Quem é o "Rei do Norte"?

Assim como ocorreu com muitas outras interpretações proféticas da Torre de Vigia, a que será considerada neste artigo é mais um exemplo de como todos os eventos foram contra as previsões.

O capítulo 11 do livro de Daniel faz uma descrição profética dos reis persas e helenísticos da época de Daniel até Antíoco IV Epifânio, que governou a Síria nos anos 175-164 AC. A partir do versículo 5 retratam-se as batalhas entre os reis da Síria e do Egito. Como esses países estavam ao norte e ao sul da Palestina, eles são chamados na profecia de reis “do norte” e “do sul”. Muito espaço é dedicado a Antíoco IV, o rei da Síria mais cruel e mais desprezado pelos judeus, principalmente por ter profanado o templo judaico no ano 167 AC. A descrição das atividades dele nos versículos 21-39 é tão detalhada e precisa que alguns comentaristas freqüentemente tentaram negar que a profecia tenha sido escrita antes do sexto século AC. Eles argumentaram que, em vez disso, a história é uma “fraude piedosa”, produzida por um judeu desconhecido por volta de 160 AC (uma hipótese que não há como ser aceita, por falta de provas).

O “Rei do Norte” – As Interpretações da Torre de Vigia

Assim como outros movimentos apocalípticos, a Torre de Vigia sente necessidade de aplicar diversas profecias da Bíblia a eventos contemporâneos. A profecia de Daniel 11 não é exceção. Para avançá-la até os nossos dias, eles dizem que “depois do versículo 19, a profecia passa para os anos logo antes da nossa Era Comum”, saltando 200 anos até os imperadores Augusto e Tibério (30 AC - 37 DC – Veja A Sentinela de 1º de julho de 1987, pág. 12) No versículo 25 faz-se a profecia dar outro “salto” de mais de 200 anos até o Imperador Aureliano (270-275 AD), e depois um “salto” final de 1600 anos no versículo 26, chegando até os tempos modernos. (Veja o livro “Seja Feita a Tua Vontade na Terra”, publicado em português em 1962, págs. 203-243) Este “salto triplo” fenomenal de 2000 anos através da história do mundo permite que a Torre de Vigia descarte a idéia de que a profecia é sobre Antíoco IV Epifânio. Não há nada no texto dos versículos 21-39 que sugira que o "Rei do Norte” mude de identidade dessa maneira. Esses “saltos” históricos são inteiramente arbitrários e sem base.

Napoleão Bonaparte como o “Rei do Norte”

Esse método de criar esses “saltos” históricos na profecia está longe de ser uma novidade. Muitos intérpretes através dos tempos fizeram o mesmo, com o fim de fazer a profecia culminar em seu próprio período de vida. Nos anos 1800, era comum fazer a profecia culminar com Napoleão Bonaparte, apresentando-o como o “rei do norte”.

O Pastor Russell adotou esta interpretação. Em Estudos nas Escrituras, Volume 3, (Venha o Teu Reino, publicado originalmente em 1891), ele aplica os versículos 29, 30 e 35-45 a Napoleão. Como Daniel 11:40 predisse que o rei do norte “no tempo do fim” iria entrar em choque contra o rei do sul e "entrar nas terras, e inundar, e passar", isso foi interpretado como a “invasão do Egito por Napoleão”, nos anos 1798-1799. “O ‘Tempo do Fim’, um período de cento e quinze (115) anos, de 1799 AD até 1914 AD, é marcado especificamente nas Escrituras”, afirmou Russell na página 23 dessa mesma obra.

Essa mesma interpretação de que o “Tempo de Fim” teve início em 1799 ainda era mantida em 1927, no livro Criação:

"And at the time of the end shall the king of the south push at him: and the king of the north shall come against him like a whirlwind, with chariots. and with horsemen, and with many ships; and he shall enter into the countries, and shall overflow and pass over. He shall enter also into the glorious land, and many countries shall be overthrown." (Dan. 11 40, 41) The fulfilment of this prophecy fixes the beginning of the" time of the end”; for the prophecy definitely so states. The campaign of the great warrior Napoleon Bonaparte is clearly a fulfilment of this prophecy, as reference to the historical facts concerning his campaign plainly shows...

Napoleon began this Egyptian campaign in 1798, finished it, and then returned to France on October 1, 1799. The campaign is briefly, yet graphically, described in the prophecy, verses 40-44; and its being completed in 1799 marks, according to the prophet's own words, the beginning of "the time of the end". 

