Pode a Lealdade a Uma Organização Conduzir à Idolatria?


É possível que servos sinceros de Deus sejam levados a dar a algo criado pelo homem um respeito indevido, e até mesmo adoração? O seguinte exemplo bíblico mostra que isso pode ocorrer:

O livro de Números 21:4-9 relata como Deus castigou os israelitas rebeldes no deserto, permitindo que cobras venenosas os mordessem. Muitos foram mortos pelas picadas das serpentes. Quando o povo se arrependeu e confessou seu pecado, Moisés intercedeu por eles. Deus lhe deu instruções para fazer uma serpente de cobre e colocá-la num poste: 

"E terá de acontecer que, quando alguém for mordido, então deve olhar para ela e assim terá de ficar vivo."

Jesus fez referência a este evento, colocando-o em paralelo com sua própria morte sacrificial: 

“E assim como Moisés ergueu a serpente no ermo, assim tem de ser erguido o Filho do homem, para que todo o que nele crer tenha vida eterna.” – João 3:14, 15.

De modo que a serpente de cobre foi feita seguindo uma instrução direta de Deus. No entanto, ela depois veio a desagradar a Deus, porque lhe foi atribuído um papel muito diferente do que deveria ter. Os judeus começaram simplesmente a adorar a serpente de cobre. Esta adoração indevida chegou a tal ponto que o rei Ezequias mandou destruí-la por volta de 700 AC: 

"...e esmiuçou a serpente de cobre que Moisés tinha feito; pois até aqueles dias os filhos de Israel tinham feito continuamente fumaça sacrificial a ela e costumava ser chamada de ídolo-serpente de cobre." – 2 Reis. 18:4.

À base deste exemplo, podemos ver que algo que em si é bom, pode acabar ocupando um lugar errado na vida das pessoas, levando-as até a cometer atos de idolatria. 

O que é idolatria?

A Sentinela de 1º de novembro de 1990 diz na página 26 que a idolatria pode incluir ‘atribuir salvação a uma pessoa ou a uma organização.’

Mas se uma “versão moderna” de idolatria é ‘atribuir salvação a uma pessoa ou a uma organização’, o que dizer das Testemunhas de Jeová, quando seus líderes as convidam a “vir à organização de Jeová para a salvação?” (A Sentinela de 15 de julho de 1982, pág. 21, parágrafo 18)? Se é verdade que os judeus da antiguidade colocarem muita fé em sua organização religiosa constituía idolatria (Veja Jeremias 7:1-7), o que se poderia dizer das Testemunhas de Jeová de hoje, que são incentivadas a fazerem o mesmo? Sem dúvida os escritores desse artigo de A Sentinela tinham isso em mente quando escreveram que a idolatria é, entre outras coisas, ‘atribuir salvação a uma pessoa ou a uma organização.’ Quando a Torre de Vigia escreveu no início da década de 1970 a respeito dos "idólatras da organização humana em prol de paz e segurança mundiais", estava se referindo às pessoas que apoiavam a Organização das Nações Unidas. (A Sentinela de 15 de junho de 1972, pág. 371).

Mas, como é que podemos saber se alguém está adorando uma organização ou só mostrando o devido respeito por ela? A Sentinela de 1º de setembro de 1961 (em inglês) definiu isso na página 525: 

“If one renders obedient service to someone or some organization, whether willingly or under compulsion, looking up to such as possessing a position of superior rulership and great authority, then that one can Scripturally be said to be a worshiper.” 

Tradução: 

“Se alguém presta serviço obediente a uma pessoa ou a alguma organização, seja voluntariamente ou sob compulsão, encarando a tal como possuidor de liderança superior e grande autoridade, então se pode afirmar biblicamente que ele é um adorador.”

Se aplicarmos esta definição expressa na revista A Sentinela acima, notaremos que a ONU não têm muitos “adoradores” no mundo. A esmagadora maioria das pessoas que apóia a ONU tem uma visão saudável do que a ONU pode alcançar. Por outro lado, sabe-se que a organização Torre de Vigia exige obediência inquestionável de seus membros: 

EVITE IDÉIAS INDEPENDENTES... 

Como se manifestam tais idéias independentes? Um modo comum é questionar o conselho provido pela organização visível de Deus.” – A Sentinela de 15 de julho de 1983, página 22.

