida”, substituindo-o por suas definições inventadas – e questionáveis.

2 – Disse Ezequiel em algum momento que no caso daquelas pessoas (almas) dos judeus a que ele se referiu, a morte por execução seria eterna? A resposta terminante é: “Não”. Disse Jesus que quando os inimigos matam o corpo, a morte da pessoa (alma) dos cristãos ocasionada por isso é eterna? A resposta, também é um terminante “Não”. Portanto, aqui também não há contradição alguma entre os dois. Qualquer dificuldade é gerada – novamente – pelos proponentes da imortalidade da alma. Isso porque, conforme vimos, para não aceitar que a alma morre, eles procuram induzir seus leitores à ideia de que a referência de Ezequiel estava falando de morte eterna (causada pelo “julgamento de Deus”), ou seja, tentam a todo custo aplicar àquelas mortes mencionadas por Ezequiel o que Jesus falou sobre a Geena. É nesse ponto que eles convenientemente “esquecem” que só Jesus foi quem falou sobre duas mortes: a “primeira morte” (reversível) e a “segunda morte” (irreversível). Isso jamais foi discutido por Ezequiel, nem por profeta judaico algum. Jesus nunca disse que essa morte da pessoa (alma) causada pelos homens (pelo fato de matarem o corpo) seria eterna. Ela pode ser revertida por Deus, na hora que Ele quiser (por meio da ressurreição). Só Deus, não os homens, pode eliminar uma pessoa de maneira irreversível, enviando essa pessoa (alma) morta para a Geena (em outras palavras: destruindo-a). Homem nenhum tem essa capacidade e foi só isso o que Jesus disse. O máximo que estes podem fazer é com que uma pessoa (alma) vá para o Hades. O profeta Ezequiel nunca falou coisa alguma sobre “Geena”, nem havia entrado no mérito de “morte eterna” ou “julgamento de Deus”, como querem impor os proponentes da imortalidade da alma. Foi só Jesus quem falou sobre essas coisas – e explicou muito bem cada uma delas.

Na referência paralela do Evangelho de Lucas, Jesus disse:

“Digo-vos, amigos meus, não temais aos que matam o corpo, e depois disto nada mais podem fazer. Mas eu vos mostrarei a quem haveis de temer: Temei aquele que, depois de matar, tem poder de lançar-vos na geena. Sim, digo-vos: Temei a este.” (Lucas 12:4, 5, SBB).

Em momento algum Jesus afirmou que depois que o corpo é morto (seja pelos homens ou por Deus) a alma permanece ativa e consciente no Hades. Isto é o que os imortalistas desejam extrair do versículo. É outro “subentendimento” induzido por eles! Eles isolam o trecho “[os homens] não podem matar a alma” do contexto, desacertando o sentido das palavras de Jesus. Os homens matam o corpo e, com isso, matam a alma, encaminhando-a ao Hades. Deus mata o corpo e, com isso, também mata a alma, encaminhando-a ao Hades. Mas Ele pode fazer mais do que isso. Ele pode determinar que essa morte seja eterna – o equivalente a “destruir a alma”, encaminhando-a para a Geena. Foi a isso que Jesus deu ênfase: Só Deus, não os homens, pode causar a “segunda morte”. Nada – absolutamente nada – do que Jesus falou aqui contradisse o que as Escrituras Hebraicas sempre disseram no tocante à condição dos que estão mortos no Hades. Quem luta arduamente para fazer esse texto de Mateus 10:28 “comprovar” à fina força que os mortos estão ativos e conscientes no Hades são os proponentes da imortalidade da alma. É por isso que eles não aceitam a ideia de entendermos “alma” aqui simplesmente como “pessoa”. O fato de outros trechos bíblicos (tais como Ezequiel 18:4) tornarem claro que a alma pode sim ser morta pelos homens é que os motiva a apelarem para a ideia de “sentidos diferentes” para esta palavra. Esta é a “escapatória” que eles criaram para contornar o embaraço da teoria deles.

O motivo de isso parecer tão difícil de ser enxergado por alguns, não é falta de clareza de Jesus, ou o conceito bíblico de “pessoa” (alma) ser tão obscuro assim que ninguém consiga entende-lo, ou porque a Bíblia não lança luz sobre o que é a “primeira morte” (Hades) e a “segunda morte” (Geena). A responsabilidade por toda e qualquer confusão cabe – mais uma vez – unicamente aos promotores da "imortalidade da alma", que fingem não ver, ou obscurecem todos esses conceitos, já que não querem aceitar de maneira alguma o que dizem as centenas de referências bíblicas (dos dois Testamentos) a almas morrerem, incluindo essas palavras de Jesus e de Ezequiel (e fazem tudo para reinterpreta-las da maneira deles), “esquecendo” convenientemente as elucidações que são dadas na Bíblia sobre as duas mortes que foram abordadas por Jesus.

Portanto, se existe algum ‘absurdo’ no entendimento da alma mencionada em Mateus 10:28 como “pessoa”, é na mente dos defensores da imortalidade da alma. Se existe qualquer tipo de “contradição”, não é entre Jesus e os profetas hebraicos. Com relação às almas que se encontram no Hades, eles jamais se contradisseram. A contradição que há é entre Jesus e os escritores bíblicos de um lado, e os proponentes do conceito da imortalidade da alma do outro. O problema dos promotores deste conceito não é falta de capacidade de entender o conceito bíblico de “pessoa” (“alma”), qual é a diferença entre “Hades” e “Geena”, qual é a diferença entre “morte da alma” (causada por homens) e “destruição da alma” (que só Deus pode causar). Eles têm plena capacidade de compreender todas essas coisas, sim. O que eles não desejam de modo algum é enxergar as informações simples que a Bíblia fornece sobre a alma humana, preferindo obscurece-las ao máximo possível, nem que para isso seja preciso distorcer dezenas de trechos bíblicos e até provocar “incoerências” e “contradições” entre eles. Tudo isso com o objetivo de impor e fazer valer a todo custo o conceito místico; “esotérico” de “alma” que inventaram, qual seja, alguma ‘substância imaterial e incorpórea que pode existir independentemente, e abandona o “corpo biológico” por ocasião da morte deste’. Nem Jesus Cristo, nem o profeta Ezequiel, nem escritor bíblico algum jamais sugeriu nada parecido com tal coisa. Em outras palavras, não é o entendimento simples e coerente da alma como “pessoa” que provoca alguma confusão, ou contradição, porque ele não gera confusão alguma. O que faz surgir centenas de questões e contradições irrespondíveis é a insistência dos promotores da imortalidade inerente em conceituar a palavra “alma” e os demais termos bíblicos correlatos da maneira obscura que eles conceituam, pelo fato de se apegarem a certos textos isolados, lerem-nos de maneira descontextualizada e se utilizarem de duplos critérios no tocante ao entendimento das referências bíblicas sobre a alma. (VOLTAR)

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APÊNDICE B

 Algo Mais Sobre as Tentativas de Obscurecer Conceitos

Um aspecto bem marcante nas invocações de “apoio bíblico” para a tese da “imortalidade da alma” é a quantidade de redefinições de termos que aparecem na Bíblia. O método clássico que se costuma seguir para este fim é agregar a estas palavras expressões qualificativas, conforme a ideia que se pretenda defender naquele momento. Expressões tais como almas “presas no Seol”, sono “do corpo”, “verdadeira” alma, louvor “em coletividade”, alma “espiritual”, “região do” seio de Abraão, planos “qual ser humano”, “formação tricotômica do” homem, almas “que moram no Seol”, alma falecida “para os vivos na terra”, alma “que se desloca”, alma “que continua a existir depois da morte” e assim por diante, são exemplos disso. Considerando-se o potencial “ilimitado” da imaginação humana, é possível que a quantidade de “neologismos” ultrapasse o próprio número de teóricos da “imortalidade da alma”! Independentemente de todas estas expressões estarem corretas ou não, a naturalidade com que elas são veiculadas passa, no mínimo, a impressão de que seus idealizadores desejam realmente que outros as levem a sério e não vejam problema algum nelas.

Isto se aplica à própria expressão “imortalidade da alma”, que é “capital” na doutrina deles. Conforme qualquer leitor da Bíblia sabe, esta expressão também não existe lá. O termo “imortalidade”, na Bíblia, é aplicado unicamente ao próprio Deus, ou a alguém a quem Ele decida concedê-la, pelo fato de ter absoluta certeza da fidelidade dessa pessoa (como é o caso de seu Filho). Jamais esse termo “imortalidade” é associado à alma humana. Toda pessoa normal sabe também que o termo “imortal” significa “que não morre” ou “que não tem fim”, portanto, “imortalidade” significa “a qualidade daquilo que não morre” ou “que não tem fim”. Esta definição está refletida na seguinte referência:

“Guarde este mandamento imaculado, irrepreensível, até a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo, a qual Deus fará se cumprir no seu devido tempo. Ele [Deus] é o bendito e único Soberano, o Rei dos reis e Senhor dos senhores, o único que é imortal e habita em luz inacessível, a quem ninguém viu nem pode ver.” (1 Tim. 6:14-16, NVI)

Note-se a expressão: “o único que é imortal”, não ‘o único que é “absolutamente imortal”’. Os escritores bíblicos não viram necessidade de agregar esse qualificativo à palavra “imortal”, já que eles conheciam muito bem a definição de “imortal” e sabiam do que estavam falando.

O conceito de “imortalidade” também se reflete neste trecho:

Pois sabemos que, tendo sido ressuscitado dos mortos, Cristo não pode morrer outra vez: a morte não tem mais domínio sobre ele. (Rom. 6:9, NVI)

Ou neste:

“Então ele [Jesus] colocou sua mão direita sobre mim e disse: ‘Não tenha medo. Eu sou o primeiro e o último. Sou aquele que vive. Estive morto, mas agora estou vivo para todo o sempre! E tenho as chaves da morte e do Hades.” (Apo. 1:17, 18, NVI)

Estas duas referências também não dão qualquer margem para se pensar em “restrições”. Ninguém que participou na escrita da Bíblia enxergou algo “relativo” nestas declarações, pois eles sabiam que a partir do momento em que Deus concedeu a imortalidade a Cristo, não existe “restrição” alguma.

Quem são os que fazem esforço para alterar a definição de “imortalidade”? Ora, ninguém além dos promotores da “imortalidade da alma”! Segundo eles, é como se devêssemos imaginar que Deus concedeu ao Filho algum tipo de “imortalidade” que pode ser “revogada” a qualquer momento. Isso levanta as questões: Por que Deus faria essa coisa? Tem Ele alguma “dúvida” quanto à lealdade de Cristo? Será que Deus não sabe dizer se Cristo será sempre fiel a Ele no futuro, e por isso optou por conceder-lhe apenas algum tipo de “imortalidade relativa”? Onde é que está a onisciência de Deus e a capacidade dele de predizer o futuro?

Assim, seja por aparentemente terem “esquecido” o significado da palavra imortalidade, seja na ânsia de se esquivarem dos questionamentos gerados pelo conceito da natureza humana que defendem, e como se já não bastassem os demais “sentidos restritos”, os proponentes da “imortalidade da alma” cunharam também a expressão “imortalidade restrita” (seja lá o que isso signifique!). Isso só faz reforçar a impressão que foi mencionada no primeiro parágrafo desta consideração.45

Mas, o questionamento tampouco termina nisso. Ele vai além. 

Consideremos um exemplo, extraído aleatoriamente duma defesa do conceito da “imortalidade da alma”. A declaração que segue aparece no comentário sobre a referência de Ezequiel 18:4:

A palavra alma é usada em muitos sentidos diferentes através das Escrituras Sagradas. Às vezes se refere à vida de uma pessoa, às vezes à própria pessoa (como é o caso aqui em Eze. 18:4). E às vezes se refere à parte interior do homem que vive após a morte.”

Primeira frase: “A palavra alma é usada em muitos sentidos diferentes através das Escrituras Sagradas.” Quais seriam estes “muitos sentidos diferentes”? Apresentaram-se apenas TRÊS: (1) a “vida de uma pessoa”, (2) “a própria pessoa” e (3) a “parte interior do homem que vive após a morte”. Conforme já vimos, os dois primeiros sentidos são, de fato, os únicos que podem ser confirmados em qualquer exame geral das referências bíblicas. O terceiro, nada mais é que a afirmação do escritor do livro (bem como de todos os proponentes da imortalidade da alma). Mas, não é a isso que queremos chamar a atenção aqui. Note-se o modo como a argumentação é apresentada: primeiro declara-se positivamente ao leitor que existem “muitos sentidos diferentes” para o termo bíblico “alma”. Daí, sejam muitos ou poucos os exemplos que apresentem (citando ou não versículos bíblicos como “prova” disso), os promotores desse conceito sempre dão um jeito de incluir o seu sentido predileto de “alma”, a saber, ‘parte imaterial do homem que sobrevive à morte do corpo físico’, ‘alma espiritual’, ou qualquer outro desse gênero.

Ou seja, ao lado de ‘restringir’ sentidos à vontade, conforme acham conveniente, o ‘alargamento’ de sentidos também parece ser uma espécie de “padrão” comum a todos os que se propõem a defender a ideia de que “a Bíblia ensina a imortalidade da alma”. Há autores que chegam, inclusive, a elaborar listas de variados tamanhos, contendo uma série de “sentidos possíveis” do termo “alma”, tentando criar a impressão de que esses sentidos são bem “variáveis” realmente. A motivação dos que fazem isso é sempre a mesma: procurar convencer outros (e talvez a si próprios) de que existem mesmo múltiplas acepções para esta palavra bíblica. Quanto maior for o “elenco” de sentidos que eles puderem apresentar em suas listas, melhor. A ideia é estabelecer a máxima “variabilidade” possível de significados (às vezes até apelando-se a versículos bíblicos como “exemplos comprobatórios” de cada um), e o objetivo final desse esforço é um só: inserir em meio a toda essa “multiplicidade" de acepções aquela que é a predileta deles: ‘parte interior do homem que sobrevive à morte’. Procedendo dessa maneira, torna-se mais fácil induzir outros a acreditar que ‘as Escrituras “às vezes” apresentam a palavra “alma” com esse sentido’.

Mas, será verdade que o significado do termo “alma” tem mesmo toda essa variabilidade?

Para o benefício dos leitores, apresentamos aqui uma série simples de referências bíblicas (dos Testamentos Judaico e Cristão) onde esse termo ocorre. Em cada caso, cita-se um trecho de alguma versão onde aparece a palavra “alma” e depois apresentam-se versões alternativas, que são representativas da maneira como outros tradutores modernos entenderam o termo original hebraico ou grego. Caso o sentido de alma como alguma “parte interior do homem que vive depois da morte” fosse algo ‘solidamente baseado na Bíblia’, deveríamos esperar que tal conceito se fizesse presente de uma maneira expressiva nas referências. O exame delas, contudo, revela o contrário.

Naturalmente, a série está longe de ser exaustiva, já que há mais de mil referências a “alma(s)” nas Escrituras e seria difícil apresentar todas aqui. O número de ocorrências citadas a seguir é, inclusive, menor até do que o número de livros do cânon bíblico (66). Porém, essa pequena série já levanta questões quanto a se o sentido desse termo é tão “variável” assim como os proponentes da “imortalidade da alma” querem nos fazer crer.

A ALMA COMO “SER / PESSOA” E/OU “VIDA

Gênesis 1:21: “E Deus criou as grandes baleias, e todo o réptil de alma vivente que as águas abundantemente produziram conforme as suas espécies; e toda a ave de asas conforme a sua espécie; e viu Deus que era bom.” (ACRseres viventes, ALA).

Gênesis 9:4: "Somente não podeis comer a carne com sua alma que é o seu sangue." (BMD; vida, ACR).

Êxodo 4:19: "Disse também o SENHOR a Moisés em Midiã: Vai, volta para o Egito; porque todos os que buscavam a tua alma morreram." (ACR; vida, ALA; mata-lo [i.e. 'sua pessoa'], NTLH).

Levítico 17:11: "Porque a vida da carne está no sangue; pelo que vo-lo tenho dado sobre o altar, para fazer expiação pelas vossas almas; porquanto é o sangue que fará expiação pela alma." (ACR; por si mesmos, NVI).

Números 21:4: "Então partiram do monte Hor, pelo caminho que vai ao Mar Vermelho, para rodearem a terra de Edom; e a alma do povo impacientou-se por causa do caminho." (ALA; o povo [coletivo de ‘pessoas’], NVI).

Números 31:40: “E houve de almas humanas dezesseis mil; e o seu tributo para o SENHOR, trinta e duas almas.” (ARC; pessoas, NVI).

Deuteronômio 6:5: "Portanto, amem o SENHOR, nosso Deus, com todo o coração, com toda a alma e com todas as forças." (NTLH; ser, CEB, CJB).

Juízes 16:16: "Importunando-o ela todos os dias com as suas palavras, e molestando-o, a alma dele angustiou-se até a morte." (SBB; ele [i.e, 'a pessoa dele'], NVI; Sansão, NTLH).

Rute 4:15: "Ele te será por restaurador da alma, e nutrirá a tua velhice, pois tua nora, que te ama, o deu à luz, e ela te é melhor do que sete filhos." (ACR; vida, ARA, NVI).

1 Samuel 18:1: "Sucedeu que, acabando Davi de falar com Saul, a alma de Jônatas se ligou com a de Davi; e Jônatas o amou como à sua própria alma." (ARA; como a si mesmo, NTLH).

2 Samuel 5:8: "Porque Davi disse naquele dia: Qualquer que ferir aos jebuseus, suba ao canal e fira aos coxos e aos cegos, a quem a alma de Davi odeia. Por isso se diz: Nem cego nem coxo entrará nesta casa." (ACR; inimigos de Davi, NVI; eu odeio, NTLH).

1 Reis 11:37: "Então te tomarei, e reinarás sobre tudo o que desejar a tua alma, e serás rei sobre Israel." (ALA; todo o território que [você] quiser, NTLH).

2 Reis 23:25: "Nem antes nem depois de Josias houve um rei como ele, que se voltasse para o Senhor de todo o coração, de toda a alma e de todas as suas forças, de acordo com toda a Lei de Moisés." (NVI; com todo o seu coração, mente e força, NTLH).

1 Crônicas 28:9: "Tu, meu filho Salomão, conhece o Deus de teu pai e serve-o de coração íntegro e alma voluntária; porque o SENHOR esquadrinha todos os corações e penetra todos os desígnios do pensamento. Se o buscares, ele deixará achar-se por ti; se o deixares, ele te rejeitará para sempre." (ARA; com todo o coração e de livre e espontânea vontade, NTLH).

Jó 14:22: "É somente por ele que sua carne sofre; sua alma só se lamenta por ele." (CBC; e só por si mesmo lamenta, ACR; só sentimos... a aflição de nossas próprias mentes, GNT; seu íntimo chora por ele, LEB; para ele há apenas tristeza e sofrimento, LI; sua vida é cheia de problemas, NLT; só por ele seu coração se enluta, TEB).

