Tentativas de Neutralizar a Evidência

 

Conforme se relatou na Introdução, o manuscrito original deste trabalho foi apresentado originalmente à Sociedade Torre de Vigia em 1977. Durante a correspondência posterior com a sede dessa organização, apresentaram-se linhas adicionais de evidência, que foram depois incluídas na edição publicada do trabalho em 1983.

De posse de toda esta informação, seria de esperar que o Corpo Governante das Testemunhas de Jeová na sede em Brooklyn, estaria disposto a reavaliar o seu cálculo dos tempos dos gentios de acordo com seu declarado interesse na verdade bíblica e nos fatos históricos. Eles, ao contrário, optaram por manter e defender a data 607 A.E.C. e as interpretações baseadas nela.[1]

 

A. O APÊNDICE AO LIVRO “VENHA O TEU REINO” DA SOCIEDADE TORRE DE VIGIA

A nova defesa da data 607 A.E.C. surgiu num livro publicado em 1981, intitulado “Venha o Teu Reino”. No capítulo 14 (páginas 127-140) do livro, apresenta-se outra consideração do cálculo dos tempos dos gentios, que essencialmente não difere de discussões anteriores sobre o assunto nas publicações da Torre de Vigia. Mas em um “Apêndice ao Capítulo 14”, à parte, no fim do livro, algumas das linhas de evidência contrárias à data 607 A.E.C. são desta vez brevemente discutidas — e rejeitadas.[2] A discussão, porém, apresenta grave falta de objetividade e nada mais é que uma fraca tentativa de esconder fatos.

No campo da pesquisa histórica, um evento é geralmente considerado um “fato histórico” se for testificado por pelo menos duas testemunhas independentes. Reconhecemos esta regra com base na Bíblia: “Pela boca de duas ou três testemunhas, todo assunto seja estabelecido”. (Mateus 18:16) No Capítulo 2 da primeira edição deste trabalho foram apresentadas sete “testemunhas” históricas contra a data 607 A.E.C., sendo que pelo menos quatro delas evidentemente se qualificam como testemunhas independentes. A maior parte dos registros que dão este testemunho sétuplo, encontra-se em documentos preservados da própria era neobabilônica. Estes incluem inscrições reais, documentos comerciais e a Estela de Ápis, da dinastia egípcia saítica contemporânea. Só os diários astronômicos, a cronologia neobabilônica de Beroso e a lista de reis do Cânon Real (“Cânon de Ptolomeu”) são encontrados em documentos posteriores, mas observou-se que estes registros foram copiados de outros anteriores que — direta ou indiretamente — remontam à era neobabilônica.

 

“Apêndice ao Capítulo 14”, no livro da  Sociedade Torre de Vigia “Venha o Teu Reino” (1981), páginas 186-190:

 

 

 

 

 


Nos capítulos 3 e 4 desta edição atualizada da obra, as sete linhas de evidência originais foram ampliadas para dezessete. As linhas de evidência acrescentadas incluem evidência prosopográfica, junções de interligação cronológica e diversos textos astronômicos adicionais (três tabuinhas planetárias e cinco textos de eclipses lunares). A evidência contra a data 607 A.E.C. é, portanto, sobrepujante, e bem poucos reinados na história antiga podem ser estabelecidos dessa maneira tão conclusiva como o de Nabucodonosor II (604-562 A.E.C.).

 

A-1: Deturpações da evidência histórica

Em seu “Apêndice ao Capítulo 14”, a Sociedade Torre de Vigia menciona brevemente algumas das linhas de evidência contra a data 607 A.E.C., incluindo o “Cânon de Ptolomeu” e a lista de reis de Beroso, mas deixa de mencionar que estas duas listas de reis se baseiam em fontes do próprio período neobabilônico. Em vez disso, a publicação da Torre de Vigia alega que a origem das datas dessas listas é proveniente da era selêucida, ou seja, cerca de três séculos depois.[3] Ademais, a Sociedade Torre de Vigia menciona pela primeira vez a Estela de Nabonido de Harã (Nabon. H 1, B), um documento contemporâneo que estabelece a duração de toda a era neobabilônica até o nono ano de Nabonido. Mas a Sociedade Torre de Vigia deixa de mencionar outra estela contemporânea ao reinado de Nabonido, a Estela de Hila, que também estabelece a duração de toda a era neobabilônica, incluindo o reinado de Nabonido!

Em terceiro lugar, menciona-se o diário astronômico VAT 4956. Fazendo referência ao fato de ele ser uma cópia de um texto original do reinado de Nabucodonosor, alegadamente feita durante a era selêucida, a Sociedade repete a teoria de que “é possível que sua informação histórica seja simplesmente a que era aceita no período selêucida.”[4] Todavia, este raciocínio é completamente falacioso, pois isso foi desmentido por outro diário astronômico, B.M. 32312, fato sobre o qual a Sociedade não faz qualquer comentário, embora esteja bem ciente dele.[5]

Por fim, a Sociedade menciona as tabuinhas comerciais, admitindo que estes milhares de documentos contemporâneos mencionam os reinados de todos os reis neobabilônicos, e que as durações dos reinados dados por estes documentos estão de acordo com todas as outras linhas de evidência que foram mencionadas — o Cânon Real, a cronologia de Beroso, as inscrições reais de Nabonido e os diários astronômicos.[6] Todavia, não se menciona que essa concordância refuta a idéia de que a informação do VAT 4956 poderia ter sido inventada durante o período selêucida. Além das já mencionadas, outra forte linha de evidência contra a data 607 A.E.C. é também completamente desconsiderada, a saber, os sincronismos com a cronologia egípcia, que é contemporânea e estabelecida de maneira independente.

Por omitir cerca de metade das sete linhas de evidência abordadas na primeira edição deste trabalho (a Estela de Hila, o diário B.M. 32312 e os documentos egípcios contemporâneos) e por deturpar algumas das outras, são omitidos os fatos com respeito à força e validade da cronologia neobabilônica estabelecida. Partindo desta base, os eruditos da Torre de Vigia passam a fazer uma avaliação crítica da limitada evidência apresentada. Eles dizem:

 

No entanto, nenhum historiador pode negar a possibilidade de que o atual quadro da história babilônica pode ser enganoso ou errado. Por exemplo, sabe-se que os antigos sacerdotes e reis às vezes alteravam os registros para os seus próprios fins.[7]

De novo, os fatos são omitidos. Embora seja verdade que os antigos escribas às vezes distorciam a história para glorificar seus reis e deuses, os eruditos concordam que, embora essa distorção seja encontrada nas inscrições reais e em outros documentos assírios, os escribas neobabilônicos não distorceram a história desta maneira. Isto foi também enfatizado no Capítulo 3 (seção B-1-b) deste livro, onde A. K. Grayson, uma bem conhecida autoridade em registros históricos babilônicos, foi citado como tendo dito:

 

Ao contrário dos escribas assírios os babilônicos não deixam de mencionar as derrotas babilônicas nem tentam transformá-las em vitórias.[8]

Sobre as crônicas neobabilônicas, Grayson diz que “contêm um registro razoavelmente confiável e representativo dos eventos importantes de cada período considerado”, e “dentro dos limites de seu interesse, os escritores são bem objetivos e imparciais”.[9] Sobre as inscrições reais babilônicas (como a Estela de Nabonido), Grayson comenta que são “primariamente registros de atividade de construção e no geral parecem ser confiáveis”.[10]

Portanto, a distorção da história pelos escribas refere-se à história assíria, não à neobabilônica, um fato que é omitido no “Apêndice” do livro “Venha o Teu Reino”, da Sociedade Torre de Vigia.

O próximo argumento apresentado pela Sociedade no “Apêndice” é que, “mesmo quando a evidência descoberta é exata, poderá ser interpretada mal pelos eruditos modernos ou ser incompleta, a ponto de que matéria ainda a ser descoberta poderá alterar drasticamente a cronologia do período em questão.”[11]

Evidentemente, os eruditos da Torre de Vigia percebem que toda a evidência descoberta desde meados do século 19 aponta unanimemente para 587 A.E.C. em vez de 607 como o décimo oitavo ano de Nabucodonosor. Entre as dezenas de milhares de documentos descobertos da era neobabilônica, eles não conseguiram encontrar o menor indício de apoio para sua data 607 A.E.C. — daí a referência a “matéria ainda a ser descoberta.” Uma cronologia que tem de se basear em “matéria ainda a ser descoberta”, por ser refutada pela matéria descoberta, está realmente assentada numa base frágil. Se uma idéia, refutada por uma quantidade esmagadora de evidência descoberta, deve ser mantida na esperança de que “matéria ainda a ser descoberta” irá apoiá-la, então qualquer idéia, por mais falsa que seja, poderia ser mantida com base nesse mesmo princípio. Mas deve-se lembrar que esse tipo de fé não se fundamenta na “demonstração evidente de realidades, embora não observadas” (Hebreus 11:1); baseia-se unicamente no desejo de acreditar.

