1914 e "Esta Geração"

 

Pois o leito mostrou-se curto demais para se estirar nele, e o próprio lençol tecido é demasiado estreito para se enrolar nele. — Isaías 28:20.

Por mais de três décadas, o ano de 1914, foi apresentado como o ponto final das profecias cronológicas da organização Torre de Vigia. Agora, por aproximadamente oito décadas, essa mesma data tem sido apresentada como o ponto de partida para a profecia cronológica que constitui o maior estímulo à “urgência” na atividade das Testemunhas de Jeová.

Talvez nenhuma outra religião dos tempos modernos tenha investido tanto e seja tão dependente de uma única data. A alegação da organização das Testemunhas de ser o único canal terrestre e instrumento de Deus e de Cristo está inseparavelmente ligada à data, pois se alega que naquele ano Cristo começou sua “presença invisível” como rei recém-entronizado, e logo depois examinou as muitas organizações religiosas da terra e selecionou a que estava associada com a Torre de Vigia para representá-lo perante toda a humanidade. Correlacionado com isso, ele reconheceu com aprovação aquele mesmo corpo de indivíduos como uma classe do “escravo fiel e discreto”, à qual ele designou sobre todos os seus bens terrestres. O Corpo Governante das Testemunhas de Jeová deriva disso sua alegação de autoridade, apresentando-se como a parte administrativa da classe do “escravo fiel e discreto”. Eliminar 1914 e sua alegada significação, faria a base de sua autoridade ser grandemente dissipada.

A evidência mostra que o Corpo Governante das Testemunhas de Jeová sente certo grau de desconforto quanto a esta principal profecia cronológica. A projeção do tempo destinado ao seu cumprimento está se provando bastante curta e estreita no que se refere a cobrir as coisas preditas. A passagem de cada ano só serve para acentuar o sentimento de desconforto.

Desde a década de 1940, as publicações da Torre de Vigia têm representado as palavras de Jesus, “Deveras eu vos digo que esta geração de modo algum passará até que todas estas coisas ocorram”, como tendo começado a aplicar-se nesse ano, 1914. Falava-se na “geração de 1914”, e ela era apresentada como se referindo a um período no qual o cumprimento final das “profecias dos últimos dias” ocorreria e viria uma nova ordem.

Na década de 1940 defendia-se a idéia de que uma “geração” cobria um período de aproximadamente 30 ou 40 anos. Isto se traduzia na constante insistência na extrema brevidade do tempo restante. Pelo menos alguns exemplos bíblicos podiam ser citados em confirmação disso. (Veja, por exemplo, Números 32:13).

Com a chegada da década de 1950, porém, o período de tempo permitido por essa definição tinha efetivamente passado. Havia necessidade de alguma “prorrogação” e assim na Sentinela de 1º de setembro de 1952, págs. 542 e 543 (em inglês) a definição foi mudada e pela primeira vez, o período de tempo abrangido por uma “geração” foi definido como representando o período de uma vida inteira, chegando assim a – não apenas 30 ou 40 anos – mas a 70, 80 ou mais anos.

Por algum tempo, isso pareceu conceder um confortável intervalo de tempo no qual as predições publicadas poderiam ocorrer. Ainda assim, com o passar dos anos a aplicação do termo “geração de 1914” passou por ajuste e definição adicionais. Observe as frases aqui sublinhadas de um artigo na Despertai! de 22 de abril de 1969 (páginas 13 e 14):

Jesus falava obviamente sobre os que eram suficientemente idosos para testemunhar com entendimento o que aconteceu quando começaram os “últimos dias”. Afirmava Jesus que algumas dessas pessoas que viviam quando surgiu o ‘sinal dos últimos dias’ ainda estariam vivas quando Deus pusesse fim a este sistema.

Até se presumirmos que os jovens de 15 anos teriam suficiente percepção mental para discernir a importância do que aconteceu em 1914, isso ainda faria com que os mais jovens ‘desta geração’ tivessem quase setenta anos atualmente. Assim, a grande maioria da geração a que Jesus se referia já havia desaparecido na morte. Os restantes atingem a velhice. E, lembrem-se, Jesus disse que o fim deste mundo iníquo viria antes de tal geração desaparecer na morte. Isto, em si, nos informa que não podem ser muitos os anos antes de chegar o fim predito.

Quando a revista Despertai! discutiu isto há mais de 30 anos atrás nos dias que antecederam 1975, a ênfase dada era sobre quão logo terminaria a geração de 1914, quão pouco tempo restava à extensão de vida desta geração. Para alguém entre as Testemunhas de Jeová ter sugerido em 1969 que as coisas poderiam continuar por outros vinte ou trinta anos teria sido visto como manifestando uma atitude fraca, não indicativa de uma fé forte.

Quando 1975 passou, a ênfase mudou. Agora, fazia-se o esforço para mostrar que a extensão da geração de 1914 não era tão curta quanto alguém poderia pensar, que podia estender-se por um período ainda bem longo.

Dessa forma, A Sentinela de 15 de janeiro de 1979 falava, não daqueles que testemunharam “com entendimento o que aconteceu” em 1914, mas dos que “eram capazes de observar” os eventos que começaram naquele ano. Ser capaz de fazer uma mera observação é bastante diferente de ter entendimento. Isto podia logicamente baixar o limite da idade mínima dos que compõem “esta geração”.

Dando continuidade a esta tendência, dois anos mais tarde, A Sentinela de 15 de abril de 1981 página 31, citou um artigo da revista U. S. News & World Report no qual se sugeria que dez anos de idade seria o ponto no qual os eventos começam a criar “uma impressão duradoura na memória da pessoa”. O artigo dizia que, se isso era verdade, “então há atualmente mais de 13 milhões de estadunidenses que têm uma lembrança da Primeira Guerra Mundial”.

‘Lembrança’ também dá margem a uma idade mais tenra do que a que permite entender, sugerida como se verificando entre “jovens de quinze anos de idade” na Despertai! de 1969 acima citada. (Na realidade, a 1ª Guerra Mundial continuou até 1918, com a participação americana começando somente em 1917. Assim, a sugerida idade de dez anos dada na citada revista noticiosa não se aplica necessariamente a 1914.)