Jó 24:12: "Desde as cidades gemem os homens, e a alma dos feridos clama; e, contudo, Deus não tem isso por anormal." (ARA; os feridos, NTLH, LI).

Jó 30:16: "E agora dentro de mim se derrama a minha alma" (AIB; minha vida, NVI, BMD, GW, LEB, MSG e muitas outras versões). Esse 'derramamento da alma' nada tem que ver com uma “saída” dela do corpo (para ‘continuar existindo’ em outro lugar). O texto se refere ao término da vida (alma) de alguém, conforme pode ser inferido da fraseologia de outras versões: “A minha alma agora se dissolve” (BJ, VOZ, CBC; “dentro de mim mesmo se murcha a minha alma”, FIG; “a vida em mim se consome”, APA; "estou perto de morrer", GNT; “minha vida está quase no fim, NCV; “minha vida está quase acabando”, ERV)

Salmo 23:3: "Refrigera a minha alma; guia-me nas veredas da justiça por amor do seu nome." (ALA; restaura-me o vigor, NVI).

Provérbios 2:10: "Pois a sabedoria entrará em seu coração, e o conhecimento será agradável à sua alma." (NVI; lhe [i.e, a ‘você’ / ‘à sua pessoa’], NTLH).

Eclesiastes 6:3: "Se o homem gerar cem filhos, e viver muitos anos, de modo que os dias da sua vida sejam muitos, porém se a sua alma não se fartar do bem, e além disso não tiver sepultura, digo que um aborto é melhor do que ele." (ALA; se [ele] não desfrutar as coisas boas da vida, NVI).

Isaías 5:14: "Por isso, o inferno ampliou sua alma, e abriu sua boca sem quaisquer limites, e os seus fortes, e o seu povo, e os seus altos e gloriosos descerão a ele." (RHE. Neste trecho grifado o “inferno” [Seol, cova, mundo dos mortos, etc.] está sendo personificado: “Por isso, a cova aumentou o seu apetite, abriu a sua boca desmesuradamente;...”, ALA; "O mundo dos mortos, como se fosse uma fera  faminta, abrirá a sua boca enorme...”, NTLH. Portanto, “alma” aqui também tem o sentido básico de “ser” ou “pessoa”.).

Jeremias 12:7: "Desamparei a minha casa, abandonei a minha herança; entreguei a amada da minha alma na mão de seus inimigos." (ALA; aquela a quem [eu] amo, NVI).

Lamentações 3:17: "A paz foi roubada de minha alma, nem sei mais o que é felicidade." (CBC; Tirou-me a paz, NVI).

Ezequiel 23:17: "Então vieram a ela os filhos de Babilônia para o leito dos amores, e a contaminaram com as suas impudicícias; e ela se contaminou com eles; então a sua alma deles se alienou." (ALA; ela se afastou deles desgostosa, NVI. Aqui o reino infiel de Judá está sendo personificado na forma de uma mulher prostituta. Portanto, alma aqui também tem o sentido de pessoa.).

Jonas 4:3: "Eu pois te rogo, Senhor, que tires agora a minha alma do meu corpo:  porque me é melhor a morte do que a vida." (APF; vida, BMD).

Miquéias 6:7: "Agradar-se-á Jeová de milhares de carneiros, ou com miríades de rios de azeite? darei o meu primogênito pela minha transgressão, o fruto do meu corpo pelo pecado da minha alma?" (SBB; meus próprios pecados, CBC).

Habacuque 2:4: "Eis que a sua alma está orgulhosa, não é reta nele; mas o justo pela sua fé viverá." (ACR; o ímpio está envaidecido, NVI).

Zacarias 11:8: "E destruí os três pastores num mês; porque a minha alma se impacientou deles, e também a alma deles se enfastiou de mim." (ACR; eu estava cansado deles, e eles estavam desgostados de mim, CBC).

Mateus 26:38: "Então [Jesus] lhes disse: A minha alma está triste até a morte; ficai aqui e vigiai comigo." (ALA; A tristeza que [eu] estou sentindo é tão grande; NTLH).

Marcos 8:36: "Pois, que aproveitaria ao homem ganhar todo o mundo e perder a sua alma?" (ACR; vida, ALA).

Lucas 12:20: "Mas Deus lhe disse: Louco! esta noite te pedirão a tua alma; e o que tens preparado, para quem será?" (ACR; Esta mesma noite a sua vida lhe será exigida, NVI; Esta noite você vai morrer, NTLH).

João 10:24: "Rodearam-no, pois, os judeus, e disseram-lhe: Até quando terás a nossa alma suspensa? Se tu és o Cristo, dize-no-lo abertamente." (ACR; Até quando nos deixará em suspense?, NVI).

Atos 20:10: "Tendo Paulo descido, debruçou-se sobre ele e, abraçando-o, disse: Não vos perturbeis, pois a sua alma está nele." (ALA; a vida nele está, ARA; ele está vivo, NTLH, NVI).

Romanos 2:9: "Tribulação e angústia virão sobre a alma de qualquer homem que faz o mal, ao judeu primeiro e também ao grego." (ARA; para todo ser humano que pratica o mal, NVI).

1 Coríntios 15:45: "Assim está também escrito: O primeiro homem, Adão, foi feito em alma vivente; o último Adão em espírito vivificante." (ACR; foi criado como ser vivo, NTLH).

2 Coríntios 12:15: "Eu de muito boa vontade gastarei, e me deixarei gastar pelas vossas almas. Se mais abundantemente vos amo, serei menos amado?" (ALA; até a mim mesmo para ajudá-los [i.e, 'vocês'], NTLH).

Filipenses 1:27: "Somente portai-vos, dum modo digno do evangelho de Cristo, para que, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós que permaneceis firmes num só espírito, combatendo juntamente com uma só alma pela fé do evangelho." (ALA; juntos, ARA, NTLH; juntamente, ACR; unânimes, NVI).

Hebreus 10:38: "Mas o justo viverá da fé; E, se ele recuar, a minha alma não tem prazer nele." (ACF; não me agradarei, NVI; eu não ficarei contente, NTLH. O termo “alma” aqui se refere claramente à pessoa de Deus ou Ele próprio.).

Hebreus 10:39: "Nós, porém, não somos daqueles que se retiram para a perdição, mas daqueles que crêem para a conservação da alma." (ACR; dos que crêem e são salvos, NVI; somos homens de fé, para salvar a nossa vida, EP; daqueles cuja fé assegura a nossa salvação, LI).

Tiago 5:20: "Sabei que aquele que fizer converter um pecador do erro do seu caminho salvará da morte uma alma, e cobrirá uma multidão de pecados." (ALA; salvará a vida dessa pessoa, NVI).

1 Pedro 4:19: "Portanto os que sofrem segundo a vontade de Deus confiem as suas almas ao fiel Criador, praticando o bem." (ALA; confiar sua vida ao seu fiel Criador, NVI; entregar-se completamente aos cuidados do Criador, NTLH).

3 João 1:2: "Amado, oro para que você tenha boa saúde e tudo lhe corra bem, assim como vai bem a sua alma." (NVI; assim como [você] está bem espiritualmente, NTLH).

Apocalipse 16:3: "E o segundo anjo derramou a sua taça no mar, que se tornou em sangue como de um morto, e morreu no mar toda a alma vivente." (ACR; ser vivente, ARA; seres vivos, NTLH; criatura, NVI).

Aos leitores que tiverem interesse numa pesquisa mais representativa sugerimos que façam por si mesmos esta comparação em tantos versículos quanto desejarem. Cremos firmemente que as seguintes conclusões tenderão a se confirmar:

a) O termo “alma” (hebraico: נֶפֶש / nephesh) tem um sentido bem uniforme dentro das Escrituras. Esta consistência indica que os homens que foram usados por Deus para registrar o conteúdo da Bíblia (tanto os do antigo Israel como os autores cristãos do primeiro século) sempre tiveram o mesmo conceito sobre isso.

b) Este conceito uniforme que eles tinham não tem nada que ver com o conceito “predileto” dos promotores da “imortalidade da alma”.

(VOLTAR)

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APÊNDICE C

 Jesus 'Resgatou Cativos do Hades'?

(Examinando Uma Aplicação de Efésios 4:8, 9)

A princípio, não haveria necessidade de analisar o conteúdo do quadro abaixo já que é só uma repetição pura e simples das duas acusações feitas contra os chamados “aniquilacionistas” (aqui), bem como uma insistência num argumento já refutado (apresentado aqui). Entretanto, como a referência de Efésios 4:8, 9 foi citada, apresenta-se a seguir uma análise deste texto, para o benefício dos leitores interessados nessa discussão.

 

Levando-se em consideração o que a Bíblia ensina sobre alma e Seol torna-se evidente que a maneira que certos versículos são entendidos pelos aniquilacionistas não está correta. Sendo assim, são mal aplicados.

...

Vou apenas exemplificar o que é, para mim, uma má aplicação de um texto. Escolhi um tema relativamente pacífico para ficar bem claro: a ressurreição.

Leia novamente aquilo que Jó disse sobre o lugar para onde iria depois da morte:

“Afasta-te de mim, para que eu tenha um instante de alegria, antes que eu vá para o lugar do qual não há retorno, para a terra de sombras e densas trevas, para a terra tenebrosa como a noite, terra de trevas e de caos, onde até mesmo a luz é escuridão.... o homem morre, e morto permanece; dá o último suspiro e deixa de existir.... assim o homem se deita e não se levanta até quando os céus já não mais existirem, os homens não acordarão* e não serão despertados do seu sono.” – Jó 10:20-22, 14:10, 12 NVI.

* Ou: “Não acordarão até que não haja mais céu”, conforme a Tradução do Novo Mundo.

A declaração acima encontra reforço no livro de Eclesiastes, que disse sobre as pessoas que morreram:

“Amor, ódio, inveja, para eles tudo se acabou; não terão jamais parte alguma no que acontece debaixo do sol.” – Eclesiastes 9:6, Vozes.

Então, apegando-se estritamente ao que é dito nos textos acima, facilmente chegar-se-ia à conclusão de que não há mais esperança para os que morreram e jamais eles serão ressuscitados. Entretanto, note o que aconteceu tempos depois e o que Jesus Cristo disse a respeito:

“Ide e relatai a João o que vistes e ouvistes: os cegos estão recebendo visão, os coxos estão andando, os leprosos estão sendo purificados e os surdos estão ouvindo, os mortos estão sendo levantados, os pobres são informados das boas novas.” – Lucas 7:22, 23.

“Não vos admireis, porque vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão sua voz, e os que praticaram o bem, sairão para a ressurreição da vida, e os que praticaram o mal, para a ressurreição do juízo.” – João 5:28, 29, Vozes.

Então, temos aqui duas linhas de pensamento aparentemente conflitantes. De um lado Jó e Salomão, e do outro Jesus Cristo. Em qual deles devemos acreditar? Nos três!

Na verdade, Moisés e Salomão não contradisseram Jesus. O que eles escreveram é realmente o que está lá, porém deve ser compreendido de acordo com a direção apontada pela Bíblia em seu contexto geral, que funciona tal como uma bússola que orienta o navegante num momento de céu escuro. É tudo uma questão de ponto de vista. Achar que não haveria ressurreição por conta do que está em Jó e Eclesiastes é uma má aplicação daqueles textos, por mais que eles pareçam dizer que ninguém será ressuscitado.

Para mim está muito claro que algo semelhante acontece com respeito aos textos do Antigo Testamento que associam “silêncio” e “inatividade” ao Seol / Hades. Os aniquilacionistas se apegam a eles como se não houvessem outros versículos que apontam na direção contrária, especialmente no Novo Testamento, onde foi dito que Jesus desceu às profundezas da Terra e resgatou cativos. Sabemos que o corpo dele sequer foi enterrado, pois o colocaram em um sepulcro. – Mateus 12:40; Efésios 4:8, 9*.

* A Tradução do Novo Mundo não traduz corretamente esse versículo, e ela mesma “se entrega”...

 

No RESUMO E CONCLUSÃO do artigo foram alistados os problemas que caracterizam todas as “aplicações” que os defensores do conceito da “imortalidade da alma” dão aos trechos das Escrituras. Segue-se uma análise da exposição do quadro acima, na mesma ordem em que esses problemas foram comentados lá:

1 – ACRÉSCIMOS TENDENCIOSOS AO ENUNCIADO DOS VERSÍCULOS:

Nenhum versículo bíblico – em tradução alguma – afirma que “Jesus desceu às profundezas da Terra e resgatou cativos” de lá. Enfatizando: Esta afirmação não existe na Bíblia. Rigorosamente, o texto diz que Jesus ao ascender, ‘levou cativos e deu dons aos homens’, não que ele ‘buscou cativos nas profundezas da Terra’. A ideia de que esses “cativos” mencionados em Efésios 4:8 foram resgatados do Hades é decorrente de desatenção ao enunciado do versículo, da falta de respeito ao contexto imediato (Ponto 3) e também da seleção tendenciosa de versões (Ponto 4).

2 – ATRIBUIÇÃO DE CONCEITOS ALHEIOS AOS VERSÍCULOS:

Um dos parágrafos da exposição acima é um jogo de palavras, dos mais enganosos. Levando-se em conta o que as referências bíblicas dizem (em vez de o que certos defensores da “imortalidade da alma” acham – e querem induzir outros a pensar – que elas “parecem dizer”), esse trecho poderia ser reformulado da seguinte maneira:

‘Moisés e Salomão jamais contradisseram Jesus. O que eles escreveram é realmente o que está lá, e deve ser compreendido de acordo com a direção apontada pela Bíblia em seu contexto geral, que funciona tal como uma bússola que orienta o navegante num momento de céu escuro. Não é tudo uma questão de ponto de vista. Achar que não haveria ressurreição por conta do que está em Jó e Eclesiastes é uma má aplicação daqueles textos, porque eles não dizem que ninguém será ressuscitado.’

Se há algum “momento de céu escuro” em conexão com as referências bíblicas sobre a condição dos mortos (incluindo estas de Moisés e Salomão), isso é da inteira responsabilidade daqueles que vão a todos os extremos para deturpá-las (exatamente por desconsiderarem a “direção apontada pela Bíblia em seu contexto geral”). Tais deturpações ‘funcionam como uma bússola desregulada, que desorienta o navegante’ que dá atenção às elucubrações desses defensores da "imortalidade da alma", em vez de se ater ao que dizem as próprias referências.

3 – DESCONTEXTUALIZAÇÃO:

As palavras que vêm logo em seguida (apenas dois versículos depois) do trecho do livro de Jó que foi mencionado (Jó 14:10, 12) não foram citadas. Estas palavras são:

“Quando um homem morre, acaso tornará a viver? Durante todos os dias do meu árduo labor esperarei pela minha dispensa. Chamarás, e eu te responderei; terás anelo pela criatura que as tuas mãos fizeram.” (Jó 14:14, 15)

Não é isto uma referência clara à ressurreição, na qual o patriarca Jó e todos os demais servos de Deus na antiguidade acreditavam? Como é que se pode dizer, então, que “apegando-se estritamente ao que é dito nos textos acima, facilmente chegar-se-ia à conclusão de que não há mais esperança para os que morreram e jamais eles serão ressuscitados”? O que é isso que foi feito acima: É ‘apegar-se estritamente ao que é dito nos textos’ ou é fazer citação descontextualizada para esconder evidência desfavorável?

Será que é só no Novo Testamento que encontraremos alguma referência à ressurreição? Pensava Jó que existe maneira de uma pessoa retornar do “lugar do qual não há retornosem ressurreição? Diria ele que “espíritos desencarnados” podem voltar espontaneamente e na hora que quiserem do mundo dos mortos para interagir com pessoas vivas? As palavras “o homem morre, e morto permanece; dá o último suspiro e deixa de existir” teriam algum significado diferente para ele? Haveria alguma possibilidade de a situação ser diferente disso à parte da ressurreição? Em resumo, concordaria Jó com essas coisas que os defensores da “imortalidade da alma” desejam nos impor de qualquer maneira como “bíblicas”? Será que os que insistem em dizer que a Bíblia ensina isso (e ainda acusam os questionadores de ‘dogmatismo’ e de ‘má aplicação de textos bíblicos’) são capazes de apresentar “versículos que apontam na direção contrária” a essas crenças expressas pelo patriarca Jó?46

- Da mesma maneira, as palavras que vêm logo em seguida (igualmente apenas dois versículos depois) ao trecho do livro de Efésios que foi mencionado (Efésios 4:8, 9) não foram citadas. O trecho completo diz:

“Quando subiu ao alto, levou muitos cativos, cumulou de dons os homens. Ora, que quer dizer ele subiu, senão que antes havia descido a esta terra? Aquele que desceu é também o que subiu acima de todos os céus, para encher todas as coisas. A uns ele constituiu apóstolos; a outros, profetas; a outros, evangelistas, pastores, doutores, para o aperfeiçoamento dos cristãos, para o desempenho da tarefa que visa à construção do corpo de Cristo.” (Efésios 4:8-12, CBC)

De novo, cabe aqui a pergunta: É a citação de Efésios 4:8, 9 ‘apegar-se estritamente ao que é dito nos textos’ ou isso é isolar versículos para se esquivar de evidência desfavorável? Será que essas palavras de Paulo – lidas no contexto – ‘apontam na direção contrária’ a qualquer outra coisa dita na Bíblia?

Quem eram esses “muitos cativos” que Jesus levou quando “subiu ao alto” e a quem “cumulou de dons”? Eram indivíduos que estavam mortos no Hades? Ou eram homens vivos na Terra, que se tornaram parte da congregação que Jesus deixou aqui, e a quem concedeu “dons” para acelerar o progresso de sua Igreja, liderando-os ativamente desde o céu? Existe alguma evidência de que Jesus tenha tirado alguém “das profundezas da Terra” para servir nestas capacidades (apóstolos, profetas, pastores, etc.)?

Acerca da discussão sobre o significado dessa expressão “as partes mais baixas da terra” que aparece em Efésios 4:9, as obras de referência a seguir expressam conclusões similares às que foram apresentadas aqui.

Alguns autores entendem essa expressão como significando simplesmente a humilhação à qual Cristo se submeteu em sua vida terrestre. Os três comentários que seguem expressam este conceito:

Ora esse ele subiu o que significa senão que também desceu primeiro? O apóstolo interpreta o salmista, e conclui que Davi, quando predisse a glorificação de Cristo, ou ascensão ao céu, predisse igualmente sua humilhação e descida à terra: q.d. Quando Davi fala de Deus em carne ascendendo ao alto, ele quer dizer, portanto, que ele deverá primeiro descer à Terra. Às partes mais baixas da terra; ou simplesmente a terra, como a parte mais baixa do mundo visível, e dessa forma oposta ao céu, de onde ele veio, João 3:13, 6: 33,38,41,42,50,51; ou a sepultura e a condição dos mortos; ou mesmo ambos, significando a humilhação completa dele, em oposição à sua ascensão, entendida como sua exaltação completa.

(Annotations Upon the Holy Bible [Anotações na Bíblia Sagrada], Matthew Pool, Nova Iorque, 1853, Volume 3, pág. 672.)

