O Instrumento Usado Para a Execução de Cristo

Representações da Execução de Cristo em Publicações da Torre de Vigia

Alguns cristãos acreditam que o instrumento no qual Jesus Cristo foi executado não era em forma de uma cruz – uma estaca reta com uma barra transversal – e sim simplesmente a estaca reta. Os maiores defensores desse conceito são as Testemunhas de Jeová (Associação Torre de Vigia). Acerca do instrumento usado para executar Cristo, a enciclopédia desta organização, intitulada Estudo Perspicaz das Escrituras, declara no início do verbete “Estaca de Tortura” (Volume 2, pág. 43):

“Instrumento tal como aquele em que Jesus Cristo morreu por ser pregado nele. (Mt 27:32-40; Mr 15:21-30; Lu 23:26; Jo 19:17-19, 25) No grego clássico, a palavra (stau·rós), traduzida por “estaca de tortura” na Tradução do Novo Mundo, denota primariamente uma estaca, ou poste, ereto, e não há nenhuma evidência de que os escritores das Escrituras Gregas Cristãs a usassem para indicar uma estaca com travessa.” [Grifo acrescentado. Daí o artigo faz uma citação do livro A Cruz Não-Cristã, de John Denham Parsons, para apoiar esta declaração.]

Eles alegam ainda que a cruz tradicional é na verdade um símbolo sexual pagão. A publicação Raciocínios à Base das Escrituras inclui a seguinte citação na página 101:

“Diversas gravuras de cruzes se acham em toda a parte nos monumentos e túmulos egípcios, e são consideradas por muitas autoridades símbolo ou do falo [uma representação do órgão sexual masculino] ou do coito... Nos túmulos egípcios, a cruz ansada [cruz com um círculo ou uma asa em cima] se acha lado a lado com o falo.” — A Short History of Sex-Worship (Londres, 1940), H. Cutner, pp. 16, 17; veja também The Non-Christian Cross, p. 183.”

Consideremos agora o que a enciclopédia Estudo Perspicaz das Escrituras diz sob o verbete Poste Sagrado (pág. 298 do Volume 3):

Os Postes Sagrados. Os postes sagrados, pelo visto, eram eretos e feitos de madeira, ou pelo menos continham madeira, visto que se ordenou aos israelitas que os cortassem e queimassem. (Êx 34:13; De 12:3) Podem ter sido simples postes não esculpidos, talvez até mesmo árvores em alguns casos, pois o povo de Deus foi instruído: “Não deves plantar para ti nenhuma sorte de árvore como poste sagrado.” — De 16:21.

Tanto Israel como Judá desconsideraram a ordem expressa de Deus, de não erguer colunas sagradas e postes sagrados; eles os colocavam sobre “todo morro elevado e debaixo de cada árvore frondosa”, ao lado dos altares usados para sacrifícios. Tem-se sugerido que os postes representavam o princípio feminino, ao passo que as colunas representavam o princípio masculino. Estes itens de idolatria, provavelmente símbolos fálicos, estavam associados com orgias sexuais crassamente imorais, conforme se vê da indicação de que já no reinado de Roboão havia no país homens que se prostituíam. (1Rs 14:22-24; 2Rs 17:10) Só raramente surgiam reis, como Ezequias (e Josias), que ‘removeram os altos e despedaçaram as colunas sagradas, e deceparam o poste sagrado’. — 2Rs 18:4; 2Cr 34:7.

Enfatizemos estes comentários:

1. “Os postes sagrados, pelo visto, eram eretos e feitos de madeira”;

2. “Podem ter sido simples postes não esculpidos”;

3. “Tem-se sugerido que os postes representavam o princípio feminino” e

4. “Estes itens de idolatria, provavelmente símbolos fálicos, estavam associados com orgias sexuais crassamente imorais.”

Se é assim, não poderia a Torre de Vigia ser também culpada por retratar a execução de Jesus num símbolo sexual pagão em suas publicações?

As Escrituras Gregas Cristãs foram escritas em grego comum, não clássico. Portanto, mesmo sendo verdade que a palavra stauros denota primariamente uma estaca, ou poste ereto no grego clássico, isso não afeta o sentido de seu uso nas Escrituras Gregas Cristãs, cujos escritores adaptaram termos gregos para expressar conceitos não-gregos. Por exemplo, as Testemunhas de Jeová concordam prontamente que quando os escritores da Bíblia usaram a palavra hades para expressar o conceito hebraico embutido na palavra sheol, eles não tinham a intenção de fazer o leitor incorporar o conceito pagão de tormento consciente, que era normalmente associado com a palavra hades. A execução num stauros não era um método grego de punição, e sim romano. Na língua romana existe a palavra crux, termo que é traduzido em português como cruz, e pode se referir tanto a uma estaca vertical simples como a uma que tem um patibulum, que é o termo latino correspondente a uma viga transversal. Portanto, os romanos evidentemente usaram esse acessório em certas ocasiões.

