Onde a "Grande Multidão" Serve a Deus?

 

No verão setentrional de 1988 a organização Torre de Vigia lançou seu mais recente comentário completo sobre o último livro da Bíblia, intitulado Revelação – Seu Grandioso Clímax Está Próximo! É instrutivo considerar a informação contida neste livro no contexto dos eventos que ocorreram na sede mundial das Testemunhas de Jeová no início daquela década. Ao fazermos isso, torna-se evidente que um dos propósitos deste livro foi reforçar as bases para algumas das interpretações particulares defendidas pelas Testemunhas, referentes a esta parte da Bíblia, e revisar alguma informação encontrada em comentários anteriores sobre o Apocalipse de João que poderia ser um tanto embaraçosa para aqueles que defendem as explicações da organização.

Na primavera e no início do verão setentrional de 1980 vários membros de longa data do pessoal da sede mundial (incluindo membros do Departamento de Redação que haviam pesquisado e escrito a maior parte do livro Ajuda ao Entendimento da Bíblia[1]) foram despedidos, desassociados ou designados a outro trabalho, depois de longos interrogatórios. Um dos primeiros assuntos doutrinais sobre os quais parecia haver certa disputa, que veio a ser conhecida entre outros membros da família de Betel, dizia respeito à “grande multidão” de Revelação 7:9. Evidentemente alguns estavam questionando a base para o ensino da organização de que esta é uma classe terrestre em vez de celestial, como acredita a maioria dos comentaristas bíblicos e como a própria organização ensinava até o ano de 1935.

Na época, eu dividia minhas horas entre o trabalho no Departamento de Serviço e nos “Escritórios do Décimo Andar” (mais tarde conhecidos como “Escritórios Executivos”) onde atuava como secretário para homens que cuidavam da correspondência, incluindo membros do Corpo Governante tais como Milton Henschel e Ted Jaracz, que trabalhavam nos Escritórios Executivos.

A congregação à qual eu pertencia ficava num lugar chamado “Fort Greene” e ela se reunia no Salão do Reino que ficava num dos edifícios da gráfica da Torre de Vigia. Harold Jackson, um dos “homens de seção” no Departamento de Serviço (que cuidava da correspondência referente a assuntos congregacionais duma região específica dos Estados Unidos) estava designado para fazer um discurso em nosso Salão num dos últimos domingos de maio de 1980. Mas Jackson nos informou que teria de cancelar por ter sido designado para cuidar de alguns sérios casos judicativos que haviam surgido. Porém, como os assuntos foram resolvidos, ele pôde fazer o discurso e no decorrer deste ele parecia um tanto abalado. Um ponto que ele tentou abordar relacionava-se à palavra grega naós, usada em Revelação 7:15 (traduzida pela palavra “templo” na Tradução do Novo Mundo e pela expressão “habitação divina” na tradução literal sob o texto grego da Tradução Interlinear do Reino da Escrituras Gregas) para descrever onde a “grande multidão” serve a Deus. Para demonstrar que esta palavra não se referia ao templo celestial de Deus, Jackson leu um versículo do livro do Mateus no qual esta é usada com relação ao templo terrestre que estava em Jerusalém; declarando então que isto provava que o termo naós poderia ser usado para fazer referência a um templo terrestre. A seguir advertiu-nos contra escutar aqueles que pudessem aparecer argumentando, com base nesta palavra naós, que a “grande multidão” é uma classe celestial e não terrestre.

Numa manhã da semana seguinte, ao me apresentar para o trabalho no Departamento de Serviço, vi um grupo de homens ajuntados em torno de Harold Jackson crivando-o de perguntas sobre a natureza dos casos judicativos nos quais ele estava envolvido. Jackson foi cauteloso quanto a revelar detalhes, mas comentou: “É grave, é grave.[2] Estes acontecimentos foram o início do rude despertar que eu logo experimentaria, depois de quase dez anos de experiências no serviço de tempo integral, primeiro como pioneiro e depois como membro da família de Betel, experiências que, na maior parte, haviam sido felizes e agradáveis.

Depois que ocorreram algumas das surpreendentes expulsões e demissões, em princípio resolvi permanecer uns oito meses na Sede de Brooklyn, em caráter provisório. Isto se deveu, em parte, a que alguns membros do Corpo Governante nos tinham assegurado que em pouco tempo seriam dadas respostas para algumas das questões. Estas seriam apresentadas tanto nas publicações da Torre de Vigia como na forma de comentários televisionados especiais que membros do Departamento de Redação e outros dariam às mesas do café da manhã, procurando responder às questões que tinham surgido. Isto teria início em setembro de 1980.

Entretanto, no mês anterior a este, apareceu um artigo na edição de A Sentinela de 15 de agosto de 1980 [em inglês; 15 de fevereiro de 1981, em português], intitulado: “Onde a “Grande Multidão” Presta Serviço Sagrado?” É provável que a maioria da família de Betel soubesse que este artigo tinha sido escrito como resposta a algumas das questões que haviam surgido naquele ano, quando ocorreram as expulsões e as demissões. Do mesmo modo, a maioria se dava conta da seriedade deste artigo, pois naquele momento a vida de pessoas que por muito tempo haviam sido membros do pessoal dos Escritórios da Sede já tinha mudado irremediavelmente – tendo sido tachadas de “apóstatas” e retratadas como piores do que pessoas sem fé. Geralmente se supunha que o autor do artigo tinha sido Fred Franz, e isto foi sem dúvida uma suposição correta, já que durante esta crise organizacional, ele foi a única pessoa a quem se recorreu em busca de respostas para as sérias questões doutrinais que surgiram.

O artigo esforçou-se em sustentar o ensino da Sociedade de que a “grande multidão” é realmente uma classe terrestre, e procurou fazê-lo por mostrar que a palavra naós poderia ser realmente aplicada, não apenas ao santuário interno do templo (composto pelo Santo e pelo Santíssimo), como também aos pátios exteriores, incluindo o “pátio dos gentios”, no qual se tem ensinado às Testemunhas de Jeová que a “grande multidão” serve de maneira antitípica. Isto é importante devido a que no simbolismo bíblico, a parte mais interna do templo representa o céu; os que servem ali, portanto, deveriam estar igualmente no céu. (Veja, por exemplo, Hebreus 8:5; 9:11, 12, 23, 24; Revelação 11:19; 14:15, 17; 15:5, 6, 8; 16:1, 17) Na página 15 deste artigo, aparecia um quadro-resumo, conforme reproduzido abaixo, para mostrar que a Bíblia pode usar o termo naós nesse sentido amplo, abrangendo não apenas o santuário interior do templo, mas também o pátio mais externo.

Todavia, aqueles em Betel que fizeram um exame cuidadoso deste artigo (ainda que tenham sido poucos), descobriram algo sobre este que foi extremamente perturbador – principalmente por saberem que ele tinha sido escrito para refutar as conclusões a que tinham chegado pessoas que antes tinham sido membros amados e respeitados da família de Betel, em resultado de seu estudo pessoal das Escrituras. A consulta aos versículos citados nos pontos do esquema na Tradução Interlinear do Reino das Escrituras Gregas, da Torre de Vigia, revelou que a palavra naós nem sequer era usada em alguns deles. O que segue é uma consideração desta matéria, ponto por ponto:


Quadro-resumo no número de A Sentinela de 15 de agosto de 1980 [em inglês], que explica como a “grande multidão” pode estar no naós de Deus (conforme Revelação 7:15) e ainda assim estar na terra.
[Nota: esse quadro foi alterado na edição em português]

 

Tradução:

 

 

A palavra grega “naós” muitas vezes refere-se ao santuário interior, que representa o próprio céu.

 

·   MAS, foi o templo (“naós”) inteiro que levou 46 anos para construir.

·   Foi o templo (“naós”) inteiro que foi destruído como julgamento da parte de Deus.

·   Foi dos pátios do templo (“naós”) exterior que Jesus expulsou os cambistas.