Ora, que quer dizer subiu – Ou seja, afirma-se no Salmo [68:18] que ele “subiu” – “Tu subiste ao alto.” Isto significa que deve ter havido uma “descida” anterior; ou, conforme se aplica ao Messias, “que também antes tinha descido.” É totalmente correto que Paulo quis dizer que a “palavra” “subiu” demonstrou que deve ter havido uma descida anterior; mas ele provavelmente quis dizer que no caso de Cristo houve “de fato” uma descida às partes mais baixas da terra primeiro. A linguagem usada aqui expressará adequadamente a descida dele à terra.

Nas partes mais baixas da terra – Para a mais baixa condição de humilhação. Este parece ser o significado claro das palavras. O céu está oposto à terra. Um é acima; a outra está abaixo. De um Cristo desceu para o outro; e ele não veio apenas para a terra, mas se curvou à condição mais humilde da humanidade aqui; veja Filipenses 2:6-8; compare com as notas sobre Isaías 44:23. Alguns entenderam isso como uma referencia à sepultura; outros como referência à região dos espíritos; mas essas interpretações não parecem ser necessárias. É a própria terra, que está em contraste com os céus; e a ideia é que o Redentor desceu de sua elevada eminência no céu, e tornou-se um homem de posição e condição humilde; compare com o Salmo 139:15.

(Notes, Explanatory and Practical on the Epistles of Paul – Ephesians, Phillipians and Colossians, [Notas, Explicativas e Práticas Sobre as Epístolas de Paulo – Efésios, Filipenses e Colossenses]. Albert Barnes – 1858, pág. 88, sublinhados acrescentados.).

Para as partes mais baixas da terra. Estas palavras não significam nada mais que a condição da vida atual. Forçá-las de maneira a fazê-las significar purgatório ou inferno, é extremamente tolo. O argumento tirado do grau comparativo “as partes inferiores”, é bem insustentável. Uma comparação é estabelecida, não entre uma parte da terra e outra, e sim entre a terra inteira e o céu; como se ele tivesse dito que daquela elevada habitação Cristo desceu ao nosso profundo abismo.

(Commentaries on the Epistles of Paul to the Galatians and the Ephesians [Comentários às Epístolas de Paulo aos Gálatas e aos Efésios], João Calvino, traduzido do latim por William Pringle, Edinburgo, Escócia: Calvin Translation Society, 1854, pág. 275. Grifos e sublinhados acrescentados. [O comentário original em latim foi publicado em Genebra, em 1548.]).

Ainda relacionado com esta humilhação, outros eruditos não viram problema em incluir a morte e o enterro de Cristo dentro da expressão “as partes mais baixas da terra”. Assim mesmo, eles questionaram fortemente qualquer ‘pregação’ ou ‘tomada de cativos’ por Cristo no Hades em conexão com estes versículos de Efésios. Os dois comentários citados a seguir refletem este conceito:

Versículo 9. - Ora (o fato de) que ele subiu, o que significa senão que ele primeiro desceu? A subida implicou uma descida anterior; isto é, a ascensão do Filho de Deus – do que estava ele próprio no céu, daquele que estava no seio do Pai (compare com João 3:13) significando que ele tinha descido do céu, uma prova marcante de seu interesse e amor pelos filhos dos homens. E a descida não foi apenas para a condição comum da humanidade, e sim para mais do que uma condição normalmente degradada, não apenas para a superfície da terra, e sim para as partes mais baixas da terra. Isto foi por vezes interpretado como o Hades, mas certamente sem razão. Se a expressão denota mais do que a condição humilde de Cristo, ela provavelmente significa a sepultura. Este foi o clímax da humilhação de Cristo; ser removido fora da vista dos homens, como muito ofensivo para eles olhá-lo – ser oculto nas profundezas da terra, na sepultura, foi de fato extremamente humilhante. O objetivo é mostrar que, ao conceder dons em homens, Cristo não se limitou a expressar sua beneficência inerente como Filho de Deus, mas agiu como mediador, por direito de compra especial, através de sua obra de humilhação na terra; e, desta forma, levar-nos a ter na mais alta consideração tanto o doador como seus dons.

(Pulpit Commentary, H. D. M. Spence e Joseph S. Exell – Comentário a Gálatas e Efésios (Volume 46), pág. 148 – Grifos e sublinhados acrescentados.)

... as partes mais baixas da terra] Será que isto significa “as regiões mais baixas, a própria Terra” como distinta do céu? Ou “as regiões mais baixas da terra”, isto é, a região subterrânea, a sepultura e seu mundo? Nosso grande teólogo e erudito crítico, o Bispo Pearson (Exposição do Credo, Art. V.), inclina-se para o primeiro conceito, com uma referência à Encarnação apenas. A frase, entendida desta forma, talvez possa ser ilustrada por Isaías 44:23; onde, porém, “partes mais baixas da terra” (LXX “fundações da terra”) pode ser contrastada com “montanhas”. (Confronte também, talvez, com Salmo 139:15) Por outro lado, o Salmo 63:9 é nitidamente a favor de uma referência à “sepultura.” Nosso julgamento é no todo pelo segundo conceito, com uma referência à morte e sepultamento do Senhor Encarnado. Essa referência parece ajustar-se melhor, em certo sentido, com a frase logo abaixo, “muito acima de todos os céus”; ela se harmoniza melhor com a amplitude das palavras, “para que pudesse preencher todas as coisas” (compare com Romanos 14: 9.); e está dentro da maneira como o NT conecta a Ressurreição e a Ascensão como partes de um grande todo. E a Morte do Senhor está tão profundamente relacionada com a obtenção de bênçãos para Sua Igreja que há uma provável alusão a priori aqui a isso. — Muitos dos Pais [da Igreja] (veja as notas de Pearson sob o art. V. do Credo) entendem este trecho como se referindo a uma obra definitiva realizada pelo Senhor no mundo subterrâneo, uma libertação dos espíritos dos santos do Antigo Testamento de um “Limbo” lá. Mas, certamente, as palavras aqui não ensinam nada do tipo; apenas que o que sofreu por nós entrou no estado das almas desencarnadas, “a Sepultura”, “Seol”, “Hades”. A misteriosa passagem 1 Pedro 3:18-19, ocorrerá imediatamente na questão. Mas sobre ela só podemos dizer aqui que é muito isolada, e envolve muitos problemas de interpretação, para permitir que se elabore qualquer grande e peculiar artigo de fé com base nela; e, sob qualquer ângulo, sua única referência explícita é à geração do Dilúvio. Veja novamente Pearson. E para um conceito diferente do dele, declarado com grande habilidade e perspicácia, veja a Nota II de The Unsafe Anchor, do Rev. C. F. Childe.”

(Cambridge Bible for Schools and Colleges, The Epistle to the Ephesians [Bíblia de Cambridge Para Escolas e Faculdades, A Epístola aos Efésios], H. C. G. Moule, Cambridge University Press, 1888, pág. 108. Grifos e sublinhados acrescentados.).

Há eruditos que dão ênfase à concessão dos dons por Cristo, como sendo o núcleo das declarações de Paulo. Este argumento faz sentido, já que era este mesmo o assunto que o apóstolo estava discutindo. A referência a uma ‘visita de Cristo ao mundo dos mortos’ não teria nexo de espécie alguma dentro deste contexto. O comentário que segue defende esse ponto de vista, ao mesmo tempo em que também rejeita a ideia de que a expressão “as partes mais baixas da terra” tenha alguma coisa que ver com o Hades:

9. τὸ δὲ Ἀνέβη τί ἐστιν εἰ μὴ ὅτι καὶ κατέβη εἰς τὰ κατώτερα μέρη τῆς γῆς. “Ora que ele ascendeu, o que significa, senão que ele também tinha descido às partes mais baixas da terra?”

Há aqui uma variação muito importante na leitura —

κατέβη sem πρῶτον [“descido” sem a palavra “primeiro”] é a leitura de א * A C * D G 17 672, Boh., Sahid., Eth., Amiat., Iren., Orig., Chrys. (Comm.), Aug., Jerome.

κατέβη πρῶτον [‘desceu primeiro’] é lido em א c B Cc K L P, a maioria dos MSS. Vulg., Gótico., Syr. (ambos), Arm., Teodoreto.

O peso de autoridade está decididamente do lado da omissão. A evidência transcricional aponta na mesma direção. O significado que se apresentava superficialmente era que o Cristo que ascendeu tivera seu lugar original no céu, e o que o apóstolo tinha em mente, portanto, foi que Ele havia descido antes de subir; daí πρῶτον seria naturalmente sugerido à mente de um leitor. Por outro lado, não é fácil perceber por que a palavra deveria ser omitida. Reiche, de fato, adota a informação oposta. A palavra, diz ele, pode parecer supérflua, uma vez que tanto no vers. 8 como no vers. 10 temos ἀναβὰς εἰς ὕψος sem πρῶτον; ou, mais uma vez, inadequada, já que Cristo desceu apenas uma vez, supondo-se particularmente que a referência à ἀναβάς foi perdida. Ele acha πρῶτον desnecessária para o argumento do apóstolo. Isto é apenas o que alguns dos primeiros copistas pensaram, e é uma consideração muito mais propensa a tê-los influenciado do que a suposição contrária, ou seja, que a palavra era supérflua. Isto é rejeitado pela maioria dos críticos, mas Westcott e Hort admitem isso num lugar na margem.

μέρη [partes] depois de κατώτερα [mais baixas, inferiores] tem a autoridade de א A B C K Dc G P, enquanto ela é omitida por D * G (não F). As versões e os Pais estão divididos. A palavra está na Vulg., Boh., Arm., Syr-Pesh, Chrys., Teodoreto, Agost., mas é omitida pelo Gótico., Syr. (Sch.), Eth., Iren., Teódoto. A inserção ou omissão não faz qualquer diferença no sentido. A maioria dos editores críticos recentes mantêm a palavra. Tischendorf a rejeitou em sua sétima, mas a restaurou em sua oitava edição. Alford, Ellicott, e Meyer se pronunciaram contra ela; este último sugerindo que é uma interpretação devido à velha explicação da descida ao inferno, com o fim de marcar o lugar como subterrâneo.

τὸ δὲ Ἀνέβη, isto é, não a palavra ἀνέβη, que não tinha ocorrido, mas a que está implícita em ἀναβάς. τί ἐστιν εἰ μή, κ.τ.λ., isto é, “o que isso significa, senão”, etc. τὰ κατώτερα τῆς γῆς. O genitivo pode ser tanto partitivo, as mais baixas, como distintas das partes mais altas da terra, como de aposição, as regiões mais baixas, isto é, as da terra. Com a primeira interpretação podemos entender tanto a morte, simplesmente, como Crisóstomo e os outros gregos, τὰ κάτω μέρη τῆς γῆς τὸν θάνατόν φησιν, ἀπὸ τῆς τῶν ἀνθρώπων ὑπονοίας, citando Gênesis 44:29; Salmo 142:7; como o Hades, o lugar onde vivem os espíritos dos mortos, que é o conceito de Tertuliano, Irineu, Jerônimo, e muitos [comentaristas] modernos, incluindo Bengel, Olshausen, Meyer (nas edições posterioress), Alford, Ellicott, Barry.

Mas existem sérias objeções a isto. Em primeiro lugar, se o apóstolo tinha a intenção de dizer que Cristo desceu a uma profundidade abaixo da qual não existe qualquer outra mais profunda, assim como ele ascendeu a uma altura acima da qual não existe outra mais alta, ele sem dúvida teria usado o superlativo. τὰ κατώτερα μέρη τῆς γῆς, se o genitivo é partitivo, isso poderia significar “as regiões baixas da terra”, em oposição a τὰ ἀνωτερικὰ μέρη (Atos 19:1). Meyer, de fato, entende o genitivo como dependente do comparativo; mas isso seria uma forma estranha de expressar o que teria sido expresso de modo mais natural por meio dum advérbio. τὰ κατώτατα τῆς γῆς ocorre no Salmo 63:9, Salmo 139:15 (κατωτάτω); mas no primeiro caso as palavras significam morte e destruição; no segundo elas denotam figurativamente o que está escondido, o lugar da formação do embrião. A frase hebraica correspondente é encontrada em Ezequiel 32:18, Ezequiel 32:24, referindo-se à morte e destruição, mas foi vertida como βάθος τῆς γῆς. Compare com Mateus 11:23, onde ᾅδου é utilizada de forma semelhante. Estes trechos apoiariam o conceito de Crisóstomo, em vez do que está em discussão. Mas, em segundo lugar, todas essas expressões do Antigo Testamento são figuras poéticas, e em uma mera declaração dum fato como o considerado, Paulo dificilmente teria dado essa designação local material ao lugar dos espíritos dos mortos, principalmente em conexão com a ideia de Cristo preenchendo todas as coisas. Em terceiro lugar, a antítese está entre a terra e o céu, entre uma ascensão da terra ao céu, e uma descida que é, portanto, provavelmente do céu à terra. De fato, alguns que adotam este conceito entendem a descida como do céu, alguns como da terra. Em favor do argumento da conexão, veja o que segue.

Por estas razões, parece preferível entender “as partes mais baixas da terra” como = “esta terra mais baixa.” Os que adotam este conceito geralmente assumem que a descida antecedeu a subida, e, portanto, entendem a descida como sendo a Encarnação. Este conceito, porém, não está livre de dificuldades. Paulo está falando da unidade do todo, por um lado, e da diversidade de dons individuais, por outro lado. A última é o tema no vers. 7 e novamente no vers. 11. A que propósito serviria uma interpolação como esta? Ela não foi feita para provar a pré-existência celestial de Cristo; que se presume como algo conhecido; pois a subida ao céu não significa descida por este motivo, exceto nessa suposição. E por que a afirmação enfática da identidade do que subiu com o que tinha descido antes, se isso era autoevidente? Mas, na verdade, não é esta ascensão que está em questão, e sim a concessão de dons; o que tinha de ser mostrado era que uma descida foi necessária, para que aquele que subiu concedesse dons. Então a descida foi contemporânea com a concessão, e, portanto, subsequente à subida. Isto parece ser indicado pelo καί antes de κατέβη. Parece quase impossível entender καὶ κατέβη senão como expressando algo posterior a ἀνέβη. O significado, então, é que a subida ficaria sem um objetivo, a menos que fosse seguida por uma descida. Esta é a descida de Cristo à Sua Igreja, aludida em 2:17, “veio e pregou”; em 3:17, “que Cristo habite em seus corações”"; e que encontramos também em João 14:23, “nós viremos a ele”; Também ib. 3 e 16:22. Agora fica claro por que era necessário afirmar que καταβάς [o que desceu] era o mesmo que ἀναβάς [o que subiu]. Esta interpretação é defendida habilmente por v. Soden.

(International Critical Commentary of the Holy Scriptures – Epistles to the Ephesians and to the Colossians [Comentário Crítico Internacional das Escrituras Sagradas – Epístolas aos Efésios e aos Colossenses], ed. por Samuel R. Driver, Charles A. Briggs e Alfred Plummer, Nova Iorque, 1897, págs. 114-116.)

Após analisar os quatro entendimentos que foram propostos para a expressão “as partes mais baixas da terra”, a saber, (1) a concepção de Jesus, (2) a morte ou o túmulo, (3) a descida ao inferno e (4) a descida dele à terra, o comentarista a seguir se pronunciou em favor do último. Explicando os motivos dessa escolha, ele disse:

4. De modo que estamos de acordo com a maioria dos expositores que entendem as palavras como significando simplesmente a terra. Essa é a opinião de Tomás de Aquino, Beza, Aretius, Bodius, Rollock, Calvino, Cajetan, Piscator, Crocius, Grotius, Marloratus, Schoettgen, Michaelis, Bengel, Loesner, Vitringa, Cramer, Storr, Holzhausen, Meier, Matthies, Harless, Wahl, Baumgarten-Crusius, Scholz, de Wette, Raebiger, Bisping, Hofmann, Chandler, Hodge, e Winer, § 59, 8, a. Uma palavra em aposição é às vezes colocada no genitivo, como em 2 Coríntios 5:5, τὸν ἀῤῥαβῶνα τοῦ πνεύματος – o  penhor do Espírito – o Espírito que é o penhor; Romanos 8:23; Romanos 4:11, σημεῖον-περιτομῆς – o sinal da circuncisão, isto é, o sinal, a saber, a circuncisão. Atos 4:22; 1 Pedro 3:7; Colossenses 3:24; Romanos 8:21, etc. O mesmo modo de expressão ocorre em Hebreus – Heb. Gram de Stuart. § 422; Nordheimer’s do. § 815. Assim, também, temos em latim – Urbs Romae – a cidade de Roma; fluvius Euphratis – ou como dizemos em inglês, “the Frith of Clyde”, ou “Frith of Forth”. Assim, na frase que está diante de nós, “as partes mais baixas da terra” significa aquelas partes mais baixas que a terra forma ou apresenta em contraste com o céu, como dizemos frequentemente – o céu em cima e a terra embaixo. O ὕψος do versículo precedente sugeriu claramente o κατώτερα neste versículo, e ὑπεράνω também está em correspondência com ele. Assim, o mundo é chamado γῆ κάτω. Atos 2:19. Quando nosso Senhor fala de si mesmo, sobre sua descida e ascensão, o céu e a terra são uniformemente os termos da comparação. Assim também em João 3:13, e nada menos que sete vezes no sexto capítulo do mesmo evangelho. Comparantur, diz Calvino, non una pars terrae cum altera, sed tota terra cum coelo. [Uma comparação é estabelecida, não entre uma parte da terra e outra, e sim entre a terra inteira e o céu]. Reiche toma o genitivo como significando terra tanquam universi pars inferior [a terra como a parte inferior do universo]. A ascensão de Cristo ao céu supõe claramente uma descida anterior a este mundo inferior. E ele é verdadeiramente um mundo inferior ou menor quando comparado com o céu no alto. Não pode o uso do comparativo indicar que a descida de Cristo não era simplesmente ao γῆ κάτω, mas ao εἰς τὰ κατώτερα? Não, pois juntamente com Zanchius, Bochart (Opera, 1.985, ed. Villemandy, 1692), Fesselius (Apud Wolf., in loc.), Küttner, Barnes e outros, nós consideramos a frase como significando, em geral, humildade ou humilhaçãostatus exinanitionis [condição de esvaziamento]. Teologicamente, o uso do comparativo é sugestivo. Ele [Jesus] nasceu no mundo, e isso em condições precárias; não nasceu debaixo de telhados ornamentados e em meio a corredores de mármore, mas respirou pela primeira vez num estábulo, e usufruiu o seu primeiro sono numa manjedoura. Como homem, Ele ganhou o pão com o suor do seu rosto, e uma ocupação manual com martelo e machado “saindo para seu trabalho e seu labor, até o anoitecer.” As criaturas que ele havia formado tinham sua casa e moradia de seu agrado, mas o herdeiro de todas as coisas não tinha qualquer domicílio por direito legal; pois “as raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.” A difamação, o desprezo, e a injúria o seguiam como uma sombra negra. A perseguição contínua levou à sua prisão, acusação, calúnia, açoite, zombaria, e condenou o “homem de dores” a uma ignominiosa tortura e morte de criminoso. Seu funeral foi improvisado e apressado; e mais ainda, o túmulo onde o deitaram era emprestado. Ele veio realmente “para as partes mais baixas da terra.”