As Escrituras não descrevem a forma do stauros que foi usado pelos romanos na execução de Jesus, mas são fornecidas certas evidências indiretas. João 20:24, 25 diz:

Tomé, chamado Dídimo, um dos Doze, não estava com os discípulos quando Jesus apareceu. Os outros discípulos lhe disseram: “Vimos o Senhor!” Mas ele lhes disse: "Se eu não vir as marcas dos pregos nas suas mãos, não colocar o meu dedo onde estavam os pregos e não puser a minha mão no seu lado, não crerei”.

Note-se que o texto fala em “pregos” (plural). Verificando qualquer representação artística que as publicações da Torre de Vigia fazem da execução de Jesus, vemos que apenas um prego é usado em suas mãos, enquanto a representação artística tradicional sobre uma cruz tem dois pregos, um em cada mão. É claro que isso não é totalmente conclusivo, já que os romanos poderiam ter executado Jesus sobre uma estaca reta, usando dois ou mais pregos para prender as mãos nela. Nem as Testemunhas de Jeová, nem ninguém hoje pode fazer afirmações taxativas sobre o que teria ocorrido ou não.

Mas esta não é a única peça de evidência que a Bíblia apresenta. Consideremos Mateus 27:37:

Por cima de sua cabeça colocaram por escrito a acusação feita contra ele: ESTE É JESUS, O REI DOS JUDEUS.

Olhando novamente uma representação da execução de Jesus nas publicações da Torre de Vigia, vemos que o sinal proclamando a acusação contra ele é colocado acima de suas mãos, não acima da cabeça. É claro que alguns poderiam argumentar que estando acima das mãos de alguém pendurado numa estaca reta, o letreiro estaria automaticamente acima da cabeça. Mas, se lermos a Bíblia sem imagens preconcebidas, com a intenção de defender a todo custo as opiniões de líderes religiosos que prezamos, em que posição situaríamos mentalmente o letreiro? Seria mais natural situá-lo logo acima da cabeça ou logo acima das mãos? Se eram as mãos de Jesus que estavam na posição mais alta, por que o relato não diz que o letreiro estava acima das mãos?

No final das contas, todo o debate acirrado em torno desse assunto, no qual se empenham certas organizações religiosas é completamente sem propósito. Sabermos qual era a forma do instrumento que foi usado para executar Jesus é totalmente irrelevante em relação ao significado da morte dele. A verdade dessa questão é que nem a Torre de Vigia, nem o Cristianismo em geral poderiam ser acusados de usar símbolos sexuais em suas representações artísticas da morte de Cristo, uma vez que nenhuma organização religiosa considera seus instrumentos preferidos dessa maneira. Além disso, seja qual for o instrumento que tenha sido usado para executar Jesus, não há qualquer instrução na Bíblia para que os cristãos portem, adorem, beijem ou se curvem diante deste instrumento. O máximo que se pode sugerir às lideranças religiosas, incluindo a das Testemunhas de Jeová, é que prestem atenção a essas palavras de Jesus, registradas em Mateus 7:3-5:

Por que você repara no cisco que está no olho do seu irmão, e não se dá conta da viga que está em seu próprio olho? Como você pode dizer ao seu irmão: ‘Deixe-me tirar o cisco do seu olho’, quando há uma viga no seu? Hipócrita, tire primeiro a viga do seu olho, e então você verá claramente para tirar o cisco do olho do seu irmão.”

Há pouca dúvida de que todas as formas geométricas, incluindo a cruz, têm sido utilizadas em épocas e lugares por pagãos. Porém, o que a pessoa mediana pensaria hoje ao ver uma cruz? No mínimo, a maioria das pessoas pensaria no Cristianismo e, de modo respeitoso e esperançoso, em Jesus Cristo e no sacrifício que ele fez. Pouquíssimas pessoas, se é que alguma, pensariam em sexo ao ver uma cruz!

A história de Jesus nada mais fez que resgatar a cruz da associação pagã e vulgar que ela tinha no passado. É pena que alguns cristãos, deixando de apreciar isso e na ânsia de apontar erros nos outros, procuram desmerecer o testemunho silencioso do amor de Deus que a cruz dá hoje, associando-o insistentemente com os poderes das trevas, de onde foi libertado já há muitos séculos, com o objetivo único de enaltecer uma organização religiosa e seus ensinos, em relação a todas as demais.

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Artigo traduzido e apresentado no Mentes Bereanas com permissão escrita do autor. Imagens acrescentadas pelo tradutor. Todas as referências bíblicas são da Nova Versão Internacional.