·   Foi no templo (“naós”) exterior que Judas lançou de volta as 30 moedas de prata.

·   PORTANTO, é coerente que a “grande multidão” esteja servindo a Deus no pátio terreno do templo espiritual.

 

Nota: O penúltimo e o antepenúltimo ponto acima foram excluídos da edição em português da "Sentinela". A conclusão, porém, foi mantida ("Portanto, é coerente que...").

·       Foi dos pátios do templo (naós) exterior que Jesus expulsou os cambistas

 Mateus 21:12, Marcos 11:15, Lucas 19:45 e João 2:14, 15 são os versículos bíblicos que registram a ocasião em que Jesus expulsou os cambistas do templo. Quando estes versículos foram consultados na Tradução Interlinear do Reino das Escrituras Gregas, observou-se que a palavra usada neles não é naós, e sim hierón. (Na Tradução Interlinear da Torre de Vigia, naós é traduzido uniformemente por “habitação divina” na tradução palavra por palavra, que aparece sob o texto grego. A palavra que geralmente se usa nas Escrituras para fazer referência à área completa do templo é hierón. Conforme se declara na pág. 115 do Dicionário Expositivo de Palavras do Novo Testamento de Vine [Décima sétima edição em inglês, 1966]: “HIERÓN... significando todo o edifício juntamente com seus recintos, ou alguma parte do mesmo, sendo distinto de naós, o santuário interior...”)

Este mesmo ponto é encontrado também na página 40 de A Sentinela de 15 de janeiro de 1961, na consideração do capítulo dois de João e a questão de como podia o templo ter espaço para os cambistas e para todos os animais que eram vendidos nele. O ponto em questão diz:

 

Que espécie de edifício era êste que tinha lugar para todo êste comércio? O fato é que êste templo não era apenas um edifício, mas era uma série de construções, das quais o santuário do templo era o centro. No idioma original, isto era bastante claro, pois os escritores das Escrituras fizeram uma distinção entre as duas coisas pelo uso das palavras hierón e naós. Hierón referia-se a todo o terreno do templo, ao passo que naós se aplicava ao edifício do próprio templo, sucessor do tabernáculo no deserto. João nos fala assim que Jesus encontrou todo êste comércio no hierón.

 

(Na Tradução Interlinear do Reino das Escrituras Gregas o termo hierón foi traduzido pela palavra “templo” na tradução literal que aparece sob o texto grego).

 


 A Sentinela de 15 de agosto de 1960, em inglês, página 493 (correspondente à de 15 de janeiro de 1961, em português, página 40, mostrada acima), identificou corretamente a parte exterior da área do templo (que é o lugar no qual a Bíblia diz que os cambistas ficavam) com a palavra grega hierón. Todavia, 20 anos depois, A Sentinela de 15 de agosto de 1980, em inglês, página 15 (cujo quadro traduzido aparece na página 4 deste folheto), deu a entender enganosamente que os cambistas ficavam na área do templo identificada pela palavra naós. Isto foi feito num artigo destinado a sustentar o ensino da Torre de Vigia de que a “grande multidão” é uma classe terrestre, embora Revelação 7:15 a situe no “naós” de Deus. (Na Bíblia, o santuário do templo, o naós, representa o céu. O tema considerado, bem como o estilo de escrita, indicam que o autor de ambos os artigos foi Frederick W. Franz.).

Nota: O dois pontos comentados acima foram excluídos da edição em português da "Sentinela". A conclusão, porém, foi mantida ("Portanto, é coerente que..."). Obviamente, essa alteração foi feita pois estava muito evidente que o autor do artigo foi capcioso na escrita desses dessas duas afirmações, pois ele queria que o leitor entendesse as passagens citadas de uma maneira diferente do que realmente elas querem dizer. Visto que a edição em português tinha um atraso de cerca de seis meses em relação à "Sentinela" em inglês, houve tempo para a Torre de Vigia excluir esses dois pontos vexatórios. Entretanto, nas edições com publicação simultânea ou mais próxima da edição em inglês, como em espanhol e alemão, eles foram mantidos.

·       Foi o templo (“naós”) inteiro que foi destruído como julgamento da parte de Deus.

 

Mateus 24:1, 2; Marcos 13:1-3 e Lucas 21:5, 6, registram as palavras nas quais Jesus profetiza a destruição de Jerusalém e seu templo, e novamente a Interlinear do Reino mostra que a palavra usada nestes versículos não é naós, e sim hierón.

 

·       Foi no templo (“naós”) exterior que Judas lançou de volta as 30 moedas de prata.

 

Embora seja verdade que algumas obras de referência indicam Mateus 27:5 (que descreve como Judas lançou de volta as 30 peças de prata no templo ou naós) como uma possível exceção à regra de que naós sempre se refere à parte mais interior do templo, outras indicam que este não é forçosamente o caso. Por exemplo; o Léxico Greco-Inglês de Thayer (em inglês - 1889, Harper & Brothers), ao definir a palavra naós na página 422, diz o seguinte:

 

“[É] usada com relação ao templo de Jerusalém, mas só com relação ao próprio edifício sagrado (ou santuário), que se compunha do Santo e do Santíssimo ... : Mat. 23:16, 35; 27.40; Mar. 14:58; 15:29, João 2:19; Rev 11:2. Mateus 27.5 não precisa ser considerado como uma exceção, se admitirmos que Judas, em seu desespero, entrou no Santo, no qual só se permitia a entrada dos sacerdotes ...” (Ênfase acrescentada.)

 

Pelo que se diz aqui, podemos ver que o uso do termo naós em Mateus 27 não é necessariamente uma exceção à regra de que esta palavra sempre se refere à parte mais interior do templo, o santuário, uma vez que é bem possível que Judas, em seu desespero mental, tenha entrado efetivamente numa área normalmente restrita a todos, exceto aos sacerdotes.[3]

Nas páginas 1079 e 1080 de seu comentário sobre o livro de Mateus (em inglês - Casa Publicadora Augsburg, Mineápolis, Minessota, 1964), o Dr. R.C.H. Lenski também comenta a respeito de como pôde Judas lançar as moedas de prata no próprio edifício do santuário e não em uma das estruturas exteriores do complexo do templo:

 

“Judas ... lançou a prata ‘dentro do [naós] ou Santuário’. Alguns acham que este era o local (eles o chamam de sala) do templo em que ficavam os receptáculos para a coleta de dinheiro no pátio das mulheres. Mas nesse caso o termo apropriado seria [hierón]. O termo [naós] refere-se ao Santuário, que incluía o Santo e o Santíssimo[4]. Judas foi até a parte superior do pátio sacerdotal, tomou a bolsa com a prata, e a jogou dentro da entrada aberta do Santo.”

 

·       MAS, foi o templo (“naós”) inteiro que levou 46 anos para construir.

 

João 2:19 e 20 são os versículos aos quais, pelo visto, A Sentinela refere-se aqui. Nestes versículos, Jesus compara seu próprio corpo a um santuário e diz aos judeus: “Demoli este templo (naós), e em três dias o levantarei.” Em resposta a isto, eles disseram: “Este templo (naós) foi construído em quarenta e seis anos, e tu o levantarás em três dias?” É claro que os judeus, ou por engano ou devido à mentalidade capciosa, pensavam que Jesus estava falando do templo literal reconstruído por Herodes. Em sua obra Antiguidades Judaicas, Flávio Josefo informa que o santuário do templo de Herodes foi construído em um ano e meio e que os pátios estiveram em construção por um período adicional de oito anos (Antiguidades Judaicas, Livro XV, seções 5 e 6). Assim, as publicações da Sociedade Torre de Vigia Estudo Perspicaz das Escrituras (Volume 3, pág. 681) e Ajuda ao Entendimento da Bíblia (Volume 4, pág. 1606) fazem a seguinte observação:

 

Quando certos judeus se dirigiram a Jesus Cristo, em 30 EC, dizendo: “Este templo foi construído em quarenta e seis anos” (Jo 2:20), esses judeus falavam, aparentemente, sobre a obra que prosseguia no complexo de pátios e de prédios até então.