(A Commentary on the Greek Text of the Epistle of Paul to the Ephesians [Comentário Sobre o Texto Grego da Epístola de Paulo aos Efésios], John Eddie, 3ª Edição, Edimburgo, Escócia, 1883, págs. 293-295, grifos e sublinhados acrescentados. [O comentário completo sobre esta expressão, onde ele apresenta os questionamentos dos outros três entendimentos abrange as páginas 290-295.]).

O comentário a seguir também apresenta a argumentação em favor de a expressão significar a terra, com base no contexto:

A localidade ou a extensão da descida está agora definida. A questão é saber se a localidade em vista é este mundo como um cenário de existência mais baixo que o céu, ou o mundo inferior como uma profundidade mais profunda do que a própria terra. Será que a sentença se refere à encarnação de Cristo e à sujeição a que Ele se humilhou na terra até a morte? Ou será que aponta para a descida dele ao Hades? E se este for o caso, em que aspecto e com que significado especial se apresenta a visita dele ao mundo dos mortos? Sobre estas questões, houve e continua a haver grande diversidade de opinião. Ambas as interpretações têm amplo apoio. [Daí, ele alista os grupos que apoiavam cada interpretação na época.]

Qual é, então, a interpretação mais razoável?

Deve-se dizer, em primeiro lugar que nem a gramática nem a crítica textual fornecem uma resposta decisiva. A expressão τῆς γῆς pode ser entendida igualmente bem tanto como genitivo apositivo = “as partes mais baixas que são ou constituem a terra”; como genitivo possessivo = “as partes inferiores pertencentes à terra”, sendo o Hades concebido como parte da terra, mas sua parte inferior; ou como genitivo comparativo = “as partes mais baixas do que a terra”. Mas a ideia comparativa não é mais pertinente a uma linha principal de interpretação do que à outra. A palavra κατώτερα pode significar as partes mais baixas que a própria terra, ou seja, o Hades; mas também pode significar as partes mais baixas que o céu, ou seja, a terra. Nem a variedade na leitura afeta o sentido, embora muito tenha sido feito nesse sentido. A palavra μέρη é inserida após κατώτερα por [1], [2], [3], [4], [5], [6], [7], Syr.-P., Boh., Vulg., Arm., Chrys., etc. Ela é omitida por [8], [9], Goth., Eth., Iren., etc. Há que se considerar, portanto, que ela pertence ao texto, mas não é incompatível com qualquer das interpretações. Os principais argumentos a favor de que é o Hades que se tem em mente são estes: que, se o significado fosse a terra, é difícil entender por que alguma forma de expressão mais simples, como εἰς τὴν γῆν or εἰς τὴν γῆν κάτω (Atos 2:19) não foi escolhida; que o uso de uma frase tão singular como τὰ κατώτερα, que faz lembrar a versão da LXX para תַּחְתִּיּוֹת הָאָרֶץ, uma das expressões do AT para o mundo inferior, sugere de imediato algo mais baixo do que a própria terra, uma profundidade ainda mais profunda (Mey.); que as frases acompanhantes ὑπεράνω πάντων τῶν οὐρανῶν e ἵνα πληρώσῃ τὰ πάντα, sendo expressões de maior extensão, tornam mais razoável que se dê o sentido mais amplo possível também para κατώτερα; e que a justiça seja feita à peculiaridade e à amplitude das diversas expressões só por entender a ideia de Paulo ser que, já que Cristo ressuscitou para encher o mundo inteiro, ele teve primeiro de passar em seu poder vitorioso por todas as grandes divisões do Universo – os céus acima, a terra abaixo, e até mesmo o mundo subterrâneo, na afirmação de sua soberania universal. Porém, ainda há muito a ser dito sobre o outro lado da questão. A fórmula superlativa para τὰ κατώτατα estaria mais próxima do ponto, se a ideia a ser expressa fosse a de uma profundidade em relação à qual não houvesse nada mais profundo (Abismo), ou a de uma descida que abrange todas as várias partes do universo. Na verdade, também, não é τὰ κατώτερα, e sim τὰ κατώτατα, que a LXX usa ao reproduzir o hebraico הָאָרֶץ תַּחְתִּיּוֹת. Se a referência fosse ao Hades, seria estranho Paulo não escolher uma ou outra das frases mais conhecidas e muito pouco ambíguas que são usadas em outros lugares, por exemplo, ἕως ᾅδου (Mateus 11:23), εἰς ᾅδου (Atos 2:27), ou uma formulação como εἰς τὴν καρδίαν τῆς γῆς (Mateus 12:40), εἰς τὴν ἄβυσσον (Romanos 10: 7). Há que se considerar também que, se tivermos em mente que é a Ascensão, e não simplesmente a ressurreição de Cristo, que é expressa por ἀνέβη, não foi do Hades, e sim da terra que Ele ascendeu. Além disso, o ponto que está imediatamente em questão, não é alguma obra que Cristo tenha feito no mundo e suas várias partes, e sim a identidade da pessoa que desceu, e ascendeu, e concedeu dons. Isto é suficientemente claro pela repetição de αὐτός (Efésios 4:10, 11), e a ideia de uma visita ao Hades ou um ministério no Hades não tem relação óbvia alguma com isso. O grande parágrafo de Filipenses 2:5-10, que é em certo sentido um paralelo, também tem de ser levado em conta. Lá, toda a declaração está voltada novamente para as grandes ideias da encarnação, com a humilhação envolvida nela, e a exaltação, e nada se diz sobre qualquer visita de Cristo ao mundo subterrâneo. Aqui, também, toda a ideia de uma descida ao Hades parece alheia ao pensamento. Ela não é sugerida pelo trecho do Salmo [ou seja, Salmo 68:14-21]; pois não há uma palavra sobre Seol nele. Também não há qualquer indicação disso no contexto da Epístola. Pois lá a  concessão de dons é mencionada, não em conexão com a descida de Cristo, e sim com a ascensão dele, e não se dá qualquer indicação de alguma obra feita por ele no Hades com vistas a essa concessão, ou de qualquer relação na qual o mundo dos mortos está dentro da prerrogativa dele de conceder. Por estas razões, concluímos que a frase τὰ κατώτερα μέρη τῆς γῆς significa a terra como um cenário de existência, para o qual Cristo desceu, mais baixo do que os céus nativos dele.

[1] Códice Vaticano (séc. iv), Publicado em fac-símile fotográfico em 1889 aos cuidados do Abbate Cozza-Luzi.

[2] Códice Sinaítico (séc. iv), Agora em São Petersburgo, publicado em fac-símile por seu descobridor, Tischendorf em 1862.

[3] Códice Efraimita (séc. v),  palimpsesto de Paris, editado por Tischendorf em 1843.

[4] Códice Claromontano (séc. vi), um MS greco-latino em Paris, editado por Tischendorf em 1852.

[5] Códice Mosquense (séc. ix.), editado por Matthei em 1782.

[6] Códice Angelico (séc. ix.), em Roma, conferido por Tischendorf e outros.

[7] Códice Porfiriano (séc. ix.), em São Petersburgo, conferido por Tischendorf. Seu texto é deficiente no trecho de Efésios 2:13-16.

[8] Códice Claromontano (séc. vi), um MS greco-latino em Paris, editado por Tischendorf em 1852.

[9] Codex Boerneriano (séc. ix.), um MS greco-latino em Dresden, Alemanha, editado por Matthei em 1791. Redigido por um escriba irlandês, antes fazia parte do mesmo volume que o Códice Sangalense (δ) da Evangelhos. O texto latino, g, baseia-se na tradução de O.L.

(The Expositor’s Greek Testament [O Testamento Grego do Expositor], A Epístola aos Efésios, S. D. F. Salmond, Londres, 1903, Vol. 3, págs. 326, 327 – Grifos e sublinhados acrescentados.)

Outras obras eruditas de referência contêm argumentações similares às que foram apresentadas acima.

4 – APRESENTAÇÃO DEFICIENTE DA EVIDÊNCIA DAS VERSÕES BÍBLICAS:

A seguinte declaração aparece na exposição acima, num asterisco:

“A Tradução do Novo Mundo não traduz corretamente esse versículo, e ela mesma “se entrega”.” (O grifo é nosso.)

A versão citada traduz o texto da seguinte forma:

Por isso ele diz: “Quando ele [Jesus] ascendeu ao alto, levou consigo cativos; deu dádivas [em] homens.”  Ora, a expressão, “ele ascendeu”, o que significa senão que ele também desceu às regiões mais baixas, isto é, à terra? (Grifo acrescentado.)

Conforme estamos vendo, o único motivo de se apresentar a declaração de Efésios 4:9 é que teoricamente este seria um “versículo que aponta na direção contrária” (outra maneira de dizer “refuta”) ao que dizem os “textos do Antigo Testamento que associam “silêncio” e “inatividade” ao Seol / Hades”. O problema é que a declaração acima conduz a um entendimento diferente: de que Jesus teria descido à terra, e não às “profundezas da terra”. Este – e apenas este – é o motivo de a tradução acima ser questionada. O que não se informa aos leitores é que esta não é a única versão bíblica que apresenta a declaração de Paulo desse modo.

Se o problema é “tradução errada”, vale a pena verificar como este versículo de Efésios 4:9 foi redigido em outras versões:

VERSÕES QUE USARAM EXPRESSÕES DIFERENTES DE “PROFUNDEZAS DA TERRA” E SE REFERIRAM DIRETAMENTE À TERRA COMO O LUGAR PARA O QUAL CRISTO DESCEU, OU FAVORECERAM UNICAMENTE ESTE ENTENDIMENTO:

APF

aos lugares mais baixos da terra – A nota a este versículo diz: “Lugares mais baixos: em oposição a céu e podem ser a própria terra ou uma região subterrânea, como o limbo ou o inferno, mas aqui certamente significa a própria terra.

Alf

às partes mais baixas da terra – Uma nota remete o leitor ao versículo de João 3:13, que diz: "Ninguém jamais subiu ao céu a não ser aquele que de lá desceu: o Filho do homem.” Jesus estava falando com pessoas que estavam na terra, não no Hades. E quando ele falou nessa descida dele, o destino que ele tinha em mente era claramente a Terra, não o Hades.

CBC

a esta terra

CEB

à terra

CJB

à terra

ERV

para baixo à terra

ESV

às regiões inferiores, a terra[b] – A nota “b” diz: Ou as partes inferiores da terra. A Bíblia de Estudo desta versão (Crossway Bibles, 2001) diz: “4:9 regiões inferiores, a terra. Na encarnação, Cristo desceu do mais alto dos céus para as regiões mais baixas (ou seja, para a terra), onde ele sofreu, morreu e foi sepultado, mas onde ele também venceu a morte e levantou novamente. Ele então ascendeu (Atos 1:9) 40 dias depois para ficar sentado no mais alto dos céus à destra do Pai (Atos 2:33).

GNV

às [b] partes mais baixas da terra – A nota “b” diz: Para a terra, que é a parte mais baixa do mundo.

ICB

à terra.

MH

a estas partes inferiores da terra

MOU

às regiões inferiores, à terra

MSG

ao vale da terra

NCV

à terra

NET

às regiões inferiores, a saber, a terra

NIRV

aos lugares inferiores, terrestres

PIB

às regiões inferiores da terra – A nota marginal ao versículo diz: “As regiões terrestres, às quais Jesus desceu com a encarnação, são chamadas inferiores com relação ao céu.”

TEB

até embaixo, na terra. A Bíblia de Estudo desta versão (Edições Loyola, 1994) remete o leitor a uma nota “v”, que diz: “v. Lit. Nas regiões inferiores da terra. É um comentário da citação do salmo: o Cristo soberanamente elevado é o mesmo que se abaixou. A descida se refere à terra (inferior com relação ao céu) antes que aos infernos (cf. Rom 10.6-7). Os verbos descer e subir evocam o vocabulário joânico (Jo 3.12.13; 6.51-62) e para alguns, o itinerário cósmico do Salvador, dos gnósticos.”

TNIV

às regiões inferiores, terrestres

VOI

às regiões inferiores, isto é, à terra.

VOZ

às partes inferiores da terra(j) – A nota “j” também remete o leitor ao versículo de João 3:13. Além disso, na nota específica ao trecho de Efésios 4:1-16 aparece a seguinte declaração: “Cristo, pela humilhação da morte, foi glorificado e enriqueceu a Igreja de diversos dons para fazer crescer o todo.” Novamente, o sentido de ‘descer às partes inferiores da terra’ apresentado aqui é humilhação, e não alguma 'descida às profundezas da terra'.

VERSÕES QUE USARAM EXPRESSÕES DIFERENTES DE “PROFUNDEZAS DA TERRA” E MENCIONARAM DOIS (OU MAIS) ENTENDIMENTOS ALTERNATIVOS, MAS A ENCARNAÇÃO DE CRISTO OU SUA DESCIDA À TERRA FOI APRESENTADA COMO O ENTENDIMENTO MAIS PROVÁVEL:

ARA

até as regiões inferiores da terra(1) – A nota 1 diz: “às regiões inferiores da terra, ou regiões inferiores, à terra.” A Bíblia de Estudo desta versão (1999) diz: “Ora, que quer dizer subiu, senão que também havia descido até às regiões inferiores da terra?(j). Esta nota j diz: “4.9 Jo 3.13. Até às regiões inferiores da terra, entendido aqui como alusão à vinda de Cristo ao mundo (Jo 1.14; 3.13; Fp 2.7-8). Alguns entendem como uma referência ao sepulcro ou ao lugar dos mortos." Outra Bíblia de Estudo desta versão, a Bíblia de Estudo de Genebra (1999), contém esta informação sobre o versículo: “Cristo foi exaltado à posição que hoje ocupa após o estado de humilhação. Sua encarnação consistiu em assumir uma natureza humana aqui, nas “regiões inferiores da terra”; cf. 1:20-23; Fp. 2:1-11. Essa forma de servir é modelo a ser imitado pelos crentes.”

NAB

às (regiões) mais baixas da terra. Com referência aos versículos 9 e 10, uma nota diz: A “descida” de Cristo (Efe. 4:9-10) refere-se mais provavelmente à encarnação (comp. com Filipenses 2:6-8) do que à presença de Cristo no mundo dos mortos após sua morte (comp. com 1 Pedro 3:19).

NLT

ao mundo inferior em que vivemos [b] - A nota “b” diz: Alguns manuscritos dizem às regiões inferiores da terra

VERSÕES QUE USARAM EXPRESSÕES DIFERENTES DE “PROFUNDEZAS DA TERRA” E SE LIMITARAM A APRESENTAR DOIS (OU MAIS) ENTENDIMENTOS ALTERNATIVOS, SEM FAVORECER QUALQUER UM DELES:

ARC

às partes mais baixas da terra. A Bíblia de Estudo de Aplicação Pessoal (2003), desta versão diz: “4.9 - “As partes baixas da terra” podem ser: (1) a própria terra (mais baixa em comparação ao céu), (2) a sepultura ou (3) o Hades (muitos acreditam que Hades e o lugar de repouso das almas entre a morte e a ressurreição). Qualquer que seja a interpretação, Cristo é Senhor de todo o universo: do passado, do presente e do futuro. Nada ou ninguém pode se esconder dele. O Senhor de todos os homens veio a terra e enfrentou a morte para libertá-los. Ninguém esta fora de seu alcance.” (Vale mencionar, porém, que outra Bíblia de Estudo desta versão, a Bíblia do Pregador, incluiu uma nota ao versículo 9, remetendo o leitor para João 3:13, unicamente.)

CSB

às partes mais baixas da terra [f] – A nota “f” diz: Ou as partes mais baixas, a saber, a terra.

DLNT

às partes inferiores da terra [b] – A nota “b” diz: Isto pode referir-se à encarnação de Cristo, ou Sua descida ao Hades após sua morte.

ISV

às partes mais baixas da terra [d] – A nota “d” diz: ou partes, essa [terra]

NTLH

até os lugares mais baixos da terra, isto é, até o mundo dos mortos. Porém, a Bíblia de Estudo desta versão diz sobre o versículo: “4.9 desceu até os lugares mais baixos da terra. Uma referência à descida de Cristo para a sepultura (Mt 12.40; 1Pe 3.19). desceu até os lugares mais baixos da terra, isto é, até o mundo dos mortos; ou “desceu até os lugares mais baixos, isto é, até a terra”. Neste caso, o texto fala sobre a vinda de Cristo ao mundo (Jo 3.13; Fp 2.6-11).”

NABRE

às [regiões] inferiores da terra - Uma nota aos versículos 8 a 10 diz: Embora a ênfase esteja numa ascensão e concessão de dons por Cristo, há também uma referência à tomada de prisioneiros cativos para os aeons e poderes mencionados em Efe. 1:21; 2:2; 3:10; 6:12.

VERSÕES QUE USARAM EXPRESSÕES DIFERENTES DE “PROFUNDEZAS DA TERRA” SEM QUALQUER INFORMAÇÃO ADICIONAL:

AMP, ASV, BBE, BRG, DBY, HNV, JUB, KJV, MEV, NAS, NKJV, NRS, OJB, RHE, RSV, TMB, WBT, WEB, WNT, WYC, YLT

às partes inferiores da terra

GW, NOG, TYN

às partes mais inferiores da terra

ACR, AIB, ALA, THO, TLB

às partes mais baixas da terra

BMD

aos lugares inferiores da terra

BLH, EP, MS, SBB, TB

aos lugares mais baixos da terra

CAP, LEB, TLV

às regiões inferiores da terra

BV

até bem embaixo às regiões mais inferiores da terra.

NBV

até as regiões mais inferiores da terra.

VERSÃO QUE USOU UMA EXPRESSÃO DIFERENTE DE “PROFUNDEZAS DA TERRA” E A HIPÓTESE DE TAL EXPRESSÃO SE REFERIR AO REINO DOS MORTOS FOI APRESENTADA COMO ÚNICA:

APA

às regiões inferiores da terra – A nota ao versículo diz: “Cristo, que tinha descido à terra pela Encarnação, desceu até ao lugar dos mortos, imaginado como subterrâneo, 1 Pd 3, 19.”

VERSÕES QUE USARAM A EXPRESSÃO “PROFUNDEZAS DA TERRA” (NO TEXTO PRINCIPAL OU EM NOTAS), OU ALGUMA EXPRESSÃO EQUIVALENTE:

BJ

às profundezas da terra(q) – A nota “q” diz: “As regiões subterrâneas, onde se situa o reino dos mortos (cf. Nm 16,33+) e onde desceu Cristo antes de ressuscitar e de subir “acima de todos os céus” (cf. 1 Pd 3,19)+) Ou, segundo outros, as regiões terrestres qualificadas de “inferiores” em comparação com os céus.”