Ainda que os diferentes sistemas de medida possibilitassem ganhar um ano a mais ou a menos aqui e ali, permanecia o fato de que a geração do período de 1914 estava encolhendo com grande rapidez, uma vez que a taxa de mortalidade é sempre maior entre os de idade mais avançada. O Corpo Governante estava consciente disto, já que o assunto veio à discussão várias vezes.

Levantou-se a questão durante a sessão do Corpo de 7 de junho de 1978. Fatores anteriores levaram a tal. Albert Schroeder, membro do Corpo Governante, tinha distribuído entre os membros a cópia de um relatório demográfico dos Estados Unidos. Os dados indicavam que menos de um por cento da população que estava na adolescência em 1914 ainda estava viva em 1978. Porém, o fator que recebeu mais atenção tinha a ver com as declarações feitas por Schroeder por ocasião de sua visita a certos países da Europa.

Afluíam relatórios a Brooklyn no sentido de que ele estava sugerindo a outras pessoas que a expressão “esta geração” conforme usada por Jesus em Mateus, capítulo 24, versículo 34, se aplicava à geração dos “ungidos”, e que, enquanto qualquer um destes estivesse ainda vivo, tal “geração” não teria passado. Isto era evidentemente contrário ao ensino da organização e algo não autorizado pelo Corpo Governante.

Quando o assunto foi suscitado, depois da volta de Schroeder, a interpretação sugerida por ele foi rejeitada e votou-se para que fosse publicada uma “Pergunta dos Leitores” num dos números seguintes de A Sentinela reafirmando o ensino padrão com respeito a “esta geração”.[1] É interessante que não se dirigiu nenhuma repreensão ou reprovação ao membro do Corpo Governante Schroeder por ter apresentado seu ponto de vista não autorizado e contraditório quando esteve na Europa.

A questão surgiu novamente tanto na reunião de 6 de março como na de 14 de novembro de 1979. Já que a atenção estava voltada para este tema, tirei fotocópias das primeiras vinte páginas do material enviado pelo ancião sueco que detalhava sobre a história da especulação cronológica e revelava a verdadeira origem do cálculo dos 2.520 anos e da data 1914. Cada membro do Corpo recebeu uma cópia. Com exceção de um comentário incidental, não acharam conveniente discutir o material.

Lyman Swingle, como chefe do Departamento de Redação, já estava familiarizado com este material. Ele dirigiu a atenção do Corpo para algumas das declarações dogmáticas e insistentes publicadas em A Sentinela de 1922, lendo trechos destas em voz alta para todos os membros. Ele disse que era muito novo em 1914 (tendo então só uns quatro anos de idade) para se lembrar de muita coisa sobre a data, mas que realmente se lembrava das discussões que ocorreram em sua casa com relação a 1925.[2] Que também sabia do que tinha acontecido em 1975. Ele acrescentou que, pessoalmente, não queria ser desencaminhado com relação a outra data.

No decorrer da reunião, destaquei que a data inicial de 607 A.E.C. da Sociedade era desprovida de qualquer evidência histórica para sua sustentação. Quanto a 1914 e a geração então em existência, a minha pergunta foi: Se o ensino tradicional da organização for válido, como é possível aplicarmos as palavras acompanhantes de Jesus às pessoas que viviam em 1914? Disse ele: “Quando virdes todas estas coisas, sabei que ele está próximo às portas”, e “quando estas coisas principiarem a ocorrer, erguei-vos e levantai as vossas cabeças porque o vosso livramento está-se aproximando”. As publicações afirmavam com regularidade que essas palavras começaram a ser aplicadas de 1914 em diante àqueles cristãos que viviam em 1914. Mas, se assim for, a quem entre eles podem estas ser aplicadas? Àqueles que tinham então cinqüenta anos de idade? Mas estes, se ainda estivessem vivos, estariam agora (isto é, em 1979, o ano desta discussão) com 115 anos. Aos de quarenta anos? Eles estariam com 105 anos. Até os de trinta anos estariam com 95 e os que tivessem acabado de completar vinte anos estariam com 85 em 1979. (Até mesmo estes estariam com mais de 100 anos de idade, caso ainda estejam vivos atualmente.)

Se essas palavras emocionantes ‘levantai vossas cabeças porque vosso livramento está-se aproximando, está às portas’ se aplicassem então de fato às pessoas em 1914 e significassem que elas podiam esperar ver o desfecho final, esse anúncio empolgante precisaria razoavelmente ser alterado de modo a dizer: “Sim, podeis vê-lo – isto é, desde que sejais agora bastante jovens e que tenhais uma vida muito, muito longa”. Como exemplo, destaquei o caso de meu pai que, tendo nascido em 1891, era apenas um jovem de 23 anos em 1914. Ele viveu não apenas setenta ou oitenta anos, mas chegou aos 86 anos de idade. Estava então morto já por dois anos e morrera sem ter visto as coisas preditas.

Portanto, perguntei aos membros do Corpo que significado teria a aplicação das palavras de Jesus em Mateus capítulo 24, versículos 33 e 34, em 1914, se apenas os que podiam esperar ver seu cumprimento fossem meninos que estivessem chegando à adolescência ou fossem mais jovens ainda. Não me foi dada nenhuma resposta específica.

No entanto, certo número dos membros manifestou de fato seu apoio a favor do ensino existente da organização sobre “esta geração” e a data de 1914. Lloyd Barry expressou sua consternação pessoal por haver dúvidas dentro do Corpo com relação a este ensino. Ao referir-se à leitura de Lyman Swingle das declarações nas Sentinelas de 1922, ele declarou que não via nenhum motivo de preocupação com relação a elas, que eram “verdade atual” para os irmãos daquela época.[3] Quanto à velhice da geração de 1914, ele salientou que, em algumas partes da União Soviética, havia regiões em que as pessoas chegavam a viver 130 anos. Instou para que se transmitisse uma posição unida aos irmãos de modo que eles mantivessem seu senso de urgência. Outros se expressaram como sendo da mesma opinião.

