As Almas 'Debaixo do Altar' (Apocalipse 6:9-11)

Quando ele abriu o quinto selo, vi debaixo do altar as almas daqueles que haviam sido mortos por causa da palavra de Deus e do testemunho que deram. Eles clamavam em alta voz: “Até quando, ó Soberano santo e verdadeiro, esperarás para julgar os habitantes da terra e vingar o nosso sangue?” Então cada um deles recebeu uma veste branca, e foi-lhes dito que esperassem um pouco mais, até que se completasse o número dos seus conservos e irmãos, que deveriam ser mortos como eles. – Revelação 6:9-11, NVI

 

‘Assim’, dizem os promotores do conceito da imortalidade da alma, ‘uma vez que o texto fala em “almas daqueles que tinham sido mortos”, está claro que essas almas continuavam conscientes após a morte do corpo, já que mantinham uma conversação.’

 

Nas tentativas de invocar apoio bíblico para a idéia da imortalidade inerente da alma humana – ou pelo menos para sua existência consciente à parte do corpo físico – é muito comum que se apele para declarações isoladas em certos textos, desconsiderando-se o que estes mesmos textos dizem na íntegra. Com relação a esse trecho do Apocalipse, seguem-se algumas questões pertinentes:

1 – A posição em que as almas estavam: O apóstolo João disse que viu essas almas “debaixo” (ou “por baixo”) dum altar celestial. Por que essas almas foram vistas neste local específico? Se essas almas estavam conscientes, por que razão estariam elas – mesmo estando numa suposta bem-aventurança celestial – numa virtual condição de “presidiárias”, restritas debaixo dum altar?

2 – Os gritos das almas: Ele disse que essas almas ‘clamavam em voz alta por vingança’. Devemos entender que é isto o que as almas dos mártires cristãos fazem (ou fizeram em algum momento) na presença de Deus, gritando por vingança diante dele, sendo necessário que Ele as mandasse parar de gritar e esperassem pelo momento certo da vingança?

3 – As vestes brancas que cada alma recebeu: O texto diz que cada uma das almas recebeu uma “veste branca”. Qual seria a necessidade de roupagem para almas vivendo à parte dum corpo físico?

4 – O período de espera: O texto diz que a única resposta que as almas receberam aos seus clamores em voz alta por vingança foi que deveriam ‘esperar mais um pouco pela chegada dos outros mártires’ para ficarem no mesmo lugar em que elas se encontravam. Por que deveriam elas esperar isso acontecer, para só então serem vingadas?

Todas estas são questões que os defensores da teoria de que a alma permanece consciente à parte dum corpo após a morte jamais se preocupam em responder, ao apelarem para este texto. E a razão disso é óbvia. Qualquer raciocínio derivado duma leitura seletiva (por desconsiderar as palavras acompanhantes do texto), descontextualizada (por desconsiderar as informações que o resto das Escrituras dão sobre a alma) e inconsequente (por ignorar os problemas decorrentes da insistência na interpretação literal dum trecho de livro bíblico reconhecidamente simbólico) jamais poderia produzir uma resposta válida para qualquer uma dessas questões.

Qual é, então, a explicação para este simbolismo? Propõe-se a seguir uma resposta para cada uma das questões levantadas:

1 – A posição em que as almas estavam: Em pelo menos um sentido, a morte dos mártires cristãos é semelhante à de Cristo, ou seja, uma morte sacrificial. Embora no caso deles o sangue derramado não tenha valor redentor (por se tratar de pessoas pecadoras), é fato que todo mártir poderia evitar sua morte – bastando para isso que renuncie à fé em Cristo e pare de dar testemunho dele. O simbolismo usado aqui no Apocalipse é o da vida sacrificada num altar. Esta é a razão de as almas serem retratadas como estando neste local específico. Assim como não teria cabimento insistir que alguma parte da alma daqueles animais sacrificados no altar sob a lei Mosaica permanecia consciente, não há motivo válido para se insistir que isso necessariamente ocorre no caso dos cristãos que foram sacrificados neste “altar”.

2 – Os gritos das almas: O texto de Levítico 17:11, 14 diz: “a alma da carne está no sangue... porque a alma de toda carne é o seu sangue, que é sua alma.” (CBC).

É o sangue humano consciente? Consideremos o trecho de Gênesis 4: 9, 10:

Perguntou Jeová a Caim: Onde está Abel, teu irmão? Respondeu ele: Não sei; sou eu o guarda de meu irmão? Disse Jeová: Que fizeste? a voz do sangue de teu irmão está clamando a mim desde a terra. (Gênesis 4:9, 10, SBB)

Afirmou Deus a Caim que o sangue do irmão dele estava consciente pelo fato de ter “voz” e ‘clamar’? Ou Ele falava em sentido figurativo?

Levando-se em conta as palavras da citação do Levítico apresentada acima, o texto de Revelação poderia perfeitamente dizer:

‘Quando ele abriu o quinto selo, vi debaixo do altar o sangue daqueles que haviam sido mortos por causa da palavra de Deus e do testemunho que deram. O sangue deles clamava em alta voz: “Até quando, ó Soberano santo e verdadeiro, esperarás para julgar os habitantes da terra e vingar o nosso sangue?’