CEV

no fundo da terra

CNBB

às profundezas da terra

EXP

para baixo [desceu] à terra [ou regiões mais baixas, ou seja, a terra; ou as profundezas da terra; provavelmente refere-se (1) à Encarnação, embora possivelmente (2) à descida de Cristo ao Hades após a sua morte (1 Pe. 3: 19-20), ou (3) à descida de Cristo por meio do Espírito no dia de Pentecostes (Atos 2)].

FAC

às profundezas da terra – Um parêntesis diz: “Jesus desceu do céu à terra. Quando morto foi sepultado. Depois de ressuscitado subiu ao céu.”

GNT

às profundezas da terra [a] - A nota “a” diz: … ou as profundezas, a própria terra.

LI

ao mais profundo da terra.

NIV

às regiões inferiores, terrestres [c] - A nota “c” diz: Ou as profundezas da terra

NLV

às partes profundas da terra

NVI

às profundezas da terra(b) – Na nota “b” aparece a seguinte variante: “Ou regiões mais baixas, à terra”. A Bíblia de Estudo desta versão (Editora Vida, 2008) acrescenta a seguinte informação: “Embora Paulo cite o salmo para introduzir a ideia dos "dons aos homens", ele aproveita a oportunidade para relembrar aos leitores a vinda de Cristo à terra (sua encarnação) e sua subsequente ressurreição e ascensão. Esta passagem provavelmente não ensina, como alguns pensam e como algumas traduções sugerem, que Cristo desceu ao inferno.”

PER

às profundezas da terra – No rodapé aparece a seguinte informação sobre o trecho: "4,7-11 Da unidade brota a pluralidade, e esta se unifica pela organicidade. Procede de Cristo glorificado, que reparte seus dons, como faz um vencedor esplêndido. Dois motivos literarios que encontra em Sl 68,19, adaptado ao caso sem esforço, graças à versão grega. Para a descida e subida, veja-se Jo 3,13; para a série de funções, 1Cor 12,27-29. As “profundezas” podem referir-se à terra dos vivos, em comparação com o céu (Is 44,23; cf. “debaixo do sol” Ecl 4,7.15 etc.); neste caso se refere à encarnação. Também pode designar o mundo subterrâneo, abissal, dos mortos (Dt 32,22; Ez 31,14; Sl 63,10), em cujo caso se refere à morte e sepultura. Veja-se a viagem cósmica da Sabedoria em Eclo 24,5 e contexto. “Todos os céus” (plural): os três ou os sete, segundo diversas representações."

O exame das 81 versões citadas acima (52 em inglês e 29 em português) mostra que:

– Em 23 versões foram usadas expressões diferentes de “profundezas da terra”, e a hipótese de Cristo ter descido à terra  foi apresentada como entendimento único ou mais provável.

– Em 6 versões foram usadas expressões diferentes de “profundezas da terra”, sendo apresentados dois entendimentos alternativos, mas a versão não tomou partido por qualquer um deles.

– Em 40 versões, foram usadas expressões diferentes de “profundezas da terra” sem qualquer informação adicional, não estando claro qual o sentido da expressão, ou seja, se a terra foi colocada como ‘inferior’ (ou ‘mais baixa’) em relação ao céu (genitivo apositivo), ou se estava sendo feita uma comparação das regiões da terra entre si, incluindo a região subterrânea (genitivo possessivo)

– Em 1 versão, foi usada uma expressão diferente de “profundezas da terra” e a hipótese de tal expressão se referir ao reino dos mortos foi apresentada como única.

– Finalmente, em 11 versões a expressão “profundezas da terra”, ou alguma equivalente foi usada (quer no texto principal, quer nas notas). Porém, em sete destas versões apresenta-se a variante de tradução que admite também o entendimento de Cristo ter descido à terra, sendo que em quatro delas este entendimento ainda é apresentado como o mais provável. Em apenas quatro versões que usaram a expressão “profundezas da terra” (ou algo parecido) a hipótese de Cristo ter descido ao subterrâneo é o único entendimento que o texto admite.

O breve exame das opiniões de alguns eruditos (feito no item anterior), bem como – o que é mais importante – o levantamento do que dizem as versões bíblicas (feito aqui), permite estabelecer os seguintes fatos quanto ao enunciado de Efésios 4:9:

– a expressão “profundezas da terra” (ou uma equivalente) foi, de longe, a menos usada pelos tradutores (só aparece em 1/8 das versões);

– um número considerável (15 versões) traduz o texto da mesma maneira que a tradução que foi classificada como  “errada”;

– a maioria (49 versões) não dá margem para um único entendimento quanto ao destino de Jesus referido no texto, e 1/3 delas (27 versões) apresenta a descida dele à Terra como entendimento único ou mais provável;

– a quantidade de versões que só admitem a hipótese de Paulo estar se referindo ao Hades nesse texto é ínfima (apenas 5 versões);

nenhuma versão dá base para o entendimento de que Jesus teria ‘resgatado cativos no Hades’;

– a maioria dos eruditos (inclusive alguns que defendiam ardorosamente o conceito da “imortalidade da alma”) contestou e rejeitou o entendimento de que o texto se refira a alguma descida de Cristo ao Hades.

Antes de concluirmos esta parte, há um detalhe de interesse relacionado com esta discussão. Devido ao fato de a expressão “profundezas da terra” ter sido usada em umas poucas traduções modernas de Efésios 4:9, há quem procure estabelecer algum paralelo entre esta referência e outras onde esta expressão também aparece. O objetivo por trás deste procedimento é óbvio: Induzir os leitores à ideia de que as referências estão falando do mesmo assunto. Examina-se, a seguir, uma referência que nos foi apontada com esse intento, o Salmo 71:20:

“Tu, que me fizeste passar muitas e duras tribulações, restaurarás a minha vida, e das profundezas da terra de novo me farás subir.” (NVI)

Com base nas mesmas 81 versões consultadas acima, o quadro que segue apresenta as variantes de tradução para a expressão grifada:

ALA, Alf, ASV, AMP, BRG, CAP, CEB, CJB, CSB, DBY, RHE, ESV, EXP, GNV, GW, HNV, ISV, JUB, KJV, LEB, LI, MEV, NOG, NAS, NET, NIV, NKJV, NLT, NRS, NVI, PER, RSV, SBB, TB, TLB, TLV, TMB, TNIV, VOZ, WBT, WEB, WYC e YLT

das profundezas da terra

ACR, AIB, ALA, APA, APF, ARA, ARC, BJ, BMD, CBC, CNBB, MS, OJB, TEB e THO

dos abismos da terra

NLV

do fundo da terra

EP

da terra profunda

CEV e VOI

do poço profundo

ERV

do poço de morte

NBV

da cova funda

MSG

fui para o fundo

NAB e NABRE

das profundezas aquosas da terra

BBE

das águas profundas do subterrâneo

BLH, GNT e NTLH

da sepultura

NIRV

quase na sepultura

ICB e NCV

quase morto

DLNT, FAC, MH, MOU, PIB, TYN e WNT

[Estas versões só contêm o NT.]

Apresenta-se agora um quadro comparativo do tratamento que os tradutores deram aos versículos considerados aqui:

SALMO 71:20

EFÉSIOS 4:9

A expressão “profundezas da terra” (ou alguma equivalente) foi usada em 53 versões

A expressão “profundezas da terra” (ou alguma equivalente) – sem qualquer ressalva – foi usada em 4 versões

A expressão “abismos da terra” foi usada em 15 versões

Nenhum tradutor usou a expressão “abismos da terra”

Uma expressão relacionada com a morte ou a sepultura foi usada em 6 versões.

Nenhum tradutor usou uma expressão referente à morte ou à sepultura

Fica muito claro; realmente salta aos olhos, que os tradutores não abordaram estes dois versículos da mesma maneira:

- No caso do Salmo 71:20 a expressão “profundezas da terra” aparece em mais de 70% das versões. Já em Efésios 4:9 a mesma expressão – em seu sentido básico – ocorre em meros 5% delas.

- No Salmo 71:20 mais de 90% dos tradutores (68 versões em 74) usaram alguma expressão moderna que transmite claramente a ideia de um lugar abaixo da superfície da terra como o destino da pessoa em questão. É difícil encontrar algum tradutor que tenha procedido da mesma maneira no caso de Efésios 4:9.

- Enquanto no Salmo 71:20 vários tradutores falaram da sepultura (ou pelo menos da possibilidade de ir para lá), ninguém fez isso no caso de Efésios 4:9 com referência a Jesus.

A questão é: Por que existe esse contraste tão gritante entre as traduções dos dois versículos? Mais uma vez, o exame do original é de grande ajuda:

Salmo 71:20 [Fotocópia da Versão Septuaginta, Com os Livros Apócrifos, de Lancelot Charles Lee Brenton (publicada por Samuel Bagster, Londres, 1900, pág 739]:

Trecho em destaque:

Tu, que nos fizeste ver muitas e penosas tribulações, de novo, nos restituirás à vida e, das profundezas da terra, nos tornarás a trazer. (TB)

Efésios 4:9 [Fotocópia do Novo Testamento Interlinear Analítico Grego-Português, de Paulo S. Gomes e Odayr Olivetti (Editora Cultura Cristã, 2008), pág. 731]:

Trecho em destaque:

Que significa “subiu,” senão que ele também primeiro desceu às partes mais baixas da terra?

Assim, até mesmo as palavras que foram usadas nos escritos originais dos dois versículos não são as mesmas! É esta a razão da nítida diferença no modo como estes dois versículos são apresentados nas versões modernas, deixando claro que os tradutores foram conscienciosos em distinguir o significado exato dos diferentes termos originais. Isto vindica mais uma vez a competência e o bom critério deles! E põe a perder completamente o esforço de alguns defensores modernos da doutrina da “imortalidade da alma”, que não prestaram atenção a este fato, em sua ânsia de induzir seus leitores à ideia de que estes dois trechos bíblicos estão falando da mesma coisa. Infelizmente para eles, a tentativa de colocar referências como o Salmo 71:20 em paralelo com a de Efésios 4:9 resulta ser um golpe fatal para sua pretensão. Pois a comparação atenta só faz mostrar que o Salmo 71:20 está falando de uma pessoa que estava na terra e poderia ter descido ao Seol. Já Efésios 4:9 refere-se a uma pessoa que estava no céu, desceu à terra e depois ascendeu novamente ao céu - partindo da terra. Diferente do que ocorre no caso de Efésios 4:9, nunca houve questionamento, nem qualquer debate quanto à tradução do Salmo 71:20 porque ele nunca poderia ser traduzido de um modo diferente do que foi, já que está se referindo claramente ao Seol (Hades), e não há qualquer outra possibilidade de entendimento. Já Efésios 4:9 não pode ser traduzido duma forma que dê a entender que o apóstolo Paulo estava falando de alguma ‘descida de Cristo ao Hades’ – e muito menos para ‘resgatar cativos’ de lá e levá-los ao céu. Conforme indicam os eruditos que examinaram esse trecho contextualmente, o apóstolo estava discutindo outro assunto; ele não fez qualquer referência à ida de Cristo para o Hades neste trecho. É por isso que toda atribuição dessa ideia a Paulo sempre foi questionada em termos gramaticais e exegéticos, e nunca foi aceita unanimemente pelos cristãos.

- É honesto apresentar a ideia de que Cristo ‘buscou cativos nas profundezas da terra’ como se fosse o entendimento correto, escondendo todos os fatos acima dos leitores?

- É erudito ignorar o trabalho consciencioso dos especialistas em grego que, ora traduziram o versículo da mesma maneira “errada”, ora apresentaram traduções alternativas ou fizeram ressalvas do tipo acima quando optaram pela expressão “profundezas da terra”? Devemos suprimir toda e qualquer evidência que contradiga nossas teorias com o único propósito de manter obstinadamente uma ideia que está em franco desacordo com o contexto imediato dos versículos?

- É válido usar a informação apresentada num trecho bíblico com a clara intenção de contradizer o que dizem outras referências (chamando o trecho eufemisticamente de “versículo que aponta na direção contrária”) e ainda procurar colocar esse trecho em paralelo com outros que não têm qualquer relação com o assunto? Será que esse uso descuidado, essa manipulação grosseira da informação bíblica é apropriada? É esta maneira de proceder uma demonstração de respeito pela Palavra de Deus?

- Faz algum sentido tentar defender arduamente uma ideia indefensável, e ainda dirigir ataques ad hominem contra cristãos que a questionam, classificando-os como pessoas que ‘aplicam mal’ as Escrituras, têm ‘mente travada’, são ‘dogmáticas’, ‘preconceituosas’, e ‘não se baseiam no exame contextualizado da Bíblia, mas rejeitam a ideia simplesmente porque decidiram isso previamente’? A quem se aplicariam tais acusações? Aos que respeitam a soberania da Bíblia e nunca se atreveram a desmenti-la ou tratá-la de maneira errática ou aos que se agarram teimosamente a uma ideia e dedicam seu tempo a procurar impô-la à Bíblia de qualquer maneira? Quem é que sente necessidade de entregar-se a cansativas discussões de generalidades sem relação com o assunto, a especulações que não levam a nada, à mistura indevida da informação bíblica com fontes apócrifas e mitológicas, e principalmente a vários tipos de raciocínio falacioso, tudo isso com o fim de manter sua ideia a todo custo? Quem é que precisa fingir ignorar que a ideia que pretende defender é – e sempre foiquestionada tanto por eruditos competentes como por tradutores bíblicos capacitados, e já foi cabalmente refutada há muito tempo, em decorrência do peso enorme de evidências contra tal interpretação?

Diante de tudo o que foi apresentado acima, os questionamentos podem ser resumidos da seguinte forma:

FATO 1 – A discussão aqui não é a “trajetória” de Cristo, se ele 'fez pregação no Hades', se ele ‘levou cativos ao céu’ literalmente ou de maneira simbólica, ou se ele ascendeu ‘ao mais alto dos céus’ ou não. A questão a ser resolvida aqui é se ele buscou cativos nas profundezas da terra.

FATO 2 – A referência em questão foi apresentada como “versículo que aponta na direção contrária” ao que os textos do Antigo Testamento declaram sobre a condição dos mortos. E isto foi feito - exclusivamente - com base na alegação de que Jesus teria buscado cativos nas profundezas da terra.

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Tanto a evidência interna da Bíblia quanto a conclusão majoritária dos eruditos que examinaram atentamente este assunto comprovam, além de dúvida, que Jesus não fez isso. Se foi à terra que ele desceu, e se foi da terra que ele ascendeu, os “cativos” que ele ‘levou consigo’ e a quem ‘concedeu dons’ eram pessoas vivas na terra.

Portanto, não é verdade que a referência de Efésios 4:8, 9 “aponta na direção contrária” ao que as referências do Antigo Testamento declaram sobre a condição dos que estão no Seol (Hades). Este trecho não contradiz o resto da Bíblia, no tocante à discussão sobre a condição dos mortos. Nem este trecho da carta de Paulo aos cristãos em Éfeso, nem texto bíblico algum faz isso.

5 – REDEFINIÇÃO DE CONCEITOS:

A primeira declaração da exposição acima faz referência ao que “a Bíblia ensina sobre alma e Seol” e também a certo ‘entendimento errado dos aniquilacionistas’. Estas declarações partem da premissa de que a Bíblia contém ideias tais como a da “imortalidade da alma” e do “tormento consciente”, e qualquer um que discordar que tais ideias estejam contidas lá é porque tem ‘mentalidade aniquilacionista’ e está ‘entendendo errado’ as coisas! Infelizmente esse tipo de raciocínio é recorrente no discurso dos defensores da "imortalidade da alma". A declaração que segue (extraída de um texto que defende essas teorias) confirma isso:

“... se uma premissa é considerada válida, no caso a alma que continua a existir literalmente no Seol depois da morte*, é natural que todos os textos relacionados ao assunto sejam vistos com olhos diferentes do enfoque dado pelos aniquilacionistas.

* E, conforme visto, não se trata apenas de uma simples proposta de entendimento ou teoria. Existe uma base muito sólida dentro da Bíblia para se pensar assim.”

(Grifos acrescentados.)

Como qualquer expositor sabe (ou, pelo menos, deveria saber), quando se pretende inferir qualquer ideia que seja, o certo é primeiro examinar a evidência e só depois formular a teoria.  No caso específico da Bíblia, primeiro “todos os textos relacionados ao assunto” deveriam ser examinados, para só depois disso formular a “proposta de entendimento ou teoria” com base nessa evidência conjunta. ‘Considerar uma premissa válida’ logo de início — antes mesmo de examinar qualquer evidência  — e depois querer adaptar forçadamente todas as referências bíblicas a esta premissa (omitindo tudo o que a contradiga ou fazendo acréscimos não autorizados ao enunciado dos textos para obrigá-los a “declará-la” de qualquer maneira) não é método de se pontificar sobre a Bíblia. Jamais poderá ser dito que a "proposta de entendimento ou teoria" resultante desse procedimento tem “uma base muito sólida dentro da Bíblia”. Sem rodeios, isto nada mais é que raciocínio circular puro e simples, uma falácia lógica das mais primárias.

E embora isso não transpareça no trecho do quadro analisado aqui, o artigo defendeu um conceito de “ressurreição” que nada tem que ver com a realidade. Talvez isso explique o motivo dessa completa falta de atenção à referência clara que o patriarca Jó fez à ressurreição logo em seguida ao trecho que foi citado na exposição acima (Jó 14:10, 12). Todavia, se o problema não se resumiu a uma simples “falta de atenção”, a única explicação possível é que a omissão desta informação foi deliberada. E isto seria muito menos desculpável.

6 – ARGUMENTAÇÃO FALACIOSA:

As palavras que o patriarca Jó de fato disse, a saber, que o Seol é “o lugar do qual não há retorno”, que “o homem morre, e morto permanece; dá o último suspiro e deixa de existir”, foram despercebidas. Nenhuma explicação foi dada sobre elas. O que se fez foi desviar a questão para o assunto da ressurreição (referido como “tema relativamente pacífico”), tentando provocar uma “contradição” interna nas Escrituras, como se Jó nada tivesse falado sobre isso, e tivesse “contradito” o que Jesus e outros disseram!

Dando sequência a esse desvio do assunto, apelou-se à suposta existência de “versículos que apontam na direção contrária” no Novo Testamento. Porém, o único “versículo que aponta na direção contrária” citado na exposição (Efésios 4:8, 9) foi descontextualizado e deturpado. Nenhuma palavra dele contradiz o que o resto da Bíblia diz sobre a condição dos que estão no Seol. Nem contradiz o ensino da ressurreição.

Como em outros casos, a falácia argumentativa a que se recorreu aqui foi a do espantalho: em vez de se considerar o texto em si e argumentar sobre a evidência apresentada nele, apelou-se a uma série de argumentos forjados, que além de 'passarem longe' do assunto discutido, são facilmente demonstráveis como falsos.

 

Todos os problemas existentes nas interpretações que foram analisadas ao longo do artigo estão também presentes no quadro apresentado no início. Este é mais um instrutivo exemplo, não de ‘entendimento incorreto dos aniquilacionistas’ e sim de ‘uso incorreto das Escrituras pelos defensores da “imortalidade da alma”’. Se o objetivo declarado da exposição contida no quadro era “exemplificar o que é uma má aplicação de um texto”, ele foi - sem qualquer dúvida - plenamente atingido.