Quando o presidente voltou a me conceder a palavra, comentei sobre a aparente necessidade de precaver-nos contra a possibilidade de a “verdade atual” tornar-se também com o tempo “verdade passada” e de a “verdade atual”, que substituiu a “verdade passada”, vir a ser por sua vez substituída pela “verdade futura”. Eu achava que a palavra “verdade” usada dessa maneira se tornara simplesmente sem sentido.

Alguns membros do Corpo disseram que, se a explicação atual não era a correta, qual era então a explicação das declarações de Jesus? Já que a pergunta parecia dirigir-se a mim, respondi que acreditava na existência de uma explicação que se harmonizasse com as Escrituras e os fatos, mas que qualquer coisa apresentada não deveria ser com certeza alguma idéia sob o “impulso do momento”, mas algo cuidadosamente pesquisado e analisado. Eu disse que achava que existiam irmãos capazes de fazer esse trabalho, mas que eles precisariam da autorização do Corpo Governante. Estaria o Corpo interessado em que isto fosse feito? Não houve nenhuma resposta e a pergunta foi posta de lado.

No final da discussão, com exceção de uns poucos, os membros do Corpo indicaram acreditar que 1914 e o ensino sobre “esta geração” ligado a essa data deveriam continuar a ser enfatizados. O coordenador da Comissão de Redação, Lyman Swingle, comentou: “Tudo bem, se é isto o que vocês querem fazer. Mas pelo menos vocês sabem que, no que diz respeito a 1914, as Testemunhas de Jeová receberam tudo – armas, bagagem e munição – dos segundos adventistas”.

Uma das coisas talvez mais perturbadoras para mim era o fato de saber que, enquanto a organização exortava os irmãos a manterem uma confiança inabalável na interpretação, havia homens em posição de responsabilidade dentro da organização que tinham se manifestado como não tendo plena confiança nas predições baseadas na data de 1914.

Como exemplo notável, por ocasião da reunião de 19 de fevereiro de 1975, na qual o Corpo Governante escutou a gravação do discurso de Fred Franz sobre 1975, houve depois certa discussão sobre a incerteza das profecias relativas a datas. Nathan Knorr, o então presidente, falou claramente e disse:

“Há algumas coisas que sei — eu sei que Jeová é Deus, que Cristo Jesus é seu Filho, que ele deu sua vida como resgate por nós e que há uma ressurreição. De outras coisas, não tenho muita certeza. 1914 — eu não sei. Nós temos falado sobre 1914 durante muito tempo. Talvez estejamos certos e espero que estejamos.”[4]

Nessa reunião, a data em discussão era 1975, de modo que foi uma surpresa que a data muito mais fundamental de 1914 fosse mencionada em tal contexto. Como foi mencionado, as palavras do presidente foram proferidas, não em conversa particular, mas perante o Corpo Governante reunido.

Antes da discussão principal sobre 1914 (na sessão plenária do Corpo Governante de 14 de novembro de 1979), a Comissão de Redação do Corpo havia discutido, numa reunião de comissão, se seria aconselhável continuar a enfatizar 1914.[5] Na discussão da comissão, sugeriu-se que devíamos pelo menos refrear-nos de “insistir com” a data. Pelo que recordo, Karl Klein nos fez lembrar a prática muitas vezes seguida de simplesmente não mencionar certo ensino por algum tempo, de modo que, caso chegasse a ocorrer alguma mudança, isto não iria causar uma impressão muito forte.

É notável como a Comissão de Redação votou unanimemente a favor de seguir-se basicamente essa mesma diretriz nas publicações com relação a 1914. Esta posição teve, no entanto, vida curta, já que a reunião geral do Corpo Governante em 14 de novembro de 1979 deixou claro que a maioria era a favor de que se enfatizasse a data como de costume.

Que as dúvidas quanto a este ensino não se limitavam a Brooklyn tornou-se evidente para mim por um incidente ocorrido enquanto eu estava numa viagem a África Ocidental, no outono de 1979. Na Nigéria, dois membros da comissão da filial nigeriana e um missionário veterano, me levaram para ver uma propriedade que a Sociedade havia comprado para construção de uma nova sede da filial. Na viagem de volta, perguntei-lhes quando esperavam poder mudar-se para o novo local. A resposta foi que, após a limpeza do terreno, a obtenção da aprovação dos projetos e o recebimento das autorizações necessárias, e então a própria construção, a mudança possivelmente aconteceria em 1983.

Em vista disso, perguntei: “Vocês recebem perguntas por parte dos irmãos locais com relação à duração do tempo que já se passou desde 1914?” Houve silêncio por um momento, e então disse o coordenador da filial: “Não, os irmãos nigerianos raramente fazem perguntas dessa natureza; mas NÓS fazemos”. Quase imediatamente, disse o missionário veterano: “Irmão Franz, seria possível que essa referência de Jesus a ‘esta geração’ se aplicasse somente às pessoas naquele tempo que viram a destruição de Jerusalém? Se fosse assim, então tudo poderia se encaixar”.

Era mais que evidente que nem tudo parecia se encaixar em sua mente, pelo modo como se aplicava o ensino em vigor. Minha resposta foi simplesmente que eu supunha ser essa uma possibilidade, mas que não havia muito mais que se pudesse dizer a favor da idéia. Repeti esta conversa perante o Corpo Governante depois de minha volta, pois isso me dava evidência das dúvidas existentes nas mentes de homens por todo o mundo, homens respeitados em posições de considerável autoridade. Os comentários feitos pelos homens na Nigéria e a maneira como os fizeram indicavam claramente que tinham discutido a questão entre si, antes da minha visita ocorrer.