Se realmente fosse verdade que (1) “nenhum historiador pode negar a possibilidade de que o atual quadro da história babilônica pode ser enganoso ou errado”, que (2) “sacerdotes e reis às vezes alteravam” os registros históricos neobabilônicos, que (3) “mesmo quando a evidência descoberta é exata, poderá ser interpretada mal pelos eruditos modernos ou ser incompleta” e que (4) “matéria ainda a ser descoberta poderá alterar drasticamente a cronologia do período”, que razão temos para aceitar qualquer data da era neobabilônica estabelecida pelos historiadores — por exemplo, 539 A.E.C. como a data para a queda de Babilônia? Esta data também foi determinada unicamente por meio de documentos seculares do mesmo tipo dos que se usaram para estabelecer 587 A.E.C. como o décimo oitavo ano de Nabucodonosor. E das duas datas, 587 tem muito maior apoio que 539 A.E.C.![12]

Se 587 A.E.C. deve ser rejeitado pelas razões mencionadas acima, então a data 539 A.E.C. também deveria ser rejeitada pelas mesmas razões, ou por razões mais fortes. No entanto, a Sociedade Torre de Vigia não só aceita 539 A.E.C. como uma data segura, como também deposita tanta confiança nela a ponto de torná-la a própria base de sua cronologia bíblica![13] Se as razões para rejeitar a data 587 A.E.C. são válidas, então são igualmente válidas para a data 539 A.E.C. Rejeitar uma data e manter a outra não é apenas inconsistente; é também um triste exemplo de erudição desonesta.

 

A-2: Deturpação das palavras dos eruditos

Como apoio às suas razões para rejeitar a cronologia neobabilônica estabelecida pelos historiadores, cita-se uma bem conhecida autoridade em história do Oriente Próximo.

“Evidentemente por reconhecer tais fatos,” — que o atual quadro da história babilônica pode ser errado, que antigos sacerdotes e reis podem ter alterado os registros neobabilônicos antigos, e que matéria ainda a ser descoberta poderia alterar drasticamente a cronologia do período:

 

“o Professor Edward F. Campbell Jr. apresentou uma tabela que inclui cronologia neobabilônica com a cautela: “Nem se precisa dizer que estas listas são provisórias. Quanto mais se estuda a complexidade dos problemas cronológicos no antigo Oriente Próximo, tanto menos se está inclinado a pensar numa apresentação como sendo definitiva. Por este motivo, o termo circa [cerca de] poderia ser usado ainda mais liberalmente do que é.””[14]

Esta citação é tirada de um capítulo escrito por Edward F. Campbell Jr., que apareceu originalmente em A Bíblia e o Antigo Oriente Próximo (sigla em inglês: BANE), uma obra editada por G. Ernest Wright e publicada por Routledge e Kegan Paul, de Londres, em 1961. Entretanto, a Sociedade Torre de Vigia não mencionou que a tabela referida nesta obra abrange as cronologias do Egito, Palestina, Síria, Ásia Menor, Assíria e Babilônia, desde aproximadamente 3800 A.E.C. até a morte de Alexandre o Grande, em 323 A.E.C., e embora o termo circa seja colocado antes de muitos dos reinados apresentados nas listas deste longo período, nenhum circa é colocado antes de qualquer dos reinados alistados para os reis do período neobabilônico!

A questão é: Quando o Professor Campbell, em cooperação com o Professor David N. Freedman, elaborou as listas cronológicas na obra A Bíblia e o Antigo Oriente Próximo, será que ele achava que “o atual quadro da história babilônica pode ser enganoso ou errado” no que se refere à era neobabilônica? Será que ele pensava haver alguma possibilidade de que “antigos sacerdotes e reis às vezes alteravam” os registros neobabilônicos “para os seus próprios fins”? Será que ele estava, por algum motivo, disposto a colocar o termo circa antes de qualquer dos reinados dos reis neobabilônicos? Em outras palavras, será que a Sociedade Torre de Vigia apresenta corretamente as opiniões de Campbell e Freedman?

Quando estas questões foram colocadas ao Dr. Campbell, ele escreveu em resposta:

 

Conforme talvez já tenha concluído, estou consternado com o uso que a Sociedade Torre de Vigia fez das listas cronológicas de Noel Freedman e minhas. Receio que algumas pessoas extremosas procurarão qualquer insignificância para apoiar suas conclusões preconcebidas. Com toda a certeza este é um caso em que se fez exatamente isso.

Deixe-me primeiro explicar que na divisão de responsabilidade pelas tabelas cronológicas no BANE fiquei encarregado da maior parte da cronologia do Oriente Próximo, ficando as datas bíblicas a cargo do Professor David Noel Freedman, agora na Universidade de Michigan. Nós realmente falamos sobre os avisos que colocamos antes de nossas tabelas, mas não houve absolutamente qualquer intenção de sugerir que havia essa defasagem de vinte anos nas datas relacionadas com Babilônia e Judá. Tenho boa dose de certeza de que o Dr. Freedman torna claro em algum lugar na matéria do capítulo do BANE, que a data 587/6 não pode estar errada em mais de um ano, e que a data 597 é uma das pouquíssimas datas seguras em todo o nosso repertório cronológico. Sei que ele continua convencido disto, assim como eu. Que eu saiba, não há a mínima evidência que sequer sugira a possibilidade de as datas na Crônica Babilônica terem sido alteradas por sacerdotes ou reis, por razões piedosas. Estou de pleno acordo com Grayson.[15]

O Dr. Campbell encaminhou as perguntas que lhe foram feitas ao Dr. Freedman, para dar a este uma oportunidade de expressar seus pontos de vista. Freedman teve a dizer o seguinte sobre o assunto:

 

. . . Concordo plenamente com tudo o que o Dr. Campbell lhe escreveu. É verdade que há algumas incertezas sobre a cronologia bíblica para este período, mas essas incertezas provêm da informação confusa e talvez conflitante da Bíblia, e nada têm que ver com a informação e evidência cronológica para o período neobabilônico proveniente de inscrições cuneiformes e outras fontes não bíblicas. Este é um dos períodos mais bem conhecidos do mundo antigo e podemos estar certos de que as datas estão corretas, com margem de erro de um ano ou por volta disso, e muitas das datas são exatas em termos de dia e mês. Não há, portanto, qualquer justificativa para os comentários ou julgamentos feitos pela Sociedade Torre de Vigia com base em uma declaração específica acerca de nossa incerteza. O que eu tinha especificamente em mente era o desacordo entre os eruditos quanto a se a queda de Jerusalém deve ser datada em 587 ou 586. Eruditos eminentes discordam neste ponto e infelizmente não temos a crônica babilônica para esse episódio como temos para a captura de Jerusalém em 597 (essa data está agora fixada com exatidão). Mas esse é só um debate sobre um ano no máximo (587 ou 586), não tendo qualquer relação com as opiniões das Testemunhas de Jeová que aparentemente querem reescrever toda a história da época e mudar drasticamente as datas. Não existe qualquer justificativa para isso.[16]

Assim, a Sociedade Torre de Vigia, em sua tentativa de encontrar apoio para a data 607 A.E.C., deturpou as opiniões do Dr. Campbell e do Dr. Freedman. Nenhum dos dois acredita que os antigos sacerdotes ou reis podem ter “alterado os registros” do período neobabilônico, ou que “matéria ainda a ser descoberta poderá alterar drasticamente a cronologia do período”. E nenhum dos dois está disposto a colocar o termo circa antes de algum dos reinados apresentados em suas listas para os reis da era neobabilônica.

A única incerteza que eles apontam é se a data da desolação de Jerusalém deve ser fixada em 587 ou em 586 A.E.C., e esta incerteza não provém de quaisquer erros ou obscuridades nas fontes extrabíblicas, e sim dos números aparentemente conflitantes apresentados na Bíblia, evidentemente as referências à destruição de Jerusalém, a qual Jeremias 52:28, 29 diz que ocorreu no décimo oitavo ano de Nabucodonosor, enquanto 2 Reis 25:8 diz que foi no décimo nono ano do reinado dele.