 

Embora talvez seja verdade que a obra que prosseguiu no templo depois do primeiro ano e meio até o momento em que Jesus proferiu as palavras registradas em João 2:19 envolvesse principalmente o complexo exterior de pátios e edifícios, isto não prova por si só que neste versículo naós tenha de referir-se a algo além do santuário. Certamente, pelo menos uma das razões que levaram os judeus a usarem neste caso o termo naós em lugar de hierón, é que eles estavam citando as palavras de Jesus, que tinha usado o termo figurativamente, para descrever seu corpo.

Evidentemente, a estrutura básica do santuário estava terminada e em condições de uso depois de apenas um ano e meio de construção, mas os escritos de Josefo indicam também que esta estrutura permaneceu inacabada até o próprio momento da destruição pelos exércitos romanos no ano 70 E.C. A obra Dicionário Bíblico do Intérprete (em inglês - Abingdon Press, copyright 1962), faz a seguinte observação nas páginas 551 e 552, com referência ao templo reconstruído por Herodes:

 

A obra de reconstrução teve início no décimo oitavo ano do reinado de Herodes (20/19 A.C.). Segundo Josefo, Herodes achava que o templo de Salomão tinha 120 côvados de altura (cf. 2 Crônicas 3:4); seu sucessor tinha só a metade da altura; Herodes queria compensar esta deficiência e restaurá-lo à glória anterior (Antiguidades, XV.xi.1) ...

Os antigos alicerces foram removidos e foram construídos novos. O novo edifício tinha 100 côvados de comprimento e o mesmo de altura; uma dificuldade estrutural impediu que se alcançasse a altura completa de 120 côvados ...

 

Em Antiguidades XX.ix.7 lemos que a construção dos recintos do templo [hierón] foi “terminada” na época de Agripa II... na procuradoria de Albino, por volta de 63 ... Posteriormente, Agripa juntou material para aumentar a altura do edifício do santuário em 20 côvados, fazendo-o atingir a altura que se supunha que o templo de Salomão tinha, mas a guerra sobreveio antes que esta obra pudesse ter início” (Guerra V.i.5).

 

A respeito disso, a obra de Josefo Antiguidades Judaicas (em inglês), diz o seguinte no livro XV, capítulo XI, seção 3 (conforme a tradução de William Whiston, A. M. em A Vida e as Obras de Flávio Josefo, [em inglês] publicado por Holt, Rinehart e Winston, Nova Iorque):

 

Assim, Herodes removeu os antigos alicerces, construiu outros, e erigiu o templo sobre eles, tendo este cem côvados de comprimento e vinte côvados a mais de altura. Estes [vinte côvados] caíram ao se afundarem seus alicerces; e esta foi a parte que decidimos erguer novamente nos dias de Nero.”

 

(Segundo a obra Estudo Perspicaz das Escrituras, Volume 1, página 482, Nero foi imperador do ano 54 E.C. ao ano 68 E.C.).

No Livro V, Capítulo I, seção 5 de Guerras Judaicas, Josefo amplia isto. Os materiais que se juntaram para reconstruir o Santuário até a altura desejada, em lugar de serem usados para esse propósito, foram usados por João de Giscala para apoiar o esforço da guerra. Josefo escreve (conforme a tradução de Whiston, mencionada anteriormente):

 

“Mais ainda, João fez uso impróprio dos materiais sagrados e os utilizou na construção de suas máquinas de guerra; pois o povo e os sacerdotes já tinham concordado em sustentar o templo, e fazê-lo chegar à altura de vinte côvados a mais; pois o rei Agripa tinha feito um gasto vultoso, e com enorme esforço tinha levado para lá todos os materiais necessários para esse fim, visto serem peças de madeira muito valiosas.”

 

Na tradução de Whiston deste trecho de Guerras Judaicas, há uma nota de rodapé que diz o seguinte:

 

“Esta madeira, a nosso ver, estava destinada à reconstrução [de]sses vinte côvados adicionais do templo, acrescentados aos outros cem que tinham caído alguns anos antes.”

 

Esta evidência mostra que na época em que os judeus disseram a Jesus as palavras registradas em João 2:20 é bem possível que se considerasse o santuário como estando ainda “em construção”. Uma vez que, pelo visto nunca se conseguiu atingir com êxito a altura desejada de 120 côvados, é muito provável que se considerasse o santuário como estando “em construção” (em sentido literal ou em antecipação a uma situação futura). Não se dão detalhes acerca de como a parte mais alta do templo sofreu o processo de “afundamento” descrito por Josefo, nem do período de tempo que levou para que isso ocorresse, mas é bem possível que tenha sido uma deterioração gradual que começou pouco depois de sua construção e continuou por um período de anos. Pode ser que os construtores do templo tenham feito repetidos esforços de manutenção e reparo das estruturas defeituosas, antes de tais esforços serem abandonados e decidirem empreender a obra de remover e planejar a substituição destas. Se este foi o caso, então se poderia compreender como é possível que os judeus estivessem fazendo referência especificamente ao santuário quando disseram que o naós tinha sido construído em 46 anos. (De fato, muitos tradutores usam a palavra “santuário” ao traduzirem este versículo. Veja-se, por exemplo, A Bíblia de Estudo de Genebra, Bíblia Alfalit, Versão Almeida Revista e Atualizada, bem como as seguintes versões em inglês: A Bíblia de Jerusalém, Uma Tradução Americana, de Goodspeed e Smith, Tradução Literal de Young e as traduções de Moffatt e Lenski.) O trabalho de manutenção (e possivelmente também de ornamentação ou embelezamento) pode muito bem ter sido feito também durante o período mencionado de 46 anos.

Esta explicação pode ser útil para compreender o versículo de João 2:20, caso esteja realmente correta esta interpretação que normalmente as traduções antigas e modernas lhe dão, de que a obra de construção ainda estava em andamento. (A Versão de Berkeley [em inglês] reflete claramente este entendimento ao traduzir o versículo assim: “Este templo está em obras durante quarenta e seis anos”). Todavia, alguns eruditos acham inaceitável esta tradução do texto grego original. B.F.Wescott (que colaborou na compilação do texto grego padrão no qual se baseia a Tradução do Novo Mundo) e Leon Morris acreditam, em vez disso, que com estas palavras os judeus estavam se referindo à finalização de uma determinada etapa da obra e que na época em que eles disseram isso, nenhuma obra estava em andamento. (Isto não quer dizer que a obra havia sido totalmente concluída naquele momento. Conforme já comentado na página 10 deste folheto, em Antiguidades Judaicas, Livro XX, capítulo IX, seção 7, Josefo informa que isto só ocorreu na época em que Albino foi procurador, em 62-64 E.C. Naturalmente, a desejada reconstrução da parte mais alta do edifício do santuário nunca foi concluída). Assim, eles acham que o texto grego poderia ser traduzido corretamente transmitindo-se o sentido de que “os judeus estavam perguntando a Jesus como poderia ele levantar em três dias um edifício que tinha permanecido de pé por quarenta e seis anos”. (Veja a pág.42 do livro Aspectos Cronológicos da Vida de Cristo [em inglês], de Harold W. Hoehner e publicado em 1977 pela Casa Publicadora Zondervan, de Grand Rapids, Michigan).

O Manual de Cronologia Bíblica (em inglês), de Jack Finegan, (Editora da Universidade de Princeton, 1964) explica mais a fundo este conceito na página 279:

 

“Talvez [oikodomethe], que está no aoristo indicativo passivo ... significando literalmente ‘foi construído’, não se refira a uma obra de construção que ainda estava em andamento, como o tinha estado por 46 anos, e sim a uma obra que já se completara havia tempo, de tal maneira que fosse possível afirmar-se que o edifício permanecera de pé por quarenta e seis anos. Segundo esta interpretação, o que os judeus estavam perguntando realmente a Jesus era: “Como é possível que você possa levantar em três dias um templo que tem permanecido por quarenta e seis anos?”

