Os "Últimos Dias" - Quais São?

A ideia popular dos “últimos dias” é que eles se referem a um período de tempo que antecede a vinda de Cristo para o julgamento e que serve como uma indicação de que esse evento está prestes a ocorrer. Embora esta seja uma ideia comum, será que é isto realmente que a Bíblia ensina? 

O próprio Jesus nunca usou a expressão “os últimos dias” em quaisquer de suas considerações sobre o que o futuro traria. Ele mencionou “o último dia” (no singular), mas foi para descrever o que ele faria depois que já tivesse vindo e iniciado o julgamento final. (Compare com João 6:39, 40, 44, 54; 7:37; 11:24; 12:48.) Ademais, em todo o conselho dele aos discípulos declara-se explicitamente que não haveria nada no curso dos eventos humanos que seria tão notável, tão diferente e tão sem igual, que os habilitaria saber à base de tais condições que a vinda dele estava prestes a ocorrer. Na realidade, a própria natureza ordinária, uniforme e repetitiva dos eventos e condições humanas ocasionaria o perigo de eles se tornarem espiritualmente sonolentos, complacentes, bem ao contrário de um período de condições muito incomuns e eventos surpreendentes que poderia produzir um estado de agitação excitante e expectativa ansiosa. – Mateus 24:43, 44,; 25:1-6, 13; Lucas 12:35-40; 17:26-30; 21:34-36. 

Passando aos escritos de seus apóstolos e discípulos, o que encontramos? Pedro, Paulo, Tiago e Judas, todos fizeram referência aos “últimos dias”. Encontramos primeiro o apóstolo Pedro falando sobre os “os últimos dias” no dia de Pentecostes, cinquenta dias depois da morte e ressurreição de Jesus. Falando à multidão reunida ele lhes disse que o que eles haviam testemunhado – os discípulos estando cheios de espírito santo e falando em línguas diferentes – era o cumprimento da profecia de Joel, e daí disse: 

“‘Nos últimos dias, diz Deus, derramarei do meu Espírito sobre todos os povos. Os seus filhos e as suas filhas profetizarão, os jovens terão visões, os velhos terão sonhos. Sobre os meus servos e as minhas servas derramarei do meu Espírito naqueles dias, e eles profetizarão. Mostrarei maravilhas em cima, no céu, e sinais em baixo, na terra: sangue, fogo e nuvens de fumaça. O sol se tornará em trevas e a lua em sangue, antes que venha o grande e glorioso dia do Senhor. E todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo!’ – Atos 2:17-21, NVI.

Assim, Pedro aplica os “últimos dias” àquele momento. Num esforço de contornar este fato, alguns fazem a alegação de que ele só usou a expressão com referência aos últimos dias da nação de Israel, conduzindo à destruição de Jerusalém em 70 D.C.[1] Mas Pedro não diz isto e dificilmente temos autorização para pôr palavras em sua boca ou presumir um significado que não se afirma em parte alguma. O fato é que Pedro evidentemente usa o termo num contexto que abrange a vinda do “dia do Senhor” e a salvação que esse dia traz. Ele não limita os “últimos dias” de que falou aos poucos anos até 70 D.C., mas evidentemente os estende até o dia de julgamento de Deus através de Cristo.

Na segunda carta de Paulo a Timóteo, depois do aconselhá-lo acerca das difíceis circunstâncias e problemas que ele teria de enfrentar ao servir seus concristãos, Paulo disse então: 

Sabe, porém, isto, que nos últimos dias sobrevirão tempos penosos; pois os homens serão amantes de si mesmos, gananciosos, presunçosos, soberbos, blasfemos, desobedientes a seus pais, ingratos, ímpios, sem afeição natural, implacáveis, caluniadores, incontinentes, cruéis, inimigos do bem, traidores, atrevidos, orgulhosos, mais amigos dos deleites do que amigos de Deus, tendo aparência de piedade, mas negando-lhe o poder. Afasta-te também desses. – 2 Timóteo 3:1-5, ARC.

Estava Paulo falando condições que só prevaleceriam em algum futuro distante, talvez no século vinte, por exemplo? Seus próprios escritos indicam o contrário. Em sua carta aos romanos ele escreve sobre o modo como as pessoas estavam se conduzindo, e descreve tais pessoas em termos idênticos: 

... estando cheios de toda a injustiça, malícia, cobiça, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, dolo, malignidade; sendo murmuradores, detratores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes ao pais; néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, sem misericórdia; os quais, conhecendo bem o decreto de Deus, que declara dignos de morte os que tais coisas praticam, não somente as fazem, mas também aprovam os que as praticam. – Romanos 1:29-32, ARC