 

A-3: Deturpação das palavras dos escritores antigos

As últimas três páginas do “Apêndice” do “Venha o Teu Reino” são dedicadas a uma discussão da profecia de Jeremias sobre os setenta anos.[17] Todos os argumentos apresentados nestas páginas foram completamente refutados no Capítulo 5 deste livro, intitulado “Os Setenta Anos para Babilônia” (que corresponde ao capítulo 3 da primeira edição), para o qual encaminhamos o leitor. Discutiremos apenas alguns pontos aqui.

Contra a declaração de Beroso, segundo a qual Nabucodonosor levou judeus como cativos no seu ano de ascensão, logo após a Batalha de Carquemis (veja o Capítulo 5, seção A-4), argumenta-se que “não há nenhum documento cuneiforme que confirme isso.”[18] Mas a Sociedade Torre de Vigia deixa de mencionar que a declaração de Beroso é apoiada claramente pela leitura mais direta de Daniel 1:1-6.[19]

Daniel relata que “no terceiro ano do reinado de Jeoiaquim” (que corresponde ao ano de ascensão de Nabucodonosor; veja Jeremias 25:1) Nabucodonosor levou um tributo de Judá, consistindo em utensílios do templo e também “alguns dos filhos de Israel, e da descendência real, e dos nobres,” trazendo-os para Babilônia. (Daniel 1:1-3, TNM) É verdade que a Crônica Babilônica não menciona especificamente estes cativos judaicos. Todavia, ela menciona que Nabucodonosor, em seu ano de ascensão, “marchou vitoriosamente por todos os lados em Hatu,” e que “ele levou o imenso despojo de Hatu para Babilônia.[20] É bem provável que os cativos do território de Hatu estavam incluídos neste “imenso despojo”, conforme é indicado pelo Professor Gerhard Larsson:

 

É certo que este “pesado tributo” consistia, não só em tesouro, como também em prisioneiros dos países conquistados. Refrear-se de fazer isto teria sido completamente estranho aos costumes dos reis de Babilônia e da Assíria.[21]

Assim, embora a Crônica Babilônica não mencione especificamente a deportação judaica (provavelmente bem pequena) no ano de ascensão de Nabucodonosor, ela indica fortemente que isso ocorreu, estando de acordo com as declarações diretas de Daniel e Beroso.

Ademais, devemos notar que a mesma crônica babilônica (BM 21946) fala do imenso despojo levado para Babilônia no sétimo ano de Nabucodonosor em termos lacônicos similares. Embora seja conhecido, com base na Bíblia (2 Reis 24:10-17; Jeremias 52:28), que este despojo incluía milhares de cativos judaicos, a crônica não menciona nada sobre isto, mas diz apenas:

 

Um rei de sua própria escolha ele [Nabucodonosor] designou na cidade (e) tomando o imenso tributo ele o trouxe a Babilônia.[22]

Portanto, se, como o “Apêndice” do livro “Venha o Teu Reino” dá a entender, o silêncio dos documentos cuneiformes acerca da deportação dos cativos judaicos no ano de ascensão de Nabucodonosor indica que ela não ocorreu, então o silêncio acerca da deportação no sétimo ano dele indicaria que esta também não ocorreu. Entretanto, como a Bíblia menciona ambas as deportações, a crônica babilônica evidentemente as inclui no “vasto despojo” ou tributo levado para Babilônia em ambas as ocasiões.

A Sociedade encontra outro argumento contra a deportação no ano de ascensão de Nabucodonosor no texto de Jeremias 52:28-30:

 

O que é ainda mais significativo, Jeremias 52:28-30 relata cuidadosamente que Nabucodonosor levou cativos judaicos no seu sétimo ano, no seu 18° ano e no seu 23° ano, não no seu ano de ascensão.[23]

Todavia, este argumento pressupõe que Jeremias 52:28-30 contém um registro completo das deportações, o que evidentemente não é o caso. O total geral dos cativos judaicos levados nas três deportações mencionadas na passagem é dado no versículo 30 como “quatro mil e seiscentas”. Contudo, 2 Reis 24:14 diz que o número dos deportados em apenas uma dessas deportações foi de “dez mil” (e talvez mais 8.000 no versículo 16, se estes não estiverem incluídos no número anterior)!

Propuseram-se diversas teorias para explicar esta discrepância, mas nenhuma delas pode ser encarada como mais do que uma suposição. O dicionário bíblico da Sociedade Torre de Vigia, Estudo Perspicaz das Escrituras, por exemplo, afirma que os números em Jeremias 52:28-30 “refere-se, pelo que parece, aos de certa categoria, ou aos que eram cabeças de famílias”.[24] A obra Novo Dicionário Bíblico (em inglês) sustenta que “a diferença nos números deve-se, sem dúvida, a diferentes categorias de cativos sendo consideradas.”[25] Todos concordam que Jeremias 52:28-30 não fornece um número completo dos que foram deportados, e alguns comentaristas sugerem também que nem todas as deportações são mencionadas no texto.[26]

Pelo menos a deportação no ano de ascensão de Nabucodonosor, descrita por Daniel, não é mencionada por Jeremias — o que não prova que ela não ocorreu. É bem provável que a razão de não estar incluída entre as deportações enumeradas em Jeremias 52:28-30 é por ter sido apenas uma deportação pequena, consistindo em judeus escolhidos “da descendência real, e dos nobres” com a intenção de usá-los como servos no palácio real. (Daniel 1:3-4) O importante é que Daniel, independentemente de Beroso, menciona esta deportação no ano de ascensão de Nabucodonosor.

Contra as declarações claras de Daniel e de Beroso, a Sociedade Torre de Vigia faz referência ao historiador judaico Josefo, que afirma que no ano da Batalha de Carquemis (durante o ano de ascensão de Nabucodonosor), Nabucodonosor conquistou toda a Siro-Palestina “exceto a Judéia”.[27] A publicação da Sociedade Torre de Vigia argumenta que isto entra em conflito com a afirmação de que os 70 anos de servidão começaram no ano de ascensão. Josefo escreveu isto mais de 600 anos depois de Daniel e quase 400 anos depois de Beroso. Mesmo que ele estivesse certo, isto não contradiria a conclusão de que a servidão das nações circunvizinhas de Judá começou no ano de ascensão de Nabucodonosor. A profecia de Jeremias aplica claramente a servidão, não aos judeus, e sim a “estas nações” (Jeremias 25:11), isto é, às nações circunvizinhas de Judá. (Veja o Capítulo 5 deste livro, seção A-1.) Na verdade, Josefo até apóia a conclusão de que estas nações se tornaram submissas a Nabucodonosor em seu ano de ascensão, pois ele afirma que o rei de Babilônia nessa época “tomou toda a Síria, até Pelúsio, exceto a Judéia.” Pelúsio fica na fronteira com o Egito.

Todavia, não há motivo para acreditar que a declaração de Josefo seja mais confiável do que a informação dada por Daniel e Beroso. Josefo evidentemente apresenta aqui uma conclusão pessoal, baseada numa má compreensão de 2 Reis 24:1. O Dr. E. W. Hengstenberg, em sua consideração abrangente de Daniel 1:1, faz o seguinte comentário sobre a expressão “exceto a Judéia”, que aparece em Antiguidades X, vi, 1:

 

Não se deve pensar que Josefo obteve a expressão parex tes loudaias [exceto a Judéia] de uma fonte que não está mais à nossa disposição. O que vem em seguida mostra claramente que ele a derivou de uma má compreensão da passagem de 2 Reis 24:1. Por ter entendido erroneamente os três anos mencionados ali como sendo o intervalo entre as duas invasões, ele achou que não se podia admitir qualquer invasão antes do 8º ano de Jeoiaquim.[28]

Assim, a declaração de Josefo tem pouco peso em comparação com o testemunho de Beroso, que evidentemente, ao contrário de Josefo, obteve sua informação de fontes preservadas do próprio período neobabilônico, e com o testemunho de Daniel, que esteve pessoalmente envolvido na deportação que ele mesmo descreve.

Em seguida, a Sociedade Torre de Vigia cita duas passagens das obras de Josefo, nas quais os setenta anos são descritos como setenta anos de desolação (Antiguidades X, ix, 7, e Contra Apião, I, 19).[29] Mas eles omitem o fato de que Josefo, em sua última referência ao período da desolação de Jerusalém, declara que a desolação durou cinqüenta anos, não setenta! A declaração encontra-se na obra Contra Apião, I, 21, onde Josefo cita a declaração de Beroso sobre os reinados neobabilônicos, e diz:

 

Esta declaração tanto é correta como está em harmonia com nossos livros [isto é, as Escrituras Sagradas]. Pois nestes está registrado que Nabucodonosor, no décimo oitavo ano de seu reinado, devastou o nosso templo, que por cinqüenta anos este deixou de existir, que no segundo ano de Ciro as fundações foram lançadas, e por fim que no segundo ano do reinado de Dario foi terminado.[30]

Para apoiar esta declaração Josefo cita não só os números de Beroso, como também os registros dos fenícios, que dão a mesma duração para este período. Assim, nesta passagem Josefo contradiz e refuta suas afirmações anteriores sobre a duração do período de desolação. Será que é realmente honesto citar Josefo para apoiar a idéia de que a desolação durou setenta anos, mas omitir o fato de ele, em sua última declaração sobre a duração do período, argumentar que ela durou cinqüenta anos? É bem possível, até mesmo provável, que nesta última passagem ele tenha retificado suas afirmações anteriores sobre a duração do período.

