A "Vinda" do Messias e o "Fim do Mundo"

Inglês

“Dize-nos, quando acontecerão essas coisas? E qual será o sinal da tua vinda e do fim dos tempos?”

Esta foi a pergunta que os discípulos fizeram, depois de Jesus ter dado a eles uma notícia muito chocante. Depois de Jesus sair do templo, seus discípulos comentaram sobre a magnificência das construções deste. Em resposta Jesus disse:  

“Vocês estão vendo tudo isto?”, perguntou ele.“Eu lhes garanto que não ficará aqui pedra sobre pedra; serão todas derrubadas.” (Mateus 24:1-3)

Sem dúvida, os discípulos ficaram horrorizados com a notícia de que seu magnífico Templo seria um dia destruído. Em resposta eles fizeram a pergunta citada acima. O que os discípulos realmente quiseram dizer aqui é bem diferente do que muitos cristãos modernos entendem por estas palavras.

Embora Jesus tenha prevenido seus discípulos sobre sua prisão e iminente crucificação, eles não conseguiram compreender o significado do que ele estava dizendo. Sendo esse o caso, por que eles pediram um sinal de sua vinda se não sabiam que ele iria morrer em poucos dias? Por isso, precisamos considerar o significado dos termos gregos e do contexto cultural que influenciava o pensamento dos discípulos. - Lucas 18:31-34, Marcos 9:9, 10

No versículo acima, a palavra vinda é a tradução da palavra grega parousia, sobre a qual o Dicionário Expositivo de Vine diz: 

"lit., "uma presença", para, "com", e ousia, "ser" (de eimi, "ser"), denota tanto uma "chegada" e uma conseqüente "presença com."... Paulo fala de sua parousia em Filipos, Filipenses 2:12 (em contraste com sua apousia, “sua ausência”; ver AUSÊNCIA)..." 

Assim, os discípulos perguntaram a Jesus, não sobre o sinal de sua vinda, e sim de sua presença. Qual era a importância desta questão? Durante seu ministério terrestre, Jesus não se proclamou publicamente como o Messias. Quando seus discípulos expressaram sua convicção de que ele era, ele advertiu-lhes para não tornar isso conhecido. [1] Ao perguntar “qual será o sinal da tua presença” [isto é, a do Messias] os discípulos queriam saber o que ele faria para apresentar-se publicamente aos judeus como o Messias. Com a notícia chocante sobre a destruição do Templo em suas mentes, talvez eles estivessem esperando ouvir que ele milagrosamente o salvaria ou reconstruiria.

Os discípulos perguntaram também sobre “o fim [grego, sunteleia] do mundo [grego, aion].” A respeito das palavras gregas usadas aqui o Dicionário Expositivo de Vine diz: 

“[Sunteleia] significa "levar a cabo em conjunto" (sun, "com", teleo, “para completar”, semelhante ao nº 1), marcando a “conclusão” ou consumação das várias partes de um esquema. Em Mat. 13:39-40, 49; 24:3; 28:20, a versão “o fim do mundo” (texto da KJV e RV) é enganosa; a que está na margem da RV, "a consumação do século”, é correta. A palavra não denota uma terminação, mas a seqüência dos eventos até o clímax designado. Aion não é o mundo, e sim um período, época ou era na qual os eventos ocorrem.”

Como podemos ver com base nesta informação, os discípulos não estavam perguntando sobre o fim do mundo como o conhecemos, nem sobre a dissolução do universo. Eles estavam perguntando sobre a consumação de uma era na história. Que era? A expectativa judaica era que quando o Messias aparecesse ele iria estabelecer o seu reino em Jerusalém, libertar o povo do jugo da dominação gentia, e levar Israel a se tornar a superpotência do mundo. Levando-se esta expectativa judaica em conta, uma paráfrase da pergunta deles seria a seguinte:

‘Dize-nos quando será a destruição do Templo, e qual será o acontecimento por meio do qual você se apresentará publicamente como o Messias, de modo a levar Israel ao seu destino como potência?'

A maioria dos cristãos acredita que a realização da profecia feita por Jesus em resposta à pergunta dos discípulos se aplica a um tempo ainda futuro, quando o 'fim' deste 'mundo' ou 'era' em que vivemos agora irá ocorrer. Todavia, uma característica proeminente da pergunta dos discípulos, na verdade o próprio ponto que levou a essa pergunta deles, foi a revelação de que o Templo seria destruído. Nenhum templo como aquele existe hoje. Pode-se argumentar que o templo será reconstruído no futuro, para que esta profecia seja cumprida. Mas os discípulos não estavam interessados ​​em um templo ainda não construído, e que só o seria dois mil anos ou mais no futuro. Eles estavam preocupados com o templo que estava em Jerusalém naquele momento, um que eles pudessem ver com seus próprios olhos, e era sobre este Templo que Jesus falava.

Jesus advertiu: 

“Assim, quando vocês virem ‘o sacrilégio terrível’, do qual falou o profeta Daniel, no lugar santo — quem lê, entenda — então, os que estiverem na Judéia fujam para os montes.” (Mateus 24:15, 16)

Embora futuristas especulem sobre a forma como esta profecia será cumprida, a Bíblia não nos deixa à mercê dos palpites deles. O relato paralelo em Lucas nos diz claramente: 

“Quando virem Jerusalém rodeada de exércitos, vocês saberão que a sua devastação está próxima. Então os que estiverem na Judéia fujam para os montes, os que estiverem na cidade saiam, e os que estiverem no campo não entrem na cidade. Pois esses são os dias da vingança, em cumprimento de tudo o que foi escrito. Como serão terríveis aqueles dias para as grávidas e para as que estiverem amamentando! Haverá grande aflição na terra [2] e ira contra este povo. Cairão pela espada e serão levados como prisioneiros para todas as nações. Jerusalém será pisada pelos gentios, até que os tempos [3] deles se cumpram.” (Lucas 21:20-24)

O cerco de Jerusalém pelos exércitos romanos em 66 AD foi o sinal que deixou clara a iminente destruição daquela cidade e seu Templo. Durante a retirada temporária dos romanos, os cristãos judeus atenderam a advertência de Jesus e fugiram para as montanhas da Peréia. Em um cerco posterior, os judeus que permaneceram em Jerusalém morreram ou foram levados para o cativeiro.