Tradução: 

“E, no fim do tempo, o rei do sul lutará com ele, e o rei do norte se levantará contra ele com carros, e com cavaleiros, e com muitos navios; e entrará nas suas terras e as inundará, e passará. E entrará na terra gloriosa, e muitos países cairão.” (Dan. 11:40, 41) O cumprimento desta profecia fixa o início do “tempo do fim”; pois a profecia diz isso definitivamente. A campanha do grande general Napoleão Bonaparte é claramente um cumprimento desta profecia, conforme a referência aos fatos históricos relativos a essa campanha mostram claramente... 

Napoleão iniciou sua campanha no Egito em 1798, terminou-a, e daí voltou para a França em 1º de outubro de 1799. A campanha é breve, mas graficamente descrita na profecia, nos versículos 40-44; e ter sido ela completada em 1799 marca, segundo as próprias palavras do profeta, o início do “tempo do fim”. 

(Página 293 da edição em inglês. Na tradução em português deste livro, publicada dois anos depois, essas referências à campanha de Napoleão foram omitidas. Mas o ano de 1799 ainda é apresentado na tradução como o “tempo do fim”. Veja as páginas 296-302 da edição em português, de 1929.)

A Alemanha Nazista como o “Rei do Norte”

Todavia, quando o mundo se recusou a acabar e os “tempos” para os dois reis tinham chegado e passado, era hora de uma “atualização” da profecia. Na década de 1930, o ano inicial do período, 1799, foi descartado e o que antes era o ano final, 1914, foi convertido em ano inicial do “tempo do fim”.

 

Livro “Seja Feita a Tua Vontade na Terra”, página 244. Os dois “reis”. Entendia-se que o “rei do norte” era a Alemanha Imperial (depois Alemanha Nazista) e o “rei do sul” era o Império Britânico (ao qual se aliaram os Estados Unidos da América nas duas guerras mundiais).

Numa nova interpretação de Daniel 11, publicada em 1941, disse o presidente da Torre de Vigia, o Juiz Rutherford: “Jeová revelou ao seu povo que o “tempo do fim” começou em 1914.” O Rei do Norte era naquele momento interpretado como as Potências do Eixo, lideradas pela Alemanha Nazista. Sobre a profecia de Daniel 11:40-45, ele escreveu que "o tempo do seu cumprimento relaciona-se especialmente com o período que começou no verão de 1939, e continua depois.” “À luz da profecia divina infalível”, escreveu Rutherford, “tenha em mente isso: que o governo totalitário arbitrário vai conquistar todas as nações da terra no futuro muito próximo.” Este império totalitário posteriormente se organizaria num ataque conjunto contra as Testemunhas de Jeová, o que seria o prelúdio para a intervenção de Deus e para a "batalha do Armagedom." (A Sentinela de 1º de dezembro de 1941, págs. 355, 362; veja também o livro O Novo Mundo, 1942, págs. 324, 339, 343, 344)

Raramente uma profecia da Torre de Vigia foi tão rapidamente desmentida pela realidade histórica. Em 1945 as forças totalitárias do Eixo foram derrotadas pelos Aliados e a guerra terminou. A interpretação de Daniel 11 teve de ser revisada de novo.

O Bloco Comunista como o “Rei do Norte”

A nova interpretação foi apresentada em 1958 no livro “Seja Feita a Tua Vontade na Terra” (1962, em português). Eles explicaram que o fato de as forças do Eixo terem sido esmagadas em 1945 não significou o fim do “Rei do Norte”. Ele apenas mudou de forma e se tornou o bloco comunista! (Veja as páginas 257, 258) A profecia de Daniel. 11:36-45 era agora interpretada como se referindo ao bloco oriental comunista desde 1945. O "Rei do Sul" foi então apresentado como o bloco ocidental capitalista.

 

Livro “Seja Feita a Tua Vontade na Terra”, página 273. O “rei do norte” é apresentado como o Bloco Comunista.

A profecia de que "o Rei do Norte" vai "inundar e passar" pareceu bem conveniente para ser aplicada ao Bloco Oriental: “O rei do norte expandiu os seus territórios ou esferas de influência”, conquistando vários países (páginas 273 a 275). E as palavras referentes à auto-deificação de Antíoco IV em Daniel 11:36, segundo as quais ele “engrandecer-se-á sobre todo deus” – pareciam ser agora uma descrição da posição ateísta dos comunistas.