Expostas constantemente a esses ensinos de que devem “vir à organização de Jeová para a salvação” e de que devem ‘obedecê-la sem questionar’, as Testemunhas de Jeová foram levadas a realmente constituir a Torre de Vigia como seu salvador e senhor – um ídolo organizacional que ocupa um lugar na vida de uma pessoa que caberia unicamente a Jesus Cristo. Mas isso não é tudo.

A organização Torre de Vigia também inseriu sua organização na cerimônia do batismo. Jesus ordenou aos seus discípulos que sejam batizados "em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo." (Mateus 28:19) Todavia, em 1985 a Torre de Vigia mudou a formulação das perguntas feitas aos candidatos ao batismo, para que o “espírito santo” fosse substituído pela “organização de Deus, dirigida pelo espírito dele.”

Portanto, desde 1985, o batismo significa para as Testemunhas não apenas se sujeitarem a Deus por intermédio de Cristo, mas também sujeitar-se à organização Torre de Vigia!

Perguntas feitas aos candidatos ao batismo antes de 1985: 

(1) Reconheceu-se, perante Jeová, como pecador que necessita de salvação, e reconheceu perante Ele que esta salvação procede Dele, o Pai, por intermédio do seu Filho, Cristo Jesus? 

(2) À base desta fé em Deus e na sua provisão de salvação, dedicou-se a Deus, sem reserva, para fazer doravante a sua vontade conforme lhe é revelada por ele, mediante Cristo Jesus e por intermédio da Bíblia, sob a iluminação do espírito santo? 

(A Sentinela de 1º de janeiro de 1957, págs. 12, 13)

Perguntas feitas aos candidatos ao batismo depois de 1985: 

(1) À base do sacrifício de Jesus Cristo, arrependeu-se dos seus pecados e dedicou-se a Jeová para fazer a vontade dele? 

(2) Compreende que a sua dedicação e o seu batismo o identificam como uma das Testemunhas de Jeová, em associação com a organização de Deus, dirigida pelo espírito dele? 

(A Sentinela de 1º de junho de 1985, pág. 31, grifo acrescentado.) [1]

A organização não tomou só a posição do Filho como Senhor e Salvador [2] , mas, por meio desta segunda pergunta, fez o mesmo com o Espírito Santo. Por enquanto a Torre de Vigia ainda não tentou tomar a posição do Pai – muito embora afirme ser seu porta-voz exclusivo na terra! Mas a organização se eleva quase à posição do Pai, por ter incentivado as Testemunhas de Jeová a chamá-la de “mãe”. Um exemplo disso é encontrado em A Sentinela de 1º de maio de 1957, págs. 279-285 (em inglês). Um trecho desta matéria é reproduzido a seguir: 

“We all know we must always seek to advance in theocratic education and conduct. We constantly receive counsel from God’s organization through the columns of The Watchtower telling us how we should conduct ourselves in theocratic living. Now if we immediately forget these things and refuse to apply them in our daily lives—not even making the effort—how disrespectful that is of the teaching or law of our mother! It is not bringing the full tithe into Jehovah’s storehouse, and what rich blessings we miss thereby! (Mal. 3:10) Actually we are spurning Jehovah’s table, ignoring counsel, ‘forsaking our mother’s teaching.’ And while our course may not be sufficient for the visible organization to take action or perhaps even notice, still, our heavenly Father is not shortsighted and whatever action he takes is certain and sure.” 

Tradução: 

“Devemos sempre procurar avançar na educação e na conduta teocrática. Recebemos constantemente conselho da organização de Deus por meio das colunas de A Sentinela, dizendo-nos como devemos nos conduzir na vida teocrática. Mas, se esquecermos imediatamente estas coisas e nos recusarmos a aplicá-las à nossa vida diária – nem sequer fazendo o esforço – quão desrespeitoso isso é para com o ensino ou lei de nossa mãe! Isso não é trazer o pleno dízimo à casa do depósito de Jeová, e que ricas bênçãos perderemos desse modo! (Mal. 3:10) Realmente estamos rejeitando a mesa de Jeová, ignorando o conselho, ‘abandonando a lei de nossa mãe.’ E, embora nossa conduta talvez não seja suficiente para que a organização visível tome ação ou talvez nem mesmo perceba, ainda assim nosso Pai celestial não está míope e qualquer ação que Ele venha a tomar é certa e segura.” (Página 282, parágrafo 8)

Uma vez que nunca é o Pai, mas sempre a “mãe” que fala com as Testemunhas de Jeová desde a sede em Brooklyn (Nova Iorque, EUA), na realidade é a organização Torre de Vigia que exige o respeito e a devoção delas. 