William Whiston, tradutor da obra de Josefo, escreveu uma dissertação especial sobre a cronologia de Josefo, intitulada “Sobre a Cronologia de Josefo” (em inglês), que incluiu em sua publicação das obras completas de Josefo como Apêndice V.[31] Neste estudo cuidadoso, Whiston indica que nas partes finais de suas obras, Josefo freqüentemente tentou corrigir seus números anteriores. Assim, ele demonstra que Josefo primeiro diz que a duração do período desde o Êxodo até a construção do templo foi de 592 anos, número este que ele depois mudou para 612.[32] Quanto ao período seguinte, desde a construção do templo até sua destruição, primeiro ele diz que durou 466 anos, número que depois “corrigiu” para 470.[33]

Acerca dos setenta anos, que Josefo inicialmente conta desde a destruição do templo até o retorno dos exilados judaicos no primeiro ano de Ciro, Whiston afirma que “é certamente um cálculo do próprio Josefo,” e que os 50 anos para este período, apresentados em Contra Apião I, 21, “podem provavelmente ser sua própria correção em sua idade avançada.”[34]

Se este for o caso, então Josefo pode até ser citado como argumento contrário à aplicação dos setenta anos feita pela Sociedade Torre de Vigia. De qualquer maneira, parece óbvio que as declarações dele sobre os setenta anos não podem ser usadas como argumento contra Beroso, do jeito que a Sociedade faz. O último número de Josefo para o período de desolação concorda plenamente com a cronologia de Beroso e Josefo até enfatiza esta concordância![35]

Além de Josefo, a Sociedade Torre de Vigia faz também referência a Teófilo de Antioquia, que escreveu uma defesa do cristianismo perto do fim do segundo século E.C. Como a Sociedade indica, ele inicia os setenta anos a partir da destruição do templo.[36] Mas os escritores da Sociedade Torre de Vigia omitem o fato de que Teófilo estava confuso quanto ao fim do período, pois ele primeiro o situa no “segundo ano” de Ciro (537/36 A.E.C.) e depois diz que foi no “segundo ano ... de Dario” (520/19 A.E.C.).[37]

Outros escritores primitivos, incluindo o contemporâneo de Teófilo, Clemente de Alexandria (c. 150-215 E.C.), também finalizaram os setenta anos “no segundo ano de Dario Histaspes” (520/19 A.E.C.), o que situaria a desolação de Jerusalém por volta de 590/89 A.E.C.[38]

Eusébio, em sua crônica (publicada por volta de 303 E.C.) adotou a opinião de Clemente, mas também tenta outra aplicação, começando pelo ano em que Jeremias iniciou sua atividade, quarenta anos antes da desolação de Jerusalém, e ele finaliza os setenta anos no primeiro ano de Ciro, que fixa por volta de 560 A.E.C. Júlio Africano, por volta de 221 E.C., aplica os setenta anos ao período de desolação de Jerusalém, cujo fim ele, assim como Eusébio depois, fixa erroneamente por volta de 560 A.E.C. É bem óbvio que estes primitivos escritores cristãos não tinham acesso a fontes que poderiam tê-los ajudado a estabelecer uma cronologia exata para este período antigo.

Assim, o uso que a Sociedade Torre de Vigia faz de escritores antigos é comprovadamente muito seletivo. Eles citam Josefo no tocante aos setenta anos de desolação ao mesmo tempo em que omitem o fato de ele ter por fim estabelecido cinqüenta anos para este período. A referência que fazem a Teófilo reflete os mesmos métodos: Citam-no, não porque ele realmente apresente evidência que os apóie, mas porque o cálculo de Teófilo concorda até certo ponto com o deles. Outros escritores cristãos contemporâneos, cujos cálculos diferem do deles, são desconsiderados. Este procedimento é uma clara manipulação do conjunto de evidência proveniente de vários escritores antigos que discutiram este assunto.

 

A-4: Deturpação da evidência bíblica

Na seqüência de sua discussão dos setenta anos, a Sociedade Torre de Vigia tenta mostrar que, mesmo que a evidência histórica esteja contra a aplicação que fazem deste período, a Bíblia está do lado deles. Em primeiro lugar, no meio da página 188 do “Venha o Teu Reino”, eles afirmam categoricamente que “cremos que a leitura mais direta de Jeremias 25:11 e de outros textos é que os 70 anos contam desde quando os babilônios destruíram Jerusalém e deixaram a terra de Judá desolada.”

A verdade simples, porém, é que a Sociedade recusa-se terminantemente a aceitar o entendimento mais natural de Jeremias 25:11 e de vários outros textos relacionados com este assunto.[39] Conforme foi abordado no Capítulo 5, a leitura mais direta de Jeremias 25:11 mostra que os setenta anos são um período de servidão, não de desolação: “Estas nações servirão o rei de Babilônia durante setenta anos.” (BJE) Além disso foi indicado que o outro texto de Jeremias que menciona os setenta anos, Jeremias 29:10, confirma este entendimento. A leitura mais direta da tradução melhor e mais literal deste texto mostra que aqueles “setenta anos” eram referentes ao domínio babilônico: “Quando setenta anos tiverem decorridos para Babilônia...” (CBC) Ambos os textos se referem claramente a Babilônia, não a Jerusalém.

Se, como estes versículos mostram, os setenta anos se referem ao domínio babilônico, este período terminou com a queda de Babilônia em 539 A.E.C.; e isto é declarado diretamente em Jeremias 25:12: “Quando se completarem os setenta anos, castigarei o rei da Babilônia e a sua nação.” (NVI). Como esta punição ocorreu em 539 A.E.C., o fim dos setenta anos não pode ser estendido além dessa data, nem para 537 A.E.C. nem para qualquer outra data, pois isso estaria em contradição com uma leitura direta de Jeremias 25:12.[40]

Não pode haver qualquer dúvida razoável sobre o assunto: A leitura mais direta da profecia de Jeremias (Jeremias 25:11,12 e 29:10) está em evidente conflito com a aplicação que a Sociedade Torre de Vigia dá aos 70 anos. Apesar disto, eles declaram audaciosamente:

 

Mas a própria Bíblia fornece evidência ainda mais marcante contra a alegação de que os 70 anos começaram em 605 A.E.C. e que Jerusalém foi destruída em 587/6 A.E.C.[41]

Que “evidência ainda mais marcante”? Esta:

 

Conforme já mencionado, se fôssemos contar a partir de 605 A.E.C., os 70 anos chegariam a 535 A.E.C. Mas, o inspirado escritor bíblico Esdras relatou que os 70 anos se estenderam até o “primeiro ano de Ciro, Rei da Pérsia”, que emitiu o decreto que permitiu aos judeus voltar à sua pátria.[42]

Mas será que Esdras relatou mesmo isso? Conforme se mostrou na análise de 2 Crônicas 36:21-23, no Capítulo 5, Esdras não indica claramente que os setenta anos terminaram no “primeiro ano de Ciro,” ou em 537, como sustenta a Sociedade Torre de Vigia. Pelo contrário, esse entendimento das palavras dele estaria em contradição direta com Jeremias 25:12, onde os setenta anos são finalizados em 539 A.E.C.! Este texto fornece a evidência mais marcante contra a alegação de que os setenta anos terminaram em 537 A.E.C. ou em qualquer outro ano posterior a 539.

