Os Anjos 'Lançados no Tártaro'

“Pois Deus não poupou os anjos culpados, mas os precipitou, entregou-os aos antros tenebrosos do Tártaro, guardando-os para o julgamento.” – 2 Pedro 2:4, Tradução Ecumênica

O termo correspondente em grego à palavra grifada no texto acima é ταρταρόω (transliteração: tartaroó – Concordância de Strong #5020). Wescott e Hort a transliteraram como tartarwsas. Este verbo grego é traduzido em diversas versões bíblicas pela frase “lançou-os no inferno”, ou alguma frase similar – incluindo, portanto, um verbo, um pronome pessoal, uma preposição e um substantivo. É evidente que os tradutores tiveram dificuldade em saber como traduzir corretamente essa palavra, mas presumiram que sabiam onde os anjos rebeldes deveriam se encontrar, e assim os situaram no “inferno”, ainda que usando várias palavras para distorcer a ideia do texto, adaptando-a ao seu raciocínio preconcebido. Esta palavra é traduzida de forma semelhante na versão Almeida Revisada e Corrigida Fiel por uma frase de cinco palavras: “havendo-os lançado no inferno”. Todavia, não encontramos o substantivo “inferno” nem o substantivo “Tártaro” no grego. É verdade que a forma substantivada do verbo em grego é Tartarus, mas a palavra “Tártaro” em si não é encontrada neste versículo, nem em qualquer outro lugar na Bíblia. Frisamos: “Tártaro” é um substantivo, não um verbo.

Nas mitologias grega e romana, a palavra “Tártaro” era usada para descrever uma região subterrânea, supostamente o reino mais inferior do Hades, ou mesmo mais baixo do que o próprio Hades, para onde, alegadamente, as almas ou espíritos imortais das piores pessoas iriam depois da morte.

O verbo tartaroo aparece uma única vez. A maior parte dos eruditos, tendo aceitado uma ideia que foi realmente adaptada da filosofia grega, sancionou o significado idealizado pelos pagãos para aplicar à palavra que Pedro usou, apresentando traduções, tais como: “jogou-os no inferno”, “lançou-os no inferno”, “precipitando-os no inferno”, etc., fazendo parecer que o próprio Pedro fez uma adaptação da mitologia greco-romana para esse reino de almas ou espíritos conscientes após a morte. Em vista disso, muitos leitores da Bíblia ficaram acostumados a pensar em termos de Tártaro, que na mitologia antiga é um lugar. Enfatizamos, porém, que a palavra tartaroo, é um verbo, e na verdade não denota um lugar, e sim uma ação, a saber, o processo de ser preso, contido, rebaixado, etc. A ideia de se “precipitar” ou lançar alguém “para baixo” (ao Seol [Hades], ou à Geena, por exemplo), tem de ser acrescentada ao grego original; ela não se encontra no texto bíblico.

Em 2 Pedro 2:4, esse verbo tartaroo é aplicado, não a seres humanos após a morte (como a mitologia greco-romana aplicava a palavra “Tártaro”), e sim a certos anjos que pecaram. Ademais, Pedro não disse uma palavra sequer sobre “fogo” na condição à qual esses anjos foram lançados. O verbo grego “tartaroo”, portanto, não significa “Tártaro”, muito embora algumas versões bíblicas o traduzam pela frase “lançou-os no Tártaro”. Não se deve imaginar que Pedro estivesse apelando a algum conceito mitológico quando usou o verbo tartaroo. O fato é que o substantivo não está realmente presente no verbo tartaroo, a não ser que alguém queira lê-lo de qualquer maneira no verbo. O que o apóstolo Pedro disse simplesmente, ao usar este verbo tartaroo, foi que Deus aprisionou os anjos que pecaram (Gênesis 6:2-4; 1 Pedro 3:19, 20), acrescentando que eles foram entregues “aos abismos da escuridão” (ALA; “às cadeias da escuridão”, ARC), ficando tais anjos reservados para o dia do julgamento. (Veja também Judas 1:6, 7).