 

Se foi realmente isto que os judeus quiseram dizer a Jesus com suas palavras, é claro que quando fizeram referência ao naós, eles só poderiam estar pensando na parte mais interior da estrutura do templo, o santuário. Se os sacerdotes começaram a construir o naós ao mesmo tempo em que Herodes deu início à construção do hierón inteiro, certamente o santuário já tinha permanecido por esses quarenta e seis anos, e nesse caso, mais uma vez, os judeus havia se expressado com toda a exatidão ao perguntar a Jesus como iria ele construir em apenas três dias uma estrutura tinha permanecido por quarenta e seis anos. O já citado Manual de Cronologia Bíblica faz esta mesma observação na páginas 279 e 280:

 

“Com relação a este mesmo assunto, pode-se notar também que no Quarto Evangelho parece haver uma distinção clara entre [naós] e [hierón] ... Portanto, esta passagem [João 2:20] poderia estar se referindo especificamente ao edifício do templo propriamente dito.” (Itálico acrescentado)

 

A obra Aspectos Cronológicos da Vida de Cristo, página 41 é mais enfática neste ponto:

 

Há duas palavras gregas para templo que são diferenciadas por Josefo. O primeiro termo [hierón] refere-se a todo o local sagrado, o qual inclui três pátios ou recintos ... O segundo termo para templo é [naós] que é o edifício sagrado unicamente ...

Os Evangelhos fazem a mesma distinção... [E]m 2:19, 20, João usa [ho naós] no momento em que os judeus estavam falando sobre a destruição do edifício do templo. Desse modo, os judeus estavam falando sobre o edifício do templo e não sobre os recintos sagrados como um todo.

 

De qualquer maneira, pouco importa realmente se os relatos evangélicos usaram ou não em alguns momentos a palavra naós no sentido amplo que a organização Torre de Vigia gostaria que este termo tivesse (para dar base à sua interpretação de Revelação 7:15, no sentido de que uma “grande multidão” terrestre serve no pátio exterior do templo espiritual). O que realmente importa é como o apóstolo João usa este termo em Revelação, e que base bíblica há para apenas afirmar que existe algo como um ‘pátio dos gentios terrestre’.

Parece evidente que João, ao longo do livro de Revelação, usa o termo naós em referência à parte mais interior do templo, o santuário celestial em sua aplicação figurativa. Comentando sobre os versículos onde esta palavra grega aparece, a edição de 1986 [em inglês] do Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento (Volume 3, página 784), diz: “O Apocalipse fala freqüentemente sobre o templo celestial (Rev. 7:15; 11:19; 14:15 e seguintes; 15:5-8; 16:1,17), evidentemente com base no Salmo 11:4”. Um dos próprios comentários da Torre de Vigia sobre o Apocalipse, intitulado Cumprir-se-á Então o Mistério de Deus (publicado em português em 1971), declara o seguinte na página 260, em sua consideração sobre Revelação 11:2:

 

“O santuário do templo ou naós (em grego) ocupava apenas parte da área do templo”

 

Embora a área do templo mencionada neste versículo não esteja tão clara como no caso das outras muitas referências que se fazem ao templo em Revelação, a própria publicação da Torre de Vigia reconhece que João usa aqui este termo referindo-se apenas ao santuário, e não ao pátio exterior dos gentios, onde se afirma que a “grande multidão” serve. Talvez esta seja mais uma das razões pelas quais o Corpo Governante achou aconselhável publicar um comentário atualizado sobre o livro de Revelação. Ao considerar Revelação 11:2, este novo comentário sobre o livro do Apocalipse não especifica que o termo usado neste versículo é naós, como fazia a publicação anterior. Seria embaraçoso fazer isto porque é evidente que neste versículo João usa o termo para referir-se unicamente ao santuário e não à área completa do templo.

 

 

“Esta bela visão apresenta a ‘grande multidão’ internacional como servindo a Jeová no seu templo, quer dizer, nos pátios terrestres reservados aos que não são israelitas espirituais, como se estivessem no ‘pátio dos gentios’.”

 

- A Sentinela de 1º de julho de 1973, pág. 402

 

 

 

“Conforme predito, os da grande multidão ‘adoram [a Deus] dia e noite, no seu templo’... Visto que não são israelitas espirituais, sacerdotais, é provável que João os tenha visto em pé, no templo, no pátio externo dos gentios.”

 

- A Sentinela de 1º de julho de 1996, pág. 20

 

 


 
O conceito que a Torre de Vigia tem sobre o “Arranjo do Templo de Jeová”. Observe a representação do pátio dos gentios como um lugar onde felizes adoradores de Deus prestam serviço sagrado dia e noite. Isto contrasta fortemente com o uso que a Bíblia faz (em Revelação 11:2) deste pátio como símbolo dum período de opressão por parte daqueles que não são verdadeiros adoradores. (A Sentinela de 1º de fevereiro de 1998 indica que a Torre de Vigia agora associa este pátio com o pátio externo do templo de Salomão, em vez do templo de Herodes. – Veja a página 21 da revista.)

O que torna este texto ainda mais desconcertante para a Torre de Vigia, é o fato de ele também usar o pátio dos gentios em sentido figurativo ou simbólico, sendo o único versículo do livro de Revelação que o faz de uma maneira relativamente clara e direta. Não se nota isso tão facilmente na Tradução do Novo Mundo, porque esta usa a palavra “nações” em lugar de “gentios”. Mas pode ser percebido facilmente em outras traduções, tais como A Bíblia na Linguagem de Hoje, a Versão Almeida e a Nova Versão Internacional. Esta última traduz o versículo da seguinte maneira:

 

Exclua, porém, o pátio exterior; não o meça, pois ele foi dado aos gentios. Eles pisarão a cidade santa durante quarenta e dois meses.

 

Geralmente os eruditos bíblicos reconhecem que este pátio que está “fora do [santuário do] templo (naós)”, conforme esta expressão é vertida na Tradução do Novo Mundo, deve referir-se a um pátio terrestre, pois não parece provável que este pisoteamento da Cidade Santa, feito pelas nações ou gentios, possa ocorrer no céu. Todavia, é muito evidente que, no conjunto, os que ocupavam este pátio eram opositores da adoração verdadeira, não apoiadores dela. Albert Barnes, um erudito bíblico do século 19 que foi às vezes citado de modo autoritativo nas publicações da Torre de Vigia (veja, por exemplo, A Sentinela de 15 de dezembro de 2002, página 5), faz os seguintes comentários sobre Revelação 11:2 na página 1643 de sua obra Notas Sobre o Novo Testamento de Barnes (Publicações Kregel, Grande Rapids, Michigan 49501, décima edição em inglês, 1978):

 

“Há aqui, sem dúvida, uma referência ao ‘pátio dos gentios’, como os judeus o chamavam – o pátio exterior do templo ao qual os gentios tinham acesso, e dentro do qual não se permitia que entrassem. ... Numa avaliação daqueles que, segundo a noção judaica, eram adoradores verdadeiros de Deus, apenas esses eram considerados dignos do privilégio de acessar o pátio interno e o altar. Dentro dessa avaliação, pois, aqueles que não pudessem ir além desse pátio, seriam omitidos, ou seja, não eram necessariamente reconhecidos como parte dos que eram considerados como povo de Deus. ... Eles o ocupavam, não como povo de Deus, e sim como os que estavam à parte da igreja verdadeira ...”

 

Abordando este mesmo versículo na obra Comentários de Tyndale Sobre o Novo Testamento (Companhia Publicadora William B. Eerdmans, Grand Rapids, Michigan; sétima edição em inglês, abril de 1979), Leon Morris faz esta observação na página 146 de seu comentário sobre o livro de Revelação:

 

“O ponto de partida da visão de João é o templo de Jerusalém, cujo pátio exterior podia ser usado pelos gentios; mas os pátios interiores, incluindo o santuário, só podiam ser usados pelos israelitas. A igreja, o verdadeiro Israel, é o santuário na visão ... Embora não se permita que os gentios destruam a igreja, permite-se que eles a oprimam por um período limitado.”