Que diferença existe nestas duas descrições? Elas são obviamente iguais em termos de alcance e intensidade. Sendo assim, podemos entender por que Paulo, ao escrever a Timóteo sobre as condições dos “últimos dias” (ou, como a Nova Bíblia Inglesa verte, “a era final deste mundo”), pôde dizer – no tempo presente do verbo – que Timóteo deveria ‘afastar-se’ de tais pessoas. Em harmonia com isto, nas palavras subsequentes Paulo fala sobre indivíduos dentre “esses” (NVI, “dentre estes mesmos”, TNM) que naquele momento estavam contaminando até mesmo a fraternidade cristã, e ele faz isso novamente no tempo presente do verbo. (2 Timóteo 3:6-9) Segundo as próprias expressões de Paulo e segundo o contexto de sua carta a Timóteo, os “últimos dias” referiam-se a um período contínuo que já estava em curso, o período no qual Timóteo vivia, e relacionavam-se com condições, atitudes e tipos de pessoas com as quais Timóteo já se confrontava, e teria de se confrontar durante o ministério dele. Os esforços que se fazem para contornar a evidência resultam novamente em dar um sentido às palavras de Paulo que não se encontra nelas, um sentido que é inserido na ânsia de apoiar uma ideia preconcebida e um significado que não está de acordo com o contexto. 

Tiago, em sua carta, dirige-se a pessoas ricas que tinham ‘entesourado para os últimos dias.’ (Tiago 5:1-3, ARC) Esta expressão admite variadas versões. Assim, algumas traduções falam de riqueza armazenada “nos últimos dias” (TNM), “nestes últimos dias” (NVI), “numa era que está próxima de seu fim” (Nova Bíblia Inglesa). A preposição grega usada (en) significa literalmente “em”. Independentemente de qual versão alguém prefira, esta declaração não provê certamente qualquer fundamentação de peso sobre a qual elaborar um conceito de “últimos dias” como significando um período identificável que antecede imediatamente, e sinaliza a vinda de Cristo. A força e o conteúdo do contexto desta expressão dá muito mais fundamentação às afirmações já consideradas de Pedro e Paulo. 

Tanto Pedro como João advertem contra ridicularizadores que ‘virão nos últimos dias’, questionando a certeza do dia de julgamento de Deus. (2 Pedro 3:4; Judas 17, 18) Mais uma vez, porém, ambos os escritores indicam que essa ridicularização ocorreria durante a vida daqueles a quem eles estavam escrevendo; eles já apresentam o escárnio deles como uma atitude a ser enfrentada e, conforme Judas coloca, os cristãos daquela época mesmo deveriam se prevenir contra tais pessoas egoístas e sem espiritualidade como “homens que causam divisões entre vocês”. (Judas 19, NVI)

Pedro mostra que é o próprio fato de o padrão geral da vida e das condições humanas continuarem essencialmente os mesmos que provê a base para tais pessoas expressarem essa descrença; ele não diz que elas veem condições extraordinárias, nunca antes vistas e então se recusam a reconhecê-las como um “sinal”. Em vez disso, ele compara sua atitude de falta de fé com a que resultou na destruição das pessoas no dilúvio. Conforme Jesus tinha declarado, as pessoas daquela época não estavam precavidas por alguma condição incomum; elas estavam vivendo no que era para elas uma época de normalidade, “comendo, bebendo, casando-se e sendo dadas em casamento”, com nada que servisse como uma premonição da destruição que rapidamente, sem aviso, veio sobre elas. (Mateus 24:38, 39). 

Essa descrença, e o ponto de vista zombador que ela gera, existiu em todos os séculos até os dias atuais. Isso não é característico apenas de nossa época.

De modo que há razão para crer que os apóstolos e discípulos de Cristo Jesus aplicaram a expressão “os últimos dias” àquele período da história humana desde o aparecimento, morte e ressurreição do Messias até o tempo do julgamento final. Assim, a carta aos hebreus começa com a declaração: 

Há muito tempo Deus falou muitas vezes e de várias maneiras aos nossos antepassados por meio dos profetas, mas nestes últimos dias [nesta era final, Nova Bíblia Inglesa] falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas e por meio de quem fez o universo. – Hebreus 1:1, 2, NVI

O longo panorama da história humana, desde seu começo até hoje, poderia assim ser comparado a um drama de três atos. Em tal drama, o primeiro e o segundo atos conduzem até o final, e quando a cortina se eleva para o terceiro ato, as pessoas sabem que o drama entrou em sua parte final, e caminhará para o fim quando a cortina descer. À base da evidência bíblica, o drama da história humana entrou em sua fase final, seu “terceiro ato”, com a vinda do Messias e sua morte e ressurreição. Esses eventos dramáticos constituíram o limite entre fases, marcando o início da era final deste mundo, seus últimos dias.

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(Este artigo foi extraído do livro O Sinal dos Últimos Dias - Quando?, de Carl Olof Jonsson e Rud Persson, capítulo 8).

NOTAS: 



[1] Esta é a explicação padrão que se dá nas publicações atuais da Torre de Vigia.