Imortalidade da Alma ou Ressurreição dos Mortos?

3

O PRIMOGÊNITO DOS MORTOS

 

Entre a Ressurreição de Cristo e a Destruição da Morte

Devemos levar em conta o que significou para os cristãos quando eles proclamaram: Cristo levantou dos mortos! Acima de tudo precisamos ter em mente o que a morte significava para eles. Somos tentados a associar estas declarações bíblicas poderosas com o pensamento grego da imortalidade da alma, e desta forma roubar-lhes seu conteúdo. Cristo foi levantado: isso quer dizer que estamos na nova era em que a morte foi vencida, na qual a corruptibilidade não existe mais. Pois, se há realmente um corpo espiritual (não uma alma imortal, e sim um corpo espiritual) que emergiu dum corpo carnal, então de fato o poder da morte foi quebrado. Os crentes, de acordo com a convicção dos primitivos cristãos, não deverão mais morrer: esta era certamente a expectativa deles nos dias primitivos. Deve ter sido um problema quando eles constataram que os cristãos continuavam a morrer. Mas, mesmo o fato de os homens continuarem a morrer não tem mais a mesma significância depois da ressurreição de Cristo. O fato da morte foi despojado de sua importância anterior. Morrer não é mais uma expressão do domínio absoluto da morte, mas apenas uma das pretensões anteriores da morte ao domínio. A morte não pode anular a grande verdade de que existe um Corpo ressuscitado.

Devemos tentar simplesmente entender o que os primitivos cristãos queriam dizer quando falavam de Cristo como sendo o “primogênito dentre os mortos”. No entanto, por mais difícil que seja fazer isso, devemos excluir a questão de saber se podemos ou não aceitar essa crença. Logo de início, temos também de deixar de lado a questão de saber se Sócrates está certo ou se é o Novo Testamento que está. Caso contrário, vamos nos pegar fazendo continuamente a mistura de processos de pensamento alheios com os do Novo Testamento. Devemos simplesmente ouvir o que o Novo Testamento diz. Cristo é o primogênito dentre os mortos! Seu corpo é o primeiro corpo da ressurreição, o primeiro corpo espiritual. Onde esta convicção está presente, toda vida e todo pensamento deve ser influenciado por ele. Todo o pensamento do Novo Testamento permanecerá para nós um livro selado com sete selos, se não lermos por trás de cada frase escrita nele esta outra sentença: A morte já foi conquistada (note-se, a morte, não o corpo), já há uma nova criação (note-se, uma nova criação, não uma imortalidade que a alma sempre possuiu) a era da ressurreição já está inaugurada.

Admita-se que ela foi apenas inaugurada, mas ainda assim decisivamente inaugurada. Só inaugurada: pois a morte age, e os cristãos ainda morrem. Os discípulos experimentaram isso, já que os primitivos membros da comunidade cristã morreram. Isto, necessariamente, apresentou-se como um problema difícil. Em 1 Coríntios 11:30, Paulo escreve basicamente que a morte e a doença não deverão mais ocorrer. Nós continuamos a morrer, e a doença e o pecado ainda existem. Mas o Espírito Santo já atua efetivamente em nosso mundo como o poder da nova criação; ele já atuou visivelmente na comunidade primitiva, em diversas manifestações do espírito. Em meu livro Cristo e o Tempo falei de uma tensão entre o presente e o futuro, a tensão entre o “já cumprido” e o “ainda não consumado”. Esta tensão pertence essencialmente ao Novo Testamento e não é apresentada como uma solução secundária originada pelo embaraço. Esta tensão está presente em Jesus e com ele. Ele proclama o Reino de Deus para o futuro, mas, por outro lado ele proclama que o Reino de Deus já nasceu, uma vez que ele próprio, juntamente com o Espírito Santo já está realmente repelindo a morte, por curar os doentes e ressuscitar os mortos (Mateus 12:28, 11:3 em diante, Lucas 10:18), antecipando a vitória sobre a morte que ele obtém com sua própria morte. A esperança cristã pertence à própria essência do Novo Testamento, que pensa em categorias temporais, e esta é a razão de a crença na ressurreição conseguida por meio de Cristo ser o ponto de partida de toda a vida e de todo o pensamento cristão. Quando se parte deste princípio, então a tensão cronológica entre o “já cumprido” e o “ainda não consumado” constitui a essência da fé cristã. De modo que a metáfora que uso no livro Cristo e o Tempo caracteriza a situação de todo o Novo Testamento: a batalha decisiva foi travada com a morte e a ressurreição de Cristo, só o Dia da Vitória ainda está por vir.

Basicamente, toda a discussão teológica contemporânea gira em torno desta questão: É a Páscoa o ponto de partida da Igreja de Cristo, de sua existência, vida e pensamento? Se assim for, estamos vivendo num período de tempo intermediário.