 

O comentário de R.C.H. Lenski sobre o livro de Revelação (A Interpretação da Revelação de São João [em inglês], Casa Publicadora Augsburg, Mineápolis, Minessota, copyright atribuído em 1961) explica Revelação 11:2 em termos similares na página 330:

 

“O pátio exterior, que no templo judaico era dos gentios, simboliza tudo o que não é santo, o que pertence ao mundo! Ele está... ‘fora’, João tem de ‘lançá-lo fora’, rejeitá-lo como profano, e não deve medi-lo nem traçar qualquer linha divisória que marque alguma parte dele como pertencente à Una Sancta [a igreja]. ‘Foi dado aos pagãos’, ... aos quais pertence, e que também entram livremente neste pátio exterior. ... Aqui devemos traduzir ‘aos pagãos’, todos os que estão fora da igreja e que não podem ser aceitos como adoradores no altar de Deus e de Cristo.”

 

O mesmo entendimento básico deste versículo encontra-se na obra de J.F. Rutherford intitulada Luz, publicada [em inglês] pela Torre de Vigia em 1930. O Livro 1 desta obra de dois volumes, diz no primeiro parágrafo da página 189:

 

A instrução é para que não se meça o pátio exterior, e sim que “lance[-o] fora” (Roth.), pois ele simboliza aqueles que apenas professam ser filhos de Deus, mas não são... Os que apenas têm a pretensão de ser seguidores de Cristo são representados como estando no pátio e são deixados de fora.

 

Independentemente de estar ou não correta a explicação que estes comentaristas dão a este versículo, vários pontos parecem evidentes:

 

1) João usa o termo naós para referir-se somente à parte interna do templo, porque se diz que o pátio está “fora do [santuário do] templo (naós)”:

 

 
A Tradução Interlinear do Reino das Escrituras Gregas (edição de 1985, em inglês) faz uma distinção clara entre o pátio exterior do templo e o naós (“templo [santuário]” ou “habitação divina”).

[Tradução do versículo 2: Mas, quanto ao pátio que está de fora do [santuário do] templo, lança-o completamente fora e não o meças, porque foi dado às nações, e elas pisarão a cidade santa por quarenta e dois meses.]

 

Embora Revelação 11:1 e 2 sejam os versículos seguintes em Revelação nos quais aparece o termo naós depois de ser usado com relação à “grande multidão” em Revelação 7:15, a Torre de Vigia ignora - e inclusive omite completamente em seu último comentário sobre Revelação - a evidência clara de que João usa o termo naós em referência ao santuário apenas.

 

2) O pátio terrestre exterior deste templo é usado como representação de um período de opressão à adoração verdadeira, porque aqueles que o ocupam “pisam a cidade santa”. Ele não é representado como um lugar no qual uma “grande multidão” de verdadeiros adoradores de Deus presta-lhe serviço sagrado dia e noite com alegria, e sim, em vez disso, como um lugar que não dá condições para que se expresse essa completa devoção.

 

3) É evidente que os ocupantes deste pátio não fazem parte dos verdadeiros adoradores de Deus porque João é instruído a ‘lançá-lo fora’ ou rejeitar este pátio, e não medi-lo com o fim de averiguar quantos adoradores há nele, como no caso do versículo um, no qual lhe foi dada a instrução para que medisse o santuário. As pessoas das nações ou “gentios” representados neste versículo não são cristãos “não-ungidos”, e sim não-cristãos, que são separados e distintos do povo de Deus que tem acesso ao santuário.

 

Assim, no simbolismo bíblico, o pátio dos gentios é usado para representar um período de opressão à adoração verdadeira por parte daqueles que não fazem parte do povo de Deus. No simbolismo particular da Torre de Vigia, ele é usado como representação de um lugar no qual os adoradores felizes de Deus prestam-lhe serviço sagrado dia e noite, e no qual “não terão mais fome, nem terão mais sede ... e Deus enxugará toda lágrima dos olhos deles.” (Revelação 7:16, 17) Este é um caso evidente de se acrescentar à Bíblia uma interpretação que é produto da imaginação, ignorando ou descartando o que ela realmente ensina. Eu estava bem ciente da advertência bíblica que se dá em Revelação 22:18, 19 contra este tipo de coisa, e isto, juntamente com outros fatores similares, ajudou-me a tomar a difícil decisão de deixar Betel em fevereiro de 1981. Parecia-me não haver qualquer alternativa, pois eu sabia que não poderia participar conscientemente em promover essas representações obviamente falsas do que as Escrituras realmente ensinam.

Quem são, então, os que compõem a “grande multidão” de Revelação 7:9? Na publicação da Torre de Vigia intitulada O Mistério Consumado, este grupo é identificado como sendo o mesmo que a Tradução do Novo Mundo descreve depois como “uma grande multidão no céu”, em Revelação 19:1. (Veja a página 289 das edições de 1917, 1918 e 1924 em inglês; bem como as páginas 136 e 138) Parece haver grande quantidade de evidência que apóia esta conclusão. Certas obras de referências relacionam muitos dos versículos referentes aos que habitam no céu com versículos que se referem à “grande multidão”. Alguns destes textos estão incluídos na tabela da página seguinte:

 

ONDE ESTÁ A “GRANDE MULTIDÃO”?

 

 

Versículos sobre a grande multidão

Versículos para

comparação

 

 

 

De todas as tribos e povos e línguas

Rev. 7:9

Rev.5:9, 10

 

 

 

“diante[5] do trono”

Rev. 7:9

Rev.1:4; 4:5, 6, 10; 7:11; 8:3; 9:13; 11:16; 14:3

 

 

 

“diante do cordeiro”

Rev. 7:9

Rev 3:4,18; 4:4; 6:11

 

 

 

a grande multidão atribui salvação a Deus

Rev. 7:10

Rev. 19:1

 

 

 

roupas lavadas e embranquecidas no sangue do Cordeiro

Rev. 7:14

1 Ped. 1:2, 18, 19; 1 Cor.6:11; Rev. 22:14; 1 João 1:7; Efe 2:13

 

 

Estes são apenas alguns das literalmente dezenas de versículos nos quais as características associadas à “grande multidão” correspondem às daqueles que desfrutam da residência celestial com Jesus Cristo. Por isso alguns sugeriram que os 144.000 e a grande multidão são na realidade o mesmo grupo. (Veja a nota de rodapé 6, na página 22 deste folheto.)

 

   

Usando a terminologia comum naquela época, a publicação da Torre de Vigia intitulada O Mistério Consumado, página 289 (das edições de 1917, 1918 e 1924 em inglês), identifica a “grande multidão” mencionada em Revelação 7:9 como a mesma “grande multidão” celestial que se menciona em Revelação 19:1. (Veja também as páginas 136 e 138; as fotocópias destas páginas estão reproduzidas nas páginas 36 a 39 deste folheto)

Que é improvável que o número 144.000 se refira a uma quantidade literal de “israelitas espirituais” ou membros da congregação cristã, pode-se ver à base do exame de Revelação 7:4-8, o contexto no qual este número aparece pela primeira vez. Primeiro o número 144.000 é apresentado como o produto de doze vezes doze mil. Menciona-se que cada um destes grupos de doze mil provém de uma das tribos de Israel. Nas páginas 117 e 118 do livro Revelação – Seu Grandioso Clímax Está Próximo!, a Sociedade se esforça para estabelecer que isto não se refere ao Israel literal, enfatizando que esta não é a listagem comum das tribos e que Tiago se refere aos cristãos ungidos usando a expressão “as doze tribos que estão espalhadas” (Tiago 1:1):

 

Não pode isso referir-se ao Israel literal, carnal? Não, porque Revelação 7:4-8 diverge da costumeira listagem tribal. ...