É verdade que no manuscrito original de Os Tempos dos Gentios Reconsiderados (enviado à Sociedade em 1977), uma das possíveis aplicações dos setenta anos consideradas foi a de que eles poderiam ser contados de 605 a 536/35 A.E.C. Mas esta aplicação foi apresentada como uma alternativa menos provável. Nas edições publicadas da obra, esta sugestão foi omitida porque, assim como a aplicação do período defendida pela Sociedade Torre de Vigia, ela mostrou estar em contradição direta com a profecia de Jeremias. Ao considerar esta aplicação, a Sociedade argumenta que “não há maneira razoável de esticar o primeiro ano de Ciro de 538 até 535 A.E.C.”[43] Como a aplicação considerada não dava a entender isso, e como não tenho conhecimento de qualquer outro comentarista moderno que tente esticar o primeiro ano de Ciro “até 535 A.E.C.”, essa frase parece ser nada mais que um “espantalho” criado pela própria Sociedade Torre de Vigia, com o fim de despistar. Embora um argumento dirigido contra esse “espantalho” possa derrubá-lo facilmente, o argumento erra completamente o verdadeiro alvo.[44]

Por fim, a Sociedade Torre de Vigia alega:

 

. . . estamos dispostos a ser guiados principalmente pela Palavra de Deus, em vez de por uma cronologia que se baseia primariamente em evidência secular ou que discorda das Escrituras. Parece evidente que o entendimento mais fácil e mais direto das diversas declarações bíblicas é que os 70 anos começaram com a desolação completa de Judá, depois de Jerusalém ter sido destruída.[45]

Mais uma vez, estas declarações tendem a dar a impressão de que há um conflito entre a Bíblia e a evidência secular acerca dos setenta anos, e que a Sociedade Torre de Vigia apóia fielmente a Bíblia contra a evidência secular. Mas nada poderia estar mais longe da verdade. Pelo contrário, há bastante concordância entre os dados bíblicos e históricos com respeito ao período em discussão. Aqui, as descobertas históricas e arqueológicas, como em muitos outros casos, apóiam e confirmam as declarações bíblicas. Por outro lado, a interpretação do período de setenta anos apresentada pela Sociedade Torre de Vigia está em conflito com fatos estabelecidos pela evidência secular. Como foi claramente demonstrado neste capítulo e no Capítulo 5, ela está também em conflito frontal com o “o entendimento mais fácil e mais direto das diversas declarações bíblicas” sobre os setenta anos, tais como Jeremias 25:11, 12; 29:10; Daniel 1:1-6; 2:1; e Zacarias 1:7, 12 e 7:1-5.

Portanto, o verdadeiro conflito não é entre a Bíblia e a evidência secular, e sim entre a Bíblia e a evidência secular de um lado, e a Sociedade Torre de Vigia do outro. Uma vez que sua aplicação dos setenta anos está em conflito tanto com a Bíblia como com os fatos históricos, ela não tem nada que ver com a realidade e merece rejeição por parte de todos os cristãos sinceros.

 

RESUMO

Foi demonstrado amplamente neste capítulo que a Sociedade Torre de Vigia, em seu “Apêndice” ao livro “Venha o Teu Reino”, não faz uma apresentação justa da evidência contra sua data 607 A.E.C.:

 (1) Seus escritores deturpam a evidência histórica por omitirem de sua discussão cerca de metade da evidência apresentada na primeira edição deste livro (a Estela de Hila, o diário BM 32312, e documentos egípcios contemporâneos) e por darem a algumas das outras linhas de evidência apenas uma abordagem parcial e distorcida. Eles indicam erroneamente que sacerdotes e reis podem ter alterado documentos históricos (crônicas, inscrições reais, etc.) da era neobabilônica, apesar do fato de toda a evidência disponível indicar o contrário.

(2) Eles deturpam autoridades em historiografia antiga, por citá-las fora do contexto e por atribuir-lhes opiniões e dúvidas que elas não têm.

(3) Eles deturpam escritores antigos, por omitirem o fato de que Beroso é apoiado pela leitura mais direta de Daniel 1:1-6, por citarem Josefo quando ele fala de setenta anos de desolação sem mencionarem que no seu último trabalho ele mudou a duração do período para cinqüenta anos, e por se referirem à opinião do bispo do segundo século, Teófilo, sem mencionarem que ele finaliza os setenta anos, não só no segundo ano de Ciro, como também no segundo ano de Dario Histaspes (do mesmo modo que seu contemporâneo Clemente de Alexandria e outros), confundindo assim os dois reis.

Finalmente, (4) eles deturpam a evidência bíblica por esconderem o fato de que a leitura mais direta das passagens que tratam dos setenta anos mostra que esses anos são o período do domínio neobabilônico, não o período da desolação de Jerusalém. Este entendimento concorda plenamente com a evidência histórica, mas está em flagrante conflito com a aplicação que lhe é dada pela Sociedade Torre de Vigia. É verdadeiramente aflitivo descobrir que indivíduos em cuja orientação espiritual milhões de pessoas confiam, lidam de maneira tão negligente e desonesta com os fatos. O “Apêndice” do livro “Venha o Teu Reino”, que defende a cronologia deles, é nada mais que um exercício esperto na arte de esconder a verdade.

Pode-se perguntar: Por que os líderes de uma organização que enfatiza constantemente seu interesse na “Verdade”, acham necessário na realidade suprimir a verdade e até mesmo opor-se a ela?

A razão óbvia é que eles não têm outra escolha, enquanto insistirem que sua organização foi designada no ano de 1919 como o único canal e porta-voz de Deus na terra. Se o cálculo 607 A.E.C. — 1914 E.C. for abandonado, esta reivindicação cairá por terra. Então estes líderes terão de admitir, pelo menos tacitamente, que sua organização, nos últimos cem anos, apareceu no cenário mundial num falso papel com uma falsa mensagem.

Quando o questionamento da data 607 A.E.C. tem sido ocasionalmente comentado nas publicações da Torre de Vigia em anos recentes, a única defesa tem sido uma referência ao “Apêndice” de 1981. Na revista A Sentinela de 1º de novembro de 1986, por exemplo, alega-se que “as Testemunhas de Jeová publicaram em 1981 evidência convincente em apoio da data de 607 AEC.” Daí o leitor é encaminhado para o livro “Venha o Teu Reino”, páginas 127-40, 186-90.[46]

Uma vez que o “Apêndice” da Sociedade só contém uma série de tentativas frustradas de minar a evidência contra a data 607 A.E.C., e como a única “evidência convincente” apresentada a favor da data é uma referência a “matéria ainda a ser descoberta”, os escritores da Torre de Vigia estão evidentemente confiantes de que a maioria das Testemunhas desconhece completamente os fatos. E os líderes da Sociedade Torre de Vigia querem que fique assim. Isto é evidente à base dos avisos que se dão repetidamente nas publicações da Torre de Vigia contra ler literatura de ex-Testemunhas que conhecem os fatos sobre sua cronologia. Os líderes da Sociedade Torre de Vigia evidentemente temem que se permitirem que as Testemunhas se exponham a estes fatos, elas podem descobrir que as reivindicações proféticas do movimento baseiam-se em nada mais que especulações cronológicas sem fundamento, antibíblicas e anti-históricas.
 

Quando Terminaram Realmente os “Sete Tempos”?

Alguns argumentam que, mesmo que os “sete tempos” sejam proféticos e mesmo que tenham durado 2.520 anos, as Testemunhas de Jeová ainda assim estão enganadas sobre a importância de 1914, porque usam o ponto de partida errado. Afirmam que Jerusalém foi destruída em 587/6 AEC, não em 607 AEC. Se isto fosse verdade, transferiria o começo do “tempo do fim” em uns 20 anos. Entretanto, as Testemunhas de Jeová publicaram em 1981 evidência convincente em apoio da data de 607 AEC. (“Venha o Teu Reino”, páginas  127-40, 186-90.) Além disso, será que os que procuram tirar de 1914 a sua importância bíblica podem provar que 1934 — ou, quanto a isso, qualquer outro ano — tenha tido um impacto mais profundo, mais dramático e mais espetacular na história do mundo do que 1914?

A Sentinela de 1º de novembro de 1986, página 6.

 

Assim, embora a organização Torre de Vigia provavelmente use a palavra “Verdade” com mais freqüência do que a maioria das outras organizações na terra, o fato é que a verdade se tornou um inimigo do movimento. Por isso a organização tem de se opor à verdade e escondê-la.

É claro que qualquer um, seja um indivíduo ou uma organização, tem todo o direito de acreditar no que quiser, desde que isso não prejudique outras pessoas — que discos voadores existem, que a terra é plana, ou, neste caso, que Jerusalém, contrário a toda a evidência, foi desolada em 607 A.E.C., e que, em algum lugar pode haver “matéria ainda a ser descoberta” para apoiar essas idéias.

