Introdução ao Evangelho de Mateus

A palavra “Evangelho” significa “boas novas”, ou “uma mensagem alegre.” Isso significa usualmente a própria mensagem, mas utiliza-se aqui para caracterizar o “livro”, que contém o registro da mensagem. O título “São” [santo], dado aos escritores sagrados do Novo Testamento, é de origem católica romana, e não tem qualquer autoridade.

Acredita-se geralmente que Mateus escreveu seu Evangelho em sua língua nativa, ou seja, a língua da Palestina. Essa língua não era o hebraico puro, e sim uma mistura de hebraico, caldeu, e siríaco, comumente chamada de “siro-caldeu” ou “aramaico.” Nosso Salvador sem dúvida usava essa língua em sua conversação e seus discípulos naturalmente a usariam também, a menos que houvesse boas razões que os levariam a escrever numa língua estrangeira. É consenso que o restante do Novo Testamento foi escrito em grego. A razão para se ter feito isso, em vez de se usar a língua nativa dos escritores, é que o grego era geralmente a língua falada e entendida em todos os países do Oriente, conquistados por Alexandre, o Grande, e particularmente na Judéia, e nas regiões onde os apóstolos trabalharam originalmente.

Os Pais cristãos, sem qualquer exceção, afirmam que Mateus escreveu seu Evangelho para o uso dos cristãos na Palestina, e dizem que ele foi escrito no dialeto hebraico. Deve-se notar, porém, que muitos eminentes críticos modernos não acham decisiva a evidência de que Mateus escreveu em hebraico, e acreditam que há provas suficientes de que, assim como os outros escritores do Novo Testamento, Mateus escreveu em grego. Veja as Obras de Lardner, Vol. v. págs. 308-318 (em inglês), edição de Londres, 1829.

Todavia, o Evangelho de Mateus só existe agora em grego. O original hebraico, ou siro-caldeu, se ele foi realmente escrito nesses idiomas, foi dado como definitivamente perdido. De modo que a questão que surge naturalmente é: Quem é o autor da tradução grega que nós possuímos? E deve ela ser considerada como tendo autoridade divina?

Alguns conjecturaram que o próprio Mateus produziu uma tradução do hebraico para o grego. Esta conjectura, em si mesma suficientemente provável, carece de testemunho que a apóie. Atanásio, um dos primeiros Pais, diz que ele foi traduzido por “Tiago, o irmão de nosso Senhor segundo a carne”. Pápias, um dos primeiros Pais, afirma que “cada um o traduziu conforme podia.” Se Tiago o traduziu, não pode haver qualquer dúvida sobre sua inspiração e autoridade canônica. A questão de sua inspiração tampouco é afetada, ainda que não saibamos o nome do tradutor. O questionamento adequado é se as provas de inspiração eram satisfatórias para a Igreja nos tempos em que eles estavam sob a direção dos apóstolos. Ninguém que esteja familiarizado com a história antiga duvidará de que havia tal evidência.

Epifânio diz que o Evangelho de Mateus foi escrito enquanto Pedro e Paulo estavam pregando em Roma. Isso foi por volta de 63 A.D., por volta da época da destruição de Jerusalém. Geralmente se supõe agora que este Evangelho foi escrito por volta desta época. Há evidência muito clara de que o Evangelho foi escrito antes da destruição de Jerusalém. A destruição da Cidade Santa é clara e minuciosamente predita, mas não há a menor indicação de que essas predições já haviam se cumprido – algo que que deveríamos naturalmente esperar se o Evangelho só tivesse sido escrito depois de estas calamidades terem vindo sobre os judeus. Compare com Atos 11:28. Só recentemente aceitou-se que ele foi escrito antes de qualquer relato do outros evangelistas. No entanto, antigamente alguns se esforçaram em provar que o Evangelho de Lucas foi o primeiro a ser escrito. Todo o testemunho, e todas as antigas listas ordenadas dos livros estão contra essa opinião, e se este é o fato, é de pouca importância dar atenção a outros argumentos.

Em todas a cópias do Novo Testamento, e em todas as traduções, este Evangelho foi colocado em primeiro lugar. Isso não teria acontecido se Mateus não tivesse publicado seu Evangelho antes de qualquer outro.

Mateus, o escritor deste Evangelho, também chamado de Levi, filho de Alfeu, era um publicano (cobrador de impostos) sob os romanos. Ver a nota sobre Mat. 9:9 e a nota sobre Luc. 5:27. De sua vida e de sua morte pouco se sabe com certeza. Sócrates, um escritor do século V, diz que Mateus foi para a Etiópia após os apóstolos terem sido espalhados para fora da Judéia, e morreu como mártir numa cidade chamada Nadebar, mas por que espécie de morte é totalmente incerto. Outros, porém, falam de sua pregação e morte na Pártia ou Pérsia, e a diversidade de seus relatos parece mostrar que eles estão todos sem uma boa base. Veja as Obras de Lardher, Vol. v. págs 296, 297 (em inglês).

Extraído do Comentário de Albert Barnes Sobre o Novo Testamento.