(VOLTAR)

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ABREVIATURAS DAS VERSÕES BÍBLICAS CITADAS NESTE ARTIGO

EM PORTUGUÊS

 

EM INGLÊS

ACR Almeida Corrigida e Revisada Fiel   AMP Amplified Bible
AIB Almeida Imprensa Bíblica   APE Aramaic Bible in Plain English
ALA Almeida Atualizada   ASV American Standard Version
Alf Bíblia Alfalit   BBE Bible in Basic English
APA Bíblia Sagrada de Aparecida   BRG Blue Red and Gold Letter
APF Antonio Pereira de Figueiredo   CEB Common English Bible
ARA Almeida Revista e Atualizada   CEV Contemporary English Version
ARC Almeida Revista e Corrigida   CJB Complete Jewish Bible
BJ A Bíblia de Jerusalém   CSB Holman Christian Standard
BLH Bíblia na Linguagem de Hoje   DBY The Darby Translation
BMD Bíblia Mensagem de Deus   DLNT Disciples’ Literal New Testament
BV Bíblia Viva   Dy Douay Version
CAP Missionários Capuchinhos   ED The Emphatic Diaglott
CBC Centro Bíblico Católico   ERV Easy-to-Read Version
CNBB Conf. Nacional dos Bispos do Brasil   ESV English Standard Version
EP Edição Pastoral   EXB Expanded Bible
FAC Bíblia Fácil   GNT Good News Translation
LI O Livro   GNV Geneva Bible
MH Mateus Hoepers (NT)   GW God's Word Translation
MS Matos Soares   HNV Hebrew Names Version
NBV Nova Bíblia Viva   ICB International Children’s Bible
NTLH Nova Tradução na Linguagem de Hoje   ISV International Standard Version
NVI Nova Versão Internacional   JPS Tanakh – Jewish Public. Society
PER A Bíblia do Peregrino   JUB Jubilee Bible 2000
PIB Pontifício Instituto Bíblico (NT)   KJV King James Version
SBB Sociedade Bíblica Britânica   Kx Knox Version
TB Tradução Brasileira   LEB Lexham English Bible
TEB Tradução Ecumênica   MEV Modern English Version
THO Bíblia de Referência Thompson   MOU Mounce Reverse-Interlinear NT
TNM Tradução do Novo Mundo   MR The Modern Reader’s Bible
VOZ Editora Vozes   MSG The Message
      NAB New American Bible
      NABRE New American Bible (Revised)
      NAS New American Standard
      NCV New Century Version
      NET New English Translation
      NIRV New International Reader's Version
      NIV New International Version
      NKJV New King James Version
      NLT New Living Translation
      NLV New Life Version
      NOG Names of God Bible
      NRS New Revised Standard
      OJB Orthodox Jewish Bible
      RHE Douay-Rheims
      RSV Revised Standard Version
      TLB The Living Bible
      TLV Tree of Life Version
      TMB Third Millennium Bible
      TNIV Today's New International Version
      TYN Tyndale Bible
      VOI The Voice
      WBT The Webster Bible
      WE Worldwide English (NT)
      WEB World English Bible
      WNT Weymouth New Testament
      WYC Wycliffe Bible
      YLT Young's Literal Translation

 

(VOLTAR)

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NOTAS DE RODAPÉ:

1 A matéria intitulada “O Que Acontece Quando Morremos?” é uma das muitas que atestam isso. Há nela muitas citações de textos bíblicos, com bem pouca argumentação acompanhante.

2 A situação aqui é similar ao que ocorre no caso das expressões “Deus trino” ou “trindade” (também ausentes no texto canônico). Nenhum leitor da Bíblia questionaria que os termos “Pai”, “Filho” e “Espírito Santo” estão presentes lá, sendo, inclusive, mencionados juntos em alguns versículos. Contudo, afirmar que se trata duma "Trindade" - “três pessoas num só Deus, coiguais e coeternas” - é outra história! (Aos leitores que tiverem interesse em questionamentos do conceito da Trindade, indicamos as obras “O Único Deus Verdadeiro” – Um Estudo Bíblico Sobre a Trindade, de Jay Dicken e O Relacionamento Entre o Pai e o Filho, de Ron E. Frye. Ambas estão disponíveis em PUBLICAÇÕES. Veja também o artigo "Não Existe Doutrina da Trindade no Novo Testamento", de Hans Küng.)

Não há maneira de provar que o apóstolo Paulo estava aqui “dividindo” o ser humano em uma quantidade específica de “partes”, assim como nenhum estudioso da Bíblia tem autoridade para afirmar taxativamente que são apenas estas três partes que definem o homem. O uso que os defensores do conceito da "imortalidade da alma" fazem da declaração no versículo de 1 Tessalonicenses 5:23 como base para a definição do ser humano como uma “tricotomia” é totalmente casual; puramente uma questão de escolha dum versículo isolado, feita pelos que gostariam de “dividir” a natureza humana desse modo. Esta escolha foi feita a esmo.

Em 2 Coríntios 7:1, o mesmo apóstolo disse: “Amados, visto que temos essas promessas, purifiquemo-nos de tudo o que contamina o corpo e o espírito, aperfeiçoando a santidade no temor de Deus.” (NVI) Devemos entender, então, com base nesta frase, que o ser humano é uma “dicotomia”, composta por “corpo” e “espírito”? Por que o apóstolo não mencionou a “alma” aqui? Ou será que a “alma” não pode ser ‘contaminada’?

No Evangelho de Marcos 12:30, Jesus disse (citando a Lei Mosaica): “Ame o Senhor, o seu Deus de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e de todas as suas forças’.” (NVI). Deveríamos agora cunhar uma nova palavra ("quadricotomia", talvez?), para definir o ser humano como um “conjunto de quatro partes” – “coração”, “alma”, “mente” e “força” – pelo fato de Jesus e Moisés terem mencionado estes quatro elementos? Por que o "espírito" não foi mencionado por eles? Ou será que o "espírito" não tem qualquer relação com o amor que devemos ter a Deus?  

3 A situação é idêntica no caso das versões em outros idiomas. Como este fato traz problemas óbvios para a interpretação deles, alguns defensores da imortalidade da alma se inclinam a discordar da ideia de que essas outras palavras são “sinônimas” de Seol, afirmando que elas nem deveriam ser usadas para traduzir este termo hebraico. Mas esta é outra questão, que teria de ser debatida longamente, o que foge ao escopo deste trabalho. Permanece o fato de que os tradutores credenciados da Bíblia não pensaram desse modo. Para começar, ainda que alguém conseguisse provar conclusivamente que o termo Seol é “intraduzível” e deve ser apenas transliterado do hebraico para os demais idiomas, de maneira que os tradutores erraram em usar essas palavras, centenas de excelentes versões bíblicas em todos os idiomas pelo mundo afora teriam de passar por uma revisão radical!

Todavia, nem mesmo uma ação drástica desse tipo solucionaria o problema dos apologistas da imortalidade da alma. Pelo contrário, só o aumentaria. Por que? Porque, para começar, todas as versões passariam a situar claramente o corpo morto (ou partes dele) no Seol, em todos os versículos. Ademais, logo se poderia levantar a seguinte questão: Por que proceder desta maneira apenas com o termo “Seol” e não com os demais termos hebraicos que estão diretamente relacionados com essa discussão? Por exemplo, o termo nephesh, que é traduzido por “alma”, “ser”, “pessoa”, etc.  Se esse termo fosse simplesmente transliterado em todos os lugares onde ele aparece no texto hebraico, isso anularia qualquer argumentação baseada em ‘sentidos restritos’ da palavra. Para citar apenas um caso, a partir do momento em que Ezequiel 18:4 afirmasse que “a nephesh que pecar, essa morrerá”, que base haveria para se insistir que ‘a “nephesh” nesse texto quer dizer “pessoa” e esta é a que morrerá, mas a “verdadeira nepheshnão morre’? Se ninguém tivesse sequer autorização para usar outras palavras para traduzir os termos hebraicos, será que ainda restaria alguma margem para “sentidos restritos”? E, pior ainda, deveríamos basear o nosso entendimento nesses “sentidos restritos” ocultos, enquanto fingimos ignorar (ou tentamos contradizer) o que os textos afirmam clara e inequivocamente sobre o termo “intraduzível”?

4 Um leitor deste artigo chamou imediatamente atenção para a ausência da Tradução do Novo Mundo (TNM) entre as versões bíblicas citadas no quadro “Sobre a ALMA”, sugerindo que essa ausência detrai de alguma maneira a validade da evidência conjunta provida pelas demais versões que foram citadas no quadro.

É verdade que a versão oficial das Testemunhas de Jeová não foi citada neste quadro, nem no outro quadro (“Sobre o CORPO”) e praticamente nenhuma vez ao longo do artigo (a não ser nos casos em que foi comentada uma citação dela no artigo analisado). E é também verdade que isso foi proposital. Esta versão foi deliberadamente evitada neste artigo. Por que? Não por existir alguma dúvida quanto ao valor da versão, em si. Pelo contrário, sabemos que ela é uma versão respeitável, até mesmo entre alguns na comunidade erudita. Os próprios responsáveis pelo Mentes Bereanas possuem diversas edições dela e lhe dão valor. A razão básica de ela não ter sido citada neste artigo específico é devido ao preconceito contra esta versão que é fomentado por alguns pretensos eruditos bíblicos. E não só isso: além de serem responsáveis por fomentar esse preconceito, a evidência mostra que estes só a citam quando isso é conveniente para eles. Quando esta versão bíblica está em desacordo com os conceitos particulares que defendem, eles levantam contra ela as mais variadas críticas, e fazem tudo para desmerecê-la.

É interessante que numa publicação que foi enviada ao Mentes Bereanas aparecem diversas referências, tanto às Testemunhas de Jeová, como à sua Tradução do Novo Mundo. Entre outras coisas, a publicação afirma que as Testemunhas de Jeová “aderiram ao pensamento aniquilacionista”, que elas “são, talvez, o maior grupo religioso que existe com crença aniquilacionista”, que elas têm um “conceito materialista do aniquilacionismo”, e que elas “não têm o intuito de transmitir, ‘em termos inteligíveis’, frases difíceis do grego original, mas sim impedir que seus leitores enxerguem aquilo que a Bíblia realmente diz”. Com relação à Tradução do Novo Mundo, a publicação afirma que esta versão bíblica ‘produz leitores de mentalidade aniquilacionista’, que ela “subverte” textos, que sua comissão de tradutores ‘sabe que a tradução de determinados textos está errada’, mas mantém deliberadamente a “tradução espúria para dar suporte a uma releitura não autorizada do texto”, que eles fazem “ajustes”, “ligeiras correções” e até usam “subterfúgios” na tradução, para, por meio dessa “técnica”, manipular a mente dos leitores, induzindo-os a aceitar o ‘pensamento aniquilacionista’ deles.

Diante disso, parece muito estranho – e bem descabido – algum proponente do conceito da imortalidade da alma levantar questão quanto à ausência de citação da TNM neste artigo. Se, como visto acima, eles se dispõem a fazer todas essas críticas contra esta versão e afirmam – categoricamente e repetidas vezes – que ela é patrocinada por uma “religião aniquilacionista” e ‘produz leitores de mentalidade aniquilacionista’, como podem eles criticar outros autores (que classificariam também como “aniquilacionistas”) caso estes optem por não citá-la em alguma matéria, enquanto, ao mesmo tempo, eles são os primeiros a citar justamente esta versão que tanto criticam como “autoridade” em seus escritos, usando-a para “refutar” o que dizem outras versões bíblicas? Onde é que está a coerência nisso? Seria errado aplicarmos a frase bíblica “dois pesos e duas medidas” a este procedimento?

5 É verdade que em muitas versões não aparecem expressões qualificadas, tais como “homem morto”, “pessoa morta” ou “alma falecida”. Mas isso não quer dizer que essas versões abrem margem para uma reformulação, já que qualquer leitor pode perceber facilmente que isso está implícito. Por exemplo, a ALA verte o texto da seguinte maneira: “Aquele que tocar o cadáver de algum homem, será imundo sete dias.” Além de o termo hebraico nephesh ter sido traduzido aqui como “homem” (em vez de “pessoa” ou “alma”), não foi dito que o homem está morto. O tradutor desta versão não incluiu o qualificativo “morto” após a palavra “homem”. Mas, haveria necessidade disso? É óbvio que não! O acréscimo da palavra “morto” seria uma redundância. Que pessoa normal concluiria que, porque o qualificativo não está no texto, é só o corpo (“cadáver”) que está morto, mas o “homem” está vivo? Incrivelmente, porém, esta é a “lógica” usada no caso da palavra “alma”, mesmo quando esse termo vem acompanhado pelo qualificativo “falecida”!

6 Este levantamento comparativo das versões em inglês foi feito com base numa consulta ao site Bible Study Tools em dezembro de 2013.

7 Entre as versões em língua portuguesa que usam a palavra “pensamentos” no Salmo 146:4 estão a de João Ferreira de Almeida e a da Sociedade Bíblica Britânica.

8 Em seu persistente esforço de obscurecer o ensino bíblico do homem como uma unidade integral, com o fim de dar base às suas teorias, alguns promotores da imortalidade da alma não conseguem se manter fiéis nem mesmo ao conceito de “pessoa tricotômica” que tanto defendem. A racionalização que foi usada aqui para tentar contornar a evidência provida pela declaração positiva do Salmo 146:4 desautoriza por si só qualquer ideia de “tricotomia”. Será que depois da morte (a suposta “separação” entre as “partes” da “pessoa tricotômica”) a “alma espiritual” (ou o “espírito desencarnado”) assume uma “personalidade” inteiramente diferente da que tinha enquanto era parte da “pessoa tricotômica” completa, o “ser humano” que vivia na terra? É verdade que a “alma” (ou o “espírito”) continuam ativos, mas toda a experiência (“qualquer coisa que o homem pense e planeje”) que o indivíduo tenha vivido enquanto era uma “pessoa tricotômica” se apaga integralmente? Devemos entender que nada dessa experiência se mantém agregada à “alma espiritual” ou ao “espírito desencarnado” (teoricamente as duas partes restantes do que antes era uma “pessoa tricotômica”); tudo o que possa ter caracterizado a vida dessa pessoa “qual ser humano [“tricotômico”]” ‘se acabou ou pereceu’ por ocasião da morte?

9 O sentido da palavra “dogma” no grego original era “o que se pensa ser verdade”, ou seja, uma simples crença ou convicção pessoal de algo. Na esfera religiosa, “dogma” veio a significar qualquer ideia estabelecida por uma autoridade eclesiástica, que deve ser aceita por todos os seus subordinados (sendo apresentada, naturalmente, com um manto de verdade “evangélica”, “divina”, “incontestável”). Em qualquer caso, portanto, a validade de um dogma depende inteiramente da vontade humana. Sendo assim, uma das partes de um debate sugerir que a posição defendida pelo oponente é inválida, por não passar de uma “dogmatização” do assunto é inútil, já que a parte oponente poderia alegar facilmente a mesma coisa. O apelo a esse tipo de “argumento” não contribui em nada para validar (ou invalidar) a ideia defendida por quem quer que seja. Ele constitui, na verdade, um argumento ad hominem.

10 Uma das muitas incoerências geradas pelo entendimento literal desta parábola (e que nenhum dos seus proponentes se habilitou a explicar até o momento) é esta: O versículo seguinte, Lucas 16:23, diz que o homem rico “no hades, ergueu os olhos, estando em tormentos, e viu ao longe a Abraão, e a Lázaro no seu seio.” (ALA; “olhou para cima e viu Abraão de longe, com Lázaro ao seu lado.”, NVI). Ou seja, não foi uma “região” que o homem rico viu de longe, e sim o próprio Abraão e Lázaro – duas pessoas – uma ao lado da outra, estando ambas em algum local. E quem estava “no seu seio” era Lázaro, apenas. Surgem imediatamente as perguntas: O relato inteiro é ou não é para ser entendido literalmente? Se não é para ser entendido literalmente na inteireza, quem determina quais partes são simbólicas e quais são literais? Se tudo o que se fala sobre o Hades (chamas, tormentos, etc.) é para ser entendido literalmente (ou como ‘uma “declaração categórica da Bíblia” que confirma a imortalidade da alma e o tormento consciente’), que razão temos para não entender o versículo 23 também literalmente? Quem foi que disse que devemos entender este versículo como uma referência a alguma ‘região plácida do Hades, chamada “Seio de Abraão”’? Acaso estaria “Abraão” dentro de seu próprio “seio”?

11 As versões em geral (e isso em qualquer idioma) falam de se ‘livrar a vida do túmulo’ ou ‘livrar a alma do poder da morte’. Em nenhum caso é possível extrair a ideia de algo permanecer vivo neste domínio.

12 Vale lembrar mais uma vez que é precisamente dessa “maneira absolutamente literal” que muitos se sentem bem à vontade para entender e explicar trechos tais como a parábola do “homem rico e Lázaro” e a referência do Apocalipse a ‘almas gritando debaixo dum altar’. (E, como é costumeiro, omitem-se de dar solução para os muitos absurdos gerados pelo seu entendimento “absolutamente literal”.) Como foi dito no início desta análise, o que caracteriza a maioria dos textos em consideração aqui é a linguagem positiva; direta. É completamente descabido, pois, os proponentes da imortalidade da alma e do tormento consciente tentarem enfraquecer a evidência desses textos com base na alegação de que seus oponentes os entendem “de maneira absolutamente literal”, quando eles próprios fazem o mesmo, e justamente onde não deveriam fazê-lo: em textos caracterizados por uma linguagem comprovadamente simbólica ou parabólica.

13 Em Lógica, essa falácia argumentativa é chamada de “espantalho”. Em vez de atacar a evidência, ataca-se um falso argumento, que foi criado pelo próprio atacante. No caso em discussão, essa falácia foi combinada com a do “falso dilema”: Como a expressão “para os mortos não há mais recompensa” foi deturpada, criou-se artificialmente um conflito “bíblico” que só pode ser “solucionado” se os leitores aceitarem a ideia de que alguma parte da “pessoa tricotômica” do homem continua viva após a morte!

14 Frases imperativas tais como “é sob o ponto de vista dos que ficam na Terra que Eclesiastes 9:5, 6 deve ser compreendido” são notórias porque elas ocorrem lado a lado com as menções ao 'dogmatismo' — atribuído aos que aceitam o que esse texto diz diretamente sobre “os mortos”, e não uma releitura baseada em “ponto de vista dos vivos”.

15 Para os leitores que conhecem bem o sistema doutrinário da Torre de Vigia, essa tentativa de abrir exceções para a palavra “nada” faz lembrar imediatamente a abordagem que os líderes desta instituição religiosa dão à palavra “todos” em Romanos 8:14, para impor aos seus subordinados a ideia de que esta palavra se aplica unicamente a um pequeno e específico grupo de pessoas na Terra (os “ungidos”), e não a todos os que andam pelo espírito (como diz o texto). Pelo visto, a disposição de inventar novas definições, bem como a tentativa de “abrir exceções” para termos absolutos não é incomum no caso dos que vão a todos os extremos na tentativa de invocar apoio bíblico para conceitos extra-bíblicos, tais como os que estão sendo analisados neste artigo.