Todavia, se esses “crentes” não estão dispostos a conceder a outros o direito de discordar de suas teorias, e em vez disso classificam como apóstatas sem Deus aqueles que já não mantêm o ponto de vista deles, condenam-nos à Geena se não mudarem de idéia, obrigam seus amigos e parentes a encará-los como criminosos iníquos sem Deus que têm de ser evitados, ostracizados e até odiados, explicando que Deus em breve vai exterminá-los para sempre junto com o resto da humanidade — então já é hora de tais “crentes” serem responsabilizados por suas opiniões, atitudes e ações. Qualquer fé que resulte em tais conseqüências graves para outras pessoas deve primeiro comprovar que está solidamente baseada na realidade, e não apenas em especulações insustentáveis que só podem ser apoiadas por “matéria ainda a ser descoberta.”

 

B. DEFESAS NÃO OFICIAIS ESCRITAS POR TESTEMUNHAS DE JEOVÁ ERUDITAS

O “Apêndice” de 1981 é até agora a única tentativa oficial feita pela Sociedade Torre de Vigia para neutralizar as linhas de evidência contra a data 607 A.E.C. apresentadas em Os Tempos dos Gentios Reconsiderados. Evidentemente reconhecendo que a defesa da Sociedade é irremediavelmente inadequada, algumas Testemunhas de Jeová eruditas e membros de outros grupos de Estudantes da Bíblia começaram a elaborar por conta própria tratados em defesa da cronologia dos tempos dos Gentios. Vieram à minha atenção cerca de meia dúzia de tais escritos. A maioria deles foi enviada por Testemunhas de Jeová que os leram e queriam saber minha opinião sobre eles.

Uma característica comum destes escritos é sua falta de objetividade. Todos começam com uma idéia preconcebida que tem de ser defendida a todo o custo. Outra característica comum é que vez após vez os tratados refletem pesquisa inadequada, resultando com freqüência em erros graves. Infelizmente, alguns dos escritos também recorrem repetidamente a linguagem difamatória. Em publicações eruditas os autores geralmente se tratam com respeito, e escritos críticos são encarados como contribuições construtivas para o progresso do debate. Não seria de esperar que os cristãos também se refreassem de usar linguagem depreciativa e desonrosa quando se referem a críticos sinceros? Classificá-los como “detratores”, “ridicularizadores”, e assim por diante, é exatamente o contrário da atitude recomendada pelo apóstolo Pedro em 1 Pedro 3:15.

Como os argumentos mais importantes apresentados nos tratados que vieram à minha atenção já foram considerados em seus devidos contextos nesta obra, não há necessidade de abordá-los novamente aqui. Uma breve descrição dos tratados elaborados por dois dos mais qualificados defensores da cronologia da Sociedade Torre de Vigia pode ser de interesse para os leitores e é apresentada a seguir.[47]

Rolf Furuli é uma Testemunha de Jeová que vive em Oslo, Noruega. Ele é ex-superintendente de distrito e é encarado pelas Testemunhas norueguesas como o principal apologista dos ensinos da Torre de Vigia naquele país, e as Testemunhas recorrem freqüentemente a ele com seus problemas doutrinais. Portanto, não surpreende que ele tenha achado ser uma tarefa importante “refutar” meu trabalho sobre a cronologia dos tempos dos gentios da Sociedade Torre de Vigia.

A primeira tentativa desse tipo feita por Furuli, um tratado de mais de cem páginas, intitulado “Den nybabyloniske kronologi og Bibelen” (“A Cronologia Neobabilônica e a Bíblia”), foi-me enviado por Testemunhas da Noruega em 1987. Da mesma forma que a Sociedade Torre de Vigia faz em seu “Apêndice”, Furuli tentou minar a credibilidade das fontes históricas para a cronologia neobabilônica apresentadas em meu trabalho. Para satisfazer o desejo das Testemunhas norueguesas (que tinham entrado em contato comigo secretamente), resolvi escrever uma resposta ao tratado de Furuli.

As primeiras 31 páginas da minha resposta (que ao final chegou a 93 páginas) foram enviadas na primavera de 1987 para as Testemunhas norueguesas, que logo forneceram uma cópia a Rolf Furuli também. Furuli percebeu rapidamente que sua discussão fora exposta como insustentável e que se ele continuasse a circular seu tratado, minha resposta circularia também. Para impedir isto, ele escreveu-me uma carta, datada de 23 de abril de 1987, na qual descreveu seu tratado como apenas “anotações pessoais” que não representavam suas “opiniões atuais” em “todos os detalhes”, mas eram apenas uma expressão da informação que lhe estava disponível no momento em que foram escritas. Ele pediu-me que destruísse minha cópia de seu tratado e que nunca mais o citasse novamente.[48]

Três anos depois Furuli elaborou um segundo tratado destinado a derrubar a evidência apresentada em meu trabalho. Por algum tempo Furuli estivera estudando hebraico na universidade em Oslo, e em seu novo tratado de 36 páginas (datado de 1º de fevereiro de 1990) ele tentou argumentar que minha discussão dos setenta anos “para Babilônia” estava em contradição com o texto hebraico original.

Era evidente, porém, que o conhecimento que Furuli tinha do hebraico na época era muito deficiente. Tendo consultado vários proeminentes hebraístas escandinavos, escrevi uma resposta de 69 páginas, demonstrando detalhadamente que os argumentos no tratado dele eram baseados numa má compreensão da língua hebraica. Como Furuli, em sua discussão, tinha questionado a credibilidade do texto massorético hebraico (MT) do livro de Jeremias, minha resposta incluía também uma defesa deste texto contra o texto da Septuaginta Grega (LXX).

Em 2003 Furuli publicou um livro de 250 páginas sobre a cronologia persa que é basicamente uma defesa da datação errônea que a Torre de Vigia faz do reinado de Artaxerxes I. Inclui também uma seção de 18 páginas que contêm outra discussão lingüisticamente insustentável das passagens bíblicas sobre os 70 anos.[49]

Philip Couture, uma Testemunha de Jeová que reside na Califórnia, EUA, tem sido um membro do movimento da Torre de Vigia desde 1947. Durante anos ele tem feito pesquisa sobre história e cronologia neobabilônica, evidentemente com o objetivo de encontrar algum apoio para a data 607 A.E.C.

No outono de 1989 um amigo em Nova Jersey, EUA, enviou-me uma cópia de um tratado de 72 páginas (que incluía uma seção com páginas copiadas de vários trabalhos) intitulado Um Estudo da Cronologia Neobabilônica da Torre de Vigia à Luz das Fontes Antigas (em inglês). Foi escrito por um apologista anônimo da Torre de Vigia, e só muito tempo depois notei que meu amigo tinha incluído um pedaço de papel dizendo que o autor era Philip Couture.[50]

Embora Couture evite cuidadosamente mencionar meu trabalho, ele repetidamente faz citações dele ou referências a seu conteúdo. O motivo é, evidentemente, que não é admissível que ele tenha lido o que as publicações da Torre de Vigia classificam como “literatura apóstata.” O único crítico que Couture menciona por nome é um Adventista do Sétimo Dia, William MacCarty, que lá em 1975 escreveu um folheto sobre o cálculo dos tempos dos gentios da Sociedade Torre de Vigia.[51]

Assim como o primeiro tratado de Furuli, o tratado de Couture é uma tentativa de minar a credibilidade das fontes históricas para a cronologia neobabilônica. Todavia, apesar de seus esforços, ele não consegue apresentar um único argumento válido que possa mover o peso da evidência contra a data 607 A.E.C. A razão para isto é que, não importa quão hábil e capaz uma pessoa possa ser, no fim será impossível que ela encontre qualquer apoio real e válido para uma idéia que é falsa e por isso basicamente insustentável.

Cerca de metade do tratado de Couture aborda astronomia e sua relação com a cronologia neobabilônica. Infelizmente, esta é uma área com a qual Couture, pelo menos na época em que escreveu o tratado, não estava muito familiarizado. Assim, embora uma seção separada de seu tratado contenha uma “palavra de cautela” com respeito ao “uso e abuso de eclipses”, ele próprio cai repetidamente nas mesmas armadilhas contra as quais avisa.[52]

Como este e outros pontos importantes levantados por Couture foram abordados nas várias seções deste livro, não se fazem aqui mais comentários sobre seu tratado.[53] Não sei se Couture ainda está disposto a defender sua posição.

Alguns dos outros tratados que me foram enviados apresentam considerações das passagens bíblicas sobre os setenta anos, mas desconsideram a evidência histórica contra a data 607 A.E.C.[54] Esse tipo de consideração não é, como o autor do tratado talvez dê a entender, uma tentativa de defender a Bíblia contra ataques baseados em fontes seculares. Em vez disso, é uma tentativa de forçar o significado de textos bíblicos para adaptá-los a uma teoria que está em flagrante conflito com todas as fontes históricas do período neobabilônico. A escolha em tais discussões não é realmente entre a Bíblia e as fontes seculares; é entre uma teoria estimada e a evidência histórica. Quando a realidade histórica é ignorada, essas discussões nada mais são que exercícios fúteis de escapismo ou do simples desejo de acreditar.