A previsão de Daniel 11:40 de que os dois "reis" iriam entrar em choque "no tempo do fim" foi entendida como não mais se aplicando ao irrompimento da guerra em 1914 ou 1939. Dizia-se agora que esta medição de forças ocorreria no momento do “’tempo do fim no Armagedom’", quando os dois blocos de poder teriam “a oportunidade e a ocasião de experimentar e usar um contra o outro as suas terríveis e mortíferas armas de todas as espécies.” (Páginas 275, 276) Esta interpretação significava que eles tinham agora dois "tempos" em vez de um. Enquanto ainda era preciso fazer os “tempos” em outras partes do livro de Daniel (11: 8-17,19) – que estão dentro da mesma profecia (12:4) – começarem em 1914, interpreta-se a frase "tempo do fim" em Dan. 11:40 como o ‘'tempo do fim' do ‘rei do norte’ no Armagedom’! (Página 265. Veja também A Sentinela de 1º de julho de 1987, página 13) Como poderia ser isso não é explicado.

Durante uns 30 anos, a Torre de Vigia usou essa interpretação para manter as expectativas das Testemunhas de que o fim estava “às portas”. Em 1984 dizia-se até que o "confronto" final já poderia ter começado! A Sentinela de 1º de outubro de 1984 disse nas páginas 18 e 19: 

“O rei do sul” está agora ‘dando empurrões’ em seu rival, em sentido político e até mesmo militar. (Daniel 11:40) Está em curso hoje uma implacável corrida armamentista que ameaça a humanidade com holocausto nuclear. Chamando atenção ao perigo, o Anuário de 1982 do SIPRI, em inglês, advertiu: 

“O equilíbrio entre as duas grandes potências no tocante a armas nucleares intercontinentais está-se tornando instável... Em vez do que outrora pudesse parecer um sistema de dissuasão — um equilíbrio de destruição mútua assegurada (MAD) — temos o medo de um primeiro ataque sendo usado como justificativa para os grandes aumentos agora em perspectiva em programas e consecuções relativos a armas estratégicas. Com as armas nucleares à sua disposição, as duas grandes potências têm, em conjunto, uma capacidade destrutiva provavelmente equivalente a cerca de meio milhão de bombas do tipo lançadas sobre Hiroxima: mas isto não é suficiente. Não pode haver exemplo melhor de como o desenvolvimento da tecnologia armamentista — neste caso a crescente eficiência dos mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs) — leva a uma redução, em vez de a um aumento, na segurança.” 

“Dar empurrões” por parte do “rei do sul” levaria “o rei do norte” a ‘arremeter contra ele com carros, e com cavaleiros, e com muitos navios’. Sim, os reis teriam alguma oportunidade de usar pelo menos suas armas convencionais um contra o outro. “O rei do norte” assumiria também o controle sobre muitas “coisas desejáveis” deste mundo. (Daniel 11:40-43)

Entretanto, o cenário apocalíptico envolvendo esses dois “reis”, tantas vezes retratado nas publicações da organização, e às vezes fazendo uso de citações como a acima, não se concretizou. A cortina para o ato final se recusou a subir. E o que é pior: A evolução dos acontecimentos foi, de novo, contra o previsto!

Em questão de pouco tempo o mundo presenciou a queda do Muro de Berlim e a libertação do Leste Europeu da ditadura comunista. Depois, testemunhou-se o colapso do sistema comunista na própria União Soviética. Em apenas algumas semanas, o poderoso império soviético fragmentou-se em vários Estados livres. As igrejas recuperaram sua liberdade em país após país. Inclusive, em 27 de março de 1991, as Testemunhas de Jeová foram legalmente reconhecidas e registradas na União Soviética – como o primeiro dos grupos religiosos que antes não podiam operar livremente lá!

O que aconteceu com as profecias da Torre de Vigia sobre o “Rei do Norte” na forma do Bloco Comunista que se chocaria num violento confronto militar com o “Rei do Sul”, o Bloco Ocidental, e depois assumiria a liderança num ataque contra as religiões do mundo, incluindo as Testemunhas de Jeová, para finalmente, ir à ruína na “batalha do Armagedom”? Estas profecias falharam. Não se podem esperar ataques provenientes do lado comunista do bloco de nações. Por que não? Porque não há nenhum bloco comunista. Ele se foi. Não existe mais.