O Sangue, a Medicina e a Lei de Deus

Uma crença controversial das Testemunhas de Jeová é a sua recusa de aceitar transfusões de sangue, com base no mandamento bíblico de não comer sangue. Façamos uma revisão das Escrituras, para determinar se eles estão corretos em sua interpretação.

No primeiro século, quando os cristãos judeus queriam obrigar os crentes gentios a observar a circuncisão e a Lei de Moisés, os irmãos espiritualmente maduros, guiados pelo Espírito Santo, decidiram não adicionar qualquer carga sobre eles “exceto estas coisas necessárias” da Lei mosaica, entre as quais estava abstinência “do sangue e de coisas estranguladas.” (Atos 15:5, 28, 29) [1] Ao pontificarem sobre “abster-se de sangue”, os líderes das Testemunhas de Jeová argumentam que tomar sangue em qualquer forma, ou em qualquer circunstância é contrário às Escrituras. É correto este conceito?

As leis, tanto as divinas como as humanas, podem ser interpretadas de diferentes maneiras. Por exemplo, os editores de material pornográfico costumam citar a garantia constitucional da liberdade de expressão para poder produzir e distribuir seu material. Literalmente falando, pois, a lei parece proteger a difusão da pornografia. Mas poderíamos perguntar: Será que os legisladores tinham então a intenção de incentivar a pornografia? Da mesma forma, os que são contra a pena de morte citam a proibição constitucional de penas cruéis e bizarras. Mas será que os legisladores que estabeleceram a pena de morte (nos países onde ela existe) a vêem como cruel e bizarra? Com certeza não, já que a pena de morte provavelmente era mais aplicada antigamente do que é agora. E, na verdade, os métodos de execução eram mais cruéis antes do que são agora!

Similarmente, a interpretação da injunção bíblica de “abster-se de sangue” pode ser feita tanto literalmente, como tendo em vista a intenção do Legislador que mandou escrever essa lei. Portanto, devemos discernir por que Deus queria que a humanidade se abstivesse do sangue. Para fazer isso, devemos ver o que outras partes da Bíblia dizem sobre o assunto.

No que se refere ao consumo de sangue, a primeira lei de Jeová Deus foi dada a Noé. Ele ordenou: 

“Tudo o que se move e vive vos servirá de alimento; eu vos dou tudo isto, como vos dei a erva verde. Somente não comereis carne com a sua alma, com seu sangue.” – Gênesis 9:3, 4

Vemos aqui que Deus permite o consumo da carne, mas não o do sangue, pois este representa a “alma” ou “vida” do animal morto.

Por meio do processo da procriação, os seres humanos podem transmitir a vida a outros, mas eles não podem criar vida, seja humana, seja animal. Portanto, ao tirar a vida de um animal para seu próprio propósito, o homem tornou-se obrigado a mostrar respeito por essa vida e a mostrar respeito pelo Dador da vida, Deus. Este princípio é ainda mais evidente em Levítico 17:10-16, que citamos em parte:

“A todo israelita ou a todo estrangeiro, que habita no meio deles, e que comer qualquer espécie de sangue, voltarei minha face contra ele, e exterminá-lo-ei do meio de seu povo. Pois a alma da carne está no sangue,... ninguém dentre vós comerá sangue,... porque a alma de toda carne é o seu sangue, que é sua alma. Eis por que eu disse aos israelitas: não comereis sangue de animal algum, porque a alma de toda carne é o seu sangue; quem o comer será eliminado. Toda pessoa, natural ou estrangeira, que comer um animal morto ou dilacerado, lavará suas vestes, banhar-se-á em água e ficará impura até a tarde; e depois será pura. Mas, se não lavar as vestes e o corpo, levará sobre si a sua iniqüidade.”

Por que Deus tomou essa posição rígida contra o consumo de sangue? Porque Ele vê o sangue do animal abatido como representando a vida daquele animal como uma alma. Usar esse sangue seria uma falta de respeito para com a vida perdida, assim como para com o Dador da vida. Mesmo no caso em que um animal já estava morto – não tendo sido abatido intencionalmente pelo homem – a ação ainda tinha de ser tomada para mostrar respeito. Mas note-se que embora fosse impossível essa carne ser adequadamente sangrada, ela não era absolutamente proibida como alimento! O princípio subjacente a tudo isto era o homem, por assim dizer, fazer o papel de Deus, tirando uma vida que ele não pode criar nem restaurar. Por seguir a ordem de Deus de derramar o sangue, o homem mostra respeito por Jeová e diz, com efeito: ‘Eu não estou usurpando Sua posição como Deus e Criador.’

Para os cristãos de hoje estes princípios ainda são aplicáveis, conforme mostra a decisão apostólica relacionada, em Atos 15. Poucos de nós na sociedade atual estamos realmente envolvidos no abate de animais. Mesmo assim, não seria ainda importante mostrar o devido respeito para com a vida tirada em nosso benefício? Fazemos isso por tomar precauções normais na obtenção da carne que consumimos e por pedir a bênção de Deus sobre o nosso alimento.

Se isto é assim no caso do consumo de sangue por via oral, o que dizer das transfusões de sangue? Existe uma diferença muito significativa entre os dois procedimentos. Enquanto o animal abatido deu sua vida em nosso benefício, o doador de sangue não! O sangue doado para as transfusões não representa a vida do doador de sangue. Como poderia representar, se ele continua vivo?

Isso não quer dizer que não existam riscos nas transfusões de sangue, e é justo tomar todas as precauções razoáveis que possam ser tomadas nesse procedimento, assim como no caso de todos os outros procedimentos médicos. O que não é justificado é rejeitar e condenar essa prática médica com base em princípios bíblicos.

______________________

(Reproduzido no Mentes Bereanas com permissão do autor, Jay Dicken. As citações bíblicas são da versão do Centro Bíblico Católico.)



[1] Animais que foram estrangulados não foram adequadamente sangrados.