No momento em que Jerusalém foi destruída no ano 70 AD, todos os detalhes da profecia de Jesus se cumpriram [4] , conforme ele mesmo declarou:

"Eu lhes asseguro que não passará esta geração até que todas essas coisas aconteçam." (Mateus 24:34) [5]

Os que não concordam com este conceito argumentam que a frase “esta geração” não significa a geração daqueles que ouviam Jesus, mas refere-se a uma geração futura. Pouco antes de ter esta palestra com seus discípulos, Jesus declarou "ais" contra os escribas e fariseus. Em uma deles Jesus disse: 

"Ai de vocês, mestres da lei e fariseus, hipócritas!... "Serpentes! Raça de víboras! Como vocês escaparão da condenação ao inferno? Por isso, eu lhes estou enviando profetas, sábios e mestres. A uns vocês matarão e crucificarão; a outros açoitarão nas sinagogas de vocês e perseguirão de cidade em cidade. E, assim, sobre vocês recairá todo o sangue justo derramado na terra, desde o sangue do justo Abel, até o sangue de Zacarias, filho de Baraquias, a quem vocês assassinaram entre o santuário e o altar. Eu lhes asseguro que tudo isso sobrevirá a esta geração.” (Mateus 23:29-36)

Nenhum comentarista bíblico propõe que Jesus estava se referindo a alguma geração futura aqui. Que razão tinham os discípulos de Jesus, que o ouviam pronunciar estas desgraças, para extrair dois significados diferentes para a expressão "esta geração", principalmente se levarmos em conta que esses dois pronunciamentos de Cristo foram feitos dentro dum intervalo de poucas horas? 

Qual era, então, o sinal da presença (parousia) de Jesus, isto é, qual foi o evento que provou que ele era o Messias [6] pelo qual Israel esperava? Deuteronômio 18:18-22 relata que Deus disse a Moisés: 

“Dentre os seus irmãos lhes suscitarei um profeta semelhante a ti; porei na sua boca as minhas palavras, e ele lhes falará tudo o que eu lhe ordenar. Todo aquele que não ouvir as minhas palavras que ele falar em meu nome, eu o requererei dele. Mas o profeta que se houver com presunção, falando em meu nome uma palavra que não lhe ordenei falar, ou que falar em nome de outros deuses, esse profeta morrerá. Se disseres no teu coração: Como poderemos conhecer a palavra que Jeová não falou? Quando um profeta falar em nome de Jeová, se a coisa não se cumprir, tal coisa Jeová não falou; o profeta a falou com presunção, não terás medo dele.” (Sociedade Bíblica Britânica)

O surgimento dos exércitos romanos e a subseqüente destruição de Jerusalém e seu Templo provaram que Jesus era um profeta verdadeiro. Uma vez que Jesus afirmou ser o Messias - e um verdadeiro profeta não mentiria - esses eventos também provaram que ele é o Messias de Deus. 

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Jay Dicken

As citações bíblicas nesta tradução são da Nova Versão Internacional, a menos que haja outra indicação.



[1] A razão para isto eram as expectativas errôneas que os judeus tinham sobre o propósito do Messias. Acreditava-se geralmente que o Messias iria estabelecer o seu trono em Jerusalém, e, em seguida, levantar exércitos para quebrar o jugo de Roma. Jesus veio, no entanto, para libertar do pecado e da morte, não de César e Roma.

[2] A palavra grega ge pode ser traduzida tanto por terra (localidade) como por terra (planeta) conforme o contexto defina isso.

[3] Os "tempos dos gentios" começaram com a conquista de Jerusalém por Nabucodonosor da Babilônia, por volta de 600 AC, e terminaram com a destruição de Jerusalém e seu Templo em 70 DC. [Com esta destruição, a relação de aliança de Jerusalém com Iavé terminou. (Hebreus 8:13) Portanto, o fato de Jerusalém ter continuado sob controle gentio quando foi reconstruída depois de 70 DC é irrelevante para a história divina. A "Nova Jerusalém" simbólica, que está em aliança com Deus por meio de Cristo, nunca foi subjugada pelos incrédulos.].

[4] Está fora do escopo deste artigo apresentar todos os detalhes dos cumprimentos. Esse conceito escatológico é chamado de “preterismo”, e pode ser pesquisado na internet. Um site sugerido é este: www.tektonics.org/esch/olivet01.html

[5] Veja também Marcos 13:30 e Lucas 21:32.

[6] Em sua resposta aos discípulos, Jesus usou as expressões “presença do Filho do homem” e “o sinal do Filho do homem”. Ao longo de seu ministério, a frase “Filho do homem” foi a que ele mais usou em referência a ele próprio. Esta frase faz alusão a Daniel 7:13, 14, que é obviamente um trecho bíblico messiânico. Mas também era de uso comum na linguagem da época de Jesus. É por isso que os judeus poderiam ainda estar incertos quanto a quem aplicá-la. (João 10:24) No entanto, quando Jesus usou a frase em referência a sentar-se à direita de Deus, sua alusão a Daniel 7 foi inconfundível. - Mateus 26:63-66.