Pouco depois de minha volta da África, uma sessão do Corpo Governante em 17 de fevereiro de 1980, Lloyd Barry expressou mais uma vez sua opinião quanto à importância do ensino com relação a 1914 e a “esta geração”. Lyman Swingle disse que a matéria publicada em “Perguntas dos Leitores” em 1978 não tinha resolvido a questão na mente dos irmãos. Albert Schroeder relatou que, na Escola de Gileade e nos seminários das comissões de filial, os irmãos trouxeram a atenção o fato de que se estava falando agora sobre 1984 como uma possível nova data, contando 1984 setenta anos desde 1914 (vendo-se o número setenta como tendo alguma importância especial). O Corpo decidiu discutir a assunto mais extensamente na sessão seguinte.[6]

A Comissão do Presidente, composta por Albert Schroeder (presidente), Karl Klein e Grant Suiter, havia preparado desta vez o documento mais incomum. Forneceram uma cópia para cada membro do Corpo Governante. Dito de maneira breve, estes três homens estavam sugerindo que, em vez de aplicar-se às pessoas vivas em 1914, a expressão “esta geração” começaria a aplicar-se a partir de 1957, 43 anos mais tarde!

Veja a seguir essa matéria exatamente como nos foi fornecida pelos três membros do Corpo Governante:

 

 Tradução

Aos membros do Corpo Governante — Referente à Agenda de Quarta-Feira, 5 de março de 1980.

Pergunta: O que é “esta geração (genea’)?” (Mat. 24:34; Mar. 13:30; Lucas 21:32)

TDNT* (muitos comentários) diz: genea’ “denota principalmente o sentido de contemporâneos”. Vol. 1, p. 665

A maioria diz que genea’ difere de genos; genos significa descendência, povo, raça. Veja TDNT Vol. 1, p. 685 (genos em 1Pe. 2:9)

A resposta pode estar ligada à pergunta em Mat. 23:33. O que se quer dizer com: “Quando virdes todas estas coisas”?

O Comentário de Lange (Vol. 8) sugere que “estas coisas” não se referem a 70 E.C., nem à parousia de 1914 mas aos versículos 29 e 30, aos fenômenos celestiais que vemos agora iniciar-se com a era espacial de 1957 em diante. Nesse caso, seria então a geração contemporânea da humanidade que vive desde 1957.

Três Seções

O comentário de Lange divide Mateus capítulo 24 em “três ciclos”.

1º ciclo-Mat. 24:1-14

2º ciclo-Mat. 24:15-28

3º ciclo-Mat.24:29-44 (synteleia ou conclusão)

(Veja Vol. 8, pp. 421, 424 e 427)

Baseado em Mat. 24:3, pergunta em três partes.

A Sentinela e o Reino de Deus de Mil Anos (ka) Também dividiram agora Mateus 24 em três partes, a saber:

(1) Mat. 24:3-22 Tem cumprimento paralelo no 1º século e hoje desde 1914. (Veja w 75 p. 657, ka p. 205)

(2) Mat. 24:23-28 Introduzido o período da parousia de Cristo de 1914. (Veja w 75 p. 659)

(3) Mat. 24:29-44 “Fenômenos Celestiais” têm aplicação literal desde que começou a era espacial em 1957 e daí em diante até incluir a erkhomenon de Cristo (vinda como executor no início da “grande tribulação”.) (Veja w 75 p. 660 par. 18; ka pp. 323 a 328)

A expressão “Todas estas coisas”, teria de ser lançada no contexto dos itens alistados no sinal composto, a saber, os fenômenos celestiais dos versículos 29 e 30.

Se isto for certo:

Então “esta geração” se referiria à humanidade contemporânea, com capacidade de ter entendimento das coisas, vivendo desde 1957 em diante.

Confirmado pelo pensamento de C. T. Russell no Comentário Bereano, p. 217: “Genea, pessoas vivendo contemporaneamente que presenciam os sinais já mencionados.” Vol. 4 p. 604.

Comissão do Presidente, 03/03/80

* Refere-se ao Theological Dictionary of the New Testament.

1957 marcou o ano em que foi lançado o primeiro Sputnik russo ao espaço. Evidentemente, a Comissão do Presidente achava que este evento podia ser aceito como assinalando o início do cumprimento destas palavras de Jesus:

... o sol ficará escurecido, e a lua não dará a sua luz, e as estrelas cairão do céu, e os poderes dos céus serão abalados.[7]

Com base nessa aplicação, a conclusão deles seria conforme a declararam:

Então ‘esta geração’ se referiria à humanidade contemporânea, com capacidade de ter entendimento das coisas, vivendo de 1957 em diante.

Os três homens não estavam sugerindo que 1914 fosse esquecido. Permaneceria como o “fim dos tempos dos gentios”. Mas “esta geração” não começaria a ser aplicada antes de 1957.

Em vista da rápida diminuição no número dos da geração de 1914, esta nova aplicação da expressão podia provar-se sem dúvida até mais útil do que a alegação de alguma pessoa viver 130 anos em certa parte da União Soviética. Quando comparado com o início em 1914, esta nova data com início em 1957 daria 43 anos adicionais de extensão ao período envolvido na expressão “esta geração”.

As normas do Corpo Governante exigiam que, para qualquer comissão recomendar alguma coisa, deveria haver acordo unânime entre os membros da comissão (do contrário, o ponto de vista dividido deveria ser apresentado ao Corpo para uma decisão final). A apresentação da idéia inovadora envolvendo 1957 era, portanto, o tipo de idéia com a qual os três membros da Comissão do Presidente deveriam ter estado de acordo.

Imagino que, se perguntados atualmente sobre esta apresentação, a resposta seria: “Ah, isso foi só uma sugestão”. Possivelmente, mas se assim foi, tal sugestão foi feita com seriedade. E visto que Albert Schroeder, Karl Klein e Grant Suiter haviam trazido tal sugestão ao Corpo Governante, eles deveriam ter estado dispostos em suas próprias mentes a ver a mudança sugerida posta em vigor. Se, na verdade, a crença e a convicção deles quanto ao ensino mantido durante muito tempo pela Sociedade sobre “esta geração” (como se aplicando de 1914 em diante) tivessem sido fortes, firmes e inequívocas, eles certamente jamais teriam ido adiante com esta nova interpretação apresentada.

O Corpo Governante não aceitou o novo entendimento proposto por estes membros. Os comentários apresentados indicavam que muitos a consideraram fantasiosa. Persiste, entretanto, o fato de que os membros do Corpo Governante, Schroeder, Klein e Suiter apresentaram sua idéia como uma proposta séria, revelando sua própria falta de convicção quanto à solidez do ensino existente sobre o tema.