 

A congregação cristã é “raça escolhida, sacerdócio real, nação santa”. (1 Pedro 2:9) Substituindo o Israel natural qual nação de Deus, torna-se um novo Israel que é “realmente ‘Israel’”. (Romanos 9:6-8; Mateus 21:43) Por este motivo, era bem apropriado que o meio-irmão de Jesus, Tiago, dirigisse a sua carta pastoral “às doze tribos que estão espalhadas”, quer dizer, à congregação mundial de cristãos ungidos, que com o tempo ascenderia a 144.000. — Tiago 1:1.

 

Todavia, a partir do momento em que a Torre de Vigia declara que os comentários de Revelação 7:4-8 sobre os 144.000 não se referem “ao Israel literal, carnal”, está reconhecendo que isto deve ser tomado em sentido figurativo ou simbólico. Os que acreditam que isto aplica a um grupo multirracial de cristãos e não ao Israel natural, são obrigados a entender desse modo porque simplesmente não existe uma tribo cristã de Judá, Rubem, Gade, Aser, etc. Porém, se estas 12 tribos de 12.000 são elementos figurativos ou simbólicos, pareceria só lógico que a soma deles - 144.000 - seja também figurativa ou simbólica.[6]

Independentemente das conclusões a que cheguemos em resultado de nosso estudo pessoal das Escrituras quanto à identidade da “grande multidão” e dos 144.000, devemos ser cuidadosos em sempre deixar que a Bíblia fale por si mesma. Não devemos permitir, como tem feito a Torre de Vigia, que idéias preconcebidas nos levem a interpretações forçadas que na realidade representem erroneamente os ensinos bíblicos. A parte concludente deste fascinante livro assegura grandes bênçãos para os fiéis que manejarem corretamente a Palavra de Deus. Porém, as mais sérias conseqüências estão reservadas para aqueles que acrescentarem ou tirarem algo dela. - Revelação 22:18, 19.

 

Resumo

 

A organização Torre de Vigia afirma que a “grande multidão” mencionada em Revelação 7:9-17 é uma classe terrestre, muito embora o versículo 15 deste capítulo diga que os membros desta grande multidão estão no naós de Deus. Embora a organização (assim como outros comentaristas) reconheça que naós se refere ao santuário do templo, que na Bíblia representa o céu, as Testemunhas de Jeová tentam justificar esta interpretação dizendo que este termo pode referir-se também à parte mais exterior do templo - especificamente, o pátio dos gentios (ou, mais recentemente, o pátio exterior do templo de Salomão). Todavia, o único versículo de Revelação que reconhecidamente usa o pátio dos gentios em sentido simbólico é Revelação 11:2, e, à base deste versículo, é óbvio que os ocupantes desta parte do templo figurativo, em vez de serem apoiadores da adoração verdadeira, são opositores desta. Ademais, este versículo diz claramente que o pátio está “fora do [santuário do] templo” (ou naós), de modo que é impossível concluir que João possa estar usando aqui o termo naós para se referir a algo além do santuário, a parte mais interior do templo.

Portanto, é contrário às Escrituras ensinar que a “grande multidão” possa estar servindo no “pátio terrestre do templo espiritual” de Deus.

 

Considerações Finais

 

Nos anos que se passaram desde os acontecimentos na sede da Torre de Vigia em 1980, as publicações da organização têm sido compreensivelmente relutantes em associar a localização da “grande multidão” com o pátio dos gentios. Embora ainda situem este grupo no “pátio terrestre do ... grande templo espiritual [de Deus]” (Revelação - Seu Grandioso Clímax Está Próximo!, pág. 126), parece que esforços têm sido feitos para não associá-lo a um lugar específico do templo típico que certa vez existia em Jerusalém. (Assim, a publicação de 1983 Unidos na Adoração do Único Deus Verdadeiro, página 107, situa esta multidão reunida “no templo de Deus, a casa universal de adoração dele”, mas não especifica em que parte do templo ela se encontra.).

Todavia, num artigo intitulado “Aproxima-se o Triunfo da Adoração Verdadeira”, no número de 1º de julho de 1996 de A Sentinela, reafirmou-se o ensino de que a grande multidão serve no pátio terrestre, antitípico. A página 20 diz: “Visto que não são israelitas espirituais, sacerdotais, é provável que


João os tenha visto em pé, no templo, no pátio externo dos gentios.”[7] A página 23 faz referência aos “pátios terrestres do templo de Jeová”. Daí, numa surpreendente mudança doutrinal, apenas dezenove meses depois de A Sentinela reafirmar esta doutrina, a edição de 1º de fevereiro de 1998 mudou o ensino. A página 21 desta revista, diz:

 

Os da grande multidão prestam adoração junto com os cristãos ungidos no pátio terrestre do grande templo espiritual de Jeová. (Revelação 7:14, 15; 11:2) Não há motivo para se concluir que estejam em um Pátio dos Gentios separado. Quando Jesus esteve na Terra, havia um Pátio dos Gentios no templo. Mas, nos planos divinamente inspirados dos templos de Salomão e de Ezequiel, não havia nenhuma provisão para um Pátio dos Gentios. No templo de Salomão, havia um pátio externo em que os israelitas e os prosélitos, homens e mulheres, adoravam juntos. Este é o modelo profético do pátio terrestre do templo espiritual, onde João viu a grande multidão prestar serviço sagrado. [Ênfase acrescentada]

 

Além de declarar que a “grande multidão” não está em “um Pátio dos Gentios separado”, o que é particularmente notável com relação a esta mudança no ensino, é o fato de a Torre de Vigia ter feito uma conexão nítida entre Revelação 7:15 e 11:2. O “pátio que está de fora do [santuário do] templo (naós)” descrito em Revelação 11:2 é agora identificado positivamente como o “pátio terrestre do grande templo espiritual de Jeová” ocupado tanto pela “grande multidão” como pelos cristãos ungidos. Enquanto Fred Franz estava vivo (e mesmo nos anos que transcorreram desde a morte dele, em 22 de dezembro de 1992 até o momento desta mudança), a Torre de Vigia parecia evitar cuidadosamente esta conexão. Isto evidentemente era por causa da distinção clara entre o santuário (naós ou “habitação divina”) e o pátio exterior mencionado neste texto. Talvez isto possa ser visto com mais clareza pela maneira como está escrita a primeira parte deste versículo na tradução palavra por palavra sob o texto grego original, da Tradução Interlinear do Reino das Escrituras Gregas da Torre de Vigia [tradução em português incluída abaixo]:

 

Agora, porém, a organização situou a “grande multidão” diretamente dentro do pátio descrito em Revelação 11:2 e o definiu claramente como parte do mesmo “templo espiritual” no qual se ensina às Testemunhas de Jeová que Revelação 7:15 apresenta como sendo o templo [naós] de Deus, onde se encontra a “grande multidão”.

Todavia, essa tentativa de mudar o tipo profético amplamente aceito do Pátio dos Gentios para o pátio externo do templo de Salomão não resolve o problema de interpretação da Torre de Vigia. Independentemente de qual seja o templo que se escolha para associar com Revelação 11:2, seja o de Salomão, de Ezequiel ou de Herodes, permanece o fato simples de que este pátio terrestre está “fora do [santuário] do templo (naós)” enquanto que a “grande multidão” de Revelação 7:15 é descrita como estando dentro do santuário do templo ou naós.

É evidente que ao longo do livro de Revelação o termo naós é repetidamente usado como referência exclusiva à parte mais interior do templo, o santuário celestial em sua aplicação figurativa. Conforme já foi mencionado, a publicação da Torre de Vigia intitulada Cumprir-se-á Então o Mistério de Deus (publicado em português em 1971) diz na página 260, ao comentar Revelação 11:2:

 

O santuário do templo ou naós (em grego) ocupava apenas parte da área do templo.

 

A edição de 1986 [em inglês] do Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento (Vol. 3, página 784) faz referência a outros versículos no livro de Revelação onde aparece a palavra grega naós, e comenta:

 

O Apocalipse fala freqüentemente sobre o templo celestial (Rev. 7:15; 11:19; 14:15 em diante; 15:5-8; 16:1, 17), evidentemente com base no Salmo 11:4

 

E a Sentinela de 15 de fevereiro de 1981 observou corretamente na página 15:

 

A palavra grega “naós” muitas vezes refere-se ao santuário interior, que representa o próprio céu.