16 Depois de ler isso no Anuário, certa ex-Testemunha de Jeová comentou: ‘Por que os escritores desta carta [o Corpo Governante das Testemunhas de Jeová] precisam acrescentar palavras ao texto bíblico?... Porque o texto não diz o que eles querem. É necessário distorcê-lo.’ (Grifos acrescentados).

17 Procurando neutralizar a declaração inequívoca deste texto, certa matéria que nos foi indicada (para “reflexão”) empenhou-se em discutir qual teria sido "realmente" o pecado de Saul, argumentando que ‘a Lei de Israel não proibia acreditar em vida após a morte’. Esta repetição do óbvio é uma digressão que não acrescenta nada. 1 Crônicas 10:13 especifica de maneira inteligível qual foi exatamente o erro de Saul, de modo que não há a menor necessidade de “pontificar” sobre isso. Em momento algum as crenças de Saul foram discutidas. E é claro que a Lei não proibia esse tipo de coisa! As normas da Lei de Deus a Israel referiam-se a ações; nenhuma delas entrava no mérito das crenças pessoais de quem quer que seja. Por-se a discutir isso é mais um apelo ao sempre-presente argumento da "visibilidade pela ausência", misturando questões. O fato de uma determinada ação ter sido proibida na Lei não pode ser usado para validar alguma crença que levaria a tal ação.

Por exemplo, a mesma Lei estabelecia também que os israelitas ‘não deveriam ter outros deuses além de Iavé’ (Êxodo 20:2, 3). O culto e o serviço a outros deuses foram estritamente proibidos. Contudo, poderia alguém encontrar entre as disposições da Lei alguma proibição de acreditar na existência desses deuses? A resposta é óbvia. Deveríamos agora tirar a conclusão de que a ausência desse tipo de proibição deve ser porque tais ‘deuses’ têm existência real? Estaria a proibição do culto a eles validando essa ideia? Vez após vez este regulamento foi desrespeitado, tendo a maioria da nação virado as costas para o Deus verdadeiro, indo atrás de deuses diferentes, promovendo zelosamente os rituais deles, e até mesmo perseguindo os poucos que não fizeram essas coisas e se mantiveram fiéis a Iavé. Será que tudo isso quer dizer, então, que tais deuses existiam mesmo? Quão absurdo seria raciocinar dessa maneira! A existência (ou não) deles é outra questão, que simplesmente não foi discutida na Lei. Por mais que seus adoradores acreditassem fervorosamente na divindade e no poder deles – e por mais que muitos israelitas tenham sido seduzidos a crer no mesmo – tais ‘deidades’ eram – e continuaram sendo – tão irreais como sempre foram; o “poder” delas não passava duma miragem, nada mais que um produto da imaginação de seus devotos, sendo toda essa adoração inútil. Aliás, o principal motivo de tantos israelitas irem atrás desses ‘deuses’ estrangeiros foi precisamente por terem vindo a acreditar na existência deles. Em termos simples e sem rodeios: por terem acreditado numa falsidade!

O mesmo raciocínio aplica-se perfeitamente a outros conceitos, tais como o da “vida após a morte”. Não é verdade que, tanto na antiguidade como atualmente, os que procuram ‘fazer contato’ com mortos (ou promover esta prática) são justamente os que acreditam que eles continuam vivos? Quem não crê nisso obviamente não verá motivo algum para fazer essas coisas. Porém, tanto a crença como a descrença – em si mesmas – não servem para provar absolutamente nada, seja num sentido ou no outro. Apresentar a proibição da ‘consulta aos mortos’ como uma indicação de que ‘eles estão conscientes e podem transmitir informações’ é um erro primário. Tão primário quanto afirmar que a proibição do culto a outros deuses comprova a existência deles! Em momento algum a Lei de Deus a Israel sugeriu tais coisas! Os infiéis em Israel podem até ter vindo a acreditar que é assim, mas isso não torna tais ideias verdadeiras. Ainda que o Rei Saul e os homens que o acompanhavam acreditassem piamente que foi mesmo Samuel quem se manifestou naquele caso (por crerem em "consciência da alma após a morte" e que a adivinhadora teria algum poder de “evocar espíritos de mortos”), isto não coloca automaticamente tais ideias na categoria de fatos. A verdade é simplesmente esta: as crenças daqueles desobedientes – quaisquer que tenham sido elas – não comprovam coisa alguma sobre “vida após a morte”, nem estabelecem a identidade de quem se manifestou através da médium.

18 “E quando vocês orarem, não sejam como os hipócritas. Eles gostam de ficar orando em pé nas sinagogas e nas esquinas, a fim de serem vistos pelos outros. Eu lhes asseguro que eles já receberam sua plena recompensa. Mas quando você orar, vá para seu quarto, feche a porta e ore a seu Pai, que está em secreto. Então seu Pai, que vê em secreto, o recompensará.” (Mateus 6:5, 6, NVI).

Estas palavras de Cristo mostram que não deve haver sequer a intenção de “ser visto por outros” por parte de qualquer um que louve a Deus. Embora o louvor possa ser rendido em grupo (no caso das canções, por exemplo), não é isso que o caracteriza. O louvor é primariamente um ato pessoal. Este pronunciamento de Cristo mostra que não está em questão se este ato é visto por outros homens ou não, e sim por Deus, a quem o louvor se dirige e “que vê em secreto” cada pessoa que está fazendo isso, de maneira individualizada. Tudo o que o Salmo 115:17 diz é que este “ato pessoal” não é realizado por pessoas (almas) mortas. A inclusão desnecessária dessa ideia de “coletividade” na discussão tem o propósito exclusivo de obscurecer o assunto; é nada mais que uma tentativa de se esquivar da evidência provida pela frase clara desse Salmo e dos outros.

19 Vale mencionar também que, embora os hinos sejam cantados em grupo, a iniciativa da composição deles normalmente é de um indivíduo, sem qualquer necessidade de isso ser feito “publicamente”, diante de outros homens. Sem alguém para compor não haveria canções de louvor. O próprio Rei Davi, bem como o filho dele, Salomão, compuseram milhares de Salmos (a letra e a canção). Naturalmente, pessoas (almas) mortas não poderiam tomar essa iniciativa de elaborar composições para serem cantadas “em coletividade”.

20 A Bíblia Apologética foi publicada originalmente em 2000 pelo Instituto Cristão de Pesquisas (São Paulo, Brasil).

21 Isto é comparável a citar o Salmo 14:1 assim: “Deus não existe... não há ninguém que faça o bem”– com o objetivo de induzir os leitores à ideia de que "a Bíblia diz" que ‘não existe Deus, nem quem faça o bem na Terra’! Eis o versículo completo: “Diz o tolo em seu coração: “Deus não existe”. Corromperam-se e cometeram atos detestáveis; não há ninguém que faça o bem.” (NVI). Como no caso acima, a citação na íntegra faz o assunto mudar completamente de figura.

22 Se as expressões ressuscitados e levantados dentre os mortos fossem entendidas pelo que realmente significam não haveria porque colocá-las entre aspas. Trata-se de mais um caso de recusa de aceitar definições de termos bíblicos, com o único propósito de “adaptá-los” a uma ideia extra-bíblica.

23 É outro exemplo de como o desejo de impor a teoria da “imortalidade da alma” como algo “baseado na Bíblia” obriga seus defensores a se saírem com esse tipo de “racionalização”. Comparar a ressurreição com uma mera “transferência de endereço” é pior do que comparar um palácio com um casebre. (Embora a semelhança neste caso não vá além do fato de ambos terem paredes e uma porta, pelo menos existe alguma semelhança.) É extraordinário que se possa sequer conceber que Jesus consideraria uma perversão desse nível como uma “boa aplicação” das palavras dele! Outro “argumento” dessa mesma categoria é tentar estabelecer similaridade entre a ressurreição e o procedimento da “clonagem”. Embora o desenvolvimento da clonagem genética tenha ocasionado muita euforia popular (e até mesmo entre a comunidade científica) ela se restringe a isso: manipulação de material genético. A “clonagem de pessoas” e, mais ainda, a possibilidade de uma pessoa coexistir com seu “clone” – a mesma pessoa em corpos diferentes – são ideias bem adequadas para serem exploradas em filmes de ficção científica, cujo único objetivo é o entretenimento popular, dificilmente algo para uma pessoa normal levar a sério. Imaginar – e publicar – que a ressurreição dos mortos bíblica poderia ter algum paralelo com isso, por mínimo que seja, equivale a uma falta de respeito para com esta provisão de Deus ou, na melhor das hipóteses, é uma demonstração de falta de entendimento do conceito de “pessoa” (“alma”) que é apresentado nas Escrituras.

24 Entre as versões em inglês temos as palavras “diante de” (NIV, ASV, BBE, CEB, RHE, HNV, CSB, KJV, LEB, NKJV, RSV, DBY, WBT, WEB, YLT), “abertos para” (CJB), “abertos diante” (ESV, NAS, NIRV, NRS, TNIV, WYC), “abertos na frente” (GW), “são conhecidos por” (NLT), “são do interesse de” (TMB), “não escondem segredos de” (MSG), “sabe o que está lá” (GNT), “sabe o que está acontecendo” (NCV). (Consulta feita ao site Bible Tools em dezembro de 2013). Os termos usados pelos tradutores não dão qualquer ideia de ação ou movimento e sim de transparência. Mesmo a expressão “sabe o que está acontecendo”, usada pelos tradutores da NTLH e na NCV, não prova, em si mesma, a existência de “ação” no lugar em questão (o argumento de que Deus sabe que lá não está acontecendo nada é cabível e, se for levado em conta tudo o que os demais textos bíblicos dizem sobre o Seol, esta é a hipótese mais provável). A ênfase do texto em todas as versões é que nada está escondido dos olhos de Deus e não que alguma coisa “transcorre” no Seol.

25 Note-se que a razão de os eruditos citados terem chegado à conclusão correta, ou seja, que esse ‘levantar-se dos mortos (sombras)’ não tem nada que ver com “almas voltarem para este mundo”, nem com “ressurreição”, foi por eles terem levado em consideração o contexto; a informação completa do Salmo. O que difere do procedimento seguido aqui. No trecho em questão, o Salmo 88:10, 11 até foi mencionado, mas só foi citado o versículo 10, que diz que os "mortos" (ou “sombras”) ‘não se levantam para louvar a Deus’, omitindo-se o versículo 11, que informa onde eles não fazem isso. Aqui, isso foi feito para se esquivar da evidência de que os mortos não louvam a Deus no Seol, um fato que alguns defensores da “imortalidade da alma” recusam-se terminantemente a admitir. Lamentavelmente, essa omissão de informação com o intento de suprimir evidência indesejável não é um caso isolado.

É realmente descabido apresentar um trabalho expositivo como “análise bíblica” (acompanhando isso com termos auto recomendatórios tais como 'pesquisa cabal', 'bem detalhada', 'séria', 'profunda', etc.), mas em vários momentos expor parcialmente a informação bíblica relacionada com a discussão, omitindo trechos do contexto que são fundamentais para que os leitores tenham um quadro completo da informação, e possam chegar a uma conclusão abalizada. Pior do que isso é transferir para o público a responsabilidade pela pesquisa completa, apresentando a desculpa de que ‘os leitores poderiam facilmente verificar informações (cruciais) que foram omitidas, bastando que eles mesmos consultem diretamente a Bíblia’. Isto é, na realidade, uma admissão de exegese deficiente.

26 Outras versões do Salmo 6:5: “Quem morreu não se lembra de ti. Entre os mortos, quem te louvará? (NVI); “Porque no seio da morte não há quem de vós se lembre; quem vos glorificará na habitação dos mortos?” (CBC); “Pois na morte ninguém se lembra de ti, quem te louvaria no Xeol?” (BJ); “Pois no mundo dos mortos não és lembrado, e ninguém pode te louvar.” (NTLH); “Pois na morte não há recordação de ti, No Cheol quem te dará louvor?” (SBB). Todas estas versões deixam claro, além de questionamento, que é no Seol que o louvor a Deus não ocorre. Aqui também seria inútil qualquer esforço de encontrar algum “sentido alternativo” para a palavra “louvor”, ou então transformar a sentença negativa do texto numa “mera questão de ponto de vista dos que ficam na Terra”. Parece ser evidente a razão de esta segunda frase do texto – que trata especificamente do louvor a Deus – ter sido ignorada na aplicação que foi proposta.

27 Em outro esforço de contornar a evidência – e após dividirem arbitrariamente o Seol em “regiões” – alguns se apegam à ideia de que a alma de Cristo foi para o “seio de Abraão”, louvou a Deus lá, etc. Isso não é apoiado pelas Escrituras. Na parábola do “rico e Lázaro”, o “rico” estava no “Hades” e “Lázaro” estava ao “seio de Abraão”. No caso de Cristo, a informação é clara: a alma dele estava “no Hades” (nada se falou sobre “seio de Abraão”) e as palavras inspiradas do salmista, aplicadas a ele, ainda expressaram a expectativa ansiosa de que Deus ‘não deixaria sua alma lá’. Isso não condiz com a teoria de ele ter ido para alguma ‘região idílica’ chamada “seio de Abraão”.

28 Infelizmente, essa forma de abordar Gênesis 2:7 – citando somente parte do versículo e “esquecendo” o restante (para transmitir a impressão de que os contestadores do conceito da “imortalidade da alma” baseiam-se unicamente na informação limitada), e daí transferindo rapidamente a discussão para o que dizem outros trechos bíblicos – não é o pior caso de exegese deficiente. Não é difícil encontrar na literatura dos proponentes da “sobrevivência da alma após a morte” casos de manipulação muito mais grosseira. Por exemplo, tentativas de ‘colocar na boca’ dos contestadores declarações que foram feitas por imortalistas!

Certa “análise bíblica” que nos foi recomendada (e com louvor!) atribuiu aos mortalistas a "visão" de que a morte duma pessoa às mãos dos homens equivale a aniquilamento imediato ou destruição total dessa pessoa. Em seguida (na mesma página da “análise bíblica”) transmitiu-se a impressão de que os mortalistas discordam que a palavra “alma” tenha mais de um significado na Bíblia e que ela vai para o Hades por ocasião da morte!

Poderia haver uma falsidade maior do que essa? Jamais um mortalista sugeriu qualquer uma dessas coisas! No caso da morte às mãos dos homens, o que eles de fato dizem é exatamente o contrário: A morte da alma (pessoa) causada por homens (conforme expresso em Ezequiel 18:4, 20, Mateus 10:28, e muitos outros trechos bíblicos) não equivale de jeito nenhum a “aniquilamento” ou “total destruição” dessa alma (pessoa). Isto é uma coisa que só Deus, e não algum homem, pode fazer. É nisso que os mortalistas acreditam – e foi isso mesmo o que Jesus declarou em Mateus 10:28!  Quem quer que tenha afirmado que ‘quando os homens matam uma pessoa isso causa seu aniquilamento imediato ou destruição total’, não foi um mortalista, e certamente não Jesus.

Da mesma forma, em se tratando dos significados básicos da palavra “alma” nas Escrituras, todos os mortalistas sabem que são “ser (pessoa) vivente” e/ou “vida” (O leitor pode confirmar isso em Algo Mais Sobre as Tentativas de Obscurecer Conceitos.) O que os mortalistas de fato dizem, com base bíblica, é que entre os significados da palavra “alma” não se encontra o de “parte do homem que vive após a morte”. Os melhores esforços dos proponentes da “imortalidade da alma” para encontrar alguma declaração bíblica que diga, ou pelo menos sugira essa acepção sempre redundaram em fracasso.

Os mortalistas sabem também que sempre que a Bíblia menciona a alma morta, ela está se referindo a uma criatura que foi para o Hades. Jamais algum mortalista afirmou o contrário disso! Pelo que sabemos, nenhum mortalista vive inventando “sentidos restritos” ou “aplicações especiais” para a palavra “alma”, para embasar a teoria de que nos (muitos!) casos em que a Bíblia fala numa alma morta, ela ‘não está se referindo à alma que vai para o Hades’. Outra coisa que os mortalistas de fato dizem, com a mesma base bíblica, é que as almas (pessoas) falecidas no Seol (Hades) encontram-se inativas e inconscientes. Existem imortalistas, ao contrário, que lutam freneticamente, ‘fazendo o possível e o impossível’, para tentar "provar biblicamente" que os mortos no Hades estão sim ativos e conscientes. Como tem sido demonstrado vez após vez (e não só por nós, diga-se de passagem), por mais árduos que sejam tais esforços, eles também sempre fracassam, já que não há como estabelecer "base bíblica" para esta ideia.

Atribuir capciosamente determinadas 'visões' aos mortalistas (mediante 'jogos de palavras' para tentar confundir os leitores) 'colocando palavras na boca deles' depõe seriamente contra a credibilidade de certas fontes imortalistas. É um clamoroso insulto à Bíblia e à inteligência dos leitores incluir declarações enganosas desse tipo dentro de uma chamada “análise bíblica”.

29 Entre as versões mais conhecidas em língua portuguesa, a NVI é a única cujos tradutores usaram o termo “vida” em 1 Reis 17:21, 22. No caso das principais versões em inglês a situação é bem diferente. Uma consulta ao site Bible Study Tools, realizada em dezembro de 2013 mostrou que o termo “vida” é usado em NIV, BBE, CEB, ESV, GW, GNT, CSB, LEB, NAS, NCV, NIRV, NLT. NRS e TNIV. O termo“alma” é usado em ASV, CJB, RHE, HNV, KJV, NKJV, RSV, DBY,  WBT, TMB, WEB, WYC e YLT. MSG usa o termo “fôlego”. Ou seja, as versões onde aparece algum termo diferente de “alma” são em maior número. Se fosse verdade que ‘a linguagem desse texto não indica que essa “alma” fosse simplesmente a vida’, todas estas versões teriam de passar por uma revisão imediata!

