Era o Cristianismo Uma Nova Religião?

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Os judeus acreditavam firmemente que Deus tinha estabelecido o sistema judaico. Quando o Messias prometido apareceu e foi rejeitado pelos líderes judaicos, isso não significou que o judaísmo tinha falhado. Embora muitos judeus tenham sido infiéis, Deus cumpriu suas promessas feitas por meio dos fiéis profetas judaicos. Pelo contrário, o judaísmo tinha sido magnificamente bem-sucedido, e estava se movendo em direção à sua grande era messiânica!

Jesus era justo, santo e sem pecado, e o sistema judaico da época dele, incluindo seus líderes, estava longe de ser perfeito. Apesar disso, ele efetuou cada parte de seu ministério inteiramente dentro do contexto do judaísmo. Ele “foi por toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas deles, pregando as boas novas do Reino.” (Mat. 4:23) “Ele foi a Nazaré, onde havia sido criado, e no dia de sábado entrou na sinagoga, como era seu costume.” (Lucas 4:16; compare com Marcos 1:39, Lucas 4:44) Mais tarde, “Jesus ia passando por todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando as boas novas do Reino.” (Mat. 9:35) Muitos dos milagres dele foram realizados em sinagogas. – Mat. 12:9; Lucas 13:10

Os primeiros cristãos eram todos judeus. Quando eles se tornaram seguidores de Jesus, eles mantiveram muito da perspectiva judaica. Não havia nada no judaísmo que estivesse em conflito com o cristianismo. Jesus, o Cristo, também foi o judeu perfeito. Portanto, alguém poderia ser um bom judeu e um bom cristão ao mesmo tempo. O foco permaneceu em como Deus queria que Seu povo se comportasse.

Houve alguma razão pela qual os discípulos sentissem necessidade de abandonar o judaísmo? Existe ampla evidência de que os primeiros cristãos continuaram a se reunir nas sinagogas e a viver como judeus. O relato de Lucas em Atos mostra isso. Começando no dia de Pentecostes, os apóstolos e outros cristãos judeus incentivaram zelosamente seus companheiros judeus a aceitarem Jesus como o Messias. Eles poderiam fazer isso com muito mais facilidade se permanecessem em associação com eles. As leituras e considerações que ocorriam todo sábado nas sinagogas deram muitas oportunidades para eles considerarem as provas bíblicas de que Jesus era realmente o Messias.

Ao final dos anos quarenta do primeiro século ou por volta dessa época, até mesmo fariseus se tornaram discípulos. (Atos 15:5) Quando Paulo visitou Jerusalém em meados dos anos cinqüenta daquele século, Tiago resumiu a situação dessa maneira: “Veja, irmão, quantos milhares de judeus creram, e todos eles são zelosos da lei.” [1] – Atos 21:20; compare com Atos 24:5, 6, 14, 28:22.

Mas, não profetizou Jesus que seus seguidores seriam expulsos das sinagogas? Sim, mas evidentemente isso não ocorreu de imediato. Os líderes judaicos perseguiram os cristãos, mas parece que a maioria dos judeus cristãos continuou a viver e atuar na maior parte dentro da comunidade judaica, pelo menos até a destruição de Jerusalém em 70 DC. Pouco antes dessa época, quando os judeus tradicionais se rebelaram contra Roma, os judeus cristãos se recusaram a se juntar a eles. Em vez disso, quando viram Jerusalém “cercada por exércitos (romanos) acampados”, obedeceram à ordem de Jesus para fugir. A maioria passou a viver em Pela. Muitos judeus tradicionais os encararam como traidores, chamando-os de minim (apóstatas ou hereges). Por fim, esses judeus tradicionais acrescentaram uma maldição às dezoito bênçãos que eram lidas todo sábado, condenando qualquer judeu que professasse a crença em Jesus como Messias. O próprio fato de que eles fizeram isso confirma que muitos judeus acreditaram em Jesus. Caso contrário, não teria havido necessidade de uma atitude tão drástica.