É de se esperar que continuem as tentativas de neutralizar a evidência histórica contra a data 607 A.E.C. apresentada neste trabalho. Provavelmente aparecerão novas discussões no futuro elaboradas pela Sociedade Torre de Vigia e/ou por outros defensores do cálculo 607 A.E.C. — 1914 E.C. Se, pelo menos superficialmente, alguns argumentos apresentados nessas discussões parecerem ter alguma força, terão de ser criticamente examinados e avaliados. Se houver necessidade, um informe sobre tais discussões será disponibilizado na internet.



[1] Vários anos antes de o tratado ser enviado à sede em Brooklyn, alguns membros do pessoal da redação tinham começado a perceber a fragilidade das interpretações proféticas ligadas à data 1914. Estes incluíam Edward Dunlap, ex-Secretário da Escola de Gileade, e o membro do Corpo Governante Raymond Franz. Por isso, estes pesquisadores puderam concordar com a conclusão de que a data 607 A.E.C. para a destruição de Jerusalém é cronologicamente insustentável. Alguns outros do pessoal da redação, que também leram o tratado, vieram a perceber que a data 607 A.E.C. tinha uma grave falta de base histórica e começaram a sentir sérias dúvidas quanto à data. (O pessoal da redação incluía cerca de 18 membros na época.) Até mesmo o membro do Corpo Governante Lyman Swingle expressou-se diante dos demais membros do Corpo, em relação ao fato de a organização Torre de Vigia ter obtido sua data 1914 (que depende da data 607 A.E.C.) dos Segundo Adventistas, com “armas, bagagens e munição”. Todavia, as tentativas de Raymond Franz e de Lyman Swingle de apresentar a evidência para ser discutida pelo Corpo Governante tiveram resposta desfavorável. Os outros membros do Corpo não acharam conveniente discutir o assunto, mas decidiram continuar defendendo a data 1914. — Veja Crise de Consciência, Raymond Franz, (São Paulo, Brasil: Editora Hagnos, 1ª Edição, 2002), págs. 177-180, 256-261.

[2] “Venha o Teu Reino” (Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, 1981), págs. 186-190. O livro foi escrito pelo membro do Corpo Governante Lloyd Barry. Todavia, o “Apêndice ao Capítulo 14” foi escrito por outra pessoa, possivelmente Gene Smalley, um membro do pessoal de redação. O “trabalho preliminar” provavelmente foi feito por John Albu, uma Testemunha erudita de Nova Iorque. Segundo Raymond Franz, Albu especializou-se em cronologia neobabilônica em favor da Sociedade Torre de Vigia e fez alguma pesquisa relacionada com meu tratado, a pedido do Departamento de Redação.

[3]Venha o Teu Reino” (Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados, 1981), pág. 186.

[4] Ibid., pág. 187.

[5] O diário astronômico B.M. 32312 é considerado no Capítulo 4 deste livro, seção A-2. Na primeira edição em inglês (1983), a discussão encontra-se nas págs. 83-86.

[6]Venha o Teu Reino”, pág. 187.

[7] Ibid., pág. 187.

[8] A. K. Grayson, “Assíria e Babilônia” (em inglês), Orientalia, Vol. 49:2, 1980, pág. 171.

[9] Ibid., págs. 170, 171.

[10] Ibid., pág. 175.

[11] “Venha o Teu Reino”, pág. 187.

[12] Isto já foi amplamente demonstrado no Capítulo 2.

[13] Conforme já mencionado no Capítulo 2, de 1955 até por volta de 1971, o ano de 539 era chamado de “data absoluta” nas publicações da Torre de Vigia. Quando se descobriu que esta data não tinha o apoio que os eruditos da Torre de Vigia imaginavam, eles descartaram este termo. Em Ajuda ao Entendimento da Bíblia, página 385 (= Estudo Perspicaz das Escrituras, Vol. 1, pág. 613), 539 é chamado de “ponto fixo”. E em “Venha o Teu Reino”, afirma-se apenas que “os historiadores calculam”, “sustentam” ou “aceitam” que Babilônia caiu em outubro de 539 A.E.C. (págs. 136, 186, 189). No entanto, a Sociedade ainda baseia toda a sua “cronologia bíblica” nesta data.

[14]Venha o Teu Reino”, pág. 187.

[15] Carta recebida do Dr. Edward F. Campbell, Jr., datada de 9 de agosto de 1981. O motivo da incerteza entre os eruditos quanto a se Jerusalém foi desolada em 587 ou em 586 A.E.C. provém da Bíblia, não das fontes extrabíblicas. Todos os eruditos concordam em datar o décimo oitavo ano do reinado de Nabucodonosor em 587/86 A.E.C. (de nisã a nisã). A Bíblia data a desolação no décimo nono ano de reinado de Nabucodonosor em 2 Reis 25:8 e em Jeremias 52:12 (sendo esta passagem uma repetição quase literal daquela), mas Jeremias 52:29 diz que foi no décimo oitavo ano. Esta discrepância pode ser resolvida se admitirmos um sistema não-ascensional para os reis de Judá. (Veja a seção “Métodos de contagem de anos de reinado”, no Apêndice ao Capítulo 2 deste livro). A data 597 A.E.C. para a captura anterior de Jerusalém e a deportação de Joaquim, diz o Dr. Campbell, é uma das pouquíssimas datas históricas seguras reconhecidas pelos eruditos. A razão é o sincronismo exato que existe entre a Bíblia e a Crônica Babilônica neste ponto. — Veja as duas seções “O ‘terceiro ano de Jeoiaquim’ (Daniel 1:1-2)” e “Tabelas cronológicas abrangendo os setenta anos”, no Apêndice ao Capítulo 5 deste livro.

[16] Carta recebida do Dr. David N. Freedman, datada de 16 de agosto de 1981.

[17]Venha o Teu Reino”, págs. 188-190.

[18] Ibid., pág. 188.

[19] Veja a seção “O 'terceiro ano de Jeoiaquim' (Daniel 1:1-2)” no Apêndice ao Capítulo 5 deste livro.

[20] Crônicas Assírias e Babilônicas, A. K. Grayson, (em inglês - Locust Valley, Nova Iorque: J. J. Augustin Publisher, 1975), pág. 100.

[21] “Quando Começou o Cativeiro Babilônico?”, Gerhard Larsson, Revista de Estudos Teológicos, Vol. 18, (em inglês - 1967), pág. 420.

[22] A. K. Grayson, op. cit., pág. 102. (Ênfase acrescentada.)

[23]Venha o Teu Reino”, pág. 188.

[24] Estudo Perspicaz das Escrituras, Vol. 1 (1990), pág. 467.

[25] Novo Dicionário Bíblico, 2ª edição em inglês, ed. por J. D. Douglas et al (Leicester, Inglaterra: Editora Inter-Varsity, 1982), pág. 630.

[26] Veja a discussão de Albertus Pieters em Das Pirâmides a Paulo (em inglês - Nova Iorque: Thomas Nelson e Filhos, 1935), págs. 184-189.

[27]Venha o Teu Reino”, pág. 188, citando Antiguidades Judaicas X, vi, 1, de Josefo.

[28] Die Authentie des Daniels und die Integrität des Sacharjah, Ernst Wilhelm Hengstenberg (Berlim, 1831), pág. 57. Traduzido do alemão.

[29] Josefo menciona os setenta anos cinco vezes em suas obras, ou seja, em Antiguidades Judaicas X, 7, 3; X, 9, 7; XI, 1, 1; XX, 10, 2; e em Contra Apião, I, 19. Nestas passagens os setenta anos são referidos alternadamente como um período de escravidão, cativeiro, ou desolação, estendendo-se da destruição de Jerusalém ao primeiro ano de Ciro.

