Os "Privilégios de Serviço" da Torre de Vigia

 

Entre as Testemunhas de Jeová receber ou ter um privilégio de serviço é algo que elas buscam alcançar como alvo, alguns até por toda uma vida. Ser um “ancião”, “pioneiro” ou “betelita”[1] é um desejo fortemente implantado no coração de muitos. Alguns até mesmo ambicionam esse alvo com tanto afinco que passa a ser uma obsessão: “É bem correto dizer-se que o homem que almeja a liderança tem uma louvável ambição.” — 1 Timóteo 3:1 (Phillips em inglês – O negrito é meu).

Mas existem pontos a considerar se desejamos servir a Deus e realizar a Sua vontade de uma maneira alegre e da forma como Ele intencionou em sua palavra. Para uma Testemunha de Jeová mediana, qualquer “designação teocrática” é um privilégio de serviço. Assim, posicionar um microfone, varrer ou lavar o banheiro do Salão do Reino, ler a Bíblia ou A Sentinela perante a assistência, fazer comentários, etc. são encarados como um “serviço sagrado” (Gr latréuo – Mat 4:10). É preciso mencionar que muitas Testemunhas de Jeová encaram tais tarefas e ações como algo prazeroso e fazem tal serviço com muita alegra e disposição. Reconhecemos também que alguns sinceros almejam tais privilégios de serviço com o intuito nobre de dedicar mais tempo a servir a Deus e ao próximo. Sem dúvida, se esse for o caso, é realmente algo louvável!  Entendemos que o serviço a Deus é importante, mas não deveríamos confundir diakonéo (Luc. 12:37) “serviço a homens”[2] com latréuo ou “serviço a Deus”.

A maneira como são “distribuídos e retirados” tais privilégios ou serviços e até que ponto a Bíblia concorda com essa maneira de privilegiar alguns com determinados tipos de serviços, enquanto outros não os recebem (muitas vezes de uma maneira arbitrária e mesmo após anos de serviço diligente), deve ser analisada com muito cuidado à luz da Palavra de Deus. A “dianteira” chega até mesmo ao ponto de restringir alguns de um determinado tipo de privilégio (chamados “privilégios especiais”), tais como o serviço de pioneiro, orar, discursar em público entre outros.

Se examinarmos o texto de 1 Timóteo 3:1 mais detalhadamente, veremos que o texto fala de uma obra excelente e não especificamente de uma determinada faceta dessa obra:Esta declaração é fiel. Se algum homem procura alcançar o cargo de superintendente, está desejoso duma “obra excelente”. O que seria essa obra? Lucas 3:23 relata que “Outrossim, o próprio Jesus, ao principiar [a sua obra], tinha cerca de trinta anos de idade...”.

É claro que no caso acima, Paulo logicamente se referia a uma obra ou trabalho em particular e que desta feita se aplicava aos superintendentes, mas é bem verdade que a palavra obra é muito ampla conforme vimos em Lucas 3:23 e algumas vezes a palavra obra em português é relacionada com algo abrangente e coletivo tal como: “Obra de pregação”, “Obra de construção”, etc.

O que podemos entender é que, visto que a obra do Reino é algo dado diretamente por Cristo (Jo 14:12), não poderíamos tratá-la como um “privilégio” que homens possam dar e tirar ao seu bel-prazer, algumas vezes até mesmo usando-a como uma forma de punição por algum erro cometido ou gratificação por algo realizado. Esta prática é muito comum entre as Testemunhas de Jeová. Deixar alguém por algum tempo sem “comentar” ou ler a Bíblia nas reuniões é algo que é decidido pelo critério de julgamento dos anciãos congregacionais. Algumas vezes isso é até mesmo usado como base para ameaça. Não é raro um ancião dizer ao irmão que vai “retirar os privilégios” caso este não faça “isso” ou “aquilo”. 

Jesus disse que o cristão que exerce fé nele “fará também as obras que eu faço; e ele fará obras maiores do que estas, porque eu vou embora para o Pai.”. Sabemos que Cristo além de se referir a obras tais como curas e milagres se referia também à divulgação das boas novas do Reino. Essa então era a obra em que todo cristão deveria se empenhar e não apenas buscar algum privilégio específico para ter a aprovação de homens em detrimento do mais importante, que é servir a Deus.