Neste caso, a fé na ressurreição apresentada no Novo Testamento torna-se o ponto cardeal de toda a crença cristã. Assim, a novidade de que há um corpo da ressurreição – o corpo de Cristo – define toda a interpretação dos primitivos cristãos sobre o tempo. Se Cristo é o “primogênito dentre os mortos”, então isso significa que o tempo do Fim já está presente. Mas isso também significa que um intervalo de tempo separa o Primogênito de todos os outros homens que ainda não ‘nasceram dentre os mortos’. Isto significa então que vivemos numa época intercalar, entre a ressurreição de Jesus, que já aconteceu, e a nossa, que só ocorrerá no Fim. Significa também que o poder energizante, o Espírito Santo, já está em operação entre nós. Dessa forma, Paulo designa o Espírito Santo, pelo mesmo termo – primícias (Romanos 8:23) que ele usa em relação ao próprio Jesus (1 Coríntios 15:23). Já há, então, um prenúncio da ressurreição. E realmente de uma maneira dupla: o nosso homem interior já está sendo renovado a cada dia pelo Espírito Santo (2 Coríntios 4:16, Efésios 3:16), o corpo também já está sendo soerguido pelo Espírito, embora a carne ainda tenha a sua cidadela dentro dele. Sempre que o Espírito Santo entra em cena, o poder da morte é rechaçado, mesmo no corpo. Assim, os milagres de cura ocorreram exatamente em nosso corpo ainda mortal. Ante o clamor desesperado em Romanos 7:24, “Quem me livrará do corpo desta morte?” todo o Novo Testamento responde: O Espírito Santo!

O prenúncio do fim, visualizado por meio do Espírito Santo, torna-se mais claramente visível na celebração cristã de partir o pão. Milagres visíveis do Espírito ocorrem nesse momento. Ali o Espírito procura ultrapassar os limites da linguagem humana imperfeita no falar em línguas. E ali a comunidade é colocada em conexão direta com o Ressuscitado, não só com sua alma, mas também com seu Corpo Ressuscitado. É por isso que lemos em 1 Coríntios 10:18: “O pão que partimos não é uma comunhão com o corpo de Cristo?” Aqui em comunhão com os irmãos, chegamos mais perto do Corpo da ressurreição de Cristo, e por isso Paulo escreve no capítulo seguinte, o capítulo 11 (uma passagem que tem recebido muito pouca atenção) que se esta Ceia do Senhor era comida por todos os membros da comunidade de uma forma completamente digna, então a união com o corpo da ressurreição de Jesus seria tão eficaz em nossos próprios corpos que, mesmo agora não haveria mais doença ou morte (1 Coríntios 11:28-30) uma afirmação singularmente forte. Portanto, a comunidade é descrita como sendo o corpo de Cristo, porque aqui o corpo espiritual de Cristo está presente, porque aqui chegamos mais próximo a ele; aqui na refeição comum os primeiros discípulos na Páscoa viram o corpo da ressurreição de Jesus, seu corpo espiritual.

No entanto, apesar do fato de o Espírito Santo já estar agindo tão poderosamente, os homens continuam a morrer; mesmo após a Páscoa e o Pentecostes os homens continuam morrendo como antes. Nosso corpo continua mortal e sujeito à doença. Sua transformação no corpo espiritual só ocorrerá quando a criação inteira for feita nova por Deus, só então, pela primeira vez, não haverá nada além do Espírito, nada além do poder da vida, pois daí a morte será destruída por completo. Haverá então uma nova substância para todas as coisas visíveis. Em lugar da matéria carnal, aparecerá a espiritual. Ou seja, em vez de matéria corruptível aparecerá o incorruptível. O visível e o invisível serão espírito. Mas não nos enganemos: este não é certamente o sentido grego do Ideal imaterial! Um novo céu e uma nova terra. Essa é a esperança cristã. E, então, nossos corpos também ressuscitarão dentre os mortos. Mas não como corpos carnais, e sim como corpos espirituais.

Alguns procuram explicar a expressão “ressurreição da carne”, tanto do ponto de vista da teologia bíblica como da história do dogma. Paulo não poderia ter dito isso. Carne e sangue não podem herdar o Reino. Paulo acredita na ressurreição do corpo, não da carne. A carne é o poder da morte, que deve ser destruído. Este erro no credo grego se introduziu num momento em que a terminologia bíblica tinha sido mal-interpretada no sentido da antropologia grega. Ademais, nosso corpo (e não apenas a nossa alma), será levantado no Fim, quando o poder vivificante do Espírito faz novas todas as coisas, sem exceção.

Um corpo incorrutível! Como iremos conceber isto? Ou melhor, que conceito os primitivos cristãos tinham disso? Paulo diz em Filipenses 3:21 que no Fim, Cristo vai transformar nosso corpo rebaixado para ser conforme o corpo glorioso dele, exatamente como se diz em 2 Coríntios 3:18: “Todos nós... somos transformados de glória em glória na mesma imagem, como pelo Espírito do Senhor.” Esta glória foi concebida pelos primitivos cristãos como uma espécie de substância luminosa, mas esta é apenas uma comparação imperfeita. A nossa linguagem não tem palavras para caracterizar isso. Mais uma vez, faço referência ao quadro da Ressurreição, de Grünewald. Ele pode estar bem próximo daquilo que Paulo entendia como o corpo espiritual.

Mathias Grünewald - A Ressurreição de Cristo