 

Dessa maneira, provar que a “grande multidão” não está no santuário celestial de Deus, exigiria demonstrar de algum modo que o termo “naós” pode incluir também o “pátio que está de fora do [santuário do] templo (naós)” descrito em Revelação 11:2. Porém, como a própria publicação da Torre de Vigia citada acima indicou, este versículo por si só torna claro que não é assim, pois ele faz uma distinção evidente entre o pátio e o santuário do templo. Obviamente, João usa o termo naós em sentido restrito, aplicando-o apenas à “habitação divina”. – Veja estes versículos na Tradução Interlinear do Reino das Escrituras Gregas.

Mais uma vez, este é um caso de a Torre de Vigia raciocinar com base em crenças e interpretações tradicionais, esforçando-se a fazer a Bíblia se alinhar com estas, em vez de começar pelas Escrituras e então mudar o seu ensino para adaptá-lo à Bíblia. (Compare com Mateus 15:1-9 e Marcos 7:6-9, onde Jesus condenou os escribas e fariseus por permitirem que a tradição prevalecesse sobre a Palavra de Deus.)

Assim, a única maneira de resolver este problema é reconhecer que, nos versículos em questão, o livro de Revelação aplica estritamente o termo naós ao santuário do templo, e a partir daí, aceitar as conclusões óbvias que se derivam disto.


 

Apêndice à Terceira Edição em Inglês (1998) 

Na página 882 do Dicionário Teológico do Novo Testamento (em inglês – Companhia Publicadora Wm. B. Eerdmans, Grand Rapids, Michigan, Vol. IV, editado por Gerhard Kittel; Geoffrey W. Bromiley, D. Litt., D.D., tradutor e editor), o Dr. O. Michel escreve: “No N[ovo] T[estamento], em adição a [hierón, hagion] ... encontramos também [naós] ... sem qualquer diferença real entre os termos, seja no significado, seja na abrangência.” Em apoio deste ponto de vista, ele declara adicionalmente na página 884: “Se [naós] for entendido no sentido mais restrito, como significando o templo, podemos nos perguntar como poderia Judas ter trazido o dinheiro para dentro dele, se só os sacerdotes podiam entrar lá. Podemos presumir assim que este termo é usado no sentido mais amplo, como no livro de João.”

Todavia, conforme já foi demonstrado nas páginas 7 a 9 deste folheto, há mais de uma maneira de explicar este texto, sem sermos forçados a concluir que Mateus estava usando naós em sentido amplo, referindo-se à área total do templo. O Comentário Bíblico do Expositor (em inglês - editado por Frank E. Gaebelein e J. D. Douglas; copyright 1984 pela Casa Publicadora Zondervan, Grand Rapids, Michigan), diz na página 566 do Volume 8, tratando especificamente dos comentários que se acham no Dicionário Teológico do Novo Testamento (sigla em inglês: TDNT):

 

 

O. Michel (TDNT, 4:882-5) e G. Schrenk (TDNT, 3:235) argumentam que não há diferença essencial entre ... (naós, “templo [santuário]”) e ... (hierón, “templo [e seus recintos]”). Se for assim, então o uso de naós neste versículo significa simplesmente que Judas lançou o dinheiro em algum lugar da área do templo. Mas uma questão razoavelmente forte pode ser criada em favor de manter uma distinção entre as palavras, conforme foram usadas por Mateus: a palavra naós é usada somente com relação à área do templo, o santuário, em Mateus 23:16-17, 21; 27:51 e, de modo figurado, em Mateus 26:61; 27:40; enquanto que hierón é usada com relação ao templo e seus recintos em Mateus 4:5; 21:12, 14-15, 23; 24:1; 26:55 (conforme Garland, pág. 199, n. 117). Pode ser que o uso de hierón seja um tanto forçado em Mateus 12:5; mas, uma vez que ele é o termo amplo e nem todas as funções sacerdotais ocorriam no próprio templo, o uso ainda admite a distinção tradicional entre os termos. Sobra apenas Mateus 27:5; porém, dentro do sentido restrito de naós, normalmente não teria sido permitida a entrada de Judas lá. Esse pode ser exatamente o ponto: sentindo-se já amaldiçoado, ele nada mais tinha a perder; e em desespero ele entrou no próprio templo e lançou o dinheiro antes de ser impedido. Assim ele incriminou profundamente os sacerdotes, um exemplo adicional do que se declara em Mateus 23:35.

 


 

Como a Bíblia Usa o Termo “Diante” (enópion) no Livro de Revelação

 

O livro Revelação – Seu Grandioso Clímax Está Próximo!, página 123, afirma que “a palavra grega traduzida aqui [em Revelação 7:9] por “diante” (e·nó·pi·on) significa literalmente “à vista [do]” e é usada diversas vezes com respeito a humanos na terra, que estão “diante” ou “à vista” de Jeová. (1 Timóteo 5:21; 2 Timóteo 2:14; Romanos 14:22; Gálatas 1:20)” Todavia, quando se considera o uso desta palavra no contexto do livro de Revelação, o sentido dela torna-se mais claro:

 

Revelação 1:4

....

sete espíritos que estão diante (enópion) do ... trono [de Deus]”

 

 

 

Revelação 4:5

....

“sete lâmpadas de fogo acesas diante (enópion) do trono [de Deus]”

 

 

 

Revelação 4:6

....

“E diante (enópion) do trono há como que um mar vítreo, semelhante a cristal.”

 

 

 

Revelação 4:10

....

“os vinte e quatro anciãos prostram-se diante (enópion) Daquele que está sentado no trono ... e lançam as suas coroas diante (enópion) do trono, ...”

 

 

 

Revelação 7:9

....

“uma grande multidão, ... em pé diante (enópion) do trono e diante (enópion) do Cordeiro, ...”

 

 

 

Revelação 7:11

....

“E todos os anjos estavam em pé ao redor do trono e dos anciãos, e das quatro criaturas viventes, e prostraram-se sobre os seus rostos diante (enópion) do trono e adoraram a Deus, ...”

 

 

 

Revelação 7:15

....

“É por isso que [a grande multidão] estão diante (enópion) do trono de Deus; e prestam-lhe serviço sagrado,..”

 

 

 

Revelação 8:3

....

“E chegou outro anjo e parou junto ao altar, tendo ... incenso para oferecer, junto com as orações de todos os santos, no altar de ouro que estava diante (enópion) do trono.”

 

 

 

Revelação 9:13

....

“E ouvi uma voz, do meio dos chifres do altar de ouro diante (enópion) de Deus.”

 

 

 

Revelação 11:16

....

“E os vinte e quatro anciãos, sentados nos seus tronos diante (enópion) de Deus ...”

 

 

 

Revelação 14:3

....

“E [os 144.000] estão cantando como que um novo cântico diante (enópion) do trono e diante (enópion) das quatro criaturas viventes e dos anciãos ...”

 

É evidente que quando se considera a totalidade do livro de Revelação, parece haver pouca razão para duvidar que a “grande multidão” está “diante do trono” da mesma maneira que as sete lâmpadas de fogo, o mar vítreo semelhante a cristal, as coroas dos 24 anciãos, os anjos, os próprios anciãos, as quatro criaturas viventes, o altar de ouro e os 144.000.

 

 



[1] Agora revisado numa obra de dois volumes, publicada em 1988 [em português, três volumes, publicados entre 1990 e 1992] e intitulada Estudo Perspicaz das Escrituras.

