Bispos e Diáconos – Os Servidores na Igreja de Cristo

– Parte 1 –

 

“Porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz, como em todas as igrejas dos santos... faça-se tudo decentemente e com ordem.” (1 Cor. 14:33,40, ARC)

 

Ao longo da vida, todos nós realizamos um incontável número de ações, tanto em nosso próprio benefício como em função de outros. Todas estas atividades podem ser enquadradas em dois tipos gerais. As chamadas ações voluntárias são aquelas motivadas exclusivamente por nosso próprio desejo ou vontade (lat.: voluntas). As demais são as originadas pelo nosso acatamento a algum comando externo, que representa em última instância o desejo ou vontade de outra pessoa, a quem encaramos como uma autoridade superior. Nosso reconhecimento dessa outra pessoa como autoridade equivale a aceitarmos que ela tem o direito de nos apontar ou indicar para realizar as ações que deseja que façamos. A este ‘apontamento’ ou ‘indicação’ por parte da autoridade dá-se o nome de designação (lat.: designare).

Jesus conhecia muito bem o poder de seus ensinos e de seu exemplo de vida. Uma das coisas que fazem dele o maior Instrutor que já viveu nessa terra é o fato de ele ter personificado cada uma das coisas que ensinou, tendo chegado ao ponto de sacrificar sua própria vida em função dessas mesmas ideias. Nem os maiores opositores de Cristo duvidariam por um só instante de que ele tinha convicção das coisas que dizia. Em vista desse fato e de outros que caracterizaram o trabalho de Jesus como Instrutor, ele sabia que todas as pessoas que viessem a conhecê-lo e amá-lo no futuro, tornando-se seus discípulos, iriam se sentir motivadas a realizar um sem-número de ações voluntárias. Aqueles que se tornassem cristãos verdadeiros, tanto dariam glória a Deus, o Pai, como também realizariam – voluntariamente – as mais diversas ações em benefício material e espiritual do próximo.  A História testifica que os verdadeiros cristãos fizeram realmente essas coisas ao longo dos séculos e o fazem até o dia de hoje.

Entretanto, Jesus sabia também que, para garantir o funcionamento ‘decente e ordeiro’ de sua igreja – seu “corpo” – duma maneira que resultasse no máximo benefício possível para todos os que se tornassem membros dela, seria necessário que ele designasse pessoas para realizar uma série de atividades de acordo com a vontade dele. Temos toda a informação necessária sobre os arranjos estabelecidos por Cristo nos escritos apostólicos. As primitivas congregações – que vieram a existir em todo o mundo conhecido já no primeiro século da Era Cristã – funcionaram e prosperaram por meio da aderência a esses arranjos.

Esta Parte 1 se concentrará nos dois seguintes temas gerais: O perfil desses designados e o processo da designação deles. Estes são aplicáveis a qualquer igreja (congregação) cristã que exista na face da terra.

 

A – Os Servidores e Suas Qualificações

O trecho que segue é o mais completo no que se refere à definição dos pré-requisitos para os que haveriam de ser designados nas congregações:

Esta afirmação é digna de confiança: se alguém deseja ser bispo, deseja uma nobre função. É necessário, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, sóbrio, prudente, respeitável, hospitaleiro e apto para ensinar; não deve ser apegado ao vinho, nem violento, mas sim amável, pacífico e não apegado ao dinheiro. Ele deve governar bem sua própria família, tendo os filhos sujeitos a ele, com toda a dignidade. Pois, se alguém não sabe governar sua própria família, como poderá cuidar da igreja de Deus? Não pode ser recém-convertido, para que não se ensoberbeça e caia na mesma condenação em que caiu o diabo. Também deve ter boa reputação perante os de fora, para que não caia em descrédito nem na cilada do diabo. Os diáconos igualmente devem ser dignos, homens de palavra, não amigos de muito vinho nem de lucros desonestos. Devem apegar-se ao mistério da fé com a consciência limpa. Devem ser primeiramente experimentados; depois, se não houver nada contra eles, que atuem como diáconos. As mulheres igualmente sejam dignas, não caluniadoras, mas sóbrias e confiáveis em tudo. O diácono deve ser marido de uma só mulher e governar bem seus filhos e sua própria casa. Os que servirem bem alcançarão uma excelente posição e grande determinação na fé em Cristo Jesus. (1 Tim. 3:1-13)

Estas palavras da carta de Paulo tornam evidente que as congregações da época já contavam com pessoas atuando nessas funções. Paulo não estava criando isso naquele momento; estas funções não eram ideia dele. Naquela oportunidade, ele estava apenas especificando (sob inspiração) quais eram as condições obrigatórias para que um homem que desejasse isso fosse qualificado para servir numa das duas funções.