Apesar de toda essa evidência de opinião dividida quanto à validade das alegações referentes a 1914 e à “geração de 1914”, declarações audaciosas, categóricas e fortes com respeito a 1914 e a “esta geração” como fatos biblicamente estabelecidos continuaram a ser publicadas pela organização “profeta” e todos entre as Testemunhas de Jeová foram exortados a pôr total confiança nelas e levar a mensagem sobre isto a outras pessoas por toda a terra. Num esforço aparente para acalmar a inquietação com relação à rápida redução nas fileiras da geração de 1914, a mesma A Sentinela (15 de abril de 1981, página 31) que insinuava que o limite de idade para os membros dessa geração poderia ser baixado para dez anos de idade, também disse:

E se o sistema iníquo deste mundo sobrevivesse até a virada do século, o que é altamente improvável, em vista das tendências mundiais e do cumprimento da profecia bíblica, ainda haveria sobreviventes da geração da Primeira Guerra Mundial.

Isso foi escrito em 1981. Vinte anos depois, na virada do século, os de dez anos de idade de 1914 estariam com 96 anos. Não obstante, existiriam ainda uns poucos deles aqui e acolá, e isto era visto evidentemente como tudo o que se precisava para que as palavras de Jesus tivessem cumprimento; dependendo, naturalmente, de que se aceite a idéia de que Jesus estava dirigindo suas palavras particularmente a meninos de dez anos de idade. Isto ilustra os extremos a que a organização estava disposta a ir para manter sua definição da “geração de 1914”.

Mais anos se passaram e agora não se fazia mais qualquer menção aos “jovens de 10 anos”, mas, em vez disso, a referência era simplesmente aos “que estavam vivos em 1914” ou algo assim. Isto, naturalmente permitia que os bebês recém-nascidos fossem incluídos na “geração de 1914”. Porém, com a chegada da década de 1990, e com o terceiro milênio às portas, até mesmo tal “ajuste no entendimento” só proveu um alívio momentâneo para o problema. Mesmo um recém-nascido em 1914 estava com quase 90 anos no ano 2000.

Uma coisa que posso dizer com segurança sobre o assunto é que eu, pessoalmente, achava incrível o raciocínio utilizado dentro do Corpo Governante. Achava trágico que uma profecia relativa a data pudesse ser proclamada ao mundo como uma coisa sólida sobre a qual as pessoas podiam e deviam confiantemente se apoiar, sobre a qual edificar suas esperanças e planejar suas vidas ; quando os mesmos que a publicavam sabiam que, dentro do seu próprio corpo coletivo, não existia uma unanimidade de convicção genuína e firme quanto a exatidão desse ensino. Pode ser que, quando confrontados com todo um cenário de décadas de fixação e mudança de datas pela organização, sua atitude se torne mais compreensível.

Talvez o mais incrível para mim é que os membros da Comissão do Presidente, Albert Schroeder, Karl Klein e Grant Suiter, com cerca de dois meses que haviam apresentando sua nova idéia sobre “esta geração”, incluíram o ensino sobre o início da presença de Cristo em 1914 na lista dos ensinos decisivos para determinar se pessoas (inclusive membros do pessoal da sede) eram culpadas de “apostasia” e merecedoras, portanto, de desassociação. Fizeram-no sabendo que poucos meses antes, eles mesmos haviam questionado o corolário, a doutrina acompanhante referente a “esta geração”.

Ao longo de meio século no qual a organização promulgou o conceito de uma “geração de 1914”, o seu período se revelou constantemente como um leito que é curto demais para ser confortável, e os raciocínios usados para cobrir esse “leito” doutrinal revelaram-se como um lençol tecido que é demasiado estreito, incapaz de proteger, neste caso, dos fatos frios da realidade.

A liderança tinha feito numerosos ajustes e agora tinha poucas opções restantes. Havia a data de 1957 como a data inicial para “esta geração”, conforme proposto pelos membros Schroeder, Klein e Suiter, mas isso parecia uma escolha improvável. Havia a idéia de Albert Schroeder de aplicar a expressão à classe “ungida” (uma idéia que estivera flutuando em torno da organização por muitos e muitos anos) que oferecia certas vantagens. Há sempre pessoas adicionais (algumas bastante jovens) que a cada ano decidem, pela primeira vez, que fazem parte da classe “ungida”. De modo que isto proporcionaria uma extensão quase ilimitada de tempo para o ensino sobre “esta geração”.

Havia outra opção. Eles poderiam reconhecer a evidência histórica que situa a destruição de Jerusalém vinte anos depois da data 607 A.E.C. da Sociedade. Isto faria com que os tempos dos gentios (usando-se a interpretação deles dos 2.520 anos) findassem por volta de 1934. Mas, tinha-se atribuído uma importância tão enorme a 1914 e, conforme já foi mostrado, há tanto da superestrutura doutrinal ligado a tal data, que esta também parecia ser uma iniciativa improvável.

Os sinais inevitáveis de um “ajuste no entendimento” adicional começaram a aparecer na Sentinela de 15 de fevereiro de 1994. Nesta, o início da aplicação da declaração de Jesus sobre “sinais no sol e na lua e nas estrelas, e na terra angústia de nações” foi mudado do ano de 1914 para um momento após o início da ainda futura “grande tribulação”. De modo semelhante, o predito ‘ajuntamento dos escolhidos desde os quatro ventos’, que antes se ensinava como tendo começado a partir de 1919, era agora também mudado para o futuro, após o início da “grande tribulação” e depois do aparecimento dos fenômenos celestiais. Cada uma das posições agora abandonadas tinha sido ensinada por mais de cinqüenta anos. (Veja, como apenas um de numerosos exemplos, a Sentinela de 15 de julho de 1946, em inglês).

Embora aclamadas como “nova luz”, as mudanças simplesmente moviam os ensinos da Torre de Vigia para perto dos entendimentos apresentados muito tempo atrás por aqueles que a organização desdenha como “eruditos da cristandade”.