30 A situação é idêntica no caso das versões em outros idiomas.

31 O artigo (já indicado) É a Alma Imortal? (Mateus 10:28 e o Dualismo) apresenta argumentação neste sentido.

32 Qualquer criança sabe que o ato de tirar deliberadamente a vida de um ser humano inocente é errado em qualquer dia, não só no sábado. Sendo assim, não haveria a menor lógica em Jesus perguntar aos fariseus se seria "certo", "lícito" ou "permitido" assassinar alguém num dia de sábado! Devemos imaginar Jesus fazendo uma pergunta tola dessas? Ao repreender a atitude hipócrita daqueles homens, o que Jesus quis saber foi se eles se absteriam de realizar uma ação benéfica em favor duma criatura (que poderia até resultar na salvação da vida desta), em nome de algum alegado ‘respeito à lei do sábado’. Aliás, quando a questão do sábado vinha à baila, o âmago da discussão era sempre esse: omissão de fazer alguma coisa, pelo fato de ser sábado. E o apelo à lógica por parte de Jesus era sempre o mesmo. Nesta mesma reprimenda mencionada por Mateus, Jesus incluiu a seguinte pergunta: “Qual de vocês, se tiver uma ovelha e ela cair num buraco no sábado, não irá pegá-la e tirá-la de lá?” (Mateus 12:11, NVI) A pergunta não foi se eles ‘matariam deliberadamente uma ovelha no sábado’, e sim se eles deixariam sua ovelha no buraco, abstendo-se de fazer um esforço para tirá-la de lá, só porque era sábado, ocasionando-lhe possivelmente a morte. Em outra ocasião, Jesus disse: “Hipócritas! Cada um de vocês não desamarra no sábado o seu boi ou jumento do estábulo e o leva dali para dar-lhe água? (Lucas 13:15, NVI). De novo, a pergunta de Jesus não foi se eles ‘matariam deliberadamente o boi ou jumento’, e sim se eles deixariam seus animais amarrados com sede o dia inteiro, evitando realizar a ação de libertá-los e levá-los para beber, só porque era sábado, causando-lhes grave sofrimento, e talvez até a morte. Ainda em outra ocasião, Jesus perguntou: “Se um de vocês tiver um filho ou um boi, e este cair num poço no dia de sábado, não irá tirá-lo imediatamente?” (Lucas 14:5, NVI). Insistiria alguém que Jesus estava aqui falando alguma coisa sobre ‘assassinar' um filho? A resposta é óbvia. O que Jesus quis saber foi se eles hesitariam por um só instante em tirar seu filho do poço alegando ‘respeito ao descanso sabático’. Novamente, Jesus estava falando aqui de “omissão de socorro”, nada de “assassinato deliberado”.

Mudar o sentido da pergunta que Jesus fez aos fariseus, atribuindo-lhe um pensamento que ele não teve é uma flagrante manipulação das palavras dele, com o único propósito de "proteger" o conceito da “sobrevivência da alma após a morte”. Isso não constitui, de maneira alguma, “outro exemplo de que a palavra “alma” pode ser usada com sentido restrito”. É, na verdade, outro exemplo de releitura completamente equivocada.

33 Entre as versões em língua inglesa que traduziram o termo nephesh no Salmo 16:10 por alguma palavra equivalente a “pessoa”, podem ser citadas as seguintes: NIV, CJB, GNT, CSB, JUB, NCV, NIRV, NOG, NRS, RSV, MSG, TNIV e WE. Os tradutores da versão CEB procederam da mesma maneira que os da BJ: verteram o termo nephesh neste salmo como “vida”.

34 Como um exemplo adicional desse constante esforço para deturpar as palavras de Jesus e de outros personagens bíblicos no tocante à alma, certa publicação que nos foi recomendada afirmou que a palavra “alma”, usada por Jesus em Lucas 6:9 não tem o mesmo sentido que tem na declaração dele em Mateus 10:28. Em Lucas 6:9, Jesus estaria se referindo à “alma” em “sentido restrito”, ou seja, simplesmente uma “pessoa humana”. Mas, em Mateus 10:28 ele estaria falando da “verdadeira alma”, ‘aquela que vai para o Hades’.

Ora, se em ambas as ocasiões Jesus (1) usou a mesma palavrapsyche – e (2) afirmou que essa psyche morre, por que não aceitar isso simplesmente? Qual é a motivação dessa tentativa de diferenciar o sentido da palavra? Nenhuma outra, a não ser atender à mesma “agenda oculta” de sempre: estabelecer uma base para a ideia de que a “verdadeira alma” não morre. Manifesta-se claramente a “segunda intenção” por trás disso. Alguns recusam-se terminantemente a aceitar que em ambos os casos, Jesus estava falando duma pessoa e que esta vai para o Hades – e por obra dos homens. Em Mateus 10:28 ele não negou que os homens podem fazer com que alguém vá para o Hades. O que ele explicou lá foi que, mesmo que perseguidores causem a morte dum cristão (resultando em tal pessoa ir para o Hades), isto não significa a destruição deste cristão executado, já que só Deus poderia enviar alguém para a Geena, sem qualquer perspectiva de ressurreição. No caso de Lucas 6:9, se alguma pessoa referida neste texto morresse por falta de ajuda num dia de sábado, ela também iria para o Hades. Jesus não negou isso em momento algum.

Nem Jesus, nem qualquer outra pessoa na Bíblia afirmou alguma vez que 'a “pessoa humana” morre, mas a “alma que vai para o Hades” permanece viva, ficando lá numa condição ativa e consciente'. São os imortalistas que procuram o tempo todo obrigar a Bíblia a “dizer” isso! Como sempre, é a recusa teimosa deles de aceitar a informação bíblica sobre a condição dos mortos, aliada ao seu desejo ardente de introduzir de qualquer maneira suas teorias dentro das páginas da Bíblia que estão por trás desse esforço "zeloso" de inventar “sentidos restritos” para o termo “alma”, toda vez que a Bíblia fala claramente duma alma morta ou passível de ser morta por ação ou por omissão dos homens (como em Ezequiel 18:4 e nesta referência de Lucas 6:9, respectivamente).

35 O que em outras referências é “sentido restrito” foi chamado aqui de “aplicação especial”. Para dar base a isso, o foco do texto foi mudado do sujeito (“alma”) para os advérbios (“intensamente”, ‘profundamente’), aos quais o texto não faz a mínima referência. Nada mais que outra manobra de despistamento, para obscurecer o sentido da palavra “alma”.

36 Veja os comentários referentes ao Salmo 115:17 acima.

37 Este é o exemplo mais clássico da recusa terminante de aceitar definições que normalmente seriam muito claras, bem como do malabarismo que se exige para rejeitar a leitura natural das referências. Segundo esta "aplicação", quando a Bíblia fala em alma vivente e alma falecida, esses qualificativos “vivente” e “falecida” não se referem à própria alma. (Entender dessa maneira seria ‘dogmatismo’.). Não, os dois qualificativos ‘devem’ ser entendidos “do ponto de vista dos que ficam vivos na Terra”. Isto sugere que todos os escritores bíblicos que usaram estas expressões deveriam ter dito “alma vivente na Terra” e “alma falecida para os que ficam na Terramas que 'partiu' e continua 'vivente' em outro domicílio”. A obrigação desses homens seria ter deixado claro para seus leitores quais são as definições "precisas" dos termos, ou, pelo menos, que o termo "falecida" não deve ser entendido pelo que significa. Realmente uma grave "omissão" da parte deles, pois a consequência dessa "falta de clareza" foi que toda e qualquer pessoa ao longo da história que leu as Escrituras e entendeu essas expressões naturalmente, entendeu errado!

38 Sugere-se ao leitor a consideração do trecho completo, que se encontra em Ezequiel 18:1-20. A simples leitura permite confirmar facilmente que o profeta estava falando da pena de morte que era aplicada imparcial e imediatamente às pessoas (almas) que cometiam um ou mais dos delitos (pecados) prescritos na Lei Mosaica que são mencionados no trecho.

39 Note-se que Jesus sabia que não ‘entraria em seu Reino’ naquele dia (a menos, é claro, que devamos considerar o Reino de Cristo como alguma teórica “região do Hades, chamada ‘Seio de Abraão’”!) e o próprio malfeitor também sabia que não iria para o Paraíso naquele mesmo dia, pois pediu a Cristo para se lembrar dele ‘quando entrasse em seu Reino. O que Cristo disse a ele foi, em essência, que não se lembraria dele só quando chegasse aquela ocasião. ‘Hoje (ou ‘nesta data’) eu lhe garanto que estarás comigo no Paraíso’, é o sentido mais lógico se o pedido do malfeitor for levado em conta. O malfeitor pediu a Jesus para lembrar-se dele no futuro ‘quando Jesus entrasse em seu Reino’ (versículo 42), mas Jesus assegurou-lhe que estava se lembrando dele já naquele momento (‘hoje mesmo’).

Na verdade, longe de ser alguma ‘perversão de sentido’, este discurso que Jesus usou para expressar solenemente a promessa ao malfeitor arrependido é uma expressão idiomática um tanto comum nas Escrituras, especialmente no livro do Deuteronômio, onde se podem encontrar dezenas de casos de expressões verbais solenes similares que incluem a palavra “hoje”. Seguem-se alguns exemplos: “... invoco hoje o céu e a terra como testemunhas contra vocês de que vocês serão rapidamente eliminados da terra, da qual estão tomando posse ao atravessar o Jordão.” (4:26); “Que todas estas palavras que hoje lhe ordeno estejam em seu coração.” (6:6; também 7:11); “Mas se vocês se esquecerem do Senhor, do seu Deus, e seguirem outros deuses, prestando-lhes culto e curvando-se diante deles, asseguro-lhes hoje que vocês serão destruídos. (8:19) “Prestem atenção! Hoje estou pondo diante de vocês a bênção e a maldição.” (11:26);  “Se obedecerem aos mandamentos do Senhor, do seu Deus, que hoje lhes dou e os seguirem cuidadosamente, vocês estarão sempre por cima, nunca por baixo. (28:13); “Se, todavia, o seu coração se desviar e vocês não forem obedientes, e se deixarem levar, prostrando-se diante de outros deuses para adorá-los, eu hoje lhes declaro que sem dúvida vocês serão destruídos. Hoje invoco os céus e a terra como testemunhas contra vocês, de que coloquei diante de vocês a vida e a morte, a bênção e a maldição.” (30:17-19); "Guardem no coração todas as palavras que hoje lhes declarei solenemente, para que ordenem aos seus filhos que obedeçam fielmente a todas as palavras desta lei. (32:46) (NVI)

No caso do competente evangelista Lucas, esta e outras expressões idiomáticas foram usadas por ele devido à influência da Versão Septuaginta, uma tradução para o grego do Antigo Testamento que era amplamente usada pelos primitivos cristãos. Segundo um erudito, “noventa por cento do vocabulário usado por Lucas é encontrado” na Septuaginta. (Raymond E. Brown, O Nascimento do Messias: Um Comentário Sobre as Narrativas da Infância nos Evangelhos de Mateus e Lucas [Nova Iorque: Doubleday, 1993), pág. 623.]

Em harmonia com as ideias acima, em seu comentário sobre Lucas 23:43 a Oxford Companion Bible diz: “‘Hoje’ está ligado com ‘eu te digo’, para dar ênfase à solenidade da ocasião; e não com estarás’.” (Grifo acrescentado).

40 Por razões óbvias, não temos na Bíblia uma localização exata do Jardim do Éden (em termos de coordenadas geográficas [latitude / longitude], como é o procedimento usual hoje). Visto que Moisés viveu muito antes do desenvolvimento dos sistemas cartográficos, as informações dadas em Gênesis 2:8-14 sobre a localização do paraíso original são bem gerais. Todavia, do ponto de vista dos eruditos, pelo menos, não parece haver questão que o "leste" (ou "oriente"), referido lá, era em relação ao local onde vivia o escritor do Gênesis. De acordo com isso, em seu comentário sobre Gênesis 2:8, Matthew Poole disse:

Ao leste Do lugar de onde Moisés escreveu, e do lugar onde os israelitas moraram depois disso.” (Matthew Poole's Commentary [Comentário de Matthew Poole]).

Outro comentário diz:

Ao leste no Éden. — Isto não significa na parte leste do Éden, e sim que o próprio Éden era ao leste das regiões conhecidas pelos israelitas.

(An Old Testament Commentary for English Readers [Comentário ao Antigo Testamento Para Leitores de Língua Inglesa], editado por Charles John Ellicott, Cassell, Petter, Galpin & Co., Londres, Paris e Nova Iorque, Vol. 1, 1882, pág. 19).

(Os sublinhados nas duas citações foram acrescentados.)

Embora durante muito tempo tenha se pensado que o “berço da civilização” foi o Egito, hoje é praticamente consenso entre os eruditos que os primeiros assentamentos humanos se deram na Ásia Ocidental, especificamente na Mesopotâmia. Com relação ao Jardim do Éden, o único ponto de discussão é em que região da Mesopotâmia ele se localizava. Há quem argumente que era no norte (próximo à atual Turquia). Mas existem boas indicações em favor da hipótese de que ele se localizava no sul desta planície, nas imediações do que é conhecido hoje como Golfo Pérsico, sendo que pelo menos uma parte da região em questão estaria agora submersa pelo mar. Para os leitores interessados numa discussão sóbria deste assunto, indicamos o artigo A Civilização Mais Antiga e a Bíblia.

41 O entendimento dos cristãos só varia com relação à localização da “Nova Jerusalém”. Alguns a identificam com o próprio céu. Outros incluem a Terra, pelo fato de o apóstolo João ter dito que viu a cidade ‘descendo do céu’. Portanto, a única divergência que existe entre os cristãos crentes na Bíblia é se o “paraíso” mencionado por Jesus é celestial ou terrestre. Jamais se fala sobre “árvore da vida”, “trono de Deus e do Cordeiro”, “rio da água da vida”, etc. em conexão com o Hades. Os únicos que sentem necessidade de dedicar seu tempo a procurar induzir outros a crer em algum paraíso "nas profundezas da terra" (gastando “rios de palavras” em elucubrações irrelevantes para a questão) são os promotores do mito da “sobrevivência da alma após a morte”. Nesse intento, eles ignoram as informações simples que a Bíblia dá sobre o "paraíso", preferindo perder-se em divagações filosóficas ou mitológicas.

42 Quando uma pessoa pretende repousar ela não diz “meu corpo vai dormir”, e sim, “eu vou dormir”. Quando alguém está no repouso, nenhum dos despertos diz “o corpo de Fulano está dormindo’, e sim “Fulano está dormindo”. No caso do sono literal, o que fica em suspenso não são os processos naturais do corpo humano (circulação, respiração, digestão, etc.). Estas funções fisiológicas definitivamente continuam em funcionamento durante o sono (se não fosse assim, ninguém mais acordaria!). O corpo não está dormindo; o que entra no estado de inconsciência e inatividade é precisamente aquilo que se poderia chamar de “funções superiores” da pessoa de um humano vivo: pensamento, sabedoria, planejamento, reflexão, senso de passagem do tempo, etc. (as mesmas funções abstratas que são mencionadas, por exemplo, no Eclesiastes 9:10). Por isso, mesmo desconsiderando-se a Bíblia, a afirmação de que na morte é ‘o corpo que dorme, e não a pessoa (alma)’ é um absurdo comparável a se afirmar que no caso do sono literal o que está dormindo é o corpo e não a pessoa! Quem faria uma afirmação dessa? Logo, quando as referências bíblicas comparam a morte com um “sono”, a referência não é simplesmente ao “corpo biológico”. Em relativamente pouco tempo este se decompõe e deixa de existir. “Os que estão dormindo”, que foram mencionados por Paulo em 1 Tessalonicenses 4:13 não eram corpos mortos em decomposição, que estavam ali “como que dormindo” diante dos cristãos em Tessalônica e sim pessoas (almas) que haviam morrido e tinham sido sepultadas há algum tempo.

43 Veja os comentários sobre os textos de Gênesis 35:18 e 1 Reis 17:21, acima.

44 A resposta é óbvia: Para obrigar a Bíblia a dizer coisas que ela não diz, com o propósito de chamar de “bíblicos” certos mitos que se originaram na imaginação dos homens, tentando, desta maneira, atribuir uma categoria “divina” ou “autorizada” a essas fantasias humanas.

45 Numa matéria à qual fomos encaminhados apareceu a seguinte declaração (o grifo foi acrescentado aqui):

“Jesus não afirmou que a alma é imortal em sentido absoluto.”

Esta frase – aparentemente inocente – introduz sutilmente uma definição artificial dentro da referência de Mateus 10:28. O uso deste expediente permite que os proponentes da “imortalidade da alma” se apropriem deste texto para dar apoio à sua teoria, como se por acaso existisse alguma imortalidade 'em sentido relativo' e Jesus tivesse 'afirmado' alguma coisa nesse sentido. O fato é que o texto não contém uma só palavra sobre “imortalidade” – e nem sequer vestígio desta ideia. Jesus simplesmente não disse nada sobre "imortalidade" nesta referência!

O mais curioso – para não dizer “trágico” – é que ainda se questiona a capacidade de entendimento de outros (como se os leitores da Bíblia não soubessem o que é “imortalidade”!) – e até a própria fé dessas pessoas. A mesma matéria que contém a frase acima diz, logo em seguida:

“As pessoas que não querem aceitar o que está em Mateus 10:28 estão fazendo confusão sobre o que significa a alma ser imortal. Ela é imortal apenas no sentido de que continua a existir no Seol (ou Hades) depois da morte do corpo. No Seol, ela fica aguardando a ressurreição, que é o momento de sua saída definitiva de lá.” (Grifos acrescentados).

A inserção arbitrária de mais conceitos forjados – totalmente alheios ao texto e ao resto da Bíblia – é feita em paralelo com uma tentativa de intimidação intelectual.

Nem Jesus nem escritor bíblico algum falou em ‘continuidade da existência da alma no Seol’. Não há referência alguma a "morte do corpo". Ninguém – na Bíblia ou fora dela – jamais apresentou essa definição de “imortalidade”. E Jesus nunca sugeriu que “ressurreição” significa “saída definitiva da alma do Seol” (induzindo à ideia de que a alma pode ‘sair temporariamente’ de lá, como querem os proponentes da “imortalidade da alma”, contradizendo as palavras de Jó 14:10-12 e outras).

O apelo ao falso dilema é visível. Estes conceitos são apresentados de maneira positiva, sem qualquer margem para outro entendimento. Ou as pessoas aceitam essas interpretações, ou serão acusadas de ‘confundir as coisas’ e ‘recusar-se a aceitar o que Jesus disse em Mateus 10:28'!

46 A menção a "versículos que apontam na direção contrária" é uma maneira bem incomum de argumentar, até mesmo entre os que defendem a doutrina da "sobrevivência da alma"!

O que significa, exatamente, esta frase? Como isso deve ser entendido? É normal ocorrer esse tipo de situação dentro da Bíblia? Poderiam ser facilmente apresentados exemplos comprobatórios de 'versículos que apontam em direções contrárias' quando comparados entre si?

E ainda que existisse a possibilidade ― por mínima que seja ― de a Bíblia declarar algo num determinado trecho e daí em qualquer outro lugar fazer uma declaração que vai "na contramão" desta, que critério(s) deveria o leitor da Bíblia usar para decidir qual das duas aceitar? Se, conforme alegado, esses chamados "aniquilacionistas" optaram por 'se apegar' a determinadas declarações diretas que as Escrituras fazem sobre a condição dos mortos, qual seria, exatamente, o erro deles? Não poderiam proceder desta maneira? Deveriam eles descartar tais declarações? Por que?

Outra questão pertinente: Considerando-se ainda que essas declarações que abordam diretamente a condição dos mortos e que "associam silêncio e inatividade ao Seol / Hades" são maioria, não poderiam tais declarações ser ― com toda a justiça e propriedade ― classificadas como "a direção apontada pela Bíblia em seu contexto geral" sobre este assunto? Se não, por que não?