A-1: Os termos usados para identificar os designados

As palavras gregas pelas quais Paulo chamou estes servidores em sua carta original foram επίσκοπος e διάκονος. O grego e o latim eram as duas línguas mais faladas pelos cristãos do primeiro século da Era Cristã. Nos quadros que seguem, apresentam-se as duas palavras, bem como suas traduções para alguns idiomas modernos (todos baseados ou influenciados pelo alfabeto latino), os quais, no conjunto, são falados por centenas de milhões de cristãos na atualidade:

 

διάκονος
(grego)

 diaconus
(latim)

 

português
diácono
espanhol
diácono
inglês
deacon
alemão
Diakon
italiano
diacono
holandês
diaken
francês
diacre
sueco
diakon

 

επίσκοπος
(grego)

episcopus (latim)

 

português
bispo
espanhol
obispo
inglês
bishop
alemão
Bischof
italiano
vescovo
holandês
bisschop
francês
évêque
sueco
biskop

 

A maior parte dos tradutores bíblicos modernos manteve estes termos mais semelhantes aos originais – bispo e diácono – para identificar os servidores.1

A-2: A diferença entre o bispo e o diácono

Embora o trecho citado acima não esclareça isso, é possível identificar a diferença entre os dois por meio de outros trechos. O que segue, também extraído de escritos de Paulo, é uma das referências que ajudam nisso:

A razão de tê-lo deixado em Creta foi para que você pusesse em ordem o que ainda faltava e constituísse presbíteros em cada cidade, como eu o instruí. É preciso que o presbítero seja irrepreensível, marido de uma só mulher, e tenha filhos crentes que não sejam acusados de libertinagem ou de insubmissão. Por ser encarregado da obra de Deus, é necessário que o bispo seja irrepreensível: não orgulhoso, não briguento, não apegado ao vinho, não violento, nem ávido por lucro desonesto. É preciso, porém, que ele seja hospitaleiro, amigo do bem, sensato, justo, consagrado, tenha domínio próprio e apegue-se firmemente à mensagem fiel, da maneira como foi ensinada, para que seja capaz de encorajar outros pela sã doutrina e de refutar os que se opõem a ela. (Tito 1:5-9)

A palavra grega usada por Paulo aqui foi πρεσβυτερος. O significado de πρεσβυτερος é idêntico ao da palavra latina antianus.2 Ambas as palavras são encontradas nas versões de hoje, mas a maior parte dos tradutores da Bíblia para idiomas modernos (incluindo o português) deu preferência ao termo latino.3 No caso específico do idioma português, tanto o termo grego como o latino (conforme o esquema que segue) foram incorporados às versões bíblicas e são usados por muitos milhões de cristãos falantes desse idioma.

 

πρεσβυτερος
=
antianus
presbítero
ancião

 

No quadro abaixo aparecem as palavras originais, bem como as traduções do termo latino para os mesmos idiomas modernos dos quadros acima:

 

πρεσβυτερος
(grego)

antianus
(latim)

 

português
ancião
espanhol
anciano
inglês
elder
alemão
Älteste
italiano
anziano
holandês
ouderling
francês
ancien
sueco
äldste

 

Note-se que o termo original, usado pelos primitivos cristãos falantes do grego – πρεσβυτεροςera aplicado apenas ao επίσκοπος (epíscopo oubispo). Este termo jamais foi aplicado a um διάκονος (diácono) no Testamento Grego Cristão. Conforme já visto (na Nota 2), o significado de “presbítero” ou “ancião” é homem idoso. Esta é, pois, a diferença existente entre os dois. Um bispo deve ser, necessariamente, um homem idoso, com ampla experiência de vida e, conforme visto na carta a Timóteo “não pode ser recém-convertido” ao cristianismo. Já os diáconos, embora devam ser “primeiramente experimentados”, são homens mais jovens; não é obrigatório que eles sejam presbíteros (anciãos).