Se os primeiros cristãos continuaram a atuar dentro do sistema judaico, o que isso significa? Quer dizer que se optarmos por nos associar com pessoas que afirmam ser o povo de Deus, mas vêem as coisas de maneira diferente de nós, especialmente se queremos ajudá-las, somos como muitos dos primitivos cristãos. A associação com os judeus incrédulos não os contaminou, nem os tornou partícipes da rejeição nacional judaica de Jesus. O que os fez diferentes foi como eles entenderam e reagiram à identidade e ao trabalho de Jesus.

O que era novo para judeus cristãos foi a compreensão de como se acertar com Deus. Em vez de confiar em sacrifícios de animais ou na observância escrupulosa da lei, eles chegaram a entender que só a morte de seu Messias, o Filho de Deus, tinha o poder de libertá-los permanentemente. Eles aprenderam que Deus estava disposto a aceitar a morte de Jesus como um sacrifício “de uma vez para sempre” para expiar seus pecados. Com a consciência limpa, eles podiam andar com Deus, levando vidas de devoção piedosa como resultado. (Veja Romanos 6).

Os primeiros cristãos não se viam como membros de uma “nova religião”, e sim que o Messias tinha chegado e que eles estavam, assim, passando para a próxima parte da realização do propósito de Deus e do cumprimento contínuo das promessas dele a Abraão. Eles não encaravam seus companheiros judeus incrédulos como adoradores de um falso deus. Eles os viam como pessoas que precisavam da mensagem sobre Jesus como o Messias, que precisavam entender o papel vital que ele desempenhou no desenrolar dos propósitos de Deus. Assim, apesar da perseguição ou oposição, eles continuaram incentivando seus companheiros judeus a examinar a evidência pessoalmente e aceitar Jesus como o Messias. Para fazer isso, eles tiveram de continuar em associação com eles, conforme possível.

Os primeiros cristãos obedeceram aos mandamentos de Jesus em resposta ao que Deus havia feito por eles. (2 Pedro 1:3-8) Eles não se concentraram em estrutura organizacional, tradições, rituais externos, e interpretações únicas ou novas explicações de trechos da Bíblia. Esse mesmo padrão de obediência, prática da fé e conduta correta foi imitado pelos cristãos gentios conforme a mensagem de Jesus se difundiu pelo Império Romano. Isso sempre foi a marca dos verdadeiros cristãos. E esse padrão ainda pode ser seguido por qualquer discípulo de Jesus Cristo hoje. Por quê? Porque qualquer pessoa, em qualquer lugar e em qualquer situação, pode imitar os primeiros discípulos cristãos de Jesus. Assim como eles, qualquer pessoa pode definir o seu cristianismo em termos de relacionamento, em vez de credos, interpretações ou adesão a alguma organização. O efeito desse relacionamento é visto em mudanças do comportamento, e não na condição de ser membro duma organização ou denominação religiosa.

Nota: 



[1] O meio-irmão de Jesus, Tiago, era muito proeminente entre os cristãos judeus em Jerusalém. Mas ele era também muito respeitado entre os habitantes da maioria das cidades judaicas. Eles o chamavam de “Tiago, o Justo.” Em 62 AD, durante uma breve interrupção na sucessão de procuradores romanos, alguns saduceus, irritados porque Tiago pregava contra o amor ao dinheiro, conseguiram orquestrar seu assassinato. O povo de Jerusalém ficou indignado. Josefo relata que muitos deles mais tarde consideraram a destruição de Jerusalém como a vingança de Deus contra eles por permitirem que Tiago fosse morto. Este não teria sido o caso se Tiago não fosse um observador rigoroso da Lei Mosaica, além de sua obediência ao seu Senhor Jesus Cristo. 

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[Extraído do artigo Onde Está o Corpo de Cristo?, de Thomas W. Cabeen. As citações bíblicas são da Nova Versão Internacional, a menos que haja outra indicação.]