Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos?

CONCLUSÃO

Em suas viagens missionárias, Paulo certamente encontrou pessoas que eram incapazes de crer em sua pregação da ressurreição exatamente em razão de acreditarem na imortalidade da alma. Assim, em Atenas só houve zombaria no momento em que Paulo falou da ressurreição (Atos 17:32). Tanto as pessoas de quem Paulo fala (em 1 Tessalonicenses 4:13) que “não têm esperança” como aquelas sobre as quais ele escreve (em 1 Coríntios 15:12) que não crêem que haja uma ressurreição dos mortos, provavelmente não são os epicuristas, como estamos inclinados a acreditar. Pois os que crêem na imortalidade da alma não têm a esperança de que Paulo fala, a esperança que expressa a crença no milagre divino da nova criação que irá abranger tudo, cada parte do mundo criado por Deus. Com efeito, para os gregos, que acreditavam na imortalidade da alma, pode ter sido mais difícil aceitar a pregação cristã da ressurreição do que foi para os outros. Por volta do ano 150, Justino (em seu Diálogo, 80) escreve sobre as pessoas, “que dizem que não há ressurreição dos mortos, e sim que imediatamente após a morte a alma deles ascende ao céu.” Aqui se percebe claramente o contraste.

O imperador Marco Aurélio, um filósofo que, assim como Sócrates, está entre as mais nobres figuras da Antiguidade, também percebeu o contraste. Como se sabe, ele abrigava o mais profundo desprezo pelo Cristianismo.

Poderíamos imaginar que a morte dos mártires cristãos inspiraria respeito neste grande estóico que considerava a morte com equanimidade. Todavia, foi exatamente para com a morte dos mártires que ele demonstrou menos simpatia. O fervor com que os cristãos encaravam a morte o desagradava. (Marco Aurélio, Med. XI, 3. Na verdade, com o passar do tempo ele foi desistindo da crença na imortalidade da alma). Os estóicos partiam desta vida sem paixão, os mártires cristãos, por outro lado, morriam fervorosamente pela causa de Cristo, pois sabiam que ao fazê-lo permaneciam dentro de um poderoso processo de redenção. O primeiro mártir cristão, Estêvão, mostra-nos (em Atos 7:55) quão diferente é a vitória sobre a morte daquele que morre em Cristo, em comparação com o filósofo da antiguidade: Estevão diz que viu ‘os céus abertos e Cristo em pé à direita de Deus’! Ele vê Cristo, o Conquistador da Morte. Tendo esta fé de que a morte, à qual ele deveria se submeter, já estava conquistada por aquele mesmo Jesus que a tinha suportado, Estevão se deixou apedrejar.

A resposta à questão “imortalidade da alma ou ressurreição dos mortos” no Novo Testamento é inequívoca. Não há maneira de harmonizar o ensino dos grandes filósofos Sócrates e Platão com o ensino do Novo Testamento. Que as pessoas envolvidas, as vidas delas, e a atitude delas por ocasião da morte podem até ser respeitadas pelos cristãos, os apologistas do segundo século mostraram. Acredito que isto pode ser também demonstrado com base no Novo Testamento. Mas esta é uma questão com a qual não precisamos lidar aqui.