[30] Contra Apião I, 21, de Josefo, é citado aqui a partir da tradução de H. St. Thackeray, publicada no Loeb Classical Library (Cambridge, Massachusetts, e Londres, Inglaterra: Editora da Universidade de Harvard, reimpressão de 1993 da edição de 1926), págs. 224-225. Alguns defensores da cronologia da Sociedade Torre de Vigia alegam que existe um problema textual com a expressão “cinqüenta anos”, apontando que alguns manuscritos rezam “sete anos” em vez de “cinqüenta”, em I, 21, que alguns eruditos anteriores teriam pensado ser uma corrupção de “setenta”. Todavia, críticos textuais da atualidade demonstraram que tal conclusão está errada. Mostrou-se que todos os manuscritos gregos de Contra Apião existentes são cópias posteriores de um manuscrito grego do século 12 E.C., Laurentianus 69, 22. Todos os eruditos modernos concordam que o número “sete” está corrompido nestes manuscritos. Ademais, é defendido universalmente por todos os críticos textuais modernos que as melhores e mais confiáveis testemunhas do texto original de Contra Apião encontram-se nas citações dele feitas pelos Pais da Igreja, especialmente por Eusébio, que cita extensivamente as obras de Josefo, e geralmente de maneira literal e fiel. Contra Apião I, 21 é citado em duas das obras de Eusébio: (1) em sua Preparação para o Evangelho, I, 550, 18-22, e (2) em sua Crônica (preservada apenas em uma versão armênia), 24,29 - 25,5. Estas duas obras rezam “50 anos” em I, 21. A mais importante destas duas obras é a primeira, da qual foram preservados vários manuscritos do décimo século E.C. em diante. Todas as edições críticas modernas do texto grego de Contra Apião apresentam “cinqüenta” (em grego: pentêkonta) em Contra Apião I, 21, incluindo as de B. Niese (1889), S. A. Naber (1896), H. St. Thackeray (1926) e T. Reinach & L. Blum (1930). A edição crítica de Niese do texto grego de Contra Apião é ainda considerada como a edição padrão e todas as edições posteriores são aprimoramentos baseados no texto dele. Uma nova edição crítica textual de todas as obras de Josefo está atualmente sendo elaborada pelo Dr. Heintz Schreckenberg, mas provavelmente ainda levará muitos anos até que ela esteja pronta para publicação. Finalmente, deve-se notar que a declaração de Josefo acerca dos “cinqüenta anos” em Contra Apião I, 21, é precedida por sua apresentação dos números de Beroso referentes aos reinados dos reis neobabilônicos, e estes números mostram que do 18º ano de Nabucodonosor até o segundo ano de Ciro, houve um período de cinqüenta anos, não setenta. O próprio Josefo enfatiza que os números de Beroso “tanto são corretos como estão em harmonia com nossos livros.” Portanto, o contexto também exige a expressão “cinqüenta anos” em Contra Apião I, 21.

[31] Obras Completas de Josefo, traduzido por William Whiston (em inglês - Grand Rapids: Publicações Kregel, 1978), págs. 678-708. A tradução de Whiston foi originalmente publicada em 1737.

[32] Ibid., pág. 684, § 14.

[33] Ibid., pág. 686, § 19.

[34] Ibid., págs. 688, 689, § 23.

[35] Contra Apião I, 20-21.

[36]Venha o Teu Reino”, pág. 189.

[37] Sobre a aplicação que Teófilo faz dos setenta anos, veja Os Pais Antenicenos, de A. Roberts e J. Donaldson, eds., Vol. 2 (em inglês - Grand Rapids: Wm. Eerdmans Publishing Co., reimpresso em 1979), pág. 119. Provavelmente Teófilo baseou sua data para o fim dos setenta anos em Esdras 4:24, confundindo Dario Histaspes com o “Dario o medo” de Daniel 5:31 e 9:1, 2.

[38] Ibid., pág. 329. Esta aplicação dos setenta anos pode ter sido influenciada por idéias rabínicas. Fazendo referência à crônica rabínica Seder Olam Rabbah (SOR), o Dr. Jeremy Hughes indica que “a tradição judaica posterior contava 52 anos para o exílio babilônico (SOR 27) e 70 anos como o intervalo entre a destruição do primeiro templo e a fundação do segundo templo, sendo este evento datado no segundo ano de Dario (SOR 28; cf. Zac 1:12).” O período de 70 anos foi “dividido em 52 anos de exílio e 18 anos desde o retorno até a fundação do segundo templo (SOR 29).” — Segredos dos Tempos, Jeremy Hughes, (em inglês - Sheffield: JSOT Press, 1990), págs. 41 e 257.

[39] Como se mostra no Apêndice ao Capítulo 5, “O ‘terceiro ano de Jeoiaquim’ (Daniel 1:1-2)”, estes textos incluem também Daniel 1:1, 2 e 2:1.

[40] Para uma análise completa dos textos que tratam dos setenta anos, veja o Capítulo 5 deste livro.

[41]Venha o Teu Reino”, pág. 189.

[42] Ibid., pág. 189.

[43] Ibid.

[44] A maioria dos comentaristas finaliza os setenta anos com a queda de Babilônia em 539 A.E.C., com o decreto de Ciro em 538, com o regresso do primeiro restante judaico à Palestina em 538 ou 537 (Esdras 3:1, 2), ou com o início da reconstrução do templo em 536 (Esdras 3:8-10). (Enciclopédia de Profecia Bíblica, Professor J. Barton Payne, Grand Rapids: Baker Books, reimpressão de 1980 da edição de 1973, pág. 339, em inglês.) Curiosamente, estas alternativas (exceto a própria data 537 A.E.C. da Sociedade Torre de Vigia) não são sequer mencionadas no “Apêndice” ao “Venha o Teu Reino”!

[45]Venha o Teu Reino”, pág. 190.

[46] A Sentinela de 1º de novembro de 1986, pág. 6. (Ênfase acrescentada.) Uma referência similar ao “Apêndice” encontra-se na Sentinela de 15 de março de 1989, pág. 22.

[47] Segundo a informação que tenho, John Albu, de Nova Iorque, era provavelmente o cronologista da Torre de Vigia mais versado na história neobabilônica. Há alguns anos disseram-me que ele tinha preparado alguma matéria em defesa da data 607 A.E.C., mas até agora nenhuma parte dela foi trazida à minha atenção. Albu morreu em 2004.

[48] Como descobri depois que Furuli continuou a compartilhar o tratado dele com Testemunhas que tinham começado a questionar a cronologia da Sociedade, não vi motivo para parar a circulação de minha resposta a ele. Um ponto principal na argumentação de Furuli era que as datas em alguns documentos cuneiformes da era neobabilônica geram “sobreposições” de alguns meses entre certos reinados, o que ele encarou como prova de que anos extras deveriam ser adicionados a estes reinados. Estas “sobreposições” são consideradas no Apêndice ao capítulo 3 deste livro.

[49] A Cronologia Persa e a Duração do Exílio Babilônico dos Judeus, Rolf Furuli (Oslo: R Furuli A/S, 2003). Para uma análise crítica do livro, veja o Apêndice.

[50] Isto me foi também confirmado pelo Professor John A. Brinkman da Universidade de Chicago, autor de uma carta dirigida a Couture que tinha sido incluída no tratado (com o nome do destinatário removido).

[51] 1914 e a Segunda Vinda de Cristo, William MacCarty (em inglês - Washington, D.C.: Review and Herald Publishing Association, 1975).

[52] Um exemplo disto é sua discussão do eclipse lunar de 13 de ululu do segundo ano de Nabonido, descrito na inscrição real Nabon. No. 18, que os astrônomos modernos identificaram com o que ocorreu em 26 de setembro de 554 A.E.C. (Este eclipse é abordado no Capítulo 3 deste livro, seção B-1-c.) Na página 11 de seu tratado, Couture alega que “no intervalo de poucos anos em qualquer direção existem outros eclipses lunares que são igualmente possíveis.” Mas em nenhum dos seis eclipses alternativos apresentados por Couture (datando de 563 a 543 A.E.C.) a lua se posicionou heliacamente (isto é, nenhum destes seis eclipses ocorreu num momento em que a lua se punha no oeste, ao mesmo tempo em que o sol nascia no leste), como se declara explicitamente na inscrição e três deles nem sequer foram visíveis em Babilônia! Erros desse tipo mostram que Couture, pelo menos na época em que escreveu seu tratado, não sabia como calcular e identificar antigos eclipses lunares.

[53] Para os que leram o tratado de Couture e estão interessados em minha resposta, uma detalhada refutação à parte está disponível por uma quantia para cobrir custos de cópia e postagem.

[54] Um exemplo disto é um livro de 136 páginas escrito por Charles F. Redeker, Os 70 Anos Bíblicos. Um Olhar Sobre os Períodos do Exílio e da Desolação (em inglês - Southfield, Michigan: A Torre de Sião da Manhã, 1993). Redeker é membro dos Estudantes da Bíblia da Aurora, uma ramificação conservadora de Estudantes da Bíblia, dissidente da organização Torre de Vigia, formada no início da década de 1930 em reação às muitas mudanças nos ensinos de Russell introduzidas pelo segundo presidente da Sociedade Torre de Vigia, Joseph F. Rutherford.