[2] É evidente que Jackson tinha sido designado para estar presente nas audiências judicativas de membros de língua espanhola. Embora ele tenha sido cauteloso conosco, parece que foi menos discreto ao interagir com os membros do Corpo Governante, sob cuja direção atuava, e ele depois achou aconselhável desculpar-se com eles por meio duma carta. Na correspondência que passou casualmente por minhas mãos nos Escritórios Executivos, ele dizia que se sentia consternado por alguns dos comentários que tinha feito a membros do Corpo Governante, e que, embora a princípio ele não tivesse apreciado a maneira como eles estavam conduzindo os assuntos, agora, no momento da escrita dessa carta, essa apreciação tinha “florescido”, como deveria ter sido o caso desde o princípio. Porém, num retrospecto, a julgar pelos comentários que ele fez a seu estenógrafo na época (Lee Waters), os quais ouvi por acaso, parece que a preocupação primária dele era proteger-se. Jackson havia dito a Waters que achava que os sérios problemas judicativos que haviam surgido podiam atribuir-se, pelo menos em parte, a que o Corpo Governante tinha falhado quanto a ‘devotar-se ao ministério da palavra’, assim como a Bíblia, em Atos 6:4, diz que os apóstolos fizeram. (A maioria dos membros do Corpo Governante não está diretamente envolvida na pesquisa e redação de matérias bíblicas).

[3] Embora Judas, ao lançar suas moedas, possa ter entrado no pátio dos sacerdotes (ao qual apenas estes tinham acesso), não parece provável que ele tenha entrado realmente no próprio santuário ou naós. A palavra grega eis (“dentro de”) pareceria excluir essa possibilidade. Conforme se mostra na página que vem logo depois da capa da Tradução Interlinear do Reino das Escrituras Gregas (edição de 1985 em inglês; veja a reprodução dela dentro da contracapa deste folheto), se Judas “lançou as moedas de prata dentro do (eis) templo”, esta palavra grega pressupõe que ele mesmo estava fora do edifício. Portanto, Judas pode ter ido à parte do pátio que estava exatamente em frente à porta que conduzia ao Santo, e a partir dessa posição, lançou as moedas para dentro da porta aberta do santuário. (Veja os comentários de R.C.H. Lenski na página seguinte).

A palavra eis pode também ser traduzida como “para; em direção a”, conforme se mostra na Bíblia Âncora, traduzida por W.F. Albright e C. S. Mann (em inglês - copyright 1971 por Doubleday & Co.). Nesta tradução, Mateus 27:5 diz: “... Lançando as moedas de prata para o Santíssimo, retirou-se e saiu para fora e enforcou-se.’’ (Itálico acrescentado.) Se Mateus quis simplesmente dizer que Judas lançou o dinheiro “para o / em direção ao” santuário, então, é óbvio que não havia necessidade de ele entrar em alguma área proibida do templo. Apenas lançar as moedas na direção do santuário a partir de um dos recintos do templo, já seria suficiente para tornar correta a descrição que Mateus fez do incidente. (Podem-se encontrar exemplos na Tradução do Novo Mundo em que eis foi traduzido como “para” em Atos 24:15 e 2 Coríntios 9:8).

[4] Segundo a página 1081 da extensa obra Der Tempel Von Jerusalem, de Th. A. Busink (Leiden, E.J. Brill, 1980), Josefo usa a palavra neós (=naós) com relação a “todo o santuário interior”, incluindo o pátio dos sacerdotes com seus muros, mas excluindo os pátios exteriores, tais como o pátio dos gentios. Como exemplo deste uso, o autor cita do Livro V, Capítulo 5, seção 3, frase número 201 da obra Guerras Judaicas, de Josefo. Se Mateus 27:5 usa naós com este mesmo sentido, então Judas pode ter lançado as moedas de prata “dentro” do naós sem que fosse necessário entrar em alguma área restrita do templo. Apenas lançar as moedas “dentro” do pátio dos sacerdotes a partir de um ponto em que normalmente ele teria acesso permitido, já seria suficiente para tornar correto o relato de Mateus.

[5] O livro Revelação – Seu Grandioso Clímax Está Próximo!, declara na página 123 que “a palavra grega traduzida aqui por ‘diante’ (enópion) significa literalmente ‘à vista [do]’ e é usada diversas vezes com respeito a humanos na terra, que estão ‘diante’ ou ‘à vista’ de Jeová. (1 Timóteo 5:21; 2 Timóteo 2:14; Romanos 14:22; Gálatas 1:20)”. Daí se deduz que Mateus 25:32, que fala em todas as nações serem ajuntadas “diante” do Filho do Homem, apóia isto de alguma maneira. Todavia, a palavra grega traduzida neste texto por “diante” é emprosthen, não enópion. (Isto é reconhecido indiretamente, numa nota ao pé da página 123, que diz que a palavra grega usada aqui significa literalmente “perante ele” e não “à vista [do]” ). Em vez de recorrer a outras partes em busca de exemplos que ilustrem como se usa a palavra enópion (“diante”), seria muito mais lógico e demonstraria erudição honesta observar como esta palavra é usada no contexto – no próprio livro de Revelação. Conforme se mostra na tabela acima, enópion (“à vista [do]”) é uniforme e repetidamente usada com respeito a coisas e pessoas que estão no céu (e por vezes “diante do trono”). – Revelação 1:4; 4:5, 6, 10; 7:11; 8:3; 9:13; 11:16; 14:3; veja também o quadro na página 28 deste folheto.

[6] Seria mais fácil argumentar em favor de uma aplicação literal do número 144.000 caso as doze tribos de 12.000 membros fossem entendidas em sentido literal, como uma referência ao Israel carnal. Se fossem entendidas desta maneira, a explicação teria pelo menos coerência neste trecho inteiro da Bíblia.

Com respeito à natureza simbólica do número “144.000”, o Comentário Bíblico dos Intérpretes em Volume Único [em inglês] menciona na página 955: “A segunda visão neste interlúdio [a “grande multidão”] não pretende estabelecer um contraste com a primeira. Os 144.000 simbolizam a igreja como o verdadeiro Israel, enquanto ainda militante na terra. A grande multidão que nenhum homem podia contar de todos os grupos nacionais, raciais e lingüísticos é a igreja triunfante no céu....” Vale mencionar (conforme este comentário observa) que os 144.000 são apresentados primeiro como um grupo terrestre em Revelação capítulo 7. Os “quatro anjos em pé nos quatro cantos da terra” são instruídos a não ‘fazer dano nem à terra, nem ao mar, nem às árvores’ até que os 144.000 estejam ‘selados ... nas suas testas’ enquanto ainda na terra. É só em Revelação 14 que os 144.000 são representados como estando no céu, talvez (conforme indicado por alguns comentaristas) para enfatizar aqui o cumprimento da profecia. No capítulo 7 de Revelação os 144.000 eram selados na terra enquanto confrontados por seus inimigos. Daí, no capítulo 14, todos os 144.000 (representando a igreja completa) estão salvos e no céu, nenhum deles tendo sido esquecido.

[7] Os outros pátios do templo literal só eram acessíveis aos judeus e, portanto, não representariam apropriadamente os que não são considerados “judeus espirituais”. Segundo os ensinos da Torre de Vigia, os membros da “grande multidão” não estão realmente incluídos entre os 144.000 “judeus espirituais”; eles apenas “agarram ... a veste dum homem judeu”, segundo sua aplicação figurativa de Zacarias 8:23. (Veja A Sentinela de 15 de abril de 1986, página 20, parágrafo 21; bem como A Sentinela de 1º de janeiro de 1988, páginas 17 e 18, parágrafo 18). Por isso, o livro O Paraíso Restaurado Para a Humanidade - Pela Teocracia! (publicado em português em 1974) diz na página 80: ‘[E]sta “grande multidão” de “outras ovelhas” já estão no templo espiritual de Jeová Deus ... Não sendo israelitas espirituais, selados, estão como que no Pátio dos Gentios, assim como havia no templo em Jerusalém, nos dias de Jesus Cristo e de seus apóstolos.’ (Veja também Efésios 2:14, que indubitavelmente faz referência ao muro no pátio exterior do templo de Jerusalém, além do qual era proibida a passagem de não-judeus).

 

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