Um exemplo da antiguidade

Quando Moisés permaneceu na montanha onde estava recebendo os Dez Mandamentos de Deus, os israelitas ficaram inquietos e decidiram adorar a Deus por meio de um bezerro de ouro. Depreende-se do relato bíblico que eles ainda estavam determinados a adorar a Deus, ainda que por meio de um objeto criado. Aos olhos deles não era, portanto, uma questão de abandonar a Deus e escolher outro deus. Lemos em Êxodo 32:4 2, 5: 

Ele [Arão] as tomou das mãos deles, e com um buril deu forma ao ouro, e dele fez um bezerro fundido. Então eles disseram: Estes são, ó Israel, os teus deuses, que te tiraram da terra do Egito. Arão, vendo isso, edificou um altar diante dele, fez uma proclamação e disse: Amanhã será festa solene a Jeová.” (Sociedade Bíblica Britânica)

Todavia, ainda que os israelitas estivessem usando o nome de Deus, alegando que estavam servindo a Ele, o bezerro era uma abominação aos olhos de Deus. Eles tinham se entregado à adoração duma criatura. Deus queria que os seus adoradores acreditassem nele, e não numa imagem que se dizia representá-lo.

Na capa de A Sentinela de 1º de setembro de 1979 aparece uma imagem da montanha onde Moisés permaneceu. Ironicamente, há também uma imagem dos associados à Torre de Vigia abaixo da montanha, com um texto em letras grandes dizendo: “TENHA FÉ numa ORGANIZAÇÃO VITORIOSA”.

A organização Torre de Vigia muitas vezes enfatiza a autoridade da Bíblia e da verdade. Ela geralmente faz referência a 2 Timóteo 3:16, 17, onde lemos, segundo a Tradução do Novo Mundo: 

“Toda a Escritura é inspirada por Deus e proveitosa para ensinar, para repreender, para endireitar as coisas, para disciplinar em justiça, a fim de que o homem de Deus seja plenamente competente, completamente equipado para toda boa obra.”

Segundo estas palavras, a Bíblia pode tornar um homem totalmente equipado para toda boa obra. Mas, na prática, a organização Torre de Vigia não acredita nesta verdade. Em A Sentinela de 1º de dezembro de 1990, página 19, lemos: 

Encaremos o fato de que não importa o quanto tenhamos lido a Bíblia, jamais teríamos aprendido a verdade por conta própria.”

A Sentinela de 1º de agosto de 1982 disse também: 

“Jeová Deus proveu também sua organização visível, seu “escravo fiel e discreto”, composto dos ungidos com o espírito, para ajudar os cristãos em todas as nações a entender e a aplicar corretamente a Bíblia na sua vida. A menos que estejamos em contato com este canal de comunicação usado por Deus, não avançaremos na estrada da vida, não importa quanto leiamos a Bíblia.” (Página 27)

Embora a Torre de Vigia enfatize com freqüência a autoridade da Bíblia, na realidade esta não têm seu próprio valor ou sua própria força para o leitor da Bíblia individual. Sem a ajuda da Torre de Vigia ninguém pode entendê-la e tirar proveito dela. A verdadeira autoridade, portanto, mudou da Bíblia para a organização Torre de Vigia e suas publicações: 

“A Bíblia é um livro de organização e pertence à congregação cristã como organização, e não a indivíduos, não importa quão sinceramente creiam poder interpretar a Bíblia. Por esta razão, a Bíblia não pode ser devidamente entendida sem se ter presente a organização visível de Jeová.” (A Sentinela de 1º de junho de 1968, página 327). 