 

B – O Processo da Designação dos Servidores

B-1: O padrão bíblico de liderança na igreja

Conforme é amplamente conhecido, as instituições na atualidade desenvolveram um modelo de administração hierárquico, que pode ser esboçado, em linhas gerais, pelo seguinte organograma:

 

O Governo da Igreja Cristã
― No entendimento das instituições modernas

 

JESUS CRISTO
Liderança Mundial
Liderança Nacional
Liderança Regional

Liderança Congregacional

(Bispos e Diáconos)

CONGREGAÇÃO

 

Considerando-se as palavras de Paulo já citadas, quando expressou a Timóteo qual deveria ser o perfil dos designados, é possível levantar os seguintes questionamentos ao modelo acima:

- Não há evidência de que os bispos e diáconos estariam numa posição superior aos demais membros duma congregação. Antes, eles estariam em suas respectivas congregações atuando como servidores. Se haveria alguma “liderança”, “chefia”, “governo” ou qualquer coisa desse gênero por parte desses homens, isto seria unicamente sobre as famílias deles (no caso dos homens que tivessem uma), não sobre a congregação.4 Estas posições – bispo e diácono – seriam funções de serviço aos irmãos, não posições de comando sobre a congregação. Não haveria diferenças de “nível” entre os membros duma congregação.

- Em momento algum foi expressa a ideia de que os bispos e diáconos teriam responsabilidades ou qualquer tipo de controle fora dos limites de suas congregações.5 Cada congregação ou grupo de cristãos, em qualquer parte da terra, poderia ter seus próprios servidores designados e nem estes, nem os demais membros daquele grupo estaria sujeito a qualquer outra liderança, a não ser a de Cristo. Em outras palavras, não deveria haver qualquer tipo de hierarquia humana entre os cristãos.

Tendo em vista o acima, ou seja, atendo-se exclusivamente ao que dizem os trechos das cartas apostólicas que tratam desse assunto, o padrão original de liderança na congregação pode ser expresso mais adequadamente por meio do seguinte diagrama:

O Governo da Igreja Cristã
― Segundo o arranjo original

JESUS CRISTO
CONGREGAÇÃO

Bispos e

Diáconos
+
 

 

B-2: O papel do espírito santo na designação

Diferente do que ocorre no caso do padrão institucional do cristianismo moderno, as seguintes referências diretas das Escrituras Cristãs (com grifos acrescentados) estão em harmonia com o arranjo original apresentado acima:

Mas vocês não devem ser chamados ‘rabis’; um só é o mestre de vocês, e todos vocês são irmãos. A ninguém na terra chamem ‘pai’, porque vocês só têm um Pai, aquele que está nos céus. Tampouco vocês devem ser chamados ‘chefes’ [“mestres”, ARC, CBC; “líderes”, TNM], porquanto vocês têm um só Chefe, o Cristo. O maior entre vocês deverá ser servo. (Mateus 23:8-11)

Surgiu também uma discussão entre eles, acerca de qual deles era considerado o maior. Jesus lhes disse: "Os reis das nações dominam sobre elas; e os que exercem autoridade sobre elas são chamados benfeitores. Mas, vocês não serão assim. Pelo contrário, o maior entre vocês deverá ser como o mais jovem, e aquele que governa como o que serve." (Lucas 22:24-26)

Afinal de contas, quem é Apolo? Quem é Paulo? Apenas servos por meio dos quais vocês vieram a crer, conforme o ministério que o Senhor atribuiu a cada um. Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem fazia crescer; de modo que nem o que planta nem o que rega são alguma coisa, mas unicamente Deus, que efetua o crescimento. (1 Coríntios 3:5-8)