Em setembro de 1994, a oitava impressão de Crise de Consciência (em inglês), tratava desta edição de 15 de fevereiro de 1994 de A Sentinela e do deslocamento que ela faz da aplicação de partes de Mateus 24 para adiante do início da “grande tribulação”. Nessa discussão, incluí os seguintes pensamentos:

O que talvez seja mais notável é que a expressão “esta geração” — que A Sentinela enfatiza tão constantemente e que se encontra em Mateus 24:34 e Lucas 21:32 — não aparece em parte alguma desses artigos, sendo conspícua por sua ausência. É difícil dizer se a organização poderá agora direcionar Mateus 24: 29-31 para algum ponto após o início da futura “grande tribulação” e ainda continuar a aplicar a declaração de Jesus sobre “esta geração” feita três versículos depois, ao período de tempo que se iniciou em 1914. Mas conforme se mostrou, é razoável acreditar que o Corpo Governante receberia bem algum meio de fugir da posição cada vez mais difícil criada por se ter atrelado a expressão “esta geração” (junto com as acompanhantes palavras “não passará até que todas estas coisas ocorram”) à data de 1914, que cada vez mais fica para trás no tempo.

Se esta nova interpretação está simplesmente preparando o caminho para uma mudança crucial na aplicação da expressão “esta geração”, é preciso esperar para ver. Indubitavelmente, a saída mais desejável seria o surgimento de uma explicação que retivesse 1914 como o “início dos últimos dias” e ao mesmo tempo desconectasse com êxito a expressão “esta geração” daquela data. Como já se disse, dificilmente a organização poderá desistir completamente de 1914 sem desmantelar uma porção de ensinos baseados naquela data. Mas se a expressão “esta geração” pudesse ser desvinculada de 1914 e ser aplicada a algum período futuro de data desconhecida, então a passagem do tempo, a chegada do terceiro milênio no ano 2000, e até mesmo a aproximação do ano 2014, fariam com que este raciocínio não se mostrasse tão difícil, particularmente em vista de os membros da organização estarem treinados para aceitar qualquer coisa que a “classe do escravo fiel e discreto” e seu Corpo Governante venham a lhes oferecer.

Como se afirmou, essa informação foi impressa em setembro de 1994. Apenas treze meses depois, surgiram na edição de A Sentinela de 1º de novembro de 1995 artigos que faziam quase exatamente o que se tinha sugerido na edição de 1994 de Crise de Consciência. Conforme fora indicado, eles agora desvinculavam a expressão “esta geração” (Mateus 24:34) da data de 1914, mas ainda retiveram a data como sendo biblicamente significativa.

Isto foi conseguido por meio de uma nova definição do significado da palavra “geração” neste texto. Há cerca de 70 anos atrás, a revista A Idade de Ouro (hoje Despertai!) de 20 de outubro de 1926, vinculou as palavras de Jesus sobre “esta geração” à data de 1914 (o mesmo fizeram as revistas A Sentinela subseqüentes). Uns vinte e cinco anos mais tarde, A Sentinela (em inglês) de 1º de junho de 1951, página 335, com relação a 1914, declarou, “Por conseguinte nossa geração é a geração que verá o início e o fim de todas estas coisas, inclusive o Armagedom”. Na edição (em inglês) de 1º de julho de 1951, página 404, “esta geração” foi novamente vinculada a 1914. A respeito de Mateus 24:34, ela disse:

O real significado destas palavras é, sem dúvida alguma, o mesmo que considera uma “geração” no sentido comum, como visto em Marcos 8:12 e Atos 13:36, ou por aqueles que viverem no período especificado.

E então acrescentou:

Portanto, isto significa que a geração de 1914 não passará até que tudo seja cumprido, e em meio a uma era de grandes dificuldades.

Daí em diante, e por mais de quarenta anos, as publicações da Torre de Vigia continuaram a atribuir um significado temporal à palavra “geração” de Mateus 24:34. O envelhecimento da geração de 1914 era repetidamente apontado como evidência clara do pouco tempo restante.

Na definição revisada, contudo, em lugar de se estabelecerem parâmetros de limitação do tempo ou qualquer ponto de partida, disse, ao invés, que a geração deve ser identificada não por padrões de tempo, mas por padrões qualitativos, por suas características, como ao referir-se a uma “geração iníqua e adúltera” na época de Jesus. Diz-se agora que “esta geração” se constitui dos “povos da terra que vêem o sinal da presença de Cristo, mas que não se corrigem”.

A data de 1914, todavia, não é posta de lado, algo que a organização não poderia fazer sem derrubar a principal estrutura teológica e os dogmas distintivos da religião. 1914 permanece como a pretensa data da entronização de Cristo nos céus, o início de sua segunda presença, invisível, bem como o começo dos “últimos dias”. E ela ainda figura, embora que indiretamente, na nova definição da “esta geração”, já que o “sinal da presença de Cristo” — que os condenados vêem, mas rejeitam ou ignoram — supostamente começou a ser visível mundialmente de 1914 em diante.

Qual é então, a diferença significativa? É que agora, para qualificar-se como parte da “esta geração”, alguém não precisa mais ter estado vivo em 1914 para ser parte da “esta geração”. Qualquer um pode ver o suposto sinal da presença de Cristo em qualquer época, mesmo que pela primeira vez, agora nos anos 90, ou se for o caso no próximo milênio – e ainda qualificar-se como sendo parte da “esta geração”. Isto permite que a expressão possa flutuar livre de qualquer data de início, e diminui consideravelmente a necessidade de explicar tanto o embaraçoso período de tempo que já transcorreu desde 1914, como as fileiras dos que estavam vivos naquela data que rapidamente se reduzem.

Talvez a principal evidência gráfica desta mudança possa ser vista no expediente da revista Despertai! Até 22 de outubro de 1995, ali se lia:

A afirmação de que “esta revista gera confiança na promessa do criador de estabelecer um novo mundo pacífico e seguro, antes que passe a geração que viu os acontecimentos de 1914”, apareceu ano após ano a partir de 1982 até 22 de outubro de 1995. Com o número de 8 de novembro de 1995, a afirmação foi alterada para o seguinte:

 

Toda a referência a 1914 está agora apagada, apresentando a evidência gráfica desta mudança crucial — bem como, de fato, indicando que “o Criador” tinha, de algum modo, renegado sua “promessa” relacionada com a geração de 1914.

