Quando Ocorre Uma Tragédia...


A queda de um avião que transportava toda a delegação de uma equipe de futebol do Brasil entre Santa Cruz de la Sierra (Bolívia) e Medellín (Colômbia), na madrugada do dia 29 de novembro de 2016, causando 71 mortes, teve repercussão mundial. E, como costuma acontecer nesses casos, não se trata apenas de um número frio, simples estatísticas, e sim de pessoas, seres humanos, com suas vidas, suas esperanças e seus sonhos subitamente arrancados, como já ocorreu inúmeras vezes com tantos outros na história.

Terremotos, inundações, erupções vulcânicas, tsunamis, acidentes de avião, trem, automóvel, guerras, ataques terroristas, homicídios, fomes, pragas, doenças, etc., são realidades que nos fazem lembrar vez após vez de que todos vivemos num ‘campo minado’ e que, na realidade, a vida é a exceção.

Buscamos segurança porque amamos a vida, essa existência realmente tão curta na qual procuramos nos realizar como pessoas e na qual buscamos a felicidade. Mas, às vezes ocorre a tragédia e nenhum seguro de vida, por mais caro que seja, pode evitar o pior. Isso lembra a erupção do Vesúvio em Pompéia (79 EC), onde os arqueólogos encontraram algumas pessoas enterradas na lava enquanto tentavam escapar, mas ainda permaneciam agarradas às suas joias.

Quando ocorre uma tragédia, não adianta dizer “a vida continua”. A dura verdade é que ela não continuará como antes; e sem eles, aqueles que se foram, nada permanecerá do mesmo jeito. Senão, basta apenas perguntar isso aos entes queridos dessas pessoas, que sentirão tanto a falta delas, e que as verão até em sonhos, e se lembrarão delas em todos e em cada dia restante de suas vidas. Não, para eles a vida jamais será a mesma.

Quando vem a tragédia, a pergunta que surge é: E agora? Os mortos realmente se foram para sempre, seus entes queridos nunca mais os verão? Quando se levanta essa questão, tanto a ciência como a filosofia procuram dar suas respostas; assim como os psicólogos que se dedicam a ajudar os que ficaram. Em todo caso, a filosofia, recordando talvez Albert Camus, pode fazer alusão ao tremendo absurdo dessa existência, ainda que tentemos viver com dignidade, mas também sem contemplar a menor luz ou o menor resquício de esperança. Contudo, é aí que está a grande diferença, precisamente nisso: na esperança, uma coisa que só a religião oferece, e que tantas pessoas rejeitam. Mas, no fundo, não deixa de surpreender que seja assim, que a única coisa que oferece sentido e esperança não seja sequer considerada.

Não obstante, esse tipo de esperança não deveria ser descartado tão rapidamente. Conforme expressou muito bem o professor Manuel Fraijó:

“Sobre esta questão, o materialismo e a razão se declaram incompetentes. A religião por outro lado, não esquece o passado. Frente à razão científica do materialismo se coloca a razão memorial da religião. A dignidade da religião tem relação com a cultura da lembrança. A religião, desta forma, salva o passado de um esquecimento certo. A teologia deixa em aberto o que a ciência declara fechado. Vindo de longe, a religião acumulou muita história e se recusa a relega-la ao esquecimento. A tradição bíblica não arquiva as causas das vítimas da injustiça. Ela sabe que ali existem direitos pendentes e mantém abertas as fichas deles.”

“A tradição religiosa oferece uma resposta serena a esse dilema. Ela encomenda as vítimas do passado ao Deus do futuro, ao Deus que ressuscita os mortos. A partir dessa confiança no estabelecimento de uma harmonia final, o homem religioso pode, senão ser feliz – algo realmente exorbitante – pelo menos alcançar uma paz interior.”

(Manuel Fraijó, A Vueltas con la Religión [Às Voltas Com a Religião], Ed.Verbo Divino, Espanha, 1998.)

É como disse Blaise Pascal, “o coração tem razões que a razão desconhece”. O fato é que, se refletirmos bem, um senso mínimo de justiça clama aos céus e exige que todas elas, as pessoas que se foram injustamente, mereçam outra oportunidade. Isso lembra as palavras de Paulo de Tarso, quando ele disse: “Ora, se os mortos não ressuscitam: ‘comamos e bebamos, pois amanhã morreremos’.” Ou as de Jesus de Nazaré, quando ele disse a uma mulher, pouco antes de trazer o irmão falecido dela de volta à vida: “Não lhe falei que, se você cresse, veria a glória de Deus?”

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Em memória de todos os que tiveram suas vidas ceifadas na história.

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Esteban López (adaptado) – Artigo original

Crédito da imagem: El Colombiano (jornal local de Medellín, Colômbia.)