Não que tenhamos domínio sobre a sua fé, mas cooperamos com vocês para que tenham alegria, pois é pela fé que vocês permanecem firmes. (2 Coríntios 1:24)

Os que servirem bem [não ‘os que liderarem / chefiarem bem’] alcançarão uma excelente posição e grande determinação na fé em Cristo Jesus.(1 Tim. 3:13)

Portanto, apelo para os presbíteros [“anciãos”, CBC] que há entre vocês, e o faço na qualidade de presbítero como eles e testemunha dos sofrimentos de Cristo, como alguém que participará da glória a ser revelada: Pastoreiem o rebanho de Deus que está aos seus cuidados. Olhem por ele, não por obrigação, mas de livre vontade, como Deus quer. Não façam isso por ganância, mas com o desejo de servir. Não ajam como dominadores dos que lhes foram confiados, mas como exemplos para o rebanho. (1 Pedro 5:1-3)

Não pode haver qualquer dúvida sobre isso: Esses designados para assumir responsabilidades numa congregação (a saber, os bispos e diáconos) são apenas ‘servidores’, ‘cooperadores’ e “exemplos para o rebanho” (sendo que eles também fazem parte desse “rebanho” que pertence a Cristo, não a eles). Definitivamente tais homens não são líderes em sentido algum; jamais poderiam nem deveriam ditar ordens aos irmãos, especialmente ordens que vão ‘além do que está escrito’, ou, em outras palavras, que não têm relação alguma com a vontade expressa de Jesus para sua igreja. A verdade é esta: Toda e qualquer referência a esse assunto é consistente em colocar esses homens no mesmo nível dos demais que compõem uma congregação. Portanto, o simples uso da expressão “liderança congregacional”, ou qualquer outra que sugira a ideia de “governo” ou “chefia” religiosa – aplicando isso a homens – é completamente inapropriado. Jesus Cristo – e apenas ele – é o líder de qualquer congregação que esteja em funcionamento no mundo, e sua liderança é ativa e direta. Ele não tem a mínima necessidade de “intermediários” humanos, nem de hierarquias humanas para designar responsáveis pelo serviço aos irmãos nessa congregação.

Surge a questão: Mas, como é que esses designados vêm à existência num grupo de cristãos? Se não há algum “superior” humano que os indique ou que efetue a nomeação (como é o caso em todas as hierarquias religiosas criadas pelos homens), como se dá, então, o processo da designação deles para atuarem no serviço aos irmãos desse grupo?

Isso já foi em parte respondido: Uma vez que Jesus é a única autoridade legítima na congregação, a designação dos homens que atuarão como servidores em qualquer comunidade cristã é responsabilidade exclusiva dele próprio.

Mas, como é que Jesus, o líder, faz isso? Uma referência (que também já foi citada em parte) informa que Jesus conta com um auxiliar para cumprir essa responsabilidade:

De Mileto, Paulo mandou chamar os presbíteros da igreja de Éfeso. Quando chegaram, ele lhes disse: “Vocês sabem como vivi todo o tempo em que estive com vocês, desde o primeiro dia em que cheguei à província da Ásia... Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou como bispos, para pastorearem a igreja de Deus, que ele comprou com o seu próprio sangue.”(Atos dos Apóstolos 20:17,18,28)

Este “auxiliar” é o mesmo que foi mencionado nesta promessa que Jesus fez aos discípulos, pouco antes de deixá-los e voltar para o céu:

E eu pedirei ao Pai, e ele lhes dará outro Conselheiro (“Consolador”, ARC; “Paráclito”, CBC; “Ajudador”, TNM) para estar com vocês para sempre, o Espírito da verdade. O mundo não pode recebê-lo, porque não o vê nem o conhece. Mas vocês o conhecem, pois ele vive com vocês e estará em vocês... Mas o Conselheiro, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, lhes ensinará todas as coisas e lhes fará lembrar tudo o que eu lhes disse. (João 14:16, 17, 26)

Ou seja, além de o espírito santo ser o “conselheiro” ou “ajudador” dos fiéis seguidores de Cristo ao longo de todos esses séculos desde o nascimento da igreja cristã na terra (no dia do primeiro Pentecostes após a ascensão de Cristo), Jesus o usa também para realizar a importante tarefa de nomear (designar) os que atuam como servidores dos irmãos nas congregações.