Resta saber que efeitos trará esta mudança. Imagino que os que sentirão estes efeitos de modo mais agudo serão os adeptos mais idosos, com mais tempo na organização, que haviam se agarrado à esperança de não morrerem antes do cumprimento de suas expectativas com respeito à plena realização das promessas de Deus. Provérbios 13:12 diz que “a expectativa adiada faz adoecer o coração, mas a coisa desejada, quando vem, é árvore de vida”. Quaisquer sentimentos advindos de um coração doente que estes venham agora a experimentar, não são de responsabilidade do Criador, mas dos homens que neles implantaram e alimentaram as expectativas falsas conectadas a uma data.

Os mais jovens ou mais recentemente filiados à organização provavelmente não sentirão de modo tão forte o impacto da mudança. Esta veio, afinal de contas, envolta num linguajar que nenhum reconhecimento faz dos erros por parte da organização, mas que recobre a mudança de termos como “entendimento progressivo” e “luz crescente”. A Sentinela de 1º de maio de 1999 diz na página 13: “Nosso progresso no entendimento da profecia nos capítulos 24 e 25 de Mateus tem sido emocionante”, isso ao mesmo tempo em que se descarta uma interpretação atrás da outra, ensinada por anos como verdade divina!  Os muitos que são novos na organização talvez não tenham conhecimento da intensa insistência com que, durante décadas, o conceito da “geração de 1914” foi propagado, de quão positivamente ele foi apresentado como indicador seguro da “proximidade do fim”. Eles talvez não imaginem o modo firme com que o ensino da “geração de 1914” foi apresentado como sendo, não de origem humana, mas de origem divina, não um cronograma baseado em promessas humanas, mas baseado na “promessa de Deus”. Esta vinculação implícita, de quarenta anos, entre Deus e sua Palavra e um conceito agora falido, apenas aumenta o peso da responsabilidade. Alguém poderia recordar-se das palavras de Jeová em Jeremias 23:21:

Eu não enviei os profetas, assim mesmo eles correram; não falei com eles, assim mesmo, eles profetizaram.

Esta mudança básica só pode ter ocorrido em resultado de uma decisão do Corpo Governante. Como se demonstrou, o tema essencial envolvido veio a discussão ainda nos anos 70. Não se pode senão imaginar quais serão os pensamentos dos membros do Corpo Governante hoje, que sensação de responsabilidade eles sentem. Cada membro daquele Corpo sabia na ocasião, e sabe hoje, qual tem sido o histórico da organização no campo do estabelecimento de datas e das predições. Por meio das publicações, isto é desculpado à base de “um desejo fervoroso de ver o cumprimento das promessas de Deus em sua própria época”, como se não se pudesse ter tal desejo fervoroso sem a presunção de estabelecer um cronograma para Deus, ou de fazer predições e atribuí-las a Ele, como se fossem baseadas em sua Palavra. Eles sabem também que, apesar dos repetidos erros, os líderes da organização continuaram a alimentar os membros dela com novas predições. Eles sabem que a liderança tem consistentemente deixado de assumir a plena responsabilidade pelos seus erros, de admitir que a liderança estava simples e meridianamente errada. Eles se empenharam em proteger sua imagem e suas reivindicações de autoridade por esforçar-se em fazer parecer que os erros cabiam aos membros da religião como um todo. Em um artigo sobre “Predições Falsas ou Profecia Verdadeira,” a Despertai! de 22 de junho de 1995 (página 9) disse:

Os Estudantes da Bíblia, conhecidos desde 1931 como Testemunhas de Jeová, esperavam também que o ano de 1925 traria o cumprimento de maravilhosas profecias bíblicas. Eles presumiram que naquele tempo começaria a ressurreição terrestre, que traria de volta homens fiéis do passado, como Abraão, Davi e Daniel. Mais recentemente, muitas Testemunhas achavam que eventos relacionados com o começo do Reinado Milenar de Cristo poderiam começar a ocorrer em 1975. Sua expectativa baseava-se no entendimento de que o sétimo milênio da história humana começaria então. 

A revista A Sentinela ao apresentar o novo ensino com respeito a “esta geração”, segue a mesma tática, ao dizer (na página 17):

Desta forma, a liderança tira dos ombros a responsabilidade que, com toda justiça cabe a ela, aconselhando piedosamente a comunidade de seus membros com respeito às suas condições espirituais, como se tivesse sido o ponto de vista espiritual deles a causa do problema. Não querem reconhecer que os membros não dão origem a nada, e que os membros se apegaram a esperanças quanto a várias datas, exclusivamente porque os líderes da organização os alimentaram com matéria claramente destinada a estimular tais esperanças, que cada data mencionada e todas as ‘conjecturas’, ‘especulações’ e ‘cálculos’ ligados a essas datas, se originaram, não da comunidade de membros, mas dos líderes. De certo modo, é como se uma mãe, cujos filhos adoeceram de indigestão, dissessem de tais filhos, “Eles não tiveram cuidado com o que comeram”, quando, de fato, os filhos comeram simplesmente aquilo que a mãe lhes serviu. E não apenas lhes serviu mas insistiu que o alimento devia ser aceito como saudável, parte de uma dieta superior impossível de se obter em qualquer outro lugar, tanto que qualquer demonstração de insatisfação com tal alimento seria respondida com ameaça de punição.