Assim, sem o acréscimo da ideia mitológica, o verbo usado por Pedro significa simplesmente rebaixado ou aprisionado. Não há obrigatoriedade em entendermos que Deus prendeu literalmente tais anjos em algum lugar, seja nas “profundezas da Terra” (como na mitologia antiga) ou em outro lugar específico. A queda dos anjos que pecaram foi duma condição de honra e dignidade (que eles usufruíam antes, como parte da família universal de Deus) para uma condição de desonra e condenação.1 O pensamento do texto pode ser expresso da seguinte forma simples: ‘Deus não perdoou aos anjos que pecaram, mas os rebaixou, e os entregou às cadeias da escuridão.’ Esses anjos que pecaram são descritos adicionalmente em Judas 1:6 como os “anjos que não conservaram suas posições de autoridade mas abandonaram sua própria morada.” (NVI) Tendo-se encarnado em corpos como homens, eles viveram na terra como se fossem homens, casando-se com mulheres, vindo a produzir uma raça híbrida de gigantes. (Gênesis 6:1-3) Seus anteriores corpos de homens encarnados foram destruídos no Dilúvio do tempo de Noé, e eles não estão autorizados a encarnar-se como tais hoje (senão ainda veríamos isso acontecer). Os anjos simplesmente voltaram ao mundo espiritual, no entanto, sob as restrições de que Pedro e Judas falaram.

Alguns eruditos dizem que a palavra tartaroo vem da palavra grega tartarus, enquanto outros afirmam que a palavra tartarus é que vem do verbo tartaroo. Neste ponto, seria difícil determinar qual é o conceito verdadeiro. Porém, é evidente que muitos eruditos têm uma predileção para que a palavra signifique Tártaro, já que eles aceitaram grande parte da filosofia grega pagã referente à imortalidade inerente. Há até quem vá ao ponto de afirmar que Tártaro é uma “transliteração” de tartaroo. Isto simplesmente não é verdadeiro. Na realidade, é um exemplo de como os eruditos bíblicos podem se tornar tão zelosos das mitologias pagãs ao ponto de introduzirem forçadamente os conceitos dessas mitologias dentro da Bíblia!

Quando nos damos conta de que muitas obras que temos sobre o grego bíblico foram preparadas por eruditos que acreditam na tradicional adaptação “cristã” do Judaísmo influenciado pela mitologia grega, percebemos que eles estão dispostos a dar o significado de Tártaro ao verbo tartaroo, afirmando que o apóstolo Pedro estava se referindo a um lugar semelhante ao descrito na mitologia. E, assim, lança-se a base para muita confusão, e até cristãos que não acreditam na filosofia grega da imortalidade inerente da alma e sabem que os mortos estão realmente inconscientes e inativos, às vezes têm dificuldade de lidar com o que tem sido transmitido a nós pela tradição.

De qualquer maneira, muitos escritores usarão as duas palavras tartaroo e Tártaro intercambiavelmente, ou dirão que o verbo grego tartaroo “refere-se ao Tártaro”. Com isso, eles influenciarão as mentes de muitos de seus leitores, direcionando-os automaticamente para a mitologia pagã, e a adaptação judaica dessa mitologia, que foi mais tarde adaptada pelo cristianismo apóstata.2 O próprio apóstolo Pedro, porém, não estava endossando a mitologia grega, nem a adaptação desta pelo Judaísmo.

NOTAS

1 Da mesma forma, o ‘lançamento’ de Satanás do céu para baixo, à terra (Apocalipse 12:7-12) não precisa ser entendido como uma queda literal (como afirmam alguns). Para informações específicas sobre isso, sugerimos o artigo A "Guerra no Céu" e a "Expulsão" de Satanás.

2 Muitos dos que creem na ‘imortalidade inerente da alma’ negarão veementemente que acreditam em “filosofia grega”, e ainda assim eles frequentemente expressam sua crença basicamente nos mesmos termos dessa filosofia. Assim, quando falam sobre Seol (Hades), Geena ou Tártaro, eles sempre dão ênfase à ideia de um local específico para o qual as almas “se deslocam” depois da morte. Para muitos defensores dessas ideias, o Tártaro nada mais é que outra palavra para descrever um lugar de “tormento eterno”, segundo o conceito deles. Rigorosamente, Pedro e Judas nada disseram sobre Tártaro (um lugar), e sim sobre uma ação, o ato de ser rebaixado ou aprisionado.