“Considere também que só a organização de Jeová, em toda a terra, é dirigida pelo espírito santo ou a força ativa de Deus. (Zac. 4:6) Apenas esta organização funciona para o propósito de Jeová e para o seu louvor. Ela é a única para a qual a Palavra Sagrada de Deus, a Bíblia, não é um livro lacrado.” – A Sentinela de 1º de janeiro de 1974, pág. 18

“Não há dúvida sobre isso. Todos nós precisamos de ajuda para entender a Bíblia, e não podemos encontrar a orientação bíblica de que precisamos fora da organização do “escravo fiel e discreto”. – A Sentinela de 15 de agosto de 1981, pág. 19

A liderança da organização só tem palavras condenatórias e depreciativas para lançar contra os que optam por buscar a vontade de Deus nas próprias palavras dele, sem a intervenção da organização: 

“Dizem que basta ler exclusivamente a Bíblia, quer em particular, quer em pequenos grupos em casa. Mas, o que é estranho é que por meio de tal ‘leitura da Bíblia’ voltaram novamente para trás, para as doutrinas apóstatas que os comentários dos clérigos da cristandade estavam ensinando há 100 anos...” – A Sentinela de 1º de junho de 1982, página 28

“Desviar-se alguém de Jeová e de sua organização, desprezar a orientação do “escravo fiel e discreto” e estribar-se simplesmente na leitura e interpretação pessoais da Bíblia é como tornar-se uma árvore solitária numa terra árida.” – A Sentinela de 1º de junho de 1985, página 20

Muitas pessoas, incluindo um número crescente de Testemunhas de Jeová, estão profundamente preocupadas com a posição que a liderança da organização Torre de Vigia tem reivindicado para si mesma. [3] A partir do momento em que se ensina aos seus membros que esta organização é o “porta-voz exclusivo de Deus na terra”, o único caminho para Deus, o único grupo na terra a quem se deve consultar para entender a Bíblia e tirar proveito dela, e até mesmo o grupo com o qual se deve identificar por meio do batismo para se alcançar a salvação – então esta organização está ocupando um lugar na vida dessas pessoas que, sem dúvida, pode ser equiparado a um ídolo.

 

Roger Carlsson



[1] Para mais informações sobre isso, veja o artigo O Batismo – Quem o Torna Válido?, disponível no Mentes Bereanas.

[2] Entre as publicações que deixam evidente esta usurpação do papel de Cristo por parte da organização, podem ser citadas estas: “As verdades que havemos de publicar são aquelas que a organização do escravo discreto fornece, e não algumas opiniões pessoais contrárias ao que o escravo providenciou como sendo sustento conveniente.” (A Sentinela de novembro de 1952, pág. 164.) “Os que permanecem leais à organização de Jeová adotam o conceito que os apóstolos tinham, quando muitos dos discípulos de Jesus deixaram de segui-lo. Pedro expressou os sentimentos deles, dizendo: Senhor, para quem iremos? Tu tens declarações de vida eterna.” (João 6:68) As “ovelhas” leais vêem que o caminho para a vida é com a organização fiel de Jeová.” (A Sentinela de 15 de dezembro de 1962, pág. 763). – Os grifos foram acrescentados. Desse modo, as palavras simples de Cristo quanto a ele próprio ser a “verdade” e a “vida” perdem o sentido, já que a organização atribui essas prerrogativas a si mesma.

[3] A Sentinela de 1º de agosto de 1982, pág. 30: “Muitos pretensos cristãos têm poucos escrúpulos quanto a violar as leis de Deus, quando César manda fazer isso. Certo patriota expressou isso até mesmo do seguinte modo: “Nossa pátria!. . . que ela sempre tenha razão; mas nossa pátria acima de tudo, tenha ela razão ou não.” Mas isso não se dá com as testemunhas cristãs de Jeová! Quando se lhes ordena que violem a vontade de Deus, repetem as palavras dos apóstolos de Jesus, dizendo: “Temos de obedecer a Deus como governante antes que aos homens.”

Não há dúvida de que exaltar desse modo o país onde se nasceu é algo desequilibrado, equivalendo a idolatria. Ao falar sobre a organização, porém, A Sentinela de 1º de agosto de 1997 diz na pág. 11:

Hoje em dia, a organização terrestre de Deus é muito superior ao sistema judaico com o seu templo. Deve-se admitir que não é perfeita; é por isso que de vez em quando se precisam fazer ajustes. Mas ao mesmo tempo não está permeada de corrupção, nem está Jeová Deus prestes a substituí-la. Nunca devemos permitir que quaisquer imperfeições que percebamos nela nos amargurem ou nos induzam a adotar um espírito crítico e negativo. Em vez disso, imitemos a lealdade de Jesus Cristo. — 1 Pedro 2:21.”

Pronunciamentos como este na realidade ecoam as palavras expressas pelo patriota mencionado acima: ‘Nossa organização!... que ela sempre tenha razão; mas nossa organização acima de tudo, tenha ela razão ou não.