Os homens que agora estão no Corpo Governante sabem todos que, por todo o tempo em que quaisquer dos ensinos da organização ligados à data de 1914 estavam em vigor, qualquer questionamento aberto ou discordância com respeito a estes poderia resultar e de fato resultou, em desassociação. Eles sabem que o próprio “coração de sabedoria” ao qual tanto exorta agora o artigo de A Sentinela – um coração que evita a especulação baseada em datas e que, ao invés disso se concentra em simplesmente viver cada dia de nossas vidas como para Deus – é o mesmíssimo coração que alguns membros do pessoal da sede de Brooklyn procuraram cultivar, e que foi a posição deles exatamente neste respeito que se constituiu no centro da acusação pela qual eles foram julgados como “apóstatas”. Quais são os pensamentos dos atuais membros do Corpo Governante, eu não sei. Posso apenas dizer que, se eu tivesse tomado parte na versão dos fatos que agora se fez, e tivesse também, deixado de fazer uma admissão franca e corajosa da responsabilidade por ter iludido e por ter julgado tão mal outros cristãos sinceros, não vejo como poderia deixar de sentir agora alguma sensação de covardia moral.

É difícil não se impressionar com o contraste entre este procedimento e o procedimento adotado em outra religião culpada de fazer similares predições de datas, a Igreja Mundial de Deus. Após a morte daquele que fora seu líder por muito tempo, Herbert W. Armstrong, no fim dos anos 80, a nova liderança publicou um artigo no número de março/abril (em inglês) na principal publicação dessa religião, a revista A Clara Verdade. O artigo intitulava-se "Perdoa-nos as Nossas Ofensas", e começava dizendo, “A Igreja Mundial de Deus, patrocinadora da revista A Clara Verdade, tem mudado sua posição sobre numerosas crenças e práticas mantidas por muito tempo durante os últimos anos”. Ao entrar em detalhes, ela também dizia:

“... Ao mesmo tempo, estamos profundamente conscientes da pesada herança de nosso passado.

Nosso entendimento doutrinal falho obscureceu o claro evangelho de Jesus Cristo e levou a uma variedade de conclusões erradas e práticas não-bíblicas. Temos muito do que nos arrepender e porque nos desculpar.

Fomos judiciosos e auto-justos – condenando outros cristãos, denominando-os de "os supostos cristãos" e rotulando-os de "enganados" e "instrumentos de Satanás."

Impusemos aos nossos membros uma abordagem voltada para obras em vez de uma vida cristã. Exigimos uma adesão a pesados regulamentos do código do Antigo Testamento. Exercemos uma abordagem fortemente legalista para o governo da igreja.

Nossa anterior abordagem de velho pacto gerou atitudes de exclusivismo e superioridade em lugar do ensino do novo pacto, de fraternidade e unidade.

Demos ênfase demais à predição e especulação profética, minimizando o verdadeiro evangelho da salvação por meio de Jesus Cristo.

Estes ensinos e práticas são fontes de supremo pesar. Estamos dolorosamente conscientizados da dor e do sofrimento causados por tais ensinos e práticas.

Estávamos errados. Jamais foi nosso propósito enganar alguém. Estávamos tão concentrados naquilo que acreditávamos estar fazendo para Deus, que não reconhecemos o rumo espiritual que percorríamos. Tendo a intenção ou não, esse rumo não era o bíblico.

Ao olharmos para trás, nos perguntamos como pudemos estar tão errados. Nossos corações se dirigem a todos aqueles que receberam nossos ensinos distorcidos das Escrituras. Não minimizamos nossa desorientação e confusão espirituais. Honestamente, desejamos a compreensão e o perdão de vocês.

Nenhuma tentativa fazemos de encobrir os enganos doutrinais e bíblicos de nosso passado. Não é nossa intenção meramente passar uma mão de tinta por sobre as rachaduras. Estamos olhando para nossa história diretamente no olho e confrontando-nos com as faltas e pecados que encontramos. Elas sempre permanecerão como parte de nossa história servindo como memorial perpétuo dos perigos do legalismo.”

Tal franca admissão e aceitação da responsabilidade pelo erro não é encontrada nas publicações da Torre de Vigia. Já que os conheço pessoalmente, estou convicto de que muitos dos homens do Corpo são sinceros na crença de que estão servindo a Deus. Infelizmente, essa crença é acompanhada por uma crença paralela de que a organização liderada por eles é o canal de comunicação de Deus, superior a todas as outras organizações religiosas da terra – uma crença que dá evidências de um estado de negação, no qual eles não se permitem encarar a realidade do curso e do histórico tortuosos da organização. Qualquer que seja o grau de sinceridade no desejo deles de servir a Deus, isto lamentavelmente não os protegeu de uma notável insensibilidade para com o potencial efeito desilusório de suas predições apocalípticas que falharam, o efeito debilitante que isto pode ter sobre a confiança das pessoas na fidedignidade e no valor das Escrituras.

Notas: 

[1] Veja A Sentinela de 15 de janeiro de 1979, página 32.

[2] Dos membros do Corpo Governante na época desta discussão, somente Fred Franz (agora falecido) havia passado da adolescência em 1914, tendo então 21 anos de idade. George Gangas tinha 18, John Booth 12, Karl Klein e Carey Barber tinham 9, Lyman Swingle 4, Albert Schroeder 3, Jack Barr 1, e Lloyd Barry, Dan Sydlik, Milton Henschel e Ted Jaracz e Gerrit Loesch ainda não tinham nascido, ocorrendo seus nascimentos depois de 1914. (A maioria destes membros já faleceu).

[3] A expressão “verdade atual” era popular no tempo de Russell e Rutherford e se baseava numa tradução ambígua de 2 Pedro 1:12. O termo grego aí não se refere a tempo (atualidade), mas a presença (localidade). A Tradução do Novo Mundo verte aí mais corretamente: “a verdade que está presente em vós”.

[4] Este não parece ter sido um pensamento momentâneo por parte do presidente Knorr, pois o mesmo ponto de vista foi expresso virtualmente nas mesmas palavras por um de seus associados mais íntimos, George Couch. Conhecendo os dois, parece mais provável que Couch tenha adquirido este ponto de vista de Knorr e não vice-versa.

[5] O quadro de membros da Comissão de Redação era então composto por Lloyd Barry, Fred Franz, Raymond Franz, Karl Klein e Lyman Swingle.

[6] Contrário ao que dizem alguns, o próprio Corpo Governante nunca deu importância à data de 1984 e, que eu me recorde, esta foi a única ocasião em que esta data foi mencionada, e apenas por causa dos rumores em circulação.

[7] Mateus 24:29.