Esta mudança não traz qualquer alteração no significado do texto. Em numerosas situações mencionadas na Bíblia, é o sangue derramado (representando a vida sacrificada) que está diretamente associado a um altar (não ‘almas vivas’), e os termos “sangue” e “alma” são intercambiáveis. Recusar-se a aceitar estes fatos, com o único objetivo de manter uma interpretação literal, invalidaria a referência do Levítico e ainda tornaria sem sentido todas estas passagens bíblicas. Enquanto no caso de Abel tratava-se do sangue derramado de uma única pessoa, no caso dos mártires cristãos trata-se do sangue derramado de um grande número de pessoas. Daí a razão de o texto dizer que esse clamor era “em alta voz”, um ‘grito’ (algo que não foi dito sobre o sangue de Abel). Assim como foi o caso do sangue de Abel, o primeiro mártir, que ‘clamou’ a Deus para ser vingado, o fato de o sangue destas pessoas clamar por vingança “em alta voz” desde o altar não obriga o entendimento de alguma consciência dessas pessoas após a morte. Em ambos os casos o sentido é figurativo.

3 – As vestes brancas que cada alma recebeu: Logo no capítulo seguinte do livro de Revelação aparece outra vez uma referência a “vestes brancas”. Ei-la:

“Então um dos anciãos me perguntou: "Quem são estes que estão vestidos de branco, e de onde vieram?" Respondi: "Senhor, tu o sabes". E ele disse: "Estes são os que vieram da grande tribulação e lavaram as suas vestes e as branquearam no sangue do Cordeiro.” (Revelação 7:13, 14, NVI)

A idéia de roupas sendo branqueadas com sangue é obviamente simbólica. Ninguém insistiria que isso é para ser entendido literalmente. Que razão válida alguém teria, então, para insistir que tem de ser assim no caso da referência no capítulo 6? Com esta informação dada no capítulo 7, e levando-se em consideração que o motivo daquelas almas estarem todas ali “debaixo do altar” foi o testemunho que deram sobre Cristo durante sua vida, segue-se naturalmente que Jesus e, mais especificamente, o sangue derramado dele, desempenha o papel central no fornecimento dessas “vestes brancas” a ‘cada uma’ daquelas almas. Qualquer cristão concordaria que essa idéia está de acordo com tudo o que a Bíblia diz sobre o poder do sangue de Cristo. E, mais uma vez, isso argumenta contra a idéia de as almas em questão estarem vivas, já que o sangue derramado de Cristo destina-se precisamente a purificar os fiéis de seus pecados e recompensá-los com a vida eterna. Almas que já estão vivas e são imortais não teriam necessidade alguma disso.

4 – O período de espera: O texto dá a informação de que a vingança pelo sangue derramado de todas essas almas só deverá ocorrer quando ‘se completar o número dos seus conservos e irmãos, que deverão ser mortos como elas’. Isso quer dizer que em algum momento esta mortandade dos mártires cessaria. A pergunta que foi feita a Deus, indica que esta vingança não havia sido executada naquele momento em que elas estavam “debaixo do altar”. Quando ocorreriam estas duas coisas, então?

Várias escrituras apresentam a idéia de que esta vingança só ocorre depois da ressurreição, não em algum momento antes disso. No evangelho de João 5: 28, 29, por exemplo, lemos:

“Não vos maravilheis disso, porque vem a hora em que todos os que se acham nos sepulcros sairão deles ao som de sua voz: os que praticaram o bem irão para a ressurreição da vida, e aqueles que praticaram o mal ressuscitarão para serem condenados.” (CBC)

É este, então, o motivo de se responder a estas almas que esperem ‘mais um pouco’ até o momento da vingança. Tanto elas como as almas de seus algozes estão realmente mortas. Independentemente do intervalo de tempo em que sua morte ocorreu, ou em que momento esse contínuo assassinato dos mártires e sua ida para “debaixo do altar” finalmente cessará, estas almas aguardam sua ressurreição. Mas, enquanto todos esses mártires são destinados à ressurreição “da vida”, por terem recebido as “vestes brancas” (uma atestação de sua fé na palavra de Deus e no sangue de Cristo), os ímpios, incluindo os responsáveis diretos pela morte deles são destinados à ressurreição “para serem condenados”. Não haveria sentido em se falar em “ressurreição de vida” para almas que já estão vivas no céu, ou “ressurreição de condenação” para almas que já estão sendo punidas por seus crimes no Hades ou em algum outro lugar de tormentos (como entendem os proponentes do conceito da “imortalidade da alma”). Não, a ressurreição (seja ela para a vida ou para a condenação que leva à morte) é um ato divino destinado a almas (pessoas) que estão efetivamente mortas.

Assim, analisando-se o texto com atenção, verifica-se que o simbolismo por trás dele mantém coerência com o resto do livro de Revelação e está também em harmonia com o resto das informações das Escrituras. O entendimento literal, no qual insistem os defensores da idéia da consciência da alma à parte do corpo físico, deve ser descartado, pois além de ele contradizer o que a Bíblia diz sobre a condição dos mortos (fiéis ou não), levanta ainda uma série de questões internas que não podem ser respondidas de maneira satisfatória.