Mas, como o espírito santo de Deus pode atuar? Qual é a condição para isso? As seguintes declarações são fundamentais:

Qual pai, entre vocês, se o filho lhe pedir um peixe, em lugar disso lhe dará uma cobra? Ou se pedir um ovo, lhe dará um escorpião? Se vocês, apesar de serem maus, sabem dar boas coisas aos seus filhos, quanto mais o Pai que está no céu dará o Espírito Santo a quem o pedir! (Lucas 11:11-13)

E eu [Jesus] farei o que vocês pedirem em meu nome, para que o Pai seja glorificado no Filho. O que vocês pedirem em meu nome, eu farei. (João 14:13, 14)

Escrevi-lhes estas coisas, a vocês que crêem no nome do Filho de Deus, para que vocês saibam que têm a vida eterna. Esta é a confiança que temos ao nos aproximarmos de Deus: se pedirmos alguma coisa de acordo com a sua vontade, ele nos ouve. [“em tudo quanto lhe pedirmos, se for conforme à sua vontade, ele nos atenderá.”, CBC; “não importa o que peçamos segundo a sua vontade, ele nos ouve.”, TNM] E se sabemos que ele nos ouve em tudo o que pedimos, sabemos que temos o que dele pedimos. (1 João 5:13-15)

É imediata a conclusão de que entre as ‘coisas’ que podem ser ‘pedidas’ a Deus (por meio de oração, obviamente) ‘em nome de Cristo’ está necessariamente o espírito santo, bem como a atuação deste em qualquer empreendimento ‘de acordo com a vontade de Deus’.

Deve-se enfatizar que em momento algum se estabelece ou se especifica algum pré-requisito obrigatório para os cristãos que oram fazendo esta solicitação. É descabido, pois, os representantes das instituições hierárquicas darem a entender – ou até insistirem – que o espírito santo só é concedido a cristãos que se encontram em determinadas posições em suas hierarquias religiosas, de maneira que só eles possam atuar em alguma nomeação de servidor (por meio das hierarquias). Muito menos ainda há base para a afirmação de que o espírito santo precisa de algum “canal” humano específico para fluir. Se existe algum “canal” autorizado envolvido é Cristo apenas, não homens. A frase do primeiro texto é clara: O espírito santo será concedido “a quem o pedir”, nada se falou sobre “posições”, nem sobre “canal autorizado”. Como já foi visto, entre os cristãos não há – nem deve haver – diferenças de nível. Os outros dois textos também não dão o menor indício para a conclusão de que certas coisas só podem ser solicitadas a Deus se os cristãos que fazem as solicitações tiverem posições ou títulos especiais. Deus não tem motivo, e muito menos obrigação de levar em conta posições hierárquicas criadas pelos homens (e seus títulos acompanhantes) para decidir alguma coisa relacionada com a vontade dele.

De forma que, na prática, o conteúdo de todos estes textos (sem acrescentar nem tirar nada deles) leva à seguinte conclusão:

Se um grupo de cristãos fiéis, onde quer que esteja ele, reunido como congregação (Mateus 18:20) solicitar em oração conjunta a Deus, em nome de Jesus, que um cristão do seu meio que (1) reconhecidamente esteja à altura das qualificações (especificadas nas cartas apostólicas)6 e (2) manifestou o desejo de servir (1 Tim. 3:1)7, seja nomeado como bispo (ou diácono) para servir naquela congregação, esta é – para todos os efeitos e propósitos – uma designação pelo espírito santo.  A partir daquele momento, este homem poderá ser – legitimamente – reconhecido por todos naquela congregação como tal. Pois esta designação foi aprovada e sancionada pelo líder da igreja.