O Dicionário Aurélio define privilégio como “Vantagem que se concede a alguém com exclusão de outrem e contra o direito comum “. Com base nessa definição podemos perceber o caráter com que são vistos os privilégios de serviço entre as Testemunhas de Jeová. Tais privilégios se assemelham muitas vezes aos concedidos e muitas vezes usados como barganha por determinadas instituições políticas. A Bíblia, prevendo que haveria entre a congregação esse tipo de comportamento advertiu contra a “simonia” (Atos 8:9-24). Privilégio não deveria ser “moeda de troca” ou barganha entre cristãos que são identificados pelo amor! (Jo 13:35)

Infelizmente observamos alguns hoje agirem desta forma para obter os “privilégios” tão sonhados. É claro que não necessariamente comprando com dinheiro tais privilégios, mas dando todos os recursos de tempo e esforços disponíveis (muitas vezes em detrimento até mesmo da própria família) na esperança de que seus esforços sejam “notados” pelo “corpo de anciãos” e este o designe a algum tipo de “privilégio”. Alguns se ocupam, não na obra do reino propriamente dita, mas na maioria das vezes em prestar favores pessoais aos que estão em posição de conceder ou de ajudar a obter tais privilégios. Para tais não basta apenas ser um “simples publicador das boas novas” mas estes “precisam” ou “ambicionam” um cargo de liderança ou dianteira.

Nesse ponto é importante meditar no seguinte:

1) Onde na Bíblia existe a linha divisória que separa uma clara obrigação cristã de participar na obra de Deus tal como pregar e fazer discípulos ( Mat 28:19,20) de um  “privilégio” específico tal como “comentar na reunião” ou “posicionar um microfone”?

2) Será que entre os antigos cristãos eles delineavam esses serviços como uma forma de separar os que podiam fazer tais serviços dos que não podiam ou eram simplesmente serviços voluntários feitos de coração que nada tinham que ver com sua posição na congregação? (Rom 12:3)

3) Será que esse tipo de divisão, ou “repartição” de privilégios de serviço não é discriminatório? É bem conhecido que entre as Testemunhas de Jeová, existe uma certa discriminação entre aqueles que não têm privilégios e os que os possuem. Se uma Testemunha passa muito tempo sem privilégios ele, fatal e infelizmente, será motivo de comentários e algumas vezes até tagarelice do tipo “fulano já é Testemunha de Jeová há x anos e nunca tem privilégios, deve ser porque fez ou está fazendo algo errado”. Esquecem que alguns ficam “sem privilégios” apenas por opção ou por pura falta de tempo! Ou talvez porque os anciãos vêem nele algo (sabe-se lá o que é esse algo, visto que o motivo muitas vezes fica oculto) que faz com que ele não “mereça” o privilégio. Isto leva até a circunstâncias absurdas, do tipo “ele/ela não merece o privilégio tal porque ele/ela chega atrasado às reuniões” indicando claramente uma abordagem arbitrária do critério.

4)  Qual a diferença entre se fazer 50 horas de pregação “assinando uma petição de pioneiro”[3] e fazer as mesmas 50 horas sem assinar? Os que fizeram 50 horas sem assinar a petição fizeram menos, ou fizeram um trabalho inferior para Jeová? Será que Jeová realmente dá importância a esse papel “assinado”? Sabe-se do “terror” e a angústia que é quando um pioneiro é ameaçado de ser “removido de seu privilégio” ou corre o risco de perdê-lo, dando a entender que seu serviço a Deus depende de uma assinatura ou de uma condição e não da aprovação direta do próprio Jeová Deus. (Gál 6:4) Será que todas as Testemunhas de Jeová não teriam o direito de ter tais privilégios, desde que é claro, assim o deseje e tenha boa moral, boa reputação, e vontade de servir mais a Deus, dando mais de si e do seu tempo a Ele? Ser um “pioneiro regular”, isto é, gastar mais tempo na obra de pregação depende da assinatura de um papel? Mesmo que se diga que “todos têm esse direito”, na prática sabemos que muitos são barrados e a designação é feita por uma comissão com o aval da direção central. A pergunta é, será realmente necessária essa formalidade para pregar as boas novas do Reino de Deus? (Mat 24:14)

Para finalizar, quanto ao último ponto, é importante que o próprio leitor deste artigo medite nas palavras de Paulo aos Colossenses no capítulo 3 versículo 23 em diante, logo abaixo. São grifadas algumas partes do texto que se relacionam ao assunto:

“O que for que fizerdes, trabalhai nisso de toda a alma como para Jeová, e não como para homens, pois sabeis que é de Jeová que recebereis a devida recompensa da herança. Trabalhai como escravos para o Amo, Cristo. Certamente, quem estiver fazendo o errado receberá de volta o que fez de errado, e não há parcialidade. Vós, amos, persisti em tratar [vossos] escravos de modo justo e eqüitativo, sabendo que vós também tendes um Amo no céu.”

 

NOTAS:


[1] Entre as Testemunhas de Jeová, "ancião" é o designado a tomar a dianteira em pastorear o rebanho. "Pioneiro" é um ministro de tempo integral na pregação. "Betelita"  é alguém que trabalha na sede da Torre de Vigia (nos EUA), ou na filial da Torre de Vigia em qualquer país.

[2] De onde provém a palavra "diácono" ou "servo ministerial" como traduz a NM visto que diaconia dá idéia de ministrar ou servir.

[3] Uma petição formal documentada na qual o publicador indica que deseja dedicar mais tempo a pregação das boas novas e se compromete a gastar períodos tais como 50 ou 70 horas por mês neste trabalho.