____________

 

A menos que haja outra indicação, os trechos bíblicos citados neste artigo (com grifos ou itálicos acrescentados) foram extraídos da Nova Versão Internacional (NVI).As demais versões das quais foram citados trechos são as seguintes:

ARC – Almeida Revista e Corrigida
CBC – Centro Bíblico Católico
TNM – Tradução do Novo Mundo

 

 

1 As exceções a isso aparecem geralmente em versões patrocinadas por alguma organização religiosa, cujos tradutores optaram por palavras alternativas. Por exemplo, na TNM (a versão oficial das Testemunhas de Jeová, publicada originalmente em inglês em 1950), os termos “bispo” e “diácono” foram substituídos respectivamente por “superintendente” e “servo ministerial”.  Estes termos alternativos, que imperam no vocabulário desta comunidade religiosa, foram mantidos inclusive na revisão desta versão, publicada em inglês em 2013.

2 A palavra “presbyterus” (uma simples transliteração de πρεσβυτερος) não consta no vocabulário latino. O idioma português herdou a palavra presbítero diretamente do grego. Uma definição mais abrangente de “presbítero” é: idoso, mais velho, mais avançado em anos (Luc. 15:25; João 8:9; Atos 2:17); uma pessoa mais velha em termos de idade (1 Tim. 5:1,2); antepassado, ancestral, pai (Mat. 15:2; Heb. 11:2); um dignitário local mais velho (Luc. 7:3); um ancião que era membro do Sinédrio judaico (Mat. 16:21; 21:23; 26:3, 47, 57, 59); um ancião duma igreja cristã (Atos 11:30; 14:23 e outros).

3 A versão CBC, por exemplo, diz no trecho de Atos 20:17,18: “Mas de Mileto mandou a Éfeso chamar os anciãos da igreja. Quando chegaram, e estando todos reunidos, disse-lhes: Vós sabeis de que modo sempre me tenho comportado para convosco, desde o primeiro dia em que entrei na Ásia.” Muitas outras versões, nos mais diversos idiomas, apresentam um enunciado semelhante, utilizando o termo latino “anciãos”, em vez de “presbíteros”, o termo grego.

4 O discurso utilizado por Paulo na carta a Timóteo é bem específico. O verbo que é traduzido por “governar” (NVI, ARC, CBC; “presidir”, TNM) só é atribuído aos bispos e diáconos quando se refere às famílias deles. Este verbo não é usado no caso do relacionamento entre esses homens e as congregações às quais eles pertencem. Neste caso, a palavra usada é “servir”.

5 Não há, porém, objeção bíblica a que um bispo ou diácono seja convidado para falar (palestrar) aos membros de outra congregação. Os servidores dessa congregação provavelmente conhecem o orador convidado e farão esse convite com a confiança de que, sendo o orador de fora um cristão fiel, ele palestrará ao grupo com o objetivo de edificar; não visitará a congregação para defender ideias divergentes da mensagem de Cristo. (Compare isso com o que diz 2 João 10, 11).

6 As pessoas que estão em melhor posição para saber se um homem cogitado para assumir estas funções preenche ou não os requisitos são, logicamente, os demais membros do grupo onde este homem congrega, e não alguém que não pertence ao grupo. Embora este artigo não tenha o objetivo de defender algum modelo “democrático” de escolha dos servidores, algo como uma “eleição” (modelo para o qual realmente não há base bíblica), não seria correto excluir inteiramente os demais membros da congregação do processo, já que são eles os que sabem – melhor do que qualquer um – se este homem cogitado tem ou não tem o respeito de todos dentro da congregação e também uma “boa reputação perante os de fora”, ou seja, os da comunidade onde se localiza a congregação. (1 Tim. 3:7; “bom testemunho dos que estão de fora”, ARC).

7 Segundo a carta de Paulo a Timóteo, é a manifestação do desejo de servir por parte de algum homem qualificado que dá início ao processo da designação dele pelo espírito santo. Esta manifestação poderá ser motivada e facilitada por alguma recomendação por parte de um ou mais membros da congregação à qual este homem pertence. Em qualquer caso, ninguém deve se sentir coagido a assumir estas funções. Isso deve ser algo inteiramente motivado pelo coração, tendo o homem o genuíno desejo de trabalhar em favor da congregação e também plena consciência da responsabilidade envolvida. (Compare isso com o que diz Lucas 12:48 e Tiago 3:1)